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SOPRO ROUFENHO

Sexta-feira, 12.02.16

Acossado pela forte ventania, o enorme portão de madeira carcomida baqueava como se tivesse o diabo no corpo. Era o fim do dia e noite avançava escura, tristonha e ameaçadora. Sobre a montanha, nuvens muito bem desenhadas e definidas, misturadas com o vento de sudoeste, anunciavam que a calma e a tranquilidade dos dias anteriores tinham o seu fim.

Um vulto vestido de negro, veloz e destemido, aproximou-se do portão, prendeu-o com grossas correntes – não fosse o diabo do vento acabar por dar cabo dele – e subiu a escadaria que separava o portão da porta da sala, num ápice.

A sala era enorme, esconsa e enigmática. Das paredes pendiam quadros de vultos antigos. Homens de rosto tristonho, dominado por grandes bigodes, tez negra e alguns aureolados por uma enorme e desalmada calvície. Sobre as cómodas pagelas de santos, imagens, oratórios e vasos de flores murchas. O piso era assoalhado e nas janelas encastoavam-se vidros toscos. Num dos cantos uma estante repleta de velhos calhamaços e, ao lado, um sofá. Pendurado sobre este, na parede, um quadro com uma foto de bebé. Ao lado da sala havia um quarto com piso de tacos, pequeno mas muito iluminado. A dividir um enorme corredor e do outro lado três quartos enormes mobilados com camas antiquíssimas. Todos os quartos, para além das camas tinham penteadeiras, guardas roupas e uma ou duas cadeiras. Na extremidade do corredor, oposta à cozinha, havia uma outra sala com um sofá e duas poltronas e que seria a sala de visitas. Saindo do último quarto e virando para a esquerda situava-se a cozinha, enorme, esconsa e vetusta. Num cantinho ficava o fogão, noutro a pia e a geladeira. No centro uma mesa de dois metros, ladeada por imponentes cadeiras. O piso da cozinha era um azulejo todo quadriculado, desenhado de cor vinho alternado com um amarelo clarinho. Logo à frente, a casa de banho, o único lugar onde era tudo novo, pois tinha sido construído recentemente a substituir uma antiga nitreira que existia junto da casa. A cozinha tinha uma varanda com uma porta toda ela envidraçada. Da varanda descia uma escadinha que dava acesso a um quintal, ao fundo do qual ficava a lavandaria muito abandonada e sem uso.

Foi nesta casa que o vulto vestido de negro entrou. Divorciara-se no dia anterior. A casa, agora abandonada, pertencera outrora aos avós e mais tarde a uma tia que fizera as obras da casa de banho mas que, pouco tempo depois, emigrara para a América.

Ali nada mais existia do que o sopro roufenho do vento.

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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