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TEMPESTADE

Terça-feira, 20.06.17

 

A noite está fria,

muito fria,

- um deserto de gelo.

 

Há tempestade,

sopra um vento ciclónico,

chove torrencialmente.

 

Há destruição e caos.

 

… e foi o mar

- esse monstro terrível e  terrificante –

com uma aparente dádiva generosa,

que destruiu tudo,

abalroando a beleza da falésia.

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MARÉ CHEIA

Terça-feira, 13.06.17

Era uma tarde de calor sufocante, arreliador. Imperava um silêncio demolidor, aniquilante. Pelas ruas quase desertas corriam ecos petrificados das sombras que, na véspera, haviam domado todos os destinos. No ar pairava um perfume azulado e, por entre as vidraças das janelas semicerradas, olhos ávidos espreitavam o restolho da bruma que envolvera a madrugada. As casas, humildemente plantadas sobre o perfume da lava, tinham portas e janelas cerradas e nenhum automóvel espelhava o brilho entontecido do sol. Ainda era cedo, mas era verão e o dia estava muito claro.

Buliçoso estarrecer que se envolve em emoções edificadas sobre castelos de vento.

Mas de repente um enorme clarão surgiu de oeste desfazendo todas ansiedades, desobstruindo todos os caminhos, desmistificando toda a escuridão. Era a destruição radical e definitiva do silêncio, das sombras, das incertezas e dos sonhos perdidos.

O único caminho aberto era mar e por isso, o único percurso imposto, a percorrer em loucura desusada, era o mar. Só o mar, pois era o mar que embalava a sublimidade, que acariciava a beleza, que aconchegava a transcendentalidade.

Sobre a rocha negra do baixio, num rasgo de cimento ali plantado, um raio de sol espelhado em silêncio, entregava-se à contemplação. As formas desenhadas pelas sombras circundantes entonteciam e provocavam dulcificados espasmos nas gaivotas.

E o mais estranho de tudo é que a maré estava cheia.

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A FONTE DA ENCOSTA

Domingo, 11.06.17

 

Ramos de árvores despedaçados

Transformaram em medo o silêncio

E todas as aves partiram entontecidas

Como se fossem pétalas de flores

Transportadas pelo vento norte.

 

Sobre a alfombra hesitante, desvigorosa,

Corria um rio de mágoa e desespero.

E pela encosta deserta e abandonada

Escorriam murmúrios agrilhoados,

- Gritos de sufoco

 

Ao redor apenas a noite,

Trágica e anunciadora de um fim

Que nunca começara.

 

Ah, ali perto havia uma fonte

- a fonte da encosta - 

De onde nunca jorrara água…

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ABA LOIRA

Quinta-feira, 08.06.17

No baixio rebuscado e negro, virado a oeste havia um gigantesco pedaço de lava em forma de aba. Uma espécie de furna, excêntrica e pouco recoberta mas recôndita e solitária. Quando bravo e em momentos de maré cheia o mar acicatava-a, provocando-a com as ondas altivas e assombrosas, salpicando-a de salmoira acetinada, tingindo-a de espuma esbranquiçada, enchendo-a de água loira e refrescante. Depois, com o descer da maré e, sobretudo com amansar das ondas, a água perdia-se por entre gretas e frestas circundantes e a espuma, queimada pelo Sol, evaporava-se deixando-a coberta de um perfume intransigente e esverdeado.

Era o tempo dos sargos, das garoupas, dos peixes-reis, das prumbetas e havia no rebordo exterior da aba uma espécie de bancada, tosca e assimétrica, onde nos sentávamos, e no papel por macular de desejos inconfessados, lançávamos ao mar caniços bem aparelhados e recheados de iscos apetitosos.

Ficávamos ali a sonhar, a remoer sonhos, a joeirar desejos e quando um ou outro peixe mordia o isco enchíamo-nos de contentamento e gáudio. Recolhíamos de imediato os caniços, desprendíamos os pobres peixinhos, revoltados, a espernear na ânsia de se libertarem. De mãos dadas estarrecíamos. Quando a safra terminava olhávamos lá ao longe as rilheiras dos navios desenhadas no oceano, as sombras de ilhas perdidas no horizonte, os ecos dos vulcões adormecidos no seio da terra, o perfume da lava hibernada junto ao mar. Depois perdíamo-nos, entontecidos, absortos, mordendo a tarde e alongando na boca o perfume das flores e o gosto dos frutos. Olhávamos as ondas amordaçadas e aparentemente tímidas e enchíamos os sonhos que se espelhavam no brilho amarelado do horizonte.

Era nessa aba que se acolhiam os devaneios que se enfadavam dentro de nós. O vento aproximava-se, sentíamos o seu perfume e agonizávamos à beira de um silêncio que só nós ouvíamos. Depois era um cortinado branco, bordado de bruma e encastoado de pérolas, que nos envolvia. Ninguém mexia em nenhum desejo apenas sobravam os arrependimentos das gaivotas entontecidas pelo perfume das vides que lá ao longe, teimavam, laboriosamente, em amadurer os cachos suculentos e apetitosos.

O regresso era o termo do encantamento, de um rodopiar de ventura, de um desfraldar de desejos e sonhos. Todas as portas se fechavam como se fossem diques que impediam a passagem dos navios.

Não havia nenhuma cagarra morta. Não se viam ervaçais amordaçados pela passarada. Ninguém desenhava a revolta do vento. Ninguém sugava os respingos da maresia. Ninguém apagava as rilheiras desenhadas entre os vinhedos, transformados em trilhos. Apenas se gravava a certeza do apoio e da ajuda a simuladas tragédias. No ar pairava um envolvimento recíproco mas tudo se desvanecia. Tudo se perdia. Apenas aquela aba, loira e entontecida, que existia naquele baixio rebuscado e negro, virado a oeste, se envergonhava deserta, a apontar para o céu azul e à espera que a maré voltasse a subir e, de novo, a enchesse de sonhos e de magia.

Era o tempo dos sargos, das garoupas, dos peixes-reis, das prumbetas…

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VENI CREATOR

Terça-feira, 06.06.17

A manhã despira o seu silêncio habitual e ornamentara-se de foguetes, de rufar de tambores e de acordes musicais. No ar evoluía uma solenidade inconfundível, desabitual. Espectavam-se momentos de inconfundível transcendência.

Por entre as paredes nuas das vielas encastoavam-se vultos ansiosos. Em breve iniciar-se-ia um inusitado desfile a desfazer o marasmo quotidiano. Bandeiras, coroas, cetros e varas a espelharem um passado idealisticamente imperial e a encherem o presente de sonhos e desejos haviam de transformar as ruas num oásis de grandiosidade e de pompa. Homens engravatados, mulheres e estriar trajes elegantes, jovens transformadas em damas de honra. Todos, em desusada cavaqueira, se preparavam para ebriática caminhada.

Finalmente surgiu ligeiramente atrasada mas bela, elegante, deslumbrantemente encantadora. Descia com asas de lava, caminhava sobre agapantos, violetas, aproximava-se entre sorrisos e encantos. Vestia de branco, ornava-se de sublimidade e exalava um doce perfume. Mas a atrocidade, cruel e desoladora, toldou-lhe os passos. Esquecera o adorno último, protetor, aconchegante e consolador. Assim, o frio havia de penetrar-lhe no corpo, inebriar-lhe a alma, provocar-lhe sobressaltos e calafrios. Mas voltar era quase impossível. Uma ténue e intimidadora tristeza toldou-lhe o rosto.

De repente um relâmpago de compaixão rasgou os céus. Seguiu-se o eco do trovão comprometedor:

- Eu vouououou...

- Faria isto por mim?

Isto e muito mais. Era necessário apenas que a porta estivesse aberta. E estava…

Cerceou o abrandamento, acelerou ao máximo o espaço e, com tanta ânsia e desejo, até raspou um dedo na porta… Nada de grave. Mas o troféu almejado estava ali, exposto como num museu. Trouxe-o, envolveu-se com ele, saboreou-o… Não o entregou porque não pode, mas admirou-o profundamente…

Na Terça-Feira do Espírito Santo, em São Caetano, antes da missa forma-se o cortejo, com destino à igreja, sendo as coroas transportadas por meninas familiares ou convidadas do mordomo, ricamente vestidas e pelo próprio mordomo, enquanto a bandeira é levada conjuntamente por um casal, umas e outras dentro de quadrados formados por varas, seguradas por crianças. Seguem-se conjuntamente os foliões com tambor, pandeiro e insígnias e o povo. Terminada a missa procede-se à “coroação do mordomo”, rito que consiste na imposição da coroa na sua cabeça, pelo celebrante, ao som do “Veni Creator”, agora numa adaptação vernácula “Vinde Espírito Paráclito”. O cortejo regressa ao local onde é servido, na presença da coroa e da bandeira, a refeição, sendo esta constituída pelas tradicionais sopas, carne assada e arroz doce, tudo regado com vinho de cheiro.

A festa e o convívio continuam durante a tarde e termina com o seu ponto alto ou seja, com a distribuição das rosquilhas, uma por cada habitante ou forasteiro que participe na festa ou simplesmente passe, por mero acaso, pela freguesia.

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A SAFRA DAS ROSQUILHAS NUMA NOITE DE LUAR INTENSO OFUSCADA PELAS NUVENS DA MONTANHA

Segunda-feira, 05.06.17

Em São Caetano do Pico era costume e ainda continua a sê-lo numa ou noutra casa, cozerem-se as chamadas Rosquilhas do Espírito Santo na noite de sexta para sábado, anterior ao dia da festa ou seja na Terça-Feira a seguir ao Domingo de Pentecostes.

Apesar de ser uma noite desgastante, perene de trabalhos e canseiras, uma vez que o cozimento do pão é árduo, longo e moroso, prolongando-se pelas madrugada e manhã do dia seguinte é, inequivocamente, uma noite mágica, transcendente, imemorável, sobretudo se se tiver o sortilégio de ser uma noite acompanhada e abençoada por um luar intenso, sublime, terno, envolvente e afetuoso.

A faina começa com a preparação, dias antes, dos ingredientes necessários e obrigatórios para a cozedura. Ovos, farinha, açúcar, manteiga, fermento, canela, banha de porco e um pouco de bagaço, também utilizado na confeção da tradicional massa sovada com que são feitas as rosquilhas. Também importante a preparação de todo o material a utilizar, nomeadamente, um forno de lenha amplo e funcional, a lenha para o aquecer, as folhas de cana roca, a fim de sobre elas se colocar a massa, os alguidares ou a panas de plástico e ainda toda uma panóplia de pequenos e imprescindíveis utensílios domésticos a maioria de uso quotidiano e, consequentemente, sempre à mão.

Mas o mais importante são as pessoas, mulheres e homens, galvanizados por uma tremenda e irrequieta vontade assente no desejo de dar continuidade às tradições, promessas e votos dos seus antepassados. Numa mesa empilham-se garrafas de bebidas tradicionais, sobretudo aguardentes e licores, que vão ajudar e alegra a noite, mas não quebrando a sua magia.

Tudo preparado começa a safra com as tarefas devidamente atribuídas, numa perfeita simbiose como se de uma muito bem organizada linha de montagem se tratasse. Um retira os ovos congelados em sacos, outro raspa os limões, uma mulher ordena e orienta, outra seleciona a farinha e o açúcar enquanto uma terceira faz o fermento. Misturados os primeiros ingredientes, uma outra habilmente mistura-os com gestos ritmados, artísticos e, sobretudo, eficientes. Depois de tudo muito bem envolvido solicita-se:

- Deite.me o açúcar.

- Todo?

- Sim, todo.

Depois é a vez da farinha que de supetão cai sobre aquele doce mistura que mãos suaves, meigas e carinhosas haviam envolvido com tanta agilidade.

- Ali, mais para o lado. Pode deitar toda.

Agora sim, a tarefa de envolver e misturar muito bem todo aquele amontoado é mais difícil e cansativa. Mas a juventude, a pujança aliadas a uma enorme força de vontade tudo ultrapassam com ternura e carinho. Há registos para memória futura. Depois amassa é sovada, isto é amassada com os punhos, como se estivesse a levar uns bons e certeiros murros. Ao redor outras panas também se enchem de massa amarela, perfumada a limão e a canela. Duas, três quatro, tantas quantas necessárias para umas boas dez dúzias de rosquilhas que irão ser oferecidas em louvor do Paráclito. A lua continua bela, ornada com um luminosidade intensa, com uma beleza excelsa e rara.

Enquanto a massa descansa nada com uma boa francesinha, elaborada com tarefas partilhadas. Aparentemente boa. Começa a talhar-se o pão. Mãos ágeis cortam pedaços de maça pesados por estimativa. Puxam, repuxam e formam bolas. Dentro em breve serão formadas argolas postas a descansar sobre um triângulo de verdes e frescas folhas de cana roca. Ficam a descansar, mas a noite vai longa e amanhã aproxima-se. Os galos há muito começaram a cantar e sono chega. O luar que envolve esta noite mágica acarreta consigo uma beleza transcendente, divinal.

É hora de acender o forno. Labaredas flamejantes perdem-se pelos ares e aquecem os circundantes. Há aconchego, carinho e ternura, muita ternura. Junta-se o brasido, varre-se o forno, cuja temperatura se regula com sabedoria ancestral. Basta atirar um pequeno punhado de farinha lá para o interior:

- Se queimar esta quente de mais. Caso contrário está bom.

As queixas e os azedumes surgem injustas e imerecidas. O luar escurece, eclipsa-se como que envolvido por lágrimas de mágoa. Muito dificultadas são as tentativas de consolo. A noite tornou-se escura e o luar eclipsou-se por completo.

Mas em breve chega a madrugada confiante e acolhedora e com ela os primeiros raios de luz. Uma nova luz, intensa e sublime, apenas ofuscada, por momentos de sono e de cansaço, desfeitos pelo provar da primeira rosquilha, acompanhado de um tímido e hesitante Favaios, servido num cálice adocicado, absorvido, avidamente, por um sonho cerceado.

E a safra das rosquilhas continuou pela manhã fora, entre tarefas partilhadas, sonos sobressaltados, tumultos irrequietos e um enorme montão de rosquilhas cozidas.

O luar perdeu-se na madrugada e como se isso não bastasse uma densa e enigmática nuvem cobriu por completo a montanha…

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ZIGUEZAGUES

Quarta-feira, 31.05.17

Era da janela da minha sala que o via, escondida por trás das cortinas. Em cada dia, em cada hora, em cada momento. Amava-o, amava-o loucamente. Ele talvez não soubesse ou sequer desconfiasse. No silêncio da brisa matinal, com o perfume do alecrim e da madressilva, acordava de longas noites de sonho, mas sem sono. O primeiro e primordial destino era a janela da minha sala, tapume de desejos sublimes, escarpa de amarguras profundas, onde me postava estática, à espera de descortinar que fosse a sua sombra. As manhãs eram cristalinas e puras, apenas uma ou outra nuvem tapava o céu, Os cães ladravam e um ou outro fio de fumo subia por entre os telhados dos casebres ao redor. Lá ao longe, o mar, azul, infinito e bonançoso, apenas se fazia ouvir através de gemido prolongado. No cais espreguiçavam gaivotas e os barcos ensaiavam as primeiras tentativas de romperam a suave leviandade das ondas. Bafejada pela aragem fria e fresca da madrugada, abria uma greta da minha janela e esperava-o ansiosa. Ele, porém, tardava em aparecer. Umas vezes era a chuva que me toldava e confundia enquanto outras a claridade tímida do sol me iluminava os desejos mais secretos. Por fim ele aparecia e eu perdia por completo a respiração e diluía-me, voluptuosamente, no ar perfumado com o seu respirar. Pelas ruas e praças deambulavam vultos míticos, disformes, das janelas semicerradas nasciam vozes queixosas e condenatórias e das portas semicerradas saíam vultos trémulos e fragilizados a condenarem o meu destino Raras vezes, à tardinha, ele vinha visitar-me. A porta era pesada mas eu abria de rompante a fim de que ele entrasse depressa. Um dia acompanhei-o na mais sublime e excelsa digressão por montes e vales. O carro que ele conduzia seguia em ziguezagues frágeis. Por fim um enorme ruido que se transformou em estrondo, provocando um terramoto. Foi então que o olhei… como nunca olhara ninguém, A distância entre nós era pouca, Os nossos corpos quase se tocavam. Ele estava ali presente, abstrato, infinito, sublime e divinal. Eu louca olhava e analisava aquela visão sublime e transcendente. Tímido, envergonhado, receoso, talvez sem perceber quanta ternura e, sobretudo, quanto amor continha o meu fulminante olhar. Eu ia fixando a sua imagem, sufragando o seu meigo olhar, desfolhando os sonhos que sonhava. Talvez porque o via assim, tão perto de mim, o meu coração parecia que saltava, que pulava, que bailava de contentamento Num ímpeto convidei-o para bailar… Como o carro que conduzira horas antes, ele apenas expeliu amargos ziguezagues…

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VI

Sexta-feira, 12.05.17

Era muito cedo, madrugada ainda. A montanha estava enevoada e o Sol hesitava em manifestar-se. Os pássaros cantavam timidamente e uma espessa brisa amortalhava o amanhecer.

Um vulto negro fechava a porta pela última vez. Corria silencioso, macambúzio. Sonhava com uma espécie de milagre, meneando timidamente a mão direita como se estivesse a abanar, a dizer “adeus”, num aceno perdido. Gesto ali repetido, eficientemente e com retorno, em tantas outras madrugadas! Mas agora os seus gestos, tímidos e hesitantes, pareciam-lhe completamente vãos. Aparentemente o Sol mantinha-se escondido, fechado, encasulado, preso, como se estivesse trancado com um gigantesco ferrolho. De oeste surgia apenas um vento hidrófobo, provocante, que resfriava o corpo e entristecia a alma. Nada. Tudo cerrado!

É verdade que faltava uma hora para a viagem habitual mas constava-lhe que os preparativos demoravam precisamente uma hora. Era pois imperioso que despertasse, que se erguesse e que alguma porta ou a simples fresta de uma qualquer janela se abrisse.

Lá ao longe definhava o sibilar do vento oeste, consubstanciando uma persistente nostalgia. Seriam dias e dias de pausa, de silêncio, de afastamento, de ignorância e de desencanto. Navegaria num deserto branco, ilógico e incoerente, em estado apocalíptico, nos debates íntimos e contraditórios de um paraíso verdadeiramente perdido. Uma forma injusta, cruel, desfazendo lapidarmente o acesso e o domínio de desejos e anseios estagnados mas revelados num universo, provocado, é verdade, mas sempre querido e aparentemente desejado, selado com sorrisos de alegria e contentamento.

Na ordem desordenada da partida ficava um desconfortante e abominável abismo que amedronta, entristece, esmaga e destrói.

Mais tarde, com o Sol já desperto e a brilhar no firmamento, lá no alto ressurgiu, entre turbulências assustadoras, um sentimento de esperança, mas virado do avesso. As nuvens, a distância, a altitude e a clausura laboral destruíam-no por completo. Era a abominável instituição do afastamento.

Não consola saber que há retorno mesmo que se acredite que se podem separar os corpos permanecendo as almas geminadas. Laços que não se desfazem porque, afinal, o deserto é sempre esperado.

Dois dias depois - surpresa das surpresas – uma vozinha doce e meiga desfazia todas as dúvidas, todas as inseguranças, todos os enigmas utilizando simplesmente uma das mais pequeninas palavras da língua portuguesa: - Vi!

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MAR

Terça-feira, 02.05.17

 

Do alto de um rochedo

Contemplo o mar:

- a sua beleza infinita,

- os soluços do seu marulhar.

 

Cada onda que se perde nos laredos

Acarreta, suave mas destemida:

 - a fereza das procelas,

 - os ecos de destinos naufragados.

 

Mas é neste mar que eu vejo espelhado

o nascer do sol, num fulgurado horizonte.

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SALMO DO UNIVERSO

Quinta-feira, 30.03.17

 

O céu, o mar e a terra exultaram de alegria

Porque viram e contemplaram o universo!

 

Viram a mais inaudita beleza da natureza;

Contemplaram o mais sublime dom do criador.

 

Viram-no e ficaram maravilhados;

Contemplaram-no e ficaram assombrados.

 

Os montes estavam cobertos de estrelas;

Pelos rios corria um suco doce e cristalino.

 

As nuvens bailavam em cachões doirados;

O silêncio das cavernas entontecia os corações.

 

As árvores escondiam-se envergonhadas

Mas os pássaros cantavam hinos à liberdade.

 

O universo revelou-se como obra admirável,

Como dádiva generosa, cerceada pelo destino.

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ELOGIO DO CALHAU

Domingo, 26.03.17

O Pico visto de repente e lá do alto parece um enorme calhau de lava, atirado à toa, sobre o Atlântico, pelo que, em boa verdade, se os seus descobridores e primeiros povoadores a ela tivessem chegado de avião, a antiga ilha de São Denis, muito provavelmente, se poderia ter chamado Ilha Calhau.

Por outro lado e visto cá de baixo o Pico como que é feito de pedaços de lava. Uns, minúsculos cascalhos, outros, pedras toscas, a maioria gigantescos calhaus. Todos jazem no subsolo e atapetam o chão lávico da ilha, dando-lhe vida. São uma espécie de sangue negro, fecundo e vigoroso, derramado pelo chão, alimentando-o, tonificando-o, transformando-o em vinhedos, em campos de milho, em pastagens ou em encostas a abarrotar de florestas de faia, de incenso e de árvores de fruto, cobrindo, assim, a imponente e enigmática montanha, do sopé até ao cume, de onde, umas vezes, escorrem flocos calcificados de gelo, outras fragmentos caramelizados de neve, e onde sopra sempre um vento destemido, mesmo violento, mas com um ar enternecedor de benfazejo, sobretudo quando acompanhado pelo suave lacrimejar do orvalho acariciador das madrugadas.

Assim e em boa verdade pode afirmar-se que no Pico os calhaus e os pedregulhos que povoam a ilha desde o píncaro da montanha até aos baixios da beira-mar são vida, são esperança. Cada calhau é crença, é bênção, é chão amigo. Cada calhau é uma espécie de bálsamo tonificante que transforma o sofrimento em promessa, a angústia em esperança, a destruição em recompensa, o deserto em abundância, o nada em tudo.

Na verdade, no Pico, o calhau nascido bem lá no fundo da terra, sobe à tona e alastra por aqui e por além, cobrindo tudo, perdendo-se por entre andurriais angustiantes, ou entrincheirando-se como negra crispação nos rebordos da beira-mar.

Os calhaus do Pico são como que um rio pétreo, a fertilizar os vales, a enrijecer os montes, a calcificar os pântanos e as lagoas, a alimentar os vinhedos e as florestas, a atapetar o chão. Uns transformaram-se em muros e paredes, ergueram adegas e habitações, construíram palacetes igrejas. Mas muitos outros, porém, ainda dormem, perdurando sepultados entre leivas de terra ou subsistindo entontecidos sob os maroiços a abarrotar de faias, incensos e cana roca.

Descobrir, ressuscitar e salvar um destes calhaus perdidos na intempérie do tempo, na crueldade do destino é obra de mãos generosas e de nobre sensibilidade. Dar-lhe nova vida, plantando-o no jardim da própria vivenda é gesto sublime, é grandeza de alma. Dar-lhe nome, imprimindo-lhe os caracteres que o vão eternizar é a plenitude da beleza é o deslumbramento da suscetibilidade.

Foi este o gesto nobre da Família Rodrigues. Retirando um calhau ressequido, abandonado, adormecido durante dezenas de séculos entre os escombros de um rude maroiço, ressuscitou-o, deu-lhe vida, perfumando-o para a posteridade, com letras doiradas, entronizando-o como anta, dólmen, menir ou falo gigante.

Como recompensa de tão nobre gesto, a terra que o havia gerado e criado e onde ele hibernara durante séculos passou a ser designada com o pomposo nome de Terra do Calhau.

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CORTINADO AZUL

Terça-feira, 20.12.16

Era um fim de tarde de um amarelado dia de outono. O céu, porém, estava azul, muito azul. Há muito que ela saíra de casa. Os cães ladravam, havia folhas caídas no chão e de algumas chaminés, ao redor saíam fumos trémulos, frágeis. Um silêncio perfumado a madressilva e a alecrim envolvia a casa deserta. Voltada a oeste a janela mágica, fechada e forrada com um cortinado azul.

Consta que os cortinados chegaram à Europa vindos do Oriente e do Egito onde abundavam cortinas e tapetes para decorar janelas e paredes dos palácios de reis, de imperadores e de faraós.

Há quem diga que na Europa, a primeira vez que se usaram cortinados na decoração das janelas foi num casamento da realeza britânica, na Abadia de Westminster, no século XIII. O uso generalizou-se e tornou-se vulgar nos nossos dias.

Nada pois de estranhar que aquela janela voltada a oeste tivesse um cortinado. O que mais intrigante e arreliador se impunha era descobrir a razão de ser a cor daquele cortinado - azul.

A cor azul significa tranquilidade, serenidade e harmonia, mas também está associada à frieza, monotonia e depressão. Simboliza a água, o céu e o infinito. O azul é também a cor da realeza e da aristocracia, uma e outra a possuírem sangue azul. O azul é considerado uma cor fria, a mais fria entre os tons frios de azul, verde e violeta. Liturgicamente é a cor atribuída à Virgem Maria que também em muitas das suas imagens se apresenta, regra geral, de manto azul. Mas a cor azul é utilizada na decoração dos mais variados espaços e o mais curioso é que se credita que um ambiente azul favorece o exercício intelectual, tranquiliza o espírito, enobrece a alma, fortalece o carácter e fortifica o amor. E esta seria, muito possível e inequivocamente, a razão por que aquela janela plantada entre as brumas matinais, entre o resfolgar da lava, entre o silêncio dos pedregulhos, entre o perfume do alecrim e da madressilva, ornada de folhas amareladas no outono e de flores vermelhas na primavera tinha, sempre, um cortinado azul…

 

 BOAS FESTAS

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PENUMBRA DE NATAL

Sábado, 03.12.16

 

Este dezembro,

Gélido e cruel,

Avança assustadoramente.

 

O Natal aproxima-se!

 

Quando chegar

Todas as luzes se hão-se acender

E todas as estrelas brilharão com fulgor…

 

Mas haverá uma penumbra,

Uma espécie de sombra ténue,

Malfazeja,

A impedir

Que a humanidade

Tenha as prendas mais desejadas:

 - A paz, o amor e a felicidade. 

 

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O TAPETE

Domingo, 20.11.16

O tapete, geralmente, é considerado apenas como um objeto utilizado para limpar os pés, impedindo assim de sujar a casa. Mas um tapete também, por vezes, é tido como objeto de ornamento, ou até de peça de museu, sendo neste caso considerado de grande valor, dada a sua qualidade ou antiguidade. Mas uma coisa é certa. Todos os tapetes têm uma certa fascinação e alguns até possuem uma rica e interessante história. Até um simples tapete feito de casca de milho, como faziam as nossas avós, tem os seus encantos e o seu valor histórico. Mas para além de tudo isto qualquer tapete ainda pode ter outra utilidade prática para além da limpeza dos pés, dos sapatos ou das botas a que vulgarmente se destina.

Nenhuma casa se pode ufanar de não ter tapetes. Nenhuma casa fica asseada e completa se não se rechear de tapetes. Quando se monta uma casa não se esquecem os tapetes. Esta é alias uma das atividades mais interessante de quem recheia uma casa e que nos pode dar um vislumbre, ainda que ao de leve, do que eram os palácios de Reis e Imperadores recheados de belos e riquíssimos tapetes.

Na verdade há muitos tapetes com história mas também há muitas estórias sobre tapetes.

Ela passava todos os dias em frente à sua porta. Ele amava-a. Um amor proibido, impedido. No entanto desejava muito vê-la, sobretudo quando ela transitava na rua, mas sem que os olhares mexeriqueiros e mesquinhos da vizinhança o notassem. Assim cada dia procurava uma artimanha diferente, um pretexto alternativo para a vaer de perto. Uma ida à fonte, um atravessar da rua a fim de ir buscar algo esquecido no automóvel, aparar o bardo do jardim, juntar as folhas caídas, limpar os pátios, etc. Ela passava, notava, acenava e sorria. Mas depressa se esgotaram os motivos que lhe permitiam que se postasse ali sem que fosse descoberta a sua verdadeira e sublime intenção: – vê-la passar.

E foi quando todos os pretextos que tinha para vir à rua no momento em que ela passava se esgotaram que ele recorreu ao tapete. Retirando-o da casa de banho veio colocá-lo sobre o muro, ao lado do caminho. Pegou numa vassourinha e começou a limpá-lo. Tanto limpou, tanto varreu e tanto raspou que o tapete quase se rompeu mas tão prolongada operação resultou em cheio, uma vez que permitiu que ele a visse passar, a sorrir e a acenar-lhe doce e levemente com a mão direita.

 

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O QUADRO VAZIO

Domingo, 13.11.16

Era uma vez um rei amante e colecionador de obras de arte, sobretudo de quadros antigos, valiosos e raros, especialmente dos que retratavam jovens, belas e radiosas princesas.

Certo dia o rei foi a uma feira de antiguidades e encontrou um belo quadro que retratava uma lindíssima princesa. O maravilhoso quadro reproduzia o rosto de uma menina, muito branco e transparente, salpicado de ternura, a aspergir simpatia e a irradiar uma alegria contagiante. A expressão do seu semblante era de tal maneira perfeita e sublime que atraía de forma intensa e profunda quem o contemplava. Parecia que comunicava fluentemente com quem o observava. Um verdadeiro rosto de deusa! Duas madeixas do cabelo castanho-escuro caiam-lhe delicada e elegantemente sob a tez acetinado. Os olhos de um castanho esverdeado contagiavam quem os contemplasse e um sorrir aberto, franco, terno e acolhedor efluía dos lábios finamente desenhados.

Encantado com tão maravilhosa obra de arte, o rei adquiriu de imediato o quadro, trazendo-o para uma grandiosa galeria de arte que existia no palácio real.

Mas qual não foi o espanto de sua majestade quando, passados alguns dias, entrando na galeria e observando o quadro, notou que ele estava simplesmente vazio, isto é, a bela princesa que o quadro representava ali já não estava. Cuidando que o erro poderia ser dos seus olhos, o rei mandou chamar os seus ministros a fim de também eles observarem o quadro e confirmarem se a princesa estava ali ou não e todos foram unânimes em confirmar que o quadro estava realmente vazio, pois não tinha lá, entre as molduras doiradas, princesa alguma.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

SOZINHA

Quinta-feira, 06.10.16

Decidi não me levantar hoje. Estou sozinha e nem sequer me apetece partilhar a minha vida, nem muito menos o meu corpo com quem quer que seja. Enrolar-me nos lençóis e nos cobertores, sentir o cheiro das vidraças fechadas, estirar-me de bruços sobre a almofada e sentir o enlevo dos sonhos perdidos. Permanecer sozinha, neste silêncio dulcificado é entranhar-se no sublime, retocar as agruras que o quotidiano comporta, e abonar-se nas transparências fulgurantes da madrugada.

O silêncio é uma espécie de troféu que se conquista com a solidão, sem, no entanto se permanecer nela. A decisão de viver em silêncio, libertando-se do sufoco da solidão geralmente, é difícil e nada fácil de se conquistar, mas é sublime e transcendente. Pelo contrário viver mergulhada na solidão de um silêncio atrofiado é um fracasso semelhante ao divórcio.

Decidi permanecer na cama, sozinha, hoje, não por não ter alternativas mas por uma opção, sã, racional e desejada. A opção foi muito fácil porque fui eu e só eu a escolher. Dormir e sonhar sete horas seguidas como se estivesse uma noite inteira num hotel de cinco estrelas.

E aqui estou prisioneira dos lençóis e dos meus desejos. São Carlos é uma linda freguesia banhada pelo Atlântico, localizada na mais bela e encantadora ilha açoriana, aquela ilha que apenas se descobre nos sonhos. Geograficamente, São Carlos estende-se ao longo do litoral e, por isso, é um destino turístico de excelência, um dos mais procurados à escala mundial. Conta com uma variada oferta de hotéis e restaurantes. É um local admirável, onde predomina à prática de mergulho. Conta ainda com uma marina privada, um jardim botânico, um pequeno jardim zoológico de crocodilos e grutas cheias de água.

Finalmente duas da tarde. Levantei-me! Foram dez longas horas de sono e de sonho, durante as quais permaneci praticamente deitada de bruços e agarrada ao travesseiro. Uma vez levantada, banhada, penteada e arruma instalei-me no meu quarto. Um sossego, uma calma e uma tranquilidade marcantes. Ao lado o murmurar das figueiras e das vides, o sibilar dos pássaros, o ladrar dos cães e cacarejar das galinhas. A montanha imponente e sublime tudo domina, mas também tudo encobre, porque o tempo está dominado por uma chuva enervante e muito pouco simpática.

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SAFRA NEGRA

Domingo, 18.09.16

Enfeitiçados pelos reflexos da montanha e entontecidos pelo perfume da maresia, percorreram filas e filas de videiras sibilantes e tímidas. O terreno, encharcado de lava moída, exalava um perfume negro, amargurado e triste. Entrou primeiro e seguia à frente, com um cesto pendurado no braço esquerdo, a aspirar bagos amadurecidos como se fosse um resfolgar de ondas revoltas em caneiro de lava. Ela, mais tarde, entre as manchas desertas de vinha, onde crescia a erva daninha e onde ainda apodrecia uma ou outra raiz das árvores outrora ali existentes. Os cachos, molhados de salmoura, despegavam-se em recíproco conluio.

Tinham chegado ao profícuo vinhedo, que emergira duma floresta arroteada, em tempos diferentes. Ele primeiro, entre cálculos de minutos rigorosamente premeditados. Ela, de seguida, imponente e solene, sem contar o tempo. Saltou o portão com perícia, empunhou a tesoura, posicionou-se no talho, ao lado dele e, misteriosamente, penetraram ambos numa tarefa pouco habitual, quase escura, onde imperava a sisudez e o silêncio. Do lado choveram impropérios. Ela respirou forte, cerrou os dentes, amarrou os cabelos em cacho e, desenhando no rosto traços sisudos, murmurou:

- É sempre o mesmo. Afrontas atrás de afrontas.

Quase chorava!

Ele estarreceu. Fora cúmplice, embora inconsciente. Os cachos madurecidos, misturados com sucessivos pedidos de perdão, caíam silenciosos no balde. O Sol descaía sobre o oceano e os candeeiros pregados às paredes dos caminhos circundantes pareciam uma fileira de focos de locomotiva à espera que as trevas chegassem em pertinaz perseguição. A atmosfera, impregnada dos aromas do futuro mosto erguia-se silenciosa e intimidativa. Ele veio até ao portal indeciso na procura de uma tesoura. Remexia baldes entre aqueles descampados, imaginando estratégias que desfizessem tão amargurado sufoco. Regressou ao talho e posicionou-se ainda mais próximo. Os cachos viciados de suco, imiscuíam-se entre emoções fortes, litígios ambíguos, gestos de apanha simulados e meneios de braços, de mãos a tentarem encontrar-se, demostrando ocasionalidade, de caras lívidas, de gestos desbriados, de todos os imagináveis festos e estranhas atitudes que desmanchando a frieza tentavam reconstruir uma serenidade enigmática, embebida numa a pureza angélica, numa perplexidade verdadeira. Os cachos, entre olhares cúpidos, desabavam nos baldes tempestuosamente como se fossem trapos tingidos de ocre, sendo por fim vazados nos cestos maiores.

Na demanda de uns cachos mais esconsos roçaram os rostos. Surpreendida, ela levantou-se e, pela primeira vez, sorriu. Era um olhar verde, doce e repleto de ternura e esperança que de imediato se perdeu no escuro da noite que agora já quase caía em catadupa, como se fosse uma tempestade de lava. Desequilibrado, caiu, enforcando-se em desdenhosa e íntima enxurrada de emoções líricas.

As luzes, essas ao menos autênticas, apesar de distantes, já haviam roubado a escuridão. Ali apenas o restolho da penumbra, que momentos antes, se desprendera e vazara no horizonte, iluminava os cachos ainda presos às vides. Maldita escuridão que afugentava sonhos e desfazia a safra inicial, próxima e solene. Afastou-se e colocou-se em talho distante como se tivesse medo de um inusitado atrevimento. Talvez tivesse percebido que a resistência era frágil e que o escuro da noite poderia ser traiçoeiro. A escuridão e o desfasamento da proximidade tornavam a safra negra, muito negra, apesar de real e verdadeira

Por fim tudo terminou e procuram-se os cestos a abarrotar de cachos mas perdidos entre os escombros escuros da safra. Um aqui, outro além e dois seguidos. Ufanou-se sem proveito e sem correspondência. Era como se tivesse num deserto sem água, sem víveres, sem o canto das gaivotas.

A noite, entretanto continuava a escurecer. Parecia que todas as estrelas haviam invernado em casulos de bruma. Apenas os carros zarpavam na direção da montanha, rumo ao povoado, enquanto ela carregava junto aos muros retalhados de lava arrefecido os proventos da safra negra. Havia de os conduzir em ruas tortuosas, de esquinas retangulares.

E um sonho mítico descia ao abismo, banhando-se em ondas de espuma gosmosa. Como era razoável a desilusão, depois desta safra negra!

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publicado por picodavigia2 às 00:05

O DESESPERO DO VENTO

Sexta-feira, 09.09.16

Solte-se o vento

em seu desespero desenfreado

 

e quando a grande onda chegar,

e se desfizer contra os laredos rochosos

a noite será deserta

e todas as vidraças estarão desfeitas,

como se fossem cachos de uva apodrecidos

e sem néctar.

 

Procurarei, em vão, um raio de luz,

mas as trevas serão mais negras

do que as postas de lava

ejaculadas do seio dos vulcões.

 

Sobre a terra

cairá uma chuva diluviana…

 

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publicado por picodavigia2 às 08:26

AGUARELA DO ENTARDECER

Sexta-feira, 22.07.16

 

Plantado sobre a lava negra,

Sem árvores,

Sem rios,

Sem pássaros,

Deserto,

Mas envolto em bruma densa.

 

Apenas o Sol

(estrebuchado e chocho)

O acaricia com fulgor

E uma gaivota olha-o de longe.

 

É o Pico das neblinas eternas,

Desenhado no céu,

Como se fosse uma aguarela do entardecer.

 

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publicado por picodavigia2 às 20:05

COLINA AMALDIÇOADA

Quarta-feira, 20.07.16

 

Alva, pura de neve é esta serra,

Erguida no silêncio, entre tormentos.

E as nuvens ao redor? Dúcteis fragmentos,

Fantasias desfeitas de quem erra.

 

Lá longe o mar deserto e sem terra!

As vozes das cagarras são lamentos

E os lajidos de lava lamacentos,

São martírio contínuo, chão de guerra.

 

Se o vento sopra suave e não protesta

É a aurora a nascer em tom de festa.

Dilúculo sem bruma, sem neblina!

 

Mas a noite regressa escura e fria,

Sem esperança, sem luz, sem alegria.

Que maldição trespassa esta colina!

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publicado por picodavigia2 às 00:05

SONHOS

Quinta-feira, 14.07.16

 

Os sonhos não são eternos.

Desfazem-se com o esvaziar das marés,

Descolorizam-se com o por do sol,

Escurecem com o negrume das nuvens,

Rompem-se com o silêncio da noite

E,

Por vezes,

Até fenecem,

Com o travo amargo da ilusão.

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“O REFÚGIO” OU A MARAVILHOSA E DESLUMBRANTE ADEGA DA FAMÍLIA RODRIGUES EM SÃO CAETANO DO PICO

Terça-feira, 05.07.16

Uma das mais deslumbrantes e emblemáticas adegas de quantas existem em São Caetano do Pico é a da Família Rodrigues, em boa hora alcunhada de O Refúgio. Situada num vale de singela beleza e singular ruralidade, entre o mar e a montanha, mistura-se com o verde das faias, dos incensos, das videiras, dos fetos e da cana roca que a rodeiam, envolve-se com o perfume salificado do enxofre e o negro da lava sobre a qual está edificada, confunde-se com o silêncio que sobre ela desaba em catadupa emanado das escarpas da montanha e prolonga-se na excelsa e simpática hospitalidade dos seus proprietários, graciosa e generosamente dispensada a quantos a demandam ou visitam.

Como as restantes adegas do Pico, O Refúgio assumiu e continua assumir um papel importante e de destaque no quotidiano da Família Rodrigues, nos seus costumes, tradições, nos seus momentos de lazer e até na sua própria economia. Embora vocacionada desde sempre como local de fabrico do vinho e, sobretudo, da sua guarda, a Família Rodrigues, numa evasão de requinte e bom gosto, transformou a sua adega num verdadeiro refúgio, numa espécie de granja onde, juntamente com o vinho, o bagaço e a angelica e, misturada com barricas, garrafões e com o próprio lagar onde os bagos açucarados e vermelhos são espremidos e prensados, se refugia em convívios resplandecentes e em devaneios dulcificados. E também ali que, mesmo ao sabor dos odores opacos e perplexos do mosto a fermentar, se reúne vezes sem conta e se galvaniza em momentos de alegria, em encontros mágicos, em convívios gratificantes, entrelaçados em singela e genuína camaradagem. Em suma, a adega da Família Rodrigues é um verdadeiro refugio ou seja, num local de sonhos idílicos, de fascinações extasiantes e de enlevos arrebatadores. Uma espécie de epicentro do carinho, do convívio, do remanso e da amizade, tudo isto associado a uma alegria contagiante a um enlevo sublime. Ali estamos bem, estamos no paraíso.

Na verdade a Família Rodrigues, em boa hora transformou a sua adega num verdadeiro refúgio, metamorfoseando o que outrora eram paredes envelhecidas, pipas fossilizadas e vestígios de bagaço e angelica num santuário de romaria e convívio nas tardes de domingos e feriados, ou de visitas à noitinha, umas e outras, prolongadas, vezes sem conta, pela noite dentro e estendidas a amigos e familiares. Todos ali são bem-vindos e bem recebidos. Mas o mais interessante, sublime e divinal é que, graças à excelência pantagruélica e à sábia e douta arte culinária da esposa do Senhor Rodrigues, a Dona Luísa e das suas filhas Joana e Cátia, estas visitas e estadias são geralmente acompanhadas de deliciosas, saborosíssimas e opíparas refeições, onde não faltam os verdadeiros sabores do Pico. Inhames, linguiça, torresmos, morcela, peixe frito ou assado, feijoada, congro em cataplana, moreia frita, queijo e até o bolo do tijolo de inigualável qualidade e de inesquecível sabor. Por vezes um excelente, saborosíssimo, delicioso e revigorante caldo de peixe, acompanhado com o bom vinho, da lavra do anfitrião, o Senhor José Rodrigues, extraído, diretamente, da barrica, ou, outras vezes a estagiar e a criar lastro no canjirão. As sobremesas assim como as pizas caseiras também são deslumbrantes, divinais. Mas na verdade, até mesmo em visitas não programadas, vazias de vitualhas, a adega da Família Rodrigues continua a fazer jus ao nome de verdadeiro refúgio porquanto acolhe com ternura e prazer os amigos e se transforma num local idílico que delirantemente delicia os convidados e visitantes. Ali todos convivem, conversam, descansam e descontraem-se, enquanto escorropicham um ou dois copos de vinho de excelente qualidade, saboreiam um agitante gole de bagaço ou adocicam a boca com solves de angelica e de aguardente de amora. Por isso nunca deixam de ser alegres, folgazonas e contagiantes estas visitas, estes convívios. É a safra destemida e sublime do lazer reunindo familiares e amigos. É o encontro e reencontro, a partilha, a troca de afetos, sentimentos e, sobretudo, de palavras que somente uma adega transformada num verdadeiro refúgio, como esta, pode ter, assumindo, assim uma espécie estatuto de “catedral” do convívio, da confraternização, do lazer e da desmitificação, envolvendo todos num devaneio por vezes, eufórico e alucinado mas sempre generoso, concertante e fraterno, um verdadeiro “santuário”, onde o vinho é deus e o bagaço e a angelica as primícias originais da sua omnipotente e todo-poderosa obra criadora.

Ali, naquele verdadeiro Refúgio, tudo é sublime e transcendente. Até o ar é perfumado com o bafo das faias, dos incensos das vinhas, das figueiras e da madressilva caindo sobre nós numa mistura de sabores acres e adocicados. Numa palavra o Refúgio ou a Adega da Família Rodrigues em São Caetano do Pico é uma espécie de Éden ou um Paraíso Terreal onde é bom, sublime e gratificante entrar, ficar e permanecer horas a fio.

 

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MONTANHA

Quinta-feira, 02.06.16

Montanha de lava, de brumas e de nuvens!

Montanha aureolada, como um sonho de princesa,

Com o refluxo mágico de um destino delido.

Montanha enlouquecida pelo eco dos vulcões.

 

Montanha de sonhos domados, peregrina de estigmas,

Acompanhante de angústias e sofrimentos.

De noite, de dia, no silêncio das madrugadas,

Na abnegação dum acatamento persistente.

 

Em pose de donzela serena e pensativa

Na cumplicidade de um envolvimento compassivo,

Montanha aspergida com o perfume das nuvens,

Das brumas, dos nevoeiros, das madrugadas sem sol.

 

Montanha de um eterno bem-querer,

A acariciar o esplendor das madrugadas.

Montanha de brumas soltas, de mistérios,

Aconchego inebriante e dulcificado de poetas.

 

Montanha única, irresistível, deslumbrante,

Debruçada, plangente e silenciosa, sobre o mar.

Nunca apagues o negrumes das noites eternas,

Nem desfaças as nuvens que envolvem teu destino.

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O ENCANTO DA TERRIBILIDADE

Domingo, 22.05.16

O desengano é o terminar da esperança,

A desilusão o rasgar da serenidade,

O suplicio o mergulhar no sofrimento,

E a frustração o entrincheirar da dor.

 

Por isso é que,

O desengano, a desilusão, o suplício e a frustração,

Quando juntos,

Fecundam, geram, revitalizam e fortalecem

O encanto da terribilidade.

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NIHIL

Domingo, 06.03.16

 

Há silencio

Nas pedras,

Nas árvores

No vento.

 

Há caminhos desertos,

Ribeiras sem água,

Beira-mar sem ganhoas.

 

A terra cobriu-se de um manto escuro,

E as andorinhas tardam em regressar.

 

A esperança é um mito,

A certeza uma dúvida

E a alegria uma mágoa.

 

Até as nuvens correm sem destino.

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AGUARELA DO VENTO

Sexta-feira, 19.02.16

 

Escombros de lava tingidos de verde

E um manto de bruma a forrar o firmamento.

 

Há resteva de neve, salpicos de maresia.

Vinhas em currais, vulcões de sofrimento.

 

Na baía, onde aportou Garcia Gonçalves,

Sopra roufenho o restolho do vento.

 

No cais deserto, aninham-se gaivotas

Trazem, agoirentas, prurido lamento.

 

E a noite tristonha, sebácea e escura,

Cai da montanha, em sulco turbulento.

 

Há rilheiras destroçadas, em trilhos perdidos,

Sons abafados, deixados pelo vento.

 

Vento, vento, vento!

- (turbulento)

- prurido lamento, em sofrimento, a toldar o firmamento!

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MALDITA FARANDOLA

Sexta-feira, 18.09.15

 

Cuidando que nos davam grande esmola,

Vieram acorrentar uma inocente,

Prendê-la como se fosse demente.

Imbecil e maldita farandola!

 

Na adega isolada da aldeola,

O silêncio ancorava, bem dolente,

Entre raiva e suplício, tristemente.

Mas o vinho corria em carambola.

 

Tremeliques de lava em chão deserto,

Semelhanças apócrifas por perto.

Na mesa uma clareira desusada.

 

Cagarras esvoaçavam em berreiro

E o mosto fermentava no balseiro,

No afogo duma noite atormentada.

 

 

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