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CRÓNICA DE UM PARAÍSO

Sexta-feira, 30.06.17

Mais um belo texto sobre a Fajã Grande, descoberto na Net, da autoria de Zé Morgado, de Almada, no seu blogue e que com a devida vénia aqui reproduzo:

“A banda larga, felizmente ou infelizmente, ainda não está suficientemente larga. Assim, não digam a ninguém porque não me parece muito bonito, estou a piratear um ponto de Wi-Fi da Junta de Freguesia da Fajã Grande para deixar esta crónica do paraíso.

Eu sei que isto é um abuso, o paraíso não existe, ou por outra, cada um de nós, de mil maneiras, vai conseguindo uns minutos de paraíso, mais ou menos frequentes, em diferentes locais e em diferentes circunstâncias.

Nestes dias tenho, sorte a minha, passado por muitos minutos de paraíso, estou na Ilha das Flores, instalado, como deu para perceber, na Fajã Grande. A Ilha das Flores é um assombro de bonita e o tempo tem ajudado.

É complicado dizer o que qualquer guia turístico já diz mas, por outro lado, andar pelas Flores é mais bonito do que qualquer guia é capaz de descrever.

Parece magia como tanto de diferente se pode encontrar numa área relativamente pequena.

A água ouve-se e vê-se por todo o lado, em cascatas altíssimas, que mesmo no final de Julho continuam em força, ao que nos disseram, ajudadas por umas chuvas tardias. Onde os olhos poisam encontram-se hortênsias de um azul ainda vivo que desenham muros, estradas e paisagens.

A costa tem recortes em que o basalto negro, contrastando com o pôr do Sol lá para o fim do mal, criam um efeito que enquanto dura atraem os olhos sem que possamos resistir, é um encantamento.

Um pequeno segredo que é público, a Poça da Alagoinha e a vereda que lhe dá acesso são de outra dimensão e fazem-nos sentir de outra dimensão, muito grandes por ali estarmos e muito pequenos quando nos comparamos.

Este paraíso é na verdade, um dos mais bonitos paraíso em que já estive, merece que dele falemos. E é nosso.

 

NB – A parte do texto a itálico é da autoria de Zé Morgado

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publicado por picodavigia2 às 00:05

A FAJÃ GRANDE NO ALMANAQUE AÇORIANO

Terça-feira, 07.02.17

O Almanaque Açoriano, arauto dos fenómenos da terra, do mar e do céu das ilhas açorianas e guia prático da ruralidade açoriana e orientador das suas gentes refere os seguintes dados relativamente à freguesia da Fajã Grande:

População: 250

Atividades económicas: Agricultura, pecuária e pequeno comércio

Festas e Romarias: S. José (19 de Março), Santo Amaro, Espírito Santo (7 semanas depois da Páscoa), S. Pedro (29 de Junho), Nossa Senhora do Carmo (26 de Julho), Nossa Senhora da Saúde (8 de Setembro), Nossa Senhora do Rosário (Outubro) e Santo António (13 de Junho).

Património: Igrejas matriz e da Ponta e capelas do Espírito Santo, do Espírito Santo da Ponta, do Espírito Santo da Quada e de Santo António.

Outros Locais: Ribeiras dos Paus Brancos, das Casas e do Cão, grota da Lombinha, ribeira de José Fraga, grota de Tio António Luís e grotão da Ponte

Gastronomia: Sopas do Espírito Santo, feijão com cabeça de porco, cozido à portuguesa, molho de Afonso com lapas, torta de erva do mar, inhame com linguiça, polvo guisado, filhós e folar da Páscoa

Artesanato: Cestaria, caravelas, cabaços e arranjos em miolo de hortênsia

Coletividades: Tuna Sol Mar, Filarmónica de Nossa Senhora da Saúde e Atlético Clube da Fajã Grande

Orago: S. José

Descritivo histórico: A Fajã Grande é uma das freguesias menos povoadas deste concelho. Pertenceu sempre às Lajes das Flores, à exceção do período em que aquele foi suprimido. Entre 1895 e 1898, esteve pois no concelho de Santa Cruz.

A igreja paroquial, consagrada a S. José, foi reedificada em 1849 à custa das esmolas do povo. A capela de Santo António de Lisboa, por seu lado, é o mais recente edifício religioso da Fajã Grande. Foi construída em 1986. O património natural da freguesia inclui tudo, mas não deve ser deixada de parte uma visita ao grotão da Ponta, fabuloso conjunto de quedas de água.

E mais não diz. De realçar que nem a igreja da Fajã Grande, nem muito menos a da Ponta, são igreja matriz. Trata-se apenas de uma igreja paroquial e de uma ermida de curato, no caso da Ponta. Falta também acrescentar, no que a capelas diz respeito, a da Senhora de Fátima, da Ponta, cuja prime construída em 1969. Acrescente-se ainda que de acordo com o último censos a população da Fajã Grande ultrapassa em pouco os duzentos habitantes.

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publicado por picodavigia2 às 00:06

O ARCO-DA-VELHA

Quarta-feira, 28.12.16

Na Fajã Grande designava-se o Arco-Íris por Arco-da-Velha. Havia por ele um grande respeito, um certo temor porquanto de misticismo e de belo ele continha. Acreditava-se, inclusivamente, que no dia em que ele aparecesse de pernas para o ar, isto é, invertido, seria o fim do Mundo. Este fenómeno ótico recebeu nome da mitologia grega, onde Íris era uma deusa que exercia a função de arauto divino e que à sua passagem de mensageira, ao atravessar os céus, deixava um rastro de luminosidade multicolorido, mas na Fajã Grande era designado por Arco-da-Velha.

A razão da designação de Arco-da-Velha, no entanto não parece ser exclusiva da mais ocidental freguesia açoriana. Em muitas outras localidades o Arco-Íris é designado pelo mesmo nome. Segundo os mais entendidos, uma das explicações para designar aquele lindíssimo fenómeno atmosférico é a de que essa denominação foi criada graças à história bíblica de Noé, quando depois do dilúvio, Deus criou o Arco-Íris para demonstrar a sua aliança com o ser humano, e a promessa de que não voltaria a enviar outro dilúvio dessa magnitude. Assim, na expressão Arco-da-Velha, o termo velha representa a Velha Aliança que Deus formou com o Homem, por oposição `Nova Aliança trazida por Jesus Cristo, explicação que parece lógica porquanto o Arco-Íris também é conhecido como Arco-da-Aliança.

Reza assim o livro do Génesis, no que ao Arco-Íris diz respeito:

«Fez Jeová um pacto de paz com Noé, quando, depois de findo o Dilúvio, lhe disse: “Este é o sinal da aliança que faço entre mim e vós e todo o animal vivente que está convosco, para perpetuar gerações: o meu arco tenho nas nuvens, e será ele o sinal de uma aliança entre mim e a terra. Quando eu trouxer nuvens sobre a terra e aparecer o arco nas nuvens, então me lembrarei da minha aliança que está entre mim e vós e todo o animal vivente de toda a carne; as águas não mais se tornarão em dilúvio para destruir toda a carne. O arco estará nas nuvens; olharei para ele, a fim de me lembrar da aliança eterna entre Deus e todo o animal vivente de toda a carne, que estará sobre a terra. Disse Deus a Noé: este é o sinal da aliança que tenho estabelecido entre mim e toda a carne que está sobre a terra”

Ligada ao Arco-da-Velha utilizava-se na Fajã Grande a seguinte expressão: Isto são coisa dos do Arco-da-Velha com a qual se pretendia significa que o que se referia eram assuntos ou coisas extraordinárias, incríveis, invulgares ou mirabolantes.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

MEMÓRIAS DAS CAMPAINHAS DAS VACAS

Quarta-feira, 26.10.16

Muitas das minhas lembranças de infância estão relacionadas com as campainhas das vacas, utilizadas por quase todos os criadores de gado da Fajã Grande, à altura. Eu adorava campainhas. Fascinavam-me de tal modo que até parece terem exercido um estranho e mágico poder sobre mim quando criança. Adorava-as todas, o seu toque sublime e diversificado, a sua forma, o seu brilho, a sua beleza singela e singular. Destacavam-se as das vacas do senhor Gil e as de meu avô, não apenas porque em forma de sino mas também porque muito grandes e de um toque belíssimo. Distinguiam-se também pela sua heterogeneidade, pelo seu brilho e cintilação, pelos sons dulcificados e inconfundíveis que até parecia dignificarem o animal que as utilizava. Eram afinadas no toque, retiniam quando prolongadamente badaladas e deslumbravam de encantamento.

Eu adorava também todas as outras campainhas, as de meia laranja, amarelas como ouro, com sons maravilhosos e diversificados mas sempre harmoniosamente conjugados, como se fossem os acordes duma partitura. Tlim… Tlom… Tlim… Tlom! Meu pai que tinha apenas duas vacas tinha só duas campainhas, as quais apesar de diferentes no tamanho também tinham um som harmónico e concertado. Por vezes, quando o estrape de uma rebentava, antes que meu pai o consertasse, eu aproveitava para me deliciar porque ele deixava-me tirar a campainha do pescoço da vaca pegar-lhe por algum tempo, badalá-la junto ao ouvido e ouvir não apenas o seu toque sublime mas também o eco dos seus sons sibilantes. Eu sabia que eram feitas de metal e não de ouro como a sua aparência brilhante fazia supor.

O mesmo acontecia com os chocalhos e os guizos ou até com as brutas campainhas que as vacas leiteiras usavam no mato, que eram feitas de latão e que, por isso, não tinham, nem de perto nem de longe, um som harmonioso com as outras. Destinavam-se apenas a que os ordenhadores encontrassem mais facilmente os animais em dias de nevoeiro. Talvez fossem de bronze como os sinos da igreja as campainhas das vacas que eu tanto adorava na minha infância, pese embora meu pai tivesse duas de alumínio que usava nos bezerros e que, quanto ao som que emitiam, pareciam verdadeiras canas rachadas. Adorava era as campainhas de metal, de bronze. A própria palavra “bronze” me parecia soar como um gigantesco sino que se partia aos bocadinhos para dele se fazerem as campainhas.

O meu fascínio por campainhas era tal que eu próprio fabricava as campainhas para as vacas que imaginava possuir. E tinha uma boa coleção. Eram fabricadas a partir das tampas das cervejas ou das laranjadas. Umas e outras, nos tempos da minha infância, eram feitas de metal e não tinham nenhuma inscrição ou desenho, que lhes obliterasse o som metálico. Lisinhas e brancas, apenas tinham por dentro, no fundo uma pequena pelicula de cortiça ou de borracha que, facilmente retirava com a ponta de uma navalha. Depois, com um prego dava-lhe dois furinhos ao meio, um perto do outro, através dos quais fazia passar um cordel. A este cordel, na parte interior, amarrava um pequeno prego retorcido, fazendo de badalo. Na parte superior ia alongando ou encurtando o cordel de forma que o badalo se movimentasse e batesse nas bordas da tampa, produzindo o som desejado.

Que bem que tocavam as minhas campainhas, as campainhas da minha infância, feitas de tampas de cerveja ou de laranjada!

 

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FAJÃ GRANDE (II)

Segunda-feira, 17.10.16

Não é abuso repetir que a Fajã Grande se ufana de ser o povoado mais ocidental da Europa. Situada na costa oeste das Flores, a 17 km da sede do concelho, integra, juntamente com as Lajes, a Fazenda, a Lomba, o Mosteiro, o Lajedo e a Fajãzinha o concelho das Lajes das Flores uma área de 12,55 km² e, segundo o censos 2011, tem apenas 199 habitantes, enquanto na década de 1950 ultrapassava as oitocentas. Apesar da sua diminuta população, ainda assim é uma das freguesias mais povoadas da ilha. Criada em 1861, a paróquia católica correspondente tem São José como orago.

Localizada numa extensa fajã da costa oeste da ilha, delimitada do lado de terra pela enorme escarpa da Rocha da Fajã, uma falésia que na zona dos Paus Brancos excede os 600 m de altura, e do outro por uma linha de costa baixa e muito recortada, a Fajã Grande é composta por três lugares: a Fajã Grande, centro da freguesia e a sua localidade mais populosa a Ponta da Fajã Grande, situada numa estreita fajã encaixada entre o mar e a base da falésia da Rocha da Fajã, a norte da Fajã Grande e a Cuada, um povoado sito num planalto a sueste, no limite com a freguesia da Fajãzinha, atualmente já sem população residente.

A Fajã Grande confronta com as freguesias de Ponta Delgada das Flores e Fajãzinha e é formada por terrenos detrítico, provenientes da falésia da Rocha da Fajã, produzindo um rico solo, embora pedregoso, o que se alia à abundância de água para fazer dos terrenos da freguesia férteis campos. O abrigo fornecido pela falésia e pela irregularidade do terreno permitiu também a instalação de pomares e de hortas, destacando-se a produção de inhames nos terrenos inundados, considerados os melhores dos Açores. Hoje a maior parte dos terrenos encontra-se abandonada, dada a recessão demográfica que a freguesia sofreu.

O porto da Fajã Grande, outrora uma das principais portas de entrada na ilha, encontra-se hoje reduzido a uma zona balnear, sendo apenas ocasionalmente utilizado pelas embarcações locais. Toda a zona que o rodeia, e a enorme rolo que se estende do Ilhéu do Constantino ao Ilhéu do Cão, são hoje uma das mais apreciadas estâncias de lazer da ilha, atraindo banhistas de toda a ilha – uma espécie de Algarve da ilha das Flores. A grande qualidade ambiental e paisagística do local, pese embora algumas casas construídas recentemente que destoam, dão à freguesia um grande potencial como destino turístico.

A freguesia alberga também alguns do melhores trilhos pedestres dos Açores, com destaque para aqueles que a ligam a Ponta Delgada das Flores.

 

NB – Alguns dados foram retirados da Net.

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BALEIA BALEIA

Quarta-feira, 18.05.16

Era por alturas dos fins de maio ou princípio de junho que chegava à Fajã uma leva de baleeiros. Alguns vinham do Pico, sobretudo os mestres dos botes, outros vinham das Lajes e um ou outro de Santa Cruz. Mas a maioria dos homens necessários para completar as companhas era recrutada na própria freguesia. Depois vinham das Lajes os dois botes devidamente apetrechados e o gasolina, a Santa Teresinha. Os botes eram varados no porto Velho e guardados ao relento, no cimo do varadouro, enquanto a Santa Teresinha permanecia ancorada no Boqueirão, do lado da Barra, de onde era retirada para terra apenas em dias de tempestade e de mar brabo.

O Vigia era o António Machado que durante muitos anos fora auxiliar do Mestre Manuel Manquinho, com residência fixa na Fajã, mas vindo também do Pico. Os oficiais e um ou outro marinheiro, fazendo-se acompanhar das mulheres e dos filhos, arrendavam uma casa e permaneciam na freguesia durante todo o verão até a safra terminar. Geralmente voltavam no ano seguinte. Os solteiros ou os que não traziam família hospedavam-se numa ou outra casa que para tal tinha disponibilidade. A estes juntavam-se os marinheiros da freguesia, entre eles os dois trancadores, o Urbano e o Francisco Inácio. Eram considerados dos melhores que havia na ilha das Flores. O sinal de partida era dado pelas vigias do Pico da Vigia, de binóculos em riste de manhã à noite. Logo um alvoroço percorria a freguesia de lés-a-lés. E lá iam os botes cheios de homens comandados por um oficial, umas vezes a remos, outras à vela ou rebocados pela Santa Teresinha. Alguns baleiros diziam que preferiam levar o bote à vela porque conseguiam fugir mais depressa quando a coisa dava para o torto. Outros, quando chegavam a terra, contavam façanhas extraordinárias. Um dia houve um bote que revirou e contava-se que os baleeiros haviam caído todos ao mar. Uma outra vez a baleia com o rabo atirou para cima do bote tanta água que esta deu um enorme salseiro que embateu na vela e o bote ficou de quilha para o ar. Para o endireitar foi o cabo dos trabalhos. Muitas vezes fora preciso cortar a corda do arpão, caso contrário teriam sido tudo arrastado o fundo do mar. Homens e bote.

Depois de rebentar o foguete lá iam eles. Saíam a Barra e sobre os rochedos negros que ladeavam o Porto Velho ficavam as crianças a sonhar que um dia seria o seu e as mulheres recomendando cuidados com a sacola da comida onde levavam peixe, torresmos, tortas, pão de milho, bolo e café ou vinho, murmurando orações e pedindo a Deus que nada de mal acontecesse aos seus homens.

A Fajã Grande possuía dois botes baleeiros e um gasolina, a Santa Teresinha. A época de caça à baleia, que alterava substancialmente a vida e os costumes da freguesia, começava em maio ou junho e prolongava-se até Setembro ou Outubro.

Há quem afirme que a ilha das Flores foi pioneira na caça à baleia nos Açores. Na verdade e de acordo com o investigador florentino Francisco Gomes, no seu livro Ilha das Flores: da Redescoberta à Atualidade, a primeira armação costeira dos Açores de que se tem notícia foi fundada na ilha das Flores, por volta de 1856/1857. Eram dois botes encomendados nos Estados Unidos por José Constantino da Silveira e Almeida, que capturaram em 1860 a primeira baleia em mar da ilha das Flores. O cetáceo rendeu, segundo aquele investigador, 80 barris de azeite, o equivalente a 2.500/3.000 alqueires de milho, vendidos com entusiasmo na ilha do Faial. Segundo o referido historiador só depois a arte foi-se alargando a outras ilhas, em especial ao Pico e Faial, cujo apogeu da baleação se deu no final dos anos trita do século XX e se manteve até 1986, quando a Comissão Baleeira Internacional proibiu a baleação comercial, baseada na Convenção Internacional para a Regulação da Atividade Baleeira.

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FASCÍNIO E MEDO NAS ÁGUAS

Sábado, 23.04.16

As Águas era um dos mais contraditórios lugares da Fajã Grande, porquanto provocava, simultaneamente, nos que para lá se deslocavam, fascínio e medo. Por isso e porque situado debaixo da Rocha, entre a Ribeira das Casas e o Caminho do Mato, o lugar das Águas era, ao mesmo tempo fascinante e aterrador.

Meu pai tinha quatro propriedades nas Águas. Um curral de erva mas de pouco valor, situado logo à entrada, onde terminavam as terras de cultivo da Ribeira, no qual nem cabia uma vaca. Apenas servia para guardar ovelhas e dar-lhes de pastar. Possuía também, mas já mais a norte e muito próximo da Rocha, duas relvas ou pastagens quase contíguas. A primeira, que nós apelidáramos de Águas de Cá, com erva de boa qualidade. A segunda, as Águas de Lá, mais além, já quase sobre o descampado da ribeira, terra de muito fraca qualidade. Finalmente e bem junto à Rocha, também sobre o descampado da Ribeira das Casas, e ainda mais pobre e menos fértil, uma outra propriedade que de nada servia a não ser para produzir feitos e juncos que ceifados serviam para cama do gado nos palheiros. Isto porque naquele local a Rocha não dispunha de uma plêiade quase infinita de grotas e veios de água como acontecia a uns escassos metros dali e que davam às relvas encostadas à Rocha o estatuto de lagoas, uma vez que encharcando o terreno faziam com que a erva crescesse, permitindo que fosse ceifada para alimento das vacas nos palheiros. Além disso ali se produziam bons inhames.

Mas o meu fascínio por aquele lugar começava logo à entrada, junto ao curral que pertencia a meu pai, onde havia um enorme calhau caído da rocha, sabia-se lá há quantos anos. Era um gigantesco e descomunal penedo, bastante áspero e excessivamente tosco. O seu peso estimativamente excessivo e a presumível velocidade que teria atingido ao despegar-se daquele desmedido aclive haviam-no encravado no chão de tal maneira que aparentava ter sido ali plantado pela natureza. O calhau ficava mesmo à beira da canada, servindo, naquele sítio, de divisória natural entre o caminho de servidão e a relva de Ti Manuel Rosa, situada à esquerda de quem se dirigia para a Rocha. Do lado que confinava com a via pública, na parte superior, o calhau tinha uma enorme aba e, na parte inferior desta, uma concavidade ou buraco, que com as chuvas se enchia de água. Só que, por caprichos da natureza, o buraco era uma espécie de poço, tão perfeito e tão bem elaborado que nem o cinzel de um pedreiro o talharia melhor. Além disso, na parte inferior, a aba do calhau possuía uma espécie de plataforma para que quem quisesse ou desejasse ali se sentasse a molhar distraidamente as mãos. Quando ia às Águas fascinava-me ficar a contemplar o pequeno lago, sobretudo quando cheio de água, quase a transbordar, com formas e recortes tão semelhantes aos do baixio, como se fosse um mar. Havia mesmo um enclave em tudo igual ao Boqueirão, outro parecido com o Caneiro do Porto e no meio, eu próprio lhe escarrapachava uma pedra a fazer de Monchique. Então nos dias em que meu pai por lá se demorava a ceifar feitos ou quando eu levava a minha ovelha a pastar no curral era um enlevo, pois enchia o lago de folhinhas de faia e de incenso a fazer de barcos. Depois sentava-me na plataforma e ficava ali horas e horas a brincar. Tocava com as mãos na água e esta agitava-se como se fossem ondas e o lago crescia, crescia até se transformar num enorme mar cheio de barcos, de gasolinas, de iates e de navios, uns ancorados fora do porto, outros partindo para a Europa, para a América, para outros mundos.

Mas não era só isto que me fascinava nas Águas. Lá no alto. Quase no cimo da Rocha, precisamente sobre uma das propriedades de meu progenitor existia uma furna. Era a furna do João da Macaca e da Maria Peguinha. Fascinava-me observar, ainda que de longe, a residência daquele estranho casal que ninguém sabia quem era. Dizia-se que todos os dias, de madrugada e à noitinha, eles se vinham sentar à entrada da furna, a disfrutar o magnífico panorama que dali se deveria visionar, Ao mesmo tempo, porém também sentia medo porque era voz corrente, por parte dos adultos, que o João da Macaca e a sua consorte viam, observavam e registavam todas as asneiras, disparates, desobediências e má-criações que os meninos faziam para depois lhes aplicar o devido castigo, caso voltassem a repetir o que de mal haviam feito. Além disso, no verão, enquanto ajudava meu pai a ceifar os feitos, nos andurriais da Rocha, fascinava-me ver, lá ao longe, no mar, os botes baleeiros a partirem para a safra assim como os navios que lá no horizonte apareciam e desapareciam quase miraculosamente. Tudo fascinante! Mas o pior era que a tudo isto se juntava um enorme medo, o medo de rolarem pela Rocha pedregulhos e ribanceiras, como acontecera outrora e cujos vestígios eram bem visíveis para qualquer lado que se olhasse.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:05

TODOS OS NOMES

Quinta-feira, 17.03.16

Os nomes das pessoas servem para identificá-las no seu relacionamento e na sociedade e são a única forma de se associarem, o que dura por toda a vida e subsiste para além da morte. Os nomes, para além de terem um significado que a maioria dos que os usam desconhece, também podem definir o caráter e a personalidade de cada pessoa. Eles ainda podem influenciar positivamente ou negativamente a vida a quem são atribuídos. Mas o mais interessante ainda é que os nomes nunca são escolhidos pelo próprio, mas sim pelos pais ou por alguém que os substitua e têm, geralmente uma pequena história mais não seja a de o simples relacionamento com algum antepassado muito próximo.

Lá em casa, algures na Assomada, na década de quarenta e no início da de cinquenta, nasceram seis rebentos a que se impunha, naturalmente, escolher e por um nome. Na maioria dos casos parece não ter sido difícil a João e Angelina tomar uma decisão onomástica sobre cada um dos filhos.

Assim, o primogénito, nado no último ano da década de trinta, como era costume na maioria das famílias da Fajã Grande naqueles tempos, recebeu o nome do padroeiro da freguesia, José. Para além de homenagear o esposo da Virgem Maria e pai adotivo de Jesus, mantinha-se uma antiga tradição e, além disso, perdurar-se-ia a memória do avô materno, também ele chamado José, por ter sido o primogénito.

Seguiu-se uma menina e o terceiro parto foi um rapaz. Nascidos já em plena década de quarenta, num tempo em que o relacionamento com os familiares maternos da Fontinha parecia estar em galopante e acentuada turbulência, receberam os nomes dos avós paternos Maria de Jesus e António. Chegou o quarto rebento, por coincidência, o autor destas linhas. Apesar de decrescente e em decadência acentuada, a turbulência ainda existia, embora em menor escala, mas deixara vestígios. Foi o pai que decidiu:

- Vai chamar-se Carlos em homenagem a um dos meus irmãos emigrado para a América. Entre todos os que para lá foram, é o que mais me tem ajudado e que, além disso, tem um filho com o mesmo nome.

Para além do mais, o primo meu homónimo, era mordomo da irmandade de São Pedro, do qual meu pai era procurador. Por altura da festa era o meu tio que pagava a carne, mandando o dinheiro da América. Porém éramos nós que a recebíamos juntamente com o pão.

A seguir veio outra menina. Meu pai entendia e desejava que se chamasse Helena. À semelhança do irmão Carlos, Helena era a irmã que mais consideração tinha por ele, que mais o ajudara e que ele mais amava. Mas as tias da Fontinha, agora com as pazes feitas, entenderam que não devia ser assim. Helena não era nome bonito e além disso já havia nomes que sobejassem do lado paterno. A criancinha agora nada, havia de herdar um nome do lado materno. Mas a oposição dos pais parece ter sido clara:

- Se não tem nome do lado da Assomada também não o terá do lado da Fontinha. E assim, a segunda menina chamou-se Vitória, nome aliás muito comum na freguesia, naqueles tempos.

Finalmente chegou o último rebento. Um rapaz que, desta feita, herdou nome das bandas da Fontinha, creio que não tanto para satisfazer as exigências das tias mas porque o tio em causa, para além de irmão da minha mãe era seu afilhado. Chamou-se Francisco.

 

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UM RETALHO DA HISTÓRIA AÇORIANA

Sexta-feira, 04.03.16

A Fajã Grande, incontestavelmente, faz parte integrante da História dos Açores. Primeiro porque é a freguesia mais Ocidental da Europa e também, porque à sua frente, no mar, lá ao fundo, mas fazendo parte da sua área geográfica, temos oportunidade observar o extremo ocidente da Europa que é o majestoso e enigmático o Monchique. Dada a sua localização, este ilhéu serviu como ponto de referência para acertar as rotas e verificar os instrumentos de navegação, ainda na altura em que esta era feita com base nos astros. Trata-se duma enorme e altíssima torre basáltica, encravada no meio do oceano, situado a cerca de cinco milhas de terra. O interesse, a importância e o significado deste fragmento de lava adormecido e abandonado no meio do Atlântico, advêm do facto de ele ser o "pedaço de terra" mais ocidental de Portugal e da Europa, servindo, assim, em tempos idos, como marco e de referência a todas as embarcações oriundas, quer das Américas, quer da Europa e da África, tendo também a função de ser um ponto de referência para acertar as rotas e verificar os instrumentos de navegação.

O Monchique também se revela de grande interesse para os biólogos, para os estudiosos da fauna marítima e para os mergulhadores submarinos, uma vez que são numerosas as cavidades submarinas nas suas encostas e no seu sopé e, além disso, está no centro de uma região de grande diversidade biológica, com cerca de uma centena de espécies marinhas identificadas, ao seu redor. Interesse e significado tem ainda o Monchique por ser uma espécie de ex-libris da Fajã Grande, por fazer parte da sua história, da sua cultura, dos seus costumes e até dos seus ditos ou falares. Na verdade, consta que alguns dos nossos avós, em tempos muito remotos, dançaram a chamarrita em cima do Monchique, que outrora se realizavam excursões e passeios do Porto da Fajã exclusivamente para o Monchique, a fim de os visitantes poderem observar e ver de perto as suas rochas e encostas, as suas veredas e as espécies marinhas que o revestem e circundam. Entre estas viagens, algumas destinavam-se exclusivamente à apanha de lapas, que as havia por lá grandes e boas, ou até de cracas, embora estas fossem de mais difícil captação e menos rendosas a comer. Muito usada na Fajã Grande era a expressão “por trás das raízes do Monchique”, a significar que algo era muito difícil ou até impossível de ter acesso, ou ainda esta outra “Quem te dera debaixo das raízes do Monchique” a indicar que se não gostava ou não se queria ver alguém.

Olhando na direção oposta, para a rocha que contorna a ampla fajã, podem ser observadas várias cascatas que tornam este local numa das mais bonitas freguesias da Ilha das Flores, quiçá dos Açores. Uma destas cascatas cai num poço muito conhecido dos florentinos e de quem visita a ilha, que é o Poço do Bacalhau, sobre o qual se conta algumas lendas e estórias. Segundo uma delas, há muitos, havia aportado aos mares da Fajã Grande um navio muito estranho e misterioso, deixando em cima dos rochedos negros, um homem. Bondosas e humanitárias que eram as pessoas da localidade, logo que encontraram o homem, de imediato se apressaram a ajudá-lo, dando-lhe alimentos, roupas, agasalhando-o e dando-lhe abrigo, durante a noite. Mais tarde, porém, vieram a saber que o homem era um deportado vindo de terras muito longínquas, onde havia praticado inúmeros crimes e cometido as mais vis barbaridades. Havia sido condenado e, para ser castigado para sempre, fora enviado e abandonado pelos seus conterrâneos na primeira ilha a que aportaram e que julgavam deserta, a fim de que se livrassem dele. Ficaria ali, sozinho, até ao fim dos seus dias, acabando por sofrer a paga de todo o mal que havia feito. Mas teve sorte o energúmeno, pois a ilha era habitada e o povo daquele lugar bondoso e caritativo, não se importando com o passado malévolo do facínora, tratando-o com carinho, respeitando-o com benevolência, aceitando-o com bondade. Mas o malvado não se comoveu com tamanha generosidade e, passados poucos dias, começou a assaltar, a roubar e a cometer as maiores barbaridades e as mais vis infâmias, sobre o povo, pobre, inocente e bondoso do pequeno povoado que o havia acolhido e ajudado inicialmente. O sacripanta não se coibia de roubar as colheitas aos pobres, de chibatear as pessoas que lhe ofereciam resistência ou o contrariavam e, sob chicote e ameaças, exigia às pessoas que trabalhassem para ele sem lhes pagar e obrigava os habitantes do humilde lugar a acarretar pedras para construir a sua própria casa. Depois da sua morte, em vez de ter uma sepultura condigna, foi atirado ao Poço do Bacalhau, a fim de ali, naquele buraco sem fundo, ter o seu purgatório. Era essa a razão por que os todos os dias à noite, quem passava na Ribeira das Casas e se dirigia aos moinhos da redondeza, ouvia, vindos das profundezas do poço, gritos desesperados e aterradores que assustavam tudo e todos. Era a alma do deportado que ali expiava as suas culpas e pecados.

Muitos outros topónimos são reveladores da história açoriana como Mateus Pires, Vale do Linho, Lugar da Bidarta. Lavadouros, etc ou então de lendas como a da Furna do João da Macaca e da Maria Peguinha, das Mexideiras, do Peito, dos Dez Reis, ou do Calhau das Feiticeiras, do Touro, etc.

Esta freguesia ainda encerra em si uma parte muito importante da história dos Açores pois foi para aqui que vieram os dois primeiros botes baleeiros das Flores e, provavelmente dos Açores.

Atualmente a Fajã Grande é uma zona balnear muito procurada pelos veraneantes que lhe atribuíram o epíteto de Algarve das Flores pois é sem dúvida um local ótimo para férias.

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O PONTO MAIS OCIDENTAL DA EUROPA

Terça-feira, 01.12.15

O ponto mais ocidental da Europa é o ilhéu do Monchique, localizado a oeste da ilha das Flores, mais concretamente, em frente à orla costeira da Fajã Grande, também ela a localidade mais ocidental da Europa. Assim, dos vários ilhéus situados ao longo da costa das Flores, o mais emblemático, o mais mítico, o mais exuberante e o mais conhecido é o Monchique. Tudo, porque este o pedaço de lava vulcânica mais ocidental da Europa, serviu nos tempos da navegação astronómica, como ponto de referência para acertar as rotas e verificar os instrumentos de navegação aos inúmeros navios e embarcações que por ali passavam ligando a Europa e a África à América. Trata-se duma enorme e altíssima rocha basáltica, em forma de torre, achatada na parte superior, encravada no meio do oceano, situado a cerca de cinco milhas da Ponta dos Pargos, na Fajã Grande. O interesse, a importância e o significado deste fragmento de lava adormecido no meio do Atlântico, na verdade, advêm do facto de ele ser o ponto mais ocidental de Portugal e da Europa.

O Monchique, atulhado de cracas, sargaços, algas, lapas e búzios, é um enorme rochedo de sólido basalto, provável resíduo de um cone litoral desmantelado pela erosão marinha. Apresenta uma forma irregular, o que confere aos seus fundos circundantes uma espécie de microrrelevo acentuado. São também essas formas irregulares que, em parte, permitem que seja visto com formas diversas, quando observado de longe e de lugares diferentes, como da Fajã, do Albarnaz, do Corvo ou até do alto da Rocha.

O Monchique também se revela de grande interesse para os biólogos, para os estudiosos da fauna marítima e para os mergulhadores submarinos, uma vez que são numerosas as cavidades submarinas nas suas encostas e no seu sopé e, além disso, está no centro de uma região de grande diversidade biológica, com cerca de uma centena de espécies marinhas identificadas, ao seu redor. Mas a razão principal do seu interesse e importância, advêm-lhe do facto de, na realidade, ele ser o ponto mais ocidental da Europa e disso se orgulha o concelho das Lajes e suas gentes.

Interesse e significado tem também o Monchique por ser uma espécie de ex-libris da Fajã Grande, por fazer parte da sua história, da sua cultura, dos seus costumes e até dos seus ditos ou falares. Na verdade, consta que alguns dos nossos avós, em tempos muito remotos, dançaram a chamarrita em cima do Monchique, que outrora se realizavam excursões e passeios do Porto da Fajã exclusivamente para o Monchique, a fim de os visitantes poderem observar e ver de perto as suas rochas e encostas, as suas veredas e as espécies marinhas que o revestem e circundam. Entre estas viagens, algumas destinavam-se exclusivamente à apanha de lapas, que as havia por lá grandes e boas, ou até de cracas, embora estas fossem de mais difícil captação e menos rendosas a comer. Muito usada na Fajã Grande era a expressão “por trás das raízes do Monchique”, a significar que algo era muito difícil ou até impossível de ter acesso, ou ainda esta outra “Quem te dera debaixo das raízes do Monchique” a indicar que se não gostava ou não se queria ver alguém.

Para a ganapada miúda de outrora o Monchique entrava em muitas das brincadeiras, pois sempre que se divertiam com barcos de madeira ou de papel, em qualquer pequeno lago, poço ou celha cheia de água, lá estava sempre no meio, uma pedra negra, de plantão, a representar e simbolizar o Monchique. Outras vezes faziam-se apostas, quando um barco surgia no horizonte, a ver quem adivinhava se ele passaria por dentro ou por fora do Monchique.

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A FAJÃ GRANDE HOJE

Quinta-feira, 22.10.15

Visitar a ilha das Flores, hoje, é entrar num paraíso de encanto, num remanso de sonho, num recanto de serenidade, num enigma de silêncio, um éden de tranquilidade. O lugar ideal para centro da estadia e de assentar arraiais é o lugar da Cuada, outrora um pequeno povoamento pertencente à Fajã Grande, hoje recuperado e transformado num aldeamento turístico. As cerca de trinta pessoas que que viviam na Cuada, na década de cinquenta, abandonaram-na por completo na década seguinte. Alguns dos seus habitantes, sobretudo os mais idosos, deslocaram-se para a Fajã, onde passaram a residir, enquanto a maioria emigrou para a América à procura de uma vida melhor. Totalmente abandonada, os campos encheram-se de fetos e cana roca, as paredes caíram, as casas arruinaram-se, os caminhos encheram-se de ervaçais e silvadas. As madeiras das portas e das janelas apodreceram. As telhas começaram a cair e os telhados a ruir. A Cuada transformou-se numa espécie de local fantasma, deserto e sem vida.

Com a efetivação de um projeto de aldeamento turístico, tudo mudou. E a Cuada hoje, totalmente recuperada, é procurada por quantos pretendem gozar uns dias de repouso e de contacto com a natureza pura, na luta por uma qualidade de vida. Ali se alojam à procura do que os seus habitantes abandonaram, isto é, de isolamento, tranquilidade, simplicidade e das raízes que nos ligam a todos à terra e à natureza. A Cuada, na verdade transformou-se num idílico lugar de descanso e repouso, onde não circula qualquer veículo motorizado, onde se caminha por passeios de calhaus irregulares, onde as paredes das casas mantêm-se de pedra, fieis ao traço da arquitetura rural da ilha, onde há vacas nos campos, coelhos nos pátios, onde se acorda como suave canto dos pássaros e se adormece ao som mavioso do canto das cagarras e do sibilar do vento e murmurar do oceano.

As casas de acolhimento, eximiamente decoradas no seu interior, estão dispersas pelas ruelas, separadas por prados e muros de pedra, tendo quase todas jardins próprios, povoados por coelhos bravios e pássaros.

Mas ao visitar as Flores, hoje, não se pode nem se deve apenas ficar na Cuada. Há muito mais a ver, a apreciar e a saborear. Por todo o lado se encontra tranquilidade, silêncio, contacto com a natureza pura e original, paisagens deslumbrantes, vistas maravilhosas e percursos bem marcados para caminhar. Há várias cascatas e lagoas para descobrir, uma grande abundância de floresta Laurissilva, arbustos retorcidos e zonas de musgo espesso, as célebres burrecas. Ali perto, por uma estreita vereda um passeio a pé até à Eira da Cuada, debruçada sobre o mar, lugar mítico onde outrora os habitantes da Fajã Grande permaneciam durante a missa celebrada na igreja da Fajãzinha, nos dias em que o forte caudal da Ribeira Grande os impedia de atravessá-la. Era aí também que se esperavam os romeiros em dia de vapor. Caminhando-se em sentido oposto, na direção da Rocha facilmente se demanda Poço da Alagoinha, caminhando por um trilho de pedras irregulares, entre árvores altas, ao som dos passarinhos e do murmúrio de água a correr. Na Rocha dezenas de pequenas cascatas, pequenos afluentes e subafluentes da Ribeira o Ferreiro e, mais além, da Ribeira Grande que desabam em catadupa pela Rocha vindo desaguar e encher o maravilhoso e enigmático lago que espelha toda a beleza envolvente e todo o verde que a rodeia. Se se caminhar na direção da Fajã Grande, pelo antigo caminho por onde outrora transitavam os habitantes da Cuada quando vinham à missa, à escola, às festas, às compras, poderão contemplar-se as belezas da mais ocidental freguesia açoriana. Percorrer o litoral, visitar as baías e enseadas, refrescar-se nas águas do Cais, do Porto Velho ou na piscina natural em que se transformou o antigo caneiro das Furnas, saborear os manjares dos seus restaurantes, visitar a Ponta e ermida da Senhora do Carmo, aproximar-se do Poço do Bacalhau observando os antigos moinhos plantados nas margens da Ribeira das Casas, subir o Outeiro, o Pico da Vigia da Baleia ou até a Rocha e saborear e a fresca e doce água da Fonte Vermelha, uma das melhores e mais fresca da ilha. Para quem dispuser de automóvel poderá apreciar as localidades e belezas da ilha, com destaque para a Rocha dos Bordões e as lagoas. Na ilha das Flores existem sete crateras vulcânicas que se transformaram em lagoas, todas bem sinalizadas ao longo da estrada: a Funda, a Comprida, a Seca, a da Água Branca, a Funda das Lajes, a Rasa e a da Lomba. Também merecem uma visita o Farol da Ponta do Albernaz com o Ilhéu de Maria Vaz e a magnífica baía dos Fanais a sul e o Corvo a norte, assim como a Gruta dos Enxaréis: uma grande cavidade à beira-mar, outrora esconderijo de piratas, mas cuja visita só poderá ser feita de barco ou numa escapadela ao Corvo.

Existem também excelentes trilhos devidamente assinalados e de onde se disfrutam belíssimas paisagens, com destaque para dois. O trilho da Fajã de Lopo Vaz. Trata-se de um interessante percurso sempre a descer até à fajã, situada bem no fundo de uma vertente verde escarpada bela envolventes e o trilho que parte da Ponta da Fajã em direção a Ponta Delgada, ao longo de uma falésia junto ao mar, com vistas soberbas sobre a Fajã Grande e o Ilhéu de Monchique, o último pontinho de terra da Europa.

Acrescente-se que a própria Fajã Grande e a ilha das Flores dispõem hoje de excelentes restaurantes, com destaque para o Pôr do Sol, o Pescador em Ponta Delgada, onde a especialidade é peixe fresco, pescado no próprio dia e na Fajã Grande o Maresia e o Zona Balnear. No Maresia, que tem uma esplanada rente ao mar e uma decoração alternativa com sofás usados, dizem que se come muito bem.

Por tudo isto e pelo que têm hoje muito diferente de outrora, vale a pena visitar a ilha das Flores e sediar-se na Fajã Grande, nomeadamente no aldeamento turístico da Cuada.

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A FREGUESIA DA FAJÃ GRANDE

Quinta-feira, 17.09.15

A Fajã Grande é uma das freguesias mais povoadas do concelho das Lajes, apesar de atualmente ter menos de 200 habitantes. Localizada na costa oeste da ilha das Flores, confronta com as freguesias das Lajes, da Lomba, de Ponta Delgada e Fajãzinha e representa o lugar mais ocidental de toda a Europa. Um pouco afastado encontra-se o ilhéu de Monchique, o último sinal físico que separa o Velho do Novo Mundo, assim descrito pelo padre José António Camões, na sua obra «Roteiro exato da costa da Ilha».

Administrativamente, só na segunda metade do século XIX, a Fajã Grande obteve a sua autonomia política e religiosa. A freguesia de Nossa Senhora do Remédios das Fajãs, atualmente da Fajãzinha, a que pertencia o lugar da Fajã Grande, havia sido instituída em 1676 englobando os lugares da Ponta, Fajã Grande, Caldeira e Mosteiro. Nesse ano haviam sido desanexados os lugares da Ponta da Fajã, relativamente ao da Ponta Delgada, e do Mosteiro, relativamente às Lajes. Ora, só passados duzentos anos, a provisão do Bispo de Angra datada de 1861 institui a paróquia de São José da Fajã Grande em conjunto com as povoações da Ponta e Cuada.

Através da colorida descrição que Gaspar Frutuoso nos oferece na sua obra «Saudades da Terra», pode-se inferir que na época a Fajã Grande era centro de grandes transações comerciais, chegando mesmo as caravelas da Índia a encontrar aqui um precioso desembarcadouro. Por outro lado, o autor faz ainda uma clara referência à riqueza e variedade do pescado da região, ainda hoje preservado. Apesar de atualmente não registar tão grande azáfama a Fajã Grande continua a encantar quem a visita, pela amenidade do seu clima, pela transparência das suas águas ou pelas suas piscinas naturais, enfim, assume-se hoje como uma verdadeira estância de veraneio para todos os florentinos e muitos visitantes de outras ilhas, de outras regiões do país e até do estrangeiro.

De todos os lugares que compõem esta pitoresca freguesia, dois sobressaem pelas suas paisagens naturais: a Ponta da Fajã Grande e a Cuada.

A Ponta da Fajã é uma localidade imaginária e de sonho, num mundo marcado pela solidão e pela falta de determinados valores. Desde que serviu de fronteira entre as freguesias de Nossa Senhora do Remédios de Fajãzinha e de São Pedro da Ponta Delgada, o destino desta região ficou para sempre traçado. Atualmente, com as suas cascatas de águas e escorrer pelas escarpas abaixo, a Ponta da Fajã Grande é um idílico lugar onde vivem menos de 20 pessoas. Com tradições profundamente rurais, aqui ainda se ouve o cantar dos pássaros, o murmurar das águas e o marulhar do mar, por vezes intempestivo.

A Cuada, palavra que deriva de saracotear, ou seja, "andar de um lugar para o outro", foi uma povoação que, desde cedo, sentiu o fenómeno da desertificação. Este airoso terraço entre a Fajã Grande e a Fajãzinha, encontra-se assim associado, na mais pura tradição florentina do aldear, aos contrastes e dissabores que, com o tempo, foram surgindo na Fajã e que levaram algumas famílias a abandonarem a sua terra natal. Hoje, quase todo o povoado foi recuperado para fins turísticos o que constitui sem dúvida um exemplo de turismo rural de sucesso. Aldeia da Cuada, assim batizada, apesar de a palavra “aldeia”, segundo Pedro da Silveira, não ser usada nos Açores para designar qualquer lugar povoado, é um sítio convidativo à paz e ao bucolismo que a ilha das Flores inspira.

Porque as pessoas são parte integrante da História de cada região, a freguesia da Fajã Grande orgulha-se de ter sido o berço de algumas personalidades que, no seu tempo e à sua maneira, contribuíram para o seu engrandecimento. De entre as várias individualidades florentinas, destacam-se o padre José Luís de Fraga, pelos seus dons de orador, escritor e músico; e Pedro da Silveira, historiador e poeta, com vários trabalhos publicados.

 

NB - Dados retirados do Fórum ilha das Flores e da C.M. das Lajes das Flores.

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A ESCOLA MASCULINA

Terça-feira, 09.06.15

Até aos finais da década de quarenta havia duas escolas primárias, na Fajã Grande. Uma masculina, outra feminina. A escola masculina funcionava na loja ou primeiro piso da casa do Senhor Padre Pimentel, sendo um dos seus mais prestigiados mestres, o professor Orlando. Já não frequentei esta escola, uma vez que me matriculei na primária em Abril de 1952, por condescendência da Dona Ana Freitas, professora na então escola mista, que funcionava na Casa do Espírito Santo de Baixo. O professor Orlando era, segundo rezam as crónicas de então, um professor muito exigente e rigoroso, não se abstendo de abonar umas valentes reguadas aos que se distraíam, davam erros ou não aprendiam, mas era um homem de grande cultura e sensibilidade artística. Ensaiou vários teatros na freguesia e compôs alguns poemas que, musicados, ainda hoje ecoam nos ouvidos dos mais velhos. Talvez o mais conhecido tenha sido uma espécie de hino da Rua Direita: Rua Direita, em que eu hoje moro/Ela que enfeita a Fajã que adoro/Novos e velhinhos têm que a passar/E até os parezinhos que vão a casar…

Nesta altura o ensino primário já era obrigatório em Portugal e os rapazes entravam para a escola aos sete anos, só se podendo matricular quem tivesse sete anos feitos no início de outubro de cada ano, data em que abria a escola. Mas a escolaridade obrigatória era apenas de três anos, divididos em três classes, para crianças com idade compreendida entre os 7 e os 12 anos. Quem não obtivesse aproveitamento e não conseguisse o primeiro exame, só podia sair da escola aos doze anos de idade, ficando com o estatuto de analfabeto. Era, pois, necessária a realização do exame do primeiro grau, exame este, extinto mais tarde. Os pais de cada criança eram responsáveis pelo cumprimento desta obrigação, pelo que sempre que ocorresse incumprimento, eram obrigados a pagar uma multa. Assim a maior parte das crianças saía após este 1º exame ou depois de completar com aproveitamento a terceira classe, uma vez que não era obrigatório o segundo exame, após a quarta, o qual só podia ser feito nas Lajes. Aquele exame, no entanto, já era bastante exigente, sendo constituído por uma prova escrita e outra oral. A prova escrita obrigava aluno a um ditado de 8 a 10 linhas, extraído do livro de leitura, uma redação muito simples com o mínimo de quatro linhas e a resolução de cinco problemas de aritmética de uso comum, não podendo envolver qualquer um deles mais de uma operação. As provas escritas tinham uma duração total de cento e vinte minutos, com um intervalo de quinze. Eram feitas numa folha de papel almaço, de trinta e cinco linhas, na qual era vincada, antes do início da prova, a margem de um quarto da largura do papel, na qual o aluno não podia escrever. A prova oral era constituídas pela leitura e interpretação de um texto do livro de leitura do aluno, escolhido pelo professor, por vezes abrindo à sorte, e pela resolução, no quadro preto, de problemas que não envolvessem mais de uma operação. A duração da prova era de quinze minutos por cada examinando e entre as provas escrita e oral havia um intervalo mínimo de sessenta minutos.

Alguns rapazes faltavam com alguma frequência à escola para poderem ajudar os pais, não havendo grande controle no pagamento das multas.

Nesses tempos, na escola, não se aprendia apenas a ler e escrever e a História de Portugal, Aritmética e as Ciências. Havia momentos em que se aprendia moral, religião e bons costumes. Aos sábados de manhã havia escola, geralmente com aulas de canto coral, educação cívica, jogos e brincadeiras. As crianças aprendiam a brincar e a cantar, nomeadamente o Hino Nacional, o Hino da Escola. Consta que aquele professor também ensaiou teatro com as crianças.

Nos intervalos os rapazes corriam para o pátio da Casa do Espírito Santo de Cima que ficava ali perto e jogavam ao peão, o Burro do Lamé, à Barra, ou com a navalha no monte de areia e, embora mais raramente, às pedrinhas.

Os livros e os cadernos eram levados num saco de serapilheira juntamente com a pedra, um retângulo de ardósia encaixilhado numas tiras de madeira, onde se escrevia com um lápis também de ardósia e se apagava com o bafo da boca. O lápis de ardósia que custava dez centavos ia-se amolando e desgastando, mas era preciso aproveitá-lo enquanto escrevesse. Por fim, quando já não se conseguia pegar bem com os dedos, metia-se num pequeno e fino canudo de cana que se ia apanhar à ladeira, onde elas abundavam.

A escola eram um amplo salão com porta e janelas para a Rua Direita e para as Courelas. As carteiras eram de maneira e postavam-se, em filas para a secretária do professor, ao lado da qual ficavam os quadros pretos e um mapa de Portugal e outro do mundo. Pregado na parede um cruxifixo e aos lados as fotografias de Salazar e de Carmona.

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publicado por picodavigia2 às 00:04

SUBIR A ROCHA

Terça-feira, 07.04.15

Quando eu era criança adorava subir a Rocha da Fajã Grande. É verdade que era uma tarefa árdua, cansativa e desgastante. Eram trinta e duas voltas, cheias de degraus e pedregulhos. Sempre a subir. Mais de trezentos metros. Mas era gratificante, muito belo e adorável. À medida que se ia subindo, sobretudo a partir do Descansadouro ou da Furna da Caixa, começava a desfrutar-se de uma bela vista sobre a Fajã Grande. As relvas, as terras de mato, os cerrados lavradios, as casas, as ruas, o baixio, o cais, o Monchique e a Baixa Rasa. Tudo se via lá do alto como se fôssemos a bordo de um avião. Além disso as voltas da Rocha estavam plenas de fascínio e magia. Algumas tinham nome, outras destacavam-se por nelas existir uma furna. A primeira, a maior e a mais útil furna, era a do Peito. Situava-se logo no início da subida, na décima volta e tinha a forma de uma grande caverna encravada num sítio mais saliente e pedregoso da Rocha cuja forma se assemelhava a um gigantesco peito humano. Por isso se chamava “Furna do Peito”. Esta furna tinha uma dupla finalidade pois servia de abrigo da chuva, de proteção dos ventos e resguardo dos temporais, mas em dias de bom tempo também era útil, pois era lugar de descanso, de repouso e de retoma de fôlego. Mas era também uma espécie de templo rústico, onde entrava quem subia a Rocha, sobretudo quem sentia medo ou revelava maior cansaço e dificuldade durante tão íngreme escalada. A entrada na furna do Peito dava ânimo, fornecia calma, tranquilidade e, sobretudo, a esperança de chegar ao cimo, livres de qualquer perigo ou salvos duma eventual derrocada. Por isso havia sido colocada, numa das paredes interiores da furna, uma grande cruz de madeira. Ao redor de todo o seu interior havia-se construído uma espécie de bancada feita de pedras toscas, onde os transeuntes que ali entravam se sentavam a descansar e a retemperar forças. Muitos homens sentavam-se ali para fumar um cigarro e os que iam ao leite, por vezes, combinavam encontrar-se ali, a fim de subirem em conjunto. Por sua vez, a Furna da Caixa, situada a meio da Rocha, era bastante mais pequena, tinha muito pouca profundidade e situava-se, rigorosamente, a meio da subida. Quem ali chegava, pelo menos, tinha a certeza de que já galgara a primeira metade de tão escabrosa ascensão. Na volta onde se situava esta furna havia uma espécie de miradouro ou descansadouro, com um muro protetor e com uma banqueta em forma de semicírculo e que servia simultaneamente de local de descanso e de observação uma bela vista. Ao perto o verde das relvas da Figueira e das Águas e as terras de mato do Pocestinho e dos Paus Brancos; mais além as belgas da Bandeja e das Queimadas, os cerrados do Alagoeiro e do Mimoio e depois as casas com o vermelho escuro dos telhados a misturarem-se com o verde amarelado das courelas. Por fim e a delimitar a imensa fajã a mancha negra do baixio, recortada por caneiros e enseadas a entrelaçarem-se com o oceano imenso e infinito onde se haviam cravado desavergonhadamente, lá ao longe, a Baixa Rasa e o Monchique. Finalmente, logo a seguir à Fonte Vermelha, a mítica Furna dos Dez Réis, a última, a mais pequena e, provavelmente a mais profunda. Tão pequena que nem uma cabeça humana caberia na sua entrada, tão funda que não se lhe conhecia a profundeza. Era no entanto uma das mais importantes e mais almejada de atingir por todos os que subiam aquele inexaurível alcantil. Por um lado, chegar à Furna dos Dez Réis era ter a certeza de que faltavam apenas dez voltas para chegar à cancela do cimo da Rocha. Por outro lado aquela furna tinha um poder mágico e sobrenatural: quem metesse lá dentro uma mão bem fechada e formulasse um desejo que não fosse muito ambicioso, esse desejo ser-lhe-ia concedido. Mítica também era a Fonte Vermelha com a sua água fresquíssima e saborosa. Água puríssima e como que miraculosa, a daquela fonte, porque suavizava o cansaço, balsamizava o esgotamento físico de quantos por ali passavam quotidianamente e sobretudo dos que subiam aquele alcantil escarpado e abrupto apenas de vez em quando. A água era pura e fresca e servia para saciar a sede, descansar o corpo e aliviar a tormenta. Dizia-se que era a melhor água da ilha das Flores, A fonte era contínua, permanente e eterna. É que a água jorrava, incessantemente, de uma pequena e tosca bica, encravada num tufo da Rocha, onde cada transeunte sequioso colocava uma folha de incenso ou de sanguinho, para ter acesso mais higiénico e eficiente ao consumo do cristalino e diáfano fiozinho. Parecia que quanto mais se bebia mais água brotava do tufo. Todos os que por ali passavam dela bebiam todos os dias e todas as vezes e, não raramente, depois de beber, voltavam a beber muitas outras vezes, quer quando subiam quer quando desciam e o mais curioso é que a fonte nunca secava. Corria sempre, dia e noite, jorrando um frágil mas contínuo veio, lá bem do interior da terra. Mesmo que ninguém a procurasse para beber, a água continuava a brotar e caía solitária mas sussurrante, formando, no chão, uma poça que, depois de cheia e de nela os animais também beberem, ainda escoava pelos degraus e encostas da Rocha, transformando-se num pequeno regato e enchendo com tons de verde, sons de suavidade e aromas de frescura todo aquele maravilhoso lugar – o lugar da Fonte Vermelha. Mas o que eu mais gostava era de chegar ao cimo da Rocha. Após o portal de entrada na primeira relva havia um largo, no cimo do qual existia uma enorme e bem desenhada bancada, protegida do vento norte por uma alta parede, Era aí que descansavam os homens que vinham dos lados do Queiroal, do Bracéu, ou do Curral das Ovelhas. Aproximando-me da beira da rocha observava o baixio com os seus recortes negros, começando na enorme baía da Ribeira das Casas e do Rolo, depois o Cais, a Ponta dos Pargos, onde se divisava perfeitamente a Poço do Cobre, uma espécie de piscina natural, com um calhau no meio. Era aí que a maioria da rapaziada aprendia a nadar, depois de fazer uma pequena iniciação na Poça do Farol. Quem conseguisse ir ao Corvo, isto é ao tal calhau do meio da poça tinha passaporte para ir nadar para o cais. Depois o Poceirão, com o Calhau da Barra espetado à entrada e já próximo da eira o Caneiro do Porto. Depois a baía da Via d’Água, o Rolinho das Ovelhas, Respingadouro, o Caneiro das Furnas, a Ponta da Coalheira, a Retorta, o Redondo e a Poça das Salemas, onde naufragou a Bidarta, já quase tapada pelo Pico da Vigia, A sul ainda era possível observar toda a zona da ampla Fajã, desde da Rocha até ao mar, incluindo a Cuada e a Fajãzinha. Uma adorável vista! Um belíssimo espetáculo!

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O BOTE BALEEIRO

Terça-feira, 18.11.14

Na Fajã Grande, nas décadas de quarenta e cinquenta, a frota baleeira era constituída por dois botes e uma lancha. O bote da baleia, também designado por canoa, era uma pequena embarcação, movida a remos ou à vela, muito rápida e ligeira, devido à sua leveza, o seu perfil adelgaçado e às suas linhas aerodinâmicas. Além disso era uma embarcação facilmente manobrável e de duas proas. Devido à necessidade de lhe impingir grande velocidade e fácil manobrabilidade, o bote baleeiro era construído com madeiras leves e tinha um formato pouco fundo, muito delgado e de linhas afiladas, de forma a obter um bom desempenho hidrodinâmico. Na Fajã Grande, a tripulação de cada bote baleeiro era constituída por sete tripulantes: o oficial, o trancador e cinco marinheiros remadores. Para além das funções de comando e chefia, competia ao oficial governar o bote, que o podia fazer de duas formas. Quando o bote navegava à vela, para o governar, o oficial utilizava o leme, se a embarcação era impulsionada pela força dos remos usava um sétimo remo, chamado esparrel, colocado à popa do bote, acima do encaixe do leme, que durante esta operação era retirado. Por sua vez o trancador, ou arpoador, eu antes de aproximar da baleira também exercia a função de remador, ia à proa, de onde, ao ver a baleia e sob as ordens do oficial, arremessava um forte e rijo arpão em ferro, com barbilha, encavado num cabo feito numa madeira pesada. Por sua vez os marinheiros seguiam todas as operações sentados sobre bancos que ligavam as bordas do bote, de costas para a proa e com os pés fincados nos bancos mais próximos, a fim de impingirem toda a sua força aos remos. Para ambos os botes da Fajã Grande os oficiais, geralmente vinham do Pico, mas o trancador e a restante campanha, salvo uma ou outra exceção, eram naturais da freguesia. Os dois melhores trancadores de sempre da Fajã foram o Urbano e o Francisco Inácio. Para além dos seis remos, do esparrel, do leme e dois arpões, sendo um suplente, o bote da baleia ainda era equipado com seis pás ou pagaias, destinadas a remar quando se aproximava da baleia ou baleias, para não a assustar e afastar com o marulhar dos remos, duas lanças, duas selhas com linhas, uma machadinha, um facalhão, um maço de madeira, dois queiques, um mastro, ma vela grande e outra pequena. Enquanto a lancha permanecia ancorada no Boqueirão, de noite e nos dias que não se arreava, os botes, terminada a safra, eram varados e guardados nas ramadas, sendo retirados destas logo após rebentar o foguete no alto do Pico da Vigia. Geralmente o bote que completava a companha mais cedo partia sozinho, a remos ou à vela, seguindo as instruções e os sinais dados pela colocação de grande pano branco, na encosta do Pico do Areal, Finalmente e mais atrasado, seguia o segundo bote, também pelos seus próprios meios ou rebocado pela lanha Santa Teresinha quando esta não ficava à espera de algum marinheiro que se atrasasse ou da saca de comida que uma ou outra mulher demorava a trazer ao porto. Não consta que na Fajã Grande se tenha guardado alguma destas relíquias de uma época de grande importância na economia da freguesia.

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publicado por picodavigia2 às 17:15

AS BURRECAS

Quarta-feira, 05.11.14

Grande parte do território da Fajã Grande situava-se no chamado Mato da ilha das Flores. Era sobretudo a parte este e as suas vizinhas nordeste e sueste, que abrangiam uma extensa faixa desde a Caldeirinha até à Água Branca e à Burrinha, configurando, grande parte desta fronteira com o concelho de Santa Cruz. Ora o Mato era todo ele ocupado por extensas pastagens, umas pertencentes a particulares, outras denominadas por concelho e que constituíam uma espécie de parcela comunitária, onde pastavam todas as ovelhas da freguesia. Estas pastagens, sobretudo as segundas, eram bastante pobres e inundadas por múltiplos montículos cobertos de musgo ou musgão, semelhantes a ondulações, que lembram as costas de um corcunda, pelo que muito provavelmente a palavra burreca terá aqui a sua origem, uma vez que na língua portuguesa, primitivamente, burreca significava carcunda, conforme se pode ler na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira.

Curiosamente estas ondulações, embora prejudiciais, porquanto ocupam grande parte do terreno e não fornecem nenhum alimento aos animais, são agradáveis à vista, formando uma interessante cobertura do solo, sob a forma de um manto fofo e ondulado. Como eram muito fofas e macias serviam de palco a muitas brincadeiras da criançada.

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publicado por picodavigia2 às 01:01

UM MAR DE ISOLAMENTO

Quarta-feira, 23.04.14

A freguesia da Fajã Grande ocupava, juntamente com a Fajãzinha, um ampla fajã delineada a Oeste pelo mar e a Norte, a Leste e a Sul por uma altíssima rocha que a separava do resto da ilha, isolando-a das restantes freguesias e das duas vilas – Santa Cruz e Lajes. O isolamento era tal que até as deslocações à freguesia mais próxima, a Fajãzinha, sobretudo no Inverno, tornavam-se bastante difíceis e por vezes impossíveis. Era necessário atravessar Ribeira Grande, muito larga, sem ponte e com um caudal fortíssimo. As margens ligavam-se por uma fila de enormes calhaus, mais ou menos alinhados, alguns ali colocados pela natureza outros pelos homens, relativamente próximos uns dos outros. Chamavam-se “passadeiras”. Quem se aventurasse a atravessar a ribeira, teria que o fazer saltando de calhau em calhau, o que, por vezes e para os menos afoitos, provocava escorregadelas que, para além do susto, encharcavam uma boa parte da roupa. Os animais atravessavam-na a pé ou a nado. A ribeira, no entanto, não dificultava apenas as deslocações à Fajãzinha. Era por ali também que se ia às vilas ou às outras freguesias. Apenas para Ponta Delgada se virava a Norte, subindo a rocha da Ponta, percorrendo um sem número de atalhos e veredas, muitas vezes saltando tapumes e atravessando relvas para encurtar caminho. Para os Cedros a as viagens eram ainda mais difíceis mas muito raras.

Todas estas deslocações para além de muito difíceis eram também demoradíssimas. As ligações por mar não existiam.

O isolamento era total, absoluto e permanente.

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publicado por picodavigia2 às 22:43

VISTA SOBRE A FAJÃ GRANDE

Terça-feira, 22.04.14

Do cimo do Pico da Vigia desfrutava-se, outrora de uma vista aprazível, deslumbrante e encantadora sobre a Fajã. Talvez mesmo uma das mais belas vistas de toda a ilha das Flores.

Logo à direita de quem sobe, divisava-se, ao longe o Oceano, ora manso e azulado, ora revolto e esbranquiçado de espuma, ornamentado pelo Monchique e pela Baixa Rasa, como que envolvendo e abraçando sem disfarce e sem vergonha, em semicírculo, a extensa fajã, delimitada a Norte pelo alto do Portal e a Sul pela Rocha dos Bredos. Depois, mais perto, a mancha negra, basáltica e rendilhada do baixio, com os seus caneiros e enseadas, onde se destacavam o Redondo, a Retorta, o Caneiro das Furnas, a Baia de Água e o Poceirão com o Calhau da Barra a fiscalizar passagem para o Atlântico. Mais além, espraiava-se a enorme Baía, debruada pelo Rolo, um amontoado inaudito de pedras polidas e arredondadas, estendendo-se ao longo da Ribeira das Casas e das Covas, desde o Pesqueiro de Terra ao Ilhéu do Cão, metamorfoseando-se de novo em baixio, lá ao fundo, junto à rocha da Ponta. Já mais perto, a igreja rodeada pelas casas ordenadas em arruamentos simétricos, umas brancas outras cinzentas, com os seus telhados avermelhados, aglomerando-se e misturando-se com cerrados, belgas e courelas onde florescia milho, batatas e couves. Mais perto ainda, já como que a prolongar-se pela encosta acima, pequenas pastagens e algumas terras de mato galvanizadas de um verde onde se misturavam incensos, faias, canas, fetos e cana-roca. Finalmente, mas muito distante, a Norte, já para além da ribeira do Cão, a Ponta, onde as casas se postavam em fila, muito bem arruadas na direcção da ermida da Senhora do Carmo, encravada nos contrafortes da rocha. Contrastando com o Oceano e do lado oposto, um semicírculo pétreo e altivo, formado pelas rochas da Ponta, das Covas, das Águas, dos Paus Brancos, dos Lavadouros e do Curralinho, povoadas de ribeiras e de cascatas onde a água se desprendia em fluxos ritmados e refulgentes sob o verde dos socalcos e andurriais e o negro das fragas, ravinas e penhascos.

Do outro lado e a Sul, a segunda parte do semícirculo. Muito ao longe as Rochas da Figueira e dos Bredos a protegerem a Fajãzinha, onde as casas, tão distantes e tão pequeninas, se assemelhavam a minúsculos salpicos esbranquiçados, como que confundidos com a enorme mancha verde das terras de mato, dos campos e das pastagens. Depois a Cuada com a velhinha Casa do Espírito Santo e pouco mais de meia dúzia de casas perdidas entre hortas e pomares, consubstanciando-se, mais adiante, na Eira-da-Quada, com o Oceano extenso, resplendoroso e sempre predisposto a receber o volumoso caudal da Ribeira Grande. Finalmente a rocha da Alagoinha povoado de um número quase infinito de grotas e cascatas, muitas delas dia e noite a escorrer, fazendo transbordar o Poço da Pata, sem encoberto pelo arvoredo do Vale Fundo, do Pocestinho e da Cabaceira.

No cimo daquele pico existia uma pequena casota branca, destinada a vigia de baleia, com uma enorme fresta no mural voltado para o Oceano, que permanecia sempre aberta sobre o mar para que o Vigia ali sentado horas a fio, avistasse as baleias e, de imediato, lançando um foguete lá do alto, avisasse os baleeiros cá em baixo, entretidos nas suas courelas em pequenas fainas agrícolas, de tão gratificante descoberta. Daí a razão do seu epíteto – Pico da Vigia.

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publicado por picodavigia2 às 18:20

AGUARELA

Terça-feira, 04.02.14

Fajã Grande! O ponto mais ocidental da ilha das Flores, dos Açores e, simultaneamente, o ponto mais ocidental de Portugal e da Europa. Olhando em frente, apenas o Monchique e o mar. O mar é tudo o que a vista humana alcança. Lá ao longe, apenas o horizonte a separar o mar do céu e a impedir que se enxergue, talvez com uns bons binóculos, aparentemente muito longe, mas ape­nas 3500 quilómetros, Manhattan, a personificação da América. Encastoada entre o Outeiro e o Pico da Vigia, com a rocha lá ao fundo, recortada por inúmeras quedas de água, a Fajã Grande, pintada de verde na Primavera e colorida de amarelo e lilás no Outono, teve uma enorme im­portância num passado recente, pois foi ponto de paragem dos baleeiros americanos e ponto de partida de grande parte dos emi­grantes açorianos que abalaram para os Estados Unidos e Canadá. No final do século XIX e na primeira metade do seguinte, a freguesia continuou a prosperar, adquirindo uma estrutura urbanística que a diferencia claramente das restantes freguesias rurais das Flores e até dos Açores. A rua principal da Fajã Grande, a Rua Direita, a que, mais tarde, foi dada o nome de um dos seus mais ilustres filhos, o Senador José Joaquim André de Freitas, é ladeada por um conjunto de imóveis de traça erudita e com dimensões e qualidade construtiva que atestam a riqueza que a emigração americana trouxe e a relação com a baleação propiciou. Por isso mesmo, foi muitas vezes considerada como um lugar que, embora pequeno, bem merecia o estatuto de vila. Hoje em dia é, essencialmente, uma zona balnear com cada vez mais pro­cura nos meses quentes de Verão. Entre a Fajã Grande e a vizinha freguesia de Ponta Delgada não existe qualquer tipo de liga­ção rodoviária. A única hipótese de per­correr os 12 quilómetros da costa oeste da ilha é através de um longo e irregular per­curso pedestre de cerca de 3 horas e meia, mas que é o mais interessante de todos. Ao longo do troço destacam-se paisagens deslumbrantes sobre as falésias, calçadas de pedra antigas, vários cursos de água, cascatas e a magnífica mostra de exemplares da vegetação endémica. A Fajã Grande conta, actualmente, com várias colectividades, entre as quais se destacam a Tuna Sol Mar da Fajã Grande, fundada em 1993, por Jesuíno Pimentel, sendo composta por amantes da arte musical, tocando e cantando as modas regionais e tradicionais da ilha das Flores. Embora actualmente inactiva, a Filarmónica União Musical Nossa Senhora da Saúde, instituída em 1950, com a oferta, por parte de todas as famílias, do leite do primeiro domingo de cada mês, divulgou, durante décadas, a arte musical das Flores por toda a ilha, actuando em festas locais e regionais. No desporto foi o Atlético Clube da Fajã Grande que também durante décadas ocupou dezenas de jovens na prática desportiva. A Casa do Povo de Fajã Grande, ainda hoje em actividade, possuindo uma moderna sede onde funciona um gabinete de assistência social e um salão polivalente para reuniões e espectáculos, continua a ser uma mais valia, para os seus cerca de actuais duzentos habitantes. Para além do porto e área de lazer adjacente, a freguesia apresenta alguns locais de interesse, nomeadamente a sua Igreja paroquial de São José, edificada em 1868, com a sua génese numa primitiva capela com a mesma invocação, erigida em 1755. Este templo possui dois altares no encontro do arco que separa a restante parte do edifício da capela mor. Possui ainda na Ponta uma ermida da invocação da Senhora do Carmo. A vigia da baleia, uma cabina empoleirada em cima no alto do Pico da Vigia e que se projecta sobre o mar, donde se goza um estupendo panorama. Em tempos serviu a indústria baleeira, assinalando a presença de cachalotes na zona e coordenando a caça pelos botes baleeiros baseados no porto da freguesia. A capela de Santo António, no antigo largo do mesmo nome a Casa do Espírito Santo no lugar da Cuada, datada de 1841 e teatro da festa homónima no dia de Pentecostes, são outros locais de enorme interesse. A Cuada é um lugar pertencente à freguesia, habitado até aos anos sessenta, altura em que todos os seus habitantes emigraram para a América. Foi, então, recuperado e transformado num local de turismo de excelência, como um enorme testemunho de perseverança a seguir. A Cuada, com as suas casas e ruas recuperadas, personifica uma viagem entre o passado e o presente, uma recuperação da traça rural das pequenas casas de pedra, no meio duma paisagem delirantemente bela e estranhamente acolhedora. A Fajã Grande orgulha-se de ter sido o berço de algumas personalidades que, no seu tempo e à sua maneira, se notabilizaram. De entre esses, destacam-se o padre José António Camões, o padre José Luís de Fraga, pelos seus dotes de orador, escritor e músico; o senador André de Freitas e Pedro da Silveira crítico literário, historiador e poeta, com múltiplos trabalhos publicados.

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publicado por picodavigia2 às 10:06

ÉCLOGA DOLENTE

Quinta-feira, 16.01.14

Aos anos que partiste (16 de Janeiro de 1966) mas ainda hoje persiste, na minha memória, a tua imagem: o enrugamento rúbeo das faces, a tez escurecida, o olhar aparentemente distraído mas persistente e apreensivo, rosto macilento, mascarado de boa-disposição quando, afinal, bem lá no teu íntimo, havia mágoa, sofrimento e dor em demasia. As tuas palavras eram raras, por vezes, até, mal pronunciadas e irreverentes mas sempre seguras, eloquentes, destemidas e verdadeiras, sobretudo, verdadeiras. O teu pensamento, muitas vezes, como que voava e se esvaía por entre horizontes perdidos e desfeitos, mas acarretavas, permanentemente, na memória, o “encanto” dos teus dias, (se não me entenderes esclareço que me refiro à minha mãe) tão precocemente arrancado do teu e do nosso quotidiano. Para ti, para mim e para os outros cinco fingias estar bem, mas todos sabíamos, que carregavas aos ombros, uma mágoa demolidora, uma dor aniquilante, um tormento desolador que mais tarde havia de destruir-te por completo, exterminar-te totalmente, deixando-nos sós, numa enorme desolação. Para todas as nossas perguntas tinhas sempre uma resposta, mesmo que fosse repleta de silêncio mas sempre motivadora e corajosa. Sei que te ufanavas de estar ao nosso lado e se, por vezes, te escondias ou afastavas, sozinho, era para não vermos as lágrimas que, abundantes, te corriam dos olhos e a melancolia que te ornava o peito. Esse teu optimismo mascarado consternava-me, porque eu sabia que não te conformavas com o nosso destino, que preanunciavas o nome das estrelas com temor e cuidavas que, em cada noite, o seu brilho se ia desvanecendo. Não soubeste, afinal que as estrelas, apesar de eternas, são empurradas pelo vento que, acicatado pelas nossas angústias, nos sopra dentro do peito e lhes muda os rumos e estimula o brilho. Por isso ficaste deveras preocupado comigo e com os outros e desgastaste, nesse soterrar de apreensões inquietantes, a tua precária saúde. Sei que é tarde para te dizer ou lembrar tudo isto, mas roubaram-me o tempo, levando-te antes que to dissesse.

Lembro-me de que quando saías de casa logo pela manhã cedo, caminhando no frio e na escuridão, na labuta quotidiana, no que consideravas ser o teu dever, deixavas-nos quietos, sossegados, no silêncio da madrugada, para não nos desfazermos, pois cuidavas que eramos nuvens de cristal. Sozinho, levavas as rezes aos campos, rachavas a lenha no madeiro duro, lançavas a mão à enxada como quem joga os dados sobre a mesa, numa palavra, arriscavas gastar o teu suor numa esperança guarnecida de fantasia. Depois era o trato amargo do arado a rasgar regos de inconstância sobre os projectos que não conhecias mas sabias que existiam. As mãos ficavam-te calejadas, os músculos tensos, os pés inchados, os ombros, inteiriçados e até os teus olhos tornavam-se velados e perdiam aquele brilho estonteante das madrugadas de outrora em que o reboliço da juventude te devia ter enchido de encanto. Vinhas, então, acordar-nos, para ouvirmos o canto dos pássaros, saborearmos o adocicado dos frutos, sentirmos o perfume das flores e corrermos atrás do esvoaçar das borboletas.

Deixaste-nos uma nobre herança. Revejo-te nela e recordo-te quando te confrontavas com a verdade, com a lealdade, com a sinceridade e com a honestidade, apesar da pobreza nobre e digna que te abalroava o quotidiano. Contestaste a opressão, disseste não à violência e pediste aos pérfidos que abandonassem as insídias, aos intolerantes que se transformassem em crianças e aos intransigentes que, pelo menos durante um dia, espalhassem uma nesga de docilidade.

Agora estás em silêncio, longe, muito longe, no espaço e o tempo. O tempo não volta, o espaço é infinito e é impossível transformar a morte em vida ou colar o passado no presente. Agora apenas posso conservar a memória (com a agravante de ser dolente) dos tempos de outrora, que desperdicei sem ouvir com mais atenção a tua voz de silêncio eloquente, sem ver com maior rigor o teu olhar sombrio, sem te acompanhar com deslumbramento no teu caminhar ofegante. Por isso, hoje (16 de Janeiro de 2014) persiste, na minha mente, apenas a tua imagem: o enrugamento rúbeo das faces, a tez escurecida, o olhar aparentemente distraído, o teu rosto mascarado de boa-disposição.

Ah! Ficou-me também a sublime herança da tua honestidade!

 

A morte pode acabar com a vida e creio que acaba mesmo, mas não desfaz a memória dos que partiram, muito menos a memória de um pai.

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publicado por picodavigia2 às 12:04

O SALGUEIRO DA RUA DIREITA

Quinta-feira, 02.01.14

O mais típico e o mais emblemático de todos os salgueiros que existiam, por aqui e por acolá, sobretudo nas margens das ribeiras e das grotas, juntamente com álamos e vimes, na Fajã Grande, nos anos cinquenta, era um que se podia observar na rua Direita, no interior da entrada do pátio da casa de José de Joãozinho.

Tratava-se de uma árvore aparentemente secular, com uma copa farta, robusta e muito verdejante, com uma parte dos ramos a se estenderem e prolongarem pela rua e uma outra para cima dum muro que ali existia, ao lado, a separar o pátio da casa do João Fragueiro da rua Direita. Essa generosidade do velho e causticado salgueiro, de partilhar uma boa parte da sua copa com a rua Direita e com o muro, tornava-o ainda mais mítico e mais emblemático e fazia com que a zona do muro bafejada pela sua sombra, uma vez que todo ele se destinava a bancada de descanso, se tornasse bastante cobiçada, muito desejada e frequentemente procurada por quantos pretendiam ali sentar-se, para descansar e para conversar. É que para além de poderem desfrutar duma bela e agradável sombra, usufruíam de toda a mística e simbolismo que aquela árvore misteriosamente encerrava.

Na realidade, desde os tempos mais remotos que as mais diversas civilizações e culturas atribuíram ao salgueiro, um potencial mágico e simbólico muito importante. Na China, por exemplo, o salgueiro era símbolo da imortalidade e decoravam-se as portas das casas com folhas de salgueiro, durante o solstício de Verão. Para que alcançassem a imortalidade os chineses cobriam os caixões dos seus mortos com folhas de salgueiro e ainda hoje, nas cerimónias fúnebres, o ataúde vai acompanhado de um ramo de salgueiro com bandeirinhas penduradas. Os próprios imperadores chineses ofereciam, aos seus cortesãos ramos de salgueiro para evitar os miasmas envenenados ou as pestilências, porque atribuíam ao salgueiro o poder de curar as chagas. Na mitologia romana, o salgueiro era uma árvore consagrada à deusa Juno e tinha a propriedade de deter qualquer hemorragia e evitar o aborto. Os índios consideravam o salgueiro uma árvore sagrada e na Grécia era símbolo de esterilidade, porquanto as mulheres gregas, para engravidarem mais facilmente, colocavam ramos de salgueiro em cima da cama antes de terem relações sexuais. Por sua vez a Bíblia revela-nos que o salgueiro, apresentado sobretudo no livro dos Salmos, tinha grande importância nos rituais e festas dos judeus, De acordo com a lei bíblica (Lev. 23:40), cada judeu tinha que juntar quatro espécies de árvores, amarrá-las juntas e abençoá-las. O salgueiro era uma delas. De acordo com a lei oral do judaísmo, o salgueiro não tem nem cheiro nem gosto e simboliza as pessoas ignorantes e pecadoras do povo de Israel. Na mitologia europeia o salgueiro está ligado às bruxas e, ainda hoje, na Europa existem muitas lendas onde se conta que as bruxas têm preferência para se ocultarem sob a forma de formosas raparigas nos ramos dos salgueiros. Além disso, também na Europa o salgueiro está relacionado com o luto, com a morte e com a melancolia. No norte da Europa e também nalgumas localidades dos Açores, no Domingo de Ramos usam-se ramos de salgueiro em vez de palmas e de ramos de oliveira. Na Inglaterra colocar um ramo de salgueiro no chapéu significa amor não correspondido. Naquele país também se atribui ao salgueiro grande valor medicinal, pois a casca do seu tronco pode ser usada para produção da aspirina; é aliás do nome latino do salgueiro, “Salix”, que deriva o nome do ácido acetilsalicílico, utilizado na produção daquele medicamento. Já na antiguidade Hipócrates, o pai da Medicina, utilizava as folhas de salgueiro para curar as dores de cabeça e a febre. Muitos outros povos fizeram o mesmo ao longo dos séculos. O salgueiro também é considerado como símbolo da pureza, talvez por ser um tipo de árvore que, absorvendo muita água da terra, permite aos solos respirarem melhor e muitos povos utilizaram o salgueiro para recuperar águas poluídas, devido à sua capacidade para absorver e transformar poluentes em matéria orgânica.

Naturalmente que os pacatos cidadãos da Fajã Grande e nossos antepassados, quando se sentavam à sombra do salgueiro do pátio de José de Joãozinho, na rua Direita, decerto que não tinham conhecimento, nem sonhavam com todo o potencial mágico e a gigantesca força mítica daquele salgueiro, talvez e apenas o procurassem para suspender na agradável sombra que pendia dos seus ramos, o peso das suas canseiras e trabalhos, para, sentados debaixo da sua frondosa copa, recordar sonhos e aliviar mágoas de outrora, como o fizeram os escravos hebreus, retratados na ópera Nabucodonosor de Giuseppe Verdi, quando, junto às margens do rio Eufrates, descansando dos seus trabalhos de escravos, recordando a sua pátria, tão bela e perdida e as suas cidades na dor sepultadas, cantavam: “Harpa de ouro dos fatídicos vates! Porque estás suspensa dos salgueiros? Reacende no peito a memória, recorda os tempos de outrora”

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publicado por picodavigia2 às 11:13

OS ANTIGOS PRESÉPIOS NA FAJÂ GRANDE

Quarta-feira, 25.12.13

Na Fajã Grande, e creio que em todas as localidades açorianas, nos anos cinquenta, sobretudo nas casas onde havia crianças, faziam-se, sempre, presépios, por altura do Natal. Grandes presépios, bonitos presépios! Presépios com uma gruta que abrigava a Virgem, o Menino e São José, com montes, com rios e lagos, com pontes, estradas e terras, com o palácio de Herodes, com igreja e com casas, entre as quais personificava uma muito especial, localizada num dos cantos do presépio. Era a casa de Barbearias, uma casa pobre, humilde, pequenina e a mais distante da gruta.

Na minha casa, apesar de pobre e pequenina, todos os anos, pelo Natal, num dos cantos da sala, armava-se um gigantesco e descomunal presépio. O presépio era muito bonito e grande, ocupando rigorosamente uma boa terça parte da sala e nele, para além da gruta e das figuras religiosas, havia de tudo: montes, vales, caminhos, ribeiras, pontes, casas, igreja, pessoas, animais, carros, uma enorme estrela e até um avião.

No canto da sala eram colocados bem encostados à parede cestos velhos, tábuas retiradas das caixas de sabão, achas de lenha, caixotes de papelão e outro entulho, de modo a formarem uma espécie de monte, com uma furna ou gruta feita com um dos cestos ou dos caixotes. O dissimulado monte era muito bem coberto e forrado com leivas de musgo que íamos apanhar ao Outeiro, enchendo e carregando pesados cestos. No monte pastavam um sem números de ovelhas branquinhas, desenhadas e recortadas em papelão, nas quais se colavam pedacinhos de lã, mas apenas do lado que estavam voltadas para o público. A gruta, escura mas aconchegada, ficava encravada bem no meio do monte e também era coberta e forrada com musgo. O chão era de palha e lá se colocava uma manjedoura, feita de pequenas tabuinhas, à volta da qual estavam a vaca e o burro, ambos deitados. Ao lado apenas as imagens de São José e da Virgem, dado que o Menino só era colocado na manjedoura, na noite de Natal e os pastorinhos, carregadinhos com ofertas, só apareciam no dia seguinte. Sobre a gruta estava colocado um anjo e sobre este, mas suspensa do tecto por um barbante, uma enorme estrela feita com papéis brilhantes. Muitas das imagens eram de barro, mas a maioria era de cartão e forradas com papel colorido ou pintadas. Circundando todo o monte e em frente à gruta, já sobre o soalho, era construído o enorme povoado, com casas, nas quais se incluía, do lado esquerdo, o sumptuoso palácio de Herodes e do direito, muito longínqua e retirada, a pobre, humilde e pequenina casa de Barbearias. Segundo uma lenda antiga, esta casa que São José demandara para ir buscar lume para aquecer a água para lavar o Menino, dado que todas as outras lhe haviam fechado as portas e recusado ajuda. Finalmente e bem no centro e ao lado da gruta ficava a igreja. Todas estas construções eram feitas com caixas de sapatos e outros papelões que íamos pedindo aos comerciantes, nos meses que antecediam o Natal e nas quais desenhávamos e recortávamos as portas, as torres e as janelas, sendo-lhes colados os telhados com papel canelado. Todas elas também eram pintadas ou se lhes colava papel colorido e, por dentro das janelas, eram visíveis os cortinados multicolores. Ao redor das casas ficavam pequeninas propriedades, feitas de musgo ou areia e divididas por pedrinhas, onde havia um sem número de vacas, porcos, galinhas e alguns cavalos. Casas e terras eram ligadas por caminhos feitos de areia e ladeados por pequeninos seixos trazidos da beira-mar. Por toda a parte estavam colocados pratinhos com trigo já crescido e muito verdinho que havia sido posto a germinar uns dias antes.

Construía-se assim uma espécie de pequenina cidade ou gigantesca freguesia, geralmente, atravessada por um rio ou ribeira que nascia no monte e por ele descia em ziguezague, até a um enorme lago. Este era feito com areia e pedacinhos de vidro, assim como o rio, cujo curso era atravessado por pontes, umas de barro outras feitas com pequeninos paus, cortados e amarrados uns aos outros. No monte havia pastores, pelas ruas circulavam homens e mulheres e animais uns de barro outros de papelão, devidamente recortados e pintados.

Os Reis Magos apenas eram colocados no dia de Natal, mas muito distantes da gruta. Desciam o monte, a passo lento, passavam junto ao palácio de Herodes, onde paravam e todos os dias andavam um bocadinho, de maneira a que, no dia seis de Janeiro, chegassem à gruta.

O meu presépio era um dos maiores e mais bonitos da freguesia e, por isso, entrava muita gente em minha casa para o ver.

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publicado por picodavigia2 às 14:50

O PRESÉPIO QUE SE FAZIA NA MINHA SALA

Domingo, 15.12.13

{#emotions_dlg.painatal}Na minha casa, apesar de pobre e pequenina, todos os anos, pelo Natal, fazia-se um gigantesco e descomunal presépio.

Era num dos cantos da sala, naquele que ficava virado para as traseiras e do lado da cozinha, porque era o único que habitualmente não tinha barra, cómoda, ou caixa de roupa, onde estavam colocadas meia dúzia de cadeiras dispostas em ângulo recto e que, por essa razão, por alturas do Natal, eram dali retiradas.

O presépio era muito bonito e grande, ocupando rigorosamente uma boa terça parte da sala e nele, para além da gruta e das figuras religiosas, havia de tudo: montes, vales, caminhos, ribeiras, pontes, casas, igreja, pessoas, animais e uma enorme estrela.

No canto da sala eram colocados bem encostados à parede cestos velhos, tábuas retiradas das caixas de sabão e caixotes de papelão de modo a formarem uma espécie de monte, com uma furna ou gruta feita de maneira que desde tempos idos se guardava de ano para ano. O dissimulado monte era depois muito bem coberto e forradinho com leivas de musgo que íamos apanhar ao Outeiro, enchendo e carregando pesados cestos. Por todo o monte pastavam um sem números de ovelhas branquinhas, feitas também de papelão, nas quais se colavam pedacinhos de lã, mas apenas do lado que estavam voltadas para fora. A gruta, escura mas aconchegada, ficava encravada bem no meio do monte e era coberta e forrada também com musgo. O chão era de palha e lá se colocava uma manjedoura, feita de pequenas tabuinhas, à volta da qual estavam a vaca e o burro, ambos deitados. Ao lado apenas as imagens de São José e da Virgem, dado que o Menino só era colocado na manjedoura na noite de Natal e os pastorinhos, carregadinhos, só apareciam no dia seguinte. Sobre a gruta estava colocado um anjo e sobre este, mas suspensa do tecto por um barbante, uma enorme estrela feita com papéis brilhantes. Circundando todo o monte e em frente à gruta, já sobre o soalho, era construída o pequeno povoado com casas, nas quais se incluía, do lado da porta da cozinha, o sumptuoso palácio de Herodes e, do lado da janela de trás, já muito longínqua e retirada, a pobre e pequenina casa de Barbearias. Era esta casa que São José demandara para ir buscar lume para aquecer a água para lavar o Menino, dado que todas as outras lhe haviam fechado as portas e recusado ajuda. Finalmente e bem no centro e ao lado da gruta ficava a igreja. Todas estas construções eram feitas com caixas de sapatos e outros papelões que íamos pedindo nas lojas, nos meses que antecediam o Natal e nas quais desenhávamos e recortávamos as portas e as janelas, sendo-lhes colados os telhados com papel canelado. Todas elas eram pintadas e por dentro das janelas eram visíveis os cortinados multicolores. Ao redor das casas ficavam pequeninas terras, feitas de musgo ou areia e divididas por pedrinhas, onde havia um sem número de vacas, porcos, galinhas e alguns cavalos. Casas e terras eram ligadas por caminhos feitos de areia e ladeados por pequeninos seixos trazidos da costa. Por toda a parte estavam colocados pratinhos com trigo já crescidote e muito verdinho que havia sido posto a germinar uns dias antes.

Construía-se assim uma espécie de pequenina cidade, atravessada por um rio que nascia no monte e por ele descia em ziguezague, até a uma enorme lago. Este era feitos com areia e pedacinhos de vidro, assim como o rio, cujo curso era atravessado pontes, umas de barro outras feitas com pequeninos paus, cortados e amarrados uns aos outros. No monte havia pastores, pelas ruas circulavam homens e mulheres e animais uns de barro outros de papelão, devidamente pintados ou recortados.

Os Reis Magos apenas eram colocados no dia de Natal. Desciam o monte, passavam junto à casa de Herodes, onde paravam e todos os dias andavam um bocadinho de maneira a que no dia seis de Janeiro chegassem à gruta.

O meu presépio era um dos maiores e mais bonitos da Fajã e, por isso, entrava muita gente em minha casa para o ver.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:08

FLYING WEST

Sexta-feira, 13.12.13

Simplesmente espectacular! Verdadeiramente sublime! É o que se pode dizer de uma maravilhoso filme apresentado no Youtube, intitulado “Flying west”, que embora colocado há um ano, já conta com 3457 visualizações. Nele podem observar-se espantosas imagens da parte do território geográfico da ilha das Flores, pertencente à freguesia da Fajã Grande.

O filme começa por apresentar imagens da zona do mato, mais concretamente, da Burrinha, dos arredores do Morro Alto, Água Branca e das Lagoas. No início pode observar-se a Lagoa Funda, passando, de seguida, para a da Água Branca e, depois, para a Comprida, existindo também imagens que permitem ver lado a lado esta última e a Funda. É possível também apreciar uma magnífica vista aérea de toda a zona limítrofe das Lagoas, do Queiroal, dos arredores do Morro Alto e da Água Branca, passando pela estrada de Santa Cruz até à Cova da Pedra e, sobretudo, observar, lá do alto, o sinuoso percurso por onde serpenteia a Ribeira Grande até se atirar pela Rocha, vindo cair cá em baixo, correndo depois na direcção do mar, não sem formar, ao longo do seu percurso, inúmeros lagos e açudes, bem como os regos que dela emanam com a denodada intenção de alimentarem os moinhos da Fajãzinha. Sobrevoando a parte mais baixa da freguesia, ou seja, a “fajã” propriamente dita, é possível observar, primeiro a zona sul da freguesia, entre a Rocha e o mar, na zona circundante à estrada que conduz a Santa Cruz e às Lajes, nos do Lavadouros e do Vale Fundo e observar, também, lá do alto, maravilhoso Poço da Alagoinha com toda a vegetação luxuriante que o rodeia, as imensas grotas que caem pela Rocha e o alimentam, a sua proximidade da estrada e a sua ligação à Ribeira do Ferreiro, por onde se escoa uma boa parte que lhe cai das grotas da Rocha.

De seguida as filmagens fixam-se na zona circundante ao antigo caminho que ligava a Fontinha aos Lavadouros, podendo observar-se os lugares que se situam junto da Rocha, como a Figueira, a Silveirinha, a Escada-Mar, os Paus-Brancos, Mateus Pires e a Alagoinha, É possível também observar, a emergir desta enorme planície um pequeno monte, precisamente o Pico Agudo.

Finalmente o filme apresenta-nos a parte central da freguesia, mais concretamente a chamada zona das casas, desde oeste até ao leste, com toda a costa e, ainda, a Ponta bem lá ao fundo, com a capelinha da Senhora do Carmo a salientar-se e como que encravada na Rocha. O filme termina na zona do Areal, com imagens espectaculares de todo aquele local, das terras muito bem divididas e trabalhadas, da estrada que substituiu o antigo caminho e uma ou outra casa, recentemente por ali construídas. Por fim pode observar-se no Canto do Areal, toda a zona do baixio, com as suas poças, recortes e carneiros a misturarem-se com a braveza das ondas, mesmo ali, por fora da Poça das Salemas, precisamente no lugar onde a Bidart, há noventa e seis anos, naufragou.

O filme tem apenas a duração de 5,08 minutos e pode ver-se no seguinte URL:

http://www.youtube.com/watch?v=TpKWWvw5zBA  

Ainda no Youtube é possível visionar um outro filme também com belas imagens sobre a Fajã Grande, mas menos abrangente, com imagens intercaladas com outras de toda a costa oeste da ilha e intitulado “Part of the western coast, lakes and center mountains of Flores Island” e que pode ser visionado em:

http://www.youtube.com/watch?v=TpKWWvw5zBA

 

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publicado por picodavigia2 às 19:36

A VISTA DO MIRADOURO DO PORTAL OU PEDAÇO DA NATUREZA DESABADO DO CÉU

Sexta-feira, 29.11.13

Fascinante, soberba, maravilhosa, encantadora, sublime, deslumbrante, espectacular! São poucos e muito limitados os adjectivos com que se pode descrever a vista que se observa do miradouro do Portal - um pedaço da natureza desabado do céu.

Este miradouro, um dos muitos existentes na ilha das Flores, situa-se lá bem no alto, no cimo da Rocha dos Bredos, ali mesmo logo a seguir aos Terreiros, no cruzamento da nova estrada do Mosteiro com a do interior da ilha e um pouco à frente da chamada Cruz da Caldeira, sobranceiro, portanto, à freguesia da Fajãzinha.

A paisagem que dali se pode observar é transcendentemente bela. O grande círculo das Fajãs rodeia-se a leste, embora de forma irregular, por uma alta e imponente rocha, ora fendida por penhascos e quedas de água ora revestida de um verde com tons diferenciados, a provocar calafrios ou ainda sustentada por inúmeros rochedos a abarrotar de um negrume basáltico. Uma rocha de magma basáltica, recheada de verdura e de água e que os séculos foram enrijecendo e transformando num verdadeiro e mítico oásis de beleza, num estranho monumento de imponência e graciosidade. A oeste o mar, azul e anilado, como que a fechar o círculo com os seus salpicos levantados pelo vento e com as suas ondas a desfazerem-se junto aos rochedos lávicos do baixio, a bafejar courelas, serrados, belgas e outeiros. Depois as casas branquinhas entrelaçadas com outras de pedra negra e os tradicionais palheiros também negros, de portadas abertas, espalhados no meio das relvas ou plantados em cima de “maroiços”, aparentemente atafulhados de silêncio, de abandono e de solidão. São as pequenas povoações da Fajã Grande, Fajãzinha, Ponta e Cuada, formando e constituindo os pequenos povoados por ali dispersos, separadas por ribeiras onde deslizam as águas caídas das encostas e por montes e outeiros revestidos do verde dos incensos, das faias, dos sanguinhos e dos paus-brancos ou por pequenos planaltos, onde proliferam os campos de erva, de mato ou serrados de milho, as courelas de couves e abóboras e as belgas de batata-doce.

Em primeiro plano e logo ali debaixo a Fajãzinha a balancear-se sobre veios e levadas, a evadir-se em água, em verde, em pequenez e sobretudo em silêncio, com as suas casas dispostas ao redor do Rossio, a formar uma espécie de rendilhado, onde se excede a sua monumental e vetusta igreja matriz. A Fajãzinha, um pequeno oásis de singeleza, um recanto de serenidade perene e um manancial de frescura esverdeada. A Ribeira Grande, mais além, encostada à ladeira do Biscoito e a servir de sopé ao enorme planalto onde se alojam as velhas e negras, mas agora recuperadas, casas da Cuada. Apesar de se aproximar do oceano, o seu caudal ainda corre veloz e galopante, ora se quedando e desaparecendo por entre pedregulhos e fráguas, ora formando pequenos lagos encastoados entre o verde das ravinas e o azulado da penedia. Além e junto à rocha, aparando a água que cai com veemência das cascatas de um sem número de grotas e ribeiras, o Poço da Alagoinha, um recanto de beleza inigualável e de sublimidade absoluta. As suas águas, calmas, serenas e tranquilas, reflectem o verde dos andurriais, o negro dos penhascos, o acastanhado dos troncos dos álamos e o colorido das flores da cana roca.

Entre a Rocha e o mar, num planalto encastoado ente a Fajã e a Fajãzinha, a Cuada, um recanto de sublimidade silenciosa e de beleza histórica, actualmente recuperada e modernizada, mantendo, contudo, o negro basáltico das paredes, as vielas calcetadas de pedra já gasta por homens e “corsões”, com a mítica Casa do Espírito Santo, lá ao fundo, no início do caminho que antigamente conduzia à Fajã. Ontem como hoje, a Cuada é aquele recanto de graciosidade e singeleza, aquele paraíso de mistério e sublimação, aquele pântano de simplicidade e mistificação.

Depois é a Fajã, ora entrincheirada, muito tímida e envergonhada entre o Pico da Vigia e o Outeiro, ora a despejar-se arrogante e sem pejo sobre uma enorme planície debruçada sobre o mar, a acalentar o rugido das ondas, os sussurros das montanhas e o soprar do vento norte. A Fajã é um manto verde, branco, amarelado, negro e multicolor a estender-se e a prolongar-se sobre o mar, deixando lá ao fundo, a descoberto, uma ponta negra e firme – o Monchique.

Finalmente a Ponta, aninhada debaixo da Caldeirinha, juntamente com a igreja da Senhora do Carmo, no sopé da rocha, a emanar um silêncio desértico e uma beleza mistificada. Por trás a rocha umas vezes terna e meiga, a proteger, a salvar, a ajudar, a alimentar, outras a atirar-se sem dó nem piedade sobre o povoado destruindo casas, pessoas e colheitas.

A encimar tudo isto um céu ora muito claro ora ofuscado por nevoeiros e caligens, mas a reflectir o azulado do oceano, a serenidade dos vales e planaltos, o verde adocicado dos montes, o sussurro transparente das ribeiras e a simplicidade contagiante das pessoas.

O miradouro do Portal! Uma paisagem de sonho, desenhada sobre uma imponente e desértica singularidade, edificada sobre uma estranha plataforma de magma verde e envolvida por um misterioso manto de silêncio!

 

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publicado por picodavigia2 às 14:29

HOJE

Segunda-feira, 25.11.13

Passaram-se anos, muitos e muitos anos. Mas enfim! Hoje foi possível regressar à Fajã e voltar a ver, lá bem no alto, o “Pico da Vigia”, dos meus tempos idos, mas ainda hoje a manter-se como que coroado com a pequenina vigia da baleia e observar o seu companheiro de sempre, paralelo na direcção do mar, o “Outeiro”, encimado com uma enorme e altiva cruz, cuja origem se desconhece porque perdida no tempo. Por entre um e outro continuam a desfilar, destemida e ousadamente, as pequenas mas sorridentes, casas da Assomada, umas brancas de neve outras velhas, escuras e abandonadas e até a esmoronarem-se de tão antigas e desertificadas. Mas muitas, mesmo muitas das que por ali proliferam são novas, estranhas, desconhecidas, a substituir os antigos milheiras das pequenas mas férteis terras circundantes. Outras, mas mesmo muitas outras, lá para baixo, a transformarem em bairros os amplos e produtivos cerrados do Porto, do Estaleiro, do Calhau Miúdo, das Furnas e até do Areal, ou simplesmente a entrelaçarem-se por entre as velhinhas moradias da Tronqueira e da Via de Água, muito bem demarcadas e delineadas mas a confundirem sentimentos e a desfazerem memórias. A Fajã das sete ruas com duas casas no Porto e uma no Alagoeiro, esfumou-se no tempo, desapareceu. E hoje, ao lado das vivendas de ontem, dos obsoletos e decrépitos palheiros, agora recuperados e transformados em cafés e restaurantes e das casas velhas ou de arrumos recicladas e a abarrotar de uma graciosidade estranha e de um tradicionalismo inexaurível, surge uma gama de novas e estranhas moradias. E lá ao fundo, o mar permanece azulado e roufenho e o baixio, outrora negro e empedernido a abarrotar de lapas e sargaços, agora surge mais calmo e tranquilo, com os seus caneiros, baías e portos transformados em piscinas naturais, quais redutos de água salgada, rodeada de muralhas de cimento que foram aniquilando a sua pertinente e intrínseca negrura e desfazendo o seu brilho lávico e bassáltico. Campos de milho a abarrotar de cizânias e junquilho, courelas de batata-doce atulhadas de feitos e heras, pastagens transformadas em campos de cana roca e incensos esguios. Canadas obstruídas por ervas e silvados, veredas desfeitas e a abarrotar de pedregulhos soltos, caminhos tapados com calhaus e penhascos e descansadouros perdidos na memória dos mortais. Até as altas, rústicas e estranhamente arquitectadas paredes da ladeira do Batel, a própria laje da Silveirinha e o Calhau das Feiticeiras se transformaram em mitos, desfeitos pelo tempo e calcificados pela memória de muitos mas que, apesar de tudo, ainda espreitam teimosamente um ténue regresso à memória dos vindouros. Já não se ouve o tilintar das campainhas das vacas, o chiar dos carros de bois ou o arrastar das alabaças dos corsões sobre as lajes calejadas dos caminhos, apesar de ainda haver cangas e tamoeiros a ornamentar as paredes dos snak-bares. Já não há vergas na rocha, nem moinhos impulsionados pela força jactante das águas, já não se pescam vejas, nem enchovas ou bicudas na ponta do Cais, mas no Porto Velho e na Coalheira ainda há respingos de salmouro e vagas revoltas com os ventos do oeste. Até na igreja paroquial, Santa Teresinha foi colocada no fundo do transepto, o Coração de Jesus mudou de altar e a Senhora do Carmo foi engavetada na sacristia. Nas ruas apenas um ou outro rosto de outrora. É uma Fajã, ora desfeita, ora alterada, ora teimando em manter-se nas roupagens e costumes de antanho mas a querer banhar-se nas exigências duma modernidade cerceada pelos imperativos do isolamento, da desertificação e do abandono.

Talvez por isso mesmo e juntamente com o Pico da Vigia e o com Outeiro, ainda lá, mais no alto, esteja a rocha, altiva e imponente, a ufanar-se com a Fonte Vermelha e a pavonear-se da Furna do Peito, com inúmeras quedas de água a banharem-lhe penhascos e ravinas e a irradiar uma beleza, uma imponência e uma sublimidade contagiantes. Também ainda lá está o mar com o Monchique bem escarrapachado no meio, com a Baixa-Rasa ao lado, a Poça das Salemas a abarrotar de lapas e caranguejos e o Rolo à espera da chegada do sargaço. Também ainda há torresmos, morcela, linguiça e inhames, mas confesso a minha tamanha estupefacção por estranhamente me ter banqueteado com eles, ali, no abandonado palheiro do João Fragueiro, em frente à Casa do Espírito Santo de Baixo, onde funcionava a escola primária e que servia de latrina a quantos a frequentaram na década de cinquenta.

 

Texto publicado no Pico da Vigia em 4/9/11

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publicado por picodavigia2 às 15:00

A MINHA CASA

Segunda-feira, 25.11.13

A minha casa, ou melhor a casa onde eu nasci, era ali na Assomada, (na Fajã Grande) à beirinha do caminho, muito pobre e pequenina, mas desvanecedora e alegre, rodeada de minúsculos campos onde floresciam girassóis misturados com milheirais e de courelas onde cresciam batatais intercalados com couves e abóboras, circundada por muitas outras casas também pobres e pequeninas, semelhantes à minha e onde moravam as minhas vizinhas, agastadas por trabalhos e canseiras, com o xaile a cobrir-lhes o cocuruto, mas sempre prontas a ajudar, a aconselhar, a disponibilizar préstimos, a conceder favores e muito amigas da minha mãe. A casa onde eu nasci tinha as paredes carcomidas pelo tempo, soalho esburacado e telhas levantadas pelo vento, mas tinha as janelas voltadas para o mar e as portas abertas para a madrugada. A minha casa tinha um quarto onde, junto à cama de meus pais, balouçava um berço, atávico valhacouto da nossa meninice, que nos ia embalando para a vida, uns após os outros. E também tinha uma sala muito ampla, mas com cadeiras a desfazerem e caixas onde se guardavam as roupas que vinham da América e as colchas tecidas no tear, mas que era muito clara e arejada. A minha casa tinha uma cozinha, esconsa e de paredes tisnadas, a abarrotar de fumo e cheiro a leite e pão de milho. A minha casa tinha uma loja onde dormia a Benfeita, a Trigueira e os seus filhotes. A minha casa tinha um pátio onde eu brincava, onde minha mãe punha a roupa a “coarar” e onde ela assomava, vezes sem conta, para dar dois dedos de conversa às vizinha ou para lhes pedir umas folhinhas de salsa. A minha casa era a minha casa, mas muito minha, toda minha, pois foi nela que nasci, brinquei, cresci e entendi que mesmo sendo pobre e pequenina era a minha casa.

E quatro décadas de tempo desfizeram a minha casa toda, de uma ponta à outra e do alto a baixo! Lançaram sobre ela um temível vendaval que a transformou, que a desfez por completo, ocultando-a de meus olhos, destruindo sonhos, emoções e desejos. Mas, mesmo desfeita, transformada, a minha casa ainda lá está, no mesmo sítio, à beirinha do caminho. Mas na minha casa já não há berço, nem cadeiras velhas, nem claridade, nem portas abertas para as madrugadas, nem janelas a abrirem-se para receber refolgos de maresia. Na minha casa já não há paredes carcomidas, nem chão esburacado, nem cheiro a bolo quente e a queijo fresco. A minha casa já não tem pátio, nem loja, nem Benfeita, nem bafo dos animais ou o tilintar das suas campainhas. Ao redor da minha casa já não existem campos repletos de milheirais a sorrirem como os girassóis floridos, nem bardos de faias do norte a separar os campos e protegê-los do vento norte. Ao redor da minha casa já não há vizinhas, nem velhinhas a visitar a minha mãe e disponibilizar-lhe préstimos e ajuda. Pior do que isso: a minha casa tornou-se uma espécie de chão deserto, um catafalco vácuo, um mistério petrificado, um enigma indecifrável e, como se isso ainda não bastasse, a minha casa até deixou de ser a minha casa.

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publicado por picodavigia2 às 10:53

CUADA

Sábado, 16.11.13

Povoado pertencente à freguesia da Fajã Grande, composto por cerca de dezasseis habitações, alguns palheiros e uma "Casa do Espírito Santo", atravessado por caminhos empedrados, sinuosos, delimitados por muros de pedra seca, que fazem a ligação às povoações vizinhas e ao Ramal da Fajã Grande. O povoado está rodeado de cerrados de formas e dimensões irregulares e todo o conjunto beneficia do enquadramento paisagístico da caldeira da Fajã. Alguns dos catorze edifícios que foram recuperados e adaptados para o turismo eram palheiros. Alguns dos restantes encontram-seem ruínas. Podem-seainda ver algumas cisternas anexas a palheiros ou habitações.

De um modo geral os edifícios são de planta rectangular ou formando um "L", com um piso ou piso e meio. As antigas lojas aproveitam o desnível do terreno, com acesso directo a um logradouro.

Todas as construções são em alvenaria de pedra à vista (excepto uma casa ainda não adaptada e a "Casa do Espírito Santo" que são rebocadas e pintadas) e têm telhados de duas águas em telha de meia-cana com beiral simples e telhão de cimento na cumeeira.

Era uma vez uma aldeia de onde partiram todos os habitantes. Uns anos depois alguém se lembrou de reconstruir as casas e começar a receber turistas. Uma óptima ideia, e assim nasce o pretexto para visitar a aldeia da Cuada, nas Flores. Quando todos os habitantes emigraram para a América. Até que um dia alguém teve a bela ideia de recuperar as catorze antigas casas de pedra e criar um aldeamento turístico. Não foi uma empresa fácil, desde logo conseguir contactar os proprietários, depois as negociações, as burocracias, e por fim a transformação de ruínas em cómodas moradias. Como recompensa por todos os esforços a aldeia foi classificada pelo Governo Regional dos Açores como património cultural com interesse histórico, arquitectónico e paisagístico. Mas estamos certos de que o que mais agrada aos donos são os testemunhos que os hóspedes, das mais diversas proveniências, deixam ficar no Livro da Aldeia.

Um lugar onde o tempo parou no momento em que a natureza se revelou no seu auge, deixando-a intacta, plena de vida!
Na Aldeia da Cuada, só os muros e as casas de pedra basáltica irrompem o manto verdejante dos campos, por onde vagueiam os cheiros das flores e das árvores de fruto.
Terra onde, até hoje, os veículos motorizados nunca chegaram, ficou quase deserta e as suas casas abandonadas.

O aldeamento turístico da Cuada estabelece a ponte de ligação entre esse tempo antigo e a modernidade, recuperando as habitações originais da Aldeia e adaptando-as às actuais necessidades de conforto.

Situado na costa oeste da ilha das Flores, num pequeno planalto sobranceiro à Foz da Ribeira Grande, o aldeamento turístico da Cuada é composto por 10 casas originais recuperadas e adaptadas às actuais necessidades de conforto, sem perder a traça rural das casas construídasem pedra. Coma zona balnear da Fajã Grande a apenas dois km de distância, é difícil acreditar que estamos num paraíso rural quase intocado, em que o verde dominante só é rasgado pelo basalto dos muros e das casas desta aldeia, que foram recuperadas respeitando a traça original. Todas elas estão equipadas com cozinha e dispõem de um convidativo pátio com cadeiras e espaço para churrasco. A qualidade da intervenção valeu-lhe a distinção regional de ser considerada Património Cultural com Interesse Histórico, Arquitectónico e Paisagístico. Ali mesmo, a2 quilómetros, na zona balnear da freguesia da Fajã Grande, um dos locais da ilha das Flores mais procurados na época do Verão, um mar de azul profundo convida a um banho vitalizante. À espera, na esplanada do restaurante local, a os temperos da deliciosa gastronomia da ilha retemperam forças.

Hoje, quem fica a dormir na   Aldeia da Cuada, pode experimentar o sabor da vida de outros tempos e ter um   contacto muito próximo com a natureza. A partir da aldeia, e seguindo a pé   pelos vários percursos possíveis, há quedas de água, lagoas deslumbrantes,   encostas inteiras de musgo e flores selvagens, matas e muitas vistas de mar,   onde às vezes se vê ao largo a pequena Ilha do Corvo.

As Flores são um dos melhores   locais de Portugal para mergulhar e pescar dada a abundância de espécies   marinhas e a transparência do mar. É impressionante a quantidade de peixe que   se vê à vista desarmada, bem como a facilidade com que os locais pescam   abundantemente com canas rudimentares.

Passeando de carro pelos   montes, para além das variações da paisagem, é possível ver muitos coelhos -   considerados uma praga e aos quais é possível dar caça todo o ano, diz-se que   ainda há quem use, ilegalmente, a antiga técnica de fazer entrar os furões   nas tocas para obrigar os coelhos a sair para uma morte certa.

Junto à Aldeia da Cuada está a   povoação da Fajã Grande, o ponto mais ocidental da Europa não continental, e   junto a este, a Poça do Bacalhau, a pequena lagoa onde desagua uma altíssima   queda de água. A apenas alguns metros de distância uma praia de grandes   pedras cinzentas com um sete de ondas arrasador.

 

Dados retirados de  “Folheto Publicitário”

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publicado por picodavigia2 às 21:58

A FAJÃ GRANDE OU A EXCELÊNCIA DA RUA DIREITA

Segunda-feira, 04.11.13

Na Idade Média, os burgos ou cidades tinham uma estrutura influenciada, por um lado, pela enorme força e poder da Igreja e, por outro, pelo feudalismo reinante, caracterizado por uma forte ligação e dependência da propriedade agrícola ou da terra, cuja posse significava não só riqueza mas também poder. Assim os tradicionais burgos medievais organizavam-se à volta da catedral, onde pontificava e governava o bispo e para ela se orientavam todas as ruas e vielas. Era também ao redor da Sé e do Paço Episcopal que se concentravam as habitações mais ricas e luxuosas, pertencentes aos senhores de “pendão e caldeira”, ou seja aos nobres ou ricos homens, donos das terras e do povo, que assim, sobretudo por interesses políticos, se agregavam e associavam ao poder episcopal. À medida que se afastavam da catedral e já na periferia da cidade ficavam os casebres dos mais pobres, pertencentes ao povo, onde se incluíam os artesãos, os almocreves, os feirantes e os prestadores de outros serviços e, já nos arrabaldes, ou até fora das portas da urbe, ficavam os paupérrimos tugúrios dos servos da gleba, ou seja dos pobres camponeses que trabalhavam os campos dos nobres como escravos e a quem as portas da cidade apenas se abriam para irem levar os géneros agrícolas aos seus senhores ou para se defenderem em tempo de guerra, dado que a isso os nobres eram obrigados.

Recordando a estrutura geográfica da Fajã Grande, nos anos 50, é fácil constatar que a disposição das habitações era, de algum modo, semelhante à dos burgos medievais, ou seja, a igreja estava situada precisamente no centro do povoado e à sua volta, formando a Rua Direita, as casas maiores e mais luxuosas, se é que se poderia falar em luxos, pertencentes às pessoas mais ricas ou com mais propriedades. É curioso verificar que, embora muitos dos seus moradores possuíssem gado e tendo as casas primeiro andar e rés do chão, ou até lojas anexas, nenhum habitante da referida rua, contrariamente à maioria dos das outras, tinha integrado na habitação, nem sequer ao lado, o palheiro onde guardava o seu gado. O André, o Mancebo e Trancão tinham os seus palheiros na Assomada. O José Tomé e o David na Fontinha. O Mateus Felizardo lá para trás de casa, quase na Tronqueira. Apenas o Josezinho Fragueiro tinha o palheiro das vacas na rua Direita, mas separado da casa onde vivia e também já quase no início da Tronqueira. Notava-se também que a “grandiosidade” dos edifícios ia decrescendo à medida que se afastavam da igreja. A existência de palheiros de gado quer isolados quer no rés-do-chão da própria habitação, só se verificava logo no início de cada uma das restantes ruas: na Assomada, o Antonino Cardoso, na Fontinha o Augusto, na Courelas o António Fagundes, na Tronqueira José Cardoso e na Via dÁgua o José Mariano. A partir daqui, os palheiros de gado seguiam-se em catadupa, por todas as ruas.

Outro facto sintomático e dissimétrico era o de na rua Direita, morarem em geral as pessoas consideradas mais importantes, “os senhores Fulano e Sicrano”, cuja prole era designada por “filhos ou filhas do senhor ou da senhora…” enquanto nos arrabaldes da freguesia, ou seja, na Assomada, Fontinha, Alagoeiro e noutras ruas e lugares, moravam, salvo raras excepções, os “Ti’Antonhos”, os “Ti’Aninas”, os “Sapateiros”, os “Manéis Brancos”, os “Grotas”, os “Chingados”  e os “Josés das Mariquinhas”, etc, etc, sendo os seus descendentes tratados por “monços do…”. Eram ainda os moradores daquela artéria que regra geral e em primeiro lugar eram escolhidos ou se impunham por eles próprios, para cargos de responsabilidade na freguesia, como presidente de Junta, cabeças das festas de Espírito Santo e do Fio, ou eram designados para as comissões das festas, para dirigir a Corporativa, ou os que vestiam opas vermelhas para levar o pálio nas procissões do Santíssimo ou o andor nas da Senhora da Saúde.

Era também na rua Direita que se situavam todos os estabelecimentos comerciais da freguesia, num total de seis: quatro mercearias e dois botequins. Era ainda na rua Direita que morava o pároco, que se situavam as duas casas de Espírito Santo e os Correios, sendo, curiosamente, a única rua da freguesia onde havia um chafariz com duas bicas, embora os seus moradores não suplantassem em número os da Fontinha, Assomada, Tronqueira ou Via d’Água.

Era ainda e apenas na rua Direita que passavam as procissões, para baixo e para cima, desde o cimo da Via d’Água até à Praça. A única excepção era a das “Rogações”, nas têmporas de Setembro.

Tudo isto lhe concedia uma excessiva excelência ao ponto de até aparecer como protagonista em representações teatrais e ser cantada por poetas populares, que lhe faziam versos, como os que a seguir se transcrevem:

 

Rua Direita em que eu hoje moro,
É ela que enfeita a Fajã que adoro.
Novos e velhinhos tem que a passar
E até os parezinhos que vão a casar.

 

Passam nela namorados,
Sempre contentes, sorrindo.
Passam os sonhos dourados
Das almas que vão sorrindo.

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publicado por picodavigia2 às 00:12

COGUMELOS

Sábado, 02.11.13

Os cogumelos são fungos ou frutificações de fungos que assumem um papel fundamental ao nível do equilíbrio dos ecossistemas. Assim, os cogumelos são úteis e necessários à natureza e até muito importantes para o seu equilibro e a sua sustentabilidade, uma vez que, por um lado, contribuem para a reciclagem da matéria orgânica, eliminando as espécies vegetais menos saudáveis e, por outro, favorecem o estabelecimento das mesmas em condições adversas através de relações que se estabelecem entre os fungos e as raízes das plantas. Os cogumelos têm um papel importante na protecção das espécies vegetais, defendendo-as de alguns agentes patogénicos, ou seja, dos que lhe provocam doenças. Relativamente à sua relação com o ser humano, os cogumelos, no que concerne à sua variedade, são contraditórios, dado que alguns são tóxicos e outros venenosos, chegando alguns a provocar a morte a quem os ingerir, enquanto outros, porém, são comestíveis, estando na base ou no acompanhamento de saborosos pratos de culinária.

Ora na Fajã Grande, outrora, existiam muitos cogumelos, sobretudo nas chamadas terras de mato, como as do Pocestinho, da Cabaceira, do Espigão, do Pico Agudo, da Fajã das Faias e em outros lugares. Uns eram simplesmente esbranquiçados, outros porém tinham um matiz de cores variadíssimas, com tons alaranjados, cinzentos, encarnados, beges, esverdeados, castanhos, etc. Esta variedade de cores fazia com que os cogumelos se tornassem esteticamente muito belos, atraentes, apetecíveis e agradáveis à vista e não só. Porém tocá-los era apenas um sonho ou um desejo, porque nessa altura consideravam-se todos venenosos e maléficos.

De todos os cogumelos, os do Pocestinho eram os mais belos e atraentes. As suas cores eram muito vivas, a sua copa muito frondosa e aveludada e o tronco bastante esguio e altivo. Por isso mesmo eram os mais desejados e apetecidos e, por vezes, esquecia-se a proibição de se lhes tocar e lá se apanhava um ou outro para colocar, com muito cuidado e carinho na palma da mão e sentir o aveludado do seu corpo, o colorido da sua copa e a beleza do seu ser.

Que pena os belos cogumelos de outrora, das terras de mato da Fajã, não existirem hoje, para se poderem saborear aqueles que na realidade seriam comestíveis. E decerto que não eram poucos,

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publicado por picodavigia2 às 21:14





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