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LAVANDEIRAS – AS GALINHAS DE NOSSA SENHORA

Quarta-feira, 21.06.17

Conta-se que antigamente havia uma mãe que vivia na companhia duma filha. O marido e pai morrera há muito, mas lembravam-no constantemente e, todos os dias iam ao cemitério chorar e rezar sobre a sua sepultura. A mãe, apesar dos cabelos brancos, possuía um rosto ainda belo e que evidenciava nobreza e caridade. A filha era muito jovem, alta e esbelta, de pele fresca e levemente corada, mas evidenciando no rosto a mesma expressão de bondade, que também tinha sido a maior virtude do pai, que sempre distribuíra o bem, enquanto vivo, por quem o rodeava.

Certo dia em que estavam ajoelhadas a rezar fervorosamente sobre a sepultura do marido e pai uma avezinha pousou perto delas, agitando constantemente a cauda como se estivesse chamando a atenção das duas mulheres. Era uma ave muito pequenina, de cor acinzentada, com manchas brancas e amareladas na cabeça e no pescoço e negras nas asas. De repente a avezinha, deixando mãe e filha pasmadas, começou a falar, dizendo:

 — Escolhi-vos para que digais ao povo desta terra, dedicada a São José que eu fui eleita por Deus para proteger Nossa Senhora, o José na fuga para o Egipto, cobrindo de pó com a minha cauda em leque, o rasto da burrinha que os transportava. Dizei também aos habitantes desta, terra que a minha alimentação é o gorgulho do trigo e que lhes sou muito útil porque limpo os celeiros desse inseto tão indesejado.

 Depois de dizer isto, levantou voo, enquanto mãe e filha recuperavam do susto. Já não tiveram mais tranquilidade para continuar as suas orações, regressaram a casa, contando a quem encontravam o que tinham visto e ouvido.

E consta que o povo acreditou nas duas mulheres e desde então começaram a acreditar que as lavandeiras eram aves sagradas, as galinhas de Nossa Senhora. Por isso é que na Fajã Grande, pelo menos até à década de cinquenta do século passado,  não se perseguiam nem caçavam lavandeiras.

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A LENDA DO ROLO

Sexta-feira, 07.04.17

Consta que antigamente, o extenso Rolo da Ribeira das Casas que se inicia no ilhéu do Constantino, junto ao Pesqueiro de Terra e termina no ilhéu do Cão, na Ponta, era totalmente coberto de areia. Uma extensa e belíssima praia que, se existisse hoje, seria um dos maiores gáudios não apenas de todos os habitantes da ilha das Flores mas também de quantos visitam esta ilha para férias.

Conta-se que nesses recuados, em que as memórias escritas eram raras ou inexistentes, um certo dia, um pescador que vinha da Ponta e passava por ali a fim de ir para apanha de lapas e caranguejos no Canto do Areal, ouviu um choro muito triste e estranho, vindo da areia. Curioso que era, mas muito anamudo parou e escutou melhor, convencendo-se de que o choro era verdadeiro e não fruto da sua imaginação. Decidiu, então, tomar o rumo do mar a fim de se inteirar do que seria aquilo. Seguindo o som que, à medida que o homem se aproximava se revelava mais nítido, como se fossem profundos soluços de um ser humano. Andou um pouco mais logo até que encontrou um ser estranho. O rosto, os braços e a parte superior do corpo eram de uma linda mulher, mas a parte inferior do corpo tinha uma estranha forma, pois assemelhava-se à parte posterior do corpo de peixe, coberto de escamas, com barbatanas e rabo semelhante aos dos peixes. Só poderia ser uma sereia que ali estava deitada a chorar, lamentando a sua triste sina. A tristeza daquele ser era tão sentida e tão grande que o homem não sabia se estava mais admirado por ter encontrado um ser tão estranho, se estava mais magoado com o sofrimento da sereia. Um pouco indeciso abeirou-se dela e perguntou-lhe:

 — O que se passa para estares aqui deitada e assim tão triste?

A sereia, então, explicou que tinha vindo até à praia mas que, no entanto, a maré tinha vazado sem se aperceber. Perante a estupefação do homem, chorando cada vez mais e com maior tristeza estampada no rosto, a sereia continuou o seu lamento:

- Agora com a maré baixa não consigo voltar ao mar. Vou morrer se não me levarem para o mar…

O pescador, embora um pouco hesitante, pegou-lhe ao colo dizendo:

- Levo-te, levo-te para o mar mas quero que me leves contigo…

O choro da sereia acalmou-se. Com um suave gesto de cabeça concordou e, pouco depois o pescador afundava-se com ela no meio das profundezas do oceano.

No dia seguinte, a família do pescador ao estranhar a demora do seu regresso, alarmada, avisou os vizinhos. Procuraram toda a orla costeira desde a Ponta até à Fajãzinha… Até uma embarcação partiu para a baía dos Fanais. Mas do homem nada…

Muitas pessoas porém, dias mais tarde, ao passar pelo Rolo, no local onde o homem encontrara a sereia, ouviam vozes estranhas e, como em eco, parecia-lhes a voz de um homem a pedir, em extrema agonia.

- Levem-me para terra! Levem-me para terra.

Mas verdade é que o corpo do pobre pescador nunca foi encontrado e dele nunca se soube mais nada.

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A LENDA

Quarta-feira, 29.03.17

Não se sabe, nem provavelmente algum dia se saberá a razão pela qual os primeiros habitantes do lugar da Fajã Grande, ao construir a pequena e primitiva ermida que antecedeu a atual igreja paroquial escolheram como seu padroeiro São José. Quando a história desconhece, geralmente, as lendas explicam. As lendas criam-se, inventam-se.

Conta então uma (inventada) lenda mas que poderá muito bem ter existido, que há muitos, muitos anos, quando os primeiros povoadores ocuparam a ampla fajã ente a rocha do Risco e a Ribeira Grande, um estranho caso aconteceu.

Certo dia viram surgir a navegar do lado da Rocha da Fajãzinha e chegar aos baixios, um pequeno batel, no qual viajava uma família. Era um dia de sol e de mar manso e a viagem estava a correr bem. No entanto era um barco a remos e o remador, um homem de barba branca. Provavelmente, depois de muitas horas a navegar a remos, o homem estava cansado de remar, por isso ao chegar perto de terra, se lhe deparou uma enorme baía, onde resolveu aportar. Lá ao fundo perto da Rocha e da cascata de uma ribeira existia um amontoado de pequenas e pobres casas. De repente, da alta Rocha desprendeu-se uma enorme ribanceira, soterrando casas, pessoas e animais. Criou-se um enorme pânico. As pessoas, como loucas e sem saber o que fazer, começaram a correr na direção do mar e daquele barco, pedindo auxílio e proteção. Conseguiram salvar-se todas. Perceberam então que aquela família, estranha e desconhecida que viajava naquele barco, só poderia ser a Sagrada Família e aquele homem que os salvara seria São José. O barco encostou junto à foz da ribeira que por ali deslizava serenamente e, pouco depois, o homem das barbas brancas desembarcou, animando e consolando os pobres desalojados de sua casas e dos seus campos. Confiando no poder Divino, o homem levantou a mão, estendeu o dedo indicador na direção de um outro lugar, localizado entre dois pequenos montes. Logo e como que por milagre começaram a aparecer ali pequenas e humildes casinhas, semelhantes em tudo às que cada uma das famílias que ali viviam havia possuído e que agora estavam soterradas debaixo dos escombres da enorme ribanceira no lugar das Covas. Incrédulos mas felizes cada qual ocupou a sua casinha, refazendo, de imediato, a sua vida, trabalhando os campos ao redor das casas e criando animais. Gratos e reconhecidos todos se afeiçoaram aquela misteriosa família que pouco depois partia no mesmo batel em que aportara. Todos cuidaram ver ali um milagre da Sagrada Família e, como reconhecimento e gratidão, construíram junto das suas novas casinhas, bem no centro do povoado, uma ermida dedicada a São José, tendo assim nascido a Ermida de São José da Fajã Grande, que mais tarde deu origem à igreja paroquial também ela dedicada ao pai adotivo de Jesus, da qual é o padroeiro.

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A LENDA DA QUEBRADA

Sexta-feira, 17.02.17

Conta-se que antigamente, junto à rocha da Fajã, num lugar hoje denominado de A Quebrada” numa pequena e pobre cabana, viviam muito pobremente, uma mãe com a sua filha. A rapariga era muda de nascença mas fazia-se entender e comunicava na perfeição com as outras pessoas que, embora raramente, por ali passavam. Além disso a jovem era possuidora de uma rara beleza que encantava todos quantos a viam.

Certo dia passou por ali um belo e valoroso jovem que andava a caçar. Ao ver a moça, de imediato se encantou com a sua beleza, pelo que no dia seguinte e em muitos outros voltou a passar por ali a fim de apreciar tão excelsa e invulgar beleza. Encantou-se de tal modo o jovem que acabou por se apaixonar loucamente pela rapariga, declarando-lhe, por fim, o seu amor e pedindo-a à mãe em casamento. Mãe e filha mostraram-se, inicialmente, muito receosas e hesitantes, mas como a rapariga também se apaixonou pelo rapaz, acabou por pedir à mãe que acedesse ao pedido daquele jovem a quem já amava também. A mãe aceitou e os encontros entre os dois foram-se repetindo no meio daquele descampado onde não vivia mais ninguém e a relação entre os dois jovens enamorados tornou-se cada vez mais forte. Passado algum tempo a rapariga pressentindo que estava grávida começou a ficar muito triste e receosa. Mais triste e apreensiva ficou quando percebeu que as visitas do seu amado eram cada vez menos frequentes. De certeza que já não a amava. O sofrimento e a dor tornaram-se muito maiores quando a rapariga percebeu que o rapaz desaparecera para sempre, que a abandonara, pois desde há muito que não a visitava.

Entre lágrimas e sofrimento os meses passaram até que chegou o dia em que o bebé nasceu, num dia de grande temporal. Ventos ciclónicos e chuvas torrenciais assolavam toda a ilha. O mar metia medo. Mas a criança acabada de nascer era um belo rapagão, forte e vigoroso, que em tudo fazia lembrar o pai. A rapariga encheu-se ânimo e coragem e dando um enorme grito de alegria, começou a falar. A mãe que também sofrera com a dor da filha também regozijou de contentamento. A alegria das duas era enorme… Haviam de criar, embora na pobreza, com muita alegria o seu filho e neto.

Mas diz a lenda que nesse momento, assolada pelo fortíssimo temporal, a rocha desabou e uma enorme ribanceira caiu soterrando o pobre casebre e quantos se encontravam lá dentro: a mãe, a filha e a criancinha. Essa a razão por que há quem diga que em certos dias de temporal, ao passar por ali, ainda se ouvem gritos de terror vindos bem lá do fundo, de debaixo da quebrada.

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A LENDA DO CALDEIRÃO DA RIBEIRA DAS CASAS

Sexta-feira, 10.02.17

Conta-se que antigamente havia uma rapariga, chamada Maria, cujos pais, para além de doentes e acamados, eram muito pobres. Como só tinham aquela filha era ela que fazia todos trabalhos, não apenas os de casa como também os de cultivar uma pequena courela que possuíam e também era ela que tratava e cuidava do pouco gado que possuíam: uma vaquinha e três cabras. Mas como o pai não possuía relvas junto ao povoado, onde os animais pudessem pastar, Maria foi levá-los ao Mato, a fim de que se alimentassem nas terras do baldio, isto é, naquelas que eram de todos e onde cada habitante do povoado podia soltar o seu gado. Isto porém obrigava a que Maria tivesse que se deslocar, sozinha, todos os dias ao Mato, fazendo uma longa e árdua viagem, a fim de ordenhar a vaca e as cabras, pois o leite era um dos poucos alimentos que ela e os pobres pais dispunham e com que se alimentavam. Todos os dias, antes de partir, o pai avisava-a de que tivesse muito cuidado e, sobretudo nos dias de temporais e de grandes chuvadas, lembrava-lhe que não passasse para além da Ribeira das Casas, nem muito menos se aproximasse do Caldeirão. É que próximo do caminho que dava para o Queiroal havia o temível Caldeirão da Ribeira das Casas, um boqueirão enorme, saído das profundezas da terra, com uma bocarra como a do inferno, que pelos vistos não tinha fundo e que não se sabia onde ia parar. Quem caísse por lá abaixo e ficasse lá dentro, de lá nunca mais poderia sair. O povo acreditava que aquele misterioso e profundo buraco escavado na terra comunicava com o próprio inferno e que lá no fundo vivia o demónio, acompanhado de muitos outros seres terríveis.

Maria ouvia com muita atenção o pai e seguia os seus concelhos. Mas num dia de forte chuvada uma das cabras aproximou-se demasiado do temível Caldeirão e Maria, na tentativa de a agarrar, aproximou-se em demasia da boca do enorme buraco e, ao colocar o pé sobre uma laje cheia de limos verdes, escorregou e caiu por ali abaixo. Como tinha uma saia larga que, com o ar, formou uma espécie de balão, Maria não morreu. Foi caindo devagarinho, como se fosse uma pena levada pelo vento, como se descesse em para-quedas.

Chegou a noite e como a filha não regressasse os pais assustaram-se, temendo o pior. Alertaram os vizinhos e estes, na manhã seguinte, ainda lusco-fusco, partiram para o mato, procurando a rapariga por toda a parte. Mas nada. Apenas encontraram umas galochas à beira da boca do Caldeirão. Chamaram aflitivamente por ela, adivinhando um acontecimento terrível, e numa voz abafada ouviram a resposta da Maria, vinda de uma grande profundidade, como se fosse um eco. Quando foi conhecida a triste notícia o povo da freguesia acorreu em massa ao local, mas de lá nunca conseguiram tirar a rapariga, que assim ficou lá encantada.

Dizem que ainda hoje, quem tiver coragem de se aproximar da boca do Caldeirão da Ribeira das Casas e chamar: Maria! Maria!, ouve-se uma voz a responder, como em eco.

É o eco do Caldeirão da Ribeira das Casas.

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A LENDA DA MISSA DO GALO

Sexta-feira, 23.12.16

Conta-se, segundo antigas lendas, que a Missa do Galo teve a sua origem na província espanhola de Toledo, onde em tempos idos todos os lavradores, na Noite de Natal, matavam um galo em memória daquele que cantou três vezes quando Pedro negou Jesus. Consta também que a ave era levada para a igreja e oferecida aos pobres, a fim de que tivessem um almoço melhorado no dia de Natal.

Segundo outras lendas, em algumas aldeias portuguesas, antigamente, na Noite de Natal, o povo também levava um galo para a igreja, mas vivo a fim de que ele cantasse durante a missa. Quando o cantava todos ficavam felizes, pois isso representava o prenúncio de boas colheitas, no ano que se seguiria. Se o galo não cantasse era considerado um mau, pois era sinal de que o ano agrícola seria mau.

Nas Flores, porém e na Fajã Grande, cuidava-se que a missa da noite de Natal, era chamada de Missa do Galo, porque era celebrada a partir da meia-noite e a essa hora alguns galos já iniciavam as suas cantorias matinais.

 

 BOAS FESTAS

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UMA NAMORADA QUE ERA FEITICEIRA

Quinta-feira, 15.12.16

Da autoria da conceituada escritora Ângela Furtado Brum, transcrevo a seguir a interessante lenda Uma Namorada que era Feiticeira, lenda integrada no imaginário histórico da freguesia da Fajã Grande das Flores:

 

Há uns anos atrás havia um rapaz da Fajã Grande, nas Flores, que estava a namorar com uma rapariga órfã de pai e que vivia só com a mãe. Ele, depois de acabar o trabalho, lavava-se, mudava-se de roupa, ceava e ia fazer serão para casa da namorada. Falavam de tudo. Do que ia ser a sua vida, de como ia ser a sua casa e outras vezes contavam histórias. Um dia, começaram a falar de feiticeiras. O rapaz ria e brincava:

- Feiticeiras!? Agora... Quem me dera ver uma!

- Não digas que não há, olha que é certo! - Insistia a rapariga.

- Sim, sim… tu é que és a minha feiticeira! - Concordava o rapaz para não discutirem. 
 No entretanto o tempo ia passando. Chegada a hora, o rapaz despediu-se e saiu para o escuro da noite. Quando já tinha andado um bocado de caminho e estava quase a chegar a casa, duas cabras saíram dum pátio e deram um salto para a frente dele.

- Ó diabo, pois eu fui deitar vocês na rocha, vocês até agora nunca saíram de lá e como é que estão aqui?! - Disse o rapaz, julgando, com o escuro, que eram as suas duas cabrinhas. 
Tentou apanhá-las para as amarrar, mas, os animais, que eram habitualmente mansos, davam um salto e ficavam adiante e ele não conseguia pôr-lhes a mão. Já estava a ficar aborrecido e, como estava ao pé do portão de casa, pegou num buxeiro que era do pai e estava ali ao pé da parede. Passou-o a uma das cabras, fincou-lhe a pele, fez-lhe sangue e logo ela se transformou na namorada. O rapaz não podia acreditar no que via e disse:

- Oh! Vai-te com o diabo!... E olha que é verdade que há mesmo feiticeiras. E logo quem... Vai-te embora que não quero mais saber de ti!

- Não, não é assim, tu tens que me ir pôr em casa! - Respondeu a rapariga decidida... 
 O rapaz teimou que não ia, que o que queria era vê-la longe, que nunca mais punha os pés em casa dela. Mas, por fim, não teve remédio senão concordar. Ela então disse-lhe:

- Vira-te para trás!

Ele virou-se e ficou logo à porta da casa da rapariga. Voltou para sua casa e todo o caminho veio maldizendo a sua vida e o que lhe havia de ter acontecido. Nunca mais quis saber de tal mulher, mas ela perseguia-o sempre e assim aconteceu até ao fim da vida.

 

 BOAS FESTAS

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LENDA DAS FEITICEIRAS

Domingo, 10.07.16

Antigamente, na Fajã Grande muitas pessoas ainda acreditavam que existiam feiticeiras, pese embora a sua referência e as histórias que sobre elas se contavam, mais se destinassem a amedrontar as crianças do que a esclarecer os adultos. Pretendia-se, assim, amedrontar os mais pequenos, meter-lhes medo a fim de se tornarem mais submissas, mais dóceis e menos endiabradas. Algumas pessoas mais idosas contavam por vezes, que nos seus tempos de infância existiam feiticeiras, as quais saíam de casa, somente, entre a meia-noite e a uma da madrugada. Também se dizia que elas se encontravam nos cruzamentos dos caminhos onde dançavam nuas mas ninguém as conseguia ver, pois eram invisíveis e não se conheciam umas às outras. Quando desse a pancada da uma hora e elas não estivessem em casa, já não podiam regressar ou então se o tentassem fazer já não conseguiam não ser vistas nuas. Para se precaverem voltavam sempre um bocadinho antes de bater uma hora.

Contava entre as várias estórias que, certa vez, houve uma feiticeira que deixou que batesse a uma hora sem ir para casa e foi apanhada por um homem, toda nua que a reconheceu e viu que era sua própria mulher.

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LENDA DE SANTO ANTÓNIO

Segunda-feira, 13.06.16

Na igreja da Fajã Grande, num dos altares laterais, existia uma pequena imagem de Santo António, mas que pouca devoção provocava no povo que nem sequer o festejava no dia em que a igreja o recordava liturgicamente, ou seja 13 de Junho. Estranhamente, uma grande imagem de Santo António estava guardada na Assomada, numa casa particular, totalmente impedida de entrar na igreja. Ninguém sabia a razão de tal esquisitice. Se era por não estar benzida que se benzesse. Essa imagem, que anos depois foi colocada numa capela construída em honra do santo no lugar com o seu nome, no cruzamento do caminho da Cuada, era a que mais fazia com que o povo recordasse o santo, os seus milagres, como aquele em que estando a pregar em Pádua, ao ter conhecimento de que o pai fora inocentemente condenado à morte, nesse instante apareceu em Lisboa para o livrar da forca. Muitas lendas também sobre ele se contavam. Uma das mais divulgadas era a seguinte

Certo dia Santo António passou por uma pequena cidade onde havia uma rapariga muito jovem que tinha casado com um homem muito mais velho do que ela. Ora aconteceu que a rapariga teve um filho. O homem, devido à sua idade, desconfiou de que o menino fosse seu filho, por isso se revoltou e zangou insultando a pobre rapariga que passava os dias a chorar.

Reza a lenda que Santo António passou pela casa onde vivia o casal desentendido e, ouvindo o choro da mãe, entrou e foi ver o que se passava. A rapariga contou-lhe tudo e logo o santo lhe prometeu que a havia de ajudar, Disse-lhe que voltaria no dia seguinte mas recomendou-lhe que, durante a noite, deitasse o menino sua cama, no meio deles, dormindo, assim, com o pai de um lado e a mãe do outro. E prometeu-lhe que seria a própria criança a dizer quem era o pai.

Ela, embora incrédula, pois o menino só tinha um mês, fez tudo como o santo lhe havia recomendado.

 No dia seguinte, Santo António voltou à casa e dirigiu-se ao bebé dizendo-lhe:

 - Levanta-te, aponta com o dedo e diz quem é o teu pai!...

 A criança levantou-se e apontando na direção do homem, chamou-lhe pai. Perante o milagre o homem acreditou que era, na verdade, o pai da criança.

 O santo recomendou ao homem que fosse fiel a sua mulher e a seu filho, pois a verdade morava naquela casa.

 

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A MENINA DAS FAVAS

Domingo, 05.06.16

Consta que há muitos, muitos anos uma princesa irlandesa deu à costa nos baixios da costa oeste da ilha das Flores, mais concretamente no lugar da Fajã Grande. Tratava-se de uma jovem princesa, raptada pelos mouros que a levavam cativa para terras distantes. Ao passar pela ilha das Flores o barco em que viajava, como era costume, aprumou ao Monchique, a fim de tomar rumo em direção ao Mediterrâneo. No entanto levantou-se uma enorme bruma e a embarcação naufragou por fora da Ponta da Coalheira, lá para os lados do Canto do Areal. Os piratas conseguiram salvar-se, saltando para uma outra embarcação que por ali passava, mas a menina, ou porque levada pela correnteza das ondas ou por malícia dos marinheiros, foi arrastada milagrosamente para terra sendo encontrada, no dia seguinte, a dormir num serrado cheio de favas.

Essa a razão pela qual ficou conhecida pela Menina das Favas.

Mas na localidade ninguém quis receber em sua casa aquela estranha criatura. Assim, a Menina das Favas foi abandonada, vivendo de uma ou outra côdea de pão que algumas pessoas mais generosas lhe davam. Esfomeada, descalça e suja, a jovem garotinha passava os dias sentada sobre os rochedos, à beira mar, olhando o horizonte distante e infinito. Não tentava falar com quer que fosse, não sorria para ninguém, não dizia uma única palavra. Apenas acenava com a cabeça, em sinal de agradecimento, a quem lhe dava a mais ínfima e pobre côdea de pão.

As pessoas passavam por ela, à beira mar, na faina da pesca ou da apanha de lapas, caranguejos e búzios, nem sequer lhe lançava um simples olhar. Ninguém a procurava para falar com ela, para a animar, para a consolar. Sabia-se que pernoitava nas furnas do baixio, onde também se refugiava nos dias de chuva e de temporal.

Certo dia a Menina das Favas desapareceu. Nunca se soube algo sobre ela, se foi levada pelo mar ou por alguma embarcação que ali ancorasse, durante a noite.

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A GRALHA VAIDOSA

Segunda-feira, 30.05.16

A Gralha é um pássaro relativamente pequeno, cujas penas pretas e coloridas e é bastante barulhento.

Conta-se que depois de terminar a obra da criação, Deus reuniu todos os pássaros que existiam sobre a face da terra e anunciou-lhes que pretendia escolher, entre todos eles, um rei. Marcou uma data para que todos eles se preparassem e comparecessem diante de seu trono muito bem apresentados. O mais bonito seria declarado rei.

Querendo arrumar-se o melhor possível, os pássaros foram tomar banho e alisar as penas às margens de um dos mais belos e límpidos rios da terra. A gralha também foi, pois era muito vaidosa e ambiciosa. Mas pensava que não ia ser escolhida, porque suas penas eram muito feias. Por isso resolveu procurar uma estratégia que a tornasse mais bonita.

Ora aconteceu que depois dos outros pássaros se lavarem, se sacudirem e irem embora, ficaram muitas penas de várias cores e feitios caídas pelo chão. A gralha juntou as mais bonitas e prendeu-as em volta do corpo. O resultado foi deslumbrante: ficou bela e nenhum pássaro era mais vistoso que ela. Decerto que Deus a havia de escolher para rei dos pássaros.

Quando o dia marcado chegou, todos os pássaros se reuniram diante do trono do Altíssimo. Deus examinou-os a todos, um por um e, como a gralha era a mais bonita, escolheu-a para rei. Quando já ia fazer o anúncio oficial, todos os outros pássaros avançaram para o futuro rei e arrancaram-lhe todas as penas falsas, mostrando a gralha exatamente como ela era.

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A CASA ASSOMBRADA

Domingo, 29.05.16

Na Vila de Santa Cruz havia, à entrada da Praça, do lado esquerdo de quem vinha da Fajã, havia uma pensão que dava hospedagem a inúmeros habitantes das várias freguesia das Flores, incluindo os da Fajã Grande quando se deslocavam a Santa Cruz e por lá se demoravam mais de um dia, a fim de tratar de assuntos vários, no Tribunal, nas Finanças, na Recebedoria ou quando acompanhavam algum doente internado no hospital ou quando aguardavam a chegada do Carvalho.

Essa pensão ficava por cima dum café que servia refeições e que, assim como a pensão, pertencia ao Vitorino. No entanto, muitos dos forasteiros que ali pernoitavam, não o voltavam a fazer, pois, cheios de medo, queixavam-se de que durante a noite ouviam barulhos esquisitos e viam fantasmas e almas do outro mundo. Muitos dos que ouviam tais patranhas escusavam-se de lá pernoitar novamente, o que diminuía, sensivelmente, o pecúlio do Vitorino, resultante das hospedagens que o café ia servindo jantares e ceias sem problemas.

Várias eram as estórias que se contavam sobre a origem do que supostamente ali se passava, ou que os hóspedes imaginavam que se assava, durante a noite, sendo a mais comum a seguinte:

Dizia-se que há muitos anos uma mulher, arribada à ilha num naufrágio, se apaixonou por um habitante da vila com quem teve três filhos. No entanto, o casal nunca formalizou a sua relação, nem o homem se disponibilizou a partilhar a mesma casa com a mulher, limitando-se a visitá-la a horas tardias da noite, recusando casar-se com ela. Tempo depois, o homem casou-se com uma outra mulher de uma freguesia distante da vila, pois tal enlace resultava-lhe mais conveniente, tentando evitar as más-línguas e os boatos que corriam entre a população. Este facto levou a náufraga à loucura, acabando, mais tarde, por afogar os seus três filhos numa poça, à beira-mar. Depois, ao ver o que tinha feito, suicidou-se, afogando-se também nas águas do oceano.

Dizem as pessoas que desde então, o seu fantasma era visto e ouvido a gritar e a gemer, na casa onde terá vivido e que supostamente existiria no lugar daquela pensão ou num velho edifício a que lhe deu origem. Segundo uma outra versão a mulher em causa seria uma princesa abandonada na ilha, de castigo, pois tinha-se apaixonado por um soldado, preterindo o filho do monarca reinante, a quem fora prometida. Havia no entanto quem afirmasse que os gritos e gemidos eram de uma alma de outro mundo, pertencente a uma mulher que depois de descobrir as traições do marido teria tido um surto de loucura e teria afogado seus filhos. Depois de tomar consciência do que fez, ela, também, se teria matado.

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O MILAGRE DA FUGA DOS PIRATAS

Terça-feira, 05.04.16

Nos primórdios do povoamento da ilha das Flores era frequente esta ser invadida por bandos de piratas que atacavam a população sem dó nem piedade, assaltando, roubando, destruindo, incendiando e violando as mulheres. A população resistia como podia, umas vezes refugiando-se em furnas, fugindo para o mato outras invocando a proteção divina nomeadamente a ajuda do Senhor Espírito Santo ou da Virgem Maria. Na Fajã Grande, ponto de convergência da navegação de oeste, esses ataques também eram muito frequentes. Consta que duma só vez mais de cem piratas terão invadido o mais ocidental recanto povoado do continente europeu. Os piratas loucos de ódio e ávidos de destruição, pretendendo sobretudo roubar comida e violar as mulheres entraram por terra dentro e terão aí permanecido alguns dias, na tentativa de roubar tudo o que lhes aparecesse pela frente. O povo não tinha nem força nem armas para se opor a tão grande investida. Por isso ninguém ousou resistir-lhes, e todos os que puderam correram a esconder-se, tentando evitar a ira dos invasores. Subindo a Rocha os habitantes do pequeno povoado foram-se escondendo dentro da Furna do Peito, até esta se encher. Mas muitos lá não couberam e tiveram que se esconder entre os rochedos, nas abas dos calhaus e até entre o próprio arvoredo, onde podiam colher alguns frutos silvestres e talos de funcho para se alimentarem. Consta que até terão comido raízes de fetos. Tinham, no entanto a certeza que ali não seriam capturados pois se os sacripantas dos piratas tentassem subir a estreita vereda da Rocha haviam de fazer rolar por ali abaixo enormes pedras dando cabo deles todos. Mas os malditos não se afastaram do povoado, vasculhando tudo e roubando os mantimentos que a população tinha guardado nas suas casas. Velhos indefesos, alguns doentes, mulheres grávidas e crianças, todos tiveram que ficar ao relento durante noites a fio, mal alimentados e sem cama para se deitarem, permanecendo durante a noite às escuras, durante o dia à chuva com a roupa encharcada, ansiosos e aterrorizados, à espera que esconjurados se fossem embora. Impotentes e incapazes de fazer o que quer que fosse começaram todos a rezar. Haviam-se passados mais de três dias e as forças já faltavam a muitos. Alguns espreitaram e cuidando que os piratas os haviam descoberto e aproximavam-se da Rocha na tentativa de os pilhar e violar as mulheres, queriam subir mais, chegar ao como da Rocha mas muitos já não conseguiriam, pois estavam muito enfraquecidos e outros até doentes. De repente ouviu-se a prece de uma velhinha, Era uma mulher que todos consideravam bondosa, santa e temente a Deus. Com muito fervor e confiança ela rezava em voz alta, gritando com quanta força ainda tinha. Mas o que mais impressionava todos era a fé da boa velhinha:

- Senhora Santa Maria Mãe de Deus, rogai por nós, ajudai-nos e salvai-nos, Senhora da Saúde pois haveis de ser venerada por todos nós na nossa igreja. Havemos fazer uma grande festa em vossa honra.

E todos, juntamente com a velhinha, cheios de fé e confiança, ajoelharam e rezaram à Virgem Maria, a quem a partir de então passaram a chamar Senhora da Saúde. Pouco depois e para espanto de todos viram os piratas voltar ao mar e entrar nos seus barcos, zarpando de seguida para bem longe dali.

A arfar de angústia e cansaço, cheios de fome e de sede, todos regressaram às suas casas e cuidaram que aquele era o primeiro grande milagre que a Senhora da Saúde tinha feito, o de os salvar a todos, de lhes restituir a vida e a saúde.

Estávamos em agosto e, no mês seguinte o povo agradecido fez uma grande festa em honra da Virgem Maria, no dia em que a Igreja Católica celebra o seu nascimento. Consta que o povo crente e humilde fez a festa de homenagem à Virgem, todos anos até aos dias de hoje.

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O HOMEM QUE FOI LEVADO PELO MAR

Sábado, 26.03.16

Antigamente contava-se que certo dia, um homem da Ponta foi às lapas para os lados do Ilhéu do Cão, onde se dizia que estas para além de grandes eram muito bastas e abundantes. Enquanto andava entretido a apanhar uns caramujos, saltando de pedra em pedra, o homem ouviu o barulho do mar a segredar-lhe:

- A maré vai e vem e que faz aquele homem que não vem?

O homem parou um pouco a ver se estava a ouvir bem, mas logo depois se entusiasmou a apanhar lapas, novamente, esquecendo o que ouvira. Passado pouco tempo, voltou a ouvir a voz do mar a dizer:

 - A maré vai e vem e que faz aquele homem que não vem?

 Começou, então, a ficar preocupado e cheio de medo, por isso, assim que pôde, veio-se embora.

Quando já vinha pela canada da escarpa acima, encontrou um vizinho que ia para baixo. Trocaram algumas palavras e cada um foi à sua vida, um na volta de casa e o outro direito à costa. Este último apressou o passo porque julgou que a maré já estivesse a encher e, assim que chegou lá abaixo, saltou para cima de um penedo. Quando se foi baixar para apanhar lapas escorregou e caiu, sendo levado pelo mar, que estava à espera dele.

 A notícia do seu desaparecimento correu pelo lugar e a sua morte foi muito sentida por todos. O vizinho que o tinha encontrado lembrou-se da voz que tinha ouvido quando estava na costa. Contou o que lhe tinha acontecido e as pessoas mais velhas explicaram que isso aconteceu, porque quando Deus criou o mundo, o mar tinha pedido que lhe desse todos os dias um ser humano ou um palmo de terra, tendo ficado combinado que ia ser um homem.

Assim cuidava o povo que quele homem foi o que naquele dia foi dado ao mar para que o levasse.

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A LENDA DAS AMENDOEIRAS EM FLOR

Sábado, 19.03.16

Uma das muitas estórias que se contavam antigamente aos serões, na Fajã Grande era e celebérrima lenda das Amendoeiras em Flor. Contavam os nossos avoengos que há muitos anos, havia um rei mouro muito valoroso e ousado e que nunca conhecera a derrota. Apesar de muito jovem já o consideravam o mais temido dos reis mouros do seu tempo.

Ora, aconteceu que certo dia, entre os prisioneiros capturados pelo jovem rei após uma terrível batalha, foi feita refém uma linda princesa, muito loira, de olhos azuis e de porte altivo. Um tipo de beleza que, na verdade, o rei mouro nunca vira até então e pela qual se encantou. O rei libertou-a e, mais tarde, tomou-a como esposa. Realizaram-se, para celebrar o casamento real, grandes festas que se prolongaram por vários dias. O casamento do jovem e poderoso rei mouro com a bela e cativante Princesa do Norte, atraiu gente de todos os lados. O povo viveu horas e dias extraordinários de alegria e de contentamento. Vieram preciosas e valiosíssimas ofertas. Vieram trovadores e músicos de terras distantes. Vieram bailarinas de corpos esculturais, que enfeitiçavam os olhares dos homens. Tudo isso durou vários dias e várias noites, num crescendo e desusado entusiasmo.

Mas passado algum tempo a princesa começou a ficar doente e muito triste e ninguém sabia o que ela tinha ou o que atormentava. O rei, muito preocupado e aflito, não sabia o que fazer pelo que procurou todos os melhores médicos e especialistas do reino para saber qual era o mal de que padecia a sua amada. Mas nenhum descobriu qual o mal que atormentava a pobre princesa. Num derradeiro recurso, o rei mouro deu ordem para que se reunissem urgentemente no palácio todos os sábios do reino. Eles vieram, mas nada conseguiram. Cada vez mais aflito o rei mandou vir médicos e sábios dos reinos vizinhos e de regiões longínquas, mas nenhum conseguiu encontrar remédio para os males da esposa real. A bela Princesa do Norte não voltara a abrir os seus lindos olhos azuis. Tal como se pressentira, continuava a morrer lentamente…

O rei mouro sentiu-se, então, muito abatido, desolado. Pela primeira vez na sua vida se sentia incapaz, derrotado. Já não tinha qualquer esperança de salvar a sua amada e chorava sozinho a sua dor.

Certa tarde vieram dizer-lhe que um velho prisioneiro, também das terras do Norte, antigo súbdito do pai da princesa, queria falar-lhe. Primeiro o rei disse que não, que não queria ver pessoa alguma. Depois hesitou, interrogando-se a si próprio: E se ele souber algo a respeito da doença da princesa... Então mandou que entrasse.

Foi então que um velho, mirrado pelo sofrimento e pela idade, mas ainda altivo e de olhar profundo, avançou até junto do rei e disse:

— Sei o que vos aflige, majestade e poderei ajudar-vos... Não por vós, que fostes um tirano para o meu povo... Mas por ela, a minha linda princesa!

O rei olhou-o desconfiado.

— E tu sabes qual o mal da princesa e como se pode curar?

O velho, então, explicou que o que a princesa tinha era, simplesmente, saudades da terra onde nascera, da neve e das paisagens brancas do seu país.

Então o rei para a não perder e para lhe fazer a vontade mandou plantar amendoeiras em toda a extensão à volta do castelo. Assim quando as amendoeiras florissem a princesa viria á janela e vendo tudo branco mataria as saudades das terras cobertas de neve do seu país.

Assim aconteceu e a princesa, pouco tempo depois, ficou curada.

A partir de então, todos os anos o rei e a princesa esperavam alvoroçadamente pelo maravilhoso espetáculo das amendoeiras em flor que, assim, substituíam a neve das terras do Norte. E deste modo viveram felizes para sempre.

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A LENDA DO GORAZ

Quarta-feira, 16.03.16

O goraz, cientificamente denominado por pagellus bogaraveo, é um peixe teleósteo, ou seja de corpo ósseo completo, de coloração cinza prateado e com barbatanas alaranjadas. Tem um corpo oval de tons avermelhados e o interior da boca é laranja-avermelhado. O que mais o caracteriza, no entanto, é a existência de duas manchas ou malhas negras, uma de cada lado da cabeça, sobre as quais existe uma interessante lenda

O goraz tem o seu habitat no mar, no Atlântico Norte, entre os 150 e os 300 metros de profundidade em regiões de clima temperado, com destaque para a região dos Açores. Noutros tempos, existia em grandes quantidades nas costas da Fajã Grande, desde do Pesqueiro de Terra à Poça das Salemas sendo pescado sobretudo de barco. O goraz é omnívoro, sendo a sua alimentação principal constituída por crustáceos, moluscos, vermes, plantas marinhas e peixes de pequeno porte. Trata-se de uma espécie normalmente solitária, embora possa aparecer em pequenos cardumes. Os gorazes encontram-se normalmente em águas costeiras, tanto com fundo rochoso como arenoso, relativamente perto da costa.

Ora, segundo a tal lenda muito antiga, as duas célebres e estranhas manchas ou malhas que caraterizam o goraz, situadas uma de cada lado da sua cabeça, existem porque São Pedro, que antes de ser papa foi pescador, certo dia em que andava a pescar, apanhou um goraz. Ao pegar-lhe, apertou-lhe a cabeça com os dedos de tal modo que as marcas destes ficaram para sempre estampadas, não apenas na cabeça daquele goraz, mas também nas cabeças de todos os gorazes que existem nos mares do mundo, permanecendo assim até hoje.

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O HOMEM DAS LAPAS

Segunda-feira, 22.02.16

Antigamente contava-se que certo dia, um homem da Ponta foi às lapas para os lados do Ilhéu do Cão, onde se dizia que estas para além de muito grandes, eram muito abundantes. Enquanto andava entretido a apanhar uns caramujos, saltando de pedra em pedra, ouviu o barulho do mar a segredar:

 — A maré vai e vem e que faz aquele homem que não vem?

O homem parou um pouco a ver se estava a ouvir bem, mas logo depois se entusiasmou a apanhar lapas, novamente. Passado pouco tempo, voltou a ouvir a voz do mar a dizer:

 — A maré vai e vem e que faz aquele homem que não vem?

 Começou a ficar preocupado e assim que pôde veio-se embora.

 Quando já vinha para cima, encontrou um vizinho que ia para baixo. Trocaram algumas palavras e cada um foi à sua vida, um na volta de casa; o outro direito à costa. Este último apressou o passo porque julgou que a maré já estivesse a encher e, assim que chegou lá abaixo, saltou para uma pedra. Quando se foi baixar para apanhar lapas, nunca mais levantou a cabeça: caiu e foi levado pelo mar, que estava à espera dele.

 A notícia do seu desaparecimento correu e a sua morte foi muito sentida por todos. O vizinho que o tinha encontrado lembrou-se da voz que tinha ouvido quando estava na costa. Contou o que lhe tinha acontecido e as pessoas mais velhas explicaram que, quando Deus formou o mundo, o mar tinha pedido que lhe desse todos os dias um ser humano ou um palmo de terra, tendo ficado combinado que ia ser um homem.

 Os vizinhos, tristes e chorosos, compreenderam que o desaparecido tinha sido o ser humano escolhido para dar naquele dia ao mar.

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A LENDA DO CHORÃO

Domingo, 21.02.16

O Chorão é uma árvore de tamanho médio a grande porte que pode alcançar mais de vinte metros de altura. É de crescimento rápido mas tem uma curta longevidade. É caducifólia, uma vez que perde as folhas no inverno ainda que, por vezes, as mesmas se mantenham na árvore até irromperem as novas. É muito pouco exigente com os solos, que apenas devem ter água suficiente, pelo que se dá muito bem em terrenos muito húmidos, sendo capaz de saneá-los absorvendo a água em excesso. O seu tronco é revestido com uma espécie de cortiça escura que vai rompendo com os anos. Os ramos são pendentes para o chão, parecendo lágrimas a caírem o que, para além de lhe dar nome, dá à árvore uma conotação de tristeza e melancolia. Por vezes confunde-se com o salgueiro, do qual é uma espécie. Na Fajã Grande, ao contrário do salgueiro, o chorão era muito raro.

Sobre esta árvore, no entanto, contavam-se algumas lendas. Na tradição cristã existe uma segundo a qual o chorão vergou os seus ramos para o chão para esconder a Virgem e o Menino Jesus durante a fuga para o Egipto. Segundo uma outra lenda, o chorão chora porque um ramo seu serviu para golpear Jesus, durante a Sua Paixão.

No entanto a lenda mais célebre e mais contada era aquela segundo a qual se explica que, a quando da criação divina, o chorão, ao ver que os seus ramos estavam pendentes para o chão, foi protestar com Deus, por o ter feito daquela maneira. Com aqueles ramos assim pendentes nunca conseguiria subir e chegar ao céu. Exigia que Deus lhe desse ramos iguais aos das restantes árvores, ramos que se erguessem para o alto e assim conseguisse subir e chegar ao céu. Deus, insatisfeito com o seu protesto, disse-lhe, que nunca lá havia de chegar, porque quanto mais crescesse mais os seus ramos haviam de se virar-se para o chão

 

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A VELHA DO ALAGOEIRO

Quarta-feira, 17.02.16

Conta-se que em tempos que já lá vão havia uma pobre mulher que vivia sozinha na Fajã Grande, para os lados do Alagoeiro e, por isso, era conhecida de todos como A Velha do Alagoeiro. A mulher para além de velha e muito pobre era um pouco tresloucada, não atinando muito bem com o que dizia e, por isso, o povo gozava-a e ria-se dela. Mas tinha bom coração e repartia sempre o puco que tinha com os que eram mais pobres.

Um dia a pobre velhinha enquanto cozia o seu bolo ouviu bater à porta. Veio abrir e qual não foi o seu espanto quando viu uma formosa senhora, linda como um anjo e toda vestida de branco

- Entre! - Disse a pobre velhinha. - Estou a cozer um bolo para a minha ceia. Venha para junto do meu tijolo, pois do pouco que Deus me deu a todos gosto de dar.

A Senhora agradeceu-lhe, entrou e pediu-lhe com uma voz doce que parecia encantá-la:

- Vai dizer a toda a gente deste lugar que fuja de lá debaixo, das suas casas, de junto do mar. Um enorme temporal vai acontecer esta noite. O vento e o mar entrarão por terra dentro e destruirão todos os que não se refugiarem aqui, junto de ti.

E logo a velhinha foi de casa em casa avisar os moradores, dizendo a todos que deixassem a sua casa, o seu lar e viessem cá para cima, para o Alagoeiro, para junto dela. Se o não fizessem seriam todos levados por um grande temporal que ia fazer durante a noite.

Muita gente zombou do que a velhinha dizia, ninguém quis acreditar em tão triste profecia, permanecendo todos nas suas casas, cuidando que a velha do Alagoeiro, desta feita, estava mais tresloucada do que nunca. Por certo que tinha perdido o juízo por completo.

A velha voltou para sua casa muito triste, fechando e trancando todas as portas e janelas.

Pela noite dentro levantou-se um enorme temporal, uma tempestade como não havia memória na freguesia. O vento fortíssimo derrubava árvores, destruía casas, arrastava os animais e as pessoas. O mar entrava por terra dentro com vagas gigantes, cobrindo e arrasando todo o povoado, destruindo tudo.

Apenas quando a manhã despontou, o temporal amainou. O sol raiava num céu azul. O vento era bonançoso e o mar acalmara por completo. Mas muita gente que, no dia anterior, zombara da velhinha do Alagoeiro morrera e muitos outros ficaram sem casa, sem animais e sem nada. Tudo o temporal havia destruído.

O povo, então, emocionado e arrependido por ter zombado dela, acreditou que a velha do Alagoeiro era uma santa e que a mulher de Branco que lhe aparecera e a avisara do que iria acontecer naquela noite, por certo seria Nossa Senhora.

 

 

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A LENDA DE FEVEREIRO

Quarta-feira, 10.02.16

Muito nos ensinavam os nossos avós. Perante as nossas mais estranhas e inquietantes dúvidas e interrogações, que geralmente até nem formulávamos, havia sempre uma resposta. Algumas vezes um ditado, uma aravia, uma simples explicação outras, a maioria, uma história ou uma lenda. E eram estas as que mais nos cativavam.

Ora uma das questões que muito intrigava a criançada da Fajã Grane, na década de cinquenta, era a de saber a razão pela qual todos os meses tinham trinta ou trinta e um dias, enquanto Fevereiro tinha apenas vinte oito,

A explicação vinha-nos através duma pequena lenda. Era a seguinte:

Uma vez o Fevereiro estava cheio de fome e não tinha que comer. Encheu-se coragem e decidiu pedir ao seu vizinho Março uma tigela de papas.

Março aceitou o pedido mas com uma condição, por isso disse ao Fevereiro:

— Só te dou uma tigela de papas se tu me emprestares três dias dos teus.

Fevereiro que estava morto de fome, aceitou a proposta e emprestou ao Março três dos seus dias. Só que Março, atrevido, nunca lhos devolveu, ficando com eles para sempre, enquanto Fevereiro reclamava e chorava de tristeza. Parece que Março, para o calar, ainda lhe fez uma promessa. De quatro em quatro anos havia de lhe emprestar um dia para o consolar.

E assim aconteceu até hoje. Fevereiro ficou com vinte oito dias e Março com trinta e um. Apenas de quatro em quatro anos, como vai acontecer este ano, terá vinte e nove.

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QUANDO DEUS CRIOU O MUNDO

Domingo, 07.02.16

Antigamente, sobretudo quando alguma pessoa caía ao mar e morria ou quando se tinha conhecimento de que isso tivesse acontecido noutra freguesia, noutra ilha ou em qualquer outra parte do mundo, as pessoas mais velhas explicavam que tal acontecia porque quando Deus criou o mundo formou o mar e a terra e tudo quanto neles existe. O mar no entanto ficou muito invejoso e pediu a Deus que o deixasse comer, todos os dias, um pedaço da terra do tamanho de um cabelo. Deus, no entanto, não aceitou pois se o mar tirasse, em cada dia, um pedaço da terra mesmo que fosse do tamanho de um cabelo, passados milhares e milhões de anos, havia de comê-la e destruí-la por completo. Mas o mar era muito ganancioso e, perante a recusa de Deus, fez-Lhe um segundo pedido. Que ao menos lhe deixasse comer um dos habitantes da terra, ou seja um homem, em cada dia. Como Deus já não podia negar-lhe um segundo pedido, ficou, na verdade, combinado que em cada dia o mar havia de comer um ser humano. É por essa razão que todos os dias no mundo cai e é engolida pelo mar uma pessoa.

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O CONTO DO VIGÁRIO

Quinta-feira, 21.01.16

Conta-se que há muitos anos, numa aldeia ribatejana, havia um lavrador de parcos recursos mas que também negociava gado. Chamava-se Manuel Peres Vigário.

Certo dia procurou-o para negociar, ludibriando-o, um fabricante ilegal de notas falsas, que lhe disse:

- Senhor Manuel Vigário, tenho aqui umas notazinhas de cem mil réis que me interessava passar. Será que o senhor as quer? Largo-lhas por vinte mil réis cada uma.

O lavrador, um pouco desconfiado, pediu que lhas mostrasse. O homem anuiu e o lavrador, observando-as minuciosamente, reparou que eram bastante imperfeitas e que facilmente seriam identificadas como falsas, por isso, rejeitando a oferta, retorquiu:

- Acha o senhor que as devo aceitar? Até um cego vê que são falsas.

Como o homem insistisse na permuta, o lavrador cedeu um pouco, regateando o preço proposto pelo falsário. Por fim, lá fechou o negócio, comprando vinte notas por dez mil réis cada uma.  

Passados alguns dias o lavrador teve que pagar uma dívida a dois irmãos que, como ele, também negociavam gado. Combinaram que haviam de se encontrar no primeiro dia de uma feira que se realizava ali por perto. Quando o lavrador chegou à feira, foi procurar os irmãos e encontrou-os a jantar numa taberna da localidade, onde a luz era frouxa e a taberna escura. Sentou-se à mesa junto deles, e pediu um copo de vinho.

Começaram a conversar e o lavrador lembrou aos irmãos que, como o combinado, viera à feira para lhes pagar a dívida. Puxando da carteira, perguntou-lhes se aceitavam que lhes pagasse com notas de cinquenta mil réis. Eles disseram que não, e, como a carteira nesse momento se entreabrisse, o mais vigilante dos dois irmãos chamou a atenção do outro, com um olhar rápido, informando-o de que as notas, que se viam na carteira eram de cem mil reis, pelo que decidiram aceitar as notas que o irmão trazia e com que lhes pretendia saldar a dívida.

O lavrador tirou as notas da carteira e, lentamente, contou-as uma a uma, ao mesmo tempo que as deixava ir caindo em cima da mesa. Um dos irmãos pegou nelas com prontidão e guardou-as imediatamente no bolso. Se ambos as haviam visto contar, não havia razão para desconfiar do mano que, descontraidamente, continuou a conversa, pedindo e bebendo mais vinho. Por fim e antes de se ir embora disse aos irmãos que queria um recibo a provar que a dívida estava liquidada. Não era uso, mas nenhum dos irmãos se opôs e passaram o recibo no qual se declarava que Manuel Peres Vigário tinha pago a quantia de um conto de réis em notas de cinquenta mil réis, a fim de liquidar a sua dívida. O lavrador meteu o recibo na carteira, demorou-se mais um pouco, bebeu ainda mais um copo de vinho e, pouco depois, foi-se embora.

Alguns dias depois, um dos irmãos ao efetuar um pagamento numa mercearia com uma das notas que recebera, esta foi-lhe devolvida pelo dono por ser descaradamente falsa. O mesmo aconteceu com a segunda, a terceira e com todas as outras. Revoltados os dois irmãos foram entregá-las às autoridades, denunciando quem lhas tinha entregado. O lavrador foi chamado e acusado de ter pago a dívida com notas falsas e exigir um recibo para encobrir o logro. Mostrando-se muito admirado explicou que na altura tinha bebido demais e, por isso, pedira o recibo que, afinal, estava assinado pelos dois irmãos, e que provava bem que tinha feito o pagamento em notas de cinquenta mil réis, o que fora aceite pelos manos. E concluiu:

- E se eu tivesse pago em notas de cem, nem eu estava tão bêbedo que pagasse vinte, como estes senhores dizem que têm, nem muito menos eles, que são homens honrados, mas receberiam dinheiro a mais…

E foi mandado em paz.

Assim passou a designar-se por conto do vigário todos os embustes que tem em comum golpe de esperteza de alguém que subtilmente engana o seu semelhante.

 

NB – Este texto foi elaborado com dados retirados da Net, publicado por Formiguinha e inspirada num conto de Fernando Pessoa.

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A LENDA DA LUA E DA ÁGUA

Quarta-feira, 18.11.15

Segundo uma lenda muito antiga, que também se contava em tempos idos na Fajã Grande, quando Deus criou o mundo, decidiu também criar o Inferno, a fim de castigar os maus e os prevaricadores. Ao ausentar-se do Céu, deixou, sentado no seu trono o seu anjo de maior confiança, Lucifer, a fim de que O substituísse, provisoriamente. Quando Deus regressou, Lucifer recusou-se a sair do trono e dar o lugar a Deus, pois pretendia ser igual e superior a Ele, passando a governar o universo. Mas para não revelar os seus desejos invejosos e malévolos e a sua enorme ânsia de poder, dizia simplesmente que Deus, ao ausentar-se, lhe tinha dado o seu trono, pelo que dali não mais sairia.

Deus retorquia dizendo:

- O trono é meu. Apenas te pedi que nele te sentasses e do universo cuidasses enquanto me ausentei.

Mas Lucifer teimava em não sair do trono do Altíssimo. Perante a insistência de Deus, Lucifer decidiu por uma demanda contra Ele. Deus para se defender apresentou a Lua, a Água e o Sol como suas testemunhas, a fim de que comprovassem que apenas tinha emprestado e não dado o seu trono a Lúcifer. A Lua e a Água juraram falso, dando razão a Lucifer. Apenas o Sol jurou a verdade, dizendo ao Senhor Deus:

- O que é dado é dado, o que é vendido é vendido e o que é emprestado é emprestado. Portanto o trono é Vosso.

Foi então que Deus destronou Lúcifer enviando-o para sempre para o Inferno, transformando-se num anjo mau. Além disso, Deus também castigou os anjos amigos de Lucifer e que haviam jurado falso contra Ele, assim como castigou a Lua que era tão linda e tão brilhante como o Sol e também a Água que era limpa, pura e transparente. Os anjos maus foram atirados para o inferno, juntamente com Lúcifer, mas como Deus não podia enviar para lá nem a Lua nem a Água, pois ambas faziam falta ao mundo, simplesmente tirou os raios e o brilho da Lua para os dar ao Sol que assim se tornou ainda mais brilhante, e castigou a Água, obrigando-a a correr para sempre, sempre, sem nunca estar queda.

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A LENDA DE SÃO MIGUEL ARCANJO

Quinta-feira, 29.10.15

Na igreja da Fajã Grande, na década de cinquenta, ainda existia uma imagem de São Miguel-o-Anjo. Tratava-se de uma pequena escultura em talha dourada que se dizia ser muito antiga, tendo, provavelmente, pertencido à primitiva ermida, construída em 1755 e que antecedeu a atual igreja. A imagem representava o São Miguel Arcanjo, empunhando numa das mãos uma espada e na outra uma balança. Estranhamente esta imagem não estava exposta à veneração dos fiéis, encontrando-se guardada numas arrecadações que existiam por detrás do altar-mor, junto às escadas do camarim.

Era sobre São Miguel Arcanjo que, naquela altura, se contava a seguinte lenda a qual, provavelmente, teria algum fundamento religioso e cristão, dadas as semelhanças entre o seu conteúdo e a representação que havia sido feita da velha e pequenina imagem. Contava-se que houve, certa vez, no Céu um grupo de anjos comandados por Lucifer que se revoltou contra Deus, numa espécie de golpe de estado exigindo que lhe fossem dados poderes e privilégios semelhantes ais divinos. Como Deus não aceitasse tão inoportuna e exasperada rebeldia, travou-se uma batalha no céu, envolvendo os anjos fiéis a Deus contra os anjos revoltosos. Estes eram comandados por Lucifer e os fiéis a Deus tinham como chefe São Miguel Arcanjo. Nessa batalha, destacou-se, na verdade, São Miguel Arcanjo. Segundo a lenda, São Miguel enfrentou diretamente Lucifer, derrotando-o definitivamente e atirando-o para o inferno juntamente com todos os anjos revoltosos. Essa a razão por que São Miguel Arcanjo, geralmente, é representado quer em imagens sacras quer em pinturas religiosas sob a forma de guerreiro vitorioso, empunhando uma espada contra Satanás, como acontecia na velhinha imagem da Fajã Grande. É também por isso que é invocado como patrono dos guerreiros e se lhe pede auxílio nas lutas e combates da vida.

São Miguel Arcanjo também é invocado como o anjo da morte, pois acredita-se que é ele que assiste cada alma na sua jornada final, logo após a morte, até o céu para julgamento. Essa a razão por que para além da espada, se apresenta também com a balança para pesar os pecados dos humanos e julgar os bons e os maus. A tradição diz que Miguel dá uma última chance a todas as pessoas, a fim de se redimirem antes da morte e assim, desta forma, provoca consternação ao demónio e seus seguidores, obtendo mais e mais vitórias sobre Lúcifer.

Inspirado na velhinha imagem da igreja da Fajã Grande, Pedro da Silveira nascido naquela localidade escreveu o seguinte poema

 

“Lembrei-me agora de ti,

San Miguel-o-Anjo de espada ferrugenta e capacete emplumado

De quando eu ia com meu pai à missa de domingo.

 

Tu não falavas nunca com os meninos da tua idade,

Nem rias quando olhávamos para ti;

Os teus beiços ficaram sempre mudos

Ao meu apelo insistente de criança.

Abismados em não sei eu que pensamentos de nuvens,

Teus olhos nunca se abriram para a vida

Que a minha ingenuidade de seis anos te quis dar.

 

                        Todos os dias a pesar pecados

                        Na balança velha do céu…

 

San Miguel-o-Anjo da minha infância,

Esquecido da vida num canto escuro da igreja,

Nem tu talvez existes já…

 

Outras vozes acordaram nos meus dias

E chamaram a outros caminhos

O menino que eu era contigo.

 

Hoje, San Miguel-o-Anjo da minha infância,

Menino santo de pau insensível à vida,

De ti em mim persiste só

A vontade que eu tinha de gritar à tua indiferença

Que deixasses de ser santo

E viesses cá para fora brincar comigo

Nas poças da beira-mar.”

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publicado por picodavigia2 às 00:05

A CRUZ DA CALDEIRA

Sábado, 17.10.15

Uma das mais emotivas, aterradoras e arrepiantes estórias que se contavam antigamente, aos serões, em muitas casas da Fajã Grande, era a da Cruz da Caldeira, a qual, para além do seu conteúdo narrativo que implicava a prevenção contra determinados comportamentos e atitudes que poderiam aproximar os humanos do Diabo, explicava a razão de ser ou a existência duma enorme cruz branca que existe no alto da Rocha dos Bredos, precisamente no antigo caminho que ligava a Fajãzinha à Caldeira e ao .

Contava a estória que certa noite um grupo de pessoas estava a fazer serão numa casa da Caldeira. Os presentes conversavam, alguns homens jogavam às cartas, outros fumavam e descansavam, as mulheres cardavam e fiavam e as crianças umas já dormiam e outras, brincavam. A conversa começou a aquecer e, de repente, transformou-se em discussão e esta em tirapuxa. Um dos homens presentes, muito forte e anamudo, perante as afirmações de alguns dos outros de que não se podia nem devia assobiar à meia-noite, porque isso era chamar o Diabo, dizia que por si assobiava, onde e quando quisesse e lhe apetecesse, a qualquer hora do dia ou da noite e que não tinha medo nenhum de o fazer. Os outros que não e ele que sim. As mulheres assustadíssimas.

Foi então que um dos presentes lhe disse que ele não era capaz de, quando fosse meia-noite, ir à Ribeira e dar três assobiadelas, chamando o Cão-Feio. Os outros homens começaram a assanhá-lo enquanto as mulheres se benziam, persignavam e rezavam pequenas jaculatórias. O homem, porém, não se continha. Parecia que já tinha o Eiramá metido no corpo. E vai disto aceita a aposta: - Se lhe dessem três canadas de vinho ele ia sozinho à Ribeira, à meia-noite, dar as três assobiadelas.

Os outros aceitaram e, um pouco antes de bater a meia-noite no relógio da sala, o homem partiu. Assim, à meia-noite em ponto, estaria lá no alto, junto à Ribeira, pronto para dar os três assobios.

A noite estava escura como breu e o mar rugia como um touro. À meia-noite todos se calaram e, logo que o relógio deu a primeira pancada, ouviu-se o primeiro assobio, muito forte e prolongado. Todos se arrepiaram, as mulheres bichanavam pequenas orações, os cães começaram a uivar e o mar a rugir cada vez com maior intensidade. Passado um pouco, ouviu-se o segundo assobio, mas mais fraco e menos vibrante do que o primeiro. Todos se arrepiaram e até o silêncio que se seguiu parecia assustador. Os cães cada vez uivavam mais e o mar rugia com mais força. Metia medo! Esperaram atónitos e estupefactos. O terceiro assobio já não se ouviu. Aguardaram, temerosos, uns a olhar para os outros, sem dizerem nada, pressentindo que algo de estranho acontecera. Esperaram mais algum tempo e nada. Os homens puseram-se alerta. As mulheres com o coração apertado e as mãos cruzadas sobre o peito, implorando clemência e perdão. Esperaram, esperaram… Nem assobio nem meio assobio! Passou-se um quarto de hora, passou meia hora… O terceiro assobio sem se ouvir e o homem sem regressar. Não se fiou nem se cardou mais… Ninguém saiu para as suas casas, nem ninguém dormiu até de madrugada. Uns bem incentivavam os outros a sair na procura do homem, mas ninguém teve coragem de o fazer. Só de manhã, quando os primeiros raios de luz começaram a raiar, tímidos, por detrás dos montes, um grupo de homens partiu na direção da Ribeira, para o local onde, supostamente, o homem havia assobiado. Assim que desembocaram à Ribeira, começaram a ver sangue misturado com cabelos. Chegaram finalmente a um algar, escavacado lá bem no fundo da Ribeira. Estava mais aberto e mais escarrachado do que nunca. Ao redor mais sangue, mais cabelos e restos de roupa. Mas o homem nunca mais o viram, nem nunca ninguém soube dele, cuidando que ele teria sido arrastado e levado lá para o fundo do algar, cujas profundezas ninguém conhecia. Essa a razão por que lá no alto, no lugar onde encontraram o sangue os cabelos, foi erguida uma enorme cruz branca que ainda hoje lá existe, denominada de A Cruz da Caldeira.

 

 

 

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A LENDA DE SÃO CRISTÓVÃO

Segunda-feira, 12.10.15

Pouco se sabe sobre a vida de Cristóvão, morto durante no reinado de Décio, imperador romano do século III, simplesmente por ser cristão e pregar o cristianismo. A igreja canonizou-o, considerando-o mártir e hoje é um dos santos mais populares do mundo, sendo reverenciado especialmente por atletas, marinheiros, barqueiros e viajantes e foi proclamado padroeiro dos automobilistas e de quantos andam em viagem.

O facto de se saber pouco sobre a sua vida originou a que sobre ele se criassem algumas lendas, sendo uma das mais interessantes a seguinte que, como muitas outras, era contada antigamente, aos serões, na Fajã Grande.

Conta essa lenda que havia, antigamente, um rei pagão que não tinha filhos. Mas a rainha era cristã e, às escondidas do monarca, rezava e pedia a Deus que lhe desse um filho. Só assim daria uma grande alegria ao seu rei e esposo. Deus ouviu as preces da bondosa rainha e esta concebeu e deu à luz um filho, para gáudio do rei e de toda a corte. A criança, de nome Cristóvão, cresceu e tornou-se num belo jovem, muito alto e corpulento, possuindo uma força extraordinárias. Foi essa força que fez com que Cristóvão resolvesse colocar-se exclusivamente ao serviço dos ricos, poderosos e mais fortes, acabando por servir um rei poderoso e mau que se cuidava que fosse o próprio Satanás, dado que se assustava quando via uma cruz por perto. Certo dia, Cristóvão encontrou um eremita que vivia pobremente numa gruta. A bondade e simplicidade do eremita emocionou de tal modo Cristóvão que este passou a viver junto dele durante algum tempo, ajudando-o, enquanto o eremita o educava na fé cristã, ensinando-lhe a doutrina e batizando-o. A partir de então Cristóvão começou a ajudar os mais fracos, os mais pobres e os mais desafortunados, sobretudo aceitando a tarefa de os ajudar a atravessarem um rio perigoso, onde não havia ponte e no qual muitas pessoas haviam morrido ao tentar fazer a travessia.

Certo dia, Cristóvão ajudo uma criança a atravessar o rio. Como sempre, fê-lo de boa vontade, mas ao iniciar a travessia pelo meio das águas notou que estranhamente, a criança ficava cada vez mais pesada, de tal maneira carregada que lhe parecia que transportava o mundo inteiro sobre os seus ombros. Quando chegou à outra margem do rio estava tão cansado que desabafou:

- Menino, afinal eras tão pesado que tive a sensação que trazia o mundo às costas.

- Pois bom homem, - disse a criança, - foi exatamente o que trouxeste ao ombro.

Ao dizer isto o menino desapareceu. Cristóvão já estava tão admirado com aquele menino e com o seu estranho peso, mas mais espantado ficou quando viu que tinha um barco ali ao seu lado para de futuro atravessar os pobres, em vez de os carregar às costas. Mais tarde compreendeu que aquela criança era o menino Jesus, o Criador e Redentor do mundo. Daí, concluí-a a lenda, lhe advém o nome Cristóvão, que significa aquele que carrega Cristo.

Mas a lenda ainda conta que na manhã seguinte, apareceu no mesmo local uma exuberante palmeira. Estes dois estranhos milagres converteram ao cristianismo muitos pagãos o que despertou a fúria do imperador que odiava o cristianismo e que o mandou prender, sujeitando-o, algum tempo depois, a um martírio cruel, pois mandou que lhe cortassem a cabeça, estando ainda vivo.

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A LENDA DA ALMA PENADA

Sábado, 10.10.15

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, era muito vulgar ouvir-se esta frase: Aquilo é que é uma Alma Penada. Com esta expressão queria-se significar que a pessoa a quem ela se referia era uma criatura, simples, ingénua, com pouca determinação na vida, com limitadas capacidades de uso da sua liberdade, alguém que vivia a sua vida com objetivos pouco claros. Tratava-se de alguém que andava no mundo simplesmente por ver os outros andarem, aplicando-se sobretudo aos bêbados, ingénuos e tontos.

Ora esta expressão parece ter a sua origem numa lenda conhecida pelo mesmo nome, mas nalguns sítios também denominada por Dama da Meia-Noite, ou ainda como Dama de Branco. Segundo essa lenda, muito antiga, uma mulher terá morrido ainda muito jovem, não se apercebendo de que tal lhe tinha acontecido, isto é, não se soube que tinha morrido. Assim, apesar de morta, a mulher continuou a viver, mas apenas como uma alma, andando e vagueando pelo mundo sem muito bem saber o que queria ou o que pretendia fazer. Como, na verdade, assumisse permanentemente a forma e o aspeto de uma alma, andava sempre vestida com uma túnica branca que lhe cobria todo corpo até aos pés. Tinha apenas um objetivo que era o de encantar os homens solitários, tontos e bêbados, aos quais se apresentava com um aspeto jovem e sedutor como se fosse uma verdadeira, bela e atraente donzela que aparece à meia-noite para desaparecer logo a seguir. Como era muito linda e ludibriava facilmente os homens, estes cuidavam que ela era uma jovem normal. Ao encontrar um homem, a Alma Penada primeiro atraia-o e, de seguida, pedia-lhe que a levasse de novo para casa. O homem atraído por ela ficava entontecido, como que fica enfeitiçado pela beleza da moça e aceitava prontamente ceder às suas seduções. No entanto, ao caminharem juntos surgia sempre pela frente um obstáculo que impedia que continuassem a caminhar juntos. A mulher, de repente, desaparecia e o homem enfeitiçado regressava à sua solidão.

Dizia-se que muitas vezes até era para o cemitério que ela conduzia os homens, uma vez que era aí que ela tinha a sua moradia. Quando o homem percebia que fora conduzido e que estava num cemitério, a rapariga desaparecia. Também se dizia que era à meia-noite que tudo isto acontecia.

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A LENDA DO SENHOR DE MATOSINHOS

Sexta-feira, 25.09.15

Na Fajã Grande, outrora contavam-se muitas estórias sobre Jesus e as pessoas que o acompanharam durante a sua vida terrena. Muitas destas estórias ou lendas nada tinham a ver com as narrações dos quatro evangelistas, pregadas no púlpito da igreja ou lidas na Bíblia. Eram estórias ou lendas, muitas delas possivelmente baseadas nos evangelhos apócrifos e que não se sabe muito bem como terão chegado aos habitantes da mais ocidental povoação portuguesa. Uma delas era a lenda do Senhor de Matosinhos, segundo a qual Nicodemos, amigo de Jesus, que o defendeu no Sinédrio de que era membro e que lhe deu sepultura juntamente com José de Arimateia. Ora, segundo essa lenda, Nicodemos também era um hábil escultor, reproduzindo em madeira algumas imagens do seu amigo Jesus, as quais, não pode guardar por muito tempo, já que os pagãos apostados em desmentir o cristianismo destruíam tudo o que fosse cristão ou lembrasse Jesus e os seus discípulos. Mas como Nicodemos não queria ver destruídas as belas imagens que elaborara de Jesus que com tanta arte produzira, ao ser perseguido pelos cristãos, preferiu deitá-las ao mar. Uma das imagens lançadas ao mar era um belo cruxifixo representando Jesus pregado na cruz, no alto do Calvário. Esta imagem andou anos e anos no mar até que um dia chegou à praia de Matosinhos, perto do Porto. Em memória deste facto foi construído um padrão naquela praia e o cruxifixo, a cuja imagem faltava um braço por tanto tempo ter andado à deriva na água salgada, foi guardada e venerada pela população daquela localidade nortenha.

Ainda segundo a lenda, vários braços foram mandados esculpir, mas nenhum deles se conseguia ajustar à imagem. Muitos anos mais tarde, andando uma pobre mulher na praia apanhando lenha para abastecer a sua lareira, deparou com um pedaço de madeira maior e diferente dos outros. Chegando a casa, atirou-o para o lume, mas logo este saltou para fora da lareira. Isso repetiu-se por diversas vezes. Sempre que a mulher aquele pau saltava para fora da lareira, sem arder. Esta mulher tinha uma filha muda que, ao ver aquele facto estranho, miraculosamente falou pela primeira vez, dizendo que aquele pedaço de madeira era o braço que faltava ao Senhor Bom Jesus de Matosinhos.

Correu logo a notícia e colocado o braço na imagem, constatou-se que o mesmo encaixava na perfeição… E até hoje lá ficou!

A partir daí, todos os anos, sete semanas depois da Páscoa, se realizam as festas em honra ao Senhor de Matosinhos.

Ao senhor Arnaldo, faroleiro da freguesia na década de cinquenta, foi atribuído o apelido de O Senhor de Matosinhos. Pelos vistos ele teria realizado uma viagem ao continente, durante a qual visitou a igreja do Senhor de Matosinhos. Ao regressar à Fajã não cessava de narrar esta visita e de falar sobre o Senhor de Matosinhos. Mas a lenda terá chegado à Fajã Grande muitos anos antes da visita dele a Matosinhos.

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OS LABREGOS

Segunda-feira, 21.09.15

Na Fajã Grande, na década de cinquenta, utilizava-se, com frequência a apalavra labrego ou o seu plural, labregos. Com ela se referiam geralmente os rapazes mais estouvados, atrevidos, por vezes até malcriados que gozavam os outros e lhes faziam partidas. Aquilo é que são uns labregos, ouvia-se com alguma frequência. Na verdade, na língua portuguesa, a palavra labrego, como adjetivo, entre outras coisas significa ser grosseiro ou malcriado. No entanto tomada como substantivo a palavra tem um significado um pouco diferente. As pessoas mais antigas falavam em labregos como seres ou personagens míticas, semelhantes às feiticeiras que, pelos vistos, viviam durante uma parte do ano no mar e outra no mato, bem lá no interior da ilha. Havia mesmo quem cuidasse que os labregos eram diabos que vinham do outro mundo a fim de levar pessoas com eles para o Inferno. Mais contavam os nossos avoengos de que era na noite das candeias, ou seja no dia dois de fevereiro que os labregos saltavam do mar para a terra, subindo as ribeiras e escondendo-se no mato, para voltarem ao mar seis meses depois. Nessa noite ninguém devia sair de casa ou ir para o mar, nem aproximar-se da costa ou das ribeiras, nem andar sozinho, nem sequer deixar as portas das casas abertas. Caso contrário seriam atacados pelos labregos. Pelos vistos comer alho ajudava a afugentá-los.

Sobre eles contavam-se várias estórias. Uma delas era a seguinte: certo dia, na noite de labregos, ou seja, na noite do dia dois de fevereiro, estava um grupo de homens a falar sobre os labregos que haviam de saltar para terra e subir as ribeiras naquela noite. Uns que eles existiam outros que não. Mas verdade é que todos evitavam andar sozinhos naquela fatídica noite. Um deles, muito anamudo e que se gabava de não ter medo de nada nem de coisa nenhuma, jurava a pés juntos que naquela noite ou em qualquer outra noite ia sozinho à costa, à Ribeira das Casas ou a outra ribeira qualquer. Até ia ao mato se fosse preciso. Mesmo à meia-noite. Os outros que não e ele que sim. E vai daí fazem uma aposta. Aquela hora ele subia, sozinho, a Ribeira das Casas até ao Poço do Bacalhau. Apesar de a noite estar escura como breu o homem aceitou a aposta e lá caminhou. Mal tinha passado a ponte e começado a subir a estreita vereda que dá para as relvas e lagoas circundantes ao Poço do Bacalhau, ouviu uma voz rouca e desconhecida que disse:

— Agarra, agarra que é ladrão.

Cheio de medo, todo arrepiado, o homem meteu a mão no bolso e sentiu que tinha consigo um dente de alho. Fora a mulher que, quando soube da aposta, temendo o pior lhe meteu um dente de alho no bolso. O homem pensou que era um milagre de Deus que lhe dava o alho para que o comesse e se visse livre dos labregos. Comeu o dente de alho e logo ouviu outra voz ainda mais rouca que disse

— Não o agarres, que ele comeu alho e bolo do borralho.

O homem ficou todo arrepiado. Cheio de medo, a tremer como varas verdes, voltou para trás e correu para casa, um pé não apanhava o outro. Ainda lhe parecia mentira quando se achou deitado na cama, com a porta bem ferrolhada, ao lado da mulher que não pregara olho até ele voltar.

No dia seguinte o caso espalhou-se pelo povoado e todos diziam que tinham sido os labregos o que ele tinha ouvido.

Nunca mais o homem voltou a fazer apostas, muito menos as que tivessem a ver com labregos.

 

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A SENHORA DE BRANCO

Terça-feira, 15.09.15

Conta-se que há muitos anos, vivia isolada no lugar do Areal, bem junto do mar, uma mulher pobre e humilde juntamente com a sua filha. A mulher era de avançada idade e, devido à sua simplicidade e ingenuidade, e sobretudo devido à sua pobreza, muitas pessoas do povoado faziam troça dela, sendo constantemente alvo da chacota e de descrédito por toda a população do povoado. Mãe e filha viviam miseravelmente e passavam muita fome.

Certo dia enquanto a velhinha e a filha, como habitualmente, estavam sentadas à mesa, tendo á sua frente apenas uma tijela de caldo de couves e uma côdea de pão velho e rijo que lhe haviam oferecido, bateram-lhe à porta. A noite já ia adiantada e como tivessem medo, cuidando que fosse alguém que lhes quisesse fazer mal, não abriram a porta, mas perguntaram quem estava de foa, a bater. Ninguém respondeu, mas de repente a velha porta de madeira rangeu e rodando sobre as dobradiças de ferro abriu-se e apareceu uma formosa senhora vestida de branco que nem a idosa nem filha conheciam. No entanto, a velha convidou-a a entrar e a sentar-se à sua mesa. Haviam de repartir com ela a parca e pobre ceia que tinham e que por caridade lhes haviam oferecido.

A Senhora de Branco agradeceu tão grande generosidade e entrando, disse:

- Não me posso demorar. Ide, de pressa, avisar a toda a gente da Fajã, Cuada e Ponta que fujam para o mato antes de amanhecer. Um barco de piratas, poderosos e salteadores vai chegar, durante a madrugada, a este areal. Os piratas vão entrar por terra dentro, roubando, destruindo, violando as mulheres, matando os velhos e as crianças.

E dito isto, desapareceu. Apesar de ser noite escura a velha e a filha deixaram a sua ceia e correram na direção do povoado, indo de porta em porta, batendo, chamando e acordando as pessoas, dizendo a todos que fugissem de suas casas, que subissem a rocha e se escondessem no mato porque de madrugada chegaria mais um barco de piratas, salteadores, ladrões e assassínios. A população troçou delas, poucos foram os que acreditaram na profecia e muitas pessoas até as insultaram por lhes baterem à porta àquela hora da noite. Mas a velha, acompanhada da filha, pôs-se, imediatamente, a caminho do mato, subindo a rocha àquela hora da noite. Algumas pessoas, muito assustadas, também as seguiram. Durante toda a longa caminhada a subir pelas estreitas veredas daquele alcantil pétreo e abrupto, a velhinha que acreditara no que a Senhora de Branco lhe dissera pensava que as pessoas, por serem incrédulas, tinham ficado em perigo, lá em baixo, onde muitos dormiam descansadamente. Mas de madrugada o pior aconteceu. Um enorme barco ancorou por fora da Baía d´´Agua. Um numeroso grupo de piratas armados de espadas e lanças saltaram para terra e entraram pelas casas, destruindo, roubando, violando as mulheres e matando muita gente. Algumas pessoas ainda conseguiram fugir mas a maioria foi assaltada, roubada, morrendo às mãos dos malvados assassinos.

Quando à noitinha, o barco zarpou para norte, depois de ter devastado completamente o povoado, a velha e os que tinham seguido os seus rogos e que atrás dela haviam fugido para o mato, desceram a rocha e encontraram no povoado, apenas morte e destruição. Todos os que escaparam á catástrofe, quando a velhinha lhes contou como tinha sido informada do que havia de acontece acreditaram que fora Nossa Senhora que a havia avisado e que devido à Sua bondade os salvara. Mas também não se cansavam de agradecer à velhinha a coragem que tivera e, a partir de então, embora continuando a viver indigente e humilde, no seu pobre casebre, passou a ser respeitada por todos.

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