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AS TRÊS MENINAS E A ÁRVORE DO DINHEIRO

Quarta-feira, 14.06.17

Eram uma vez três meninas órfãs que foram às amoras para o mato. De repente levantou-se um denso nevoeiro. Entontecidas e sem saber para que lado estava o caminho através do qual deviam regressar a casa, as meninas perderam-se. Sem que se apercebessem e como que miraculosamente, viram junto de si uma mulher morena, com seus cabelos loiros e com muitas tranças. O nevoeiro desapareceu por completo, fez-se um sol radiante mas as meninas não conseguiram perceber onde estavam nem ver o caminho que haviam percorrido anteriormente. A mulher não falou com elas pois estava sentada, de costas para elas a ler um livro com o nome Árvores em Extinção.

A menina mais velha aproximou da mulher e, muito curiosa, começou a olhar o livro por de traz dela. Conseguiu apenas ler um pouco de uma página que dizia o seguinte:

- Havia num certo local uma árvore chamada Árvore do Dinheiro. Quem fosse lá e desse apenas dez 10 centavos, ganhava 10 mil escudos. Isto cada vez que la fosse e todas as pessoas poderiam lá ir todos os dias. Essa árvore estava localizada em um sítio abandonado do mato lá para os lados das Pontas Brancas…

A menina ficou muito interessada e decidiu falar com a mulher. Disse-lhe então:

- Nós gostávamos de ir procurar essa árvore.

A mulher retorquiu, dizendo que também ia procurar essa árvore. Se as três meninas quisessem poderiam ir junto com ela. Mas teria que ser no dia seguinte, pois como não tinham nenhum dinheiro ali, teriam que ir buscar os dez centavos a casa.

No dia seguinte, sem dizer nada a ninguém, partiram de novo para o mato e encontraram a mulher no mesmo sítio. Partiram então, como combinado, para os lados onde a mulher lhes dissera que existia a árvore mágica. Chegaram ao local e na verdade encontraram uma árvore estranha só que de repente e enquanto estavam de frente para a árvore a mulher desapareceu.

As meninas chamaram, procuraram, mas nada. A mulher havia desaparecido.

Atónitas as três meninas aproximaram-se da árvore. De repente o céu começou a ficar muito escuro, levantando-se um grande temporal e um denso nevoeiro. As meninas desapareceram e nunca mais ninguém as viu, nem ninguém mais ouviu falar delas.

 

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publicado por picodavigia2 às 16:16

AGRURAS

Segunda-feira, 30.01.17

Dália acabara de fazer vinte e seis anos. Era livre, livre como um passarinho. Há dois anos que terminara o Curso de Medicina em Coimbra e agora estagiava no Centro de Saúde de Megonvil. Seis anos como estudante haviam-na transformado numa médica competente, perspicaz e sonhadora. Esperava-a uma longa e árdua carreira. Em breve terminaria o tempo de estágio ao qual se seguiriam alguns anos, a fim de completar a especialidade. Só então seria uma médica autónoma e independente. Onde havia de trabalhar? Onde havia de se impor como profissional de saúde? Profissional competente e digna… Não sabia e, também, pouco se importava saber. Talvez perdida num gigantesco hospital de uma grande cidade, talvez excessivamente reconhecida num pequeno Centro de Saúde de uma desertificada vila ou aldeia do interior. O futuro havia de lhe traçar o destino…

E foi numa viagem de férias para Maiorca que tudo mudou. Um dos últimos passageiros a entrar sentou-se no lugar que vagava a seu lado. Não usava aliança, parecia viajar com um objetivo igual ao dela e falava um inglês quase perfeito. Pediu licença para passar e sentou-se à janela, no lugar indicado no talão de embarque. Pediu desculpa pelo incómodo, por tê-la obrigado a levantar-se do seu lugar. Ela sorrindo respondeu simplesmente:

- You’re welcome.

Nada mais se passou durante a viagem. Nada mais disseram até ao aeroporto de Palma de Maiorca. Ela saiu à frente e não mais o viu.

Quando se preparava para fazer o check-in no hotel em que se hospedara foi informada de que alguém a esperava no bar. Para espanto seu, era ele, o passageiro que viajara a seu lado. Conversaram, riram e beberam até de madruga. Seriam umas três horas quando, inesperadamente, a polícia local irrompeu pelo hotel, levando-o para ser interrogado. Na manhã do dia seguinte, Dália informou-se na polícia local. Soube que fora preso por suspeita de tráfego de droga. Dália também foi chamada a depor, acabando por ser acusada de ser cúmplice do meliante. Presa também ela, ficou à espera de ser julgada, por falta de provas. Aguardou mais de um mês pelo julgamento e, por fim, foi condenado a mais seis meses de prisão.

Sozinha em Maiorca não teve quem a auxiliasse, nem quem zelasse pelos seus direitos. Impedida de regressar ao seu país de origem perdeu o emprego, sendo afastada da ordem dos médicos. Posta em liberdade teve receio e sobretudo vergonha de regressar ao seu país. Aguardou que o responsável pelo seu infortúnio fosse posto em liberdade. Foram meses de fome, miséria e sofrimento.

Finalmente ele saiu. Promessas e mais promessas levaram Dália a um envolvimento mais profundo. Sem que suspeitasse, pouco tempo depois ele desapareceu. Sozinha, de novo, sem trabalho, desolada e triste, personificou-se como lenitivo para as suas mágoas. Dentro em breve foi-lhe detetada uma grave e contagiosa doença. Dália era médica e sabia os riscos que corria. Temeu. Possivelmente teria sido contagiada por ele. Ao infortúnio juntava-se agora uma enorme angústia. Como médica sabia muito bem o que lhe poderia acontecer. Durante os tempos que seguiram e em que procurou a cura, Dália chorou, sofreu e voltou a passar fome, deambulando pelas ruas como mendiga.

Certa tarde em que se encontrava sentada no vão das escadas de um prédio, gelado, faminta, desesperada, à espera que a morte a levasse, um cão latiu, denunciando a sua presença. O dono do prédio, ouvindo o cão, surgiu nas escadas dando de caras com ela. Sem lhe fazer perguntas ou sequer a recriminar, pegou-lhe pelos braços com carinho, amparou-a e levou-a para a sua própria casa. Dália, envergonhada e tímida ao início, perante as insistências do seu paraninfo, tomou um banho, mudou-se de roupa que ele próprio lhe dispusera e tomou uma ligeira refeição, deitando-se de imediato.

No dia seguinte, ao acordar, deu de caras com o homem que a recolhera sentado a seu lado. Havia-lhe colocado um ramo de flores no regaço. Dália sorriu, pela primeira vez, desde aquela noite fatídica, no hotel, em que fora presa.

Recuperou e, no mês seguinte, regressou a Portugal e a Megonvil mas só a muito custo e passado algum tempo conseguiu reintegrar-se na carreira médica, mas numa vida profissional muito diferente daquela com que sonhara nos bancos da Universidade!

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publicado por picodavigia2 às 00:05

A CABRA E A PRINCESA

Terça-feira, 22.11.16

Conta-se que há muitos, muitos anos, havia um homem que vivia no lugar das Furnas e tinha uma cabra que se apresentava sempre com um olhar muito estranho, que até parecia que se entristecia e se alegrava como se fosse uma pessoa. Além disso a cabra tinha o hábito de se aproximar mansamente das pessoas, especialmente das crianças sobretudo das que haviam sido batizadas há pouco tempo.

- Mas ali havia coisa, - murmurava o povo.

Na verdade tanto se cochichou, tanto se mexericou, tanto se inventou e tanto se falou que, algum tempo depois, correu pelo povoado a notícia de que a cabra teria sido encontrada pelo dono, à beira mar, talvez abandonado por um navio de piratas, durante a noite e que tudo poderia ser obra do diabo. A partir de então todas as pessoas e muito especialmente as mães com filhos pequeninos ao verem a cabra fugiam aterrorizadas com os seus filhos debaixo de um braço e os cestos de batatas, da roupa ou de outra coisa qualquer que carregavam, no outro.

Mas o que ainda mais espantava o povo era o facto de que a demoníaca cabra levantava as mãos e se colocava nas pontas dos pés diante das crianças para as observar como se esperasse algo delas.

Certo dia, já não suportando mais tal assédio por parte da estranha cabra, as mães juntaram-se e em magote correram a queixar-se ao padre que paroquiava a freguesia, contando o que se passava e que tanta consumição lhes dava.

O padre tentou acalmá-las dizendo que aquilo nada tinha a ver com o demónio e que, muito provavelmente, acontecia porque a cabra, simplesmente queria brincar com as crianças ou, no mínimo, no caso das crianças recém-batizadas lamber os óleos sagrados com que as crianças eram ungidas no dia do seu batismo. Chegou mesmo o reverendo a afirmar, em tom de gracejo e escandalizando os seus paroquianos que provavelmente se trataria de uma princesa encantada que com os óleos sagrados quebraria o seu feitiço.

Mas afinal tinha razão o prebendado. Na verdade, certo dia a cabra encontrou uma criança, que saía da igreja ao colo da madrinha e acabadinha de ser batizada. O famigerado animal pôs-se, de imediato, nos bicos dos pés e, sem que alguém o impedisse, lambeu a criança na testa. E o estranho aconteceu pois a cabra, de imediato, se transformou numa bela princesa, mantendo, no entanto, os seus pés iguais aos de uma cabra.

Alguns dias depois, porém, numa noite escura como breu, ouviu-se, para os lados das Furnas o barulho da sirene de um navio que ali terá ancorado. A partir desse dia nunca mais ninguém pôs a vista em cima da princesa, cuidando o povo que teria sido levada naquele estranho navio.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

AS DEZ VERDADES

Domingo, 16.10.16

Conta-se que antigamente havia um rapaz que era pastor. Havia também um homem muito rico que tinha um grande rebanho de ovelhas. Levou-as para o Mato, para as bandas da Burrinha e da Água Branca e contratou o rapaz para ir tomar conta delas. Como as ovelhas eram muitas e a distância do povoado grande, as ovelhas não podiam ir e vir todos os dias de casa para os pastos e destes para casa, pelo que o rapaz tinha que ficar durante o dia e durante a noite nos descampados do Mato. Mas tinha que se alimentar e era o patrão que lhe ir levar comida todos os dias, mas apenas uma vez por dia.

O patrão subia a rocha e deixava a comida numa pequena furna que ali existia. Como haviam combinado, mais ou menos à mesma hora ou um pouco depois, o rapaz vinha buscar a comida mas geralmente não via o patão que, nessa altura, já havia regressado a casa. Pelo contrário, cada vez que o pastor vinha buscar a comida, aparecia-lhe um homem. O homem fazia-se simpático, metia conversa com o rapaz e este repartia com ele a sua comida.

Certo, dia, o patrão que sabia que levava sempre a comida necessária para o rapaz se alimentar suficientemente, subiu a rocha um pouco mais tarde do que o costume e, quando chegou ao cimo, encontrou o rapaz que já ali estava à sua espera. Com grande espanto seu, pois sabia que lhe trazia a comida necessária para ele se alimentar suficiente e não passar fome, reparou que ele estava muito magro. Alguns dias depois voltou a encontra-lo e reparou que o rapaz estava ainda muito mais magro, parecia que definhava. Muito admirado o patrão preguntou-lhe:

- Trago-te tanta comida e tu estás cada vez mais magro? O que se passa contigo?

O pastor disse que todos os dias quando vinha buscar a comida que o patrão lhe levava, aparecia-lhe lá um homem que lhe pedia que repartisse a sua comida com ele. O patrão perguntou ao pastor:

- Tu não sabes rezar?

- Não, nunca aprendi.

- Então, olha quando fores comer, antes, faz uma cruz por cima da comida dizendo:- “Tão longe é daqui ali, como dali aqui”.

De seguida ensinou-lhe dez verdades, as quais ele nunca devia esquecer…

No dia seguinte, chegou a hora de comer e o homem apareceu outra vez. O rapaz que já tinha feito como o patrão lhe aconselhara, disse-lhe:

- Ande, venha comer.

- Se tu quisesses, que eu comesse não tinhas feito o que fizeste. Quem é que te ensinou a fazer isso?

- Foi o meu patrão.

- Então já sei que sabes muito. Mas de certeza que não sabes as dez verdades.

O rapaz enumerou tim-tim por tim-tim as dez verdades que o patrão um dia lhe ensinara:

- Alumia mais o sol que a lua.

- P’ra mãos se fazem as luvas.

- Do pau de pinho se faz o pez.

- Da pele do boi se faz o sapato.

- P’ra cintura se faz o cinto.

- Do bom vinho bebem os Reis.

- Do bom trigo se faz o biscoito.

- Nas relvas pastam as ovelhas.

- Rebenta Diabo, que não sei quem és.

O homem desapareceu e desde esse dia nunca mais procurou o rapaz para lhe pedir comida nem para outra coisa nenhuma.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:05

O ARREGANHADO

Quinta-feira, 12.11.15

Uma das estórias cómicas que se contava antigamente na Fajã Grande era a do Arreganhado. Rezava assim:

Era uma vez uma viúva que velando o seu marido morto, deitado dentro de um caixão, sobre a essa, lamentava-se assim:

- Ai, mei home, que desgraçada qu’ei sou porque morreste com Prazer e Alegria e me levas a minha Consolação entre as pernas. Ai Jasus! Que desgraçada qu’ei fique que já nan tenhe quen me sacuda u mei arreganhade! 

Mas para que não houvesse interpretações maliciosas e desonestas vinha logo a explicação: Afinal a pobre viúva chorava e tinha toda a razão para fazer aquele pranto. Naquele tempo a pobreza era muita e quando falecia mais do que uma pessoa numa casa, para poupar dinheiro, sepultavam-se todas no mesmo caixão. Ora a pobre mulher perdera o marido e as três criancinhas que tinha no mesmo dia. As crianças eram três meninas. Uma chamava-se Prazer, outra Alegria e a terceira Consolação. A mulher mandara colocar as duas maiores, a Prazer e a Alegria, uma de cada lado do marido. A Consolação, por ser mais pequenina, foi-lhe colocada entre as pernas. E como na ilha das Flores era costume chamar arreganhado ao castanheiro, porque os ouriços ao caírem abrem-se, como que a rir-se ou arreganhados a fim de porem as castanhas à mostra, a parte final da estória está explicada. É que a pobre viúva também se lamentava por já não ter o marido para lhe sacudir o castanheiro, a fim de que os ouriços caíssem e deles retirasse as castanhas.

Ele há cada interpretação maliciosa!

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publicado por picodavigia2 às 16:52

O VINHO DERRAMADO

Quarta-feira, 11.11.15

Conta-se que havia numa determinada terra um fidalgo tão pobre, que dispunha apenas de duas pequenas moedas para comprar diariamente o seu alimento.

Uma certa manhã, ao verificar que só tinha em casa um pão, decidiu comprar um pouco de vinho com uma das moedas. Foi à taberna mais próxima e pediu vinho.

O taberneiro, que era um homem grosseiro e desagradável, serviu-lhe de má vontade um copo de vinho, colocando-o na mesa tão bruscamente, que derramou quase metade. Em vez de desculpar-se, disse com insolência:

- O senhor está com sorte. O vinho derramado significa alegria e riqueza.

O fidalgo não protestou, mas cuidando que o taberneiro recebera dinheiro a mais do que o valor do vinho que bebera, uma vez que pagara um copo cheio e só bebera meio, pediu que lhe trouxesse um pedaço de queijo, no valor do meio copo derramado pelo taberneiro. O homem recusou, mas apanhou a moeda bruscamente e foi ao andar de cima a fim de a guardar.

Enquanto isso o fidalgo levantou-se, abriu a torneira do tonel de vinho e deixou que ele escoasse, formando um enorme lago vermelho no meio da taberna.

Quando o taberneiro voltou e viu o que acontecera, avançou furiosamente sobre o fidalgo. Este defendendo-se, atirou-o contra o tonel, que caiu ao chão junto com seu dono, entornando o que restava do vinho ali guardado.

Acudiram vizinhos e soldados, separaram os contendores, levando-os à presença do rei, a fim de que os julgasse e castigasse. O taberneiro falou primeiro e pediu uma indenização. Mas antes de dar a sentença, o rei quis ouvir também o fidalgo, que narrou o sucedido com toda a veracidade, e acrescentou:

- Majestade, este homem, quando entornou a metade do vinho que me vendera, disse-me que isso era sorte minha, pois vinho derramado significa alegria e riqueza. Pensei então que, se eu me tornaria rico por ter derramado só meio copo de vinho, o bom taberneiro se tornaria muito mais rico e feliz se derramasse meio tonel. Assim, cheio de reconhecimento e gratidão, resolvi abrir a torneira do tonel, e o resto já Vossa Majestade conhece.

O rei e toda e todos os membros da corte presentes riram com a engenhosa justificativa, e o fidalgo foi absolvido sem pagar a pretendida indenização.

 

Fonte de Inspiração - Net

 

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publicado por picodavigia2 às 00:05

A MORTE DA VAQUINHA

Sábado, 26.09.15

Era uma vez um pai que vivia, pobremente, com a mulher e um filho. O rapaz era muito apático e passava os dias a descansar, não se interessando por coisa nenhuma. Cuidava, o mandrião, que os pais tinham obrigação de o sustentar.

Certo dia o pai convidou o rapaz para dar um passeio. Caminharam durante um dia inteiro e à noitinha chegaram a uma pequena aldeia. Como já era noite o pai decidiu que haviam de passar ali a noite porque era muito tarde para regressar a casa. Dirigiram-se a uma pequena e pobre estalagem, onde pretendiam pernoitar.

O estalajadeiro, percebendo que eram pobres, disse-lhes que podiam ali ficar, mas deitar-se-iam no chão de um corredor pois não tinha cama para eles. O homem pediu-lhe, então, que antes os deixasse dormir no estábulo, pois era melhor dormir sobre a palha, do que no chão duro e frio.

O estalajadeiro aceitou, mas antes de os dois hóspedes se recolherem ao estábulo para dormir, encetou conversa com eles. O homem perguntou-lhe se ele e a família viviam apenas dos lucros da estalagem. O estalajadeiro explicou que viviam muito pobremente, pois a estalagem era muito pobre e pequena. O que os sustentava era o pouco leite que ordenhavam de uma vaquinha que tinham. Vendendo o leite, embora com alguma dificuldade, conseguia sustentar-se a ela à mulher e aos seus filhos.

Despediram-se.

De madrugada o homem acordou o filho e disse-lhe para se levantarem e saírem, sem fazer barulho, a fim de não acordarem os donos da estalagem ou algum hóspede que ali tivesse pernoitado.

Ao saírem da estalagem, viram um enorme cerrado de terra muito fértil mas não cultivado, cheio de ervas daninhas, onde estava amarrada uma vaca. Então o homem tirou do bolso um punhal e matou a vaca. O filho ficou indignado, mas o pai ainda o repreendeu, mandando que se calasse. E voltaram para casa

Passados alguns anos, o pai perguntou ao filho se ele ainda se lembrava da estalagem onde tinham pernoitado, pois gostava de visitar os moradores. Assim fizeram. Ao chegar à aldeia e depois de procurarem o pai apontou para um grande e moderno hotel, dizendo que era ali a estalagem onde tinham pernoitado. O filho discordou, pois o edifício indicada pelo pai, não era uma humilde estalagem, mas um enormíssimo e sumptuoso hotel. Mas como o pai insistisse, bateram à porta e com surpresa mútua, apareceu o dono da tal estalagem acompanhado da sua mulher. Muito satisfeito por os ver, perante o espanto e admiração deles, disse que tinha uma coisa muito importante para lhes contar.

- Sabe, - disse, - no dia em que foram embora, alguém nos matou a vaquinha cujo leite nos sustentava e ficámos sem saber o que fazer à vida. No meio daquela aflição, reparamos que o terreno que tínhamos era muito fértil e produtivo. Limpámo-lo das ervas daninhas, lavramos, semeamos e agora temos uma tal produção que até exportamos para o estrangeiro os frutos e os vegetais que ali colhemos. Estamos imensamente gratos a quem nos matou a vaca, pois com isso a nossa vida mudou para muito melhor. Com o dinheiro que ganhámos, construímos este grande hotel. Estamos ricos!

Despediram-se. Pelo caminho, no regresso a casa, o pai disse para o filho:

- Compreendes, agora, por que matei a vaca? Estavam acomodados, incapazes de dar um passo em frente para melhorar a sua situação. A morte da vaca despertou-os, abriu-lhes o caminho para o sucesso. Temos obrigação de pensar que dentro de cada um de nós existe sempre algo que pode crescer e chegar bem longe.

 

Fonte de Inspiração - Net          

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publicado por picodavigia2 às 00:05

O CARRO DE BOIS VAZIO

Terça-feira, 13.01.15

Era uma vez um pai que pretendia dar uma lição de vida ao seu filho. O jovem era um pouco estouvado e arrogante, falava muito alto, cuidando que a razão estava sempre do seu lado e tratava os outros com prepotência e desprezo.

Certa manhã, o pai, cuidando que assim lhe havia de dar uma grande lição, convidou-o a dar um passeio pelo campo, onde muitos lavradores circulavam nas suas lides agrícolas diárias. Naquela manhã, porém não andava ninguém pelos campos nem se ouvia barulho algum, a não ser o canto matinal dos pássaros. O pai, no meio daquele estranho silêncio, ouviu mais algum ruído, por isso, perguntou ao filho:

- Além do cantar dos pássaros, ouves algum outro barulho?

O filho, muito amirado, parou, a fim de que o ruído dos seus passos não o confundissem e pudesse dar ao pai uma resposta verdadeira, apesar de não perceber o que ele pretendia com aquilo. Depois, voltando-se para o pai, respondeu:       

- Ouço, ouço o barulho do rolar de um carro de bois sobre o pedregulho do caminho.

-Tens razão – disse o pai – realmente ouve-se o rolar das rodas de um carro de bois, mas trata-se dum carro vazio, sem carga.

Muito admirado e cada vez mais confuso, o filho perguntou:

- Como sabe, se não o vê, que o carro está vazio?

O pai, de imediato, respondeu:

- É muito fácil saber se um carro está vazio ou cheio de carga, por causa do barulho que ele faz ao rolar no caminho. É que quanto mais vazio o carro está, maior é o barulho que faz sobre a calçada onde rola. Por sua vez, o carro cheio, torna-se mais pesado e faz menos barulho. – E concluiu o velho e sábio pai: - Assim como os carros de bois também as pessoas. Quanto mais vazias são, mais gritam e mais barulho fazem.

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publicado por picodavigia2 às 10:42

VIDROS SUJOS

Quinta-feira, 29.05.14

Um casal decidiu mudar de casa e de localidade, instalando-se numa novo prédio, onde chegaram ao anoitecer.

Na manhã do dia seguinte, a mulher assomou à janela, olhando para fora, mas sem abrir os vidros. Deparou com uma vizinha do prédio em frente, estendendo a roupa numa varanda.

Depois de observar mais atentamente a roupa da vizinha, voltou-se para o marido e disse-lhe:

 - Aquela roupa não está bem lavada. A nossa vizinha, pelos vistos, não sabe lavar roupa. Talvez não use um bom detergente. Quando me encontrar com ela hei-de recomendar-lhe um detergente melhor.

Durante um mês ela continuou a tecer comentários negativos sobre as roupas mal lavadas, não só daquela mas de todas as outras vizinhas.

Dias mais tarde, porém, a mulher olhando, mais uma vez para a roupa das vizinhas, ficou muito espantada. Todas as roupas estavam muito bem lavadas e impecavelmente limpas. Voltando-se para o marido, disse-lhe:

- Até que enfim! As nossas vizinhas já aprenderam a lavar roupa. Vê como estão todas muito limpas! Será que, finalmente, usam um bom detergente?

O marido, sorrindo, disse-lhe:

- Minha querida, fui eu que hoje acordei mais cedo e limpei os vidros da nossa janela.

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publicado por picodavigia2 às 18:25

OS OVOS DA PÁSCOA

Sábado, 19.04.14

Numa pequena aldeia, muito isolada, lá bem no alto de uma montanha, numa casa pequena e humilde, morava, sozinha, uma velhinha muito pobre. Tão pobre que apenas tinha de seu uma galinha e um coelho, que criava com muito carinho e que alimentava com ervas que apanhava nos campos, pois mais nada tinha para lhes dar. A galinha tinha o seu linheiro debaixo dos degraus de pedra da escada que dava para o pátio, em frente à cozinha. Era aí que punha os seus ovos. O coelho andava solto, ali por perto, numa pequena cerca que havia junto da casa. À noite, o coelho e a galinha vinham deitar-se junto da cama da velha, dormindo os três, ali, juntos. A galinha, sempre que punha um ovo, começava a cacarejar e a velhinha, assim que a ouvia, corria, apressada, a fim de recolher os ovos que eram o seu principal sustento.

A velhinha gostava muito da galinha e do coelho. A galinha tinha a crista vermelha, as patas amarelas e as penas coloridas de azul, vermelho e alaranjado. O coelho, por sua vez, tinha um ar de espertalhão, as suas orelhas eram grandes e o seu pelo branco e bem fofinho. Apesar de pobre, a velhinha vivia muito feliz com os seus dois amigos,

Certo dia, a velhinha ouviu a galinha a cacarejar tão alto e com tanta força, que correu, de imediato, para junto dela, muito admirada, pois não era costume ela cacarejar tão esganiçada. Até o coelho se admirou e ficou com as orelhas em pé.

A velhinha, muito apressada, desceu os degraus da escada, baixou-se e viu, no linheiro, um ovo muito grande e muito diferente dos habituais, pois a sua casca era toda colorida. O ovo era tão bonito e a velhinha não se cansou de admirá-lo. De seguida, pegou-lhe com muito cuidado e levou-o para a cozinha, ficando sem saber o que fazer com ele. Não o devia comer, porque ele era muito bonito, mas também não o podia deixar como enfeite, pois tinha fome e, além disso, o ovo podia cair e quebrar-se.

O coelho que estava ao seu lado, ao ver a indecisão da velhinha, disse-lhe:

- Porque não o dás de presente a uma criança da aldeia? Aproxima-se o dia de Páscoa e qualquer criança que o receba de oferta, decerto, vai ficar muito feliz.

A velha aceitou de bom grado a ideia do coelho, no entanto, ainda um pouco confusa, perguntou-lhe:

- Mas a que criança o devo dar? Existem várias crianças aqui, na aldeia. – Pensou, consigo a velhinha. Depois, pensando um pouco melhor, exclamou:

- Já sei o que vou fazer. Vou juntar muitos ovos da galinha e vou pintá-los para que fiquem iguais a este. Depois vou dá-los às crianças e todas ficarão felizes.

Saltitando de alegria, o coelho disse, muito entusiasmado:

 - Eu também te vou ajudar a pintar os ovos!

Assim dito, assim feito. Nos dias seguintes a galinha continuou a por ovos que a velhinha foi recolhendo e guardando numa cesta de vime, ao mesmo tempo que os ia pintando com a ajuda do coelho. Ficaram todos muito bonitos: vermelhos, verdes, azuis, amarelos, roxos, alguns listrados de várias cores, outros com bolinhas e, um ou outro, até com flores. No domingo de Páscoa, a velhinha colocou-os numa cesta e foi distribui-los por todas as crianças da aldeia.

Cuida-se que foi por isso que nasceu a ideia de oferecer ovos coloridos pela Páscoa.

 

Texto inspirado num conto lituano.

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publicado por picodavigia2 às 18:35

AFINAL QUEM ERA O TOLO

Terça-feira, 15.04.14

Conta-se que numa certa aldeia havia um indivíduo que todos julgavam ser tolo. Para se divertirem e o gozarem, sempre que entrava num determinado café, os circundantes, de imediato lhe colocavam na frente duas moedas: uma de um escudo e outra de dois e quinhentos, solicitando-lhe que escolhesse a que achasse mais valiosa, ficando assim com ela. O tolo hesitava um pouco mas escolhia sempre a maior, ou seja a de um escudo. A cena repetia-se todos os dias e o tolo, para risota e galhofa de todos, continuava sempre a escolher a moeda de um escudo.

Certo dia um dos aldeões, indignado com aquela forma de gozar o desgraçado e com pena dele, chamou-o, à parte, e disse-lhe:

- Olha lá! És mesmo tolo! Ainda não percebeste que estás a ser gozado todos os dias porque a moeda mais valiosa é a mais pequena.

Resposta do tolo:

- Lá perceber, percebi. Só que no dia em que eu escolher a mais pequena acaba-se a brincadeira e não ganho nem mais um escudo. Por isso, enquanto puder, vou continuar a escolher sempre a maior. Assim todos continuarão a pensar que sou tolo e divertirem-se à minha custa mas continuarão também a dar-me um escudo por dia.

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publicado por picodavigia2 às 14:13

A BELA ADORMECIDA

Sábado, 22.03.14

Avó, conte mais uma estória, aquela da Bela Adormecida. Esperava um pouco, sentava-se à janela de perna cruzada e começava:

 

Era uma vez um rei e uma rainha que viviam num belo palácio e governavam um grande reino.

Certo dia tiveram uma grande alegria. Uma cegonha aproximou-se de palácio e, dentro duma cestinha, trazia-lhes uma bela menina. O rei e a rainha ficaram tão contentes, tão contentes que, no dia do baptizado da princesa resolveram dar uma grande festa para a qual convidaram as pessoas mais importantes do reino. Foram, também, convidadas três fadas que seriam as madrinhas da princesa e que as haviam de prendar com as melhores qualidades e os maiores dons que um ser humano pode ter. As fadas chamavam-se Flora, Fauna e Primavera.

Realizaram-se os festejos e, a meio da festa, Flora decidiu conceder à princesa o dom da beleza. De seguida Fauna, aproximando-se da menina deu-lhe o dom da música. Finalmente a terceira fada, a Primavera aproximou-se do berço da menina, para também lhe conceder um dom. Nesse momento, porém, sem que ninguém se apercebesse, entrou no palácio uma bruxa má e invejosa que, subitamente, se aproximou do berço antes da boa fada Primavera, gritando:

- Quando fizeres dezasseis anos vais picar-te no fuso de uma roca e morrerás!

E dando uma enorme gargalhada desapareceu no ar...

Estarrecidos, os reis suplicaram à fada Primavera que retirasse aquele feitiço e desse à sua querida menina um dom que a libertasse da morte.

- Não tenho poderes para isso, - respondeu a fada - apenas posso torná-lo mais suave.

Aproximou-se da princesa e tocando-a na testa com a sua varinha de condão, disse-lhe:

- Não morrerás...adormecerás profundamente, até que um beijo de amor te desperte!

Os anos passaram e a menina cresceu e transformou-se na mais bela e bonita princesa, passando a viver num bosque, perto do palácio, sempre sob os cuidados atentos das três fadas. Ao completar dezasseis anos, as fadas levaram-na para o castelo, para junto dos pais. Percorreu todas as salas do palácio e, numa delas, encontrou uma velha que estava a fiar numa roca, e lhe pediu ajuda. A princesa, boa como era, não foi capaz de dizer que não. Mas mal tocou na roca, picou-se, e caiu no chão profundamente adormecida.

Quando as três fadas, que já haviam regressado ao bosque, souberam do sucedido, resolveram encantar o castelo. Todos adormeceram nos lugares onde estavam, o rei, os músicos, os cortesãos, os criados, até o bobo da corte e as aias e os cavaleiros! O tempo ali como que parou.

Decorridos cerca de cem anos, um dia, andando à caça, um belo príncipe passou no bosque ao lado do castelo abandonado Admirado por não ver ninguém lá dentro resolveu entrar. Percorreu todas as salas e numa delas encontrou uma linda e bela princesa, a dormir. Admirado com a presença da jovem e maravilhado com tanta beleza e com o seu ar bondoso, curvou-se sobre ela para a ver melhor e beijou-a com todo o amor.

O feitiço desfez-se! A princesa acordou. Acordou o rei, a rainha também e toda a corte. E a alegria voltou ao castelo, e fizeram-se grandes festejos, com música e danças por todo o lado.

O príncipe pediu a jovem em casamento e fez-se a maior boda de todos os tempos, e os dois jovens viveram felizes para sempre.

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publicado por picodavigia2 às 18:06

NOME FAGUNDES

Sábado, 15.02.14

Nas duas últimas décadas do século passado, andava eu na casa dos quarente – cinquenta, eram muito comuns e frequentes as acções de formação para professores, umas organizadas pelos organismos regionais dependentes do Ministério da Educação, outras, simplesmente, propostas e oferecidas por entidades ou instituições privadas. Nas escolas, uma procura desusada às mesmas, uma vez que a sua participação, para além de um direito estabelecido no estatuto da carreira docente, enriquecia o currículo e garantia créditos, muitos deles necessários à progressão na carreira e, além disso, geralmente, consubstanciava um dia de alívio da actividade docente e ocasião inequívoca para um convívio mais alegre e folgazão. À noite, na televisão, desfilavam telenovelas brasileiras, muitas delas tendo como protagonista o prestigiado actor António Fagundes.

A participação nessas acções, muitas vezes era de opção livre, mas para outras éramos convidados, por vezes até obrigados a frequentá-las, porquanto, exercendo cargos de chefia nas escolas, devíamos informar-nos sobre temas de interesse didáctico e pedagógico, a fim de, mais tarde, os partilhar com os colegas de grupo na escola a que pertencíamos. Bons e santos tempos, estes.

Certa vez, numa altura em que era responsável pelo Departamento de Língua Portuguesa da escola onde leccionava, intimaram-me a participar numa dessas acções, organizada por um organismo do Ministério, na região onde a escola se situava. E tive que ir.

Logo no primeiro dia de actividades, no encontro inicial, atendendo a que os professores participantes eram oriundos de escolas diferentes e que a maioria não se conhecia, as duas formadoras propuseram que cada um se apresentasse, mas de forma diferente do habitual, através da estória do seu nome.

De rompante, começaram a chover estórias interessantíssimas, umas simples, outras comoventes e uma ou outra, até um pouco dramática. Apareceu de tudo: um nome herdado da avó, uma opção da madrinha, uma irmã mais velha falecida, um avoengo do século passado, a devoção especial a um santo, um milagre de Fátima, a padroeira da freguesia, um simples acaso, etc., etc.. Todas elas estórias muito interessantes e comoventes. relatadas com entusiasmo e, sobretudo, com uma desusada mas bravata ostentação.

Chegou a minha vez. Eu estava numa extremidade da sala e fui o último. Então contei:

- Eu chamo-me Fagundes porque, quando estava grávida de mim, a minha mãe via muitas telenovelas, em que o actor principal era o António Fagundes, por quem a minha mãe tinha um enorme fascínio e de quem gostava muito. Era o seu actor preferido. Quando nasci, em homenagem a ele, pôs-me o nome: “Fagundes”.

Foi uma risota geral. Mas não é que uma professora, na sua ingenuidade pura e cândida, se volta para mim, muito admirada, indagando:

- Ui! Nesse tempo já havia telenovelas?

A risada ainda foi maior.

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publicado por picodavigia2 às 12:27

O MINORISTA

Quarta-feira, 05.02.14

Horácio era uma criança loira, franzina, mas simples, inteligente e estudioso. Fora o décimo segundo e último rebento dos Gouveia. Os pais viviam da lavoira, trabalhando, arduamente, ao vento, à chuva, ao sol, sob tempestades e procelas, lavrando os campos e pastoreando os gados. Apesar de pobres, nunca havia faltado aos filhos uma côdea de pão, um pedaço de bolo do tijolo, uma tigela de leite ou um prato de sopa. Vendendo, diariamente, uma boa parte do leite que ordenhava, embarcando uma rês alfeira, de vez em quando, o Herculano Gouveia poupara uns escudos, que guardava, religiosamente, nos “caninos” de uma caixa verde, trazida, em tempos idos, pelo avô paterno, quando regressara, definitivamente, das Américas.

Terminada a quarta classe, o miúdo, muito mimado e poupado pela mãe e mais inclinado para leituras e rezas do que, propriamente, para o trabalho agrícola, impulsionado pelos elogios da senhora professora à sua inteligência e capacidades de aprendizagem, apresentou-se diante do progenitor, afirmando a pés juntos, que gostava de ir para o Seminário. Queria estudar para ser padre.

O pai, apesar de pouco afeito a missas e igrejas, mas afrontado pela sincera convicção do garoto e pelo denodado apoio da mãe que, deslumbrada com a imprevista revelação do filho, começava a sonhar com a sublimidade de ter um filho padre, acabou por anuir. Preparado o enxoval e tratada a papelada junto do pároco, no Carvalho seguinte, Horácio abalou, com destino ao Seminário de Angra, deixando a mãe lavada em lágrimas e os irmãos numa fúria irritante. O pai, que o veio levar à vila, ao despedir-se dele, a bordo do paquete, encolhendo os ombros, apenas murmurou, tentando, sem grande convicção, estancar-lhe as lágrimas: “Foi o que quiseste! Agora, amanha-te como puderes…”

E amanhou-se muito bem, o Horácio, no Seminário, onde a estadia se transformou numa doce vivência. Acompanhado por dezenas de alunos, originários das várias ilhas açorianas, vivia, naquele enorme casarão, dias de estudo, de disciplina e de oração, mas também momentos de lazer, de brincadeira, de convívio, de alegria e, até, de prática desportiva. De regresso a casa, nas férias, ajudava os pais e irmãos no amanho das terras e no tratamento do gado, como se fosse um deles, pautando, no entanto, o seu dia-a-dia, por uma sóbria seriedade, um discreta moderação e por uma salutar convivência com todos. Além disso, cada vez se ia integrando mais em todas as celebrações e actos litúrgicos, ajudando e colaborando com o pároco, recebendo, como recompensa, redobrados elogios. Era voz unânime, na freguesia, que o rapaz “tinha mesmo jeito para padre!”

E no início do penúltimo ano, o terceiro de Teologia, Horácio, depois de muito pensar e reflectir, aconselhou-se com o Director Espiritual e apresentou-se ao Reitor, declarando que queria, realmente, ordenar-se, pelo que vinha candidatar-se a receber as “Ordens Menores”, durante aquele ano. 

Foi na igreja da Conceição, na festa da padroeira, em Dezembro, que recebeu a “Prima Tonsura”. O bispo, munido de uma tesoura, a cortar-lhe umas farripas de cabelo e ele, de tarde, juntamente com outros cinco, a correr para o barbeiro, a fim de que este lhe desenhasse no cocuruto uma pequena circunferência, rapando-lhe o cabelo naquele minúsculo círculo, assinalando-o com a coroa sacerdotal. Era o rito inicial que o entronizava na vida clerical. Nas têmporas da Quaresma, na capela do Seminário, recebeu o “Ostiariado” e o “Leitorado”, sendo-lhe entregue, simbolicamente, uma chave e um leccionário e, no fim do ano lectivo, enquanto os colegas finalistas eram ordenados “Presbíteros”, ele recebia, na Sé de Angra, o “Exorcistado” e o “Acolitado”.

Terminado o ano lectivo, mais uma vez, regressou, de férias, à freguesia que o vira nascer, mas, desta feita, já clérigo, envergando o fato preto e o cabeção e assinalado, na cabeça, com uma coroa igual à dos senhores padres. Em casa e na rua, por toda a parte, todos se admiravam e interrogavam: “Então?! O rapaz do Horácio Gouveia afinal, já é ou não é padre?”

Aos poucos lá foi esclarecendo uns e outros. Primeiro os pais e os irmãos. Aproveitou uma altura em que todos se reuniam à volta de um caldo de couves com toucinho, ainda a fumegar, e bolo do tijolo quentinho - o pitéu que a mãe, normalmente, confeccionava, para comemorar a sua chegada do Seminário - e esclareceu: “Não, ainda não era padre. Tinha recebido apenas a “Tonsura” e as “Ordens Menores”, mas estas não eram sacramento, nem sequer consagravam, de modo definitivo, ao serviço de Deus, quem as recebia. Era apenas “minorista”. No entanto, com estas ordens, já era clérigo e podia acolitar nas missas solenes, de três padres, paramentando-se, neste caso com a dalmática, mas sem a estola. Como se fosse um subdiácono… Apenas, no final do próximo ano, o senhor bispo lhe havia de conferir a ordem de presbítero. Ao regressar, no verão, celebraria, na igreja da freguesia, a sua Missa Nova.”

As irmãs, sempre muito afoitas à igreja, sobretudo agora que iam ser “irmãs do senhor padre”, ainda entenderam alguma coisa. Os irmãos, cedo se desinteressaram pela conversa. O pai percebeu apenas que ele era “minorista” e que já podia rezar missa, contanto que fosse ao lado de outros padres, enquanto a mãe, aproveitou o momento de enlevo, para, mais uma vez, agradecer a Deus, o dom divino com que fora presenteada na sua senectude.

No dia da festa da padroeira, decidiu o pároco que o Horácio havia de fazer a sua estreia na celebração dos divinos mistérios, acolitando-o de subdiácono, na missa da festa.

Horácio paramentou-se a rigor, ufanando-se de pela primeira vez envergar uma dalmática. Aprimorou-se no acompanhamento da celebração, quer no cantar da epístola, num latim fluente e com uma excelência desusada, quer na forma como se aproximava ou afastava do altar, sempre de mãos postas sobre o peito, sempre elegante e digno, ao executar, com sobriedade e primor, quer as genuflexões ao meio do altar, quer as inclinações perante o cruxifixo, à elevação da hóstia e do cálice ou ao “nobis quoque pecatóribus”. Até o segurar do missal durante o canto do evangelho pelo pároco da freguesia vizinha, que fazia de diácono, foi feito com dignidade e aprumo, contrastando, notoriamente, com as atitudes da maioria do clero presente, muitos deles já de avançada idade e, acentuadamente, barrigudos.

No fim da missa toda a população, que nem sequer distinguia uma casula duma dalmática, se ufanou, alegrou e regozijou por ver um filho da terra, ainda ontem criança e agora já a subir o altar, celebrando com tanta dignidade, beleza, excelência e santidade, os sagrados mistérios, naquela missa de três padres.

Todos, menos o compadre Sebastião, que juntamente com a sua Josefa haviam sido os padrinhos de baptismo do Horácio. Indignado, revoltado e amuado, o Sebastião, no fim da missa, procurou o compadre Gouveia, que sempre lhe havia garantido que no dia da “Missa Nova” seria ele e a comadre Josefa, sentados em lugar de honra, na capela-mor, que haviam de segurar a bacia e o jarro de prata, com que o afilhado, antes de se aproximar do altar, lavaria as mãos.

Mas o Gouveia não se fez esperar e esclareceu com clareza:

- Ó home, nã tás bom do juízo. O rapaz é minorista. É verdade que já pode cantar missa, mas acompanhado d’outros padres. Sozinho nã pode. Só para o ano que vem é que senhor bispo lhe vai dar ordem p’ra ele poder dizer a missa sozinho.

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publicado por picodavigia2 às 17:04

MORRA SANSÃO E TODOS OS QUE AQUI ESTÃO

Sexta-feira, 10.01.14

Sansão é um personagem bíblica, do Antigo Testamento, cujo nome significava "homem do sol" e era, segunda a Bíblia Sagrada, dotado de extraordinária força. Era um dos juízes bíblicos cuja história está descrita no Livro dos Juízes (13-16).

Antigamente na Fajã Grande, entre muitas outras estórias também se contava a de Sanção, um homem que fora chamado por Deus para libertar o povo de Israel que vivia debaixo do domínio dos Filisteus. Estes, temiam a extraordinária força de Sanção e, por isso, tentavam, sem sucesso, prendê-lo. Ora os chefes dos Filisteus, sabendo que Sansão estava apaixonado por Dalila, uma filisteia muito bela e bonita, aliciaram a jovem, com ouro e prata, a fim de que ela descobrisse a origem e o segredo daquela tremenda força de Sansão. Dalila amava Sansão, mas este amor era inferior ao que sentia pelo seu povo. Por isso, com o seu grande poder de sedução, tentou não só desvendar o segredo da força de Sanção mas também arranjar uma forma para que ele fosse dominado pelos filisteus.

Primeiro, Sansão disse-lhe que ficaria vulnerável como qualquer outro homem, se o amarrassem com sete fibras novas de arco que não tivessem sido secas. Dalila atou Sansão com as sete fibras, durante o sono mas, mas quando os Filisteus chegaram para o levar, ele arrancou as fibras sem dificuldade. À segunda tentativa de Dalila, Sansão disse-lhe que seria, facilmente, dominado se fosse amarrado por cordas novas, mas também destas se libertou, sem custo, quando chegaram os Filisteus. A terceira versão de Sansão foi tão falsa como as duas anteriores, pois quando Dalila teceu as sete madeixas do cabelo de Sansão com uma rede e as apertou com um gancho, durante o sono de Sansão, este voltou a libertar-se facilmente. Foi então que Dalila (não se sabe através de que artes) conseguiu saber o segredo da força de Sansão. Este disse-lhe que, se os seus cabelos fossem cortados, a sua força abandoná-lo-ia e ficaria fraco como uma criança. Sansão adormeceu no colo de Dalila e esta, suavemente, cortou-lhe os caracóis dos cabelos. Acordado pela chegada dos Filisteus, Sansão acreditava ainda ter força, mas foi, rapidamente, dominado pelos soldados filisteus, que lhe perfuraram os olhos e o prenderam com algemas de bronze.

Sansão foi exposto e humilhado, publicamente, no caminho do templo de Dagôn, onde foi amarrado aos dois pilares que sustentavam o enorme edifício. A população juntou-se aos milhares para ver a derrota e o fim de Sansão mas este, num último esforço, pediu a Deus que lhe devolvesse a força, por instantes. Foi, então, com um esforço gigantesco e heróico, fez ruir os pilares do grandioso, causando a destruição a sua destruição e, consequentemente, a morte dos Filisteus, de Dalila e a sua. Antes, porém, exclamou em altos gritos:

- Morra Sansão e todos os que aqui estão!

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publicado por picodavigia2 às 21:03

O SACRISTÃO QUE NÃO QUIS APRENDER A LER NEM ESCREVER

Quarta-feira, 08.01.14

Conta-se que numa certa igreja, duma pequena e pobre paróquia, havia um sacristão que não sabia ler nem escrever. Quando faleceu o velho bispo que governava a diocese a que a paróquia pertencia, foi nomeado, para o substituir, um prelado muito novo que trazia consigo ideias modernas, com as quais pretendia renovar a sua diocese. Algum tempo depois de tomar posse, entre várias leis que tinha em mente e elaborou, publicou uma, segunda a qual todos os fiéis que trabalhavam no serviço da diocese, incluindo os sacristães, deviam aprender a ler e a escrever. Pretendia assim, Sua Excelência Reverendíssima, combater o analfabetismo na sua diocese, começando pelos seus funcionários.

O sacristão da tal igrejinha é que não esteve nos ajustes, recusando-se a frequentar a escola e a aprender a ler e a escrever. Como a lei era clara e não contemplava excepções, o sacristão foi despedido, caindo no desemprego.

Como não tinha que fazer passava os seus dias à Praça junto com outros homens, muitos deles em condições semelhantes à sua. Quase todos fumavam mas nem todos tinham cigarros, pedindo-os uns aos outros ou indo comprá-los aqui ou além. Lembrou-se o homem que podia muito bem comprá-los e, depois, vendê-los ali, à Praça, ganhando assim algum dinheiro. Se bem o pensou melhor o fez, verificando que, passado algum tempo, a coisa resultara, pois já tinha ganho algum dinheiro. Como os lucros aumentavam de dia para dia, a ponto de o homem já não poder atender a todas as encomendas de cigarros, ali, à Praça, decidiu-se por comprar uma loja e montar uma tabacaria. O negócio floresceu, o homem comprou mais uma tabacaria, depois outra e muitas outras até que enriqueceu.

Resolveu então ir depositar o dinheiro que ganhara num banco. O gerente recebeu-o e, quando lhe pediu para assinar os documentos, o homem disse-lhe que não sabia ler nem escrever, nem sequer assinar o seu nome. O gerente, muito admirado, interrogou-o:

- Como é que você, não sabendo ler nem escrever, conseguiu tão grande fortuna?

O homem pediu ao gerente que, juntamente com ele, se aproximassem duma janela, Depois, apontando para uma igrejinha que se via lá, muito ao longe, disse-lhe:

- Está a ver aquela igrejinha, lá ao fundo? Pois se eu soubesse ler e escrever ainda hoje estava lá de sacristão.

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publicado por picodavigia2 às 00:06

ESTRANHA DECISÃO

Terça-feira, 07.01.14

Desde há muito que o Libório não se conformava com a sua sorte. Viver ali, naquela terra pobre e sem futuro, agarrado à rabiça do arado, de enxada em punho, ou a acarretar molhos e cestos às costas, não era para ele. Por isso é que não se conformava e não lhe saía da cabeça a ideia de que um dia havia de mudar de vida. Esse dia não tardou.

Na feira de um de Março, a que deslocara para vender dois bácoros, encontrou um amigalhaço do tempo da tropa que havia emigrado para a França e agora estava em Portugal a passar uns dias. Conversa daqui, conversa dacolá e o sonho de abandonar a vida agrícola, para o Libório, tornou-se mais real do que nunca. A vida em Portugal não melhorava, o país não progredia e a agravar a situação o regime de então acabara de iniciar uma guerra em Angola. Dizia-se que também seriam mobilizados os que tinham feito tropa nos últimos anos, mesmo já tendo passado à disponibilidade. Como se encontrava nessa situação, temia que o azar lhe batesse à porta e ainda fosse bater com os costados em Angola. Assim, emigrar para França transformou-se numa decisão irreversível.

A mulher nem queria acreditar e atirava-lhe à cara com inúmeras dificuldades, repetindo constantemente:

- Tu endoideceste por completo, homem de Deus!

Não, não endoidecera. Afinal já estava tudo planeado. É verdade que não tinha quem lhe fizesse carta chamada, mas iria como muitos outros tinham ido – clandestino. A diferença é que ela e os pequenos também iam, apesar dos passadores não quererem levar mulheres, nem muito menos crianças. É que a fuga era muito perigosa.

Foi um tipo de Macedo de Cavaleiros que o contactou através de um primo de Senande, para acertar tudo. Era preciso que ninguém soubesse ou desconfiasse de nada. E foi lá, em Senande, em casa do primo, que encontrou o homem. Álvaro Ramalho, assim se chamava o contrabandista, no início recusou levar a mulher e as crianças. Aos poucos foi cedendo. Era uma questão de preço. Mas garantiu-lhe que era sério e honrava os compromissos. O que se combinasse ali seria escrupulosamente cumprido. Oitenta contos: trinta por cada um dos adultos e vinte pelas crianças mas estas, sempre que seguissem de carro ou camioneta, seriam levadas ao colo. Claro que tudo o que lhes acontecesse era da responsabilidade dos pais.

O Libório regressou sem firmar contrato. O preço era altíssimo. Era-lhe de todo impossível arranjar aquele dinheiro. Um segundo encontro e o Ramalho cedeu:

- Vinte mil em notas e quarenta em bens. Aceitamos casas, terras… Mas temos que ser nós a avaliar os bens – sentenciou o homem, apertando-lhe a mão – e tens emprego garantido em Clermont-Ferrand. Ao chegares lá um tipo chamado Cardoso vai procurar-te, vai arranjar-te trabalho e dizer-te como deves pagar o restante. Não devem levar muita bagagem. Para além de ser comprometedor é impossível transportá-la. Levem apenas o indispensável.

A mulher, ocultou a decisão às crianças, mas teve muitas dificuldades em aceitar.

- Vais vender a casa e o campo!? E se temos que voltar para trás? O que vai ser de nós e dos pequenos? Nem ao menos posso avisar meus pais? – Perguntava ansiosa.

- De forma nenhuma. Ninguém, absolutamente ninguém pode saber, a não ser o primo de Senande. E não te esqueças que aos pequenos e a quem te preguntar para onde vais, deves dizer que vamos às Caldas, a casa dos teus pais.

- E o Lavrado? E a cabra? E as galinhas e o porco?

- O boi já está vendido. A casa e o campo ficam ao cuidado de meu primo. Só depois de receber a notícia de que já estamos seguros e em França ele venderá o que puder e fará a entrega da casa e do campo ao passador.

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publicado por picodavigia2 às 23:23

FIAMBRE DE PEITO DE PERU

Sábado, 04.01.14

Moçoila robusta, bem constituída fisicamente, a arfar estafamento e a verter suores, aparentemente mais talhada para o cabo da vassoura, para a pá do forno ou até para o da enxada do que, propriamente, para o serviço numa montra de supermercado, a abarrotar de carnes, enchidos e charcutaria diversa, mas tudo numa caldeação muito desorganizada e numa espécie confusão sofisticada e permanente.

 Não há muitos clientes, e os que se aproximam do balcão da montra vão solicitando produtos do mais trivial que ali se vende e de fácil identificação: febras de porco, carne de vaca, linguiça, torresmos, fiambre, etc. E a moçoila, embora pouco engenhosa e bastante lenta, lá vai escolhendo, seleccionando, cortando, pesando, embrulhando e fechando as embalagens na máquina adequada. Finalmente espeta-lhe uma etiqueta com o preço, que lhe havia saído da balança de pesar, como se de um ticket de portagens de auto-estrada se tratasse. Depois estende o braço rechonchudo sobre balcão da montra e entrega o embrulho ao cliente. Tudo extremamente simples e, aparentemente bastante fácil, mas muito lento e muito vagaroso… uma eternidade, que a moçoila, supostamente, não tem pressa.

 Chegou a minha vez. Aguardo que ela olhe para mim e me interrogue. Mas a rapariga não se apressa. Até parece que cuida que eu não sou cliente. Decide primeiro tirar os óculos e limpá-los, depois opta por enxaguar o suor que lhe corre pela testa e, de seguida, ainda resolve passar as mãos pela bata, não se percebe bem se a secá-las ou se a sacudir alguma sujidade porventura a manchar a brancura, já bastante esbatida, da dita cuja. Só então levanta os olhos na minha direcção, fixa-me com ar estranho e pergunta-me, pouco convencida:

 - O qui é que o sinhô qué?

 Como a desarrumação da montra me impede de saber se o produto que eu pretendo adquirir existe ou não, indago:

 - Tem fiambre de peito do peru?

 - Tem o quêêê? – Pergunta ela pasmada, com os olhos muito arregalados, enquanto com a mão direita ajusta o boné branco, com o logotipo da empresa, na frente. Tive a sensação que havia falado grego ou chinês.

 - Fiambre de peito de peru. Eu quero fiambre de peito de peru. – Repeti pausadamente, elevando o tom de voz.

 - Ah! Peite de peru! Pois olhe, o sinhô. De peite de frango há p´raí umas coisas, agora de peite de peru é qu’ei nam sei s’há ou senan há.

 Sem ela se preocupar, minimamente, com a minha situação de despojado, dei meia volta, afastei-me da montra e comentei, em voz baixa:

 - Pois agora vais-te amanhar sem ele!

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publicado por picodavigia2 às 23:33

A LENDA DE HIRÃO-ABI

Domingo, 29.12.13

Conta uma antiga lenda que o arquitecto encarregado da construção do celebérrimo templo de Salomão foi Hirão-Abi ou Hiram Abiff. Hirão-Abi era natural de Tiro, antiga cidade fenícia, cujo rei, que curiosamente também se chamava Hirão, fez acordos comerciais com Salomão, por alturas da construção daquele grandioso templo, enviando para a Terra Santa ouro, prata, madeira de cipreste e de cedro, além de pedreiros, entre os quais se incluía o próprio arquitecto que chefiava a execução da obra, Hirão-Abi. Segundo a lenda, Hirão-Abi foi abordado três vezes por tantos outros pedreiros, Jubelas, Jubelos e Jubelum, que mais tarde mudaram os seus nomes para Abibala, Seterkin e Oterfut, respectivamente, porque sentiam uma grande inveja das aptidões de Hirão-Abi e, ocultando a sua verdadeira identidade, queriam conhecer o segredo da arte de bem construir, pois consideravam-na um verdadeiro mistério que, a todo o custo, haviam de desvendar. Pretendiam, assim, revelar o segredo do mestre pedreiro, no projecto de construção daquele magnífico templo, caso contrário perderiam a sua própria vida. Por duas vezes Hirão-Abi, apesar de ameaçado de morte, não cedeu às exigências dos três pedreiros, recusando revelar o seu segredo com a célebre frase: “Perco a minha vida, mas não revelo o segredo”. Porém, sendo abordado uma terceira vez, negando novamente e com veemência revelar o segredo, Hirão-Abi foi morto, perdendo-se, assim, aquele estranho segredo magistral. Os assassinos levaram o cadáver de Hirão-Abi para fora da cidade, sepultando-o e assinalando o local da sepultura com um ramo de oliveira, pondo-se, de seguida, em fuga. Os outros pedreiros, amigos e companheiros de Hirão-Abi começaram a persegui-los. O rei Salomão, porém, não terá sido alheio ao crime, pois Hirão-Abi despertara-lhe ciúmes, não só por também não lhe revelar o seu segredo mas sobretudo porque o suplantava no amor a Belkiss, a misteriosa rainha de Sabá. No entanto o rei de Tiro pediu que a morte de Hirão-Abi fosse rigorosamente punida e, para comover os executores, mostrou-lhes um filho que o mestre pedreiro tivera com Belkiss e exortou-os a que descobrissem os assassínios e vingassem a do mestre morte o mais depressa possível. Estes procuraram Hirão-Abi por toda a parte mas só o encontraram junto à sua sepultura. Hirão-Abi tinha ressuscitado.

Foi assim que Hirão-Abi, devido à sua conduta virtuosa, à sua piedade genuína a Deus e, sobretudo, devido à sua inflexível fidelidade ao segredo que lhe estava confiado, se tornou um símbolo para que, assim como ele, todos e cada um dos seres humanos possam receber o severo tirano, ou seja, a Morte, a fim de os transportar desta vida imperfeita para uma outa perfeita, gloriosa e celestial presidida por Deus, Supremo e Verdadeiro Arquitecto do Universo.

Cuida-se que esta lenda e a presumível conclusão que dela se tira estarão na verdadeira origem da maçonaria, ultrapassando assim a crença de que esta ter-se-ia originado muitos anos mais tarde, nas corporações medievais dos canteiros das grandiosas construções góticas das igrejas, mosteiros e castelos da Idade Média.

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publicado por picodavigia2 às 00:21

A REQUINTA CONTA A SUA ESTÓRIA

Sábado, 16.11.13

Quando a aldrava da porta do velho e esconso armário, colocado a um canto da Casa do Espírito Santo de Cima se abriu, a Tarola rolou pelo chão, a Trompete despregou-se e o Bombo caiu sobre o Bombardino, provocando sons martelados, abstrusos e enrouquecidos que acordaram a maioria dos outros instrumentos.

O Contrabaixo foi o primeiro a levantar-se e a extorquir os primeiros sons. Dirigindo-se a alguns instrumentos que ainda se encontravam sonolentos, ordenou com voz grossa e ar ameaçador:

- Vamos lá a levantar. Já não é sem tempo! Durante tantos aqui fechados, parados, sem ver a luz do dia...

- E sem sermos ouvidos – acrescentou o Primeiro Clarinete, na sua voz de cana rachada.

- Se calhar alguns já estão enferrujados. Aos anos que para aqui estamos abandonados!... – Lamentou o Saxofone.

Um a um fomos saindo do nosso ergástulo. Mas o estado em que a maior parte de nós se encontrava era lastimoso e bastante triste. Ao Bombo haviam-lhe rebentado três cordas, os Pratos estavam cheios de ferrugem, assim como um dos Trombones e as duas Trompetes. Um dos Segundos Clarinetes tinha a palheta quebrada, o Primeiro Cornetim estava cheio de cinabre e o Bombardino tinha os pistões partidos. Eu, apesar de tudo, estava em muito bom estado.

Desde há anos que ali havíamos sido guardados e nunca mais de lá saíramos.

- Um cemitério de vivos! – Exclamou, na altura, o Bombo.

- Arrumar connosco na flor da idade – confirmou o Segundo Cornetim.

- E nós que éramos tão afinadinhos... - Acrescentei eu, que teimava em não entrar para semelhante remanso.

De nada serviriam os nossos protestos e lamentos. E lá fomos definitivamente fechados, postos em cativeiro.

E a verdade é que o nosso destino não era aquele. Tínhamos sido comprados há muitos anos, graças ao esforço do povo da Fajã Grande, oferecendo o leite do primeiro domingo de cada mês. Mas tínhamos nascido para tocar, para abrilhantar festas e arraias, receber entidades, enfim, para estarmos presentes em todos os momentos de festa e de grandiosidade, nomeadamente na festa mais importante da freguesia, a da Senhora da Saúde, de quem até herdáramos o nome. Éramos o orgulho da nossa terra. Porém, a desertificação que, na altura, se foi acentuando, levou a que muitos tocadores nos abandonassem. Alguns haviam sido mobilizados para a guerra do Ultramar, muitos haviam emigrado para a América e para o Canadá, um ou outro havia falecido e alguns, simplesmente, haviam perdido a vontade de continuar a tocar. Assim, uns após os outros, quase todos fomos arrumados e guardados no armário e, algum tempo depois, fomos todos ali definitivamente fechados.

Foi muito doloroso o nosso cativeiro. Sobretudo para mim, a mais magra e raquítica da Banda. Foi muito triste estarmos ali, anos e anos fechados, sem ensaios, sem marchas, sem festas e sem procissões, na incerteza de a porta, algum dia, se voltar a abrir. O ar imponente que, outrora, conferíamos a todos os festejos, o orgulho que sentíamos quando, de cima do coreto, abraçados por homens de bonés azuis e fardas brancas, emitíamos sons harmónicos e afinados, que chamavam a atenção de todos, pareciam nunca mais voltar. A alegria de percorrermos a rua Direita em desfile harmonioso, a sensação de sermos acarinhados, a certeza de testemunharmos o património e a cultura de um povo, faltavam-nos. A música harmoniosa e bela que de nós emanava, os sons melodiosos e agradáveis que produzíamos, haviam-se calado, aniquilado, desfeito progressivamente e reduzido ao mais humilhante e fastidioso dos silêncios.

Foi por isso que, quando, passados muitos de anos, se abriu a porta do velho armário, a esperança renasceu em todos nós e a alegria voltou a dominar-nos. Íamos ser restaurados e a Filarmónica Nossa Senhora da Saúde, da Fajã Grande das Flores, havia de voltar a tocar!

Os dias seguintes foram de azáfama e de acúleo. Muitos jovens, de ambos os sexos, acompanhados de um ou outro antigo tocador, haviam sido recrutados na freguesia para, a partir de agora serem os nossos novos tocadores. Durante noites seguidas reuniram-se, na Casa do Espírito Santo de Cima, para aprender solfejo. A ideia era restaurar-nos, dar-nos vida.

 - É preciso atrair a juventude, dar-lhe valores, afastá-la dos perigos – ouvi, certa noite dizer um dos músicos antigos. Depois acrescentou com fascínio – Uma Banda é o orgulho duma terra! Faz parte da sua identidade e da sua cultura. Não podemos nem devemos perder o património que os nossos antepassados nos deixaram.

E as noites de aprendizagem de solfa sucederam-se, até que, um dia, o novo maestro – um antigo tocador de clarim - ordenou:

- Hoje vamos distribuir os instrumentos, tendo em conta as aptidões de cada um.

Eu fiquei muito nervosa e inquieta. Quem seria o meu futuro tocador? Lembrava-me, vagamente do de outrora. Era um homem já de idade avançada, baixo, forte, de enormes bigodes e cabelo grisalho. Como ele gostava de mim, como me acariciava, como se empenhava em tocar bem. Tocava admiravelmente e sentia por mim um carinho e uma ternura que muito me agradava e de que me ufanava. Por vezes até me tratava por “minha linda”. Provavelmente também teria emigrado. Não o via por ali...

 E agora quem me iria tocar?

Aguardei com enorme apreensão e expectativa a decisão do maestro. Primeiro limparam-me e depois afinaram-me em mi bemol. Os instrumentos que estavam em piores condições haviam sido mandados restaurar. Agora estávamos todos como novos.

Em seguida vieram as decisões:

- O Primeiro Trombone... é para o José Manuel...  – E prosseguiu o maestro, por aí adiante.

E eu cada vez mais expectante e nervosa. Por fim, chegou a minha vez:

 - A Requinta vai ser... Bom, para a Requinta é preciso ter bom ouvido, muito bom ouvido... Para a Requinta... vai ser... a Maria José!

E foi a Maria José que, também muito nervosa, logo me agarrou. Era uma jovem, bela e meiga, de cabelos louros e soltos sobre o rosto, mãos finas e dedos delicados. Pegou-me, tímida e hesitante. Os primeiros sons saíram trôpegos e desafinados. Mas pouco depois já tocava a escala diatónica: dó, ré, mi, fá, sol, lá, si, dó. Para em seguida a repetir descendente: dó, si, lá, sol, fá, mi, ré, dó. Não demorou muitos dias e os sons saíam perfeitos, afinados e harmoniosos, a integrarem-se perfeitamente no conjunto dos restantes instrumentos. Passei a ser tocada eximiamente. Além disso, a Maria José também me tratava com muito carinho e cuidados excessivos e desmesurados, os quais, rapidamente, me fizeram esquecer o meu primeiro tocador. Guardava-me numa caixa aveludada e levava-me para casa, o que lhe permitia que ensaiasse mais e melhor. Além disso, zelava com excessivos cuidados e acentuados desvelos pela minha conservação. É que eu temia que, regressando ao armário, fosse novamente lançada ao abandono e regressasse ao desafino.

Depois de noites e noites de ensaios, foi agendado o dia da nossa nova apresentaçãoem público. Previa-seuma grande festa.

No adro da igreja, o coreto todo engalanado. À volta, homens, mulheres e crianças, muitos vindos de outras freguesias da ilha, acotovelavam-se na tentativa, em muitos casos frustrada, de ocupar a primeira fila e aproximar-se o mais possível de nós. Desfilámos da Casa de Cima até ao adro. Para além de muito povo esperavam-nos algumas autoridades. Antes de darmos início ao concerto, uma delas, a quem chamavam o Senhor Vereador da Cultura da Câmara Municipal das Lajes, usando da palavra, afirmou:

“...Desde os tempos mais remotos que a música andou associada a todas as manifestações festivas do homem, quer no aspecto religioso, quer no profano. A música está pois inerente a toda a vida humana, quer no seu aspecto lúdico, quer no religioso, quer até no social, cultural e, porque não, no laboral. Por isso mesmo, ela não pode ser apenas património de artistas e intelectuais ou de grandes cidades. Ela também pertence ao povo humilde das pequenas localidades. As Bandas de Música ou Filarmónicas são uma das formas de preservar a riqueza cultural do nosso povo e das nossas ilhas. Por outro lado e porque a sua formação ou reestruturação, como foi o vosso caso, resulta dum conjunto de esforços comuns, dum trabalho de grupo, as Bandas Filarmónicas têm também uma componente social muito grande, pois congregam esforços e sacrifícios. Por isso é com enorme satisfação que vemos hoje reorganizada e reestruturada a Banda Filarmónica “Nossa Senhora da Saúde”, infelizmente, adormecida durante tantos anos. Espero e faço votos para que esta data seja mais um marco importante no desenvolvimento sócio-cultural não só desta freguesia mas de todo o nosso concelho. Todos nós sabemos e conhecemos a importância da música na formação dos cidadãos, nomeadamente, nos jovens. E é com prazer que vemos jovens, felizmente, de ambos os sexos, integrando o elenco musical da Senhora da Saúde. De facto, na nossa ilha, onde infelizmente rareiam os espectáculos e as realizações culturais, as Bandas Filarmónicas são a expressão mais pura duma verdadeira cultura musical. Elas permitem, também, uma aproximação das pessoas, uma conjugação harmónica de valores e interesses, indiciam uma notável forma de cultura popular e permitem uma procura acentuada de padrões de interesse comum. Assim, a todos os que contribuíram para o restauro da Filarmónica Senhora da Saúde, ao seu maestro, a todos os seus músicos e a todos vós, formulo as maiores felicitações e os maiores êxitos musicais.”

Seguiu-se uma enorme salva de palmas. De imediato, iniciámos o espectáculo, tocando um variado repertório: aberturas, marchas, rapsódias, tangos, modinhas, passe-dobles, etc.

Eu sentia-me altiva e orgulhosa. Vezes sem conta, a minha voz fina e aguda fazia-se ouvir por entre os sons do restante instrumental. A Maria José tocava-me divinalmente.

Quando a festa terminou os outros instrumentos regressaram ao armário. Apenas eu escapei, porque a Maria José querendo proteger-me, levou a caixinha dentro da qual religiosamente me colocara para casa. Porém, quando me despedi dos meus colegas, senti que os dominava a certeza de que o armário, outrora transformado no nosso ergástulo, a partir de agora, abrir-se-ia frequentemente, quer para os ensaios semanais, quer para tocarmos pomposamente e abrilhantarmos as festas, as procissões e outras espectáculos que, ao longo do ano, se realizavam naquela pequenina freguesia, em outras da ilha e até nas de outras ilhas açorianas. Contribuiríamos, assim, significativamente, para o seu desenvolvimento sócio cultural não só da Fajã Grande mas também da própria ilha das Flores.

 

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publicado por picodavigia2 às 17:52

A VIA LÁCTEA

Quinta-feira, 10.10.13

Conta-nos um dos muitos mitos da Grécia Antiga que Faetonte, o mais importante filho de Hélios (Sol), estando um dia a jogar apaixonada e emotivamente aos dados com o seu amigo Epapo, este, ao ser derrotado, como mau perdedor, desentendeu-se com ele e lançou-lhe à cara alguns insultos, nos quais se incluía uma grave e ofensiva suspeita de que ele não era filho de Hélios, o que punha linearmente em causa a seriedade da ninfa Climene, sua progenitora. Faetonte, preocupado com o insulto, foi interrogar Climene que, de imediato, o mandou certificar-se junto do seu pai, Hélios. Este confirmou que era o seu pai de verdade e, como prova dessa paternidade, despojou-se dos seus próprios raios em benefício do filho, ao mesmo tempo que jurava conceder-lhe, como real prova da sua efectiva paternidade, tudo o que Faetonte ali mesmo lhe pedisse. O jovem Faetonte pediu-lhe, então, que o deixasse conduzir, apenas por um dia, as rédeas do seu próprio carro. Não era essa a vontade de Hélios, mas como prometera em juramento, não podia voltar atrás com a palavra dada. Assim, Hélios emprestou-lhe o seu carro puxado por fortíssimos cavalos, deu-lhe a respectiva certificação de condutor e indicou-lhe a rota que devia seguir. Os fulgores juvenis de Faetonte, porém, levaram-no, em louca correria, até ao horizonte terrestre, numa desordenada condução, ora subindo em demasia e provocando oscilações nos astros, ora descendo abissalmente e aproximando-se demasiado da Terra. Os cavalos assustaram-se e os raios de Faetonte começaram, de imediato a queimá-la e a incendiá-la, ao mesmo tempo que afastando-se, ela arrefecia. Gerou-se, assim, um caos tremendo e universal, que culminou em tempestades ciclónicas e diluvianas, trovoadas contínuas, cataclismos destruidores e inundações arrasantes. A fim de salvar a Terra de um cataclismo destruidor, Zeus, pai dos deuses, viu-se obrigado a fulminar Faetonte com um raio, caindo o seu corpo no rio Eridano, perante o choro e o lamento de suas irmãs Helíades, que de tanto chorar se transformaram em choupos enquanto o seu amigo Cícuo, também por chorar em demasia, se transformou num cisne, eternamente errante pelas margens do Eridano. A desordem no universo foi tal que, durante um ano, não houve Sol e a corrida dos cavalos foi tão violenta que do carro ficou um rastro no firmamento, que se prolongou até hoje e que ainda se pode observar no céu, todas as noites - a Via Láctea ou o Carreiro de São Tiago.

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publicado por picodavigia2 às 14:33

O REGRESSO DE MARIANA II

Terça-feira, 24.09.13

Era uma vez uma casa pobre, humilde, modesta e muito antiga. As paredes eram de um castanho amarelado, de tal maneira despidas de cal que deixavam ver os pedacinhos de xisto com que haviam sido construídas e que, semelhantes a tabuinhas, se sobrepunham e entrelaçavam uns nos outros, em camadas simétricas e rendilhadas que iam do chão ao telhado e se prolongavam ao longo dos muros e paredes circundantes. Tinha um aspecto muito tosco e rústico, com portadas de madeira carcomida pelo tempo, sem grandes vidraças e com dois andares. No rés-do-chão ficavam as lojas de arrumos, uma adega muito pequenina, a cozinha e a retrete. O primeiro piso, a que se tinha acesso apenas por uns degraus exteriores também de xisto e ladeados por um corrimão de ferro enferrujado, era constituído por uma sala e dois quartos.

Nessa casa morava Mariana, com os pais e um irmão mais novo, o Zezito.

A casa ficava perto de um rio que se chamava Sousa. Era um rio de águas límpidas, cristalinas e azuladas, repletas de uma imensidade de barbos, carpas, bogas e outros pequenos peixes que se movimentavam em loucas correrias, em constantes rodopios e em simulados ziguezagues. O rio deslizava calma e suavemente, atravessando uma planície onde, de um lado e outro das suas margens, povoadas de moinhos, se acomodavam terrenos divididos por beiradas de amieiros, choupos e videiras, mas muito férteis e produtivos. No Inverno, enquanto aguardavam as sementeiras, tinham um aspecto avermelhado e escurecido, mas na Primavera revestiam-se com o verde dos milheirais, dos legumes e das vides e no Verão começavam a amarelecer até alourarem por completo no Outono.

Num desses campos, um pouco mais distante do rio, ficava a casa da Mariana. Era nele que os pais trabalhavam de sol a sol porque era dele que tiravam tudo o que era necessário para o seu sustento – milho, legumes, batatas e vinho. Em Fevereiro e Março, quando os dias começavam a tornar-se maiores e mais quentes, os pais, jungindo o Lavrado à charrua, abriam e resvalavam a terra ainda húmida das chuvas invernais e deixavam ficar as leivas e os torrões a secarem e como que a aquecerem-se ao Sol, durante alguns dias. Depois desfaziam-nos e transformavam-nos em terra fina que alisavam umas vezes com enxadas outras com uma grade puxada pelo Lavrado, transformando o campo num enorme e fofo tapete acastanhado. De seguida o pai voltava a atrelar o boi ao arado e traçava regos paralelos e simétricos de uma extremidade à outra do campo. A mãe ia atrás e, retirando punhados de milho de uma cesta que levava enfiada no braço, atirava os grãos com tanta agilidade e perícia que eles caiam direitinhos no rego, muito bem alinhados uns à frente dos outros, como se fossem soldadinhos numa parada militar. Cada rego fechava-se com o abrir do seguinte, tapando assim os grãozinhos que ali ficavam a germinar durante alguns dias. Por fim a terra era de novo gradeada e alisada para que os grãos ficassem todos muito bem escondidinhos e assim germinassem mais facilmente, com a ajuda do Sol e da chuva dos dias seguintes. Não tardava muito e era um regalo ver o milho a crescer, a crescer, muito verdinho e espevitado. Nas extremidades do campo e nos lugares mais abrigados pelos bardos das beiradas ficavam pequenos canteiros de batatas, feijão, ervilhas e melões, misturados com as couves, as alfaces e o cebolo. Em Abril e Maio, quando o milho ainda estava miudinho, os pais sachavam e mondavam o campo de lés a lés, retirando as ervas daninhas e os pés de milho mais bastos para que os outros crescessem à vontade. Nos dias seguintes o campo transformava-se num enorme tapete de folhas verdes, caneladas e pontiagudas, ladeadas pelos canteiros onde floresciam couves repolhudas e as ervilhas e os feijoeiros começavam a trepar pelas estacas de cana que eram espetadas aqui e além. Os milheiros cresciam de dia para dia, as suas folhas entrelaçavam-se umas nas outras e balouçavam como ondas ao sabor das brisas matinais e os caules, canelados e esguios, tornavam-se altíssimos, enfeitando-se lá no alto com umas flores estranhas que cobriam o campo com um manto esbranquiçado e fofo. Algum tempo depois nos caules enrijecidos começavam a formar-se espiguinhas cabeludas que iam crescendo e alourando ao Sol do estio. Em Setembro as espigas amadureciam por completo e procedia-se à apanha. A mãe arrepelava dos caules já muito amarelados e envelhecidos as espigas maduras e recolhia-as em enormes cestos, enquanto o pai os ia acarretando para a loja de arrumos, ao mesmo tempo que cortava as folhas e as guardava para alimento do Lavrado. Algum tempo depois marcava-se o dia da desfolhada. Mariana esperava ansiosamente essa noite de sonho e de magia.

O Zezito ainda era muito novo e Mariana desde pequenina, sempre que a mãe a dispensava de tomar conta do irmão, habituara-se a brincar sozinha. Por isso aguardava com grande ansiedade e expectativa os dias da desfolhada, da vindima, da matança e alguns outros que ela considerava diferentes sobretudo porque tinha sempre alguém com quem brincar. Para ajudar os pais na desfolhada vinham muitos vizinhos e amigos, os tios e os primos, uns parentes já mais afastados. Normalmente o pai escolhia uma noite de Lua Cheia. Os adultos sentavam-se em círculo, na pequena eira, à volta do amontoado de espigas e, enquanto lhes iam arrancando o folhelho, contavam histórias e anedotas ou cantavam ao som de um acordeão De vez em quando a mãe levantava-se e ia buscar uma malga cheia de vinho muito vermelho e perfumado, a borbulhar e a escorrer pelas bordas brancas, que todos iam saboreando à vez. Depois de vazia a mãe voltava a enchê-la outras tantas vezes, quantas eram necessárias para que todos bebessem e alguns voltassem a beber. Simultaneamente Mariana e a prima iam oferecendo, em pequenas cestinhas forradas com panos de linho rendado, pedacinhos de broa e presunto espetados em palitos e figos secos. Depois todos voltavam ao trabalho. De repente e com enorme alarido alguém gritava “Milho-Rei! Milho-Rei!”. A tarefa era suspensa de imediato e fazia-se uma grande festa de regozijo. Mariana e as outras crianças vinham logo sentar-se ao redor do amontoado do milho. É que o feliz contemplado com a espiga de grãos vermelhos teria que abraçar todos os presentes. A isso ela nunca faltava. No fim servia-se a merenda: broa, presunto, salpicão, chouriças, azeitonas e vinho, enquanto um acordeão continuava a emitir sons alegres e harmoniosos. Então os homens, as mulheres e as crianças formavam pares e dançavam pela noite dentro.

A vindima era feita no mês de Outubro. É verdade que não era uma folia tão animada e divertida como a desfolhada. As uvas não eram muitas mas o trabalho era árduo e pesado. O pai passara meses e meses a podar os bacelos e a enxertar e a amarrar as videiras a estacas de pedra granítica e aos amieiros e carvalhos das beiradas que circundavam o campo onde o milho crescia a olhos vistos. Quando as vides já cobriam os bardos de um verde muito escuro e os cachos começavam a desabrochar, suspendendo-se graciosamente das latadas ou pendurando-se desordenadamente nas beiradas, o pai passava horas e horas de máquina a tiracolo a sulfatá-las uma a uma. Depois, já amadurecidas e muito apetitosas, as uvas eram colhidas e levadas em cestos para o lagar, onde eram esmagadas. Durante dias e dias exalava do mosto um cheiro perfumado, acre e doce que se propagava por toda a casa.

O dia que Mariana mais adorava era o da matança. Nesse dia nem ia à escola. A mãe preparava tudo com muita antecedência. A enorme salgadeira, os alguidares, os caldeirões e as panelas, tudo era muito bem limpo e lavado. Na véspera Mariana ajudava a descascar uma enorme quantidade de alhos, a arranjar os temperos e a preparar as toalhas branquinhas enquanto o pai aprontava o colmo para a chamusca.

Nesse dia, a casa não se enchia de gente como na desfolhada, mas a azáfama era muito diferente e mais divertida do que a da vindima. Não era costume vir nem os vizinhos nem os amigos, porque todos tinham que preparar as suas matanças nesses dias. Apenas vinham os tios e os primos e, por vezes, os avós das Caldas com a madrinha Clotilde. De manhã cedo, quando o dia ainda não clareara de todo, chegava o Senhor Joaquim, o matador que o pai contratava todos os anos e que trazia umas facas enormes. Juntamente com o pai e o tio agarravam o cevado, amarravam-lhe as pernas e punham-no em cima duma pequena mesa que se guardava de ano para ano. Mariana de longe, apreensiva e cheia de medo, tapava os ouvidos com ambas as mãos para não ouvir os gritos de aflição que o porco emitia ao ser apanhado. A mãe, de avental novo ao peito, aproximava um alguidar do pescoço do porco e enchia-o com o sangue que se esvaía a jorros do buraco que lhe havia feito a faca certeira do senhor Joaquim. De seguida dividia o sangue em duas partes: uma para coagular e fazer o sarrabulho para a ceia, enquanto juntava à outra metade umas gotas de vinagre e deitava-a num alguidar, para mais tarde a misturar aos bocadinhos da carne da barriga com que se haviam de encher as chouriças. Com a palha do colmo retirada do centeio e transformada em espécies de vassouras, a que ateavam fogo, os homens chamuscavam o porco de uma ponta à outra. De seguida com baldes de água e sabão azul o suíno era lavado e esfregado com pedras e ramos de carqueja até ficar totalmente branquinho e limpo que era um regalo. Depois pegavam-lhe e levavam-no em ombros para a loja de arrumos, onde era amarrado de pernas para o ar, aos tirantes que seguravam o soalho do piso superior. A mãe limpava-o todo com um pano de linho, preparado exclusivamente para este fim e que depois de lavado era novamente guardado para o ano seguinte. O matador, com um enorme facalhão, abria-o de cima para baixo e retirava-lhe o fígado, os bofes, o coração, as tripas e a bexiga. As tripas eram embrulhadas em panos, de maneira a não secarem, a fim de que mais tarde fossem muito bem lavadas no rio. O porco ficava aberto e com umas canas a esticar-lhe a barriga, a fim de que a carne arejasse. Por cima das patas o pai colocava-lhe o redanho como que a simular um manto. E assim ficava até ao dia seguinte, escorrendo em fio um líquido avermelhado e sujo, recolhido numa bacia que lhe era colocada debaixo da cabeça. A mãe já havia preparado e guisado os miúdos com pedacinhos de batata e, com o fígado, fizera umas deliciosas iscas de cebolada. É que o dia começara cedo e a fome apertava. De tarde Mariana acompanhava as tias que iam ao rio lavar as tripas muito bem lavadinhas enquanto a mãe ficava em casa a preparar o unto para fazer o pingue. À noite, todos voltavam a sentar-se à mesa onde as papas de sarrabulho ferviam no velho caldeirão de ferro e exalavam um cheirinho a noz moscada e a cominhos que enchia a casa e, juntamente com o fumo, saía pelos telhados e se propagava pela vizinhança. No dia seguinte voltava o senhor Joaquim com as suas facas para desmanchar o porco. Tirava o redanho para que a mãe o derretesse. Depois extraía a carne da barriga destinada aos rojões, da qual separava as aparas para as chouriças. De seguida, cortava-lhe a cabeça, preparava as orelheiras e dividia o corpo em duas partes, das quais tirava os coelhos. Era com estes que a mãe fazia os melhores salpicões. Depois cortava as pás, tirava as costelas e as tiras da barriga que seriam guardadas na enorme salgadeira. Finalmente cortava os presuntos, que eram colocados juntamente com os salpicões num molho feito de alho, sal, vinho e louro e onde permaneciam durante alguns dias, antes de irem para o fumeiro. De modo semelhante eram temperados os ingredientes com que mais tarde seriam feitas as chouriças. Seguiam-se dias e dias de fumeiro, com a queima de rama verde, para o tornar mais lento e demorado. Depois os presuntos eram passados por vinha d’alhos e postos em sal. Mariana ajudava a mãe em todas estas tarefas e com ela partilhava uma enorme tristeza quando algum presunto, ou porque o tempo estivesse mais quente ou porque não tivesse curado bem, se estragava.

Para além destes dias verdadeiramente diferentes para Mariana, os restantes eram de uma verdadeira monotonia. Levantava-se cedo e seguia para a escola, onde fazia ditados, resolvia problemas, estudava os rios e as serras, os reis e as batalhas, os vertebrados e invertebrados. Na hora de leitura a senhora professora juntava todas as meninas à volta da secretária, por trás da qual ficavam, ladeando um crucifixo pendurado na parede, as fotografias de Craveiro Lopes e Salazar, para lerem à vez e contarem histórias. Terminadas as aulas regressava a casa, ajudava os pais, tomava conta do Zezito e fazia as cópias e as contas que a Dona Ermelinda mandava. Apenas os domingos e os dias de festa em que os pais não trabalhavam no campo eram diferentes.

A festa que Mariana mais adorava era o Natal. Todos os anos faziam, na sala, um enorme presépio com as figurinhas de barro que a mãe trouxera das Caldas: o Menino Jesus, Maria, José, os três Reis Magos, os anjos, os pastorinhos e muitos aldeões que circulavam à volta da gruta, por caminhos cobertos com serrim de madeira e ladeados por casinhas também de barro e por leivas de musgo a imitar os campos onde pastavam as ovelhitas. Mas o que Mariana mais ansiava era a noite de Natal. Nessa noite a ceia era na sala e a mãe enchia a mesa de iguarias deliciosas que aprendera a fazer com a avó da Trofa: rabanadas, formigos, aletria e sopas secas que enchiam a casa de um agradável cheirinho a canela. Terminada a ceia partiam, às vezes com o Zezito já a dormir, para a missa do galo. O pai ficava cá fora com os homens, enquanto ela e a mãe entravam na igreja cheia de vultos negros misturados com um bichanar de orações e um cheiro a velas a arder. Sentavam-se e esperavam em silêncio ou rezavam baixinho, até que o sacristão, envergando uma opa vermelha, vinha tocar uma enorme campainha. Os homens que aguardavam lá fora entravam para o coro e para os lugares do fundo, enchendo a igreja por completo. Toda a gente se levantava e fazia-se um enorme silêncio. O pároco saia da sacristia todo vestido de branco e, segurando na mão o cálice devidamente coberto com um véu esbranquiçado, dirigia-se para o altar-mor. Tirava o barrete negro de três bicos, fazia uma enorme genuflexão e bichanava as primeiras orações em latim, às quais apenas o sacristão respondia. O povo, de joelhos batia com a mão direita no peito e inclinava a cabeça. Pouco depois, o padre aproximava-se do centro do altar, voltava-se para o sacrário e erguendo os braços, entoava em voz muito alta:

- “Glo-ó-ó-ó-óó-ria in excelsis-sis De-e-e-o”.

O sacristão de imediato badalava prolongadamente a campainha enquanto os sinos repicavam e a igreja se enchia de luz, de cor e de alegria. A missa continuava, entre preces, louvores e orações. O povo levantava-se, sentava-se, ajoelhava e tornava a sentar-se, consoante as indicações da campainha.

No fim, enquanto se entoavam cânticos de Natal, o pároco dirigia-se para o presépio que ficava do lado direito da capela-mor. Recebendo o turíbulo fumegante, balouçava-o diante das enormes figuras de Maria, José e do Menino, enchendo o templo de fumo e de cheiro a incenso. De seguida tomava o Menino nas mãos e colocando-se junto à grade que separava a capela-mor do cruzeiro, dava-o a beijar aos fiéis. Mariana, juntamente com as outras crianças, incorporava-se nos primeiros lugares da longa fila que se formava à espera de vez para beijar o Menino Jesus e para depositar, na cestinha que o sacristão mantinha na mão, os vinte centavos que a mãe lhe dera na véspera.

Durante o ano havia várias festas na aldeia e na vila. A maior era a festa em Honra do Divino Salvador. È que para além das celebrações religiosas havia muitas outras actividades que Mariana adorava. Na feira eram inúmeros os carrosséis alguns destinados apenas às crianças, os artesão expondo uma grande variedade de produtos artesanais ao longo das ruas  e as barracas de farturas e de comes e bebes que proliferavam por toda a parte. A vila engalanava-se toda com bandeiras, luzes, arcos e balões. No domingo eram as celebrações litúrgicas que tinham lugar de realce. De manha missa cantada com sermão, com a Matriz a abarrotar de gente e de calor. À tarde era a procissão. Mariana adorava-a. A avó Leocádia, prevendo alguns problemas a quando do seu nascimento, prometera que, logo que a menina andasse pelos seus pezinhos, havia de ir todos os anos, na procissão, vestida de anjinho. A mãe esmerava-se na preparação das roupitas. Faltasse tudo lá em casa, mas promessa era promessa e, por isso, a roupa que a menina vestiria para a procissão do Divino Salvador nunca havia de faltar.

Aos domingos eram dias diferentes, apenas da parte da manhã. As tardes eram ainda de mais labuta. Os pais reservavam para essas tardes os trabalhos mais leves mas considerados necessários. O pai dava feno e erva ao Lavrado, ordenhava a cabra e apanhava os legumes enquanto a mãe tratava do porco e dava uma barrela à casa.

Este trabalho contínuo, persistente e sem futuro começava, por vezes, a indignar o pai da Mariana. Aquilo era uma vida miserável. Trabalhava-se, trabalhava-se para ter apenas o sustento de cada dia. Por várias vezes ensaiara algumas tentativas de arranjar emprego nalgumas fábricas de móveis, que começavam a surgir por ali. Mas não tivera sorte, nunca fora admitido por falta de qualificação. É verdade que já lhe tinham oferecido emprego em Valongo e até no Porto, mas recusara-os. Os transportes eram muito caros e demorados, obrigando-o a sair alta madrugada e regressar a casa pela noite dentro. Assim ficava totalmente impossibilitado de continuar a trabalhar o campo e a Teresa sozinha e com as crianças muito pequeninas não podia atender a tudo. Além disso os ordenados propostos eram muito baixos, quase nem chegavam para os transportes.

Mas a ideia de abandonar a agricultura e mudar de vida nunca saiu por completo do pensamento do pai da Mariana. Muitas vezes, à noite juntamente com a mulher, quando as crianças já dormiam, lamentava aquela vida árdua e cansativa, sobretudo para ela. Não fora para aquilo que a tirara de casa dos pais, da Tornada, lá nas Caldas da Rainha. E os filhos? Que futuro lhes preparava? Continuarem ali, agarrados à rabiça do arado ou ao cabo da enxada para ter apenas um caldo de couves e um bocado de broa ao fim do dia? Não, não podia ser assim. Tinham que pensar em mudar de vida, em construir um futuro melhor sobretudo para os filhos. Para isso tinham que se aventurar.

A mulher bem o tentava demover lembrando que não estava nada incomodada com aquela vida. Casara com ele por amor e era por amor que tinha deixado os seus pais e tinha saído das Caldas. Além disso estava habituada à vida do campo. Também na Tornada, desde que terminara a quarta classe, sempre se habituara ao trabalho agrícola, ajudando os pais nas lides agrárias e que a mãe lhe estava sempre a dizer que ela não nascera para princesa.

Mas o Libório é que não se conformava e não lhe saía da cabeça a ideia de que um dia havia de mudar de vida. Esse dia não tardou.

Foi na feira de um de Março que o pai de Mariana encontrou um amigalhaço do tempo da tropa que havia emigrado para a França e agora estava em Portugal a passar uns dias. Conversa daqui, conversa dacolá e o sonho de abandonar a vida agrícola tornou-se mais real do que nunca. A vida em Portugal não melhorava, o país não progredia e a agravar a situação o regime de então acabara de iniciar uma guerraem Angola. Dizia-seque também seriam mobilizados os que tinham feito tropa nos últimos anos, mesmo já tendo passado à disponibilidade.

Assim, emigrar para França transformou-se numa decisão irreversível.

A mulher nem queria acreditar e atirava-lhe à cara com inúmeras dificuldades, repetindo constantemente:

- Tu endoideceste por completo, homem de Deus!

Não, não endoidecera. Afinal já estava tudo planeado. É verdade que não tinha quem lhe fizesse carta chamada, mas iria como muitos outros tinham ido – clandestino. A diferença é que ela e os pequenos também iam, apesar dos passadores não quererem levar mulheres, nem muito menos crianças. É que a fuga era muito perigosa.

Foi um tipo de Macedo de Cavaleiros que contactou o pai da Mariana através de um primo de Senande, para acertar tudo. Era preciso que ninguém soubesse ou desconfiasse de nada. E foi lá, em Senande, em casa do primo, que encontrou o homem. Álvaro Ramalho, assim se chamava o contrabandista, no início recusou levar a mulher e as crianças. Aos poucos foi cedendo. Era uma questão de preço. Mas garantiu-lhe que era sério e honrava os compromissos. O que se combinasse ali seria escrupulosamente cumprido. Oitenta contos: trinta por cada um dos adultos e vinte pelas crianças mas estas, sempre que seguissem de carro ou camioneta, seriam levadas ao colo. Claro que tudo o que lhes acontecesse era da responsabilidade dos pais.

O pai de Mariana regressou sem firmar contrato. O preço era altíssimo. Era-lhe de todo impossível arranjar aquele dinheiro. Um segundo encontro e o Ramalho cedeu:

- Vinte mil em notas e quarentaem bens. Aceitamoscasas, terras… Mas temos que ser nós a avaliar os bens – sentenciou o homem, apertando-lhe a mão – e tens emprego garantidoem Clermont-Ferrand. Aochegares lá um tipo chamado Cardoso vai procurar-te, vai arranjar-te trabalho e dizer-te como deves pagar o restante. Não devem levar muita bagagem. Para além de ser comprometedor é impossível transportá-la. Levem apenas o indispensável.

A mãe de Mariana teve muitas dificuldades em aceitar.

- Vais vender a casa e o campo!? E se temos que voltar para trás? O que vai ser de nós e dos pequenos? Nem ao menos posso avisar meus pais? – Perguntava ansiosa.

- De forma nenhuma. Ninguém, absolutamente ninguém pode saber, a não ser o primo de Senande. E não te esqueças que à Mariana e a todas as pessoas deves dizer que vamos às Caldas, a casa dos teus pais.

- E o Lavrado? E a cabra? E as galinhas e o porco?

- O boi já está vendido. A casa e o campo ficam ao cuidado de meu primo. Só depois de receber a notícia de que já estamos seguros e em França ele venderá o que puder e fará a entrega da casa e do campo ao passador.

Foi na véspera dos anos de Mariana que ela, os pais e o irmão partiram Para os vizinhos iam às Caldas, a casa dos avós maternos, passar o aniversário da menina.

Quando chegaram a Bragança um tipo de aspecto esquisito aproximou-se, recebeu-os e ofereceu-se, como taxista, para os levar a Gimonde. Que esperassem um pouco sem dar muito nas vistas. A viagem era curta e só à meia-noite em ponto deviam estar em Talhinhas junto à ponte de Remondes, sobre o rio Sabor. O plano em nada falhou. Ao dar a meia-noite, lá estavam juntando-se a eles outros dois desconhecidos, com quem teriam que efectuar uma longa e perigosa viagem. Finalmente chegou o guia que os acompanhou até à fronteira.

Era Outubro. As noites já eram grandes e frescas. As crianças começaram a sentir fome e frio. O pai prevenira-se com comida em Bragança, mas o Zezito não se calava e, em vão, pedia leite. O choro e a impaciência começavam a importunar. A mãe vezes sem conta arrependia-se de ter partido.

Na manhã seguinte uns a dormir e outros acordados chegaram a Puebla de Sanabria, em Espanha, juntando-se a alguns pequenos grupos que tinham passado a fronteira noutros locais. Alguns dias depois estavam em Dancharie na França, onde o último guia os deixou.

- Agora tomem o comboio e sigam os vossos destinos conforme as instruções que vos deram. Governem-se, como puderem – e virou costas.

O comboio ainda parou em Puyoô e em Agen onde saíram alguns portugueses. Apenas um pequeno grupo seguiu para Clermont-Ferrand.

Na capital de Auvergne o pai de Mariana procurou o Cardoso, que morava na rua deLa Rotundee desde há muito estava radicadoem França. Osconhecimentos que tinha junto dos patrões de algumas fábricas de pneus, metalurgia, produtos farmacêuticos e alimentares proporcionavam-lhe que fosse arranjando alguns empregos para os que o Ramalho lhe recambiava de Portugal. O que tinha disponível de momento era numa fábrica de pneus. Não era nada mau.

O trabalho é pesado, mas vais ganhar bem. És novo e forte. Se com o teu trabalho agradares aos patrões, tens promoção pela certa. Já sabes que para aqui não se vem passar férias.

O alojamento é que estava um pouco complicado. Para já só conseguira um quarto, um pouco distante da fábrica. Era na rua Berlliard. A mulher podia usar a cozinha e o preço era acessível. Em breve lhe arranjaria uma casita. Havia um tipo de Viana que ia tentar melhor sorte em Paris. Quando ele foi embora ficaram de vez com a casa.

 

***

O Peugeot dos Dupont seguia a alta velocidade na A4 em direcção a o Porto O GPS indicava que deviam sairem Paredes Nortee depois virar à esquerda. Mariana sentia uma grande ansiedade. Dentro em breve iria percorrer os caminhos e as vielas dos tempos de infância, recordando assim os lugares onde tinha nascido e fora criada. Em França, sobretudo depois do casamento com Pierre Dupont e da mudança de Clermont-Ferrant para Aurillac, poucas informações recebia de Portugal. Mas duma coisa tinha a certeza – tudo estaria muito diferente. À medida que se aproximava o coração apertava-se-lhe mais. É que a oportunidade de ver e talvez até de entrar na pequena casinha onde tinha nascido podia estar prestes a concretizar-se. Os semáforos à entrada da cidade causavam-lhe alguma confusão, mas configuravam grandes mudanças.

Voltaram à esquerda, tornaram a voltar à direita e seguiram em frente na direcção do sítio onde presumivelmente estaria a velha casita. Mais umas voltas e chegaram ao pequeno largo em frente à velha igreja, cuja fachada exterior semelhante a um castelo medieval, ainda tinha bem presente na memória. Não estaria muito longe, pois lembrava-se que, muitas vezes, à noitinha, da janela do seu quarto via, por cima dos telhados das casas circundantes, a torre da igreja. Vinha então debruçar-se à janela para ouvir o toque das Trindades. A avó havia-lhe ensinado as orações que devia rezar entre as lentas e demoradas badaladas do sino. Mais adiante estendia-se uma área enorme de terreno plano onde se misturavam prédios já construídos e outrosem construção. Algumasescavadoras reviravam a terra e removiam enormes calhaus que eram retirados dali por camiões. Muito isolada, num dos cantos do grande eirado, com paredes e muros parcialmente destruídos, apenas uma casa, em tudo muito semelhante à sua. Era de uma amiga de escola, a Joaninha, lembrava-se bem. Passava por ali todos os dias, parava e chamava por ela. Depois lá iam, de malas a tiracolo, saltando e cantando pelos campos para encurtar caminho, apanhando flores com que faziam um ramo para oferecer à Dona Ermelinda. Grande parte das casas ao redor já tinham sido derrubadas e era nos seus lugares que edificavam aqueles prédios modernos e abriam novas ruas. Mais além as outras aldeias e o rio. È verdade que também as suas águas já não eram tão limpas, transparentes e cristalinas como as de outrora, muitos moinhos e azenhas haviam desaparecido e ao seu redor os campos já não se enchiam de milho e de couves repolhudas, já não havia matança de porcos, desfolhadas e as vindimas já não eram como outrora. Os homens já não se agarravam, de manhã à noite, à rabiça do arado e as mulheres já não sachavam e mondavam sob o calor tórrido do estio. Mas, em contra partida, nascera ali ao lado uma cidade, uma cidade grande e moderna que crescera graças à força, coragem e determinação de um povo.

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publicado por picodavigia2 às 16:29

DAS FLORES AO TORRÃO

Sexta-feira, 20.09.13

Quando o Belarmino terminou o curso, na escola do Magistério Primário da Horta, respirou de alívio. Para trás ficavam dificuldades incontáveis, desânimos reiterados e, vezes sem conta, uma vontade quase incontrolável de desistir. Agora estava tudo superado. Os anos que se seguiriam, que estavam apenas atordoados com a constante ameaça da tropa e, pior do que isso, com a guerra do Ultramar, trazer-lhe-iam o singrar numa carreira profissional por muitos desejada mas por poucos conseguida.

Por vontade dos pais ter-se-ia ficado pela 4ª classe. Aguardava-o, como aos outros da sua idade, o destino de ficar ali, na ilha, vergado ao peso da enxada ou agarrado à rabiça do arado, acartando molhos de lenha e cestos de inhames, galgando as encostas da Rocha ou transpondo as veredas dos Matos, em suma, condenado para toda a vida aos trabalhos inerentes a uma mísera agricultura de subsistência.

Cedo, porém, tentou libertar-se. Mas não foi fácil. Eram os entraves paternos, afirmando que trabalho digno de tal nome só o agrícola e eram os irmãos, atormentados pelas lides árduas dos campos, persistindo em contrariar a degeneração do último rebento dos Rodrigues.

Foi a D. Ilda, que o acompanhara da primeira à quarta classe e que não cessava de louvar a inteligência do garoto, que, a muito custo, demoveu o pai do seu persistente carracismo. Eram os irmãos de enxada às costas e foice na mão a caminho da Eira-da-Quada e dos Lavadouros e o Belarmino a tomar a camioneta para Externato de Santa Cruz, que Liceu nas Flores não havia,

Terminado o 5º ano, seguiu para o Faial, com destino à Escola do Magistério, enquanto os outros, por entre protestos execráveis e reclamações improfícuas, mais se excruciavam a cavar as belgas do Mimóio ou a sachar as courelas do Areal e viam o leite mingar na tijela das sopas, que agora não era só o sustento da casa. Não era bem aquilo que o Belarmino queria, mas Universidade nos Açores era um mito. Quem optasse por estudar tinha apenas duas alternativas: o Magistério ou o Seminário. A escolha, para o Belarmino, foi inequívoca.

Os dois anos que passou na Horta não foram fáceis. Dinheiro apenas para a pensão. Livros emprestados. Gastos supérfluos, nem pensar. Além disso, o Carvalho que chegava mensalmente das Flores e atracava à doca da Horta, trazia, juntamente com o correio e uma caixita de vitualhas diversas, uma enxurrada de ameaças:

- Olha lá se me reprovas! Acaba-se tudo!... Teu pai diz que há muitos fetos e cana roca para ceifar no Pocestinho e o cerrado das Furnas está à espera do arado e da enxada.

Nas férias matava-se a trabalhar. Os irmãos atiravam-lhe para o lombo os molhos mais pesados e os cestos maiores, ripostando:

- Tens que trabalhar agora, para compensar a boa vidinha que levas durante o Inverno.

Mas chegou o fim do Magistério e o concurso para professor. Como lhe segredassem que as vagas nos Açores eram poucas e, porque há muito sonhara abandonar o arquipélago, até porque temia cada vez mais o estigma da guerra do Ultramar, à qual se sabia que de Lisboa era mais fácil fugir do que das ilhas, decidiu concorrer para o Continente. A Graça, a colega de curso que por ele se havia perdido de amores desde há algum tempo, bem o tentava demover, assustando-o com Trás-os-Montes e com o Alentejo, locais onde, na opinião da apaixonada, proliferavam aldeias mais pobres e mais isoladas do que o Corvo ou as Fajãs de S. Jorge.

A decisão, porém, estava tomada e nada ou nenhum argumento o demoveu.

Seguiram-se dias de ansiedade. Finalmente as listas saíram. No átrio da Delegação Escolar da Horta, os recém-formados acotovelavam-se, na ânsia da certeza duma colocação. Como era impossível ver fosse o que fosse, o Gregório, por ser mais alto, ia apregoando:

- Amélia Martins da Silva – Fajã dos Bodes.

- Ana Maria Ferreira Borges – Barro Branco.

- Beatriz Deolinda de Melo Bettencourt – Ponta Ruiva.

- Belarmino José Pimentel Rodrigues - Torrão.

O Belarmino ficou branco e mudo. A medo indagou:

- Tô quê?!

- Torrão – repetiu o Gregório.

- Isso é no Continente?! Nos Açores não há terra com esse nome. Deve ser em Trás-os-Montes. Eu bem te dizia... – Balbuciou a Graça.

- Em Trás-os-Montes fica é o Marão. Mas aqui o que está escrito é Torrão. Lá onde fica não sei – acrescentou o Gregório, perante a indignação dos que ainda não tinham ouvido o seu nome.

À volta ninguém sabia onde ficava aquela terra.

- Lá sítio bom, não deve ser - comentava uma outra colega. – Pelo nome... Antes a Fajã da Sanguinha em S. Jorge ou a Ponta da Achada em S Miguel.

Foi o Guedes, que pondo-lhe o braço sobre o ombro, aconselhou:

- Calma Bernardino! Sabias muito bem, quando concorreste, que não ficavas em Lisboa ou em Coimbra. Mas olha que não deve ser tão mau como isso. Acho que Torrão fica lá para o Norte, no distrito do Porto. Mas quem te pode informar melhor é o professor Mapa-Mundi. Ele é do Continente, por isso deve saber onde fica. Vá falar com ele, com certeza que te recebe.

O Dr San-Bento era um homem baixo, magro e bastante enigmático. Uma calvície já acentuadamente desenvolvida, uns óculos redondos e muito fortes levemente descaídos sobre a ponta do nariz e um bigode farfalhudo e grisalho davam-lhe, na opinião dos alunos, uma semelhança perfeita e uma rígida equidade com o desenho de um professor que no livro da 3ª classe, de ponteiro em riste, apontava para o globo terrestre. Essa a razão porque o haviam agraciado, desde há muito, com o epíteto de “professor Mapa-Mundi’. O ar caricato do Dr San-Bento acentuava-se notoriamente com dois tiques: esfregava continuamente as mãos uma na outra como se estivessem sempre geladas e, sobretudo em momentos que tentava demonstrar a sua esperança convicta num futuro melhor, saía-se com o chavão “ gente nova, tempo novo.”

José António Alves da Silva San-Bento era um alentejano de gema. Nascera em Castro Verde, estudara em Coimbra e iniciara a carreira de docente no Liceu de Beja. Foi a vida académica que lhe estimulou os primeiros sentimentos de revolta contra o regime salazarista, aceleradamente açulados durante os primeiros anos de docência na capital alentejana.

O Alentejo, na opinião do jovem professor, apesar de votado ao abandono e ao ostracismo por parte de Lisboa, tinha um vigor e uma beleza que se reflectiam na imensidade das suas planícies, na alta nobreza dos seus montados de sobro e azinho, no esteval cerrado, na giesta ramalhuda ou no piorno em mata, que floresciam ao longo das suas planícies. O Alentejo, escrevia San-Bento nos jornais de Beja, senão fecundo é atraente, senão fértil é aprazível e dos seus rios transborda uma esperança de tranquilidade quase transcendente e infinita. Há qualquer coisa de imponente na sua aridez, na sua secura e no seu aspecto semidesértico, que contrasta com o cercear de um desenvolvimento que tarda em impor-se e germinar. A paisagem transtagana transporta-nos na contemplação dum idílio permanente e bucólico entre o céu e a terra, numa aspiração infinita de sonhos transcendentes e de liberdades desmesuradas. Se por um lado, o Alentejo é um sertão árido, uma gândara ou um chavascal povoado de feras e de uma secura desesperante, por outro é um recanto ubérrimo onde a paisagem tem um cunho de grandiosidade e beleza que se impõem em cada momento e em cada espaço. A sua grei também tem uma fisionomia especial, estigmatizada numa nobre independência, num coração generoso, numa contumaz personalidade, num desejo de libertação. Altivo e trabalhador, atlante de bondade e carinho, acomodado ao trabalho e à luta, mas não subjugado ao despotismo, o alentejano, por um lado mistifica-se numa mudez e num silêncio observador mas, por outro, galvaniza-se numa desmedida ânsia de libertação do esclavagismo, da pobreza e do abandono. O alentejano marca a sua individualidade, não apenas quando veste o pelico ou quando calça os safões, mas quando na sua rudeza e simplicidade manifesta a sua idiossincrasia quer através  da sua linguagem salpicada de frases típicas, de sainetes quer por meio dos seus cantares e tradições, que encerram o grito de revolta da sua alma. O alentejano encarna um espírito nobre e altivo, uma dignidade de vida e de costumes, ornado de um esperança infinita em tempos novos. Em suma, concluía San-Bento vezes sem conta, o Alentejo é sinónimo de gente nova, tempo novo.

Os escritos do Dr San-Bento, mais pelo que se lia nas entrelinhas do que nas linhas, trouxeram-lhe a perseguição da PIDE e o degredo para os Açores, sob a forma simulada de serviço militar, fixando-o durante alguns anos no Quartel de S. João Baptista, na ilha Terceira. Foi Angra primeiro e a Clotilde mais tarde que se encarregaram de o demover do sonho de, terminada a tropa, regressar ao seu Alentejo. Decidiu-se por ficar definitivamente nos Açores, na mui nobre leal e sempre constante Angra do Heroísmo, leccionando no Liceu de Angra, aquartelado no velhinho convento de S. Francisco, até porque a calma e serenidade das ilhas haviam-lhe proporcionado um crescimento galopante de sentimentos, atitudes e escritos antifascistas. Tal crescendo, porém, teve como consequência uma nova mas mais suave perseguição por parte da polícia política, configurada, alguns anos mais tarde, numa discreta transferência para a ilha do Faial.

Agora, na Horta, empenhava-se apaixonadamente na formação dos alunos da Escola do Magistério, dos futuros professores e a pouco e pouco, quer porque a idade fosse avançando quer porque a pequenez e o isolamento da ilha lhe cerceavam a divulgação de ideias e escritos, limitava-se a guardar na memória os sentimentos, cada vez maiores, da revolta que lhe ia na alma. A esperança cada vez mais convicta de que regime do velho ditador havia de cair pela força e coragem duma nova geração cravara-se definitivamente e bem fundo na alma do velho professor, onde era guardada como um tesouro escondido que um dia havia ser revelado. Ele, formador dos novos mestres, era cúmplice dessa futura renovação, da chegada de um tempo novo. Por isso, quer nas suas aulas quer em todo e qualquer local que tivesse oportunidade de falar, sintetizava todos esses sentimentos e ideias numa expressão muito a seu gosto “gente nova, tempo novo”, com a qual de facto simbolizava a sua esperança num Portugal novo, democrático, onde os direitos fundamentais do homem haviam de ser religiosamente respeitados, um Portugal com uma geração nova, que havia de nos conduzir a um tempo novo, onde reinasse a paz, florescesse a verdade e se cultivasse a justiça.

Era sobretudo o consciente sentido de responsabilidade pela formação desta nova geração que o acomodava agora a um mutismo oposto às frequentes extravasões dos seus ideais, quer em Beja, quer em Angra.

Foi o Dr San-Bento que esclareceu definitivamente o Belarmino. O seu ar enigmático e taciturno alterou-se de imediato, quando este lhe atirou com Torrão. Levantou-se e apontando para o ar com o dedo indicador exclamou:

- Torrão! Torrão! Foste colocado em Torrão, concelho de Alcácer do Sal. Parabéns meu rapaz. É uma terra excelente!

- O senhor Doutor conhece Torrão? Já lá esteve?

- Claro – continuava San-Bento. – Já lá estive muitas vezes. Tenho lá um grande amigo o Dr. Emílio Assunção. Somos conterrâneos, nascemos no concelho de Castro Verde, ele em São Marcos de Atabueira e eu em Entradas, numa freguesia vizinha. Quantas vezes fomos pescar juntos para a ribeira de Cobres! Belos tempos! Ele é médico em Torrão e já lá vai um bom par de anos que o não vejo. Hei-de recomendar-te a ele, quando para lá fores. É um homem que adora aquela terra, tem lhe dado muito e feito muito por ela. A esposa, a D. Ermelinda é professora lá. Maravilhoso! Maravilhoso! Vais ser colega da D. Ermelinda!

- E que tal a freguesia, senhor doutor? Será fácil arranjar pelo menos um quarto onde possa ficar nos primeiros tempos?

- Torrão embora pertencendo ao concelho de Alcácer do Sal é vila, talvez mesmo a vila mais tradicional do Alentejo, pelo seu casario, património e cultura popular – acrescentava com entusiasmo San-Bento e esfregando as mãos com grande intensidade uma na outra, prosseguia:

- Linda vila, meu rapaz, linda vila de casas térreas, muito brancas, com chaminés escuras rentes ao beiral. Além disso aquilo é terra com história. O Torrão esconde uma história de séculos e séculos, que se inicia na pré-história, passa pela romanização e pela ocupação árabe. Tem uma igreja matriz muito interessante e de grande valor histórico e arquitectónico. É um belo templo de três naves e várias capelas. O púlpito, que se destaca de uma coluna, é uma bela peça de cantaria, pouco vulgar entre nós. No cruzeiro e capela-mor existem belos azulejos. Outra edifício notável na vila de Torrão é a igreja da Palma, onde existem ricos painéis de azulejos do século XVIII e que representam cenas da vida da Virgem Maria e de S. João Baptista. Além de todos estes motivos que fazem do Torrão uma localidade historicamente riquíssima há um outro facto também notável, que individualiza aquela terra. Foi esta freguesia berço de vultos ilustres, dos quais se destaca o grande escritor quinhentista, autor da tão célebre obra “Menina e Moça”, o poeta das “Saudades”, Bernardim Ribeiro.

- Mas casa, senhor doutor, casa? Acha que consigo alugar ao menos um quarto? – Interrogava o Belarmino mais preocupado com o seu futuro imediato do que com o autor de “Menina e Moça”.

- Bem – concluiu San-Bento sem lhe dar ouvidos – vais iniciar a tua vida profissional numa grande terra, no Alentejo. Num Alentejo que, mais do que qualquer outra região de Portugal precisa de gente nova. Só com gente nova teremos um Alentejo novo.

- Gente nova, tempo novo – balbuciou o Belarmino e interrogava: – Mas casa senhor doutor casa? Será fácil arranjar casa lá?

A pedido do Dr. San-Bento, o Rodrigo, filho de um amigo do dr Assunção, veio receber o Bernardino a Lisboa, ao cais de Alcântara onde o Carvalho Araújo havia atracado. Levou-o até à Alcácer e dali ao Torrão, onde o dr Assunção já lhe havia garantido alojamento.

Mas só depois de se despedir do Rodrigo, quando ficou só, é que o Belarmino, trazendo à memória o dito tantas vezes repetido pelo dr San-Bento “gente nova, tempo novo”, entendeu verdadeiramente que começava ali o princípio duma nova vida.

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publicado por picodavigia2 às 17:25

A RETIRADA

Sexta-feira, 30.08.13

A noite já ia adiantada. Caíra tardia e enigmática sobre a “tabanca” que circundava o pequeno quartel, donde postos vesgos e carcomidos projectavam uma luz ténue e baça que se perdia na imensidão escura da planície africana.

Nos abrigos, a maioria dos soldados já havia recolhido. Um silêncio profundo, emanado da planície, pairava sobre o quartel e sobre a “tabanca”. Num pequeno cubículo, quatro oficiais desfazendo os dissabores e as preocupações de um quotidiano mavórcio, iniciavam mais uma partida de sueca, sobre uma mesa velha e besuntada, onde, duas horas antes, haviam, frugalmente, saboreado o rancho.

Ainda não tinha caído sobre a mesa a última carta da primeira jogada, quando o Tulhas, sem pedir licença ou sequer fazer a continência do costume, entrou de rompante, no pequeno ádito. Esbaforido, de mãos na cabeça, gritava repetidamente:

- Meu capitão! Meu capitão! Houve uma grande revoluçãoem Portugal. Mataramo Américo Tomás e o Marcelo Caetano.

O capitão Cachadinha, sobre quem caía o comando da pequena companhia, ali sediada, levantou-se de um salto e correu, precipitadamente, para o exíguo cubículo, ao fundo do largo central do quartel, impropriamente denominado “sala de transmissões”, enquanto os três alferes, estupefactos, procuravam, sem proveito nenhum, tirar mais alguma informação do Tulhas, aguardando ansiosos, a chegada de Cachadinha:

- Se isto é verdade – arriscava o Carvalhal, esfregando as mãos de contentamento – é a nossa salvação. Vamos embora daqui!

- Viva a liberdade! - Gritava o Penha da Silva e depois cantarolava. – “Adeus Guiné-é, vou-te deixar-ar-ar!”

Cachadinha não tardou. Entrou na pequena sala de punhos cerrados, desenhando com os braços gestos de convicção, certeza e contentamento. Atirou um pontapé à mesa, derrubou meia dúzia de garrafas de cerveja e, abraçando esbaforidamente os colegas de armas, gritou:

- Até que enfim, que esta porcaria vai acabar! Ou melhor: acabou! Acabou-se o fascismo! Acabou-se a ditadura! Somos um país e um povo livres. Esta guerra também vai acabar, em breve!

Os outros não cabiam em si de estupefactos. Afinal era verdade. O entusiasmo excessivamente exteriorizado e os gritos emitidos eram tais, que muitos furriéis, sargentos e soldados assomaram à messe de oficiais, interrogando-se, sem resposta.

Já mais calmo e com a minúscula e degradante sala a abarrotar, entre gritos e vivas à liberdade, o capitão explicou:

- Meus senhores. Acabam de me confirmar, de Lisboa, que hoje de madrugada teve início no nosso país uma revolução que há-de ficar na história. Um grupo de capitães, através de um golpe de estado, há muito esperado, pôs termo ao fascismo e instaurou um novo regimeem Portugal. Apartir de hoje somos um país livre, totalmente livre. Uma Junta de Salvação Nacional, já formada, irá tomar conta do poder e mudar os destinos do nosso país. Isto significa, para já, o fim desta guerra maldita e o nosso regresso a Portugal o mais rapidamente possível.

As últimas palavras de Cachadinha já nem se ouviram. Os presentes manifestavam-se, entusiasticamente, entre gritos de “liberdade”, “abaixo o fascismo” “vivam as Forças Armadas”. Uns abraçavam-se efusivamente, alguns bebiam em demasia, outros gritavam esbaforidamente e, pelo rosto nervoso de muitos, corriam lágrimas… lágrimas de alegria e emoção. Mas o que todos mais sentiam, era a certeza de em breve terminar a guerra e regressarem a Portugal...

A noite, na camuflada messe de oficiais, foi de vigia contínua e festança. Já alta madrugada, quando furriéis, sargentos e soldados regressaram aos seus abrigos, entre copos e trambolhões, Cachadinha, com os olhos esbugalhados de álcool e alegria, confirmava:

- O dezasseis de Março fracassou, mas o movimento não morreu. Isto não podia parar. A situação aqui, na Guiné, era insustentável. Todos os comandos estavam de alerta, previa-se um ataque em massa, pelo PAIGC, com apoio da OUA.

- Estamos verdadeiramente no fim do mundo! – Lamentava o Carvalhal. – Uma revolução de madrugada, em Portugal e nós aqui todo o dia, até às onze da noite, sem saber de nada...

A noite, embora já perto do fim, custou a terminar. Cachadinha não dormiu. Passava-lhe pela mente, a mulher, os filhos, o regresso à “Santiago e Irmão”, a retirada dali, os caminhos cheios de minas, a evacuação dos trinta mil homens que lutavam na Guiné e o futuro dos soldados de cor, fiéis ao exército português.

A noite seguinte foi trágica. O quartel foi atacado, mais uma vez. Corrida para as valas... Resposta de Pirada... Dois mortos...

- Os tipos do PAIGC, nas zonas mais interiores ainda não sabem o que se passa...  – Explicava Cachadinha. – Os informadores disseram-lhes que estávamos em festa e de armas paradas e os tipos aproveitaram logo... Não vai ser fácil parar tudo isto...

Os dias seguintes foram de esperança misturada com uma enorme ansiedade e com uma profunda incerteza. As notícias de Portugal, no entanto, eram óptimas. - “A revolução, denominada dos cravos, fora um sucesso. Agora reinava a liberdade, a democracia e a esperança no futuro.” – Afirmavam, unanimemente, todas as cartas.

Mas ali, bem no interior da Guiné, a 400 metros do Senegal, a situação continuava complicada. Na realidade, a muitos elementos da guerrilha, dispersos no mato, em pequenos grupos, quase isolados, não chegaram, tão cedo, as notícias dos acordos de paz, nem as decisões tomadas em Bissau. As estradas e caminhos continuavam minados, as pontes permaneciam armadilhadas, os ataques aos quartéis eram cada vez mais frequentes e as emboscadas às colunas não cessavam.

A manhã de oito de Agosto nasceu calma e apaziguadora, pese embora, entre os comandados de Cachadinha, a azáfama fosse grande. Tinha sido a última noite no pequeno e mísero aquartelamento de Bajocunda!

No centro do quartel, um pequeno mastro com a bandeira portuguesa. De um lado, pouco mais de meia dúzia de soldados do PAIGC, de farda acinzentada, rosto tristonho, tímidos e de aspecto cansado. A chefiá-los um graduado. Do outro lado os cerca de sessenta homens que Cachadinha comandava, excepto os nativos, que durante os dias anteriores haviam, progressivamente, desertado, sem que ninguém a tal se opusesse. Cahadinha, em passo militar, dirigiu-se para o graduado negro. Fizeram a continência recíproca, cumprimentaram-se muito formalmente e colocaram-se perfilados, em frente à bandeira portuguesa, de continência em riste.

O Penha da Silva deu ordens à hoste lusa:

- Apresentar! Armas! Up!

Logo um rumor enorme de pés a bater no chão, mãos a pegar em armas e estas a escorregarem sobre fardas, se fez ouvir. Os soldados do PAIGC obedeceram também a idênticas ordens do seu chefe, imitando, desajeitadamente, os gestos dos militares brancos. De seguida, Cachadinha e o oficial negro passaram revista às tropas e voltaram a perfilar-se diante da bandeira.

Seguiu-se um toque de clarim. Um soldado branco dirigiu-se para o poste e, desamarrando os fios, fez descer, lenta e solenemente, a bandeira portuguesa. Depois, dobrando-a muito cuidadosamente, veio, em passos ritmados pelo rufar dos tambores, ladeado por dois colegas, colocá-la nas mãos de Cachadinha. Um soldado negro, dirigiu-se então, para o poste e, amarrando a bandeira negra, verde e amarela do PAIGC, fê-la subir, com cerimonial idêntico.

- Que desgosto! – Comentava, à socapa, o sargento mais velho da companhia e que já ia na quarta comissão no Ultramar. - Que vergonha! Sermos derrotados desta maneira! Sem honra nem glória!

- Deixe lá, meu sargento! – Aconselhava o Tulhas em voz baixa. – Perdemos a guerra mas ganhamos a liberdade. A guerra acabou, mas não acabou a tropa. Se você quiser ainda pode continuar a tropa, lá em Portugal.

Penha da Silva voltou a dar ordens. Todos se puseram à vontade e, rodeando os soldados do PAIGC, procuravam, pô-los à vontade, abraçando-se uns aos outros como se sempre tivessem sido amigos.

 

Nessa tarde, Cachadinha e os seus homens, entre lágrimas de saudade e eflúvios de alegria, abandonaram o pequeno quartel situado na aldeia de Bajocunda, na fronteira da Guiné com o Senegal, onde haviam permanecido mais de um ano. A população da tabanca, entrara no quartel, como que tomara conta dele e abanava-lhes sem grande convicção.

A companhia direcção de Tabassi, através da “picada” que dava Pirada dirigiu-se para aquele aldeamento, localizado na fronteira com o Senegal, juntando-se ao Batalhão a que pertencia. Passados alguns dias, rumaram a Nova Lamego, onde esperaram o avião em que viajariam até ao aeroporto de Bissalanca, aguardando, finalmente o tão almejado voo para Lisboa.

Mas, naquela tarde, não partiram todos!

Faltavam os negros que haviam desertado sem destino, abandonados e sem protecção de ninguém. Sabia-se que muitos já haviam sido fuzilados enquanto outros estavam presos, à espera de julgamento por traição à pátria. Alguns, mais afoitos e expeditos, os mais valentes e destemidos, tinham fugido. Faltavam, também, os dezanove brancos que, juntamento com a companhia chefiada por Cachadinha, haviam partido de Lisboa, os dezanove que sucumbiram às balas, aos obuses e aos morteiros e que não puderam participar naquela retirada precoce e inopinada, que a madrugada de 25 de Abril originara.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:05

ANCORADO NAS VELAS

Segunda-feira, 26.08.13

Debruçado sobre a amurada do convés da primeira classe do Carvalho Araújo, Gonçalo observava distraidamente a vila das Velas, um aglomerado de casas muito branquinhas, umas dispostas em anfiteatro junto ao cais, outras, mais ao longe, plantadas na encosta que, a pouco e pouco se ia galvanizando de verde e se prolongava até ao cume da ilha. Suavemente impulsionado por uma leve ondulação das águas da baía, o paquete voltara a popa a Sul, obrigando-o a mudar-se para estibordo, a fim de continuar a deleitar-se, como muitos outros passageiros, com a contemplação da vila, das casas espelhadas nas águas azuladas do Oceano e a observar o frenético vaivém das pequenas embarcações que ligavam a ilha ao navio, numa árdua e contínua lufa-lufa de transporte de pessoas, animais e mercadorias.

A sirene, no entanto, soou rouca e estrepitosa por três vezes. Era o prenúncio de que em breve o navio levantaria ferro e, ladeando a ilha até à Ponta dos Rosais, rumaria à Graciosa. Simultaneamente, anunciava-se que aquela seria a última barcaça vinda de terra, a demandar o navio. O Carvalho demoraraem São Jorgeum bom par de horas, proporcionando aos passageiros em trânsito a oportunidade de realizar um pequeno périplo pela ilha, admirando e apreciando a beleza das fajãs, a frescura verde das pastagens, a amálgama arborizada das montanhas, o sussurrar diáfano das águas das ribeiras, a tranquilidade das freguesias e a tímida altivez das duas vilas – as Velas e a Calheta.

Gonçalo ainda pensara ir a terra. À sua vontade, porém, atravancara-se a escassez de escudos que os pais lhe haviam colocado nos bolsos, quando, dois dias antes, partira das Flores, com destino a Angra, onde ia continuar os estudos. Poupar era a regra número um. Além disso, já conhecia a ilha. Uns dias de verão na Caldeira de Santo Cristo, em casa de um colega. Um calvário, aquela subida!

Foi na última lancha que ela regressou a bordo! Vira-a pela primeira vez quando supostamente embarcara nas Lajes. Um enorme e estrondoso baque no coração. Depois… depois nunca mais se cruzara com ela. Provavelmente nem saíra no Faial, onde o Carvalho encostara, ali, bem juntinho à doca, proporcionando aos passageiros dirigirem-se para terra sem ter que pagar bilhete. Armazenavam-se assim uns troquitos que chegavam e sobravam para uma feijoada no “Graciosa”, a fim de ressarcir a fome de dias e dias passados bordo, a jejuar mais do que nas Sextas-feiras da Quaresma. Vasculhara o navio de lés-a-lés e nada. No Cais do Pico pusera-se de vigia rigorosa, durante o desembarque e embarque dos passageiros, mas não a vira sair ou entrar. O mar entre as Flores e o Faial não estivera para brincadeiras… Possivelmente teria enjoado, como tantos outros passageiros. Ele também se vira em apuros. É que para além do marulhar constante do oceano provocando um contínuo e interminável baquear do velho paquete sobre as ondas, viajava sem direito a beliche e em terceira classe, onde proliferava um pestilento e emético cheiro a vomitado, a latrinas nauseabundas, a comida enjoosa, ao bafio dos beliches e a bosta de vaca. Também não pregara olho toda a noite e, por isso se encostara de tarde, no convés da segunda, numa cadeira que apanhara desocupada, mas dura que nem pedra. Adormecera entre o Cais e as Velas e não se apercebera da chegada a S. Jorge.

Agora sim. Ali estava ela e parecia-lhe ainda mais bonita do que quando a vira, pela primeira vez, nas Flores. Desceu rapidamente ao portaló, antes que ela subisse as escadas de acesso ao navio e se eclipsasse novamente. Ia segui-la de perto, mas discretamente, muito discretamente para não ser notado. Bafejou-o a sorte. Mal entrou no convés da primeira, sentou-se numa cadeira de descanso, enquanto o casal que a acompanhava e que supostamente seriam os pais, rumou na direcção dos camarotes.

Nervoso, indeciso, quase denunciador, Gonçalo vagueou, simuladamente, para trás e para diante, em frente à cadeira onde ela se sentara, ora voltando à direita, debruçando-se sobre a borda do convés, ora encaminhando-se pela esquerda na direcção da sala de estar. Passado algum tempo decidiu sentar-se numa cadeira, ao lado. Fez-se um silêncio enigmático e profundo, entrecortado por um ou outro olhar de soslaio, durante o qual foi ensaiando, sem sucesso, inúmeras tentativas para a formular a pergunta que havia de fazer, a fim de iniciar conversa.

Pode então, pelo canto do olho, contemplá-la melhor. Era duma beleza extraordinária, deslumbrante e encantadora. Do seu rosto emergia uma simplicidade calma e serena, misturada com uma doçura inefável e sublime. Os cabelos despegavam-se em madeixas onduladas sobre os ombros, cobrindo ao de leve as faces. Dos olhos verdes fluía um brilho cristalino e diamantífero. Os lábios delicados e voluptuosos pareciam ter conquistado um sorriso contínuo, permanente, quase sobrenatural, que se e prolongava, levemente, pelas maçãs do rosto.

De repente, e quase irreflectidamente, quebrando um silêncio gélido, angustiante e emergindo de tão idílica contemplação, voltou-se e disparou, desajeitadamente:

- É das Flores, não é? – E perante a admiração dela prosseguiu. – Desculpe-me, mas acho que a sua cara não me é estranha.

Ela, apercebendo-se da enorme atrapalhação anexada à pergunta, sorriu docemente e retorquiu com um simultâneo abanar de cabeça:

- Não, não sou! Não sou das ilhas… Sou do Continente.

- Tenho a impressão de que a vi embarcar ontem, nas Lajes das Flores!

Que sim. Que tinha vindo com os pais visitar a Madeira e os Açores. Que já estava saturada da viagem, dos enjoos, das pessoas, das ilhas, do navio e, sobretudo, do mar. Desde as Flores que não saíra do camarote, sempre a enjoar, a enjoar. Apenas se levantara para acompanhar os pais que pretenderam agora, conhecer a única ilha que na vinda não conseguiram visitar – S. Jorge.

Gonçalo ia ouvindo com uma inexcedível atenção, ao mesmo tempo que desvendava o mistério do seu desaparecimento, depois do embarque nas Flores. E na esperança de prolongar, indefinidamente, aquele indelével contubérnio, ia retorquir-lhe, contrapondo a beleza das ilhas ao tormentoso suplício da viagem, quando o homem que antes a acompanhara, surgindo à porta da sala de estar, chamou com ar severo e grotesco:

- Elvira!

- Elvira!... – Repetiu Gonçalo inadvertidamente e quase a comprometer-se. E, depois, baixinho, muito baixinho, como se fosse em eco: - “Elvira…” “Elvira, ela chama-se Elvira.”

Até à Terceira não mais lhe pôs a vista em cima, pese embora percorresse, vezes sem conta, o navio da proa à ré, vasculhasse todas as salas e cubículos, vagueasse pela maioria dos corredores e até entrasse em muitos camarotes, simulando enganos e pedindo desculpas. Mas vê-la, nunca mais…

Uma angústia enorme trespassou-o, atirando-o para uma dolente nostalgia que nem a noite entre a Graciosa e a Terceira estagnou.

Na manhã seguinte, o Carvalho, circulando o Monte Brasil, fundeou na baía de Angra… mas ela nunca mais apareceu!

Apenas quando o batelão carregado de malas e passageiros se afastava do velho paquete, com destino ao Cais da Alfândega, Gonçalo pode vê-la, de longe, debruçada sobre a amurada do convés, precisamente naquele sítio onde, na véspera, ficara horas e horas, frente às Velas, à espera que ela surgisse miraculosamente.

E teve a sensação de que ela olhava para ele…

Trémulo, inseguro e langoroso, enquanto o batelão, a arfar de malas e passageiros e a enterrar-se entre as ondas altivas e buliçosas provocadas por um forte vento de sudoeste, se aproximava de terra, foi repetindo baixinho, num misto de dor, de paixão e de raiva:

- Elvira!... Elvira!.. Elvira!...

E o pequeno batel afastou-se, definitivamente, do Carvalho!

Alta noite quando, já quase adormecido, se enlevava com a esfíngica imagem que lhe havia de ficar para sempre gravada no peito, ouviu chamar muito ao longe: “Elvira! Elvira! Elvira!” Eram os três apitos roucos e estrépitos do Carvalho a anunciar que, dentro em breve partia, com destino a S. Miguel.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:02

O TOLO

Sábado, 22.06.13

Conta-se que, numa certa aldeia, havia um indivíduo que todos julgavam ser tolo. Para se divertirem e o gozarem à grande, sempre que entrava num determinado café, alguns dos aldeões ali presentes, de imediato, lhe colocavam na frente duas moedas: uma de um escudo e outra de dois e quinhentos- Depois diziam-lhe que se ele conseguisse escolher a que achasse mais valiosa, ficaria com ela.

O tolo hesitava um pouco, mas escolhia sempre a maior, ou seja a de um escudo, o que levava os outros a rir, desmesuradamente, e a apoucá-lo, pois cuidavam que, na sua ignorância, associava o valor ao tamanho.

 A cena repetia-se todos os dias e o tolo, apesar da risota e da galhofa de todos, não hesitava em eleger, sempre, a moeda de um escudo, como a mais valiosa.

Certo dia um dos aldeões, indignado com aquela forma de gozar o desgraçado e com pena dele, chamou-o, à parte, e disse-lhe:

- Olha lá! Tu és mesmo tolo! Ainda não percebeste que estás a ser gozado todos os dias? Ainda não percebeste que a moeda mais valiosa é a mais pequena?

Resposta do tolo:

- Lá perceber, percebi. Só que no dia em que eu escolher a mais pequena, por considera-la mais valiosa, acaba-se a brincadeira e não ganho nem mais um escudo. Por isso, enquanto puder, vou continuar a escolher sempre a maior. Assim todos continuarão a pensar que sou tolo e a divertirem-se à minha custa mas continuarão, também, a dar-me um escudo todos os dias.

 

 

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publicado por picodavigia2 às 08:53

VIAJANDO COM FERREIRA DE CASTRO

Domingo, 16.06.13

O Padre José Soares, por motivos de doença, nos tempos em que o Carvalho Araújo ainda escalava as ilhas dos Açores e da Madeira, deslocava-se com alguma frequência a Lisboa, a bordo daquele paquete.

Numa dessas viagens viajou juntamente com Ferreira de Castro, que se deslocava para a ilha da Madeira,em férias. Oescritor foi-lhe apresentado por um amigo comum, o médico de bordo, pessoa extremamente culta, organizador e dinamizador de muitos encontros, reuniões e tertúlias a bordo do velho navio, congregando assim poetas, escritores e homens da cultura que frequentemente viajavam a bordo do Carvalho. A partir daí, a conversa Ferreira de Castro e José Soares terá sido diária, longa e prolongada, sendo o tema principal da mesma não apenas a obra literária do escritor, que o padre conhecia, de fio a pavio, mas também muitas e muitas outras obras e vultos da literatura portuguesa e universal

Ao chegar à Madeira e antes de se despedirem, Ferreira de Castro manifestou o seu espanto e satisfação por encontrar um padre açoriano tão culto e tão profundamente conhecedor da sua obra, congratulando-se por isso e elogiando o clero açoriano em geral, considerando que, neste campo e a julgar pela amostra que ali tinha, se sobrepunha e superava de longe o clero do continente que, na opinião do escritor, era, culturalmente, muito pobre e ignorante.

Resposta imediata e pronta do Padre José Soares:

- Mas saiba Vossa Excelência que está, tão somente, a falar com um humilde e simples “padre de fazer enterros”, pároco duma das mais pequenas, retirada e longínqua freguesia dos Açores, a Fajã Grande das Flores. Por aqui imagine, então, Vossa Excelência a cultura e sabedoria que terão os padres das grandes vilas e cidades açorianas e, sobretudo, os doutores e professores do Seminário…

E com esta se foi Ferreira de Castro passar as suas férias à Madeira.

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publicado por picodavigia2 às 23:39

O REGRESSO DE MARIANA

Sábado, 15.06.13

Era uma vez uma casa pobre, humilde, modesta e muito antiga. As paredes eram de um castanho amarelado, de tal maneira despidas de cal que deixavam ver os pedacinhos de xisto com que haviam sido construídas e que, semelhantes a tabuinhas, se sobrepunham e entrelaçavam uns nos outros, em camadas simétricas e rendilhadas que iam do chão ao telhado e se prolongavam ao longo dos muros e paredes circundantes. Tinha um aspecto muito tosco e rústico, com portadas de madeira carcomida pelo tempo, sem grandes vidraças e com dois andares. No rés-do-chão ficavam as lojas de arrumos, uma adega muito pequenina, a cozinha e a retrete. O primeiro piso, a que se tinha acesso apenas por uns degraus exteriores também de xisto e ladeados por um corrimão de ferro enferrujado, era constituído por uma sala e dois quartos.

Nessa casa morava Mariana, com os pais e um irmão mais novo, o Zezito.

A casa ficava perto de um rio que se chamava Ave. Era um rio de águas límpidas, cristalinas e azuladas, repletas de uma imensidade de barbos, carpas, bogas e outros pequenos peixes que se movimentavam em loucas correrias, em constantes rodopios e em simulados ziguezagues. O rio deslizava calma e suavemente, atravessando uma enorme planície onde, de um lado e outro das suas margens, povoadas de azenhas e moinhos, se acomodavam terrenos divididos por beiradas de amieiros, choupos, castanheiros e carvalhos, mas muito férteis e produtivos. No Inverno, enquanto aguardavam as sementeiras, tinham um aspecto avermelhado e escurecido, mas na Primavera revestiam-se com o verde dos milheirais, dos legumes e das vides e no Verão começavam a amarelecer até alourarem por completo no Outono.

Num desses campos, um pouco mais distante do rio, ficava a casa da Mariana. Era nele que os pais trabalhavam de sol a sol porque era dele que tiravam tudo o que era necessário para o seu sustento – milho, legumes, batatas e vinho. Em Fevereiro e Março, quando os dias começavam a tornar-se maiores e mais quentes, os pais, jungindo o Lavrado à charrua, abriam e resvalavam a terra ainda húmida das chuvas invernais e deixavam ficar as leivas e os torrões a secarem e como que a aquecerem-se ao Sol, durante alguns dias. Depois desfaziam-nos e transformavam-nos em terra fina que alisavam umas vezes com enxadas outras com uma grade puxada pelo Lavrado, transformando o campo num enorme e fofo tapete acastanhado. De seguida o pai voltava a atrelar o boi ao arado e traçava regos paralelos e simétricos de uma extremidade à outra do campo. A mãe ia atrás e, retirando punhados de milho de uma cesta que levava enfiada no braço, atirava os grãos com tanta agilidade e perícia que eles caiam direitinhos no rego, muito bem alinhados uns à frente dos outros, como se fossem soldadinhos numa parada militar. Cada rego fechava-se com o abrir do seguinte, tapando assim os grãozinhos que ali ficavam a germinar durante alguns dias. Por fim a terra era de novo gradeada e alisada para que os grãos ficassem todos muito bem escondidinhos e assim germinassem mais facilmente, com a ajuda do Sol e da chuva dos dias seguintes. Não tardava muito e era um regalo ver o milho a crescer, a crescer, muito verdinho e espevitado. Nas extremidades do campo e nos lugares mais abrigados pelos bardos das beiradas ficavam pequenos canteiros de batatas, feijão, ervilhas e melões e nos mimos crescia a pranta, a couve, as alfaces e o cebolo. Em Abril e Maio, quando o milho ainda estava miudinho, os pais sachavam e mondavam o campo de lés a lés, retirando as ervas daninhas e os pés de milho mais bastos para que os outros crescessem à vontade. Nos dias seguintes o campo transformava-se num enorme tapete de folhas verdes, caneladas e pontiagudas, ladeadas pelos canteiros onde floresciam couves repolhudas e as ervilhas e os feijoeiros começavam a trepar pelas estacas de cana que eram espetadas aqui e além. Os milheiros cresciam de dia para dia, as suas folhas entrelaçavam-se umas nas outras e balouçavam como ondas ao sabor das brisas matinais e os caules, canelados e esguios, tornavam-se altíssimos, enfeitando-se lá no alto com umas flores estranhas que cobriam o campo com um manto esbranquiçado e fofo. Algum tempo depois nos caules enrijecidos começavam a formar-se espiguinhas cabeludas que iam crescendo e alourando ao Sol do estio. Em Setembro as espigas amadureciam por completo e procedia-se à apanha. A mãe arrepelava dos caules já muito amarelados e envelhecidos as espigas maduras e recolhia-as em enormes cestos, enquanto o pai os ia acarretando para a loja de arrumos, ao mesmo tempo que cortava as folhas e as guardava para alimento do Lavrado. Algum tempo depois marcava-se o dia da desfolhada. Mariana esperava ansiosamente essa noite de sonho e de magia.

O Zezito ainda era muito novo e Mariana desde pequenina, sempre que a mãe a dispensava de tomar conta do irmão, habituara-se a brincar sozinha. Por isso aguardava com grande ansiedade e expectativa os dias da desfolhada, da vindima, da matança e alguns outros que ela considerava diferentes sobretudo porque tinha sempre alguém com quem brincar. Para ajudar os pais na desfolhada vinham muitos vizinhos e amigos, os tios e os primos de Covelas, uns parentes já mais afastados de Alvarelhos e um casal de Laundos. Normalmente o pai escolhia uma noite de Lua Cheia. Os adultos sentavam-se em círculo, na pequena eira, à volta do amontoado de espigas e, enquanto lhes iam arrancando o folhelho, contavam histórias e anedotas ou então cantavam acompanhados pelo acordeão do amigo de Laundos. De vez em quando a mãe levantava-se e ia buscar uma malga cheia de vinho muito vermelho e perfumado, a borbulhar e a escorrer pelas bordas brancas, que todos iam saboreando à vez. Depois de vazia a mãe voltava a enchê-la outras tantas vezes, quantas eram necessárias para que todos bebessem e alguns voltassem a beber. Simultaneamente Mariana e a prima iam oferecendo, em pequenas cestinhas forradas com panos de linho rendado, pedacinhos de broa e presunto espetados em palitos e figos secos. Depois todos voltavam ao trabalho. De repente e com enorme alarido alguém gritava “Milho-Rei! Milho-Rei!”. A tarefa era suspensa de imediato e fazia-se uma grande festa de regozijo. Mariana e as outras crianças vinham logo sentar-se ao redor do amontoado do milho. É que o feliz contemplado com a espiga de grãos vermelhos teria que abraçar todos os presentes. A isso ela nunca faltava. No fim servia-se a merenda: broa, presunto, salpicão, chouriças, azeitonas e vinho, enquanto o acordeão continuava a emitir sons alegres e harmoniosos. Então os homens, as mulheres e as crianças formavam pares e dançavam pela noite dentro.

A vindima era feita no mês de Outubro. É verdade que não era uma folia tão animada e divertida como a desfolhada. As uvas não eram muitas mas o trabalho era árduo e pesado. O pai passara meses e meses a podar os bacelos e a enxertar e a amarrar as videiras a estacas de pedra granítica e aos amieiros e carvalhos das beiradas que circundavam o campo onde o milho crescia a olhos vistos. Quando as vides já cobriam os bardos de um verde muito escuro e os cachos começavam a desabrochar, suspendendo-se graciosamente das latadas ou pendurando-se desordenadamente nas beiradas, o pai passava horas e horas de máquina a tiracolo a sulfatá-las uma a uma. Depois, já amadurecidas e muito apetitosas, as uvas eram colhidas e levadas em cestos para o lagar, onde eram esmagadas. Durante dias e dias exalava do mosto um cheiro perfumado, acre e doce que se propagava por toda a casa.

O dia que Mariana mais adorava era o da matança. Nesse dia nem ia à escola. A mãe preparava tudo com muita antecedência. A enorme salgadeira, os alguidares, os caldeirões e as panelas, tudo era muito bem limpo e lavado. Na véspera Mariana ajudava a descascar uma enorme quantidade de alhos, a arranjar os temperos e a preparar as toalhas branquinhas enquanto o pai aprontava o colmo para a chamusca.

Nesse dia, a casa não se enchia de gente como na desfolhada, mas a azáfama era muito diferente e mais divertida do que a da vindima. Não era costume vir nem os vizinhos nem os amigos, porque todos tinham que preparar as suas matanças nesses dias. Apenas vinham os tios e os primos de Covelas e, por vezes, os avós das Caldas com a madrinha Clotilde. De manhã cedo, quando o dia ainda não clareara de todo, chegava o Senhor Joaquim, o matador que o pai contratava todos os anos. Vinha de Valdeirigo e trazia umas facas enormes. Juntamente com o pai e o tio entravam nos aidos, agarravam o cevado, amarravam-lhe as pernas e punham-no em cima duma pequena mesa que se guardava de ano para ano. Mariana de longe, apreensiva e cheia de medo, tapava os ouvidos com ambas as mãos para não ouvir os gritos de aflição que o porco emitia ao ser apanhado. A mãe, de avental novo ao peito, aproximava um alguidar do pescoço do porco e enchia-o com o sangue que se esvaía a jorros do buraco que lhe havia feito a faca certeira do senhor Joaquim. De seguida dividia o sangue em duas partes: uma para coagular e fazer o sarrabulho para a ceia, enquanto à outra metade juntava umas gotas de vinagre e deitava-a num alguidar, para mais tarde a misturar aos bocadinhos da carne da barriga com que se haviam de encher as chouriças. Com a palha do colmo retirada do centeio e transformada em espécies de vassouras, a que ateavam fogo, os homens chamuscavam o porco de uma ponta à outra. De seguida com baldes de água e sabão azul o suíno era lavado e esfregado com pedras e ramos de carqueja até ficar totalmente branquinho e limpo que era um regalo. Depois pegavam-lhe e levavam-no em ombros para a loja de arrumos, onde era amarrado de pernas para o ar, aos tirantes que seguravam o soalho do piso superior. A mãe limpava-o todo com um pano de linho, preparado exclusivamente para este fim e que depois de lavado era novamente guardado para o ano seguinte. O matador, com um enorme facalhão, abria-o de cima para baixo e retirava-lhe o fígado, os bofes, o coração, as tripas e a bexiga. As tripas eram embrulhadas em panos, de maneira a não secarem, a fim de que mais tarde fossem muito bem lavadas no rio. O porco ficava aberto e com umas canas a esticar-lhe a barriga, a fim de que a carne arejasse. Por cima das patas o pai colocava-lhe o redanho como que a simular um manto. E assim ficava até ao dia seguinte, escorrendo em fio um líquido avermelhado e sujo, recolhido numa bacia que lhe era colocada debaixo da cabeça. A mãe já havia preparado e guisado os miúdos com pedacinhos de batata e, com o fígado, fizera umas deliciosas iscas de cebolada. É que o dia começara cedo e a fome apertava. De tarde Mariana acompanhava as tias que iam ao rio lavar as tripas muito bem lavadinhas enquanto a mãe ficava em casa a preparar o unto para fazer o pingue. À noite, todos voltavam a sentar-se à mesa onde as papas de sarrabulho ferviam no velho caldeirão de ferro e exalavam um cheirinho a noz moscada e a cominhos que enchia a casa e, juntamente com o fumo, saía pelos telhados e se propagava pela vizinhança. No dia seguinte voltava o senhor Joaquim com as suas facas para desmanchar o porco. Tirava o redanho para que a mãe o derretesse. Depois extraía a carne da barriga destinada aos rojões, da qual separava as aparas para as chouriças. De seguida, cortava-lhe a cabeça, preparava as orelheiras e dividia o corpo em duas partes, das quais tirava os coelhos. Era com estes que a mãe fazia os melhores salpicões. Depois cortava as pás, tirava as costelas e as tiras da barriga que seriam guardadas na enorme salgadeira. Finalmente cortava os presuntos, que eram colocados juntamente com os salpicões num molho feito de alho, sal, vinho e louro e onde permaneciam durante alguns dias, antes de irem para o fumeiro. De modo semelhante eram temperados os ingredientes com que mais tarde seriam feitas as chouriças. Seguiam-se dias e dias de fumeiro, com a queima de rama verde, para o tornar mais lento e demorado. Depois os presuntos eram passados por vinha-d’alhos e postos em sal. Mariana ajudava a mãe em todas estas tarefas e com ela partilhava uma enorme tristeza quando algum presunto, ou porque o tempo estivesse mais quente ou porque não tivesse curado bem, se estragava.

Para além destes dias verdadeiramente diferentes para Mariana, os restantes eram de uma verdadeira monotonia. Levantava-se cedo e seguia para a escola, onde fazia ditados, resolvia problemas, estudava os rios e as serras, os reis e as batalhas, os vertebrados e invertebrados. Na hora de leitura a senhora professora juntava todas as meninas à volta da secretária, por trás da qual ficavam, ladeando um crucifixo pendurado na parede, as fotografias de Craveiro Lopes e Salazar, para lerem à vez e contarem histórias. Terminadas as aulas regressava a casa, ajudava os pais, tomava conta do Zezito e fazia as cópias e as contas que a Dona Ermelinda mandava. Apenas os domingos e os dias de festa em que os pais não trabalhavam no campo eram diferentes.

A festa que Mariana mais adorava era o Natal. Todos os anos faziam, na sala, um enorme presépio com as figurinhas de barro que a mãe trouxera das Caldas: o Menino Jesus, Maria, José, os três Reis Magos, os anjos, os pastorinhos e muitos aldeões que circulavam à volta da gruta, por caminhos cobertos com serrim de madeira e ladeados por casinhas também de barro e por leivas de musgo a imitar os campos onde pastavam as ovelhitas. Mas o que Mariana mais ansiava era a noite de Natal. Nessa noite a ceia era na sala e a mãe enchia a mesa de iguarias deliciosas que aprendera a fazer com a avó da Trofa: rabanadas, mexidos, aletria e sopas secas que enchiam a casa de um agradável cheirinho a canela. Terminada a ceia partiam, às vezes com o Zezito já a dormir, para a missa do galo. O pai ficava cá fora com os homens, enquanto ela e a mãe entravam na igreja cheia de vultos negros, de tossidelas e rouquidões, de bichanar de orações e de cheiro a velas a arder. Sentavam-se e esperavam em silêncio ou rezavam baixinho, até que o sacristão, envergando uma opa vermelha, vinha tocar uma enorme campainha. Os homens que aguardavam lá fora entravam para o coro e para os lugares do fundo, enchendo a igreja por completo. Toda a gente se levantava e fazia-se um enorme silêncio. O pároco saia da sacristia todo vestido de branco e, segurando na mão o cálice devidamente coberto com um véu esbranquiçado, dirigia-se para o altar-mor. Tirava o barrete negro de três bicos, fazia uma enorme genuflexão e bichanava as primeiras orações em latim, às quais apenas o sacristão respondia. O povo, de joelhos batia com a mão direita no peito e inclinava a cabeça. Pouco depois, o padre aproximava-se do centro do altar, voltava-se para o sacrário e erguendo os braços, entoava em voz muito alta:

- “Glo-ó-ó-ó-óó-ria in excelsis-sis De-e-e-o”.

O sacristão de imediato badalava prolongadamente a campainha enquanto os sinos repicavam e a igreja se enchia de luz, de cor e de alegria. A missa continuava, entre preces, louvores e orações. O povo levantava-se, sentava-se, ajoelhava e tornava a sentar-se, consoante as indicações da campainha.

No fim, enquanto se entoavam cânticos de Natal, o pároco dirigia-se para o presépio que ficava do lado direito da capela-mor, por baixo da imagem de S. Martinho. Recebendo o turíbulo fumegante, balouçava-o diante das enormes figuras de Maria, José e do Menino, enchendo o templo de fumo e de cheiro a incenso. De seguida tomava o Menino nas mãos e colocando-se junto à grade que separava a capela-mor do cruzeiro, dava-o a beijar aos fiéis. Mariana, juntamente com as outras crianças, incorporava-se nos primeiros lugares da longa fila que se formava à espera de vez para beijar o Menino Jesus e para depositar, na cestinha que o sacristão mantinha na mão, os vinte centavos que a mãe lhe dera na véspera.

Em Janeiro havia a festa de S. Sebastião. Em Abril a da Senhora do Desterro e a Páscoa. No mês seguinte, o Espírito Santo. Em Agosto chegava finalmente a maior festa de todas – a Senhora das Dores. Mariana adorava-a. A avó Leocádia, prevendo alguns problemas a quando do seu nascimento, prometera que, logo que a menina andasse pelos seus pezinhos, havia de ir todos os anos, na procissão, vestida de anjinho. A mãe esmerava-se na preparação das roupitas. Faltasse tudo lá em casa, mas promessa era promessa e, por isso, a roupa que a menina vestiria para acompanhar a Senhora das Dores nunca havia de faltar. No dia da festa, Mariana seguia cedo com os pais, para o largo fronteiro à capela. Terminada a missa iniciava-se uma gigantesca procissão, onde se incorporavam os dez andores representantes das aldeias de Bougado, as irmandades, dezenas e dezenas de anjinhos e milhares de fiéis e devotos da Senhora das Dores.

Finalmente, em Setembro, havia uma outra festa a que os pais de Mariana também nunca faltavam – a romaria de Santa Eufémia, em Alvarelhos.

Os restantes domingos, da parte da tarde, eram de labuta. Os pais, no entanto, reservavam para essas tardes os trabalhos mais leves mas considerados necessários. O pai dava feno e erva ao Lavrado, ordenhava a cabra e apanhava os legumes enquanto a mãe tratava do porco e dava uma barrela à casa.

Este trabalho contínuo, persistente e sem futuro começava, por vezes, a indignar o pai da Mariana. Aquilo era uma vida miserável. Trabalhava-se, trabalhava-se para ter apenas o sustento de cada dia. Por várias vezes ensaiara algumas tentativas de arranjar emprego nalgumas fábricas de serração de madeiras, tecelagem, chapéus, tecidos ou de maceração do linho, que desde há alguns anos tinham começado a surgir ali na zona da Trofa. Mas não tivera sorte, nunca fora admitido. É verdade que já lhe tinham oferecido emprego nas Ferragens Melo e Sousa, no Porto, mas recusara-o. Muitos homens de S Martinho e de outras localidades ao redor deslocavam-se todos os dias para o Porto, para trabalhar em fábricas ou na construção civil. A escassez de transportes, no entanto, obrigava-os a fazer a viagem de bicicleta, demorando mais de três horasem viagens. Assimficava totalmente impossibilitado de continuar a trabalhar o campo e a Teresa sozinha e com as crianças muito pequeninas não podia atender a tudo. Além disso os ordenados quer nas fábricas quer na construção eram muito baixos.

Mas a ideia de abandonar a agricultura e mudar de vida nunca saiu por completo do pensamento do pai da Mariana. Muitas vezes, à noite juntamente com a mulher, quando as crianças já dormiam, lamentava aquela vida árdua e cansativa, sobretudo para ela. Não fora para aquilo que a tirara de casa dos pais, da Tornada, lá nas Caldas da Rainha. E os filhos? Que futuro lhes preparava? Continuarem ali, agarrados à rabiça do arado ou ao cabo da enxada para ter apenas um caldo de couves e um bocado de broa ao fim do dia? Não, não podia ser assim. Tinham que pensar em mudar de vida, em construir um futuro melhor sobretudo para os filhos. Para isso tinham que se aventurar.

A mulher bem o tentava demover lembrando que não estava nada incomodada com aquela vida. Casara com ele por amor e era por amor que tinha deixado os seus pais e tinha saído das Caldas. Além disso estava habituada à vida do campo. Também na Tornada, desde que terminara a quarta classe, sempre se habituara ao trabalho agrícola, ajudando os pais nas lides agrárias e que a mãe lhe estava sempre a dizer que ela não nascera para princesa.

Mas o Libório é que não se conformava e não lhe saía da cabeça a ideia de que um dia havia de mudar de vida. Esse dia não tardou.

Foi na festa de Santa Eufémia, em Alvarelhos, que o pai de Mariana encontrou um amigalhaço do tempo da tropa que havia emigrado para a França e agora estava em Portugal a passar uns dias. Conversa daqui, conversa dacolá e o sonho de abandonar a vida agrícola tornou-se mais real do que nunca. A vida em Portugal não melhorava, o país não progredia e a agravar a situação o regime de então acabara de iniciar uma guerraem Angola. Dizia-seque também seriam mobilizados os que tinham feito tropa nos últimos anos, mesmo já tendo passado à disponibilidade.

Assim, emigrar para França transformou-se numa decisão irreversível.

A mulher nem queria acreditar e atirava-lhe à cara com inúmeras dificuldades, repetindo constantemente:

- Tu endoideceste por completo, homem de Deus!

Não, não endoidecera. Afinal já estava tudo planeado. É verdade que não tinha quem lhe fizesse carta chamada, mas iria como muitos outros tinham ido – clandestino. A diferença é que ela e os pequenos também iam, apesar dos passadores não quererem levar mulheres, nem muito menos crianças. É que a fuga era muito perigosa.

Foi um tipo de Macedo de Cavaleiros que contactou o pai da Mariana através de um primo de Guidões, para acertar tudo. Era preciso que ninguém soubesse ou desconfiasse de nada. E foi lá, em Guidões, em casa do primo, que encontrou o homem. Álvaro Ramalho, assim se chamava o contrabandista, no início recusou levar a mulher e as crianças. Aos poucos foi cedendo. Era uma questão de preço. Mas garantiu-lhe que era sério e honrava os compromissos. O que se combinasse ali seria escrupulosamente cumprido. Oitenta contos: trinta por cada um dos adultos e vinte pelas crianças mas estas, sempre que seguissem de carro ou camioneta, seriam levadas ao colo. Claro que tudo o que lhes acontecesse era da responsabilidade dos pais.

O pai de Mariana regressou sem firmar contrato. O preço era altíssimo. Era-lhe de todo impossível arranjar aquele dinheiro. Um segundo encontro e o Ramalho cedeu:

- Vinte mil em notas e quarentaem bens. Aceitamoscasas, terras… Mas temos que ser nós a avaliá-los – sentenciou o homem, apertando-lhe a mão – e tens emprego garantidoem Clermont-Ferrand. Aochegares lá um tipo chamado Cardoso vai procurar-te, vai arranjar-te trabalho e dizer-te como deves pagar o restante. Não devem levar muita bagagem. Para além de ser comprometedor é impossível transportá-la. Levem apenas o indispensável.

A mãe de Mariana teve muitas dificuldades em aceitar.

- Vais vender a casa e o campo!? E se temos que voltar para trás? O que vai ser de nós e dos pequenos? Nem ao menos posso avisar meus pais? – perguntava ansiosa.

- De forma nenhuma. Ninguém, absolutamente ninguém pode saber, a não ser o primo de Guidões. E não te esqueças que à Mariana e a todas as pessoas deves dizer que vamos às Caldas, a casa dos teus pais.

- E o Lavrado? E a cabra? E as galinhas e o porco?

- O boi já está vendido. A casa e o campo ficam ao cuidado de meu primo. Só depois de receber a notícia de que já estamos seguros e em França ele venderá o que puder e fará a entrega da casa e do campo ao passador.

Foi na véspera dos anos de Mariana que ela, os pais e o irmão partiram de S. Martinho de Bougado com destino à França. Para os vizinhos iam às Caldas, a casa dos avós maternos, passar o aniversário da menina. Mas no Porto não foi fácil convencer Mariana de que iam para as Caldas por outro caminho.

Quando chegaram a Bragança um tipo de aspecto esquisito aproximou-se, recebeu-os e ofereceu-se, como taxista, para os levar a Gimonde. Que esperassem um pouco sem dar muito nas vistas. A viagem era curta e só à meia-noite em ponto deviam estar em Talhinhas junto à ponte de Remondes, sobre o rio Sabor. O plano em nada falhou. Ao dar a meia-noite, lá estavam juntando-se a eles outros dois desconhecidos, com quem teriam que efectuar uma longa e perigosa viagem. Finalmente chegou o guia que os acompanhou até à fronteira.

Era Outubro. As noites já eram grandes e frescas. As crianças começaram a sentir fome e frio. O pai prevenira-se com comida em Bragança, mas o Zezito não se calava e, em vão, pedia leite. O choro e a impaciência começavam a importunar. A mãe vezes sem conta arrependia-se de ter partido.

Na manhã seguinte uns a dormir e outros acordados chegaram a Puebla de Sanabria, em Espanha, juntando-se a alguns pequenos grupos que tinham passado a fronteira noutros locais. Alguns dias depois estavam em Dancharie na França, onde o último guia os deixou.

- Agora tomem o comboio e sigam os vossos destinos conforme as instruções que vos deram. Governem-se, como puderem – e virou costas.

O comboio ainda parou em Puyoô e em Agen onde saíram alguns portugueses. Apenas um pequeno grupo seguiu para Clermont-Ferrand.

Na capital de Auvergne o pai de Mariana procurou o Cardoso, que morava na rua deLa Rotundee desde há muito estava radicadoem França. Osconhecimentos que tinha junto dos patrões de algumas fábricas de pneus, metalurgia, produtos farmacêuticos e alimentares proporcionavam-lhe que fosse arranjando alguns empregos para os que o Ramalho lhe recambiava de Portugal. O que tinha disponível de momento era numa fábrica de pneus. Não era nada mau.

- O trabalho é pesado, mas vais ganhar bem. És novo e forte. Se com o teu trabalho agradares aos patrões, tens promoção pela certa. Já sabes que para aqui não se vem passar férias.

O alojamento é que estava um pouco complicado. Para já só conseguira um quarto, um pouco distante da fábrica. Era na rua Berlliard. A mulher podia usar a cozinha e o preço era acessível. Em breve lhe arranjaria uma casita. Havia um tipo de Viana que ia tentar melhor sorteem Paris. Quandoele fosse embora ficaria com a casa.

 

O Peugeot dos Dupont seguia a alta velocidade em direcção a Braga. O GPS indicava que deviam sairem Santo Tirso/Trofa e depois virar à esquerda. Quando começou a circular em direcção à Trofa, Mariana sentia uma grande ansiedade. Dentro em breve iria percorrer os caminhos e as vielas dos tempos de infância, recordando assim os lugares onde tinha nascido e fora criada. Em França, sobretudo depois do casamento com Pierre Dupont e da mudança de Clermont-Ferrant para Aurillac, poucas informações recebia de Portugal. Mas duma coisa tinha a certeza – tudo estaria muito diferente. À medida que se aproximava o coração apertava-se-lhe mais. É que a oportunidade de ver e talvez até de entrar na pequena casinha onde tinha nascido podia estar prestes a concretizar-se. Os semáforos à entrada da cidade causavam-lhe alguma confusão, mas configuravam grandes mudanças. No entanto começava a ver perdidas entre modernas construções, uma ou outra casita de xisto amarelado, que tal como aquela onde nascera, deixavam ver as pedrinhas rectangulares que ela sempre comparara a tabuinhas de madeira. De certo que não se haviam enganado. Mais adiante, uma igreja nova, de tijolos acastanhados e amplas vidraças e logo à direita, uma escola enorme, rodeada de prédios modernos e altíssimos. Era a Trofa, mas uma Trofa muito diferente da pequenina aldeia que havia deixado quarenta e sete anos antes.

Voltaram à esquerda, tornaram a voltar à direita e seguiram em frente na direcção do sítio onde presumivelmente estaria a velha casita. Mais umas voltas e chegaram ao pequeno largo em frente à igreja matriz, cuja fachada exterior ainda tinha bem presente na memória. Não estaria muito longe, pois lembrava-se que, muitas vezes, à noitinha, da janela do seu quarto via, por cima dos telhados das casas circundantes, a torre da igreja. Vinha então debruçar-se à janela para ouvir o toque das Trindades. A avó havia-lhe ensinado as orações que devia rezar entre as lentas e demoradas badaladas do sino. Mais adiante estendia-se uma área enorme de terreno plano onde se misturavam prédios já construídos e outrosem construção. Algumasescavadoras reviravam a terra e removiam enormes calhaus que eram retirados dali por portentosos camiões. Muito isolada, num dos cantos do grande eirado, com paredes e muros parcialmente destruídos, apenas uma casa, em tudo muito semelhante à sua. Era de uma amiga de escola, a Joaninha, lembrava-se bem. Passava por ali todos os dias, parava e chamava por ela. Depois lá iam, de malas a tiracolo, saltando e cantando pelos campos para encurtar caminho, apanhando flores com que faziam um ramo para oferecer à Dona Ermelinda. As casas ao redor já tinham sido derrubadas e era nos seus lugares que edificavam aqueles prédios modernos e abriam novas e largas ruas.

Ali era S. Martinho, mais além as outras aldeias e o rio. È verdade que também as suas águas já não eram tão limpas, transparentes e cristalinas como as de outrora, muitos moinhos e azenhas haviam desaparecido e ao seu redor os campos já não se enchiam de milho e de couves repolhudas, já não havia matança de porcos, desfolhadas e as vindimas já não eram como outrora. Já não havia casinhas de xisto com os mimos à porta da cozinha e com os aidos onde se acomodavam os animais. Os homens já não se agarravam, de manhã à noite, à rabiça do arado e as mulheres já não sachavam e mondavam sob o calor tórrido do estio. Mas, em contra partida, nascera ali uma cidade, uma cidade grande e moderna que crescera graças à força, coragem e determinação de um povo. Mais, os trofenses depois de muitas vicissitudes, de empenhadas lutas e de esforços gigantescos haviam transformado aquela terra num concelho - o novo e moderno concelho da Trofa.

Apenas a Senhora das Dores, na sua capelinha muito alta e esguia, permanecia no seu altar e no coração de quantos, como Mariana, haviam ali nascido. Em frente à ermida, apertando tremulamente a mão do marido e com duas lágrimas a rolarem-lhe pelas faces, Mariana dizia-lhe baixinho:

- Oh, mon chéri, si tu savais à quel point je suis fiére d’être née dans cette ville.

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publicado por picodavigia2 às 14:41

UMA CEIA DE PAPAS

Sábado, 08.06.13

O Grotas tinha sete filhas. Lindas quando crianças, depressa cresceram tornando-se ainda mais belas, o que desencadeava, diariamente, uma enxurrada de rapazes, a postarem-se em permanente corrupio, frente à sua casa.

Passado algum tempo, o necessário para que as moçoilas pudessem seleccionar os candidatos a futuros maridos, começou a faina dos enxovais e já se indicavam datas. Mesmo com sacrifício e esfoço, cada qual havia de escolher os seus padrinhos e ter, no dia escolhido, uma mesa lauta que em nada desdenhasse os maiores da freguesia. Muito preocupado com a felicidade das filhas, o Grotas analisou e voltou a analisar, minuciosamente, o currículo de cada um dos pretendentes.

Certa noite, antes de adormecer, comentou para a consorte:

- Gosto de todos, Jacinta, menos do filho do Estrinca. Aquilo não é boa cepa… Tem a quem sair…

A mulher bem o tentava demover da sua consumição. Que o rapaz parecia muito educado e trabalhador. Que os filhos não têm culpa do que fazem os pais e que a Cizaltina não era de se deixar enganar…

Mas convencer o Grotas é que não.

Quando as piquenas começaram a marcar datas, propôs-lhes, o pai, que se havia de fazer uma ceia, láem casa. Que haviam, todos juntos, comer umas papas e que seria cada uma das filhas a convidar o respectivo namorado. Não podia haver desculpas. Todos tinham que comparecer.

As meninas ficaram muito contentes. Pela primeira vez teriam em sua casa os seus apaixonados, sentar-se-iam à mesa com eles, far-se-iam os pedidos e acertar-se-ia tudo para as bodas. No entanto e apoiadas pela mãe, não acharam nenhuma graça aquilo das papas. Não era comida que se apresentasse a ninguém de fora, muito menos aos seus futuros maridos. Uma ceia de papas era uma grandessíssima vergonha! Podia muito bem matar-se uma ou duas galinhas ou, pelo menos, cozer-se um caldeirão de couves com toucinho.

Mas o pai tinha-se decidido pelas papas e a sua vontade havia de ser cumprida.

Agendou-se a ceia para o sábado seguinte. À hora marcada todos chegaram enfarpelados nos seus fatos domingueiros.

Entraram, conversaram e aproximarem-se da mesa. Por determinação do pai, cada menina sentou-se ao lado do seu “mais-que-tudo”, enquanto ele se acomodava ao lado da sua Jacinta, cada vez mais envergonhada por apresentar, em momento tão solene, aquele miserável repasto.

Sentaram-se todos à mesa, tendo cada um à frente o seu prato fumegante e a transbordar, à espera de licença do dono da casa para iniciar o bródio. Eis senão quando, para espanto de todos, o Grotas levanta-se e com um sopro apaga a luz que frouxa e titubeante emanava de um candeeiro a petróleo, velho mas muito limpo e areado e com o vidro a brilhar como novo, gritando bem alto.

 - Agora, cada uns às suas.

Apesar de admirados com tal condescendência, todos se voltaram para as respectivas namoradas e aproveitaram aquele momento único, tão propício a uma intimidade a que não estavam habituados, para se abraçarem, para dizerem um segredo e alguns até para trocar o primeiro beijo. Todos… excepto um, o filho do Estrinca, que, abraçando-se ao prato das papas e agarrando-o com unhas e dentes, gritava bem alto:

 - Nas minhas ninguém toca! Nas minhas ninguém toca.

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