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O CÚMULO DO ISOLAMENTO

Terça-feira, 20.10.15

Ao segundo dia na ilha das Flores, abrimos as cortinas, espreitámos para cima e vimos a caminhada pelo maciço rochoso da Sé por um canudo.

Não somos malta de desistir facilmente e lá entrámos no jipe da West Canyon à espera de um milagre. Raul Brandão, mais uma vez: "Esta paisagem molhada e verde é como um sonho: entreabre-se, fecha-se, sorri e adormece..." Não tivemos sorte, porém: pelo menos a esta altitude, as Flores não se abriram para nós, mantiveram-se naquele estado em que "água, ar e bruma intimamente se casam". Ao volante, Marco Melo explica--nos que o trilho que estava previsto para esta manhã (convém que seja guiado, uma vez que não está marcado na sua totalidade) começaria na Fazenda de Santa Cruz e terminaria no Pico da Sé. "As vistas lá de cima são de cortar a respiração", afiança. Não duvidamos, mas praticamente não vemos um palmo à frente do nariz. Chegamos de jipe à zona dos Piquinhos e, além dos musgos na beira da estrada de terra batida, dos coelhos (tantos!) que saltam à nossa frente e das omnipresentes hortênsias, só esta bruma que nos dá cabo dos planos.

Parece-nos que nas Flores todos os caminhos vão dar ao nevoeiro - e dizemos isto em voz alta. Inconformado, Marco dispõe-se a provar-nos o contrário. Quem não tem cão, caça com gato: em poucos minutos entramos na Estrada Municipal do Galo, que dá acesso à Fajã de Lopo Vaz, perto das Lajes. Voltámos para a costa e o sol brilha agora com alguma intensidade. Olhamos para baixo e percebemos onde vamos ter de chegar, a pé. Às 11h15 começamos a cumprir o trilho da fajã.

Vamos descendo, com o vento a assobiar na vegetação (canas, conteiras) e o mar a rugir lá em baixo. É bonita, a paisagem, mas há-de melhorar não tarda. Vamos escutando os melros pretos e os tentilhões, observando as faias da terra (espécie endémica) empoleiradas na encosta rochosa e sentindo o cheiro a urze, que aqui se chama queiró. Em 15 minutos chegamos a uns degraus de pedra e deste ponto a vista para o mar pode ser vertiginosa para olhos mais sensíveis. E é daqui que vemos, lá em baixo, duas casas brancas - não, três, não, quatro, são quatro pontinhos brancos que sobressaem do negro basáltico das pedras que são o chão da fajã.

Continuamos a andar, ainda não passou meia hora, mas assusta olhar para cima e perceber que há este caminho pela rocha para subir de volta. Marco sossega-nos, habituado que está a palmilhar todos os caminhos das Flores, e diz que "é muito pior descer". A ver vamos. Por enquanto vemos a árvore da groselha e o araçazeiro - dá umas bagas muito utilizadas na ilha para fazer doce de araçá, que haveremos de provar e aprovar um destes dias. O vento amainou e o sol está agora muito mais aberto.

Passaram 45 minutos desde que começámos a descer e já temos a fajã debaixo dos pés. A primeira casa, que lá de cima era um pontinho minúsculo, ergue-se, branca, à nossa frente. Deixa ver alguns sinais de degradação, mas ainda assim percebe-se que cá esteve gente há pouco tempo, pelos vestígios de uma fogueira recente. A propósito, Marco explica que o acesso às casinhas plantadas na Fajã de Lopo Vaz é mesmo o que acabámos de cumprir, não há outro caminho - a não ser para quem chega pelo mar.

É para o mar, precisamente, que vamos agora. As ondas rebentam junto à areia e pedras negras, mas o azul, iluminado por um sol agora forte, enfeitiça. Não temos roupa para o mergulho, afundamos apenas as mãos na água para lhe confirmar a temperatura amigável. Olhamos em redor e vemos apenas dois turistas que também aqui chegaram a pé. De resto, somos nós, o céu e o mar azul, a areia negra e grossa e uma ou outra gaivota para garantir banda sonora. Rede de telemóvel não há e damos connosco a pensar, mais uma vez em voz alta, que isto deve ser o cúmulo do isolamento. Marco corrige-nos e garante que não.

A subida custa mais ou menos o mesmo que a descida - com a diferença que agora praticamente não falamos. Está calor, sentimos sede a cada passo e de repente estamos a beber água que escorre da rocha através de uma folha da qual improvisamos um copo. No último lanço de escadas, já conseguimos avistar o jipe, o que dá motivação extra para os metros finais. Estamos cansados, transpirados, esfomeados - há muito que uma simples sande de fiambre não nos sabia tão bem.

Com estas e com outras, já se passou a manhã. Porque somos persistentes, ainda jogamos, mais uma vez, o jogo do gato e do rato com as lagoas. Quase já sabemos de cor os caminhos que nos conduzem a elas. "Por vezes um fio de sol doira a névoa a medo", dizia Raul Brandão, mas ainda não foi desta - as nuvens continuam a montar guarda às lagoas, como se de um tesouro valioso se tratasse. Já não temos muito tempo, mas entretanto já aprendemos que é preciso saber esperar. Esperemos, então.

Antes, porém, temos direito a passagem panorâmica pela costa nordeste das Flores: ilhéus da Alagoa, de Álvaro Rodrigues (chegou a ter plantações de milho e exibe uma nascente natural) e Furado; Fajã da Ponta Ruiva, que ontem víramos de cima; as grutas da Catedral (imensa, com um eco extraordinário, daí o nome) e do Galo - a rocha é cortada, o sol incide na água e deixa à vista um pedaço de mar turquesa forte, tão cristalino quanto difícil de definir; a réplica marítima da Rocha dos Bordões, ex-líbris das Flores que (ainda) não lográmos ver em terra - um acidente geológico que se caracteriza pela solidificação da rocha basáltica em altas colunas prismáticas verticais.

Carlos conduz o barco para os recantos que se impõem e vai dando algumas dicas para olhos menos atentos. As hortênsias na escarpa, por exemplo, o pormenor da estratificação das rochas, o garajau comum que parece posar para as fotografias. (A propósito, ontem à noite ouvimos pela primeira vez o canto perturbador dos cagarros.)

Por enquanto voltamos às Flores, onde temos a base da nossa viagem ao grupo ocidental do arquipélago. O mar está agora mais alteroso e Carlos informa que o regresso será certamente mais molhado. Vamos de cabeça baixa, para evitar os salpicos de água salgada, até que ouvimos as palavras mágicas: "Golfinhos, golfinhos!" Lá estão eles, à esquerda do barco. Primeiro ao longe, primeiro poucos - mas depois quase coladinhos a nós e muitos, elegantes nos seus saltos acrobáticos. Tinham-nos dito que havia 90 por cento de hipóteses de os vermos e cá estão eles, para gáudio de todos os passageiros. Mais difícil, como se comprovou, seria avistarmos baleias, mas de vez em quando também aparecem.

O que aparece agora, ao fundo, é mesmo a ilha das Flores - e o recorte dos seus pontos mais altos apresenta-se muito mais nítido do que nos dias anteriores. Será hoje, finalmente, que vamos pôr a vista em cima das lagoas?

Na da Lomba, pelo menos. Apesar das nuvens, está completamente visível. Tem uma forma mais ou menos circular e está enquadrada por criptomérias e, claro, por belíssimas sebes de hortênsias. De momento não está cá mais ninguém. Ouvem-se os pássaros e o vento e agora o sol espreita por momentos, bate-lhe e torna as suas águas mais claras.

Embalados pela sorte, vamos em busca das que nos faltam no currículo. Correm as nuvens e corremos nós, a cruzar os dedos. Nada na Comprida, nada na Negra. Mudamos de lugar, sempre atrás dos prejuízos desta neblina que nos troca as voltas. Estamos há minutos à espera de poder ver uma nesga da lagoa Funda. Primeiro perdemo-la, por dez segundos. Pacientes, esperamos, que aqui aprendemos a esperar. E entretanto ela surge, uns metros apenas, que se escondem logo às mãos destas nuvens com vontade própria.

 

Estamos dentro de um jogo de paciência, que agora nos oferece um centímetro da Negra e um centímetro da Comprida. Andamos para trás e para a frente, ao sabor dos blocos de nevoeiro. De vez em quando, um ameaço de sol doura os campos molhados e renasce a nossa esperança. Marco, porém, conhece melhor do que ninguém estas "terras metidas nos vulcões" e chama-nos à realidade: por mais que esperemos hoje, não as veremos na plenitude que merecem. Resignemo-nos, então, a voltar para o continente com esta lacuna por preencher.

A não ser que ainda não sejam 8h00 do último dia e que o telemóvel nos arranque do mundo dos sonhos - para nos levar para o mundo dos sonhos. "É o Marco. Está um dia magnífico. Se quiserem fazer um passeio antes voo, é pegar ou largar."

Pegámos, como é óbvio. Fomos subindo em direção às lagoas debaixo de uma luz como nunca tínhamos visto a esta altitude. Já não era toldada, como nos outros dias, mas muito mais límpida - talvez a "poeira dourada" de que fala Raul Brandão. Ignoramos a entrada para a lagoa da Lomba, que ontem já tínhamos visto, e dirigimo-nos sem outras paragens para a Comprida. Uma súbita neblina ainda nos faz temer o pior, mas de repente fechamos os olhos e quando os abrimos lá está ela, completamente despida para nós.

O silêncio é enorme, deixamo-nos ficar num exercício de contemplação. Estamos a viver um momento quase solene, que interrompemos para avançar poucos metros a fim de conhecermos a vizinha lagoa Negra. É uma circunferência quase perfeita, rodeada de espécies endémicas por todos os lados: cedro do mato, louro, queiró. Tem mais de 100 metros de profundidade que, no entanto, não assustam devido à magia do cenário. Mais mágico do que isto só mesmo o que vemos em seguida, no varandim de um segundo miradouro. As duas lagoas, a Comprida e a Negra, praticamente lado a lado - ou, se preferirmos, de costas voltadas, numa sintonia descasada quase dramática. O sol incide sobre a Negra e deixa-nos ver-lhe melhor a tonalidade das águas. O momento é solene, já tínhamos dito - este canto da ilha é belíssimo, acrescentamos agora, sem receio de exageros.

Entramos no jipe com a alma cheia. E quando, em simultâneo, alcançamos com o olhar as lagoas Funda e Rasa, damos muito mais valor ao que está a acontecer. Era justificada a angústia dos últimos dias: não podíamos deixar as Flores sem levarmos connosco estas imagens de assombro e rendição. A lagoa Funda é de uma beleza extrema, quase trágica de tão verde. Por um rasgão nas nuvens, vê-se o mar lá ao fundo. Mas o impacto é muito maior, realmente, quando estão ambas no mesmo plano de visão.

Estamos absolutamente esmagados. Isto é imenso e misterioso, pena não termos mais tempo para fruir do instante. A contragosto, voltamos as costas a este reino encantado e vamos descer. De bónus, ainda levamos a visão longínqua da lagoa Branca. E finalmente o céu abre-se para nos mostrar a imponência da Rocha dos Bordões. Talvez hoje pudéssemos subir ao Pico da Sé e fazer a caminhada até ao Poço da Alagoinha.

A ilha, percebemos agora, é uma mulher prudente: não se mostra à primeira, gosta que lhe façam a corte sem pressas. Nós tivemos alguma pressa, reconhecemos. Mas havemos de voltar, Flores.

 

Sandra Silva, Fugas Viagens, Jornal Público de 3/9/11

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publicado por picodavigia2 às 00:05

A POMBINHA DA MATA

Domingo, 13.07.14

(POEMA DE CECÍLIA MEIRELES)

 

Três meninos na mata ouviram

uma pombinha gemer.

 

"Eu acho que ela está com fome",

disse o primeiro,

"e não tem nada para comer."

 

Três meninos na mata ouviram

uma pombinha carpir.

 

"Eu acho que ela ficou presa",

disse o segundo,

"e não sabe como fugir."

 

Três meninos na mata ouviram

uma pombinha gemer.

 

"Eu acho que ela está com saudade",

disse o terceiro,

"e com certeza vai morrer."

 

 

Cecília Meireles

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publicado por picodavigia2 às 10:09

MUSICA NO SEMINÁRIO DE ANGRA – ANOS 50/60

Domingo, 06.07.14

(TEXTO DE EMÍLIO PORTO)

Fui aluno do Seminário de Angra desde Outubro de 1950 até Junho de 1962 e fiz parte de um grupo constituído por vinte e oito jovens, oriundos de todas as ilhas. Era o mais velho. Nem todos chegaram ao fim do curso. Apenas onze se ordenaram a 3 de Junho de 1962. Fui um deles.

Este é o testemunho das memórias que guardo, confirmadas por informações pessoais de antigos alunos do Seminário. Seria mais completo, se alguns meus companheiros de curso ainda fizessem parte do mundo dos vivos. Ou se vivesse mais próximo dos que ainda, felizmente, vivem, espalhados por muitas partes do mundo. Que me desculpem uns e outros, das omissões ou imprecisões. Fica o meu testemunho. Da força, do saber e da cultura que senti no Seminário de Angra, nos anos 50-60 do seculo XX.

Depressa me apercebi duma tradição forte, nesta área, já que eram frequentes as referências a sacerdotes de grande saber, que foram preponderantes na criação de coros paroquiais e ou filarmónicas em muitas ilhas açorianas. No caso de filarmónicas, recordo, apenas, o Padre Alfredo Augusto de Menezes e Santos, natural da Madalena do Pico, que fundou em 1915, nas Flores, a Filarmónica União Musical Operária de Santa Cruz. Ainda nas Flores, o Padre Francisco Vieira Soares, natural das Lajes do Pico, que fundou a Filarmónica Lombense Manuel Martins, e mais tarde, quando foi transferido para a Piedade do Pico, fundou a Filarmónica União Musical da Piedade. Finalmente, na Graciosa, o Padre José Simões Borges, que ainda encontrei no Seminário, pela vida e dinamização que imprimiu às quatro bandas filarmónicas daquela ilha.

No campo dos coros paroquiais, ou capelas, foram notórios, o de São Mateus, criado pelo Padre Joaquim Vieira da Rosa, e o coro de São João da responsabilidade do Padre João Pereira da Terra, que acabou por ser o primeiro professor e mestre dos irmãos Padres Manuel Silveira d'Ávila e José Silveira d'Ávila. Este último, o mais conceituado de todos, pela acção que desempenhou, como professor de música e maestro do Orfeão do Seminário, antes de 1950. Ainda no aspecto dos coros paroquiais recorde-se a acção do Cónego Dr. Francisco Garcia da Rosa, na paroquial da Conceição de Angra do Heroísmo, e também na acção complementar que desempenhou em apoio ao Seminário.

Importante é também não esquecer, nesta análise, a acção que teve no mundo da música insular o Padre José Luís Fraga, natural das Flores, pelo trabalho de recolha que fez da música popular, e que foi publicado da revista Atlântida. Os trabalhos, cópias manuscritas, lá publicados foram feitos pelo Padre Dr. Antonino Tavares e pelos, então alunos do Seminário, Manuel Emílio Porto e José António Piques Garcia a pedido da direcção do IAC.

Finalmente, o mais conhecido e conceituado de todos e em todo o país, o Padre Tomás Borba pela obra imensa que deixou e, sobretudo, pelo contributo que deu ao ensino da música em todo o país.

Com efeito, tudo nos falava de um passado brilhante no presbitério açoriano e, por isso, pelas conversas frequentes com alunos mais velhos e professores, compreendia-se o vazio provocado pela falta do Padre José Silveira d'Ávila, lídimo continuador desse passado, e último director do Orfeão do Seminário. Parecia uma casa triste, o Seminário, adormecido e entristecido pela saudade do grande músico e mestre que havia sido o Padre José Silveira d'Ávila.

O ambiente musical que se vivia no Seminário em 1950 era, pois, o reflexo de uma tradição forte nas ilhas açorianas. Consequências, talvez, dos apelos do Motu Próprio do Papa Pio X, e também da necessidade de ir ao encontro das pessoas que viviam em quase isolamento total. Os padres deveriam saber música para poderem ensinar e exercer condignamente as funções litúrgicas da Igreja Católica e, ao mesmo tempo, contribuir para o seu desenvolvimento cultural. E continuou a ser assim. Na verdade, encontrei muitos alunos, já adiantados no curso, que revelavam grande saber e competência nas actividades que desenvolviam na Capela do Seminário, nos Saraus Musicais e nas Academias. Entre eles estava o teólogo Edmundo Machado Oliveira, exercendo o cargo de mestre de Capela.

No meu primeiro ano lectivo - 1950-1951 - assisti na minha cadeira, ao fundo do salão, ao concerto do Orfeão do Seminário, na festa de São Tomás de Aquino. Aí ouvi, pela primeira vez, as primeiras palavras do hino do Seminário: Se há grandeza, no mundo, é aquela... O Seminário respirava música por todo o lado. Que me contagiou. A partir do primeiro ano esteve sempre presente. Nessa mística me integrei. Desde as primeiras noções do solfejo entoado, à teoria musical e História da Música, e às práticas musicais curriculares e ocasionais. E depois, pela vida fora, até hoje.

As aulas tinham sempre três componentes - a teoria, a leitura e a prática. Esta última mais focada para os desempenhos da Capela e do Orfeão. A composição musical, pouco abordada, foi sempre experimental, tarefa para alguns mais atrevidos. Os que assim optaram conseguiram razoáveis resultados, e impuseram-se mais tarde na vida. Foi o caso do Edmundo Machado Oliveira e do Armindo da Luz Borges, que fizeram o seu doutoramento musical em escolas especializadas, bem como o José Luís Rodrigues e muitos outros, enquanto alguns não passaram da formação básica da entoação musical, o que aliás constituía o foco principal dos estudos musicológicos, ou seja, uma razoável competência para as actividades litúrgicas dos futuros padres, não só para o canto no altar, como para os grupos corais paroquiais.

O meu professor de Música, para os primeiros cinco anos do curso do Seminário, foi o Padre Jaime Luís da Silveira. Possuidor de uma excelente formação musical, trazia para as aulas discos de música clássica, profana, religiosa e sacra. A sua apresentação era motivadora para o gosto musical. Sabia como incentivar e sabia como comunicar. A audição era sempre precedida de explicações fundamentadas. Recordo essas aulas como das mais importantes para o que hoje sinto e penso sobre o mundo da música. Não era um pianista, no verdadeiro sentido da palavra, mas dedilhava o piano com alguma facilidade. Tocava também para os alunos algumas canções populares. Toda a turma acabava por cantar ao som do acompanhamento do piano. A primeira canção foi Santa Luccia, melodia napolitana, mundialmente conhecida. Foi sempre recordada durante o curso, e mais tarde pela vida fora. Segundo Santos Narciso foi uma canção que marcou uma geração. Foi a canção escolhida pelo professor para o estudo experimental dos primeiros acordes. O exemplo ainda hoje é válido.

Nos anos seguintes, o professor de música e canto gregoriano foi o Dr Antonino Tavares que era também o maestro da Capela e do Orfeão. Foi sobretudo nestes dois cargos que mais se fez sentir a sua competência e gosto. Na Capela do Seminário marcava presença nas cerimónias mais importantes que envolviam o próprio Seminário, como as cerimónias do Natal, do Te Deum do fim de ano e da Semana Santa na Sé; também na comemoração dos fiéis defuntos e na festa de Nossa Senhora da Conceição. Eram marcantes as Matinas do Natal que exigiam a participação dos alunos mais novos, dos que ainda conservavam a voz de contralto. Importantes eram os cantos de toda a Semana Santa, quer em gregoriano quer em polifonia.

Na Capela interna do Seminário destacavam-se as novenas do Natal, o mês de S. José - o mês de Março; e o mês de Maria - o mês de Maio. Eram devoções diárias, à noite, antes do jantar, que exigiam um Cântico de entrada, o Veni Sancte Spiritus, a Ladainha, o Tantum Ergo e um Cântico Final. As partituras eram variadas, e de vários autores. Aliás, a Capela do Seminário possuía um excelente acervo de partituras para todo o ano litúrgico.

O Dr. Edmundo Machado Oliveira, logo ao regressar de Roma, passou a ser o responsável pela formação musical de todos os alunos do Seminário, desde o 3º ano até ao 12º ano. No Orfeão e na Capela do Seminário estabeleceu uma perfeita ligação com o seu antecessor, continuando e aperfeiçoando as partituras já estudadas e habitualmente executadas, e também introduzindo outras da sua escolha e afeição pessoal. A sua preocupação derradeira era o estudo criterioso dos textos próprios das celebrações litúrgicas ao longo do ano, sobretudo do Natal, da Páscoa, do Pentecostes, dos Fiéis Defuntos e das festas de Nossa Senhora, além de outras celebrações internas da vida do Seminário. Cultivava com esmero o desempenho da Capela e do Orfeão, tendo em vista os seus objectivos imediatos - servir a liturgia, agradar o público atento, formar futuros dirigentes de grupos corais. Ainda hoje recordo as palavras de estímulo, quando, chegando atrasado a uma festa cantada na Capela do Seminário, e, não querendo entrar no decorrer da execução, escutou fora da porta o canto do Glória da missa d'Uomo de Perosi. Entrou, aproximou-se, e em voz baixa, segredou-me: Perfeito, rapaz, estava perfeito!

Para ele, tanto no canto gregoriano, como no canto polifónico de autores seleccionados, era importante perceber o texto e a sua ligação com a música. O resultado teria de ser sempre uma ligação/fusão perfeita entre o humano e o sacro. A música sacra, numa expressão afectiva que costumava usar, era a música de ir ver a Deus. Deus é o objectivo do canto - dizia ele. – O homem é o instrumento. O canto tem de ser o mais perfeito possível. Deus é belo, a música tem de ser o mais bela possível.

Por isso, Edmundo Oliveira deixou marcas no tratamento musical que deu e prestou a quem de perto o conheceu. A frase lapidar que o caracterizava era: Vamos repetir, ainda não está bom para ir ver a Deus. E acrescentava: Nada de ruídos. Gracejando apontava: Xô moscas! Como se os nossos desafinos fossem zumbidos a manchar a beleza do canto. E o trabalho recomeçava, até ele sentir, e todos sentirem a máxima precisão e perfeição do texto musical.

Antes dos anos 50, já o Seminário havia adquirido projecção social importante através do seu Orfeão. Nesses anos conheceu um dos seus mais conceituados mestres - o Padre José d'Ávila, que durante largos anos foi seu director artístico. A partir de 1950 a responsabilidade passou para o Dr. Antonino Tavares, cargo que ocupou até 1959. Pertenciam ao Orfeão os que eram capazes de ter audição, de cantar afinado e, sobretudo, de cantar com capacidade de saber fundir a sua voz com a voz do companheiro do lado. A fusão de vozes era fundamental. Cada voz tem o seu timbre, e por isso, era importante a sua mistura tendo em vista uma uniformidade enriquecida. Os cantores participavam a partir do quarto ano. Comigo houve excepção. Comecei a integrar o grupo no meu terceiro ano, pois já a voz dava sinais de primeiro tenor.

Com a entrada do Dr. Edmundo Oliveira, algo mudou. Por razões pedagógicas - todos têm sempre alguma capacidade, por muito diminuta que seja - deixou de haver escolhas para participar no Orfeão e na Capela. Nenhum se poderia sentir excluído. Todos eram elementos. Ele sabia como tirar partido das compensações, ocultando-as sabiamente.

Os grandes momentos do Orfeão do Seminário eram as festas de São Tomás de Aquino - todos os anos promovidas pelos alunos do primeiro ano de Filosofia, o 6º ano - e que incluíam partituras, não só polifónicas, como também polifónicas com orquestra. Esta, geralmente, composta por músicos que faziam parte da Orquestra Filarmónica de Angra. Integrados nesta, recordo, pelo menos uma vez, de ver o Dr. Cunha de Oliveira no violoncelo e o Dr. Caetano Tomás na flauta transversal, sob a direcção do Dr. Antonino Tavares. Já depois de 1962, andava eu por outras terras, o Orfeão fez uma deslocação a São Miguel e outra à Praia da Vitória. Ambas as saídas de excelentes desempenhos, como hoje o atestam elementos desse tempo.

A Capela do Seminário era composta só por alunos teólogos. Era escolhido sempre um aluno para dirigente, de acordo com o professor de música e director do Orfeão. Coube-me essa tarefa no ano lectivo de 1960-1961. Apesar da insistência para continuar no ano seguinte, recusei, por ser o último ano do Seminário. Substituiu-me o Avelino Soares. Em anos anteriores recordo o Armindo da Luz Borges, e o José Gomes Pereira. Sempre testemunhei, durante todo o curso do Seminário, o maior empenho e cuidado na preparação da Capela para todas as solicitações a que foi chamada, tanto interna como externamente. Era uma instituição. Com direcção eleita. Os organistas que conheci foram o Padre Luís Medeiros Diogo, o Padre Jaime da Silveira e o Artur Goulart, que muita informação disponibilizou para este trabalho, fruto de notas pessoais que fez ao longo do seu tempo no Seminário.

Em 1961 - decorrendo a primeira Semana de Estudos em Ponta Delgada, de 3 a 8 de Abril, nas férias da Páscoa - foram os teólogos a São Miguel a fim de poderem participar, na referida semana. Embarcaram no Terra Alta, numa viagem nocturna de onze horas, de mar agitado, de grande sofrimento. Uma viagem de triste memória. A chegada foi pela manhã seguinte, indo todos de imediato para o descanso retemperador no Seminário Menor, antigo Convento dos Jesuítas, onde ficaram alojados durante os dias que permaneceram em Ponta Delgada. Como eram apenas os teólogos, e só eles constituíam a Capela do Seminário, todos se agruparam e deram um concerto de música coral no Teatro Micaelense sob a direcção do Dr. Edmundo Oliveira, com partituras do Orfeão. No segundo domingo de Páscoa, foi todo o grupo até às Furnas, participar na procissão dos enfermos. Na varanda do hotel Terra Nostra, à passagem do Senhor debaixo do Pálio, foi cantado o Tantum Ergo, de Enique Buondonno sob a minha direcção.

A formação do Seminário também passava pelas associações culturais - as Academias. Na prefeitura dos teólogos havia a Academia Bernardo Vasconcelos e na prefeitura dos médios a Academia Dr. Manuel Cardoso do Couto. Estas Academias promoviam serões culturais com trabalhos de superiores e alunos. Eram frequentes os "Jogos Florais" sobre música, teatro, poesia, conto e literatura. As Academias foram palco de apresentações cantadas a solo, em duo e em trio de vozes. Ficaram na memória as apresentações cantadas pelos alunos Manuel Raimundo Correia, Agostinho da Ponte Quental, Avelino Soares e Fernando Cabral Teixeira.

Os serões académicos podiam ter lugar ao longo de todo o ano lectivo. Todavia, eram tradicionais, os promovidos pelo Natal, pela festa de São Tomás de Aquino e pela festa de São José. Para sempre, até hoje, é lembrado o coro final "Desperta a Aurora" da opereta Ochio di Falco, levada à cena pelo Natal, antes de 1950, que não cheguei a presenciar. Mas outras houve, na década de 50/60, levadas sempre à cena pelos alunos teólogos. Foi também dessas ocasiões natalícias o trio constituído pelo António Cordeiro, José da Conceição Leite Raposo e Silvino Amaral com a canção basca “De colores se visten los campos”, com acompanhamento de Artur Goulart ao piano.

Foi preocupação do corpo docente do Seminário, durante as décadas de 50/60, dar a melhor e mais sólida formação possível aos alunos. O agrupamento criado tomou o nome de Clan 25 Bento de Gois, e as três equipas, os nomes de Coronel Afonso Chaves, Tenente-Coronel José Agostinho e Padre Ernesto Ferreira. Ficaram, na memória, os acampamentos organizados em algumas ilhas, sempre no período das férias de verão. Ainda recordo um deles nas imediações do porto da Prainha do Galião, em São Caetano do Pico, quando já, na década de 60, andava por ali em missão sacerdotal. Os "Fogos do Conselho" constituíam sempre autênticos serões de arte e cultura. Também aqui, a música foi rainha. Em coro e a solo. As capacidades foram brotando, aos poucos. A música, na sua prática, já sem a supervisão do professor, foi, assim, um complemento importante. Uma forma de colocar o aluno sobre a sua própria identidade, de consciência formada, responsável.

Este é o testemunho possível dos tempos já recuados dos anos 1950-1960, passados no Seminário de Angra. Muitos, como eu, sentiram e confirmaram, na vida, essa década brilhante de saber e de cultura.

Finalmente, estamos hoje, em 2012, mais conscientes do valor que foi o Seminário de Angra. Com efeito, no panorama musical açoriano são visíveis os efeitos daqueles tempos recuados. São prova do que dizemos, o aparecimento de vários grupos orfeónicos e de cantares: Grupo Coral de São José - em Ponta Delgada, fundado por José da Conceição Leite Raposo, que de forma excelente tem dado ao público momentos de grande beleza e arte; Orfeão Edmundo Machado Oliveira - em Ponta Delgada, fundado por um dos seus alunos, José Carlos Rodrigues; Coro Tibério Franco - na Terra Chã de Angra, fundado por Tibério Franco; Grupo Coral das Lajes do Pico - , fundado por Manuel Emílio Porto; Grupo Coral da Horta -, fundado por Manuel da Silva Azevedo; Grupo Coral de Santa Cruz - na Graciosa, continuado e alargado à música profana pelo Padre António Machado Alves; Grupo de Cantares Belaurora - nas Capelas, São Miguel, fundado por Carlos Sousa; Grupo Folclórico Graciosense - na Graciosa, fundado e impulsionado pelo Padre José Simões Borges, cuja acção na Graciosa foi de tal forma relevante no campo cultural, que o Governo Regional lhe prestou merecida homenagem classificando-o de "cidadão honorário dos Açores" e descerrando-lhe um busto na igreja paroquial de Guadalupe.

Em todas as ilhas foram sempre relevantes as acções de homens que se formaram no Seminário de Angra, alunos ou padres, em coros paroquiais, filarmónicas e outros agrupamentos. Todavia, ultrapassam sobremaneira, as acções levadas a efeito por muitos que tiveram o privilégio de estudar no Seminário, na década de 50-60 do século XX, um período, por muitos, classificado de “áureo” do Seminário. Pelo seu corpo docente e pelos valores que os que ali se formaram espalharam pelas ilhas e pelo mundo.

Com efeito, a sociedade açoriana, muito deve ao Seminário, que formou e ajudou a formar centenas de jovens de todas as ilhas. Uma grande parte da cultura musical açoriana que chegou até aos nossos dias teve a sua origem no Seminário de Angra.

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publicado por picodavigia2 às 15:30

CONSUMIÇÕES

Quinta-feira, 19.06.14

Naquela tarde de sexta-feira, andava ele de um lado para o outro da sacristia em penumbra. Sentia-se cansado. Apetecia-lhe, como nunca, uma hora de sono. Nem que para isso tivesse que se deitar nas escadas do altar-mor... Mas qual quê? Havia de haver sempre uma alma a precisar fosse do que fosse. E ele que não era capaz de se negar a um pedido, viesse de quem viesse, e a qualquer hora. Para mais, e agora que a festa da padroeira se aproximava, faltara-lhe o único seminarista, desistido, já quase no fim do curso, e embarcado por terras do continente. E eram confissões, batizados, missas, enterros, casamentos... Uma eternidade de serviços e biscatos do ofício em tudo o que era curato e paróquia onde faltava padre. A somar a tudo isso (ou diminuir, que ele já andava confuso na matemática do compromisso) eram também as aulas no ciclo, para garantia da reforma e fuga à rotineira Ali estava, desacrescentando, do frenesim em que constantemente vivia, uns minutos para reflectir sobre o que iria dizer nas missas de domingo. Para sua própria desconsolação, nunca se habituara a falar de coração. Sempre o maldito papel a segurar-lhe, pelo colarinho, os entusiasmos. Desde o  domingo em que proferira a primeira homilia, apoderou-  -se dele uma  preocupação medrosa que o tem obrigado a preparar por escrito tudo o que diz aos crentes. Do púlpito abaixo, claro. Que, cá fora, as palavras conversadas com o povo vestiam paramentos de outra tonalidade. Mas, enfim. Lá teria que ser, e o tem-que-ser tem muita força, como lhe dizia um velho amigo. Não fosse o diabo tecê-las, e o bispo acabar por chamá-lo à pedra, e, por via disso, ele, padre-pedro-pedra-pomes (Gostava de se chamar assim, por motivos e razões muito suas.), vir a despir a sotaina. Pelo que, era mister sentar-  -se, e escrever a prédica para o fim de semana que aí estava. Mãos entrelaçadas por detrás da nuca, deu mais duas voltas à sala. Encostou a porta que dava para a capela do Sagrado Coração. Fechou-se no escritório. Porém, o sossego tão apetecido foi sol de pouco dura. Com efeito, ainda mal se sentara à secretária, e já o sacristão batia à porta para o avisar de que ia mandar entrar os primeiros rapazes da comunhão solene que começavam a chegar para a preparação. Diabo, que era verdade! Tinha-se esquecido. Era isso. Andava com muita coisa na cabeça. E, numa toada de quase queixume, pediu ao Ti João que os fosse enxotando para dentro. E agora? O que é que iria dizer à garotada? Lembrou-se de que lhes tinha prometido responder, nesta última sessão preparatória, a uma das muitas perguntas que a miudagem lhe fazia e que, por regra, só tinham a ver com  a verdadeira e real humanidade de Jesus. Choviam questões sobre se Nosso Senhor tinha irmãos, primos, tios. E tinha padrinhos? Eram ricos? Qual era o emprego dele? São José era carpinteiro – isso tinha ficado assente. A mãe não podia ser outra que não a do Menino Jesus. E, o que é que ele comia? Com quem brincara em pequenino? Quem é que lhe tinha arranjado o nome. E que o sô padre Pedro lhes explicasse melhor aquela de Jesus, que era Deus todo-poderoso, nem sequer ter tido um buraquinho para morar com os apóstolos. Então ele não tinha casa? Um puto mais espertalhote até lhe atirara com a difícil questão de os melrinhos do céu terem os seus ninheiros, e Jesus, coitadinho, andar sem eira nem beira. O sô padre Pedro queria então dizer-lhes que Nosso Senhor andava ao deus-dará nas ruas da Terra Santa? Tinha que lhes responder a tudo isso para que não minguasse a pouca fé que já por alí abundava. Com um sorriso condescendente para consigo e a maltinha nova, afastou para o lado toda papelada, ali ao monte, a pedir despacho. Empurrou a cadeira. Curvou-se um pouco mais, até que a cabeça poisou sobre a secretária. Ia-lhes falar sobre a casa, sobre as avezinhas do céu com seus ninhos. E, no silêncio dos santos e das trindades, cansado, cerrou os olhos...

 

J.F.Costa

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publicado por picodavigia2 às 19:24

HÁ SEMPRE UM LEITOR DESCONHECIDO

Quarta-feira, 18.06.14

Dê-se um texto a ler ou a ouvir a um grupo e, em regra, pelo menos uma pessoa terá qualquer observação inteligente a fazer, por mínima que seja. Basta ver as “cartas ao director” na grande imprensa. Mas não só. Ao meu redor colecciono exemplos. Este é um pequeno pacote com alguns.

Há dias, nas Correntes d’Escritas na Póvoa, encontrei um antigo colega. Perguntou-me o que achava de duas passagens no Mau Tempo no Canal. Numa, o narrador diz que, do Campo Raso, na ilha do Pico, Margarida contemplava a Horta. Garantiu-me que daquele local isso é impossível. Foi pároco nas redondezas e conhece bem a área. E contra essa evidência, que poderia eu contra-argumentar em defesa de Nemésio? A outra: Declara-se que Margarida foi à missa em Sexta-Feira Santa. Impossível! - acrescenta ele, que sabe da poda porque foi padre - esse dia é o único do calendário litúrgico em que não há missa.

Ora toma, meu querido Nemésio. Nenhum dos teus revisores entendia nem da geografia picoense nem de liturgia.

Falei em “pacote” porque estas foram apenas para servir de prefácio à que se segue. Numa das sessões das 10.as Correntes d’Escritas, Gonçalo M. Tavares leu uma das suas inconfundíveis mini-estórias tão sua marca. Eu resumo grosseiramente: um homem vai pedir emprego e cortam-lhe uma mão. Volta mais tarde em nova tentativa, cortam-lhe a outra mão. Não sendo da estirpe de desistir, regressa e volta a pedir emprego. Cortam-lhe a cabeça.

Assisti à sessão no fundo do auditório a abarrotar de gente, dezenas de pessoas sentadas nos corredores. Veio o tempo de perguntas e pedi o microfone. Tinha uma: Aquele final abrupto de estória à Anton Chekhov deixava-me uma enorme curiosidade. Para onde terá então ido trabalhar esse tal indivíduo sem mãos nem cabeça? Terá sido para o Governo?

Depois da chalaça, o diálogo com a mesa prosseguiu sério. Do meio da sala, levanta-se um ouvinte e caminha para a porta de saída. Passa por mim e cochicha-me: Aquele homem não podia nunca ir trabalhar para o governo. Sem mãos, como poderia ele meter dinheiro ao bolso?

Não resisti. Voltei a pedir o microfone e tornei público o comentário daquele anónimo que pelo menos eu desconhecia por completo.

Dia seguinte. No átrio junto ao auditório, os fumadores vingam-se da privação da chucha nos interiores e o recinto torna-se uma ágora grega de trocas de conversas em camaradagem absolutamente horizontal. De repente, uma cara desconhecida, olhar inteligente e expressão escondida por detrás de espessa barba faz-me sinal de aproximação. Quer dizer-me alguma coisa, mas evita ser intrometido. Avanço eu porque lhe reconheço o rosto. Exactamente o mesmo que na véspera passara por mim e mandara aquela boca. Meio entre dentes, explica: Considerei melhor. Aquele personagem sem mãos e sem cabeça, lembra-se?  Eu: Sim, claro. Foi você que mandou aquela forte. Claro que me recordo. Então o meu anónimo continuou: Reconsiderei. O melhor emprego para ele não é no Governo, mas no Banco de Portugal. É que, sem cabeça, obviamente não tem olhos e não precisa deles porque nunca vê nada. Sem mãos, também não tem problema. Os amigos tratam de lhe pôr dinheiro ao bolso.

E desapareceu.

Não resisti a, antes da minha palração pública, divulgar essa emenda do meu comentador anónimo. Tive de fazê-lo, porque corria o boato de que eu inventara a estória. Insisti que não, pois procuro ser fidedigno nos relatos. Se digo que aconteceu, aconteceu mesmo. Como a mãe do garoto da minha terra que foi posto fora da escola. Entra em casa a chorar sem conseguir explicar à mãe a razão. Ela decidiu tomar conta do caso e foi à professora. O meu filho foi mandado para casa porquê? Ouviu então: Porque ele disse que viu a coisinha da Joana. Venta levantada, a mãe reagiu: Saiba a senhora que o meu filho pode ser o que for, mas se ele disse que viu é porque viu mesmo!

Horas mais tarde, outro anónimo veio confidenciar-me a identificação da minha personagem. Director do Varazim (assim, à antiga) Teatro. Deu-me o nome mas, se o meu anónimo falou sempre em voz baixa, se calhar é porque prefere mesmo manter um semi-anonimato.

 

Onésimo Teotónio Almeida

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publicado por picodavigia2 às 23:28

ERGUE-TE CORAÇÃO

Quinta-feira, 29.05.14

(POEMA DE COELHO DE SOUSA)

 

“Ergue-te coração

para que as mãos

não fiquem no chão

e os olhos

sejam estrelas

que não haja escolhos

nos caminhos delas.

 

Contigo,

ninguém deixará de ser pastor

ou anjo amigo

no colo da manhã

do grande dia-amor.”

 

Coelho de Sousa

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publicado por picodavigia2 às 00:30

POEMA DO FECHO ECLAIR

Quarta-feira, 28.05.14

(DE ANTÓNIO GEDEÃO)

Filipe II tinha um colar de oiro

tinha um colar de oiro com pedras, rubis.

Cingia a cintura com cinto de coiro,

com fivela de oiro, olho de perdiz.

Comia num prato

de prata lavrada

girafa trufada,

rissóis de serpente.

O copo era um gomo

que em flor desabrocha,

de cristal de rocha

do mais transparente.

Andava nas salas

forradas de Arrás,

com panos por cima,

pela frente e por trás.

Tapetes flamengos,

combates de galos,

alões e podengos,

falcões e cavalos.

Dormia na cama

de prata maciça

com dossel de franja roliça.

Na mesa do canto

vermelho damasco

a tíbia de um santo

guardada num frasco.

Foi dono da terra,

foi senhor do mundo,

nada lhe faltava,

Filipe Segundo.

Tinha oiro e prata,

pedras nunca vistas,

safira, topázios,

rubis, ametistas.

Tinha tudo, tudo, tudo

sem peso nem conta,

bragas de veludo,

peliças de lontra.

Um homem tão grande

tem tudo o que quer.

O que ele não tinha

era um fecho éclair.

 

António Gedeão

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publicado por picodavigia2 às 11:54

OS MÚSICOS DE REMEN

Terça-feira, 13.05.14

Era uma vez um burro que tinha trabalhado durante muitos anos para o seu dono, acartando sacos de milho. Com o tempo, foi perdendo as forças e acabou por não conseguir trabalhar como antigamente. Então, o dono resolveu cortar-lhe a ração. Vendo que dessa decisão não viria nada de bom para si, o Burro fugiu e pôs-se a caminho da cidade de Bremen.

- Em Bremen posso tornar-me músico – pensava ele enquanto caminhava.

Ainda mal tinha começado a jornada quando encontrou, à beira da estrada, um cão de caça que respirava sem fôlego como se tivesse acabado de correr muito.

- Por que respiras assim com tanta dificuldade? – Perguntou o Burro.

- Ah, sabes lá! Como estou velho e cada dia que passa me sinto mais fraco, já não posso caçar. O meu dono queria matar-me, mas eu fugi a sete pés. Mas, agora, o que vai ser de mim? – Queixou-se o Cão.

- Por que não vens comigo para Bremen? – Perguntou o Burro. - Vou tornar-me músico da cidade e tocar alaúde. Tu podias tocar tambor…

O Cão concordou e meteram-se ambos ao caminho.

Andaram algum tempo até que encontraram um Gato que estava muito, muito triste.

- O que te aconteceu, meu caça-ratos? – Perguntou o Burro.

- Quem é que se pode sentir feliz quando tem a vida em risco? – Queixou-se o Gato –

Como estou velho e prefiro enroscar-me à lareira em vez de caçar ratos como antigamente, a minha dona quis afogar-me e eu fugi. Mas, agora, o que será de mim?

- Vem connosco para Bremen – convidou o Burro. – Podes ser um músico como nós e tocar nos concertos nocturnos.

O Gato concordou e foi com eles.

Pelo caminho passaram por uma quinta e viram um Galo empoleirado na cancela.

Cantava a plenos pulmões.

- Por que te esganiças tanto? – Quis saber o Burro.

- Amanhã é Domingo - explicou o Galo - e a minha dona tem convidados. Mandou a cozinheira cortar-me o pescoço logo à noite e meter-me na panela. Por isso, canto enquanto posso.

- É melhor vires connosco, Galo vaidoso - convidou o Burro - tens uma bela voz e juntos faremos um belo quarteto.

O Galo concordou e partiu com os outros.

Como não podiam chegar a Bremen nesse dia, resolveram passar a noite numa floresta.

O Burro e o Cão deitaram-se debaixo de uma árvore e o Gato e o Galo aninharam-se nos seus ramos. O Galo escolheu um dos ramos do topo da árvore porque aí se sentia mais seguro. Antes de adormecer, olhou em volta e viu ao longe uma luz a brilhar na escuridão. Chamou os colegas e disse-lhes que, naquela direcção, havia com certeza uma casa.

- Vamos até lá – propôs o Burro. – Aqui não estamos lá muito bem instalados.

Todos concordaram e puseram-se a caminho. Acabaram por chegar a uma velha casa de onde saía uma luz muito viva.

Como o Burro era o mais alto, foi ele quem espreitou primeiro.

- O que vês? – Perguntou o Cão.

- Vejo uma mesa repleta de iguarias e quatro salteadores que se estão a banquetear à farta – respondeu o Burro.

- Essa comida é que vinha mesmo a calhar – disse o Galo.

- Ah, se ao menos pudéssemos lá entrar… - acrescentou o Burro, cheio de fome.

Conversaram durante algum tempo e, por fim, os quatro amigos tiveram uma ideia para expulsar os salteadores.

O Burro apoiou as patas dianteiras no parapeito da janela, o Cão saltou para cima dele, o Gato saltou para cima do Cão e o Galo voou para cima do Gato. Depois, começaram a fazer barulho, cada um à sua maneira: o Burro zurrou, o Cão ladrou, o Gato miou e o Galo cantou. Enquanto faziam este concerto, saltaram através da janela, partindo os vidros em mil bocados. Os salteadores pensaram que se tratava de um fantasma horrível

e fugiram a sete pés, rumo à floresta.

Muito satisfeitos, os quatro amigos sentaram-se à mesa e comeram tranquilamente até se fartarem. Depois, apagaram as velas e prepararam-se para dormir. O Burro deitou-se num fardo de palha que havia no pátio, o cão deitou-se atrás da porta das traseiras, o Gato enroscou-se junto das brasas da lareira e o Galo empoleirou-se numa das traves do tecto da casa. Como estavam muito cansados adormeceram num instante.

Por volta da meia-noite os salteadores voltaram. Estava tudo às escuras e não se ouvia barulho nenhum.

- Não nos devíamos ter assustado tanto – disse o chefe.

E mandou um dos seus homens à frente para examinar a casa.

O bandido entrou e dirigiu-se à lareira para acender uma vela. Os olhos do Gato luziam no escuro e o bandido pensou que eram duas brasas. Aproximou um fósforo do focinho do Gato para o acender. O Gato não gostou da brincadeira e saltou-lhe para a cara, arranhando-a muito, enquanto miava e soprava. O bandido ficou aterrorizado! Quis fugir pela porta das traseiras, mas o Cão atirou-se a ele e ferrou-lhe uma valente dentada na perna. Cada vez mais aterrorizado, o homem lançou-se a correr pelo pátio, passando perto do Burro que lhe deu dois valentes coices. Nisto, o Galo acordou em sobressalto e pôs-se a cantar:

- Có-có-ró-có-có! Có-có-ró-có-có!

O bandido fugiu o mais depressa que pode. Quando chegou perto dos outros, gritou apavorado:

- Estamos perdidos! Está uma bruxa horrorosa sentada à lareira. Cuspiu-me e arranhou-me a cara com as suas unhas enormes. Junto à porta está um homem que me esfaqueou a perna. No pátio está um monstro que me bateu com um cacete. Em cima do telhado está o chefe deles todos que gritou: "Corre senão comes! Corre senão comes!" Foi o que fiz, para não apanhar mais.

Os salteadores nunca mais se atreveram a voltar àquela casa.

Quanto aos quatro músicos de Bremen, sentiram-se tão bem por lá que resolveram nunca mais sair… e, quanto a mim, ainda lá devem estar!"

 

(Irmãos Grimm)

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publicado por picodavigia2 às 15:04

HISTÓRIA DO SENHOR MAR

Segunda-feira, 12.05.14

(POEMA DE MATILDE ROSA ARAÚJO)

Deixa contar...

Era uma vez

O senhor Mar

Com uma onda...

Com muita onda...

 

E depois?

E depois...

Ondinha vai...

Ondinha vem...

Ondinha vai...

Ondinha vem...

E depois...

 

 A menina adormeceu

Nos braços da sua Mãe...

 

                           Matilde Rosa Araújo

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publicado por picodavigia2 às 21:46

NÃO É PRECISO

Sexta-feira, 09.05.14

(POEMA DE JOSÉ FRANCISCO COSTA)

 

“Não é preciso dizer-te

Que a vida é mais do que um telhado.

Deixa que o tempo concerte

O que está desconcertado.

 

Vão-se as casas; e o passar

Da vida é tão de repente…

O gosto do céu e do mar

É o que resta da gente.

 

Compra telhas de alegria,

- Que a vida é coisa bem séria.-

E vai sorrindo, Maria,

Aos buracos da miséria.

 

José Francisco Costa

 

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publicado por picodavigia2 às 20:00

COMER SEM CORRER

Segunda-feira, 05.05.14

(UM CONTO DE ANTÓNIO TORRADO)

 

O leão estava cansado. Não que se sentisse velho, mas isto de correr o mato atrás de uma gazela, que capricha em não se deixar apanhar, puxa muito pelo corpo e acrescenta mais fome à que já se trazia. Sobretudo se a gazela ficar a perder de vista…

“Correr para comer não compensa – considerava o leão. – Tenho de mudar de táctica.”

Fez constar por alguns bichos da sua companhia que estava doente, mesmo muito doente. Escondeu-se na gruta, onde tinha os seus aposentos e esperou.

O chacal e o lobo, marqueses do séquito do leão, encarregaram-se de espalhar a notícia:

– O nosso rei leão está à morte. Prestem-lhe a homenagem que ele merece.

Queriam eles dizer com isto de homenagem que seria conveniente e muito gentil que cada animal por si fosse visitar o leão, em sinal de respeito e num último aceno de despedida.

Última despedida era, mas não para o leão…

Formou-se uma longa fila de bichos à entrada da caverna onde morava o leão. Todos muito compostos e de semblante carregado. Mais estariam se soubessem o que os esperava…

Um a um iam entrando, introduzidos na gruta pelo chacal e pelo lobo, ambos muito prazenteiros e risonhos, que até parecia mal, em cerimónia tão solene.

Mas havia quem faltasse à chamada. A lebre, por exemplo.

Foram dizer à matreira da lebre que o leão, no delírio da febre, mencionara o seu nome, cheio de saudades.

– Coitadinho! – foi só o que ela disse.

Juntar-se ao cortejo de homenagem é que não se juntava.

O chacal veio ter com ela, em atitude de censura:

– Que desprendimento o teu, lebre. O pobre leão à morte e tu nem uma visita lhe fazes. És muito insensível. Um coração de pedra.

Não sou nada – disse a lebre, afastando-se, prudentemente, do bafo do chacal. – O que eu não gosto é de apertos, de ajuntamentos. 30 35

– Como assim? – estranhou o chacal. – Só entra um bicho de cada vez…

– Bem sei, que eu tenho visto – replicou a lebre. – Entra um de cada vez e ainda não saiu nenhum. Sendo assim, dentro da gruta, devem estar em tal aperto, que mal conseguem respirar. Imagino a confusão, as lamúrias, os choros… E mais não quero imaginar, senão ainda me comovo. Adeusinho, senhor chacal, e as melhoras do doente.

A lebre saltou e a história acabou.

 

António Torrado, Fábulas Fabulosas

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publicado por picodavigia2 às 22:55

MÃE

Domingo, 04.05.14

Mãe!

Que verdade linda

O nascer encerra.

Eu nasci de ti, 

 Como a flor da Terra.

 

Matilde Rosa Araújo em O livro de Tila: 

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publicado por picodavigia2 às 11:01

ANIVERSÁRIO

Segunda-feira, 21.04.14

(UM POEMA DE FERNANDO PESSOA)

 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu era feliz e ninguém estava morto.

Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,

E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,

Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,

De ser inteligente para entre a família,

E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.

Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.

Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida.

 

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,

O que fui de coração e parentesco.

O que fui de serões de meia-província,

O que fui de amarem-me e eu ser menino,

O que fui - ai, meu Deus! O que só hoje sei que fui...

A que distância!...

(Nem o acho...)

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

 

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,

Pondo grelado nas paredes...

O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas

lágrimas),

O que eu sou hoje é terem vendido a casa,

É terem morrido todos,

É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...

 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!

Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,

Por uma viagem metafísica e carnal,

Com uma dualidade de eu para mim...

Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

 

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...

A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,

O aparador com muitas coisas - doces, frutas o resto na sombra debaixo do alçado —,

As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

 

Pára, meu coração!

Não penses! Deixa o pensar na cabeça!

Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!

Hoje já não faço anos.

Duro.

Somam-se-me dias.

Serei velho quando o for.

Mais nada.

Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!...

 

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

 

Fernando Pessoa

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publicado por picodavigia2 às 09:06

OS RICOS E OS POBRES

Domingo, 13.04.14

(TEXTO RETIRADO DO ANTOGO LIVRO DA 4ª CLASSE – DÉCADA DE 50)

Ia seguindo descalço, de cabaz na mão, um menino por um caminho além.

Encontrou uma menina, bem vestida, mais ao menos da sua idade, que lhe perguntou:

- Aonde vais tu?

- Vou levar o jantar ao meu pai que trabalha num moinho.

- Oh!... Então o teu pai é pobre, trabalha? – Observou a menina, desdenhosamente.

- Trabalha sim! E o teu? – Volveu-lhe o menino com destreza.

- O meu é rico, não precisa de trabalhar. Que triste sorte seria a dos pobres se todos os ricos morressem! – Disse a menina com ares de desprezo.

- Oh!... E julgas tu que seria mais alegre a dos ricos se todos os pobres morressem. – Replicou o menino, muito cheio de si mesmo. E continuou:

- Os ricos podem comer bons jantares, mas não os abem cozinhar; podem viver em belas casas, mas não as sabem construir. Eu não sei quem precisa mais: se são os pobres dos ricos se os ricos dos pobres… Precisamos uns dos outros. E olha: é mais lindo ver um pobre vergado sobre o cabo de uma enxada a ganhar o pão que come do que ver um rico de costas direitas, a comer o que os outros produzem.

Não é o trabalho que avilta, o que avilta é a ociosidade.

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publicado por picodavigia2 às 22:52

QUADRILHA

Sábado, 12.04.14

(POEMA DE CARLOS DRUMOND DE ANDRADE)

 

João amava Teresa que amava Raimundo

que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili

que não amava ninguém.

João foi para o Estados Unidos, Teresa para o

convento,

Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,

Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto

Fernandes

que não tinha entrado na história.

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publicado por picodavigia2 às 22:42

A MORTE

Quinta-feira, 10.04.14

(POEMA DE VINICIUS DE MORAIS)

A morte vem de longe

Do fundo dos céus

Vem para os meus olhos

Virá para os teus

Desce das estrelas

Das brancas estrelas

As loucas estrelas

Trânsfugas de Deus

Chega impressentida

Nunca inesperada

Ela que é na vida

A grande esperada!

A desesperada

Do amor fratricida

Dos homens, ai! dos homens

Que matam a morte

Por medo da vida.

 

Vinicius de Morais

 

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publicado por picodavigia2 às 17:58

FAJÃ GRANDE

Sábado, 05.04.14

(TEXTO DE LUÍS ALVES DE FRAGA)

Certamente o leitor nunca se interrogou sobre qual é a povoação mais ocidental da Europa. Mas se, por um acaso, já alguma vez se lhe colocou esta dúvida, quase pela certa terá pensado no continente europeu e jamais no arquipélago dos Açores. Pois é. Na distante ilha das Flores, virada para o continente americano situa-se a freguesia da Fajã Grande, localidade mais a ocidente na Europa.

Também poucos são os portugueses que se dão ao trabalho de consultar o dicionário para procurar saber o que é uma fajã. Se folheassem esse pesado livro onde se compilam os significados do vasto léxico por nós usado dariam com a seguinte explicação: «fajã: terreno plano, cultivável, de pequena extensão, situado à beira mar, formado de materiais desprendidos da encosta». Por mera curiosidade, posso acrescentar que é um termo próprio dos Açores e de origem desconhecida.

Então, a localidade da Fajã Grande, por definição, fica à beira mar e tem atrás de si uma encosta que, no caso vertente, é uma alta arriba escarpada de onde correm duas ribeiras – a das Casa e a do Cão – que se despenham à vertical para correrem rumo ao oceano. É um aglomerado de casas dispersas, formando pouco mais do que meia dúzia de arruamentos.

Para lá chegar ou se vai de barco ou de automóvel, deixando-se para trás, sem nela se ter entrado, uma outra pequena urbe de nome Fajãzinha. No Verão, de preferência em Julho, se não chover e o céu não estiver carregado de nuvens, a paisagem que se desfruta do alto da rocha sobranceira à Fajãzinha é idílica, pela beleza do colorido da vegetação – onde abunda o verde, o azul e o rosa das hortênsias – e pela grandiosidade do confronto entre o mar imenso, o silêncio só cortado pelo voo e grito das aves e o marulhar distante da cascata de água cristalina que forma a Ribeira Grande.

Quem vem de automóvel para a Fajã Grande entra pela Assomada para vir desembocar na Rua Direita, no enfiamento da anterior; passa-se pelo largo e tem-se, a meio caminho, a igreja e, por detrás, o cemitério. Mais adiante a Casa do Espírito Santo (de fora) e as bifurcações para a Tronqueira e a Via d’Água.

Só já na Rua Direita os edifícios – de baixa estatura, não vão além de um primeiro andar – estão ligados uns aos outros, porque, antes, separam-se por pequenos quintais onde ainda se cultiva algum alimento para consumo da casa.

Foi lá ao fundo, na Tronqueira, quase já próximo do caminho que conduz ao começo da larga baía onde desagua a Ribeira das Casas, bem de frente para a imensa queda de água que se despenha da alta rocha de 90 metros, numa casa desnivelada em relação à rua, que o meu pai nasceu no dia 4 de Dezembro de 1907.

Não seria a Fajã Grande muito diferente, há cem anos, do que é agora, salvo os benefícios que a tecnologia introduziu naquela distante ilha. As diversões poucas ou nenhumas, convidavam a uma vida que se distribuía entre o trabalho – não muito apressado pois os ritmos da Natureza são lentos – e uma religiosidade que se praticava na igreja matriz, construída, em 1868, sob a invocação de S. José, no lugar onde já existia uma pequena capela, erigida em 1755, também dedicada ao putativo pai de Jesus.

As constantes chuvadas e a humidade relativa sempre deram àquelas terras um extraordinário poder fértil. Cresce o pasto em abundância, o que convidou a que os mais afortunados tivessem uma ou duas, às vezes, três vacas de ordenha que também serviam nos trabalhos do campo. Nas leiras próximas das casas, ou mais distantes, cresceu e cresce o milho e menos o trigo.

Frequentar o ensino primário era uma obrigação que todos cumpriam na falta de outros trabalhos. Mas não era rentável ter um mestre-escola capaz de ir muito além das primeiras letras e das contas. Esse era o motivo por que, para ser aprovado no exame da chamada 4.ª classe, havia que o candidato se deslocar à vila de St.ª Cruz onde residia o professor com competência para aquilatar do saber e passar o respectivo diploma. Coisas que já só a imaginação concebe, nos tempos que correm!

 

Engastada entre verdura

Daquele bosque de além,

Qual diamante fulgura

A terra da minha mãe…

 

Terra de graça e ventura!

És minha terra também.

Viste-me, tu, com brandura,

Vir ao Mundo, ser alguém.

 

Volveram-se anos, parti…

Mesmo longe de ti

Onde o Destino me mande

 

Nunca mais te hei-de esquecer

Mas sempre bem-dizer

Minha aldeia Fajã Grande.

 

Foi assim, em poesia simples, quase ingénua, que o meu pai, rondaria os vinte anos de idade, escreveu na revista Os Prelúdios, que se publicava em Angra do Heroísmo as saudades que o roíam da freguesia. Estava, então, prestes a deixar para trás o seminário e a despreocupada vida de estudante de que sempre gostara. Vocação sacerdotal não a tinha, como o atestam os versos que pela mesma época escreveu, mas não publicou.

 

Duas fadas que passavam

Em noite de lua cheia,

Sozinhas ao pé da aldeia,

Deste modo conversavam:

 

- Vamos colher muitas rosas

Na rainha das roseiras,

De todas as mais Formosas

Como colhem as romeiras?

 

E desfolharam as rosas

Que colheram de mão cheia

- Rosas frescas, tão viçosas!

 

E em noite de lua cheia

As folhas – todas mimosas –

Foram as moças da minha aldeia…

 

Os sonhos da juventude, a distância da terra natal, as saudades da família – especialmente da mãe que adorava – a ambiência intelectual da velha cidade capital do arquipélago, ter-lhe-ão despertado o gosto de fazer poesia. Todavia, como mais tarde provou, viria a ser no jornalismo a sua primeira área de afirmação.

Foi vendo o seu exemplo e ouvindo, com atenção, as suas longas palestras – que os amigos escutavam com prazer – que em mim nasceu o desejo de lhe imitar o talento. Mestre na arte de me ensinar a viver, o meu pai foi, também, um severo crítico da minha prosa. Com ele aprendi muito.

 

Luís Alves de Fraga  in Blog Desbogleando http://luismfraga.blogspot.pt/

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publicado por picodavigia2 às 18:23

UM INCIDENTE

Domingo, 23.03.14

(UM CONTO DE NUNES DA ROSA)

 

Em casa do Senhor imperador há uma lida, uma barafunda, que eu sei lá!…

Roupas brancas ao sol, secas de goma, os estandartes de seda pelas janelas fora, enrolados, grandes cestos de verdura e flores sobre o balcão, molhos de canas de foguetes por aqui ou por acolá, mesas lavadas ao sol, um montão de cadeiras, em desordem, de pés ao ar umas, de lado outras… Vê-se que há ali trabalho… E que balbúrdia, que confusão!… Todos andam esbaforidos e apressados…

Rapazes que acarretam coisas de fora - loiças, bancos, alguidares; grupos de raparigas com cestos de copos e garrafas; homens sisudos e atarefados que armam os arcos - à porta de entrada, ao portão e a atravessar o caminho…

 - Também não fica mau!…

 E a cozinha do imperador fumega todo o santo dia, em roças de fumo que é uma coisa!… A cada fornada de pão que se coze atira-se uma resposta, quando se toma a presa às massas queima-se um foguete.

E aqui a senhora imperatriz tem que atender a tudo, dar expediente a tudo…

O magarefe ainda de braços ensanguentados, a comprida faca na mão e o suor em camarinhas pelo peito - a camisa aberta, dá a derradeira demão à carne: aquela para cozer, aquela para assar, aquela para os senhores padres, aquela para os cantores, esta para…

- Não se poipa… Há para tudo com a graça do Senhor Espírito Santo!…

E a cozinheira e as ajudantes de braços arregaçados, as saias presas à cintura, os lenços atados para trás, vão e vêm e voltam, e andam numa confusão…

- Vamos daqui, vamos daqui…

- Meninos, brincar lá para fora…

E pela porta da cozinha sai um enxame de crianças, enfarinhadas, trazendo pedaços de pão, retoiçando alegres…

O senhor imperador, esse, então, nem falar nisso…

- É preciso um homem ter cabeça para estas coisas…

- O Senhor Espírito Santo ajuda…

E dá-se um gole de aguardente a este que está suado, um copo de vinho àquele - para ir depressa, uma fatia de pão àquele outro para levar aos pequenos…

- Há para todos com a graça do Senhor Espírito Santo!…

Mas à tarde fez-se uma relativa quietação pacificadora…

- Não tarda aí essa gente…

Essa gente eram os vizinhos, os conhecidos, as pessoas devotas, que todas iam rezar o Terço ao Divino Espírito Santo.

Deu-se então à casa a ordem possível, que a sala de fora essa está sempre arranjada…

O altar da Coroa é uma coisa linda, de rendas e flores e lumes, a sala é um céu, de cortinados e de lençóis de linho, afestoada de lenços de seda e engalanada de cordões e anéis de oiro…

E como quer que nestes dias só se trate de coisas indispensáveis à vida - a lenha para as fornadas de vésperas, moenda para o pão da festa e comida para o gado, a senhora imperatriz deixou de andar em dia com a bisbilhotice das vizinhas; mas ao marido sempre vão dizer as coisas. Ela não sabe como é. Acha-o triste. Quem serve sempre tem desgosto!

 - Coitado! Tenho dó dele! - comentava a que atiçava o lume do forno, afectando uma grande inquietação.

E depois dum suspiro, mal reprimido:

 -Ah! línguas, línguas, quem as apanhasse picadas entre esta lenha!…

A senhora imperatriz estacou no meio da cozinha, com as mãos nas ilhargas e o rosto em camarinhas:

 - Mas que é que foi agora?!

 - Que é que foi?! A comadre está farta de o saber!

 - Assim Deus me salve, como não sei nada! Que foi?!…

- Antes tratasses do forno! - Enviesou uma lá dum canto, muito aborrecida, a temperar um molho.

Mas a senhora imperatriz insistia: não era bem que em sua casa, e em dias daqueles, se dissessem coisas que ela não pudesse saber…

E a do forno, com grandes gestos, assomadiça:

- Antes eu estivesse calada!… Vá a comadre tratar do seu governo!…

A dona da casa exaltou-se: que não tivesse o atrevimento de lhe dar ordens e que já que falava por meia língua havia de dizer o resto!

 - Eu cá não digo nada!

 - Há-de dizer!

- Dize, criatura! intervieram as outras, fazendo sinais para aquilo não ir por diante.

Um grupo de mulheres que chegava açodado com coisas precisas, inteirado do incidente, achou que a senhora imperatriz tinha carradas de razão… A outra se sabia alguma coisa a respeito do dono da casa devia declará-lo, até para não se fazerem juízos temerários, porque às vezes uma pessoa andava vendida inocente…

E a sujeita:

  - A respeito de meu compadre, daquelas barbas honradas, o quê, filhas?!… Foi cá uns zuns-zuns que me passaram pelos ouvidos, mas a respeito doutra pessoa…

E muito sacudida:

 - Ora aí está! Fiquem vocemecês agora descansadas!

 - De outra pessoa?!…

Foi uma explosão!

É bem feito, que havíamos de estar em nossas casas!

- Eu cá se não fosse com medo de algum castigo do Senhor Espírito Santo…

- Ó mulheres! Isso não é com vocês! - Gritava a do forno.

 Uma vinha com uma colher para a senhora imperatriz provar um tempero, mas esta repeliu-a, protestando colérica que a deixassem, que já estava quase doida, que lhe mudassem o nome que tinha se aquilo se não pusesse a claro…

A outra continuava a bravejar, algumas berravam que daquela maneira ficava o governo por fazer, outras protestavam alto contra os mexericos que roubavam o sossego das pessoas, e o alarido estendendo-se pela casa fora, chegou ao balcão, ao pátio e à rua.

Toda a gente correu por ali dentro, ansiosa de saber de que se tratava. O senhor imperador veio também, pálido e enfiado, ainda com um foguete e um tição, de olho assarapantado, receando que o tecto da cozinha tivesse vindo abaixo.

A coisa estava custosa de aclarar.

 Todas falavam ao mesmo tempo, alto e com grandes gestos, e o senhor imperador não sabia a qual atender.

O magarefe, nos bicos dos pés, sobre a soleta da porta da cozinha, perguntava se algum caldeirão tinha estoirado, e uma mulher, que emprestara pratos, entrava a inquirir, possessa, se se tinha quebrado a loiça.

Ninguém se entendia!

O senhor imperador, nervoso, encaminhou-se para o balcão, atirou o foguete, para que se soubesse que não tinha acontecido nenhuma desgraça, e voltou a ver se conseguia deslindar a questão.

A explosão da cólera entre o mulherio que redemoinhava na cozinha estava no seu auge.

A mulher do forno deliberara, finalmente, falar.

As suas palavras eram repetidas naquele pandemónio, espumante de indignação:

- O João Rodrigues tinha dito que o vinho do senhor imperador ainda era mais somenos que vinagre!

O senhor imperador abalou, a atirar mais foguetes:

 - Ora! Ora!

 

Nunes da Rosa, in Gente das Ilhas,

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publicado por picodavigia2 às 15:06

MAR PORTUGUÊS

Sexta-feira, 21.03.14

(POEMA DE FERNANDO PESSOA)

 

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

 

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu.

 

                    Fernando Pessoa, in Mensagem

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publicado por picodavigia2 às 18:51

O PAI

Quarta-feira, 19.03.14

(POEMA DE PABLO NERUDA)

 

Terra de semente inculta e bravia,

terra onde não há esteiros ou caminhos,

sob o sol minha vida se alonga e estremece.

 

Pai, nada podem teus olhos doces,

como nada puderam as estrelas

que me abrasam os olhos e as faces.

 

Escureceu-me a vista o mal de amor

e na doce fonte do meu sonho

outra fonte tremida se reflecte.

 

Depois... Pergunta a Deus porque me deram

o que me deram e porque depois

conheci a solidão do céu e da terra.

 

Olha, minha juventude foi um puro

botão que ficou por rebentar e perde

a sua doçura de seiva e de sangue.

 

O sol que cai e cai eternamente

cansou-se de a beijar... E o outono.

Pai, nada podem teus olhos doces.

 

Escutarei de noite as tuas palavras:

... menino, meu menino...

 

E na noite imensa

com as feridas de ambos seguirei.

 

Pablo Neruda, in Crepusculário

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publicado por picodavigia2 às 16:09

O CORAÇÃO DA MINHA MÃE

Domingo, 16.03.14

(UM CONTO DE DIAS DE MELO EM DIA DE CARNAVA)

 

Depois vinham os mascarados.

 Mas, durante a seroada, enquanto as horas decorriam ao redor da pedra do lar, o que importava eram as filhoses.

Minha Mãe levava a manhã a amassá-las. A manhã ou a tarde? Não sei. Foi há tantos anos! E tanta coisa tem acontecido!... Tanta!...

Lembro-me de que, antes via minha Mãe na cozinha, à volta do grande alguidar de barro, de loiça de Vila Franca do Campo, assente no banco de pinho em frente á janela, o lenço na cabeça amarrada para trás, as mangas do vestido puxadas para cima… E tudo começava pela mistura dos ovos com o açúcar: ovos partidos na borda do alguidar, gemas e claras batidas no fundo, açúcar que tombava dos embrulhos chegados do botequim… Os olhos não se me desprendiam daquela papa langanhenta de ovos com açúcar e a água crescia-me na boca. Os mês olhos – e os olhos de meus irmãos; a água a crescer-me na boca – e na boca de meus irmãos. Às vezes, íamos a molhar o dedo, a levar o dedo aos lábios…

- Safa, canalha! Não sejam subejos – zangava-se minha Mãe. Ou fingia que se zangava?

Maiores, mais numerosos que os embrulhos de açúcar – os de farinha alva, que minha Mãe derramava no alguidar. Com água, que ia deitando até que bastasse. Com sal, que deixava cair até que desse gosto. E o fermento – claro, o fermento. E levava tempos a amassar, curvada, o avental de linho por diante do vestido de holanda, as mãos, os braços, a entrarem e a saírem, e tornando a entrar e tornando a sair, na massa muito amarela, pouco a pouco a se tornar mais ligada, mais compacta. Quando via que estava bem, arredondava-a com as palmas das mãos abertas e, de cabeça erguida e de expressão grave, traçava-lhe no alto, com a direita, a grande cruz, em nome do Padre, do Filho e do Espírito, que Deus te aumente e te acrescente!

Pegava então ao colo no alguidar com a massa. Pegava-lhe como quem pega num menino. Um menino que levava para o quarto de dormir e deixava, abafado com muitas roupas, longas horas na cama. Se nos surpreendia, sorrateiros, olho atrás, olho adiante, a meter o braço por debaixo daquele monte de roupa e a levar à boca gulosa o dedo pingando massa, lá tornava:

- Que canalha esta! Daqui para fora! Não vêem que fica feio ser subejos?

Aquela zanga de minha Mãe… Fincávamos os olhos no chão, sentíamos nas caras a cor da malagueta. Feio ser subejos… Mas quem podia resistir à tentação?

Á noite, o alguidar com a massa – o menino que ficara aquelas horas todas a dormir, a crescer – saía em triunfo da cama, da quentura das mantas e dos cobertores, voltava, em procissão de festa, minha Mãe à frente, com ele seguro no círculo dos braços, nós todos atrás, assim voltava à cozinha, para a amassaria encostada ao frontal, a massa para as filhoses, crescida, muito crescida, muito fofa…

Ardia em labaredas, o lume na pedra do lar. O lume das achas da lenha que acarretávamos, os rapazes e meu Pai aos ombros, as raparigas e minha Mãe à cabeça. As achas que serrávamos e fendíamos com nossas mãos a calejarem-se para a vida negra na cabeceira da serra e no cabo do machado. E as chamas dançavam debaixo da grelha, o grande caldeirão em cima com a graxa dentro, a chiar.

Lá fora, andava a chuva, o vento, o frio. Ali, ao redor do lume na pedra do lar, havia calor. Calor de fogo. Calor de paz – de amor. A massa, aos punhados nas mãos de minha Mãe, passava do alguidar para a tábua da amassaria, e cada punhado de massa, estendido, adelgaçado, transformava quase numa folha de papel muito fina e redonda (com uma garrafa a servir de rolo) – ia, dependurada pelo meio nos dedos longos de minha Mãe, a cair na bocarra do caldeirão, com graxa dentro, a chiar, a chiar… As mãos de minha Mãe, os dedos de minha Mãe, trabalhando, movendo-se na cozinha, com alegria – para alegria de todos nós.

E as filhoses, tiradas do caldeirão espetadas num garfo, começavam a amontoar-se na ampla travessa de loiça de cavalinhos, polvilhadas com açúcar pelos dedos de minha Mãe.

 - Comam! Comam!

Já minha Mãe nos não chamava de sobejos. Ria – seus olhos riam, seus lábios riam, sua alma ria – enquanto nos fartávamos…

Hoje, eu sei: o coração de minha Mãe nunca se zangava.

 E lá fora, a chuva, o vento, o frio. Meu Pai acabava de chegar – e acabava de se encher na nossa casa.

Havia mais calor, Mais calor do fogo na pedra do lar. Mais calor de paz – de amor…

 Depois, vinham os mascarados. Depois, no dia seguinte. Os mascarados inocentes. E também os outros: os mascarados que só tiram a máscara pelo Entrudo. Ou nem pelo Entrudo a tiram e apenas a mudam por escassos momentos.

Tudo acabou! Tudo! Menos os mascarados – os outros mascarados -, que esses nunca mais acabam.

Quantos porque a madrasta da vida os obriga a andarem sempre de máscara na cara!

 

DIAS DE MELO

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publicado por picodavigia2 às 18:00

ROCHA DO MAR

Sexta-feira, 07.03.14

(POEMA DE VITORINO NEMÉSIO)

Já uma vila dos Açores

Loze ligeira no horizonte.

Será num alto das Flores,

No Pico ou logo de fronte,

Espraiadinha num cume

Ou encolhida em Calheta?

O ser nossa é que resume

Seus amores de pedra preta.

Para vila da Lagoa

Falta-lhe a cidade ao pé,

A distância de Lisboa

Já não me lembro qual é.

Para Vila Franca ser

Falta-lhe o ilhéu à ilharga,

É airosa pra se ver,

Mais comprida do que larga.

Povoação não me parece,

Nos padieiros não condiz,

Aos camiões estremece,

Mas não aguenta juíz.

Pra Ribeira Grande falta-lhe

O José Tavares no quintal,

Rija cantaria salta-lhe

Dos cunhais, branca de cal,

Mas não é Ribeira Grande:

Essa merecia foral!

No dia em que haja quem mande

Será cidade mural.

Nordeste - só enganada

Na vista da Ilha Terceira,

Longe de Ponta Delgada,

Sua sede verdadeira.

Nem Vila do Porto altiva,

A mais velha da fiada,

Em suas ruas cativa

Como princesa encantada.

De cimento a remendaram,

Coroaram-na de aviões,

Mas eternos lhe ficaram

Os bojos dos seus tàlhões.

Se é a Praia da Vitória

Não lhe reconheço a saia:

Enchem-lhe a areia de escória,

Ninguém diz que é a mesma Praia.

Talvez seja Santa Cruz

Da Graciosa, ou a sua Praia,

Com o Carapacho e a Luz

Cheirando a lenha de faia.

De S. Jorge a alva Calheta

Ou a clara vila das Velas,

E o alto, alvadio Topo

Com um monte de pedra preta

Dando realce  janelas.

As Lajes ou o Cais do Pico,

A escoteira Madalena

Vilas são de vinho rico,

Qual delas a mais morena.

Santa Cruz das Flores seria

Essa vila açoriana

Ou as Lajes de cantaria

Do bom Pimentel soberana.

Finalmente, só o Rosário,

Que do Corvo vila é,

Pequena como um armário

Ou um chinelinho de pé.

Mas não é nenhuma delas,

Nem Água de Pau, que o foi,

S. Sebastião, ou Capelas,

Da Terceira arca de boi

Como a nossa Vila Nova,

Que nem chegou a ser vila,

Tão branca na sua cova,

Tão airosa, tão tranquila.

Ah, já sei! É delas, fundo,

Que o muro alvo se perfila

Contra os corsários do mundo

Que invejam a nossa vila,

Nosso povo, na folia

De uma rocha de mar bravo,

Que o Guião da autonomia

Só por morte torna escravo.

 

Vitorino Nemésio

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publicado por picodavigia2 às 16:55

ÚLTIMO LUME

Sexta-feira, 28.02.14

Dos gravetos que restam

Faz um último lume

No silêncio das coisas

Confirmando o destino.

 

Resendes Ventura / Manuel Medeiros, in A Noite Enlouqueceu o Silêncio.

 

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publicado por picodavigia2 às 19:09

PASSASTE SENHOR

Segunda-feira, 24.02.14

(POEMA DE JOSÉ CARLOS SIMPLÍCIO)

Passaste, Senhor...

E o teu olhar

longo e suave

a luz em mim

fez despertar.

 

Passaste, Senhor,

para dizer

de tanto amor...

Palavra assim

não sei de haver!

 

Passaste, Senhor,

e eu lá segui

tangendo a harpa

do coração

atrás de Ti.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:37

MEMÓRIA DO PEDRO

Sexta-feira, 21.02.14

(TEXTO DE GABRIELA SILVA)

Acordei esta madrugada a pensar no Pedro. Era um velhinho querido.

Quem o visse com o bordão apoiado, o tronco levemente inclinado, diria que se tratava de um velho lavrador florentino cansado da enxada, a cair de cansaço.

 Quem se sentasse ao seu lado por uns minutos percebia que o Pedro era um admirável contador de histórias inventadas para divertir rodas de amigos.

Tinha um bigode pequenino, um rosto liso, limpo e uma careca branquinha, quase rosa, uma pele delicada como a de um bébé e um sorriso muito, muito maroto, qual rapaz de escola que esconde o ninho que roubou na curva da estrada.

Contava as histórias apoiado no bordão, raramente olhando os interlocutores (não por medo porque se alguém morreu sem medos foi o Pedro) mas porque a inclinação da coluna já não lhe permitia uma “actuação” mais erecta do corpo. Nem havia necessidade porque a sua verticalidade sempre foi uma atitude interior e não uma mera postura de manequim sem massa encefálica.

 Quem ficasse mais um pouco percebia que o Pedro sabia tudo e só falava do que sabia. Conhecia as famílias da sua terra como ninguém até à quinta geração, com defeitos e qualidades que não ocultava.Pelo contrário. A coisa que mais fascinava esta criança grande era escalpelizar até ao fim os defeitos de duas gerações de uma família qualquer. Mas sempre achei que o fazia sem má intenção. Eram essas as histórias que lhe vinham à memória.

Ele era um pouco o registo oral de coisas que nunca se escreveram e os encontros com ele eram uma tertúlia de gargalhadas e de prazer. E ninguém queria saber se a tia Maria, grávida do Padre “de não sei” abortara espontaneamente, a pedido de sua reverência ou de motu próprio com vergonha das más-línguas ou tivera um filho para ser registado com a paternidade singular de um inocente da paróquia e ser o afilhado mais querido do senhor Padre até à morte.

Para o Pedro tudo tinha um nome e ele dava-o sem medo. Mas limitava-se muito ao registo técnico e cultural dos acontecimentos. A história tinha sempre principio e fim mas o sumo, quem o quisesse que o procurasse. E ele sabia que ninguém teria paciência para ir aos arquivos de onde quer que fosse, à procura de um padre morto, cuja única glória fora engravidar a “beata” mais recatada de uma paróquia.

Referia-se à homossexualidade como um vício de charme e referia, num tom cheio de graça, que o neto de fulano ou o filho de sicrano era um “paneleiro” desajeitado, sem chegar a pensar, julgo, se as criaturas em apreço haviam chegado a materializar em prazeres da carne esse falhanço hormonal

 O Pedro tinha quase os mesmos inimigos que amigos. Por ser como era. Mas ninguém duvidava, ainda em vida, que, com a sua morte, se perdia uma das cabecinhas doutas nascida nas fragas da Fajã Grande com aquela dose de loucura acima do qb que tempera as emoções florentinas de quem sabe que o mundo não acaba ali.

 Pedro da Silveira morreu. Mas deixa uma longa história de vida. Para mim, enquanto chorava o poeta e amigo, apenas pensei no que o Pedro não disse nunca, nas coisas que não contou, e não falo das piadas porque piadas todas contam quando querem omitir os desgostos e as humilhações.O que estaria por detrás de algum sarcasmo algumas vezes? Dor? Os biógrafos do poeta hão-de estudar estas coisas.

 Pedro: deixaste vazio na minha alma e na nossa terra. Eu sei que tu amavas as Flores e que, tal como eu, partiste, não para as Califórnias de abundância que tão bem pincelaste, mas para algum lugar onde fosse possível fazeres e vida sem dares nas vistas a quem não querias.

 A nossa terra Pedro, não é mãe que se queira nem madrasta que se ajeite aos nossos temperamentos. Tu eras corrosivo demais para viver entre eles. O teu brilho mexia com a paz das estrelas dos nossos curtíssimos metros quadrados de verde. Tu tocavas na nevralgia em ferida de muitas ganhoas sem asas. Tu mandavas arpões como quem brinca na estrada a marinheiros de mar e bote, tu que nunca foste à baleia. Ninguém gosta de se ver retratado, sem estar em pose, bem vestido e de sorriso afivelado para a câmara.

Tu és um pintor. Na tua paleta de cores, a ilha teve sempre um lugar muito especial. Pegaram no teu poema e usaram-no de mil maneiras porque era sempre bonito. Usei-o também, muitas vezes, para pintar trabalhos meus. E quando me mandaste os teus “Poemas ausentes” passei a ter-te à cabeceira para te ler. Tu dizias tudo o que eu sinto. E dito por ti era tudo tão lindo.

 Uns anos atrás, em Tulare, deste tanto prazer a tanta gente. Sempre pensei que o Álamo, o Diniz e o Onésimo acabassem contigo com tanta história que te encomendavam. Mas tu mudavas de história, de árvore genealógica e de sobrenomes sem nunca te enganares. Feliz o momento em que o Diniz te levou lá, porque assim pude privar contigo e com a tua encantadora esposa numa intimidade ilhoa muito bonita.

Não posso falar mais de ti Pedro. Porque não sei coisas muito científicas a teu respeito e tu ainda entornavas as cinzas se eu citasse como tuas, coisas que não disseste.

 Gosto muito da tua memória, Pedro.

 Na minha banca de cabeceira, escrito à mão, está o teu poema, o poema universal, o nosso poema, o Poema com que nossa ilha te rende homenagem

 

ILHA

 O CÉU FECHADO

 ..........................................

 OLHOS DE FOME A ADIVINHAR-LHE Á PROA

 CALIFÓRNIAS PERDIDAS DE ABUNDÃNCIA

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publicado por picodavigia2 às 11:52

PORQUE MORREM AS MÃES

Quinta-feira, 13.02.14

(POEMA DE CARLOS DRUMOND DE ANDRADE)

“Por que Deus permite

Que as mães vão-se embora?

Mãe não tem limite,

É tempo sem hora,

Luz que não apaga

Quando sopra o vento

E chuva desaba,

Veludo escondido

Na pele enrugada,

Água pura, ar puro,

Puro pensamento.

 

 

Morrer acontece

Com o que é breve e passa

Sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça,

É eternidade.

Por que Deus se lembra

- Mistério profundo -

De tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo,

Baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,

Mãe ficará sempre

Junto de seu filho

E ele, velho embora,

Será pequenino

Feito grão de milho.”

 

Carlos Drummond de Andrade

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publicado por picodavigia2 às 00:04

QUEM SOMOS?

Sexta-feira, 07.02.14

 (OLINDA BEJA – SÂO TOMÉ E PRÍNCIPE)

O mar chama por nós, somos ilhéus!

Trazemos nas mãos sal e espuma

cantamos nas canoas

dançamos na bruma

 

somos pescadores-marinheiros

de marés vivas onde se escondeu

a nossa alma ignota

o nosso povo ilhéu

 

a nossa ilha balouça ao sabor das vagas

e traz a espraiar-se no areal da História

a voz do gandu

na nossa memória...

 

Somos a mestiçagem de um deus que quis mostrar

ao universo a nossa cor tisnada

resistimos à voragem do tempo

aos apelos do nada

 

continuaremos a plantar café cacau

e a comer por gosto fruta-pão

filhos do sol e do mato

arrancados à dor da escravidão

 

 Olinda Beja

 

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publicado por picodavigia2 às 10:32

ERA UMA VEZ UM PAÍS

Quinta-feira, 06.02.14

(UM POEMA DE JOSÉ CARLOS ARY DOS SANTOS)

Era uma vez um país

onde entre o mar e a guerra

vivia o mais feliz

dos povos à beira-terra.

 

Onde entre vinhas sobredos,

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

um povo se debruçava

como um vime de tristeza

sobre um rio onde mirava

a sua própria pobreza.

 

Era uma vez um país

onde o pão era contado

onde quem tinha a raíz

tinha o fruto arrecadado

onde quem tinha o dinheiro

tinha o operário algemado

onde suava o ceifeiro

que dormia com o gado

onde tossia o mineiro

em Aljustrel ajustado

onde morria primeiro

quem nascia desgraçado.

 

Era uma vez um país

de tal maneira explorado

pelos consórcios fabris

pelo mando acumulado

pelas ideias nazis

pelo dinheiro estragado

pelo dobrar da cerviz

pelo trabalho amarrado

que até hoje já se diz

que nos tempos dos passado

se chamava esse país

Portugal suicidado.

 

Ali nas vinhas sobredos

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

vivia um povo tão pobre

que partia para a guerra

para encher quem estava podre

de comer a sua terra.

 

Um povo que era levado

para Angola nos porões

um povo que era tratado

como a arma dos patrões

um povo que era obrigado

a matar por suas mãos

sem saber que um bom soldado

nunca fere os seus irmãos.

 

Ora passou-se porém

que dentro de um povo escravo

alguém que lhe queria bem

um dia plantou um cravo.

 

Era a semente da esperança

feita de força e vontade

era ainda uma criança

mas já era a liberdade.

 

Era já uma promessa

era a força da razão

do coração à cabeça

da cabeça ao coração

Quem o fez era soldado

homem novo capitão

mas tabém tinha a seu lado

muitos homens na prisão.

 

Esses que tinham lutado

a defender um irmão

esses que tinham passado

o horror da solidão

esses que tinham jurado

sobre uma côdea de pão

ver o povo libertado

do terror da opressão.

 

Não tinham armas é certo

mas tinham toda a razão

quando um homem morre perto

tem de haver distanciação

uma pistola guardada

nas dobras da sua opção

uma bala disparada

contra a sua própria mão

e uma força perseguida

que na escolha do mais forte

faz com a que a força da vida

seja maior do que a morte.

 

Quem o fez era soldado

homem novo capitão

mas também tinha a seu lado

muitos homens na prisão.

Posta a semente do cravo

começou a floração

do capitão ao soldado

do soldado ao capitão.

 

Foi então que o povo armado

percebeu qual a razão

porque o povo despojado

lhe punha as armas na mão.

 

Pois também ele humilhado

em sua própria grandeza

era soldado forçado

contra a pátria portuguesa.

 

Era preso e exilado

e no seu próprio país

muitas vezes estrangulado

pelos generais senis.

Capitão que não comanda

não pode ficar calado

é o povo que lhe manda

ser capitão revoltado

é o povo que lhe diz

que não ceda e não hesite

- pode nascer um país

do ventre duma chaimite.

 

Porque a força bem empregue

contra a posição contrária

nunca oprime nem persegue

- é a força revolucionária!

 

Foi
então que Abril abriu

as portas da claridade

e a nossa gente invadiu

a sua própria cidade.

Disse a primeira palavra

na madrugada serena

um poeta que cantava

o povo é quem mais ordena.

 

E então por vinhas sobredos

vales socalcos searas

serras atalhos veredas

lezírias e praias claras

desceram homens sem medo

marujos soldados "páras"

que não queriam o degredo

de um povo que se separa.

 

E chegaram à cidade

onde os monstros se acoitavam

era a hora da verdade

para as hienas que mandavam

a hora da claridade

para os sóis que despontavam

e a hora da vontade

para os homens que lutavam.

 

Em idas vindas esperas

encontros esquinas e praças

não se pouparam as feras

arrancaram-se as mordaças

e o povo saiu à rua

com sete pedras na mão

e uma pedra de lua

no lugar do coração.

 

Dizia soldado amigo

meu camarada e irmão

este povo está contigo

nascemos do mesmo chão

trazemos a mesma chama

temos a mesma razão

dormimos na mesma cama

comendo do mesmo pão.

Camarada e meu amigo

soldadinho ou capitão

este povo está contigo

a malta dá-te razão.

 

Foi esta força sem tiros

de antes quebrar que torcer

esta ausência de suspiros

esta fúria de viver

este mar de vozes livres

sempre a crescer a crescer

que das espingardas fez livros

para aprendermos a ler

que dos canhões fez enxadas

para lavrarmos a terra

e das balas disparadas

apenas o fim da guerra.

 

Foi esta força viril

de antes quebrar que torcer

que em vinte e cinco de Abril

fez Portugal renascer (…)

 

J. C. Ary dos Santos

 

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publicado por picodavigia2 às 14:09

VIRIATO

Terça-feira, 04.02.14

Ninguém sabe ao certo quando nasceu Viriato nem a que família pertencia. Segundo a tradição, durante a juventude terá sido pastor nos Montes Hermlnios, que hoje se chamam Serra da Estrela.

Há quem diga que Viriato participou desde muito novo em assaltos-relâmpago às povoações dominadas por romanos. E que já então se distinguia pela agilidade, pela força e pela inteligência guerreira.

No entanto, foi um dos homens que acreditaram nas promessas de Galba e desceram à planície na intenção de se instalar e viver em paz numa terra fértil. Assistiu ao ataque traiçoeiro; não pôde lutar porque não tinha armas, mas conseguiu fugir.

Depois do massacre, todos os lusitanos sobreviventes regressaram aos seus castros nas montanhas. A pouco e pouco reorganizaram-se, fabricaram armas e prepararam o contra-ataque.

No ano 147 a.C. dez mil lusitanos em fúria avançaram para sul e dirigiram-se a uma zona dominada pelos Romanos.

Queriam saquear as povoações e vingar a morte dos companheiros, mas quando menos esperavam perceberam que estavam cercados à distância por um anel de soldados inimigos. Que fazer?

Os chefes, para evitarem nova carnificina, propuseram-se ir negociar a rendição. Viriato opôs-se com veemência. Erguendo a voz, lembrou:

- Os Romanos não respeitam promessas. Enganaram-me uma vez, não me tornam a enganar. Comigo não contem para negociações. Prefiro lutar ou morrer.

O discurso e a firmeza impressionaram toda a gente, sobretudo os outros chefes. E Viriato continuou:

- Se não podemos vencê-los pela força, vencê-los-emos pela astúcia. Ora oiçam o meu plano.

Propôs-lhes então o seguinte: os homens que combatiam a pé deviam formar grupos e a um sinal combinado disparar em todas as direcções e romper a barreira que os cercava sem dar tempo aos inimigos de se organizarem.

- Enquanto vocês fogem, eu e os outros cavaleiros caímos sobre eles ora de um lado ora de outro, de forma a derrotá-los e a proteger a vossa fuga.

O plano foi aceite; faltava combinar o sinal.

- Fiquem atentos. Quando eu montar a cavalo, já sabem... é ordem para arrancar.

Pouco depois ecoavam gritos de guerra pelos campos, zuniam setas e lanças, por toda a parte se ouvia o tinir das espadas. Os romanos não estavam à espera daquela táctica-relâmpago e, tal como Viriato previra, desnortearam-se. Muitos grupos de peões romperam o cerco e desapareceram, enquanto os bravos cavaleiros lusitanos, apesar de estarem em minoria e de possuírem armas mais fracas, lutavam sem cessar.

O campo de batalha ficou juncado de mortos, o próprio general romano perdeu a vida, mas não se pode falar de vitória ou derrota. Neste confronto, Viriato, mais do que vencer os Romanos, salvou os Lusitanos. A partir de então foi reconhecido e amado como chefe máximo por todas as tribos.

As mulheres sonhavam com ele, os homens admiravam-no, acatavam as suas ordens e seguiam-no com tanto entusiasmo e convicção que durante anos lançaram o terror entre as hostes inimigas. Viriato parecia invencível. E, de facto, em guerra aberta ninguém o derrubou.

No ano de 139 a.C. Viriato foi assassinado à traição, quando dormia na tenda, por três homens da sua tribo que os Romanos tinham aliciado e subornado. Os Lusitanos choraram longamente a perda daquele chefe querido e ficaram muito enfraquecidos. Quanto aos assassinos, parece que não chegaram a obter nenhuma recompensa pelo crime. Segundo consta, foram recebidos com desprezo pelo chefe romano, que lhes terá dito «Roma não paga a traidores».

É engraçado que tudo o que sabemos a respeito deste homem que os Portugueses consideram como o primeiro dos seus heróis foi escrito por autores romanos. Impressionados pela personalidade forte, austera e recta do chefe lusitano, impressionados também pelo imenso valor que demonstrava na guerra, escreveram vários textos elogiosos sobre ele. Apesar de serem adversários, foram os Romanos que deram a conhecer ao mundo a figura de Viriato.

 

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publicado por picodavigia2 às 17:30

UM PASSEIO A CAVALO

Sábado, 01.02.14

(TEXTO DE VITORINO NEMÉSIO)

Ao entardecer os campos enchiam-se de neblina, o Pico ficava baço e monumental nas águas. Dos lados da estrada da Caldeira sentiu-se uma tropeada, depois pó e um cavaleiro. Os cavalos meteram a trote e puseram-se a par. O de Roberto Clark vinha suado, com um pouco de espuma e na barriga um sinal de sangue. O de Margarida, enxuto, meteu a passo:

- Ah, não posso mais... O tio desafiou-me e deixou-se ficar para trás! Assim não vale...

- Largaste-te logo... Eu bem te disse: prender e folgar... prender e folgar... E depois, deixaste-o fazer a curva a galope com a mão do outro lado.

Roberto Clark exprimia-se correntemente em português; só tinha um nada de entonação ingénua, cheia de ohs, que tanto divertia Margarida; às vezes hesitava um pouco, à procura de certas palavras, fazendo estalar os dedos como quem deixa fugir precisamente a que convinha. Era um rapaz alto, espadaúdo. Vestia um casaco de sport e calção encordoado, à Chantilly, um boné escocês enterrado até às sobrancelhas ruivas, debaixo das quais espreitavam dois olhinhos sem cor precisa, como que metidos n’água.

- Que bom, galopar! E depois, este não é como a Jóia, que apanhou aquele passo escangalhado da charrett...

- Quê? A égua de teu pai, o peru? Já lhe disse que tem de vendê-la.

- Ah! Se o tio conseguisse...

- Com o dobro do dinheiro da Jóia arranja-se um bom cavalo. Eu ponho o resto. É o meu presente de anos.

Margarida sorriu; mas mostrou-se reservada, lassou um pouco as rédeas do bridão e compôs o cabelo. Não sabia o que era fazer anos desde a última vez que os passara na Pedrada Burra, nas Vinhas, quando o avô ainda se mexia e teimava em meter-se ao Canal.Em Fevereiro havia muitos dias de mar bravo, as lanchas afocinhavam nas grandes covas de água cavadas pelo vento da Guia. Para tirar o avô das escadinhas eram duas pessoas: o Manuel Bana dentro da lancha a agarrá-lo por um braço, o cobrador nos degraus do cais, de mão estendida, e sempre aquele perigo de escorregar nos limos. Mas teimava; metia-se no vão da janela do pomar quase entalado pela mesa, estendia o baralho das paciências na coberta de tapete com a garrafa de whisky ao lado, a caixa dos charutos e dos sisos do whist aberta. Ficava ali tardes... a ouvir a tesoura de Manuel Bana, que podava defronte.

Nesse ano quisera nas Vinhas todas as famílias amigas ― lanchas atrás de lanchas, o portão do pátio aberto para a charrette e com argolas para os burros. Tinham jantado na falsa por cima do barracão das canoas, por arrumar mais gente. A última vez que enfeitaram o bolo com rosas de que ela gostasse, as primeiras rosas de trepar do quintal do tio Mateus Dulmo. E camélias fechadas do Pico, como uns copinhos... Vinte velas a arder diante do seu talher!

- Estás velha, hem...

- Velha, não; mas enfim... O tempo não passa só para quem viajou muito como o tio. Quem me dera...

- Viajar ou envelhecer?

- Talvez as duas coisas...

Sentiu sede de se abrir toda ao tio, explicar aqueles dois pontos que ele isolara tão bem a rasto da recordação do seu dia de anos no Pico; mas não achou palavras sensatas, ou pelo menos capazes de serem ditas ali de selim a selim, nos campos tão bonitos. As culturas começavam a cobrir-se das primeiras flores singelas; os olhinhos das árvores abotoavam discretamente. O verde-negro dos pastos, o verde dos Açores, quente e húmido, emborralhava-se até longe. Os cavalos seguiam de cabeça comprida, fazendo vibrar de vez em quando as ventas.

 ... Envelhecer não seria; mas era deixar passar um grande espaço de tempo, como um troço de filme em branco, fechar os olhos ao peso daquela doçura da volta, tapar os ouvidos como quem teve um mau dia e chora ao meter-se na cama, moída, gasta... Na manhã seguinte acordar, mas passados uns anos, longe do Faial, ou noutro Faial só com o caminho à roda, o Pico em frente... gaivotas... sem ninguém.

O tio tinha dito: «viajar ou envelhecer?» Margarida gastara a resposta naquele silêncio e os olhos nas orelhas do cavalo.

Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal

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publicado por picodavigia2 às 10:50





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