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MEMÓRIA DE PEDRO DA SILVEIRA

Quinta-feira, 04.05.17

(TEXTO DE LUIZ FAGUNDES DUARTE)

 

Hoje apetece-me recordar Pedro da Silveira. Mas é-me difícil escrever sobre este poeta, crítico literário, tradutor, propagandista, bibliotecário, colaborador de jornais, consultor literário, investigador de pequenas e grandes coisas da história e da literatura, e sobretudo observador atento e apaixonado de tudo e todos, ele mesmo incluído – de todos produzindo comentários da mais pura, e muitas vezes regeneradora, má-língua...

É-me difícil escrever sobre este intelectual português, natural da Fajã Grande da ilha das FLORES (onde nasceu a 5 de Setembro de 1922), que depois de ter cirandado pelas ilhas das Flores, de São Miguel e Terceira foi ancorar a Lisboa em 1951, um cidadão sem pátria fixa, porque filho de todas as pátrias, um homem de quem provavelmente nunca teremos uma biografia viável: descontadas as recriações poéticas da sua história pessoal, que nos deixou no “Soneto de Identidade” (Poemas Ausentes, 1999), todos aqueles que conheceram Pedro Laureano de Mendonça da Silveira e com ele privaram recordá-lo-ão como “um tanto duro, como | Pedro é pedra; picante agudo assomo | de silva dos silvedos – não me dou!”, um homem de “Raiz flamenga, já se sabe” [pelo nome Silveira, herdeiro do flamengo quinhentista ‘Van der Hagen’]; “e um gomo, | no fruto, castelhano” [pelo Mendonça], e se calhar com antepassados alemães ou polacos, mas sobretudo, como genialmente se definiu, um “Ilhéu | da casca até ao cerne”, “sem ambição maior que o livre Espaço”...

É-me difícil escrever sobre este homem que militou no anarco-sindicalismo, foi apoiante activo das candidaturas de Norton de Matos e Arlindo Vicente, colaborador da “Seara Nova”, espiolhado pela PIDE, mas no fundo desenganado da política activa ainda que nem por isso dela desligado... É-me difícil escrever sobre este homem que conheci em permanente estado de vigília, e que em Portugal foi, já nos anos quarenta, o primeiro tradutor de Pablo Neruda...

É-me, enfim, difícil escrever sobre este poeta que, da última vez que o vi se auto-retratou como um “camarão cozido”, numa cruel alusão às suas costas curvadas pela doença, e que no dia 13 de Abril de 2003 partiu de Lisboa – para a sua derradeira viagem em demanda do “livre Espaço”...

Também será difícil escrever sobre a poesia, sua e traduzida de outros, que nos deixou publicada – de que se destacarão A Ilha e o Mundo (1952), Sinais do Oeste (1962), Corografias (1985), Mesa de Amigos, versões de poesia (1986 e 2002), Poemas Ausentes (1999), e Fui ao Mar Buscar Laranjas, volume inaugural da sua obra poética completa (1999); ou sobre os contos, os ensaios histórico-literários, as crónicas, as antologias literárias, as memórias ou as recolhas de literatura popular e tradicional, em que andava a trabalhar ultimamente e cujos originais esperamos que se não venham a perder...

E será difícil, dizia eu, porque, sendo um poeta profundamente açoriano, Pedro da Silveira é no mais um poeta português de excelência, que nunca fez concessões à facilidade e ao regionalismo folclórico – e que era senhor de uma arte poética e de um saber erudito que é muito raro encontrar-se, puros e produtivos, numa única pessoa. E porque, apesar da má-língua por que muitos o recordarão – não me ocorre, para definir o poeta e investigador Pedro da Silveira, melhor palavra do que esta que me queima os dedos: rigor.

 

Luiz Fagundes Duarte / 09 de Dez de 2013, Açoriano Oriental

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DOMINGOS DEPOIS DA PÁSCOA (NAS LAJES DO PICO)

Domingo, 30.04.17

(TEXTO DE ERMELINDO ÁVILA)

Terminadas as Festas Pascais entramos nas chamadas Domingas ou seja os sete domingos que antecedem o Domingo de Pentecostes.

Antigamente eram todos esses domingos preenchidos por Coroações, ou seja festas em honra da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.

A Freguesia da Santíssima Trindade (actualmente denominada incompreensivelmente por Lajes do Pico), tinha grupos de irmãos que, de cinco em cinco anos, “levavam a Coroa à Igreja”, ou seja promoviam uma festa em honra e louvor do Espírito Santo. Em cada domingo um irmão, previamente sorteado, levava em cortejo a Coroa do Divino Paráclito à Igreja Paroquial, onde era celebrada Missa cantada e coroação e, em casa, oferecia jantar a doze pobres e a familiares e amigos.

Antes da criação da paróquia da Silveira, a freguesia estava dividida em cinco zonas: Silveira, Almagreira, Ribeira do Meio, Vila e Terras. Com o falecimento dos irmãos e/ou ausência para o estrangeiro, foi desaparecendo essa tradição que hoje, felizmente, ainda é mantida nas Terras e na Almagreira.

Tudo afora as promessas, que ainda as há, de “levar a Coroa”.

Lacerda Machado diz, que “Antigamente, em cada uma das sete Domingas, havia coroação, estando a cargo, por anos, das povoações: Terras, Vila e Ribeira do Meio. Também havia coroações na Silveira e Almagreira.

“Os festejos das Domingas consistiam em missa cantada e coroação, em seguida às quais o mordomo oferecia jantar aos colegas das outras Domingas e pessoas que convidava “

Ainda hoje a tradição se mantém na Almagreira e nas Terras. De cinco em cinco anos as mesmas famílias cumprem a tradição, convidando para a “sua festa” algumas centenas de pessoas, a quem oferece lauto jantar de “sopas do Espírito Santo”.

Para isso aquele lugar construiu um amplo salão de dois pisos, que pode receber mais de mil convivas, onde é servido o jantar.

O mesmo acontece na Almagreira, onde foi igualmente construído vasto salão.

E falando em salões, recordem-se os da Ribeira do Meio, da Silveira, das Terras, de São João, e de Santa Cruz recentemente construídos e que, embora destinados a sedes das sociedades locais, são dispensados para as funções do Espírito Santo. O mesmo acontece nesta vila com a sede da Liberdade Lajense em quase todas as freguesias e localidades da Ilha. Uma maneira significativa de perpetuar “enquanto o mundo durar”, como se dizia antigamente, tão expressivas manifestações de fé dos picoenses, como aliás dos açorianos.

Ainda a propósito das coroações, é de lembrar o que diz Silveira de Macedo na “História das Quatro Ilhas”, citado por Lacerda Machado:

“Em 1871 o autor da História das quatro ilhas avaliava em 60 moios de trigo, 60 reses bovinas, além de da carne de carneiro e porco, e 30 pipas de vinho, o consumo das festas do Espírito Santo na ilha do Pico, a cargo dos mordomos e irmãos.

Hoje, em toda a Ilha não será menor o consumo, durante as festas do Espírito Santo que, em razão dos votos emitidos, têm lugar desde o primeiro domingo após a Páscoa até aos meses de Julho e Agosto. É que, normalmente, durante os meses de inverno não se realizam tais festividades.

E, na época em que estamos, já se fazem os convites para as coroações. É que tudo é preparado com a antecedência devida. Até o gado que se abate vem destinado quase após o nascimento. E a farinha que se consumia provinha do trigo semeado, em maiores extensões, no anterior à solenidade. Hoje já não se cultivam cereais. Os campos são utilizados para pastagens de gado bovino, produtor de leite. Julgo que não se levará muito tempo que se volte atrás...

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A CIDADE DO VINHO

Sexta-feira, 28.04.17

(TEXTO DE MANUEL AZEVEDO)

 

Sou picoense. Vibro com os sucessos da minha ilha (poucos), entristeço-me, quando as coisas não correm bem. Alem disso, sou natural do concelho da Madalena. Os mesmos sentimentos. Por isso, fiquei triste quando vi aquela maresia entrar por terra dentro, sem avisar, destruindo, total ou parcialmente, estruturas públicas e privadas, um pouco por toda a parte. Talvez os não residentes, como eu, o sintam mais… Poucos dias depois, a Madalena fez festa e da rija, (o que me fez vibrar) para comemorar a recente eleição como “Cidade do vinho de 2017”, feita pelas suas pares da Associação de Municípios Produtores de Vinho (AMPV) e comemorou-o com a inauguração do novo auditório, que veio trazer à Madalena e ao Pico uma sala, dotada de múltiplas valências tecnológicas que permitirão diversíssimos espectáculos. Dizem-me que é uma sala que vem trazer ao Pico possibilidades que, antes, não tinha. Dizem-me, também, que a festa foi bonita e digna. Por mim, vou-me contentando com o que vejo nas redes sociais. Mas, nada como estar presente, fisicamente. Talvez o que me orgulhou mais foi a Madalena fazer a sua vida normal, uns dias depois do desastre. Ah! Valentes!

Durante todo o ano, se vai comemorar “a cidade do vinho”: Li duma enoteca itinerante e outros acontecimentos. Seria bom e conveniente que os privados se associassem, para não ser só a autarquia. A produção é quase só deles. Em quantidade e qualidade. A internacionalização do vinho do Pico começou há muitos séculos (fala-se muito dos czares) e continua, hoje. A presença da Adega Cooperativa na recente feira de vinhos de Dusseldorf, uma das maiores do mundo, é disso testemunho.

Felizmente, hoje, com a ajuda da União Europeia e do Governo Regional estão a reconverter-se vinhas e a redescobrir-se currais, canadas, geirões, os tais muros que, segundo estudioso, davam duas vezes a volta à terra. Quando os nossos antepassados abandonaram as vinhas, por não terem apoios e porque não estavam para trabalhar para aquecer, não imaginavam que, uns tempos depois, se descobrissem os terrenos que, por causa do abandono, se cobriram de faias, incensos, silvas e outras mondas. Só quem observa de avião ou, mais modernamente, através de drones, é que pode ver o “antes e depois”. Há, ainda, áreas cobertas de mondas, mas também já há muitas campinas com os antigos muros descobertos, construídos com um labor insano pelos nossos antepassados, para proteger as vinhas, que despontavam por entre lava solidificada e biscoitos, do rocio do mar e das ventanias. Quem assim vê, é que pode avaliar.

O meu aplauso para a Comissão Vitivinícola Regional que quer reconverter a vinha em toda a ilha do Pico, apesar de ser na Madalena a maior extensão, e em todos os Açores, onde há núcleos que a cultivam.

Não pretendo fazer a história da introdução da vinha no Pico. Dizem que foram os franciscanos… De facto, há vestígios deles por todos os cantos. Os frades carmelitas, também, andaram por aí. Testemunha-o o Museu do Vinho, instalado num antigo convento carmelita.

Não se fez festa quando, em 2004, a Paisagem Protegida da Vinha foi considerada pela Unesco, Património da Humanidade. Talvez, com medo das responsabilidades que isso traria. Mas o que segue é que ela aí está para gozo dos residentes e dos muitos turistas que a visitam. Alguns, só por causa disso. Orgulho dos picoenses, porque, por todo o mundo, se fala dela. A consciência ambiental que isso criou, no sentido de perseverar o que é nosso, é digna de registo.

Tudo isto dá um caldo comercial invejável. Que o digam os comerciantes.

Um toque pessoal: fui criado no meio de vinhas e de vinho: vinho tinto e da madeira (uma espécie de rosé, bem graduado). Esta era a terminologia da altura. Meu pai, um produtor da freguesia, também, abandonou vinhas, pelas razões acima, mas continuou a cultivar muitas outras.

Um brinde à Cidade do Vinho 2017. Um licoroso fica bem, aqui!

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SALADA NOSSA DE CADA DIA

Sábado, 08.04.17

(TEXTO DE “DA NOVA NO MUNDO)

O que é que nos deu, enquanto seres humanos que gostam de ir a restaurantes, para desprezar ou ignorar a parte da carta que diz “saladas”? Bem sei que as nossas mães e avós sempre nos ensinaram que não é boa ideia comer saladas fora de casa, porque nunca sabemos se os vegetais e legumes são lavados com o brio que só elas teriam. Há também quem diga que é um desperdício de tempo, dinheiro e apetite ir a um restaurante para comer saladas.

Ora, eu estou no extremo oposto de tudo isto. Quem me conhece sabe que viveria bem se apenas pudesse comer saladas e – aqui me confesso – são a primeira coisa que procuro numa ementa (depois vêm as sobremesas, claro). Para vos mostrar que as saladas podem e devem ser uma opção viável, sobretudo no tempo mais quente, decidi fazer-vos o roteiro de uma semana a comer uma salada (fora de casa) por dia.

As segundas-feiras conseguem ser penosas, por isso nada melhor do que as saladas e a vista do Cais da Pedra para nos animar. O menu não tem muita variedade (umas quatro, no máximo), mas cada uma delas tem o seu encanto. Fresca, adocicada e leve, assim é a Salada de Morangos e Queijo de Cabra que, neste momento, é a minha favorita deste restaurante.

Já que estamos pela zona, por que não fazer check-in no DeliDelux? Antes de chegarmos ao balcão ou à esplanada, o mais certo é que nos percamos no meio dos corredores da mercearia gourmet. Bem sei que o espaço é mais conhecido pelo brunch, mas o que me dizem a uma Salada de Legumes Assados, com Ras el Hanout e Queijo Chèvre? Prometo que não vão ficar com fome.

Quem conhece o Noobai, ali no miradouro do Adamastor, sabe perfeitamente que é o sítio ideal para fugir da realidade – pelo menos durante a hora de almoço. O espaço convida a refeições leves e é ali que podem encontrar uma das melhores versões de um clássico – a Salada Grega. Esta tem dois pequenos twists: leva edamame e acompanha com um molho de framboesas que faz toda a diferença. É tudo uma questão de esperar que as obras de remodelação do café estejam terminadas, o que deve acontecer no início de Abril.

Chegamos a outro dos meus sítios favoritos, onde as saladas conseguem sempre surpreender. Isto porque, a cada estação temos uma carta diferente. Já ali tive a oportunidade de provar as combinações mais inesperadas, mas a mais recente é a Salada de Figos e Queijo da Ilha. Garanto que se torna ainda mais deliciosa se estiverem sentados no jardim interior.

Achavam que eu só tinha sugestões no centro da cidade? Para quem estiver pelos lados da LX Factory, vale muito a pena parar para almoçar ou jantar n’A Praça. O restaurante marca pontos só pela decoração, mas deixa-nos K.O. com a ementa. Há uns tempos introduziram uma lista bastante completa de saladas no menu, mas a minha sugestão continua a ser a Salada Caprese, cuja apresentação não deixa ninguém indiferente.

Sim, eu sei que já vos recomendei uma Salada Grega antes, mas uma viagem pela gastronomia da Grécia nunca fez mal a ninguém. Este restaurante fica bem escondido na Madragoa, mas faz-nos viajar a cada garfada. E nada melhor do que azeitonas gregas à séria na salada para o comprovar.

Chegou finalmente o último dia da semana e o nosso destino é a Pizzaria Luzzo. Prometemos que comíamos uma salada por dia durante uma semana e não é agora que vamos desistir. Não há muitas opções no menu, mas a Salada Luzza é – pelo menos para mim – a escolha nº1.

O que acharam deste pequeno roteiro? Há alguma salada que me recomendem?

 

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A VERDADE

Domingo, 05.02.17

(TEXTO DE ALMADA NEGREIROS)

 

Eu tinha chegado tarde à escola. O mestre quis, por força, saber porquê. E eu tive que dizer: Mestre! quando saí de casa tomei um carro para vir mais depressa, mas, por infelicidade, diante do carro caiu um cavalo com um ataque que durou muito tempo. O mestre zangou-se comigo: Não minta! diga a verdade!

E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... minha mãe tinha um irmão no estrangeiro e, por infelicidade, morreu ontem de repente e nós ficámos de luto carregado. O mestre ainda se zangou mais comigo:

Não minta! diga a ver­dade!!

E eu tive de dizer: Mestre! quando saí de casa... estava a pensar no irmão de minha mãe que está no estrangeiro há tantos anos, sem escrever. Ora isto ainda é pior do que se ele tivesse morrido de repente porque nós não sabemos se estamos de luto carregado ou não.

Então o mestre perdeu a cabeça comigo:

Não minta, ouviu? diga a verdade, já lho disse!

Fiquei muito tempo calado. De repente, não sei o que me pas­sou pela cabeça que acreditei que o mestre queria efectivamente que lhe dissesse a verdade. E, criança como eu era, pus todo o peso do corpo em cima das pontas dos pés, e com o coração à solta confessei a verdade:

Mestre! antes de chegar à Escola há uma casa que vende bonecas. Na montra estava uma boneca vestida de cor-de-rosa! Mestre! a boneca estava vestida de cor-de-rosa! A boneca tinha a pele de cera. Como as meninas! A boneca tinha tranças caídas. Como as meninas! A boneca tinha os dedos finos. Como as meninas!

Mestre! A boneca tinha os dedos finos...

 

José de Almada Negreiros , Obras Completas

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DIA DE NATAL

Sábado, 24.12.16

(POEMA DE ANTÓNIO GEDEÃO)

 

Hoje é dia de ser bom.

É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,

de falar e de ouvir com mavioso tom,

de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

 

É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,

de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,

de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,

de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

 

Comove tanta fraternidade universal.

É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,

como se de anjos fosse,

numa toada doce,

de violas e banjos,

Entoa gravemente um hino ao Criador.

E mal se extinguem os clamores plangentes,

a voz do locutor

anuncia o melhor dos detergentes.

 

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu

e as vozes crescem num fervor patético.

(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?

Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

 

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.

Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.

Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas

e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

 

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,

com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,

cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,

as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

 

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,

ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.

É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,

como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

 

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.

Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.

E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento

e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprar.

 

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.

Naquela véspera santa

a sua comoção é tanta, tanta, tanta,

que nem dorme serena.

 

Cada menino

abre um olhinho

na noite incerta

para ver se a aurora

já está desperta.

De manhãzinha,

salta da cama,

corre à cozinha

mesmo em pijama.

 

Ah!!!!!!!!!!

 

Na branda macieza

da matutina luz

aguarda-o a surpresa

do Menino Jesus.

 

Jesus

o doce Jesus,

o mesmo que nasceu na manjedoura,

veio pôr no sapatinho

do Pedrinho

uma metralhadora.

 

Que alegria

reinou naquela casa em todo o santo dia!

O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,

fuzilava tudo com devastadoras rajadas

e obrigava as criadas

a caírem no chão como se fossem mortas:

Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

 

Já está!

E fazia-as erguer para de novo matá-las.

E até mesmo a mamã e o sisudo papá

fingiam

que caíam

crivados de balas.

 

Dia de Confraternização Universal,

Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,

de Sonhos e Venturas.

É dia de Natal.

Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.

Glória a Deus nas Alturas.

 

António Gedeão.

 

 BOAS FESTAS

 

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COM OS MORTOS

Quarta-feira, 02.11.16

(ANTERO DE QUENTAL)

 

Os que amei, onde estão? Idos, dispersos, 
arrastados no giro dos tufões, 
Levados, como em sonho, entre visões, 
Na fuga, no ruir dos universos... 


E eu mesmo, com os pés também imersos 
Na corrente e à mercê dos turbilhões, 
Só vejo espuma lívida, em cachões, 
E entre ela, aqui e ali, vultos submersos... 

Mas se paro um momento, se consigo 
Fechar os olhos, sinto-os a meu lado 
De novo, esses que amei vivem comigo, 

Vejo-os, ouço-os e ouvem-me também, 
Juntos no antigo amor, no amor sagrado, 
Na comunhão ideal do eterno Bem. 

Antero de Quental, in "Sonetos" 

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NO DIA EM QUE O CÉU LHE CAIU EM CIMA

Quinta-feira, 29.09.16

 

(POEMA DE ANÍBAL RAPOSO)

 

No dia em que o céu se escaqueirou e lhe caiu em cima

Estava estranhamente calmo.

 

Conta quem viu que até gracejou

Enquanto assinava, como um sonâmbulo,

A sentença que ordenava o seu desterro.

 

Meia hora mais tarde,

A um canto da ilha,

Desceu às profundezas da cratera.

 

Contam os pássaros, suas almas gémeas

E guardiães das memórias da Lagoa Verde,

Que nem nos tempos em que a montanha explodiu em terríveis cataclismos

Se ouviram, como nessa hora, na Baía do Silêncio

Gritos mais roucos, soluços mais telúricos.

E que não consta que tenham caído vez alguma

Na superfície daquelas quietas águas

Lágrimas com tal teor de sal.

 

 

Contam, também,

Que, ali mesmo, jurou

Que, enquanto vivo fosse,

Nenhuma ave, a quem tivesse ferido por descuido,

Deixaria, alguma vez, por culpa sua,

De ter o ensejo de experimentar o golpe de asa

E de voar, em azul e plena liberdade.

 

Aníbal Raposo, 2003-05-30

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A BELEZA NATURAL DA ILHA DAS FLORES

Domingo, 07.08.16

A beleza natural da ilha das Flores é espelhada na hospitalidade da sua gente.

A ilha das Flores ainda se debate com o problema da sazonalidade no turismo. Porém, e a condizer com a oferta da natureza, há toda uma hospitalidade que se estende por hotéis, hospedarias e particulares.

A ilha das Flores, atendendo à sua dimensão e localização geográfica, regista uma sazonalidade turística mais acentuada do que outras ilhas açorianas. Ainda assim, por altura das festas Cais das Poças, Santa Cruz vê crescer a chegada de turistas e o regresso de jovens estudantes e emigrantes.

Em Agosto, o bom tempo, a disponibilidade, o gozar de férias, a natureza e as instalações hoteleiras são aspetos que se conjugam para que a ilha rosa possa ser ainda melhor anfitriã para os que a (re)visitam.

Numa altura em que é esperado um aumento do fluxo turístico no município de Santa Cruz, os agentes dizem-se preparados para fazer face à procura.

Santa Cruz das Flores tem três unidades hoteleiras: Hotel Servi-Flor, Hotel Ocidental e o Hotel das Flores. Para uma estadia mais despretensiosa existe ainda a possibilidade de se recorrer às acolhedoras hospedarias florentinas, que sempre deixaram a melhor impressão a quem por lá passou.

E se a procura exceder a que para já se adivinha, “não há motivos para preocupações” refere a organização das festas, uma vez que também as residenciais e alguns particulares se preparam e se disponibilizam para o aluguer de quartos. Poder-se-á estranhar o facto de particulares abrirem espaços das suas casas para abrigar os forasteiros, mas é preciso recordar que mesmo durante o ano a ilha das Flores recebe muita população flutuante, como sejam os professores.

Para os mais aventureiros e amantes do contacto com a natureza, o acampamento pode ser também uma possibilidade. Apesar do concelho de Santa Cruz não dispor de um parque de campismo, locais propícios para esse fim não faltam na ilha.

Aliada ao campismo, a natureza inspiradora e envolvente é convidativa aos passeios pedestres, ao canyoning, à observação de aves, assim como ao mergulho e à pesca desportiva.

 

NB - Notícia: suplemento especial do jornal «Açoriano Oriental» e publicado por Fórum ilha das Flores

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PARA SEMPRE (MÃE)

Sábado, 06.08.16

 

Por que Deus permite

que as mães vão-se embora?

Mãe não tem limite,

é tempo sem hora,

luz que não apaga

quando sopra o vento

e chuva desaba,

veludo escondido

na pele enrugada,

água pura, ar puro,

puro pensamento.

Morrer acontece

com o que é breve e passa

sem deixar vestígio.

Mãe, na sua graça,

é eternidade.

Por que Deus se lembra

— mistério profundo —

de tirá-la um dia?

Fosse eu Rei do Mundo,

baixava uma lei:

Mãe não morre nunca,

mãe ficará sempre

junto de seu filho

e ele, velho embora,

será pequenino

feito grão de milho.

 

Carlos Drummond de Andrade, in 'Lição de Coisas'

 

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ILHA DAS FLORES, UMA MARCA DE DEUS

Segunda-feira, 01.08.16

(TEXTO DO PADRE RICARDO HENRIQUES)

A ilha das Flores, no arquipélago dos Açores, é um dos mais belos locais a visitar actualmente em Portugal! A razão desta afirmação, aparentemente exagerada, prende-se com o facto de a natureza naquela ilha açoriana se encontrar ainda, parafraseando a antropologia teológica, num estado de justiça original. A comprova-lo está também o facto de ter sido declarada reserva da biosfera pela Unesco! As variedades na tonalidade do verde, bem como a riqueza orográfica  verificada nas encostas escarpadas, nos declives por entre montanhas e vales fazem da ilha das Flores um cenário paradisíaco onde se pode contemplar inúmeras cascatas que durante todo o ano caem pelas rochas fazendo correr para o mar diariamente  milhões e milhões de litros de água! É este o cenário real que encontrará se tiver a ousadia de visitar a ilha das Flores! Ademais, há nela cenários inesquecíveis como por exemplo a Rocha dos Bordõe a fazer lembrar a majestade dos tubos de um grande órgão de uma catedral! Uma maravilha da natureza para quem entra na ilha pelo lado sul, a vila das Lajes, após percorrer o vale com o mesmo nome. Percorrendo a ilha para a zona oeste, encontra o deslumbrante vale da Fajãzinha que pode ser apreciado desde os miradouros Craveiro Lopes e da Cruz. Aqui as cascatas e ribeiras que de verão e de inverno correm para o mar são autêntica força da mãe natureza a reportar-nos  ao Criador. Ainda desde o miradouro Craveiro Lopes poderá apreciar o Poço da Ribeira do Ferreiro, erradamente apontado nas placas toponímicas como poço da Alagoinha. Continuando para o lado oeste da ilha das Flores deparará coma Aldeia turística da Cuada, um microclima no contexto da ilha, lugar propício à realização de um autêntico retiro espiritual. Silêncio, durante o dia, aliado á sinfonia dos pássaros com raiar  da madrugada, é um cenário natural ideal para o encontro com Deus. Continuando o percurso pelo lado oeste da ilha encontrará a Fajã Grande situada á beira-mar, com um belo promontório, uma pequena praia, e o peso da proximidade das rochas quase fazer lembrar a narração da glória(kebod) de Deus que encontramos na literatura profética do Antigo testamento. Destaque para a ribeira das Casas com a famosa poça do bacalhau onde é possível tomar banho. Da Ponta da Fajã Grande até à freguesia de Ponta Delgada poderá apenas percorrer um trilho que durará umas duas horas até chegar ao farol do Albernaz no extremo norte da ilha. Cerca de vinte quilómetros separam esta freguesia do Norte da vila de Santa Cruz. Neste percurso não deixe de apreciar a vizinha ilha do Corvo, em curvas que oferecem panoramas de grandiosidade inigualável. Santa Cruz é a porta de entrada numa ilha de 12×10 de superfície, (142 km quadrados), com o seu aeroporto de 1400 metros. Das onze igrejas da ilha destaque para a Matriz de Santa Cruz das Flores que apresenta uma frente verdadeiramente imponente. O vale da Fazenda, o Pico da Sé e os panoramas dos miradouros do Pico da Casinha e da Ribeira da Cruz completam um ambiente natural que envolve a mais populosa povoação da ilha, a vila de Santa Cruz! Termino aguçando a curiosidade para ver as sete lagoas a que o povo chama caldeiras, talvez a roçar a perfeição que o número sete indica na Sagrada Escritura!

 

*Este texto está publicado no site Igreja Açores e no Semanário Ecclesia disponível em www.agenciaecclesia.pt

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LENDA DO MONTE BRASIL – ILHA TERCEIRA

Sexta-feira, 15.07.16

(Texto de Ângela Furtado Brum)

Segundo a tradição, o príncipe dos mares vivia apaixonado por uma linda princesa de cabelos louros que vivia próximo aos seus domínios. A princesa, entretanto, não correspondia aos seus amores por já se encontrar apaixonada por outro príncipe. O senhor dos mares vivia consumido por ciúmes que muitas vezes o levavam à violência, e decidiu chamar uma fada ao seu reino marinho, com o objetivo de mudar o rumo aos acontecimentos.

A fada veio e tentou durante bastante tempo que a princesa desistisse do seu amor e se apaixonasse pelo Senhor do Mar. Fez magias e feitiços e exerceu todas as suas influências, mas sem nada conseguir devido ao profundo amor da princesa pelo seu príncipe. Furioso, o senhor dos mares acabou por expulsar a fada dos seus domínios.

Um dia, os dois apaixonados, que até ali tinham vivido só da troca de olhares e de suaves devaneios, trocaram o primeiro beijo. Foi um beijo rápido, mas o sussurro dos apaixonados foi escutado pelo senhor e príncipe dos mares, que acordou do leito de rocha de basalto negro e areia vulcânica onde dormia.

A fada também ouviu e atravessou apressadamente os céus em direção ao reino do príncipe dos mares, pois via a oportunidade de se vingar do príncipe, por quem entretanto se tinha apaixonado, e da princesa que lhe roubava a felicidade.

Quando chegou perto do Senhor do Mar, viu-o furioso a bater-se contra a terra com furiosas e encapeladas ondas cobertas de espuma branca e disse-lhe baixinho:

- Príncipe do mar, chegou a hora da vossa vingança. Aqui estou para fazer o que mandardes.

Cego pelo ciúme e pela raiva, este ordenou-lhe em tom de ódio:

- Correi, fada, fulminai o príncipe que roubou minha amada. Mas... lembrai-vos, só a ele!

Aceitando o desafio com a cabeça e convidando o Senhor do Mar a assistir à vingança que ia preparar, a fada levou-o pela mão em direção à praia onde estavam os dois apaixonados. Lá foram encontrar a princesa de cabelos soltos, dourados ao sol poente, levemente reclinada sobre o seu apaixonado.

Rapidamente, a fada soltou a mão do Senhor do Mar e se precipitou sobre o par enamorado, fazendo um encanto: o príncipe ficou transformado num grande monte (o Monte Brasil) coberto de denso arvoredo, levantando-se altivo de frente para o mar. A princesa recusou-se a abandonar o seu apaixonado e ficou para sempre reclinada na posição em que se encontrava. Com o passar dos milénios, transformou-se na baía e na cidade de Angra do Heroísmo. Encontram-se os dois unidos e embalados para sempre pelas noites e pelos dias, pelo eterno soluçar angustiado do Atlântico, príncipe e senhor dos mares.

 

Furtado-Brum, Ângela, Açores, Lendas e Outras Histórias.

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A LENDA DO MENINO DO CORO E A SINEIRA DA SÉ

Domingo, 24.01.16

(TEXTO DE ÂNGELA FURTAD BRUM)

 

No tesouro da igreja da Sé em Angra do Heroísmo existe uma exótica imagem de Santo António de Lisboa, em que este se encontra vestido como um menino do coro, representação pouco habitual.

Conta a lenda que, antigamente, um mestre da capela estava muito preocupado pois não conseguia a harmonia entre os seus pupilos e a festa seria para dali a poucos dias. Furioso, ameaçou bater a um aluno se este não começasse a entoar as músicas na forma correta. Apavorada, a criança fugiu pela catedral até que, à procura de um lugar para se esconder, se encaminhou para as torres da igreja.

Mesmo ali não se sentiu seguro, e à procura de um melhor lugar para se esconder, começou a subir a íngreme escada em caracol que levava aos sinos e aos pináculos das torres. Quando lá chegou pôs-se à escuta e, provavelmente confundindo o barulho do vento com o barulho de passos, julgou ter ouvido o mestre da capela no seu encalço. Não pensando nas consequências, atirou-se do alto de uma das torres.

A criança foi salva por um vento divino que a sustentou no ar, usando a opa da função do coro como para quedas. Levado pelo vento, o menino voou por três ruas até ser depositado no telhado do Convento de Nossa Senhora da Esperança, onde foi recebido pelas freiras com grande espanto.

Para comemorar esta ação divina e o salvamento do filho, o pai da criança mandou fazer a mencionada imagem de Santo António vestido de menino de coro, que durante muitos anos esteve exposta antes de dar entrada no tesouro da Sé Catedral dos Açores. O menino de cantor de coro passou a ser sacerdote na sua vida de adulto.

 

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SONETO DE NATAL

Quarta-feira, 23.12.15

 

(Machado de Assis)

 

Um homem, - era aquela noite amiga,

Noite cristã, berço no Nazareno, -

Ao relembrar os dias de pequeno,

E a viva dança, e a lépida cantiga,

 

Quis transportar ao verso doce e ameno

As sensações da sua idade antiga,

Naquela mesma velha noite amiga,

Noite cristã, berço do Nazareno.

 

Escolheu o soneto... A folha branca

Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,

A pena não acode ao gesto seu.

 

E, em vão lutando contra o metro adverso,

Só lhe saiu este pequeno verso:

"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

 

Machado de Assis, in Poesias Completas - Ocidentais

 

PS – Dedico este belo soneto de Machado de Assis a todos os leitores e visitantes do Pico da Vigia 2, formulando os meus mais sinceros votos de um Feliz Natal e um Próspero Ano Novo.

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IMACULADA

Terça-feira, 08.12.15

(SONETO DE VALÉRIO FLORENSE – PADRE JOSÉ LUÍS DE FRAGA)

 

Se o anjo Te saudou de gratia plena

E te chamou bendita entre as mulheres;

Se digna foste para receberes

Em teu seio de cândida açucena;

 

Quem faz tremer o Inferno quando acena,

Quem reparte a existência pelos seres;

Se nesses braços te foi dado teres

Deus, em criança e pequena.

 

Se te dirão bendita as gerações;

Se o Pai Te deu um trono de Rainha

E o Amor te aceita por esposa amada;

 

Se a ti se elevam mãos e corações,

E esmagaste a infernal Serpe daninha

- Foi por seres de sempre a Imaculada.

 

Valério Florense, in Caminhos.

 

NB - Valério Florense é o pseudónimo literário de um dos mais ilustres filhos da Fajã Grande, o padre José Luís de Fraga e que ocupa lugar de destaque, entre os mais importantes vultos da cultura açoriana, naturais da ilha das Flores. Filho de “Ti’Antonho do Alagoeiro”, nasceu em 1901, numa casa da rua da Tronqueira, mas passou a sua meninice e foi criado na casa do Alagoeiro, no cimo da rua que atualmente herdou o seu nome.

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POR NADA

Quinta-feira, 05.11.15

(POEMA DE RESENDE VENTURA)

 

No momento em que nada

O silêncio tenha a dizer-te,

Chora.

Chora em silêncio e por nada,

No só de dar vida ao silêncio que esconda

Uma lágrima inútil.

 

 

Resendes Ventura

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DECISÃO

Domingo, 25.10.15

(POEMA DE ARTUR GOULART)

Aproveitemos as palavras

e o silêncio.

Sigamos este rasto

Marcado na esperança do caminho.

Ponhamos os pés

à frente da alegria

juntemos as mãos

na construção do dia.

 

Artur Goulart No Fio das Palavras

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FUGAS PARA AS FLORES

Segunda-feira, 19.10.15

Foi, antes de mais, um jogo do gato e do rato com as nuvens. Tínhamos muita vontade de ver as lagoas que são dos principais ex-líbris das duas ilhas do grupo ocidental mas precisámos de paciência e persistência. Pelo meio, percebemos que há mais vida para além das lagoas e encontrámos lugares belíssimos, onde a vida corre devagar - e que pedem, por isso, estadias a condizer. Sem pressas, com tempo para aprender a ver.

E mais um cliché, que o povo nunca se engana: quem espera sempre alcança. Nós esperámos, por vezes desesperámos, mas ao quarto dia as Flores colaboraram e mostraram-se aos nossos olhos de principiantes. Já tínhamos a vista cheia de pastos verdes, de hortênsias azuis e rosadas, de fajãs dramáticas a cair para o mar, de montes a recortar o céu carregado - mas faltava-nos a (quase) fantasmagoria das lagoas para compor o cenário perfeito. Como num passe de magia, a escassas horas de levantarmos voo, a névoa levantou-se também e deixou-nos entrar no reino encantado da Funda e da Rasa, da Negra e da Comprida, da Lomba e da Branca.

Agora temos todo o tempo do mundo para vos contar como foi.

Aqui acaba a Europa

Aterramos nas Flores debaixo de chuva, mas é de calor quase tropical esta manhã de Agosto em Santa Cruz. Quem se estreia num lugar tem o péssimo hábito de querer abarcar tudo ao primeiro olhar, mas percebemos logo que aqui as regras são outras. É preciso saber esperar e é isso que vamos aprender nos próximos dias.

Por enquanto vamo-nos familiarizando com Santa Cruz das Flores, a vila primeiro, o concelho depois (3789 habitantes, contaram os Censos 2011). Na Avenida dos Baleeiros, o Buena Vista Caffé, com vista de mar privilegiada, está com pouca freguesia. Contamos apenas duas mesas ocupadas - numa delas, duas mulheres francesas, mãe e filha, talvez, estão a ler e dir-se-iam indiferentes ao contexto. Daqui a nada, porém, é vê-las descer as escadinhas que levam às piscinas naturais de Santa Cruz e entrar na água tépida que se abriga entre as rochas. Devidamente equipadas com óculos de mergulho, vão passar vários minutos a nadar com os peixes - e a fazer inveja a quem as vê de cima. As piscinas, não temos dúvidas, serão um dos principais cartões- de-visita da vila onde vivem 1724 florentinos.

Que, no entanto, parecem estar todos sabe-se lá onde. Percorrendo as ruas de Santa Cruz em redor da Igreja de Nossa Senhora da Conceição (fechada aquando da nossa visita, para obras de recuperação do interior), não nos cruzamos com muitos locais. Há mais turistas - ainda assim poucos e a esta hora, perto das 13h00, concentrados na esplanada da Praça Marquês de Pombal. São sobretudo espanhóis - sabemo-lo porque falam alto e riem-se com vontade, praticamente indiferentes à chuva que recomeçou a cair. Com a igreja em obras e o Convento de São Boaventura, que alberga actualmente o Museu das Flores, fechado (pelo menos a esta hora), não temos muito mais para fazer além de ver a vila acontecer. De tão pacata, Santa Cruz é um daqueles lugares onde se pode andar no meio da rua ou até deixar o carro aberto enquanto se vai ao café. Já não será tanto assim, mas de repente lembramo-nos de Raul Brandão - e mais tarde consultamos As ilhas desconhecidas, que trouxemos na bagagem: "Vejo às janelas, por dentro das vidraças, fisionomias tristes de velhos que estão desde que se conhecem à espera de quem passa - e não passa ninguém."

Uma voltinha à vila há-de ficar completa com paragem no Centro de Interpretação Ambiental do Boqueirão, construído nos tanques onde se armazenava o óleo que era derretido na Fábrica da Baleia. Foi inaugurado em Novembro de 2009 e, convidando a um mergulho pelos mares dos Açores, pode ser uma boa ideia para ocupar os miúdos em dias que desaconselhem grandes jornadas ao ar livre. O espaço não é muito grande, mas tem informação detalhada sobre a fauna e flora do arquipélago, mais concretamente da ilha das Flores.

E é a ela que nos vamos fazer agora - mesmo que as nuvens que vemos lá em cima não augurem nada de bom. Arriscamos, ainda assim, e já subimos em direcção ao Pico da Casinha. Estamos a mais ou menos 400 metros de altitude, informa Marco Melo, da empresa de turismo de aventura West Canyon, que nos acompanha nesta viagem pela ilha, e começamos a sentir na pele (literalmente) o cliché que dá conta que nos Açores é possível ter as quatro estações num dia. Saímos do Verão de Santa Cruz e agora estamos praticamente no Inverno - e isto ainda é Santa Cruz.

Queremos acreditar que deste Pico da Casinha há realmente vistas fantásticas sobre o vale da Fazenda de Santa Cruz, mas esta névoa que nos persegue à medida que subimos deixa ver pouco para além do que temos imediatamente à frente dos olhos: muros forrados a hortênsias a delimitar os terrenos verdinhos, mais vacas do que pessoas e um silêncio quase fantasmagórico. Há outro miradouro ao virar da esquina - Arcos da Ribeira da Cruz, nas proximidades da qual se terão fixado os primeiros povoadores da ilha, no século XV - mas parar aqui serviria de pouco. "As nuvens nos Açores têm uma vida extraordinária", diz Raul Brandão no livro que nos acompanhará ao longo de toda esta jornada açoriana - e não podíamos estar mais de acordo.

Já percebemos que daqui não levamos nada, nem por sombras conseguiremos avistar as sete lagoas que são uma das imagens de marca das Flores. Descemos, portanto, e vamos fixar-nos mais perto do mar, onde as nuvens não parecem ter tanta vida. Antes, porém, paragem no miradouro do Portal: a Fajãzinha é uma manta de retalhos de campos verdes molhados de orvalho e tem a Aldeia da Cuada por cima; a cascata da Alagoinha, talvez o maior spot da ilha, hoje não dá mais a ver do que uns risquinhos esbranquiçados na rocha de vegetação compacta; lá ao fundo, a Fajã Grande e o ilhéu de Monchique, perdido no Atlântico.

É para lá que vamos agora, para a Fajã Grande, já nas Lajes das Flores, que exibe com orgulho o título de concelho mais ocidental da Europa. Foram-se as nuvens e voltamos a entrar no Verão. Junto ao mar, a Fajã Grande mais não é do que uma evocação da geografia. É nas Flores que acaba a Europa e começa a América e isto, só por si, vale muito. Quem não gosta de dizer aos amigos que já esteve no ponto mais ocidental da Europa? Que tecnicamente é, no entanto, o ilhéu de Monchique, um rochedo isolado no mar.

É também na Fajã Grande que tem morada o Poço do Bacalhau, uma cascata que desagua na lagoa com o mesmo nome e que no Verão funciona como complemento ao mar. Nós, porém, não trocamos as águas azul-turquesa por nada deste mundo e deixamo-nos ficar por aqui. Mesmo que apenas deitados em cima do muro a ouvir o barulho das ondas. Não se está nada mal, neste ponto mais ocidental.

 

Sandra Silva, Fugas Viagens, Jornal Público de 3/9/1

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UMA TECEDEIRA DE CANTIGAS CHAMADA MARIA ANTÓNIA ESTEVES

Domingo, 04.10.15

(Texto de Victor Rui Dores)

 

Numa altura em que praticamente ninguém se interessa pelo Cancioneiro dos Açores (e os poucos que o fazem, através do Cancioneiro Geral de Armando Côrtes-Rodrigues, andam a lavrar regos já lavrados…), é de saudar a insistência e a persistência de Maria Antónia Esteves, que, numa linha de contínua e continuada investigação, vai recolhendo, registando, gravando e cantando a música tradicional dos Açores e suas incidências com a música vinda do continente português, da Europa, das Américas, do Brasil e de África.

Muito haveria a dizer sobre esta cantora e etno-musicóloga, que tem talento, sensibilidade e bom gosto. Porque não é impunemente que se é herdeira de uma tradição musical e poética com raízes fundas e profundas nos cantares de gesta medievais e na melhor poesia trovadoresca. Porque não é impunemente que se é trisneta de baleeiros que balearam até ao Oceano Ártico. E porque não é impunemente que se é sobrinha do grande folclorista açoriano padre José Luís de Fraga, e se cresceu no seio de outros familiares para quem a música constituiu sempre um compromisso de paixão.

Depois de Açores (45 r.p.m., 1981), Manjericão da Serra (LP, 1984), Canto do Prisioneiro (LP, 1988) e Com o Rosto a Este Vento (CD, 2005), temos agora Entre França e Aragão(2014) como título do mais recente CD de Maria Antónia Esteves e que, a meu ver, constitui uma das mais porfiadas experiências musicais dos últimos anos em solo pátrio, sendo que, nos Açores, não há precedentes de um disco com esta temática. Um disco com boa apresentação gráfica e com um booklet que nos dá informação muito precisa sobre a origem, a história e outras incidências dos temas recolhidos.

Com a sua voz telúrica, bem timbrada, límpida e expressiva, superiormente acompanhada à viola de arame (ou viola da terra) por Miguel Pimentel, que é também autor dos eficazes e eficientes arranjos para viola(s), Maria Antónia Esteves canta sentimentos, emoções e estados de alma. Com expressão lírica e grande serenidade.

Ela canta errâncias marinheiras e vivências baleeiras (“Um Marinheiro”, recolhida na ilha das Flores pelo padre José Luís de Fraga), evoca o amor e a dolência nostálgica da alma açoriana (“O Meu Bem”, por ela recolhido na ilha de São Jorge, ”Cabeçal onde me deito”, recolhida na ilha de São Miguel por Miguel Pimentel, e “Lindos Amores”, recolha de Manuel José Tavares Canário em São Miguel), havendo a destacar a relação que a cantora/recoletora estabelece entre melodias/danças do folclore açoriano e as suas congéneres do Sul do Brasil (Rio Grande do Sul e Santa Catarina), nomeadamente “Ratoeira” e “Terno de Reis”, temas que, sendo de origem açoriana porque levados para o Brasil por colonos açorianos no século XVIII, foram naquelas regiões recolhidos. E aqui muito haveria a dizer sobre as marcas da música criada nos Açores que a diferencia da matriz portuguesa, flamenga, americana, africana ou brasileira, ou seja, o fenómeno da adoção, adaptação, alteração e criação local de toadas populares açorianas – matéria sobre a qual me venho debruçando nas últimas três décadas.

Mas a cereja em cima do bolo deste disco é mesmo a faixa “A Donzela Guerreira”, versão recolhida na ilha de São Jorge, tratando-se de um dos romances tradicionais mais populares nos países do sul da Europa, e que dá conta da história de uma jovem que vai combater a guerra “entre França e Aragão” fazendo-se passar por homem.

E depois há essas duas preciosidades melódicas e harmónicas que são o “Fado Maria da Luz” (recolhido por Maria Antónia Esteves na ilha de São Jorge) e “Fado da Meia Noite” (recolhido por Miguel Pimentel em São Miguel). Por isso mesmo, o que escutamos neste disco não é folclore, mas música autêntica e profunda, toada intemporal e universal.

Em todas as cantigas do disco, a voz de Maria Antónia Esteves funde-se, em comunhão espiritual e em supremo diálogo, com o toque rasgado e puro da viola de Miguel Pimentel (filho de Manuel Moniz que foi igualmente notável tocador de viola), cuja excelente técnica e extraordinária capacidade solística estão bem patentes em outros três temas: “Pezinho”, “Chamarrita do Meio” e “Sapateia”. Aliás, este disco é também uma declaração de amor e de dignificação à nossa viola da terra, às suas sonoridades, capacidades e potencialidades. (De resto não é difícil tocar viola da terra, o que é difícil é tocá-la bem…).

De grande qualidade, este disco Entre França e Aragão (viagem musical e poética feita a partir dos Açores mas com rotas traçadas a pensar noutros espaços universais, ou seja, com música que parte da ilha para o mundo e que, do mundo, regressa à ilha) cumpre um verdadeiro serviço público. Por isso, mas não só por isso, deve merecer a nossa melhor audição.

Uma coisa é certa: na solidão comprazida de São Pedro do Nordestinho, na ilha de São Miguel, a trovadora Maria Antónia Esteves, sorriso radioso e sereno (calma por fora mas criativamente muito agitada por dentro), continuará a dar voz e expressão à alma de um povo. Porque é esse o seu destino. Porque é essa a sua missão. E porque é essa a sua forma de perseguir caminhos de sonho e felicidade.

 

Victor Rui Dores in Açoriano Oriental. 2 Out. 2015

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A VIDA TÃO BELA E TÃO FRÁGIL

Sexta-feira, 02.10.15

(TEXTO DE KATHY RITA)

Sei que estão a par do acidente no Corvo no passado dia 24 de agosto, foi um acidente trágico na nossa pacata ilha onde por norma, nada de grave se costuma passar, muito menos algo tão fatídico. Criada numa cidade onde os acidentes, homicídios, raptos e as demais cenas infelizes são o pão nosso de cada dia, onde estive num centro comercial em plena cidade de Londres em que um louco começou a disparar tiros como se não houvesse amanha, onde já vi na baixa de Lisboa, logo pela manhã, gente a sangrar na berma da estrada com cortes feitos por uma navalha, mas muitos anos de Açores e desabituei-me a essas tragédias à porta de casa. Os corvinos e não só, (pelos comentários e mensagens que tenho recebido nas redes sociais de todos os cantos do mundo), estão todos de alma pesada. Uma vida, a coisa mais preciosa e mais frágil, perdeu-se e os outros que continuam a lutar para manter a sua.

No entanto também recebi mensagens em que me diziam para abandonar este “fim do mundo”, que não era sítio digno de se viver, sendo americana não merecia viver num sítio tão desolado. Como se isso não bastasse, as coisas que tenho lido no mundo virtual tem sido deverás infeliz e de muito mau gosto. O Corvo não tem muita coisa, claro que não, é pequeno, não se justifica nem faria sentido ter o que uma metrópole tem. Para os turistas, a ilha é o paraíso, ficam fascinados que em pleno 2015, ainda existem sítios onde podem andar à vontade nas ruas e em que a própria comunidade os acolhe como se sempre vivessem cá. O único ponto negativo que vejo em viver nestas ilhas, do grupo Ocidental é que estamos longe de um hospital bem equipado, o que temos por cá é limitado, é básico, serve para situações menos graves e existe o suficiente para nos manter vivos até chegarmos a um hospital. Mas mesmo assim com recursos mínimos, ainda temos as equipas médicas, bombeiros, autoridades e até a população (um bem haja a todos vós que de tudo fazem a pensar na vida dos outros!), que se desdobram em esforços para que o pior não aconteça até cá chegar um avião ou um helicóptero de salvamento. (Outro louvor a estas tripulações que dedicam as suas vidas para salvarem tantas outras!) No meu simples entender, o fim do mundo não é aqui nem no resto dos Açores, vejo sim, o fim do mundo cada vez que ligo a televisão! Gente fugindo e morrendo no Mediterrâneo, e eu a ver golfinhos e falsas orcas no Atlântico entre Corvo e Flores, gente acordando ao som dos mísseis por cima da cabeça, eu a ouvir os pardais pela manhã e os cagarros à noite, gente que não pode andar no caminho sem serem assaltados, e eu aqui às 11 da noite, sozinha, no descampado a tirar fotos às chuvas das estrelas, não diria que vivo no fim do mundo mas sim num lugar (e já são escassos) em que possa viver, no verdadeiro sentido da palavra.

De lamentar sim, foi a vida ainda tão jovem, que se perdeu, com tanto ainda pela sua frente, uma vida que por muito que se tentasse não a poderíamos trazer de volta. Era filha, amiga, irmã, neta, vizinha, namorada de alguém, logo, muitas outras vidas tragicamente abaladas. Os feridos estão nas nossas orações e todos os dias ao saber um pouco sobre o estado clínico de cada um, pedimos à nossa padroeira que olhe por eles. O Corvo está de luto, não era habitante mas era alguém que nos queria visitar, fazer parte da nossa ilha nem que fosse só por um dia, mas ficou para sempre, nos nossos corações. Dizem que o tempo apaga tudo, é mentira, não apaga, só nos ensina a viver com a ferida mas longe de apagar o que quer que seja. A família e os amigos jamais irão esquecer esta jovem, nem nós Corvinos nem Açorianos.

 

Kathy Rita, in Açoriano Oriental, 28 Set. 2015

 

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PERDER NAS URNAS, GANHAR NA SECRETARIA

Terça-feira, 29.09.15

(Texto de Alexandre Homem Cristo)

 

Vota-se para eleger deputados, mas é indesmentível que no fundamental está em causa a escolha de um primeiro-ministro. É contrariando esse princípio que, perdendo, Costa pretende ganhar na secretaria

Dois milhões e meio de estúpidos. É este o número estimado de portugueses que votarão na coligação Portugal à Frente (PàF) no próximo dia 4, e é assim que no PS os qualificam. Correia de Campos verbalizou-o – o PS vai ganhar as eleições pois “o povo não é estúpido”. E a incredulidade reinante nos bastidores socialistas perante as sondagens, conforme noticia o semanário Sol, confirma o enraizamento da tese no Largo do Rato.

São conhecidos os erros políticos do PS, assim como a sua perturbadora incapacidade para os corrigir. Mas o que está latente nestas declarações de Correia de Campos não é um erro estratégico, é algo que permanece cravado no código genético do PS: a convicção de uma superioridade moral no centro-esquerda ocupado pelos socialistas, que certifica o direito natural do PS à governação do país. É, aliás, um clássico da política portuguesa desde 1976: nas urnas, os votos valem todos o mesmo enquanto, nos jornais e nas ruas do Príncipe Real, há uns que são “melhores” e mais “inteligentes” do que outros.

É por isso que o PS pode perder as eleições, embora tal cenário, aos olhos da arrogância socialista, apenas seja plausível se o povo estupidificar. Ora, como as contingências de uma democracia são uma chatice e a estupidificação é possível, a ambição de António Costa surgiu descontraidamente noticiada no Expresso: mesmo que o PS perca, será ele a formar governo.

Só a arrogância de quem julga deter um direito natural ao poder justifica a insólita ambição de António Costa de governar mesmo que a coligação PSD/CDS vença as eleições – bloqueando a aprovação do Programa de Governo de uma maioria relativa PSD/CDS e construindo entendimentos à esquerda (de resto, absolutamente improváveis). A legalidade não constitui obstáculo, é certo. Mas a ausência de legitimidade política deve estabelecer-se como impedimento: os portugueses votam nas legislativas para eleger deputados, mas é igualmente indesmentível que o que está em causa é fundamentalmente a escolha de um primeiro-ministro. E é contrariando esse princípio que, se perder nas urnas, Costa pretende ganhar na secretaria, contornando uma eventual escolha popular que eleja Passos Coelho primeiro-ministro. O aviso fica feito: sem maioria absoluta, nenhuma coligação que exclua o PS terá condições institucionais para formar governo.

Sejamos realistas: o cenário é, para além de inédito na democracia portuguesa, extremamente improvável. Qual a probabilidade de o PCP viabilizar um governo do PS por via de uma coligação ou de um acordo parlamentar? Zero. E qual a probabilidade de o BE obter um número de deputados suficiente e, para além disso, estar disponível para um compromisso com o PS? Quase zero. Portanto, mais do que discutir o cenário com que António Costa sonhou, importa salientar que este foi recebido no PS e na imprensa com naturalidade. Ou seja, ninguém aí encontrou uma violação da vontade eleitoral dos portugueses. E ninguém aí identificou um grave problema de legitimidade política. É isso que é revelador: independentemente da vontade dos portugueses, há mesmo quem considere que vale tudo para levar o PS ao poder – e, no fundo, substituir os portugueses na sua escolha eleitoral, numa espécie de uma apropriação da “vontade popular”.

Ora, quem tiver um pouco de memória verificará que, no interior do PS, nada há de surpreendente nesta prepotência, que nasceu com Soares e se afirmou com Sócrates, sustentada no desprezo por um certo provincianismo português – marca histórica do desdém face a Cavaco Silva, Passos Coelho e até António José Seguro, todos vistos no Largo do Rato como meros saloios – e que estabeleceu a confusão entre o PS, o Estado e o poder (um putativo «l’État c’est moi») que Sócrates tão bem personificou. Aí, reconheça-se, o PS de António Costa não é diferente do de Sócrates nem do de Soares: foram os círculos de poder das elites lisboetas no PS que o lançaram para a liderança do partido, perpetuando os tiques do passado. Mas o país, sim, está muito diferente hoje do que era em 2011, em 2005 ou nos anos dourados das décadas de 80 e 90. E, portanto, não é um acaso que tanta coisa tenha falhado na actual campanha do PS.

No dia 5 de Outubro, talvez o PS perceba, finalmente, que o seu maior problema não se encontra nos cartazes, nos discursos ou em alguma estratégia de marketing político mal arquitectada. Pelo contrário, habita na sua própria raiz identitária: é a sua arrogância (moral, social e política) que impede o PS de reconhecer e corrigir os seus erros, em vez de os apontar aos portugueses ou à comunicação social. E é essa prepotência que afasta o partido dos moderados do centro e de quem procura uma solução de estabilidade política. Ora, se o PS quiser ter futuro nestes tempos turbulentos que se avizinham, terá de mudar isso, o que não será fácil. É que Seguro tentou fazê-lo e perdeu o partido. E Costa, que não o considerou necessário, arrisca-se agora a perder as eleições – nas urnas e na secretaria.

 

Alexandre Homem de Cristo, in Jornal Observador 28-09-15

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INIMIGAS

Quarta-feira, 23.09.15

(CONTO DE MIGUEL TORGA)

 

Desde o arraial da Senhora da Fraga que a Cacilda e a Sofia se não podiam ver. Até ali, muito amigas, sempre agarradas uma à outra, como irmãs. Mas meteu-se a ciumeira entre elas, e aquela amizade foi um ar que lhe deu. Fiadas no paleio do Augusto, a prometer um tostão a uma e cinco vinténs à outra, pareciam cadelas ao mesmo osso. Não saberem que quem é homem diverte-se, e que em coisas assim o melhor é fazer das tripas coração e deixar correr! Qual o quê! Puseram-se a dar ouvidos aos vinte anos, e, não e nada, faziam lume mal se encaravam.

Na tal noite da zanga, andavam juntas no adro, felizes da vida, a comer pêras e a beber limonada, quando o rapaz se aproximou, se eram servidas de qualquer coisa. Que muito obrigadas, mas que não tinham fome nem sede.

- E uma prenda?

Que aceitavam, já que estava tão daimoso. Ora, o Augusto, na escolha dos ramos de rebuçados, teve tais artes, que só com a quadra que neles vinha encheu as duas da miragem dum amor sem misturas. Umas patetas! O certo é que, mal o rapaz tirou a Sofia para dançar, a Cacilda ficou como se lhe tivessem dito que o fim do mundo era naquele instante.

Os arraiais da Senhora da Fraga são um bota-fora a noite inteira, com duas músicas a estrondar, uma de cada lado da capela. Fogo, nem se fala. Até de Sanfins se pode ver o céu de Faiões, sem um minuto de intervalo, aberto de claridade. Coisa rica! Pipas e pipas de vinho debaixo da carvalhada, e do melhor, que parece que todos capricham nisso, tascas de fritos, mesas de cavacas e de refrescos, medas de regueifas, carros de melancias, um louvar a Deus. Fartura de tudo para quem tiver conques. De maneira que quem diz: vou ao arraial da Senhora da Fraga e vai, já se sabe que não arranca de lá antes do alvorecer. Por isso, até a Santa estremeceu no altar quando a Cacilda, a todo o pano, que se ia embora. Perguntava-lhe a ti Constança, abismada:

- Que mosca te mordeu, rapariga?! Tu estás maluca ou quê?!

Felizmente que o Augusto valeu àquilo, arredondando a fala e convidando-a também.

Toda babada por dentro, que não, que não dançava. Rogasse outra vez a Sofia. O rapaz insistiu, e o que foste fazer! Agarrou-se a ele e atirou-se à cana verde que parecia um pé de vento! De madrugada, comiam-se uma à outra.

E valia a pena! As palermas a adorá-lo, a quebrar lanças pelo grande adereço, e o ladrão de caçoada! Ainda o cheiro dos foguetes andava pela serra a cabo, já os banhos dele a correr em Favaios com uma de lá!

Cuidaram todos que, morto o bicho, morta a peçonha. Oh, oh! Nem assim deram o braço a torcer! Engoliram a desfeita e ficaram como dantes, se não pior. E mutuamente a atribuírem-se as culpas de o Augusto bater as asas!

O grande prejuízo! Que valia ele mais do que os outros? Nada. E a prova disso é que não tardou muito estavam casadas, com dois rapazes bem jeitosos, de resto, o Alberto e o Raimundo. Que queriam mais? Mas meteu-se-lhes aquela sizama no corpo, que mesmo depois de o verem arrumado e de se arrumarem também, continuavam a ferro e fogo.

Na boda de ambas ainda houve quem tentasse fazer as pazes. Bondou de bem! Danadas!

Como a Sofia se recebeu primeiro, disse-lhe a Rosa:

- Eu se fosse a ti, convidava a Cacilda... Fostes tão amigas na mocidade!...

Que a não queria ver nem pintada numa parede. E logo naquele dia, de mais a mais! Uma falsa, que se lhe atravessara no caminho como urna ladra! Não. Havia ofensas que nem à hora da morte...

E a Cacilda, quando lhe chegou também a vez, por sinal na mesma semana - o povo dizia até que elas andavam ao desafio -, mal a Pirraças lhe falou na Sofia, credo, mudou de cor e perguntou muito a sério se lhe queriam estragar a festa. A escândula que tinha da outra ia com ela para a sepultura. Com tal gente, bom dia 1 É não fazer caso e deixar correr. Dar tempo ao tempo, que cura meadas e embranquece os cabelos.

Tal e qual. Não tardou muito, nove meses contados, mais coisa menos coisa, tudo se compôs a contento de Faiões.

Certas como relógios, o Abril a cair, e cada uma com o seu menino. Mas a Sofia esteve tão mal, tão doente, custou-lhe tanto o dela, que ninguém a julgava. Febres, acidentes, albuminas, que foi preciso vir o médico, e mesmo assim esteve desenganada. Leite para o filho, viste-o. Sequinha como as palhas! O infeliz chupava um pano molhado em água açucarada, que a Rosa lhe chegava à boca, engolia uma pinga de leite de cabra, cortado, e viva o velho! Mirradinho, de todo.

A Cacilda soube do caso ainda antes de se erguer. Nas terras pequenas, as boas e as más notícias entram pelas frinchas da parede. E já com outra humanidade na alma, mãe de todos os pimpolhos do mundo e solidária com todas as mães amigas ou inimigas, mandou chamar a Rosa e pôs-lhe as fontes do peito à disposição. Com uma condição apenas: que a Sofia não soubesse. À laia de passear o menino, lho levasse lá. E ela havia de ver como o pequeno arribava, que tinha leite naqueles seios que chegava para um regimento. Até lhe doíam!

Assim foi. A Sofia, a poder de remédios e mais remédios, ia tendo mão na vida. E enquanto ela dormia, desmaiava, ou estava para ali amodorrada, a Rosa era como o vento: agarrava no garoto e corria a casa da Cacilda a fartá-lo.

Até que a Sofia arribou. Levantou-se muito fraca, muito amarela, e quis dar de mamar ao filho. Já podia. Mas, quando foi abrir a blusa e pôs à mostra as duas bexigas secas, nem o catraio as quis, nem a Rosa consentiu que lhas metesse na boca.

- Guarda lá isso, mulher, que até o podes envenenar! Eu lhe darei de comer. Olha que à fome não morre!

Humilhada, a Sofia começou a chorar. E ainda mais desespero sentiu, pouco depois, ao ver a criança espernear nos braços da Rosa, recusar a chupeta e começar num berreiro de atroar os céus. O seu rico filho estava doente. Nem comer queria!

A Rosa é que não atribuiu grande importância à birra, como lhe chamou. A criança precisava de sair um migalho, de apanhar sol... Ia passeá-la. A Sofia ficou só, cheia da sua mágoa. Nunca fora fortalhaça, como a Cacilda, mas sempre esperara poder criar um filho, se Deus lho desse. Afinal... E por via disso o menino tinha de beber à sobreposse leite de cabra, que se calhar lhe fazia mal. Valha a verdade que não estava magro... Contudo, sempre era criado como os enjeitados. Que alegria para a Cacilda! Malucava nisto, quando a Rosa entrou com o rapaz, calado e sonolento.

- Vamos experimentar outra vez?

A Rosa respondeu que sim, que ia encher a mamadeira... E nunca mais voltou. Como o menino não ch orava e se lhe ferrou a dormir no colo, a babar-se, a Sofia desconfiou. Ali andava segredo. No meio da tarde cansada, a doente foi-se deitar e pegou no sono. A criança lá estava no berço, rosada como um anjo. Apesar de adormecida, a Sofia continuava na sua grande labuta. A maternidade incompleta doía-lhe na raiz do instinto. E via no sonho o pequeno mirrar-se de fome, vítima inocente de uma mãe que o não era. Ofegante, tentava libertar-se do pesadelo. Não conseguia. Cada vez mais sumido, esquelético, o infeliz acusava-a com os seus grandes olhos negros, que cintilavam da escuridão de umas órbitas fundas como poços.

Num grito de terror, acordou. E deu pela falta do filho.

- Tia Rosa, o menino? - Perguntou, aflita. Respondeu-lhe o homem, da cozinha:

- Tenho-o aqui ao colo... Vê se dormes.

Cresceu-lhe a desconfiança. E no dia seguinte, pé ante pé, ainda a cair de fraqueza, quando a Rosa foi dar um dos tais passeios ao garoto, seguiu-a. Da esquina da rua viu-a chegar à eira e entregar o miúdo à Cacilda, que estava sentada ao sol. Aproximou-se. O pequeno parecia um bacorinho no peito da inimiga. E, quando as outras deram conta, estava ela de pé, maravilhada, a dizer:

- Olha lá se me engasgas o rapaz, ó Cacilda!

 

Miguel Torga Contos da Montanha

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A PRINCESA E A ERVILHA

Sexta-feira, 21.08.15

(UM CONTO DE H. C, ANDERSON)

Havia uma vez um príncipe que queria se casar com uma princesa, mas não se contentava com uma princesa que não fosse de verdade. De modo que se dedicou a procurá-la no mundo inteiro, ainda que inutilmente, pois todas que via apresentavam algum defeito. Princesas havia muitas, porém não podia ter certeza, já que sempre havia nelas algo que não estava bem. Assim, regressou ao seu reino cheio de sentimento, pois desejava muito uma princesa verdadeira!

Certa noite, caiu uma tempestade horrível. Trovejava e chovia a cântaros. De repente, bateram à porta do castelo, e o rei foi pessoalmente abrir.

No umbral havia uma princesa. Mas, Santo Céu, como havia ficado com o tempo e a chuva! A água escorria por seu cabelo e roupas, seu sapato estava desmanchando.

Apesar disso, ela insistia que era uma princesa real e verdadeira.

"Bom, isso vamos saber logo", pensou a rainha velha.

E, sem dizer uma palavra, foi ao quarto, tirou toda a roupa de cama e colocou uma ervilha no estrado, em seguida colocou vinte colchões sobre a ervilha, e sobre eles vinte almofadas feitas com as plumas mais suaves que se pode imaginar.

Ali teria que dormir toda a noite a princesa.

Na manhã seguinte, perguntaram-lhe como tinha dormido.

- Oh, terrivelmente mal! - Disse a princesa. - Não consegui fechar os olhos toda a noite. Vá se saber o que havia nessa cama! Encostei-me em algo tão duro que amanheci cheia de dores. Foi horrível!

Ouvindo isso, todos compreenderam que se tratava de uma verdadeira princesa, já que havia sentido a ervilha através dos vinte colchões e vinte almofadões. Só uma princesa podia ter uma pele tão delicada.

E assim o príncipe casou com ela, seguro que sua era uma princesa completa. A ervilha foi enviada a um museu onde pode ser vista, a não ser que alguém a tenha roubado.

 

Hans Christian Andersen                             

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O GATO VAIDOSO

Quinta-feira, 13.08.15

 

(UM CONTO DE MONTEIRO LOBATO)

 

Moravam na mesma casa dois gatos iguaizinhos no pelo, mas desiguais na sorte. Um, amimado pela dona, dormia em almofadões. Outro, no borralho. Um passava a leite e comia em colo. O outro, por feliz, se dava com as espinhas de peixe do lixo.

Certa vez, cruzaram-se no telhado e o bichano de luxo arrepiou-se todo, dizendo:

– Passa ao largo, vagabundo! Não vês que és pobre e eu sou rico? Que és gato de cozinha e eu sou gato de salão? Respeita-me, pois, e passa ao largo…

– Alto lá, senhor orgulhoso! Lembra-te de que somos irmãos, criados no mesmo ninho.

– Sou nobre. Sou mais que tu!

– Em quê? Não mias como eu?

– Mio.

– Não tens rabo como eu?

– Tenho.

– Não caças ratos como eu?

– Caço.

– Não comes rato como eu?

– Como.

– Logo, não passas dum simples gato igual a mim. Abaixa, pois a crista desse orgulho e lembra-te que mais nobreza do que eu não tens – o que tens é apenas um bocado mais de sorte…

 

Monteiro Lobato

 

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publicado por picodavigia2 às 00:06

A SENHORA PROFESSORA

Domingo, 02.08.15

Chegou no Carvalho setembro. Vinha do Faial. Trazia, para além de uma enorme vontade de ensinar as primeiras letras à ganapada, uma juventude inebriante, uma desenvolta sagacidade e uma deslumbrante sublimidade. Uma beleza enlouquecedora, uma simpatia enternecedora! É verdade que não conhecia ninguém na freguesia mas depressa se afeiçoou a todos. Só quem nunca se cruzou com ela ou quem não tinha um mínimo de sensibilidade e bom gosto é que podia abster-se de admirá-la, de louvá-la, de bendizê-la. Por recomendação de um amigo do pai que fora guarda-fiscal na Horta, hospedou-se na Assomada, em casa da tia Anastácia que vivia com a filha Filomena. E não apenas a Assomada mas a freguesia toda se deslumbrou de tanta beleza, encanto e jovialidade. Os rapazes desejavam-na com concupiscência e as raparigas olhavam-na com inveja. Os velhos auguravam-lhe inebriante predestinação e as crianças, sobretudo as que frequentava a escola e com as quais convivia o dia inteiro, adoravam-na. Nunca se vira na freguesia tanta graça, tanto encanto, tanta formosura. Além disso era muito dada, falava com todos e sem uma fibra de vaidade. Um fascínio! Partilhava com todos estes dotes uma enorme simplicidade e uma deslumbrante humildade. Trazia consigo, apenas uma pequena mala de couro, onde guardava um ou dois lenços, um perfume suave, as chaves de casa e da escola e outras pequenas bugigangas. Era sobretudo, na escola, durante as aulas que cativava todos. Conhecia as crianças uma a uma e amava-as e tratava-as como se de filhos se tratassem. Vezes sem conta sentava os da primeira classe no seu próprio colo e quando o filho da Gertrudes deitou um pé fora do lugar foi levá-lo às cavalitas a casa, perante o encolhimento da mãe, toda envergonhada. Era como se Nosso Senhor lhe entrasse pela casa dentro. Lamentava-se apenas duma saudade medonha que, a cada momento, lhe atormentava o coração. Os pais, sozinhos, lá longe, em Castelo Branco não lhes saíam da cabeça e, para cúmulo o Carvalho, sempre com uma cartinha e uma caixinha de mimos da mãe, visitava a ilha de mês a mês. Quatro semanas e às vezes mais, vazias de notícias. Pior! Um mês sem lhes poder dar uma palavra de carinho ou ter um gesto de ternura, ou partilhar um afeto.

Embora recebesse de todos os habitantes da freguesia, que até enchiam a casa da velha Anastácia de cestinhas de batatas e cebolas, de litros de leite, de queijos frescos e quartos de bolo, por vezes ainda a fumegar, grande amizade, estima e consideração, eram as saudades dos pais que mais a atordoavam. Da própria pasmaceira da freguesia, do bafo da unissonância que a envolvia nunca se havia de aborrecer. A solidão nunca lhe fora tormento, de tal modo se embriagara no quotidiano morno e monótono da mais ocidental povoação da Europa, que a via correr para a escola de manhã e regressar apenas à noitinha, como se esta fosse e era de facto a única razão de ser da sua presença ali, debaixo daquelas rochas a abarrotar de barrocas e quedas de água. E a senhora professora adaptou-se muito bem aos hábitos e costumes da freguesia, à monotonia daquele pequeno lugarejo encastoado entre o mar e a rocha. Todos a adoravam, rodos a queriam ali para sempre.

Certo dia, porém, o destino modificou-lhe tão desusada vivência. Chegou à freguesia, de visita, um americano. Solteiro, bom rapaz, honrado, filho de pais honestos e bonito, muito bonito. Além disso dizia-se à boca pequena que nadava em dinheiro. Apaixonaram-se loucamente. Dizia, quem privou com eles que foi amor à primeira vista. E passado um mês a senhora professora deixou a escola, as crianças, a casa da tia Anastácia, a freguesia, a ilha e até os pais sozinhos em Castelo Branco e pisgou-se com o americano para a América.

 

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AS FESTAS DO ESPÍRITO SANTO NOS AÇORES

Quarta-feira, 20.05.15

(TEXTO DE CARLOS ENES)

Desde o século XVI que as festas em honra do Divino Espírito Santo começam a ser postas em causa e até perseguidas pelos membros mais altos da Igreja Católica. Julgavam os contra-reformistas do Concílio de Trento que elas tinham um cunho acentuadamente pagão, pelo que deviam ser saneadas do calendário de festividades católicas. Também em Portugal, incluindo os Açores, se verificou uma notável e eficaz oposição a tais festividades. Nos Açores, porém, houve forte resistência a tal oposição eclesiástica, pelo que as festas continuaram a celebrar-se com todo o seu esplendor e grandiosidade, mantendo muitos dos tais ritos ancestrais alcunhados de “pagãos” pelos responsáveis da Igreja Católica.

No entanto, nas ilhas açorianas as festas de Espírito Santo, vividas e celebradas pelo povo com grande devoção, até porque resultavam muitas vezes como forma de agradecimento a Deus pelo auxílio recebido por altura das crises sísmica, foram também objecto de perseguição, sobretudo durante a dominação filipina, época em que chegaram a ser proibidos os bodos.

Estas festas foram sendo aos poucos, pela dinâmica da própria sociedade, depuradas de várias "atitudes de desrespeito" para com o sagrado, como resultado da própria evolução dos costumes e das práticas sociais.

Os anos sessenta do nosso século correspondem ao início do grande ponto de viragem da sociedade açoriana. Nesta década assiste-se à desarticulação das formas de solidariedade comunitárias que ainda subsistiam entre os camponeses. A partir dos anos setenta, modificou-se profundamente a estrutura da sociedade tradicional açoriana, com a diminuição da população activa ligada à agricultura e o crescimento acentuado do sector de serviços. Nos meios rurais, com a predominância da actividade pecuária, instalou-se o individualismo e muitas formas de solidariedade foram desaparecendo nestes últimos anos. Ao mesmo tempo, cresceram os índices de escolaridade e alfabetização em todo o arquipélago e os valores e padrões culturais da juventude açoriana, com uma maior abertura ao exterior por influência da televisão, têm sofrido uma forte aculturação.

As festas do Espírito Santo pelo seu forte enraizamento têm permanecido, mas a pujança e o entusiasmo vividos até aos anos sessenta sofreram um forte abalo. As "folias" com os bezerros enfeitados, música e cantoria, realizadas nas vésperas da "função", foram desaparecendo. A festa levada a efeito na 5ª feira de bodo, dia em que os carros de bois se engalanavam para ir buscar o vinho, também sucumbiu. Nos dias de hoje, o vinho é transportado em camionetas sem qualquer carácter festivo. Na maior parte das freguesias já não se realiza o bodo e as promessas individuais já não preenchem oito Domingos da quadra do Pentecostes. As elevadas despesas inerentes à realização de um "Função" e a mudança da mentalidade das pessoas, que já não estão dispostas a suportar sacrifícios e canseiras, têm contribuído para alterar a essência da festa do Espírito Santo. Muitas pessoas pagam a sua promessa individual, recebendo, apenas, o Espírito Santo em casa durante uma semana, realizam a coroação, mas já não oferecem o banquete nem as esmolas aos pobres. A atitude de repartir com os outros a riqueza vai sendo cada vez menos assumida. De uma forma nítida, os sentimentos individualistas vão ganhando terreno, transferindo-se para o Estado a responsabilidade da solidariedade para com os outros. A subida do nível de vida e as exigências de bem-estar já não se compadecem com as tradicionais formas de afirmação. Por outro lado, as festas do Espírito Santo vão sofrendo a concorrência de outras festas mais dinâmicas, mais emotivas e mais espectaculares em que cada um, individualmente ou em grupo, procura outras formas de exibição ou separação do outro. E por isso a rivalidade cada vez mais exacerbadas entre as festas levadas a cabo em cada freguesia ou cidades do arquipélago.

Apesar de todas estas alterações, em que são evidentes os sinais de decadência em relação a um passado muito recente, vão surgindo novos dados que revelam uma vontade de continuar com a festa. Há poucos anos, na freguesia de Vila Nova, ilha Terceira, o Centro de Convívio da terceira idade da freguesia assumiu, como instituição, realizar uma "função" para preencher uma vaga em aberto num dos oito Domingos destinados ao culto. Por outro lado, também na ilha Terceira, neste ano, um grupo de mulheres decidiu organizar a festa do Império do Canadá de Belém. É muito provável que o exemplo prolifere e, no futuro, o monopólio até aqui exercido pelos homens, possas ser compartilhado com as mulheres na organização da festa.

Independentemente do que possa vir a acontecer no futuro, parece evidente que, neste final de século, estamos numa fase de transição, com importantes alterações de forma e conteúdo nas tradicionais festas do Espírito Santo no Açores

 

Carlos Enes

 

 

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TORMENTO

Segunda-feira, 18.05.15

(DE COELHO DE SOUSA)

 

 Saudade

 Não te vás embora.

 

Eu sei que tu presente és um tormento,

Mas és maior tormento quando ausente.

 

Hás-de fazer do meu olhar um rio.

 - E todo o rio vai bater ao mar.

 

Eu tenho no meu peito um mar sem horizontes…

Se há nele tardes de finados cor de chumbo,

 

Também há manhãs de Páscoa esplendorosas.

 E sempre em todo o mar há uma vela branca

 Aonde o amor divino anda embarcado.

 

Saudade, embarca no meu peito…

… E não te vás embora.

 

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MAU AGOIRO

Sexta-feira, 15.05.15

(UM CONTO DE VITORINO NEMÉSIO)

A Canada do Búzio era uma bocarra, um deserto. Não se via vivalma. Só as faias da terra e as do norte vingavam ali entre silvas... – suor de sangue! Escorralho do Rei dos Reis coroado por mangação! O lugarejo molhava as suas abas naquele mar podre e morto, a matutar como um tolo nos penedos da Ponta do Cavalo vigiada dos garajaus – ou então, bravo e alto, fora de suas estribeiras, atirando a espuma às poças.

Era daí que uns pinheiritos – poucos mas bons e baixos como uma quadrilha de ladrões – se atreviam a subir com os braços cheios de pinhas: uns, cornudos e torcidos; outros, esbracejando direitos no meio da lava e dos faiais. Pareciam talhados nos lombos verdes do mar e atirados vivos à costa. O vento carpinteiro levava-lhes a agulha e o cheiro delicado da resina. Vento excomungado, que parecia falar-lhes ao ouvido: «Abriguem-se vocês! Vá... Abaixem-se aí!»

A casa da Cacena ficava plantada neste inferno. A Canada do Búzio parecia uma goela aberta à noite. Vizinhança – nenhuma. Só de verão havia um pouco de alegria e de cor nalguma maçã madura. O mês de Abril começava a consolar quem no via carregado de flores brancas e de botões cor-de-rosa. O pêssego amadurecia tarde, corado duma banda só. A faia do Norte, de casca sardenta, cobria-se de bagas meladas que era um louvar a Deus! Em Setembro as uvas tingiam as pernas dos homens enterrados nos lagares e o vinho esguichava nas dornas, enquanto as cisternas vazias mostravam os fundos cor de telha, e o grilo, nas gretas, era um saudoso namorado. De noite, a lua subia a terraço. De dia, o sol era um rei em seu balcão...

Ah! Mas, dobrado o cabo de Todos-los-Santos e dos Fiéis Defuntos, a casa da Cacena era uma barca à flor do mar das vinhas. Turvava-se tudo. O cebolinho de ao pé do forno ficava de cabelo ceifado: Aqueles casebres mais pareciam fojos de bruxas do que tectos de gente baptizada. Se não fosse algum molho de palha que o Menino Jesus sempre acende, o Inverno era frio como a neve e negro como um tição.

Ora, seriam umas três da manhã (água, se Deus a dava!) quando João se ergueu do quente da enxerga e disse para a velha:

– São horas, minha Mãe! Aqueça-me uma pinga de leite...

A Cacena era uma triste mulher, sozinha neste mundo. O Rei, ou lá quem quer que é que bebe o sangue dos pobres, tirara-lhe o bordão da velhice mandando-lhe o filho às sortes e levando-o para o Castelo. De nada serviram os pedidos ao Doutor, a este e àquele: os cambos de ofertas; os presentes; uma ave ou duas debaixo do lenço, algravitadas, bravas nos corredores. Tempo perdido! O rapaz ficou apurado para caçanha. E então veio a recruta, com madrugadas, frios, muito poucas dispensas... As correias da mochila levaram-lhe uma tira do lombo; as botas do Casão fizeram-lhe um calo de sangue. Enfim, já praça pronta, houve a peste numónica em Santa Bárbara e ele foi destacado lá para os quintos...

Entretanto a triste Necessidade (a feiticeira!) fazia o seu pé de alferes à porta da casa sem homem. Primeiro, a coivinha atempou; passante disso, morreu a leitoa empachada. E um belo dia, de manhã, um tição de lume queimou as faias da cozedura, o fogo passou-se à copeira, e, emmentes o diabo esfrega um olho (cruzes!), o forro do sótio ardia todo. Acudiu-lhe a vizinhança em peso (ninguém está livre de trabalhos!) e à força de água e de machado salvaram o resto da poisada – seja pelo santo amor-Deus!.

Quando João soube disto, no Castelo, chorou malaguetas curtidas e quase se pôs de joelhos:

– Só uns dias meu promeiro! Foi a casinha que me ardeu... A prove da minha mãe stá pràli sozinha, sem ter quem no ganhe...

Então o Capitão, com pena dele, fez «cantar à Ordem» aqueles três diazinhos «a benefício dos fundos do caldeiro», como se dizia na Peluda. João andou a tirar umas esmolas para ajuda da casa, com dois amigalhaços, como quem pede para toiros. Um deu vinte tábuas de forro; outro, uma mancheia de telha; outro, os barrotes, de amor-Deus. O Niquinha tirou dois dias de obras, e lá levantaram ambos a cozinha, com frechais e asnas novas.

– Que mais quer, minha Mãe? – disse ele, cobrindo a velhota de beijos. – Nem que vossemecê se tornasse agora a casar... Nã l’há-de chover pinga dentro, se Dês quiser!...

E, com efeito, não choveu. Mas vem o caim dum pé de vento, uma noite, e leva de guinda o postigo envidraçado para cima duma riça de silvas.

– Mais fizera a Nosso Senhor Jasu-Cristo! – cramou a Cacena resignada, de mãos postas. E pôs um rolho de trapos no buraco do seu postigo.

Mas desde esse dia reparou que, muito madrugada, mal luzia o buraco, vinha um biquinho esfregar-se melgueiramente no chumaço, e logo, pela calada, três unhinhas de nada riscavam. Aquilo era no batente – ora, se não! O certo era que se não ouvia mais nada senão dali a um pedaço: Umas asinhas miúdas vinham espenujar-se no trapo; uns pios de aflição pareciam picar-nos o juízo como pontinhas de alfinetes.

Era ao azular da hora de alva. No quarto da pobre Cacena, por cima da cama, a telha de vidro ia-se enchendo de flor de anil e azulão, a todo o comprimento; e, assim abaulada, cismava-se no caixão de um pagãozinho que um anjo levava para o céu.

Três dias e três noites a fio a Cacena malucou naquilo. Afinal... – labandeiras!

Eram as labandeiras! São passarinhos brandos de asa, de rabo de forquilha, que às vezes malucam nos caminhos em riba de burgalhaus, e que, ao ouvirem o passo mais à toa, tremem da passarinha, dão duas guinadas de espreita e põem-se ao fresco, todas repatanadas, até encontrarem solidão.

Desde menina que a Cacena com elas vivia e labutava, mas benzendo-se:

– não porque levem bruxedo, mas porque a triste sina se apega adonde elas apontam os biquinhos. A coderniz é pior. Quando Herodes mandou botar o bando e degolar os Inocentes, que José prantou a Senhora mai-lo Menino na burra e abalou para o Egipto, as codernizes, amassadas nos restolhos, davam fé daqueles santos pelingrinos e, voando baixo, toca a chocalheirar:

– «Cá vão eles! Cá vão eles!»

Mas as labandeiras vinham e, com a rabadilha em forquilha, lá iam apagando as passadas do santo carpinteiro e os sinais dos cascos da jumenta. Por isso o Senhor disse à paqueta da coderniz:

– Deixa tu estar, corsaira, que não hás-de pôr pé em ramo verde! E Nossa Senhora apartou as labandeiras para suas galinhas. Mas lá que têm pitafe, têm. Donde lhe vem, não sei. Têm-no co elas…

Agora, de mais a mais viúva e apartada do fi lho, à Cacena pareciam de propósito aquelas andadas dos bicos peneirando-se, salpicando o telhado com as asinhas de rasto, de ponta a ponta do cume.

Uma tarde, estando a cardar lã de ovelha, à porta, deu fé de que uma delas aporfiava na dança. Era um gorgulho de ave, de olho vivo. Bateu-lhe as palmas, de cá; pegou numa pedrinha, uma coisa de nada, e varejou-lha rente. Mas o bicho fez a modo um pouco caso e veio tombando duma asa até lha passar rente à boca.

– Jasus!

Disse isto e, em menos dum amén, o Trigueiro que passa da cidade:

– Boa noite, tia Cacena! O sê João lá deu baixa ò espital.

– Que me dizes?! Ai, s’o mê fi lho me morre!...

– Não se afl ija, serva de Deus! Aquilho não há-de ser nada... Veja mãis é se lhe manda coisa duma quarta de açucre.

Essa noite desceu como um fugido à justiça; as cancelas do céu fecharam-se de repente. A terra fi cou como uma furna negra, sem o mais leve clarão; a escuridão das canadas parecia tinta de escrever. Às vezes, dentro em casa, um vento parecia dançar de porta a porta, que batia, a moda do Pirolito que bate, que bate... Pirolito que já bateu...

Como se lhe tivessem dado com um barrote nos peitos, a Cacena meteu-se para dentro de casa e afundou no xailinho a sua triste cisma. A panela da ceia cantava com água choca e feijões. Em baixo, na pedra do lar, a cinza e a sombra do lume jogavam à Pata-Cega.

Passaram-se quase oito dias – e o Trigueiro sem trazer notícia de alívios do doente. Às vezes, para não ouvir a velha, furtava-lhe a volta e seguia pelo Rebalde até à Praia. A tia Cacena passava as manhãs no trabanaco, sentada a remendar; à tarde engaroupava-se no xailinho e esperava o carteiro à sua porta. Fazia para a ceia coives espernegadas. Daquela boca para baixo não lhe passava oitra coisa.

Enfim, o Natal chegou. Chega sempre. Umas vezes é frio, outras chuva...

Há anos sem uma coisa nem outra – e sempre pobreza! sempre desconsolos e lágrimas em casa de quem nas chora! Também há casas sem vagar nem água para vertê-las; outras são tão alegres ou tão tristes, que nem cara têm de coisíssima nenhuma!

É na maior parte dessas casas que o Menino Jesus reina entre trigos sem terra, e é aí que se come bolo-rei, figo passado, cabaço, canja de galinha...

– Dá Deus nozes a quem nã tem dentes! Ter uma pessoa a mão incarangada a pontos de le custar a apanhar a ponta do xaile se Pele cai, e havê-las senhoronas, que é só chomar a aia que as venha vestir e calçar! Mum grande é o mundo, graces a Deus! E maior ainda a Mezricórdia Devina!

«Quem fosse à Missa do Galo!... Galo? «Qu’é dele os esporães? Caldo de frango nunca fez mal a doente, nem a velha. Mãis o poleiro, deu-le o rato... foi-se toda a ninhada da pedrês. João, que é que tens? João, tu oives! A manta de fi ampua está ali na caixa; queres-ia-a? Nã te dou lençóis de linho, que os nã tenho, meu home! Mãis stá calado, fi lho! Stá caladinho, qu’a mãe vai ò mato e já vem, meu amor! Vamos cozer de tarde, pois... ! Nã te dou pão de milho azedo, discansa! O milho amarelo secou no tirante e na burra estes dois meses, filho! Faço-te um esfregalho... Faço-te um esfregalho...

«E, vai daí, há casas ricas e casas proves. Deus dá o frio cunforme a roipa. Nosso Senhor Jesu-Cristo nasceu em Belém para nos remir e salvar e, vai, Herodes Antipas manda botar o bando: «Que toda a criença nacida por li seja degolada imcuntinente»... Por isso José pegou no bordão, escanchou a Senhora na burra co anjo de Deus ò colo e se largou prò Egito. Dá-me dali o bordãozinho, não oives? João stá pior... Burra na na tenho, mãis tenho pernas. O Egito será no Castelo? Quem tem boca vai a Roma. Só eu incaranguei .

Na Canada do Búzio o Natal desse ano não podia ser mais festejado. As estrelas próprias dum céu limpo e frio brilharam por cima da casinha consertada depois do fogo. Um soldado magro como um cão e de barba de dias deitava a mãe velha e tonta na cama e aquecia-lhe o caldo da panela.

Vitorino Nemésio, in O Mistério do Paço do Milhafre, 1949

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publicado por picodavigia2 às 09:25

HISTÓRIA DO SR MAR

Domingo, 03.05.15

(POEMA DE MATILDE ROSA ARAÚJO)

 

Deixa contar...

Era uma vez

O senhor Mar

Com uma onda...

Com muita onda...

 

E depois?

E depois...

Ondinha vai...

Ondinha vem...

Ondinha vai...

Ondinha vem...

E depois...

 

O menino adormeceu

Nos braços da sua Mãe...

 

Matilde Rosa Araújo, O Livro da Tila

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publicado por picodavigia2 às 11:22

DIA DE ANOS

Terça-feira, 21.04.15

(UM POEMA DE JOÃO DE DEUS)

Com que então caiu na asneira

De fazer na quinta-feira

Vinte e seis anos! Que tolo!

Ainda se os desfizesse…

Mas fazê-los não parece

De quem tem muito miolo!

 

Não sei quem foi que me disse

Que fez a mesma tolice

Aqui o ano passado…

Agora o que vem, aposto,

Como lhe tomou o gosto,

Que faz o mesmo? Coitado!

 

Não faça tal; porque os anos

Que nos trazem? Desenganos

Que fazem a gente velho:

Faça outra coisa; que em suma

Não fazer coisa nenhuma,

Também lhe não aconselho.

 

Mas anos, não caia nessa!

Olhe que a gente começa

Às vezes por brincadeira,

Mas depois se se habitua,

Já não tem vontade sua,

E fá-los, queira ou não queira!

 

João de Deus, Campo de Flores

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publicado por picodavigia2 às 08:21





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