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MEDITAÇÃO SOBRE A ETERNIDADE

Quinta-feira, 20.07.17

(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)

 

Das árvores que plantei

nenhuma já me pertence

e de quase todas nem comi´

ou sequer vi os frutos.

Sempre soube que devemos morrer

e penso que é melhor

não se saber quando nem como.

E quanto ao que deixámos

não se recorde de quem foi.

Que só assim somos eternos.

 

P Silveira, Poemas Ausentes.

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VAZIO

Segunda-feira, 12.06.17

 

(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)

 

 

O dia começou cheio de sol,

agora pegou chuva.

Por trás da sua vidraça,

indiferente, um gato

todo estendido dorme.

Da marcenaria lá em baixo

sobe o som intermitente

de um martelo pregando

um móvel qualquer que o mestre

quer talvez aprontar hoje,

 

Largo o livro que lia

e de novo olho para a rua

onde não passa ninguém.

Por cima de um muro de quintal

as folhas de uma amoreira

tremem devagar, gotejando,

O martelo já se calou.

O gato começou a espreguiçar-se.

 

Agora é uma frágil música

talvez de flauta de cana,

como cuada pela chuva

que já está estiando.

 

Ergo-me da cadeira onde lia

enfio o casaco e caminho

direito à porta da rua.

Até à Praça, ou no café,

hei-de encontrar algum amigo

para a conversa desta tarde.

 

 

Pedro da Silveira, Fui ao Mar Buscar La

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CANÇÃO MEIO TONTA

Quinta-feira, 18.05.17

 

(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)

 

Este quase murmúrio

que se repete, insiste,

esta música antiga,

que tão débil, mal se ouve –

 

onde a escutei num tempo

que não sei bem se foi?

(E os retratos no álbum,

que ao seu soar sorriem?)

 

Dir-se-ia que morre

e morrendo revive

o vago som, sem corpo,

da música d’outrora.

 

(A caixa tem fendida

a tampa onde a pintura

figura uma menina.)

Dói-me esta pobre música.

 

IV - 1970

 

P da Silveira, Poemas Ausentes

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SABEDORIA DAS NAÇÕES

Segunda-feira, 01.05.17

(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)

 

Meu padrinho, e era padre, dizia:

quem se deita com moços pequenos

acorda… (ao modo honesto – truncado).

 

Mas, lida em Pérez Escrich

e poesia desse estilo,

prima Policeninha

(já lá está coitadinha)

Chamava aquilo

                                   flores tristes.

 

De cada lado

seu recado.

 

5-VII

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ROMANCE

Segunda-feira, 17.04.17

(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)

 

 

- Ti Antonho Cristove conte

aquele causo da viagem,,,

 

Os olhos do velho brilham.

 

Isso foi há tanto ano,

dantes do “navio do açucre”…

A barca do capitão Fidalgo chego

e os verdes imbarcaro.

 

A noite era escura e fria

e a ronda andava por perto.

 

Mar.

Mar para todos os lados.

E as ganhoas piando

dentro do nevoeiro.

 

A ilha ficou para lá do horizonte

com uma lágrima quente de saudade.

 

Depois…

 

Nas horas longas da vigia

Antonho Cristove subiu aos mastros.

Trancou baleias em todos os mares

 - nas águas frias do Ártico,

no mar quente do Pacífico.

 

E lembra aquele raituel

que um dia virou a canoa

e matou um rapaz do Corvo.

 

(Sangue da baleia,

sangue do marinheiro morto

tingindo o mar.

 

Lágrimas de marinheiros

juntam-se ao mar.)

 

Antonho Cristove

tripulante de todos os veleiros

correu todos os oceanos,

conheceu os portos todos,

soube a fúria dos tufões

e as calmarias do Golfo.

 

… e ficaram marcadas no corpo

raivas de capitães americanos,

de capitães açorianos,

de capitães de Cabo Verde…

 

A ilha sempre dentro em si

e a esperança de voltar.

 

Uma fuga em cada porto

e outra barca em que embarcar…

Mulheres de toda-a-gente

nas quatro margens da Terra…

 

Companheiros de aventura,

há tanto tempo os perdeu:

águas do mar os levaram,

terra da terra os cobriu.

 

Ti Antonho Cristove conta a sua vida

e os seus olhos descurados

olham ainda p’ra o mar

num jeito de quem navega

 

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PROBLEMAS

Quarta-feira, 16.11.16

(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)

 

Dizem que chá de erva-cruz

é bom remédio para as bichas.

 

Mas para quem rima dor

sempre com puro e excelso amor.

 

- Que o Mariano d’Arruda

neste transe lhe acuda

e ponha lá estupor.

 

(Tamanho medo…

- Ai que fedor.

 

O sol para a chuva,

os canários fritos

e o sumo da uva.

 

Quando eu me for daqui

quem se lembrará de mim?

 

Pedro da Silveira, Quatro Dos Poemas de Chá de Margaça. 8 - VIII

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HOMENAGEM A PEDRO DA SILVEIRA

Quinta-feira, 14.05.15

A Câmara Municipal das Lajes das Flores vai homenagear o autor, poeta, investigador histórico e literário, tradutor e etnógrafo fajãgrandense Pedro da Silveira através de um conjunto de atividades, que decorrerão de 14 a 16 de Maio, e que contam com a participação de personalidades que se destacam a nível regional, nacional e internacional pelo papel preponderante que têm na área da literatura.

Os convidados visitam nesta quinta e sexta-feira as Escolas de Santa Cruz e das Lajes, em iniciativas que visam promover o gosto pela leitura, escrita e pela literatura açoriana. Ainda na sexta-feira haverá a apresentação do livro “Marta de Jesus (a verdadeira)” de Álamo de Oliveira e uma tertúlia sobre Pedro da Silveira, Roberto Mesquita e Alfred Lewis que pretende salientar a importância dos vários poetas e escritores da nossa ilha.

O próximo sábado será um dia inteiramente dedicado a Pedro da Silveira, sendo descerrada na Fajã Grande uma placa em sua homenagem e tendo lugar no Museu Municipal a sessão solene onde serão interpretados e musicados poemas de Pedro da Silveira por Nina Soulimant, José Agostinho Serpa e Isabel Mesquita. Será também apresentada uma breve performance de declamação de poemas seus e, para marcar o final deste conjunto de eventos de homenagem, será servido um porto de honra a todos os presentes.

Estas diversas atividades inserem-se nas comemorações dos 500 anos do concelho das Lajes e contam com o patrocínio da SATA, que através do seu apoio permitiu a realização do evento com a presença de tão ilustres convidados.

Recorde-se que Pedro da Silveira foi um dos grandes poetas açorianos do século XX e deixou uma marca cultural profundamente impressiva. Este multifacetado autor fajãgrandense ilustrou a literatura açoriana – que defendeu frontalmente como teórico, historiador e crítico, até contrariando alguns meios intelectuais do Continente – foi também um dos seus mais persistentes e criteriosos divulgadores, tendo-se dedicado ainda a importantes recolhas de literatura oral.

Pedro da Silveira foi autor de várias obras de poesia, entre as quais se contam «A ilha e o Mundo», «Sinais de Oeste», «Corografias», «Poemas ausentes» e «Fui ao mar buscar laranjas», o primeiro volume da sua obra completa. Com uma vasta colaboração dispersa por jornais e revistas nacionais e estrangeiras, Pedro da Silveira foi ainda autor de duas antologias de poetas açorianos, sendo que no prefácio de uma das quais – «Antologia de poesia açoriana – do século XVII a 1975» – ensaia uma tentativa de autonomia da literatura açoriana das restantes literaturas de expressão lusófona.

A sua poesia manteve sempre uma forte ligação ao solo açoriano e de modo muito especial à fajã Grande, não deixando, porém, de dialogar cultural e poeticamente com «as ilhas todas do Mundo». Foi um dos promotores da elaboração da «Enciclopédia açoriana» e preparava uma «História da literatura açoriana» quando faleceu. Integrou, até 1974, o conselho de redação da «Seara Nova», tendo sido até 1992 funcionário da Biblioteca Nacional, da qual foi diretor dos Serviços de Investigação e de Atividades Culturais.

 

Dados retirados dos “sites” da Câmara Municipal das Lajes e do Forum Ilha das Flores

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SAUDADE

Domingo, 15.03.15

(PEDRO DA SILVEIRA

 

Onde estará agora a que ficou no cais

Quando eu parti?

Tinha o olhar cheio de lágrimas

E com o lenço abanava,

 

            Os garajaus tinham chegado há pouco

            Com o seu coro de alegres pios.

            Na terra um ar todo de festa:

            Era o Verão anunciado.

 

Um fio de fumo fluía da chaminé do vapor,

A sereia apitou o último adeus

- e vim-me embora.

 

            Cada vez mais longe a terra fugia-me,

            Fugia-me… e a noite

            Era aquele lenço branco

            Escurecendo nos meus olhos.

 

……………………………………………………..

 

Onde estará agora

a que deixei no cais e o lenço dela

a despedir-se?

 

Lisboa, 19-III-44

 

Pedro Silveira Fui ao Mar Buscar Laranjas

 

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VILA DAS VELAS, SÃO JORGE

Domingo, 01.03.15

(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)

 

 

Nesta ilha, sobre a ponta extrema

Onde o sol acorda

habitou Willen van der Haaghe.

 

(Tempos revelhos, flamengos

Da Aventura.

Em paz descansem. Deixemos disso:

Genealogias sepultadas.)

 

Gosto duma paisagem assim:

Áspera,

Dura,

Varonil,

- bela!

 

Nos olhos das mulheres há ainda

A nostalgia das campinas rasas

De além do Passo de Calais.

 

Pedro da Silveira Diário de Bordo.

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PAISAGEM (COM BICHOS)

Quarta-feira, 18.02.15

(PEDRO DA SILVEIRA)

 

Só as aves não sabem

Que este lugar é um ermo

Só as queirós e o vento

Desconhecem que é triste.

 

Uma cabra, metódica,

Roça os olhos das silvas.

 

Pedro da Silveira in Poemas Ausentes

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publicado por picodavigia2 às 17:00

LEMBRANÇA DE SAN MIGUEL-O-ANJO

Domingo, 04.01.15

Na igreja da Fajã Grande, na década de cinquenta, ainda existia uma imagem de São Miguel-o-Anjo. Tratava-se de uma pequena escultura em talha dourada, com pintura semelhante à Senhora do Rosário e que se dizia ser muito antiga, tendo pertencido à ermida, construída em 1755 e que antecedeu a atual igreja. Representava o arcanjo São Miguel, empunhando numa das mãos uma espada e na outra uma balança. Estranhamente esta imagem não estava exposta à veneração dos fiéis, encontrando-se guardada, juntamente com a Senhora da Soledade, numas arrecadações que existiam por detrás do altar-mor, junto às escadas do camarim. Muito provavelmente em anos anteriores estaria na igreja e nela se inspirou o poeta fajãgrense, Pedro da Silveira para escrever o seguinte poema, dedicado a Armando Cortes-Rodrigues e Diogo Ivens.

 

Lembrei-me agora de ti,

San Miguel-o-Anjo de espada ferrugenta e capacete emplumado

De quando eu ia com meu pai à missa de domingo.

 

Tu não falavas nunca com os meninos da tua idade,

Nem rias quando olhávamos para ti;

Os teus beiços ficaram sempre mudos

Ao meu apelo insistente de criança.

Abismados em não sei eu pensamentos de nuvens,

Teus olhos nunca se abriram para a vida

Que a minha ingenuidade de seis anos te quis dar.

 

                        Todos os dias a pesar pecados

                        Na balança velha do céu…

 

San Miguel-o-Anjo da minha infância,

Esquecido da vida num canto escuro da igreja,

Nem tu talvez existes já…

 

Outras vozes acordaram nos meus dias

E chamaram a outros caminhos

O menino que eu era contigo.

 

Hoje, San Miguel-o-Anjo da minha infância,

Menino santo de pau insensível à vida,

De ti em mim persiste só

A vontade que eu tinha de gritar à tua indiferença

Que deixasses de ser santo

E viesses cá para fora brincar comigo

Nas poças da beira-mar.

 

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publicado por picodavigia2 às 16:41

MOMENTO

Sexta-feira, 10.10.14

(PEDRO DA SILVEIRA)

A baía, o Monchique o outeiro, as casas…

Batidas do vento as canas são vagas verdes.

 

Mas o que eu vejo não é a paisagem, bela ou feia.

 

O que eu vejo

são estas mulheres vestidas de preto,

o rosto escondido num lenço preto,

as mãos deformadas de cavar a terra.

Novas, velhas, sem idade.

 

Sem culpas nem pecados

Resignadas.

 

Pedro da Silveira

 

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publicado por picodavigia2 às 11:16

O MAR, SEMPRE

Sábado, 04.10.14

(PEDRO DA SILVEIRA)

 

Água: mar: lonjura…

Sangue e força

da vida!

Meu caminho às avessas,

desaguado em terra.

 

Não reneguei.

Hei-de tornar.

 

Pedro da Silveira in fui ao mar buscar laranjas

 

 

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MOMENTO

Terça-feira, 30.09.14

(PEDRO DA SILVEIRA)

Abre-se a manhã como uma concha.

Orvalho, aromas, o sussurro

das marés quebrando longe.

 

Súbito uma voz

desamparada canta.

 

E um pessegueiro entorna sobre mim

a ternura rosada dos seus ramos.

 

Pedro da Silveira

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VOLTO ATÉ QUANDO

Quinta-feira, 25.09.14

(Pedro da Silveira)

 

Mais uma vez estou aqui.

O mesmo mar de outrora,

azul e cor-de-cinza.

Violácea a paisagem.

E esta paz de espelho velho.

 

Desde menino vagabundo,

desde menino indo e tornando…

Longe,

aqui me desejando;

Aqui,

longe e mais longe

o pensamento navegando.

 

Vagas, calai-vos!

Vagas,

deixai-me em paz!

 

Querer poder ficar e não poder pensá-lo.

 

Pedro da Silveira Arte Poética

 

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MEMÓRIAS (IV)

Quarta-feira, 10.09.14

8

 

Todo dourado

parece que me fita

o peixe na redoma,

 

9

 

E porque tudo é memória,

como a rapa-da-pedra

deslembremos.

 

10

 

Basta-me este mínimo verde

e a casa diante do mar.

- Bates coração?

 

Pedro da Silveira in Poemas Ausentes

 

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publicado por picodavigia2 às 17:59

FINDA

Sábado, 06.09.14

(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)

 

Não ser mais do que um cisco de terra, mas terra viva

poeira

e aragem.

Ter um casaco feito de estrelas e sóis vagabundos

e um pouco de dia nascido dentro do coração.

 

Pedro da Silveira Poemas Ausentes

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MEMÓRIAS (III)

Sexta-feira, 29.08.14

(UM POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)

6

 

Um gato: os seus olhos

minando a noite.

Não perguntam, defendem-no.

 

7

 

“Há – tu disseste –

sinais de ilhas no teu olhar.”

Sei só que me tornei nómada.

 

Pedro da Silveira in Poemas Ausentes

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MEMÓRIAS (II)

Domingo, 24.08.14

(UM POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)

4

 

A água do poço, quieta.

E uma eiró que desliza

para a treva do fundo.

 

5

 

Na calma azul do dia,

um pessegueiro florido.

Eterno e efémero.

 

Pedro da Silveira in Poemas Ausentes

 

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FOTOGRAFIA

Quinta-feira, 21.08.14

(UM POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)

Sentados na banqueta (sempre a mesma) da praça

falam do tempo,

das suas dores também.  

 

Quando um que não veio não virá nunca mais

os que estão entreolham-se,

cada um à espera que o outro seja quem diga.

 

Os que passam murmuram:

- Lá estão eles, os velhos.

 

Pedro da Silveira in Poemas Ausentes

 

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DÍSTICO

Segunda-feira, 14.07.14

(PEDRO DA SILVEIRA)

Todas as distâncias são a mesma distância,

ir ou vir o mesmo, se ninguém nos espera.

 

(de Corografias, Perspectivas & Realidades, 1985)

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publicado por picodavigia2 às 00:12

UMA AVE

Domingo, 06.07.14

(PEDRO DA SILVEIRA)

Uma ave, no vento,

e o grasnido

da ave.

 

Que alegria lhe desata

Nos nervos

O vento!

 

Mais que sentido,

visível

o vento.

 

 

Pedro da Silveira [Diário de Bordo]

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TALVEZ UM DIA

Quarta-feira, 30.04.14

(PEDRO DA SILVEIRA)

Talvez um dia a minha poesia seja

simples e natural

como um corpo de mulher abrindo-se ao amor.

 

Poesia simples, sem ódios nem revolta.

Poesia que fale

Só de cousas belas.

 

...E, liberto talvez do sonho antigo de evadir-me,

não me perturbará mais a presença longínqua

dos transatlânticos passando.

 

Ai,

Simples e natural

Como uma canção de berço.

 

(de A Ilha e o Mundo, 1952)

 

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MENINA COM PAPAGAIO

Quarta-feira, 23.04.14

(PEDRO DA SILVEIRA)

 

Ainda na sua mão

que lhe dirá o barbante

de como se vê o mundo

com os olhos do vento?

 

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MEMÓRIAS

Sábado, 05.04.14

(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)

 

À memória de António Dacosta que, pintor e poeta, sabia

de sereias e tritões como meu avô José Laureano

1

 

Perdi os nomes da inocência.

A ignorância

Continuo a aprendê-la.

 

2

 

Tinem campainhas

No azul novo da manhã.

Vacas a caminho das relvas.

 

3

 

A mesa está .posta. Come

Como quem beja

O pão duro da vida

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MEMÓRIA VAGA

Terça-feira, 25.02.14

(PEDRO DA SILVEIRA)

Era um vapor que passava

e o seu rasto na água.

 

Era uma ave suspensa

no redondo do céu.

 

Era a tarde e a sua

luz esmaecente.

 

E eram as nossas mãos

que se uniam

 

em silêncio.

 

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publicado por picodavigia2 às 14:09

MALDIÇÃO SOBRE A ETERNIDADE

Terça-feira, 18.02.14

A António Osório

 

(Pedro da Silveira)

 

Das árvores que plantei

nenhuma já me pertence

e de quase todas nem comi

ou sequer vi os frutos.

Sempre soube que devemos morrer

E penso que é melhor

não se saber quando nem como.

E quanto ao que deixámos,

não se recorde de quem foi.

Que só assim somos eternos.

 

Pedro da Silveira,  Poemas Ausentes,

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ELEGIA, QUASE

Segunda-feira, 17.02.14

(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)

 

Defronte da minha janela

o vento agora embala

as flores lilases das jacarandás.

 

A tarde cai, cansada

e não sei porquê

de repente lembrei-me

que foi numa tarde como esta

sob uma brisa morna

que nos dissemos adeus.

 

No entanto não recordo

se havia flores ou simplesmente

era a tarde, sem paisagem nenhuma.

O que ainda sei  é o teu vulto

emoldurado no sol –

e depois a casa

onde já não vive ninguém.

 

Tantas casas desertas

e tantos rostos para sempre inencontráveis.

 

Pedro da Silveira, Poemas Ausentes

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publicado por picodavigia2 às 10:43

À MARGEM DE UMA BIOGRAFIA DE RIMBAUD

Sexta-feira, 14.02.14

(POEMA DE PEDRO DA SILVEIRA)

Saído da Batávia fugido, desertor procurado

do exército colonial holandês,

Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, de vinte

e dois anos de idade e francês de nação,

que não sei se viajou como passageiro

ou (pagando assim a passagem) matalote engajado

do cliper inglês que aceitou trazê-lo para a Europa

e que fez, passado o Índico, escalas no Cabo

e Santa Helena e a Ascensão e o Faial,

em que aportou em não achei que dia

do começo de Outubro de 1876;

Jean-Nicolas Arthur Rimbaud, já dito,

vagabundo, poeta (ainda?),

não escreveu que se conheça

tão-pouco uma carta à família em que conte

como era a Horta naquele tempo.

E também, infelizmente, nenhum dos três

jornais que havia na pequena cidade ship-chandler

deu notícia que ele a visitava (ou visitara)

nem de modo indirecto denunciou a sua passagem por lá,

por exemplo relatando alguma desordem

na Rua Velha ou na Rua do Mar.

se bem que acolhendo as musas, os jornais da Horta

normalmente evitavam (quanto possível)

trazer nomes de criaturas como as Paciências,

a Cordeira, as Blicas, a Aparquinha, a Madraça,

criaturas afinal tão filhas de Deus como o poeta Rimbaud,

que, calem-se ou digam-no hipotéticas inéditas crónicas,

foi a casa de alguma delas,

sabedor decerto do preço em boa conta

dos seus rimiformes predicados.

 

Pedro da Silveira Poemas Ausentes

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publicado por picodavigia2 às 08:56

PROSAS DAS CARTAS E DOS RETRATOS DE FAMÍLIA

Segunda-feira, 10.02.14

Pego nestas cartas tanto tempo guardadas,

desato as fitas dos maços, olho as datas seguidas.

Minha mãe sabia a história de cada uma,

melhor direi cada um dos que escreveram,

parentes nossos que quase todos nunca mais

voltaram para acabar onde nascidos.

 

Esta é talvez a mais antigas de todas:

7 de Setembro de 1872.

António, que a data de Broken Hill, na Austrália,

Não se esqueceu que era véspera da Senhora da Saúde,

mas fala já da abóbora assada de Todos os Santos

e do Natal, do Ano Bom e do Dia de Reis.

Sabia que uma carta de lá às Flores tardava,

e por isso, em bom cursivo, os seus votos

de boas festas “com saúde e na graça de Deos”.

 

Era eu bem pequeno quando veio a notícia

desse António, já sobre além dos oitenta anos,

durar ainda, num asilo velhos, parece-me,

numa cidade que me lembro se chamava Adelaide:

e o que ele queria agora não era saber dos seus

mas se herdara alguma terra e, se tivesse herdado,

que lha comprassem, porque o dinheiro, mesmo pouco

fazia arranjo a quem de seu só tinha a idade.

 

Eu imaginava que Austrália cavavam ouro

E só então fiquei sabendo que também lá os velhos

como tantos nossos não tinham para a sua masca.

 - Foi a minha primeira lição de Geografia.

….

 

De 4 de Maio de 1885

e escrita em Red Bluff, na Califórnia,

esta outra carta é do Raulino, que havia um mês

chegara ali para trabalhar, como diz,

nos moinhos da madeira, onde as soldadas eram

melhores que nas ovelhas, e agora estava

em casa de tio José, tratado como seu filho.

Nada mais que contar senão “hua grande desgraçia”;

um do Mosteiro, que já era para vir para trás,

fora apanhado pela serra e ficou sem pernas;

agora estava em Sacramento no hospital e não

se sabia ainda se escapava ou se morria.

E contando-o põe no fim: “Antes elle morra

porq. hum homem assim sem pernas não é nada,”

 

Pobre moço! Um dia aconteceu-lhe a mesma coisa

e não morreu, mas depois a mulher largou-o

e só então ele compreendeu que a sua vida

sem pernas (e sem mulher) não fazia sentido:

como pôde arrastou-se até ao rio, que lá

é o Sacramento River e vai dar, em Vallejo,

à grande baía chamada de São Francisco –

e sem pernas nem vontade de viver se afogou.

 

Agora o que eu encontro é uma fotografia

onde o casal e seus oito filhos que nela estão

diante de um fundo com colunas gregas e parras

vestem uma solenidade de quem faz de conta

que não vive ao lado, exactamente, do equador.

Foi tirada por Fidanza Phoyografpho, no Pará,

e a data na dedicatória de meu tio-bisavô Inocêncio.

é de 16 de Junho de 1894.

Uma carta tarjada de três anos adiante,

conta que o filho maior, José Luís de nome

e então nos vinte, morreu de febre amarela.

E a última notícia que encontrei guardada

desses que as conversas das tias velhas referiam

como os nossos primos Goulartes brasileiros.

 

Finalmente atinjo o fundo do escaninho e tiro

ainda outra carta, solta e a única no envelope,

no entanto aberto e de que arrancaram o selo,

mas que, mesmo assim, dir-se-ia escondida.

Assina-a Afonso, em Luanda, onde assistia,

em 18 de Fevereiro de 1907.

É à mãe e diz-lhe que está bom, mas que passou

um mau tempo, com as febres (o clima pois claro)

e um retrato que junta, mais diz, é com o filho

(um menino mulato, vê-se) e põe que gostava

de o mandar para cá, onde melhor se educaria.

- Mas afinal quem veio, quinze anos além, foi ele

E, que eu me recorde, pois conheci-o bastante,

nunca falava do filho do retrato na gaveta.

Vinha só de visita, disse, mas foi ficando,

Não trazia dinheiro que luzisse e a sua roupa

eram fatos de caqui, sem falar num chapéu

desses que chamam capacetes coloniais.

Com isso, também lá nos veio um papagaio,

que por sinal era cinzento e não verde, mas

falava como falam os outros, do Brasil.

O papagaio chamava- o “Ó Afonso!” – e depois

Era como se desse gargalhadas enquanto

o dono se embebedava com aguardente de figos.

Também gritava “Chiça!”, e foi mesmo o que fez

Quando primo Afonso, como era de esperar

desfeito, verde, morreu de cirrose hepática.   

 

Este meu primo contava pouco da sua vida

dos anos passados em Angola, ao que parece

comprando pelo sertão borracha e cera que logo

revendia a outros comerciantes, na costa.

Um dia perguntei-lhe como eram as pretas

e ele primeiro riu, mas por fim foi dizendo:

“No princípio a catinga enjoava-me, não podia…”

E explicou-me que catinga é como lá se chama

ao cheiro que deita a pele suada dos negros.

 

E a propósito disto, vem-me à lembrança agora

que de uma vez, em Kowloon, além de Hong Kong

uma puta chinesa me disse, e ria, ria

que os nau soc como chamam aos portugueses

(à letra traduzido, vejam lá, cheiro de vaca)

Mesmo lavados sempre cheiram a morto.

 

Mas deixando esta dos odores corporais

que, havemos de concordar, são antipoesia

reparemos antes, com o melhor daquelas cartas

que desde minha bisavó a minha mãe guardaram

e eu agora, a espaços comovido, fui lendo;

reparemos, dizia eu, que é Maio e a manhã

acordou azul e florida, cheirosa, musical

como a dança dos passos das raparigas quando

ainda não sabem (ou não querem saber) que a vida

também é muita vez o mais amargoso que vem

nas tais cartas que são (elas só) a memória que resta

de tantos mortos meus, tão mortos como esquecidos.

 

Pedro da Silveira, Poemas Ausentes

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publicado por picodavigia2 às 20:37





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