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A MINHA TOUCADA

Sábado, 01.07.17

Meu pai tinha uma vaca chamada “Toucada” de que eu gostava muito. Tinha um andar elegante, um aspecto altivo e era muito mansa. Era malhada de branco e preto, mas um preto acastanhado e muito luzidio. A cabeça também era preta, com uma grande mancha branca na testa, a qual lhe valera o epíteto de “Toucada”.

Eu adorava-a e, por isso, fiquei muito triste quando o meu progenitor decidiu embarcá-la, para Lisboa, para “ ir ver os senhores de bengala”.

Mas a decisão estava tomada e a vaca entrou, de imediato, em fase de engorda. Erva fresquinha todos os dias, maçarocas de milho de vez em quando, não saía do palheiro, não se lhe tirava mais leite e, além disso, nunca mais puxou o arado ou o corção, tarefas, agora, atribuídas à Benfeita, não habituada à canga, pois era a vaca de estimação de meu pai.

O empenho na engorda da vaca, no entanto, intensificou-se excessivamente. Cuidava meu pai que, se a engordasse bem, ela valeria mais dinheiro.

Alguns dias antes da chegada do Carvalho, o Portela, de Santa Cruz, como de costume, veio à Fajã arrolar gado para o próximo embarque.

Meu pai, meus irmãos e eu abdicámos das tarefas do campo e, em ar de festa, esperamo-lo sentados à porta da sala. O homem, ao chegar, entrou no palheiro e observou minuciosamente a vaca. Apalpou-lhe as virilhas e a rabada, passou-lhe a mão sobre o dorso duas ou três vezes, abraçou-a pelo pescoço. Depois, com voz convicta perante a expectativa de meu progenitor, sentenciou: “Sim senhor! Bonito animal! Um conto."

Meu pai ficou um pouco perplexo e hesitante. Aproximou-se mais da vaca, anafou-lhe o pêlo com muito carinho, fez-lhe umas festas na cabeça e, argumentando que estava muito pesada, com o pelo  muito luzidio, pediu-lhe mais cem escudos.

Como o Portela teimasse em não dar nem mais um escudo, meu pai ainda arriscou: “Mil e cinquenta..." Mas o Portela persistia no seu carracismo e a Toucada foi vendida por mil escudos.

Na véspera do dia de vapor meu pai decidiu que seria eu a acompanhá-lo a Santa Cruz, para a embarcar. Partimos alta madrugada: eu à frente, aguentando a corda da Toucada, meu pai atrás, tangendo-a com uma aguilhada, para que ela não se atrasasse no longo caminho que teríamos de percorrer, até Santa Cruz. Ao chegar aos Terreiros, porém, a vaca já ostentava indícios de grande cansaço. Subíramos a rocha da Fajãzinha pela ladeira da Figueira, para encurtar caminho e parámos junto à  Casa do Estado. Meu pai tirou, de uma das mangas da froca que trazia ao ombro, meia dúzia de maçarocas de milho que a Toucada comeu frugalmente. Da outra manga tirou um pedaço de pão de milho e outro de queijo, repartiu-os comigo.
Terminado o bródio, reiniciámos a longa caminha até Santa Cruz. Só ao descer a Ventosa avistámos o Carvalho, ancorado na enorme baía da Ribeira da Cruz.

Quando chegámos a Santa Cruz já o Sol ia muito alto. A vila vivia um burburinho excitante e belicoso. Homens e mulheres, vindos de toda a ilha, dirigiam-se, instintivamente, para o Boqueirão. Era dia de “São Vapor”!
O Portela havia montado escritório em cima do cais, ao lado das dezenas de grades onde estavam empacotadas as latas com a manteiga que a ilha produzia e exportava. Tivemos que aguardar a nossa vez. Eu, agarrando a corda da Toucada, observava as primeiras barcaças que chegavam a transbordar com malas e passageiros. Antes da lancha atracar, de cima do cais, lenços brancos abanavam em direcção ao mar e eram correspondidos com acenar de mãos dos que vinha na embarcação. Depois, era a confusão geral: uns abraçavam-se, outros choravam e outros simplesmente cumprimentavam-se. O cais era um mar de gente, misturada com animais, caixas, caixotes e malas. Tudo o que o “Carvalho” descarregava e o que havia de carregar...

A nossa vez chegou. Meu pai aproximou-se do Portela e este puxou a corda da Toucada. Observou-a minuciosamente, como que a certificar-se de que era a vaca que, dias antes, observara. Depois, um dos seus ajudante pegou num ferro em brasa e cravou-o num dos quartos da vaca. A pobrezinha emitiu um forte rugido e começou aos coices, tentando uma fuga louca, sem que eu a pudesse aguentar. Meu pai agarrou-a e trouxe-a novamente para junto do Portela. Este depois de preencher uns papéis onde constava, entre outros elementos, a cor, o peso e o número com que a haviam marcado, soltou-a da corda que eu trazia de casa e amarrou-a com uma corda nova. Um empregado, aproximando-se, puxou-a abruptamente, enquanto ela, estranhando o novo dono e o ambiente que se vivia sobre o cais, teimava em movimentar-se. O homem puxou-a com mais força, deu-lhe uns fortes pontapés na barriga e a pobrezinha teve mesmo que andar. Começava ali o seu cruel cativeiro e a sua caminhada para a morte. Senti uma enorme dor e comecei a chorar agarrando-me ao seu pescoço. Ela também berrava, de dor e desespero, sentindo não só a violência com que era tratada mas como que entendendo a inevitável separação do seu dono e amigo. O homem aproximou-a da borda do cais, enlaçou-lhe uma lona por baixo da barriga e prendeu-a num guindaste, que de imediato a levantou, colocando-a dentro do barco onde já se encontravam muitos outros animais. Eu chorava desalmadamente...

Meu pai dirigiu-se para junto do Portela. Esperou algum tempo até que o homem lhe deu uma nota de mil escudos. Pedi-lhe para a ver. Era a primeira vez que eu via uma nota de mil escudos!...

Algum tempo depois, o barco que levava a Toucada, repleto de animais que se empurravam e atrapalhavam uns aos outros, partiu. Lá ia a minha Toucada comprimida entre dois enormes touros. O barco foi-se afastando e a mancha negra e branca da Toucada foi-se desvanecendo, até eu a perder de vista, enquanto lágrimas corriam de meus olhos, cada vez mais abundantes. Meu pai, compreendendo a minha dor e disse-me que voltaríamos pelos Lajes para comprar outra vaca.

Regressámos, pernoitamos na Lomba e viemos para as Lajes, onde meu pai comprou outra vaca. Era mansa, toda preta, com os chifres arredondados, boa de leite. Oitocentos escudos. Meu pai ficou feliz e eu triste porque a achava tão feia, comparada com a minha Toucada, que aquela hora, na abalizada opinião do meu progenitor já devia estar no Pico ou em S. Jorge.

Atravessámos novamente a ilha de lés-a-lés, com a vaca, que vezes sem conta, se recusava a andar. Chegámos a casa já de madrugada. Durante a viagem e nos dias seguintes lá me fui afeiçoando à Trigueira, (assim chamámos à nova aquisição)  mas a verdade é que nunca esqueci a minha Toucada.

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BENTA E JERÓNIMA

Quarta-feira, 07.06.17

 

Desde criança que se haviam colado numa amizade recíproca, inebriante. Nas veredas da inocência foram as mães a juntá-las. Depois elas próprias a caminharem lado a lado para a catequese, para a escola, para o moinho, para a máquina e até para a festa da Senhora dos Remédios, na Fajazinha. Sempre juntas, sempre amigas, sempre cúmplices, galhofeiras, até a Jerónima se casar. A Benta invejou-a. E tanto cismou, tanto hesitou, tanto desesperou que acabou por ficar para tia. E como que fazendo jus ao nome, decidiu dedicar-se às coisas de Deus. Muito de igreja, muito de rezas, muito de missas. Casas paredes meias, seguiam vidas paralelas. Sem se falarem. Não se podiam ver. Metera-se uma ciumeira enorme, entre elas. Domava-as uma inveja arreliadora. Fora o namorico da Jerónima com o filho do José Dias que destruíra toda amizade de outrora e construíra o terrível muro que agora as separava. Dizia-se à socapa que a Benta também gostava do Dias. Alguém os vira acaçapados, muito encostados um ao outro, junto a uma aba das paredes da ladeira do Batel. Toda a amizade se esmoronou como um castelo de cartas. Depois a Jerónima a mexericar, a inventar, a por aleives e a Benta a dar ouvidos a umas e a outras. Não se podiam ver. Se se encontrava faiscavam lume por todos os lados. Mal se encaravam bramiam um odio recíproco e ameaçador.

Tudo se acamou no dia em que a Jerónima, já com três pimpolhos ao colo, partiu para a América. A Benta respirou de alívio. Mas ou porque a distância amainara o ódio, ou porque as sobras de uma paixão frustrada lhe ativassem os sentimentos, passado um ano estava cheia de saudades, passados dois escreveu-lhe uma carta e, ao fim de vinte anos, quando a Jerónima regressou viúva e dolente decidiu ir visitá-la a fim de lhe dar uma palavra de conforto, um gesto de ternura, talvez um abraço de reconciliação.

A América porém mudara a Jerónima. Para além de lhe casar os filhos, levara-lhe o marido, deixando-a sozinha entre mágoas e álcool. Chegou à Fajã domada pela bebida e tresmalhada. Uma sem vergonha desmiolada.

Mas a Benta, que cada vez se santificara mais e que nas suas rezas e meditações percebera que Deus ensinou a perdoar, decidiu ir visitá-la, na tentativa de enterrar para sempre o machado de guerra. Apanhou-a de surpresa. A Jerónima apareceu-lhe à porta muito bêbada e tal e qual Nosso Senhor a havia posto no mundo. Nua.

A Benta nem entrou. Fugiu a sete pés, benzendo-se, persignando-se e gritando bem alto aos sete ventos:

- Aquela mulher está doida! Não tem vergonha! Aparecer assim à porta… in coire…

  

 

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QUANDO O CARVALHO FAZIA SERVIÇO NA FAJÃ GRANDE

Sexta-feira, 26.05.17

A ilha das Flores era a única ilha dos Açores em que o velhinho Carvalho Araújo, que as visitava mensalmente, atracava em duas localidades: em Santa Cruz e nas Lajes. Como ambas as vilas estavam e ainda estão actualmente, viradas a leste, sempre que o mar estava bravo numa, ainda estava pior na outra, impedindo assim aquele paquete de fazer o serviço na ilha, o que se verificava, geralmente, mais do que uma vez por ano e, por vezes, até no verão.

Quando tal acontecia, em contrapartida, o mar na Fajã Grande, freguesia voltada a oeste e com um pequeno porto protegido por altas rochas, estava calmo, tranquilo e excelente para o serviço do paquete. O vento soprava fortíssimo de leste e era, com se dizia, “de cima da terra”. Nessas condições só era possível ao Carvalho fundear e fazer serviço na Fajã Grande, pese embora a grande oposição das populações de Santa Cruz e das Lajes, nomeadamente os comerciantes daquelas duas vilas. É que só havia duas estradas nas Flores: uma desde Santa Cruz até aos Terreiros e a outra que ligava as duas vilas, passando pela Caveira, Lomba e Fazenda. Dos Terreiros até ao porto da Fajã, os passageiros tinham que ir a pé, atravessando rochas e veredas, saltando ribeiras e grotões, percorrendo ladeiras, atalhos e calcorreando caminhos maus e estreitos. Apenas os doentes eram transportados a cavalo ou em carros de bois e, os casos mais graves, em macas transportadas a ombros. Além disso os passageiros ou os seus familiares e amigos tinham que transportar a própria bagagem às costas.

Mas os principais e grandes problemas eram o do gado, o da manteiga que a ilha produzia e que se havia de embarcar e, sobretudo, o da mercadoria que o navio trazia e que teria que ser descarregada no porto da Fajã e depois transportada para os Terreiros a fim de ser levada em camionetas para as vilas. Assim todos os sacos de farinha, de açúcar, de adubo, de cimento, caixotes de sabão e de bebidas, bidões de cal e de petróleo, grades com garrafas de cerveja e de pirolitos e muita outra carga que o navio trazia com destino à ilha, tudo era transportado para até aos Terreiros em carros de bois, o que acarretava um enorme aborrecimento e uma despesa acrescentada para os comerciantes a que as mercadorias se destinavam. Por tudo isto, toda a população das Flores detestava e barafustava quando o Carvalho ia fazer serviço para a Fajã Grande.

Ao contrário, este dia, na Fajã Grande, era de grande festa, contentamento e regozijo. Era rigorosamente, mais do que o tradicional “dia de São Vapor”, pois era uma verdadeira festa, a “Festa de S. Vapor”. Ninguém trabalhava nos campos nesse dia e toda a população se deslocava para Porto, uns para trabalhar na carga e descarga, outros para acarretar e arrumar a mercadoria e outros simplesmente para apreciar o espectáculo. É que todos os carros de bois que existiam na Fajã eram requisitados para transportar a carga até aos Terreiros. Como os meios eram reduzidíssimos e menos operacionais do que os das vilas, esta azáfama era muito demorada, prolongando-se por todo o dia, pela noite dentro e até de madrugada.

E era precisamente à noite, enquanto os homens paravam os carros carregados com os sacos de açúcar e outras mercadorias fora das suas casas, para uma frugal ceia, nós, os garotelhos de então, à socapa, fazíamos pequenos buraquitos nos sacos de açúcar, furando ligeiramente a serapilheira e deitávamo-nos debaixo dos carros de boca aberta e voltada para cima, com as mãos a fazer de funil, a encher a barriga de açúcar, vingando-nos da abstinência que dele tínhamos nas nossas casas durante todo o ano.

E creio que era esta a principal e mais importante razão porque eu e os ganapelhos da minha idade gostávamos tanto de que o Carvalho fizesse serviço na Fajã Grande, ao contrário dos comerciantes das Lajes e da Vila, que penalizados por tantas contrariedades, nem por sombras desconfiavam que, ainda por cima, lhe papávamos uma pequeníssima parte do açúcar que importavam de Lisboa.

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MINHA MÃE E O “CASAMENTO DO MARUJO”

Domingo, 21.05.17

Há dias, andava eu a folhear uns números da Nova Série da Revista Lusitana e encontrei, no número sete da referida revista (1986), um artigo de Pedro da Silveira, intitulado “CATORZE TROVAS E UM CONTO RECOLHIDOS NA ILHA DAS FLORES”. Por se tratar de textos orais, no final de cada recolha, aquele investigador literário fajãgrandense indicava o nome da pessoa que lhe havia contado o Conto ou declamado a Trova. Surgiam, entre outros, os nomes de José Inácio da Ponta e o de Manuel Mariano da Fajãzinha, personagem típica daquela freguesia e que, durante anos e anos, praticamente sozinho, cantava missa e afins, em canto chão, na igreja paroquial.

Entre estas quinze preciosidades recolhidas, todas elas na Fajã Grande e Fajãzinha entre 1941 e 1951, realçou-me o “Casamento do Marujo”, não só pelo texto, do qual me lembrava algumas passagens, mas pela pessoa que lho recitara. Nada mais, nada menos do que Angelina Fagundes, ou seja, a minha mãe! A recolha daquela trova foi feita em Julho de 1942 e, segundo Pedro da Silveira, minha mãe tê-la-ia ouvido a uma sua antiga vizinha chamada Ana Fraga, ou seja, a popular “tia Fraga” que morava na Fontinha, na velhinha “Casa de Lá” ou “Casa do Tear” que meu avô arrematara, dado que após a morte daquela, segundo se dizia, “bondosíssima senhora”, a casa foi leiloada a favor da paróquia. Foi lá que os meus avós montaram um dos poucos teares existentes, na altura na Fajã, no qual foram tecendo, durante anos e anos, quase toda as minhas tias, sucedendo-se umas às outras, à medida que se iam esquivando para a América ou para o convento. Segundo o testemunho da minha progenitora, tia Fraga havia ouvido e decorado o “Casamento do Marujo” quando rapariga a uma mulher de S. Miguel, por volta de 1860-1865, altura em que se crê que algumas famílias de pedreiros de S. Miguel, nomeadamente de Vila Franca e Ponta Garça terão emigrado para as Flores, estabelecendo-se muitos deles, na Fajã Grande.

Reza assim a dita Trova: “O Casamento do Marujo”:

 

“No gozo da minha infância,

Ainda quase uma criança,

Das amadas fui querido.

Logo me ficou no sentido,

A mais bela e engraçada.

Lhe falei p’ra minha amada,

Nem o pai nem a mãe quis.

Ai de mim tão infeliz!

Com quinze anos de idade,

Fui então para a cidade,

E embarquei na “Salvaterra”,

Por ser boa nau de guerra.

Corri todos os Açores

Para ver se achava amores,

A minha satisfação.

Foi uma bela ocasião,

A filha de mestre Amaro,

Que o pai tinha por amparo,

E era uma bela costureira,

Dava pontos à frieira;

Aquilo era um gosto vê-la,

Mais linda do que uma estrela.

Tinha olhos bonitos,

Os meus ficaram aflitos.

Logo ao sair da missa,

Fez-me uma linda malícia;

Meu coração deu um ai,

Fui logo falar ao pai.

O pai ficou muito contente,

Foi dizer à sua gente

Quem casava com a filha.

Até da ponta ilha

Veio gente ao casamento,

Homens de grande talento,

O regedor e o cura,

Mais o filho do Ventura,

Com violas e rebecas,

Vinho em potes e canecas,

O dia do meu noivado

Deixou tudo admirado!”

 

Pedro da Silveira In Revista Lusitana (Nova Série) 1968, nº 7 pag.s 121 e 122.

 

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O ESTREPE

Sábado, 13.05.17

Certo dia, era eu ainda muito miúdo, fui ao Outeiro Grande buscar dois gueixos. Os estouvados, talvez devido ao estapafúrdio tratamento que, habitualmente, lhes dava, ao chegarem ao cimo da ladeira do Covão, haviam de se desviar da canada, enfiando-se por entre umas canas e fetos que por ali abundavam. Travei-me de razões, com os malditos. Passa fora! Cacetada dali, pancadaria dacolá e lá os consegui tirar daquele descampado, sem que antes não tivesse arranjado uns valentes arranhões por todo o corpo. Aparentemente nada de grave e os bezerros lá foram conduzidos ao seu destino.

Alguns dias depois, ao brincar na sala da casa da minha avó, senti uma dor no braço esquerdo e queixei-me à tia S. José que, de imediato, solícita e gentil, veio passar os seus dedos macios e suaves, mais habituados a rendas e bordados do que às lides do campo, no local onde, supostamente, me doía. Do diagnóstico realizado, minha tia concluiu que eu tinha ali alguma coisa que não era carne nem osso, nem um simples godelhão. Reunido o conselho das tias presidido por minha avó, ala para a Fajãzinha, consultar o padre António, muito experiente em mazelas do género. Manifestei ferrenha e contumaz oposição. De nada me serviu e lá fomos, rumando à Fajãzinha.

Mas o reverendo nesse dia não estaria nos ajustes para grandes e eficientes diagnósticos medicinais talvez porque mais preocupado com as coisas divinas. Muito superficialmente viu, mirou, apalpou o local do meu braço, onde me queixava, concluiu que nada de anormal havia ali e mandou-nos embora. Nada. Não tinha nada e minhas tias regressaram satisfeitas e descansadinhas por quanto, na opinião delas, o veredicto do senhor padre da Fajãzinha era logo abaixo do de Deus.

Minha mãe é que não se contentou com a diagnose do prebendado e decidiu levar-me a casa da Senhora Mariquinhas do Carmo, pessoa muito experiente e imiscuída não apenas em doenças e achaques mas também na sua cura e que, também, exercia as funções de parteira na freguesia.

Lá fomos. Em tais ocasiões, a senhora Mariquinhas do Carmo transformava a sua cozinha em sala de urgência e a amassaria, por sinal junto à janela, muito iluminada e limpinha, em mesa de tratamentos e, até, de operações. Foi aí que me deitou e, observando-me meticulosamente, depressa concluiu que ali havia marosca… e da grossa. Era preciso actuar e urgentemente.

Chorei, gritei, berrei, esperneei e quase deitei a casa abaixo, enquanto a minha mãe me segurava e ela me abria um buraco no braço donde extraiu um enorme estrepe de cana. Mas horror dos horrores! Como a cana já estava humedecida e podre partiu-se ao sair, ficando ainda um bom pedaço do estrepe lá dentro. Então é que foi o bom e o bonito! Os meus berros e gritos de nada serviram, nem para alarmar os vizinhos que a casa dela ficava paredes-meias com o cemitério. Mas ao fim de muitos apertos, puxanços e espremidelas, juntamente com muito sangue e pus, lá saiu o resto do estrepe, enquanto ela desinfectava a ferida que abrira e a minha progenitora me enchia de abraços e carinhos para que não berrasse mais.

Minha mãe agradeceu à Senhora Mariquinhas do Carmo, prometendo que lhe havia enviar, como forma de pagamento, meia dúzia de ovos e voltamos para casa. Compadecida do meu sofrimento, minha mãe trouxe-me ao colo. Como estava grávida e bastante doente, à Praça, areópago institucionalizado da crítica, do mexerico e da má-língua, homens e mulheres criticaram-na severamente:

- Nesse estado e com esse malandro ao colo! Bem burra és!

Sem responder ou dizer palavra, minha mãe sentou-me em cima de um muro circundante e, abrindo o lenço da mão onde guardara os pedaços do enorme estrepe, mostrou-os a toda a gente, dizendo:

- Coitado do meu menino! Vejam o que ele tinha no seu bracinho!

Esta é uma das últimas lembranças que tenho da minha progenitora, que faleceu, algum tempo depois.

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A CHUVA E OUTROS ENIGMAS

Sábado, 29.04.17

A chuva, aqui no Pico, embora muitas vezes incomodativa, insensata e até indesejada, é um dom sagrado, uma dádiva celeste. Sem água não há vida, sem água as colheitas não crescem, não se desenvolvem, não produzem. Aqui, no Pico, a única água que alimenta os campos e que dá vida às plantas, que faz nascer as sementeiras, que fortifica as árvores de fruto é a da chuva. Por tudo isso a chuva é um donativo abençoado. Quando chove, os agricultores ficam mais descansados e satisfeitos e os criadores de gado regozijam-se, porquanto a chuva, para além de fortificar a erva das pastagens, enche os poços de água, a fim de que os animais possam saciar a sua sede. Mesmo que sejam uns ligeiros chuviscos, são sempre abençoados. Aliás as aguaceiras torrenciais, exageradas, geralmente são prejudiciais. O Pico é, por natureza uma ilha muito seca. No seu subsolo existe pouca água. As nascentes e as fontes não são abundantes. Por isso a chuva é quase sempre desejada. Desejada sobretudo quando numa manhã soalheira se arrancam as mondas, se alisa a terra, se fortalecem as plantas e as árvores de fruto. Depois dormir a sesta e acordar ao som ritmado das gotas a baterem no telhado, ou a espalharem-se no chão é sentir uma enorme dulcificação. Depois vem a noite, mais escura, mais densa, mais brumosa, a preparar-se para que o céu de madrugada se abra e volte a derramar sobre a terra o dom sagrado da chuva. Muita chuva! A necessária para que tudo nasça, cresça e se desenvolva. É verdade que umas vezes castiga, outras amordaça e algumas incomoda. Por isso é que nos atira para outras paragens, com outros destinos. A vizinha vila da Madalena é um deles. Ao regressar um sol abrasador a tornar ainda mais frutífero o dom sagrado das chuvas que o precederam, esta madrugada. De manhã anuncia-se chicharro fresco. De tarde aquieta-se o espírito. O Pico é assim. Um amontoado de emoções espontâneas, imprevisíveis. Um mundo de contrastes e enigmas. Sobretudo de enigmas, por vezes contraditórios. De manhã chuva de inverno, à tarde sol de verão. Ontem vento norte, hoje vento sul. Montanha descoberta e logo a seguir um nevoeiro cerrado até ao casario. Ontem o mar manso, hoje revolto. Sol de rachar em São Caetano, aragem fresca e brumosa na Madalena. No meio desta panóplia de enigmas impõe-se o regresso à vila. Ao porto chega o ferry vindo do Faial. O cais de embarque a abarrotar de pessoas, de carros, de movimentos, de luz e de cores. O cais, ponto de partida e de chegada. Para a partida fervilham pequenas embarcações à espera dos que sonham, talvez amanhã, com a aventura de observar baleias ou golfinhos. Para a partida carregam-se malas, trocam-se abraços, evadem-se emoções. Mas já não há homens de albarcas, chapéus de palha e calças de cotim a soltar as amarras perdidas e desgastadas pelo tempo, nem mulheres de avental de chita e lenço de merino, com cestas de fruta à cabeça. Na chegada arrastam-se sobre o pedregulho dezenas de barcos que durante a madrugada e a manhã se embalaram, ao sabor das ondas, na pesca do chicharro, das cavalas, das abróteas, das garoupas e dos bocas-negras, ou as traineiras que perseguem pesqueiros mais distantes na busca de bonitos e albacoras.

Lá ao fundo o Faial a espreguiçar-se sob uns tímidos raios de Sol a descaírem para os lados das Flores. Atrás a enorme e altíssima montanha do Pico, ravinada de lava, aspergida com salpicos de nuvens e envolvida por um clarão de imponência e singularidade. No meio, a separar as duas ilhas, o mar, azul, coroado com ondas de sonho e respingos de fascinação.

Como é tão igual e tão diferente este Pico de hoje e o Pico de ontem. Este Pico de enigmas e mistérios.

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CORTINADO AZUL

Quarta-feira, 26.04.17

Era um fim de tarde de um amarelado dia de outono. O céu, porém, estava azul, muito azul. Há muito que ela saíra de casa. Os cães ladravam, havia folhas caídas no chão e de algumas chaminés, ao redor saíam fumos trémulos, frágeis. Um silêncio perfumado a madressilva e a alecrim envolvia a casa deserta. Voltada a oeste a janela mágica, fechada e forrada com um cortinado azul.

Consta que os cortinados chegaram à Europa vindos do Oriente e do Egito onde abundavam cortinas e tapetes para decorar janelas e paredes dos palácios de reis, de imperadores e de faraós.

Há quem diga que na Europa, a primeira vez que se usaram cortinados na decoração das janelas foi num casamento da realeza britânica, na Abadia de Westminster, no século XIII. O uso generalizou-se e tornou-se vulgar nos nossos dias.

Nada pois de estranhar que aquela janela voltada a oeste tivesse um cortinado. O que mais intrigante e enigmático se impunha era descobrir a razão de ser da cor daquele cortinado - azul.

A cor azul significa tranquilidade, serenidade e harmonia, mas também está associada à frieza, monotonia e depressão. Simboliza a água, o céu e o infinito. O azul é também a cor da realeza e da aristocracia, uma e outra a possuírem sangue azul. O azul é considerado uma cor fria, a mais fria entre os tons frios de azul, verde e violeta. Liturgicamente é a cor atribuída à Virgem Maria que também em muitas das suas imagens se apresenta de manto azul. Mas a cor azul também é utilizada na decoração dos mais variados espaços e o mais curioso é que se acredita que um ambiente azul favorece o exercício intelectual, tranquiliza o espírito, enobrece a alma, fortalece o carácter e fortifica o amor. E esta será, muito possível e inequivocamente, a razão por que aquela janela plantada entre as brumas matinais, entre o resfolgar da lava, entre o silêncio dos pedregulhos, entre o perfume do alecrim e da madressilva, ornada de folhas amareladas no outono e de flores vermelhas na primavera estava adornada com um cortinado azul.

 

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O PÁTIO EM FRENTE À MINHA CASA

Quarta-feira, 05.04.17

A minha casa, ou seja a casa onde nasci, na Assomada, era pobre e muito pequenina, mas era a minha casa e eu gostava muito dela. Tinha poucas coisas, é verdade, mas tinha uma que eu adorava e que um dia me tiraram. A minha casa, em frente, do lado que dava para o caminho, tinha um pátio.

Era um pátio simples e humilde, mas grande e murado com pedras toscas que o separavam da rua, com a qual comunicava através de dois portões sempre abertos, um em frente à porta da sala e outro em frente à da cozinha.

O meu pátio era muito importante para mim porque era nele que eu brincava, era nele que eu me sentava a ver passar as pessoas, era nele que eu brincava e era nele que eu me escondia quando fazia jogos com os meus amigos de infância. Mas o meu pátio também era importante para a minha mãe porque era nele que ela punha a roupa a coarar, era nele que ela plantava sécias e cubres e o enchia de flores e também era a ele que ela assomava quando passava uma vizinha ou uma amiga e a chamava para lhe dar dois dedos de conversa. O meu pátio era importante para o meu pai, mas mesmo muito importante, porque era lá, na parte superior, junto à porta da cozinha que ele colocava molhos e carradas de lenha que trazia das terras para acender o lume e aquecer o forno e onde havia um enorme cepo, sobre o qual, com um machado, ele cortava e rachava toda aquela lenha e era nele que, à tardinha, fruindo duma bela sombra, se sentava a descansar das pesadas lides do campo. O meu pátio era muito importante para todos nós porque nele havia, em frente à janela da sala, uma enorme “japoneira”, sempre muito verde, a proporcionar-nos uma sombra muito fresquinha e que ainda antes da primavera chegar se enchia de flores vermelhas e que, quando se cansava delas, as atirava ao chão formando, ao seu redor, um tapete fofo, brilhante e colorido, mas logo se enchia de novas flores. O meu pátio era útil, necessário, belo e meu, mas… em frente dele não passavam automóveis.

E um dia, na minha rua, desenharam e construíram uma estrada, mesmo em frente à minha casa, para que começassem a passar automóveis por ali mas… destruíram completamente o meu pátio, arrancaram-lhe todas as flores, cortaram a “japoneira” e, pior do que isso, obrigaram a minha mãe a ir coarar a roupa para a Ribeira, o meu pai a colocar a lenha bem longe dali e eu a ir brincar para debaixo do estaleiro.

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O MEU PRIMEIRO FECHO ECLAIR

Terça-feira, 14.02.17

O fecho eclair foi inventado pelo engenheiro norte-americano Whitccomb L. Judson em 1891 e era constituído por uma série de ganchos que se prendiam a pequenas argolas. Este fecho, porém, ter-se-á revelado pouco eficaz, dado que se abria com muita facilidade e, provavelmente, teria sido votado, por completo, ao abandono se não fosse o engenheiro sueco Gideon Sundback, no primeiro quartel do sec XX, a desenvolver a ideia de Ludson, substituindo ganchos e argolas por dentes metálicos entrelaçados uns nos outros, criando assim o fecho eclair tal como ainda o conhecemos hoje, embora de forma mais perfeita e funcional do que a apresentada por Sundback.

Foi esta alteração que permitiu que o fecho eclair se fosse espalhando, aos poucos, por todo o mundo e, embora demorando algum temo tempo, chegasse aos locais mais recônditos do globo, substituindo, parcialmente, o longo e histórico reinado do botão.

Sobre o fecho eclair, que teve o seu período áureo na segunda metade do século passado, até o poeta António Gedeão fez um dos seus mais belos poemas, onde  afirma que o próprio rei Filipe II teve tudo, mas o que um monarca podia desejar, porque “ Um homem tão grande, tem tudo o que quer,” mas “o que ele não tinha, era um fecho eclair.”

Contrariamente a Filipe II, eu não só tive um como muitos fechos éclair. Mas o mais importante para mim e aquele que nunca mais esqueço foi o primeiro que tive.

O meu primeiro fecho eclair chegou-me numa encomenda da América, andava eu ainda na 1ª classe, de calções e pé descalço. Era uma “soera” verde, com o pescoço a prolongar-se pelo peito, mas que se abria e fechava, graças à invenção do sr Judson. Eu adorava aquela “soera”, não tanto pelo verde, nem sequer pelo confortável agasalho que me concedia, mas pelo fecho eclair de que me envaidecia e ufanava, por ser dos primeiros que tinham aparecido na freguesia, e único na escola. Passava horas e horas, mesmo quando não tinha a tal soera vestida, a puxar o fecho para baixo e para cima e a contemplar, absolutamente admirado, aqueles dentinhos metálicos a correrem ritmadamente uns atrás dos outros, para baixo e para cima. Verdadeiramente espectacular!

Um dia minha mãe morreu e como se isso não bastasse decidiram baldear toda a minha roupa, incluindo a tal soera do fecho eclair, para dentro de um enorme caldeirão, cheio de água a ferver e no qual haviam deitado uns tubos de tinta preta "Coureina", para que assim se tingisse e perdesse as cores naturais, tornando-se preta, a fim de deitar o luto devido pela morte da minha progenitora, como era costume na altura.

É verdade que a soera de verde passou a preta e com o tempo tornou-se cinzenta, mas também é verdade que o meu primeiro e inesquecível fecho eclair, por causa daquela estranhíssima e galvanoplástica operação, nunca mais voltou a ser o que era.

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O CICLO DO MILHO VIII

Terça-feira, 24.01.17

Pão, bolo, escaldas e papas eram comidos geralmente com leite. No entanto o pão, o bolo e as escaldas acompanhavam o conduto da maior parte das refeições. Muitas vezes o pão tinha que ser estufado ou frito para evitar o bolor. O bolo, quando mais velho, também se comia frito.

Na altura em que o milho era apanhado e com as maçarocas que não eram encambulhadas faziam-se as célebres “papas grossas”, de cozedura semelhante às outras mas com a diferença de que o milho ainda estava verde e era moído em casa, num “moinho de mão” que muitas famílias possuíam. Estas papas muitas vezes eram partidas às talhadas e fritas o que constituía uma refeição muito gostosa e apreciada.

Todos os anos, alguns dias após o milho estar todo apanhado, o que acontecia geralmente pelos Santos, recolhia-se, em toda a freguesia o “Milho para as Almas”.

Na Fajã Grande, como aliás em toda a ilha das Flores, houve sempre um grande culto, devoção e, sobretudo, respeito pelas almas do purgatório, o que se verificava especialmente ao longo de todo o mês de Novembro. Recorde-se que inclusivamente o primitivo orago da freguesia da Caveira era as Benditas Almas, aliás nunca mudado por decisão canónica mas apenas por vontade popular, dado que considerava-se “que o dia em que se celebravam as Benditas Almas era de ofícios fúnebres e portanto pouco próprio para festas e  celebrações”.

A importância do culto e devoção ou lembrança dos que tinham partido e eventualmente estariam no Purgatório a expiar as suas faltas até terem o álibi para entrar no Céu, era de facto gigantesca, desmesurada e a ela inequivocamente toda a freguesia aderia. Um dos pontos altos era o da recolha do milho da primeira casa da Assumada à última da Via d’Água e cujo dinheiro resultante da venda se destinava a celebrar missas opor alma de todas as pessoas até então falecidas na freguesia.

Com uma organização impecável e sob as ordens da “Mordoma das Almas” cargo desempenhado durante a minha infância pela minha avó materna, um grupo de homens carregando cestos às costas corriam as casas da freguesia uma a uma e recolhiam as maçarocas já descascadas que cada um achava que podia e devia oferecer por alma dos seus e dos outros. Todo esse milho era levado para casa da Mordoma e colocado na sala formando, a pouco e pouco, um enorme monte. Um grupo de mulheres e crianças sentavam-se à volta e debulhavam-no todo, maçaroca após maçaroca e enchiam-no em sacos a fim de ser vendido, o que acontecia geralmente no próprio dia da recolha.

O dinheiro resultante da venda do milho era entregue ao pároco que com ele ia celebrando missas e rezando responsos durante todo o mês de Novembro pela alma de todos os familiares já falecidos de todas as casas da freguesia.

Em tempos mais antigos, segundo relatos de pessoas mais idosa, esta recolha do milho era feita de forma diferente. Segundo esses relatos havia na rua Direita, perto da casa de Espírito Santo de Baixo, uma casa, chamada “Casa do Purgatório”. Nessa altura, em vez do milho ser recolhido sob as ordens da Mordoma, seriam as pessoas a ir levá-lo a essa casa, onde ia ficando guardado até ser debulhado e vendido, sendo o dinheiro resultante da venda também destinado a missas para as almas. Uma das minhas tias actualmente a rondar os noventa e quatro anos garante-me que se lembra de ir levar um saco de milho à “Casa do Purgatório”.

Curiosamente muitas pessoas, especialmente mulheres, quando se viam em dificuldades ou com problemas, voltavam-se para as almas e prometiam “tirar uma esmola” se, por intercessão destas, ficassem aliviadas de seus males. Se as Benditas Almas supostamente atendiam o pedido formulado, a votante corria sozinha todas as casas da freguesia. Batendo à porta gritava: “Esmola para as almas”. Cada família dava então um pouco de milho ou se o não tivesse ou não quisesse dar, respondia simplesmente: “Pai Nosso e Ave Maria”. O milho resultante deste peditório era geralmente entregue à Mordoma que o juntava ao anteriormente recolhido ou lhe dava destino idêntico.

Note-se que rituais semelhantes a este eram cumpridos quando se solicitava a intervenção do Santíssimo, da Sra da Saúde, de São José, Santa Filomena ou de outro santo, sendo neste caso o dinheiro entregue na igreja em memória do santo respectivo.

 

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A ANTIGA FESTA DE SANTO AMARO NA FAJÃ GRANDE

Domingo, 22.01.17

Uma das maiores e das mais importantes festas celebradas, antigamente, durante o inverno, na Fajã Grande, era a de Santo Amaro.

Amaro, segundo uns, Mauro ou Amauro, segundo outros, nasceu em Roma em 1512 e foi frade beneditino, tornando-se célebre, sobretudo, pelo seu poder taumaturgo. Já em vida, ao ser enviado por São Bento de Roma para a Gália (hoje França), a fim de, a pedido do Bispo de Le Man, estabelecer a vida monástica beneditina naquela região, foi vítima de grandes e variadas atribulações durante a viagem, mas a todas, no entanto, de acordo com os seus biógrafos e de mistura com algumas lendas, escapou milagrosamente. Mas foi sobretudo, após a sua morte que os milagres operados por Amaro se multiplicaram, pelo que, foi canonizado. Foi então que Santo Amaro se tornou conhecido, celebrado e venerado por toda a Europa Católica, sendo também escolhido para patrono dos aleijados e especialmente invocado para a cura de reumatismo, epilepsia, gota, rouquidão, resfriados e muitas outras doenças e maleitas.

Muito provavelmente por influência dos primeiros colonos e povoadores, nos Açores Santo Amaro também foi sempre alvo de grandes devoções por parte da população de todas as ilhas, sendo até que algumas freguesias o têm como padroeiro e, nalguns casos, o Santo até deu nome à própria localidade. Nas ilhas açorianas, o fiel e pioneiro discípulo do patrono da Europa, também foi sempre invocado para a cura milagrosa de inúmeras maleitas, sendo considerado o patrono dos sapateiros e dos artesãos de cobre.

Na Fajã Grande, Santo Amaro era invocado para cura de tudo o que fosse quebrado, torcido, desmanchado, fora do lugar ou para tudo o que tivesse qualquer tipo de lesão, mazela ou achaque em qualquer parte do corpo humano, desde das pontas dos pés até ao cocaruto da cabeça. Para além disso, o Santo ainda era invocado na cura das doenças das crianças, na eficiência e normalidade dos partos e até nas doenças ou mal olhados dos porcos, das vacas e das galinhas. Por tudo isto se celebrava uma grandiosa festa em sua honra no mês de janeiro. Na igreja paroquial, num dos nichos laterais do altar da Senhora do Rosário havia uma pequenina imagem do Santo, vestido com o seu hábito de monge beneditino, com um báculo na mão e em sua honra fazia-se uma enorme e grandiosa festa no segundo ou terceiro domingo de janeiro, normalmente a seguir ao dia 15 do mesmo mês, agendado no calendário litúrgico como o dia a ele dedicado, por se comemorar a sua morte.

Nos dias anteriores decorria em quase todas as casas uma enorme azáfama. De acordo com as promessas feitas era necessário cozer muita massa sovada, depois de lhe dar a forma dos bonecos que se pretendiam em função das promessas feitas. No domingo, para além de missa votiva, cantada e com sermão, tinha lugar de destaque, após as celebrações litúrgicas, um enorme leilão, onde eram arrematadas inúmeras ofertas feitas em massa sovada com o formato ou feitio da parte do corpo humano, da criança ou do animal que o Santo milagreiro havia curado miraculosamente. Antes da missa o altar enchia-se por completo de promessas, personificadas por pães de massa sovada em forma de cabeça, braços, estômago, pernas, pés, de crianças (umas já crescidas outras acabadas de nascer), de porcos, vacas e até galinhas que ali ficavam durante a missa, finda a qual eram solenemente benzidas e depois arrematadas em leilão, no adro da igreja.

O leilão prolongava-se até ao anoitecer e nesse dia, tal como no dia de Espírito Santo, não havia casa na Fajã que não ceasse umas boas fatias da deliciosa massa sovada, geralmente acompanhada com uma tigela de leite ou café e um pedacinho de queijo.

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publicado por picodavigia2 às 09:30

O CICLO DO MILHO VII

Sábado, 21.01.17

Com a devida autorização transcrevo parte de um email que me foi enviado por uma neta de um dos donos de dois dos moinhos da Ribeira das Casas e que retrata o estado a que lamentavelmente chegaram:

“…eu não sei bem há quantos anos eles foram construídos, mas sei que eram dois e duraram muitos anos. Eram os meus avós que moíam quase todo o milho da freguesia. As pessoas iam lá levar as moendas ou sacos, eles moíam-no e tiravam meia quarta para o pagamento. Quando meus avós ficaram velhos os meus pais é que continuaram a moer. Os moinhos usavam a água que vinha da rocha e caía no Poço do Bacalhau. Depois eles construíram uma  levada que trazia a água desse Poço ate ao moinho. Antigamente tinham que lá dormir porque quando acabava uma moenda eles tinham que por outra, mas meu pai inventou uma engenhoca que quando uma moenda acabava, saltava e puxava uma corda que ia por fora e deixava cair uma espécie de portão ou tampa fazendo com que a água não passasse para cima da  roda e o moinho parasse, até de manhã. Assim já não era necessário ficar alguém lá durante a noite. Pobre  moinho! Já nada existe lá a não ser umas paredes, a roda que tinha alguns 30 pés de altura e uns ferros cheios de ferrugem. Parte das paredes e o telhado caíram e as madeiras estão todas podres. Apenas lá ainda se encontram as pedras que moíam o milho. Infelizmente os donos também já todos partiram… “

Moído o milho, a farinha era guardada em casa, num armário ou na amassaria a fim de ser usada consoante as necessidades, ou seja, para cozer bolo, pão de milho e escaldadas, para fazer papas ou até para alimento dos animais.

O pão era cozido uma vez por semana, geralmente à Sexta-feira e era dia de grande azáfama e alvoroço em casa. Primeiro era necessário ir ao “cepo da lenha” fender, rachar e picar muita lenha para aquecer devidamente o forno. No dia de cozer começava-se por escaldar a farinha numa enorme celha de madeira ou num alguidar de barro. Para tal regava-se a farinha com água a ferver e, enquanto esta massa arrefecia, aproveitava-se o tempo para acender o forno a fim de o aquecer de tal maneira que cozesse bem o pão. Forno mal aquecido pão mal cozido. Arrefecida a massa resultante da mistura da água com a farinha, juntava-se o fermento guardado da cozedura anterior e a “mistura”, ou seja, dois ou três punhados de farinha de trigo. Seguia-se o amassar. Oh braços, para que vos quero! Era uma tarefa cansativa pois a massa para levedar em boas condições tinha que ser bem amassada e, no fim, benzida, devendo, a mulher, depois de a amassar, desenhar-lhe uma cruz em cima e rezar a seguinte jaculatória: “San João t’afermente e Sant’Antonho t’acrescente”. Do forno saiam labaredas enormes e vermelhas que enchiam a casa de fumo e de calor. Só estaria pronto pão quando as pedras que ficavam por cima da porta estivessem brancas. Era necessário, em seguida, varrê-lo com o varredouro, geralmente feito de faia do norte ou de louro. Havia quem não tivesse verduras e fizesse um varredouro de trapos velhos mas, neste caso teria que o molhar, o que, segundo as opiniões mais abalizadas prejudicava o aquecimento do forno. A cinza era retirada e as brasas puxadas para junto da porta e guardadas numa espécie de átrio que esta tinha e protegidas com um semicírculo de ferro para que não caíssem no chão. De seguida a massa era partida em pedaços e padejada numa tigela previamente polvilhada com farinha e depois despejada em cima da pá que os ia colocando e arrumando dentro do forno, o qual deveria ser muito bem tapado. Passado uma hora o pão estava cozido e era retirado, um a um, com uma pá, colocado em cima da mesa e abafado com colchas e cobertores. Se o forno não estivesse bem aquecido o pão podia “encruar” e se apanhasse frio ao tirá-lo do forno podia “ocar”. Essa a razão porque nunca se devia abrir a porta da cozinha enquanto se tirava o pão do forno. A mulher que o cozia também não devia sair de casa e resguardar-se do frio durante toda a tarde e noite.

O bolo e as escaldadas eram feitos com uma massa semelhante à do pão mas sem fermento e sem “mistura”, com a diferença de que o bolo era cozido em tijolo de barro ou na chapa e as escaldadas no forno, imediatamente a seguir ao pão e aproveitando o calor resultante da cozedura deste. Acrescente-se que estas, para não levantarem, eram picadas com um garfo em toda a sua superfície superior. Por vezes coziam-se umas escaldadas especiais, uma vez que à massa se juntava graxa e uns pedacinhos de torresmos. Eram as chamadas escaldadas de torresmos.

Finalmente as papas que eram feitas quando o pão ou o bolo rareavam e eram de fácil mas demorada e cuidadosa elaboração. Num caldeirão com água a ferver era lançada a farinha que deveria ser contínua e ininterruptamente mexida com a “colher das papas” a fim de não formar godilhões. Mas papas, por mais mexidas que fossem, inequivocamente apegavam ao fundo do caldeirão formando uma deliciosa e apetitosa crosta conhecida por “Cascão das Papas”.

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O CICLO DO MILHO VI

Sexta-feira, 20.01.17

Era nos estaleiros que se guardava o milho, quer os cambulhões em que as maçarocas tinham a casca quer as cambulhadas em que eram encambulhadas descascadas. O milho ali ficava a secar desde o dia da apanha até à altura em que fosse necessário levá-lo para o moinho, a fim de o transformar em farinha.

Construídos sempre muito perto das casas, geralmente num quintal, numa courela ou até no curral das galinhas, os estaleiros na Fajã Grande tinham quatro formas diferentes.

Uns, os maiores que eram também os mais comuns e usuais, tinham a forma de um telhado acentuadamente inclinado, assente sobre grossos barrotes de madeira, as faces laterais constituídas por tiras ou “taliscas” de madeira, paralelas umas às outras, em forma de grade e pregadas aos paus das arestas e a outros que as subdividiam em duas ou três partes. Era nesta tiras que se penduravam com arte e sabedoria os cambulhões cujas maçarocas tinham casca, e que ficavam de tal maneira expostos de maneira que a chuva não penetrasse e atingisse as maçarocas e os ventos ciclónicos do Inverno não levassem o próprio milho pelos ares. Apenas as faces das cabeceiras e a da base não tinham tiras pelo que ficavam abertas a fim de que o ar circulasse por entre as espigas e estas não deteriorassem ou apodrecessem. No interior também eram pregadas tiras paralelas à base onde se penduravam as cambulhadas. A armação destes estaleiros assentava em quatro ou seis pés, todos de alvenaria caiada e muito lisos a fim de evitar a subida dos ratos.

Havia outros estaleiros muito semelhantes a estes no tamanho mas em forma de cubo, assente em cima de quatro pés, semelhantes aos outros. Os cambulhões com casca eram pendurados nas quatro faces laterais, ficando abertas, para entrada do ar, a base e a parte superior. Estes estaleiros eram raros.

Outros tipos de estaleiros, mais simples e mais pequenos eram os formados apenas por quatro paus. Estes eram enfiados na terra equidistantes uns dos outros mas de tal maneira inclinados que se juntavam na parte superior sendo então amarrados com um forte arame, formando uma espécie de pirâmide cujas faces também eram cravejadas de tiras paralelas, nas quais eram pendurados os cambulhões, quer com casca quer sem casca. A protecção contra os ratos obtinha-se através da colocação de umas folhas de lata no cimo dos pés. Estes estaleiros eram de construção esporádica e normalmente eram construídos quando o milho não cabia no estaleiro principal.

Finalmente e construídos pelas pessoas que tinham pouco milho, havia uns estaleiros muito mais simples e constituídos por quatro ou cinco paus paralelos uns aos outros e nos quais se pregavam as ripas, formando uma espécie de grade que se encostava geralmente às empenas das casas e onde se penduravam os cambulhões.

Pendurar o milho nos estaleiros era uma arte e exigia sabedoria e experiência. Os cambulhões começavam a pendurar-se de baixo para cima, umas maçarocas ficavam viradas para fora e outras para dentro, formando uma espécie de cobertura de telhado até chegar à trolha, ou seja, aresta oposta a base e que tinha que ser muito bem coberta, sendo para tal elaborados uns cambulhões maiores.

Ao longo do ano, quando não havia farinha ou quando a existente estava prestes a chegar ao fim era necessário tirar uma parte do milho que estava guardado nos estaleiros, de maneira a encher uma moenda que seria levada ao moinho.

Para tal era necessário tirar do estaleiro uma certa quantidade deo milho, o qual, antecipadamente devia ser descascado, caso se tratasse de cambulhões. O primeiro milho a levar-se ao moinho era o que se havia guardado no balaio. Só depois de utilizado todo este se recorria ao dos estaleiros, começando sempre pelas cambulhadas. Só depois se tirava milho dos cambulhões. A retirada destes do estaleiro deveria ser sempre inversa à da sua colocação, de forma a não prejudicar o que lá ficava e apenas na quantidade necessária para encher a respectiva moenda, que de imediato seria levada ao moinho.

Na Fajã Grande havia quatro moinhos todos na Ribeira das Casas, dois pertencentes a tio Manuel Luís, um ao Manuel Dawling e o Moinho do Engenho, que teve vários proprietários, acabando, mais tarde, por ser abandonado. Competia a cada agricultor ou a um membro da sua família levar a sua própria moenda ao moinho, tarefa geralmente atribuída às raparigas, as quais aproveitavam a ida para por em dia a conversa com os namorados. Na ocasião em que se entregava a moenda era combinado com o moleiro o dia em que estaria pronta.

Ao moleiro competia apenas moer o milho, pagando-se ele próprio do seu trabalho através de uma “maquia” de farinha que retirava de cada uma das moendas. Como geralmente não a utilizava para uso pessoal, dado que ele próprio também tinha as suas terras de milho, vendia-a compensando assim todo o trabalho que tinha e as horas que passava no moinho, onde geralmente pernoitava, pois a substituição de cada moenda era manual.

Os moinhos na Fajã Grande, como aliás em toda a ilha das Flores eram movidos a água, por isso eram construídos junto das ribeiras donde se desviava a água para um rego ou levada, que corria na direcção do moinho. A água encanada no respectivo rego corria no mesmo com maior pressão, saía do rego e projectava-se contra uma enorme roda dentada cujo movimento comunicava a toda a restante engrenagem que acabava por movimentar a mó. Na Fajã Grande os moinhos ficavam situados junto da Ribeira das Casas e deles, actualmente, apenas restam ruínas.

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O CICLO DO MILHO V

Quinta-feira, 19.01.17

Finalmente o dia da apanha. As pessoas destinadas aquela tarefa dirigiam-se para o campo seleccionado bastante cedo, umas vezes ainda alta madrugada outras noite escura, sendo que por vezes ao nascer do Sol o milho já estava quase todo apanhado. Os cestos eram colocados estrategicamente em pontos diversos ao longo do terreno enquanto se iam arrancando as maçarocas dos milheiros com perícia e destreza, atirando-as, de seguida, para dentro dos cestos, até os encher bem “acaculados”. Muitas terras ficavam longe do caminho e a elas se tinha acesso apenas por canadas muito estreitas onde os carros de bois não cabiam. Era aos mais jovens, mais robustos e mais fortes que competia a tarefa de acarretar os enormes cestos cheios a abarrotar de maçarocas, às costas, até ao carro de bois, dentro do qual o milho ia sendo muito bem empilhado e arrumado. Quando a sebe estava rasa fazia-se à sua volta uma borda com as maçarocas mais gradas, criando assim um novo espaço que se ia enchendo e depois uma outra borda e várias outras até a sebe ficar a abarrotar. Uma vez cheio, um ou mais homens, tangendo os bois, conduziam o carro até a casa despejando literalmente o milho na cozinha, caso o proprietário não tivesse uma casa de arrumos adequada.

Ao meio do dia geralmente terminava a apanha e a recolha do milho. A cozinha enchia-se, então, de maçarocas do chão até ao tecto. Enquanto não começava a tarefa de encambulhar as crianças aproveitavam para brincar ao escorrega, já que os não havia noutro sítio. Assim entretinham-se vezes sem conta a subir o monte das maçarocas para depois deslizar por ele abaixo simulando e profetizando os modernos escorregas dos parques infantis.

De tarde iniciava-se o encambulhar. Sentados em banquinhos ou se os não havia em cestos com o fundo voltado para cima, à volta do monte do milho, homens mulheres e jovens pegavam nas maçarocas uma a uma e procediam a uma avaliação rigorosa da mesma. Se era raquítica, debilitada, atrofiada ou se a casca não cobria bem os grãos era separada das restantes. Caso contrário, isto é se a maçaroca aparentava boa qualidade era lhe puxada uma folha da sua própria casca, o mesmo se fazendo com mais algumas, juntando-se todas numa espécie de molho. Depois retorcia-se a parte das pontas formando uma espécie de trança, dobrava-se e amarravam-se todas muito bem amarradas com um fio de espadana. Eram os cambulhões que se iam separando do resto do milho, competindo às crianças acarretá-los aos ombros ou nas mãos para junto do estaleiro onde seriam devidamente pendurados e guardados.

As restantes maçarocas ou seja aquelas que não tinham as qualidades necessárias para serem encambulhadas com a casca separavam-se e, no final, eram descascadas mas não na totalidade. Deixava-se em cada uma delas, uma folha mais resistente o mesmo se fazendo com mais algumas, juntando-as todas também num molho e formando cambulhões de forma muito semelhante aos das que tinham casca, embora, regra geral, estes cambulhões tivessem menor número de maçarocas.

Finalmente havia algumas maçarocas às quais era impossível deixar qualquer casca. Estas eram guardadas no balaio, uma espécie de cesto muito grande em forma de alguidar, e, depois de postas a secar ao Sol dias e dias, seriam debulhadas e o seu milho seria o primeiro a ser utilizado, quer para encher as moendas e levar ao moinho quer para alimento de galinhas, vacas e porcos.

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O CICLO DO MILHO IV

Quarta-feira, 18.01.17

Depois de sachados, corridos e desbastados os milheirais cresciam de dia para dia. As suas folhas muito verdinhas e esticadas entrelaçavam-se umas nas outras e balouçavam como ondas ao sabor das brisas matinais e os caules amarelos, canelados e esguios, tornavam-se altíssimos, enfeitando-se lá no alto com umas flores estranhas que cobriam os campos como se fossem dezenas, centenas de mantos esbranquiçados e fofos como que a cobrir uma boa parte da freguesia. Pouco depois eram as maçarocas a despontarem nos milheiros, pequeninas e sorridentes, com as suas barbichas douradas e a crescerem de dia para dia acariciadas com o Sol do Outono.

Quando as folhas e o caule começavam a alourar e com as maçarocas já durinhas, (resistentes à unha) era altura de quebrar as espigas. Esta operação também não era fácil e requeria arte, técnica e sabedoria. Primeiro porque tinha que ser feita na altura adequada e quando já não prejudicasse o crescer da maçaroca e consequentemente dos grãos. Em segundo lugar, porque a espiga ou pendão devia ser quebrada no nó certo e adequado, ou seja, pelo primeiro nó logo acima da maçaroca, devendo para tal obedecer a um toque ou movimento afoito, destemido e certeiro da mão de quem o fazia, toque que nem todos sabiam dar. Dobrado o milheiro noutro sítio não mais se quebraria à mão. Era necessário, nesse caso, recorrer à navalha ou outro objecto cortante, o que demorava bastante tempo. Acrescente-se que muitos agricultores, sobretudo os mais jovens, recorriam sempre ao corte da espiga com uma navalha ou com uma foice porque não sabiam cortá-la à mão, o que, segundo a opinião dos mais velhos era mais prejudicial para o milho.

A espiga geralmente não era quebrada toda no mesmo dia, mas em dias sucessivos para que assim permanecesse mais verde e fresquinha para alimentar os animais. Alguns agricultores, no entanto, preferiam, depois de quebrá-la ou cortá-la, deixá-la a secar em cima dos marouços ou contra as paredes e depois de seca guardá-la nos palheiros para alimento dos bovinos, no Inverno.

Algum tempo depois era a altura de desfolhar o milho. Dias antes apanhavam-se folhas e folhas de espadana que se cortavam em pedacinhos, os quais, por sua vez, se desfiavam em tiras fininhas com as quais se faziam pequenos molhos. Estes eram presos numa alheta das calças e com eles se iam amarando as folhas do milho à medida que se iam arrancando dos milheiros, formando “pavias” ou “mãos-cheias” que eram penduradas num ou noutro dos milheiros, junto à maçaroca, para que, secassem melhor e, alguns dias depois, na altura da recolha, fosse mais fácil encontrá-las e recolhê-las. O desfolhar, no entanto, não era tarefa fácil pois exigia-se que a folha fosse arrancada do milheiro com a bainha, o que, sobretudo para os menos experientes, revelava-se um pouco difícil e demorava muito mais tempo. Alguns “desfolhadores” mais expeditos faziam-no com muita arte e perfeição e até conseguiam amarrar a pavias de folhas com uma outra folha. Outros para extrair a folha com a bainha faziam-no muito lentamente dado que a despegavam do milheiro uma por uma e com as próprias unhas. Nesse caso a desfolha ficava perfeita e as “pavias” para além de mais rentáveis também ficavam mais bonitas. Curiosamente esta era uma das tarefas em que os agricultores mais se ajudavam uns aos outros, fazendo-o, por vezes, até de noite, aproveitando a Lua-cheia ou recorrendo às Petromax que alguém ia segurando sobre a cabeça por entre os milheirais.

A rama depois de seca e enxuta era acarretada para junto de casa em carros de bois ou aos ombros e guardada nas casas velhas ou de arrumos, destinando-se a alimentar o gado nos rigorosos dias de Inverno, durante os quais era impossível ir aos campos buscar comida verde e fresca.

O dia de “apanhar o milho” era um dia de muito trabalho. Mas como geralmente aos trabalhos duros e pesados era dado um certo sentido de alegria, este dia também era, em certo sentido, um dia de festa.

Na véspera era preciso preparar tudo: consertar o estaleiro se necessário, untar os cocões e montar a sebe no carro de bois, arranjar os cestos necessários, cortar e desfiar as espadanas e cozinhar a comida necessária de acordo com as pessoas de fora que eventualmente viessem ajudar.

 

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O CICLO DO MILHO III

Terça-feira, 17.01.17

Uma vez semeado, não tardava muito e era um regalo ver o milho a crescer, a crescer, muito verdinho e espevitado. Em Abril, Maio ou Junho começava a primeira das várias e pesadas tarefas que a produção do milho exigia - sachar. Quando o milho ainda estava miudinho mas já muito bem-nascido, por vezes debaixo de um calor tórrido, homens mulheres e crianças dirigiam-se para as terras descalços, chapéu na cabeça e sacho às costas. Sachavam e mondavam todos os campos onde havia milho, de lés a lés, retirando as ervas daninhas e as mondas para que o milho crescesse melhor e dispusesse de toda a riqueza e força do terreno. Antes porém um ou dois homens mais experientes iam à frente com o intuito de desbastar o milho, isto é, de arrancar os pés aparentemente inúteis bem como os das zonas em que estavam mais bastos para que os outros crescessem mais à vontade. Era um trabalho difícil, uma espécie de arte que só os mais velhos e experientes sabiam e podiam fazer. Se o milho ainda era miudinho esses pés excedentes ficavam a apodrecer sobre a terra, juntamente com a monda que também era arrancada. Mais tarde haviam de se transformar em estrume. Se pelo contrário o milho já era maiorzito, os pezinhos arrancados eram atados em gavelas que depois se amarravam formando molhos que eram trazidas para casa, para alimento dos animais bovinos. Os que iam atrás, curvados com uma mão no sacho outra na monda ou na terra, arrancavam todas as ervas daninhas existentes, sacudiam-lhes as raízes e reviravam toda a terra com o sacho, amontoando-a junto dos pezinhos do milho, sobretudo dos mais frágeis, para que estes crescessem fortes e se protegessem das ventanias e temporais que viriam algum tempo depois.

Uma vez sachado, mondado e desbastado, o milho crescia a olhos vistos e nos dias seguintes os campos transformavam-se em enormes tapetes de folhas verdes, caneladas e pontiagudas, ladeadas pelos canteiros onde floresciam couves repolhudas e, às vezes até as ervilhas, os feijoeiros, as caseiras e os tomateiros também entrelaçados pelo meio, que embora semeados em pequena quantidade, começavam já a trepar pelas estacas de cana que eram espetadas aqui e além ou pelos próprios milheirais.

Algum tempo depois, era necessário “correr” o milho e desbastá-lo novamente. A tarefa de correr era bem mais rápida do que o sachar, pois nessa altura já tinham sido arrancadas quase todas as mondas e ervas daninhas. Agora bastava apenas passar novamente toda a terra a terra com o sacho ou com o lado de uma enxada e ajeitá-la ainda mais para junto de cada pé de milho para que este, agora já bem mais alto e esguio, ficasse bem “calçado” e resistisse corajosamente à força do vento. Nessa altura o milho era desbastado pela última vez. Aos pés agora arrancados era cortada a raiz e eram trazidos para casa para alimento dos animais. Nas terras longe do mar, quando o milho já estava espigado, era semeado o trevo e a erva da casta, devendo todo o terreno ser novamente passado ou seja revirado de lés a lés com um ancinho a fim de que as sementes lançadas à terra se misturem com esta para nascerem as respectivas forrageiras.

Na Fajã Grande, contrariamente a outras localidades das Flores e dos Açores, os homens sempre sacharam e correram o milho curvados ou de cócoras, segurando com uma mão o sacho e arrancando a monda ou anafando, ajeitando ou alisando a terra com a outra. Essa a razão por que aos sachos comprados nas lojas e que vinha do Faial se lhes cortava sempre o cabo pelo meio.

Nos finais da década de cinquenta surgiu na Fajã a “caliveira” a qual veio alterar significativamente, poder-se-á mesmo dizer que veio revolucionar, a cultura do milho, nomeadamente a forma de o semear e a maneira de o sachar.

A “caliveira” era uma espécie de sachador, puxado apenas por um animal, geralmente um burro ou um macho, que tinha uma armação de forma triangular, sustentada à frente por uma roda, como o arado de ferro e à qual se seguiam séries de um, dois e três dentes com o formato de enxadas, de tal forma dispostos que os de trás passavam por onde não tinham passado os da frente, permitindo assim revolver toda a terra por onde a caliveira passava e que era conduzida por uma rabiça de duas pegas. Destinava-se a sachar o milho, revirando a terra com os dentes e, simultaneamente, arrancando as ervas daninhas. Por essa razão a forma de semear o milho foi substancialmente alterada: os regos passaram a ser rigorosamente paralelos uns aos outros e sempre no cumprimento do terreno, o milho passou a ser semeado um rego sim e dois não de forma a que, quando crescesse, a caliveira e o animal que a puxava pudessem passar por uma espécie de carreiro rectilíneo que ficava entre cada um dos dois regos semeados. Idêntico procedimento era tido nas cabeceiras do terreno.

A caliveira, no entanto, tinha vantagens mas também tinha desvantagens. No que concerne às primeiras, a caliveira aliviava o cansativo trabalho de andar vergado ao sacho dias e dias e, além disso, era bastante mais rápida. No entanto, tinha alguns malefícios o que levou alguns agricultores a teimarem em não a adaptar aos seus terrenos: obrigava a semear o milho em linhas paralelas muito alinhadas e equidistantes o que não era fácil devido à morfologia das terras, destruía muito do milho já crescido, quer por parte do animal, apesar de andar com uma boquilha, quer ao virar a caliveira nos extremos ou até mesmo ou não conduzi-la correctamente. Além disso a caliveira não sachava nem os cantos nem junto aos pés de milho, nem muito menos puxava a terra para junto dos pés deste, obrigando assim, que após o calivar, fosse necessário sachar grande parte do terreno e puxar a terra para junto dos pés de milho. Além disso as caliveiras eram bastante caras e só os lavradores um pouco mais abastados as podiam comprar, embora alguns destes as emprestassem aos que as não tinham por não as poder comprar. Assim acontecia com meu pai e meus irmãos que, por razões económicas, nunca tiveram caliveira mas sacharam sempre o seu milho com uma que lhes emprestava tio José Teodósio, que morava mesmo ali, em frente a uma terra que tínhamos na Fontinha.

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O CICLO DO MILHO II

Segunda-feira, 16.01.17

Nas chamadas “terras de oitono”, ou seja, naquelas em que era semeado trevo, erva da casta ou até favas e onde durante os meses de Abril e Maio as vacas estavam amarradas à estaca ou à “à cordada”, a preparação dos terrenos para o semear do milho era um pouquinho diferente. Estas terras ficavam situadas nos seguintes lugares: Ribeira das Casas, Calhau Miúdo, Mimoio, Ladeira, Fontinha, Alagoeiro, Ribeira, Fonte de Cima, Batel, Bandeja, Queimadas, Vale da Vaca, Descansadouro e Delgado.

Em primeiro lugar, estas terras, geralmente não eram enriquecidas nem com esterco nem com sargaço. Por um lado a maior parte dos acessos a muitas delas, como por exemplo o Mimoio, eram canadas apertadíssimas por onde os carros de bois não conseguiam passar e, por outro, aqueles produtos eram geralmente gastos nas outras terras. Além disso e, regra geral, estas terras eram muito bem adubadas pelas vacas enquanto lá estavam amarradas à estaca. É que estas ficavam ali presas dia e noite, mesmo em dias de chuva (só em dias de temporal eram trazidas para os palheiros), tendo muitas vezes, para além da comida que a “cordada” das forrageiras lhes proporcionava, um suplemento alimentar constituído por gavelas de erva, de incensos de couve ou de outra comida, precisamente para que os animais permanecessem mais tempo em todos e cada um dos pedacinhos de terra, a fim de estrumar melhor o campo onde, algum tempo depois havia de ser semeado o milho. Apenas quando as terras, por qualquer razão, não eram bem “trilhadas” ou seja adubadas pelas vacas se enriqueciam com um ou dois sacos de adubo.

A batata-doce, nestas terras também não se misturava com a cultura do milho. Era cultivada só, em terras para tal preparadas – batata-doce de latada e era esta que se destinava à alimentação das pessoas. Nas restantes cultivava-se o milho que crescia orgulhosamente só, até deitar espiga. Só então por entre os milheirais já crescidos e espigados se espalhava a semente de trevo ou de erva da casta que depois era coberta ou misturada na terra com um ancinho para de seguida nascer, crescer e florir após a apanha daquele cereal, transformando os campos em maravilhosos tapetes verdes matizados de vermelho, branco, rosa e azul, com que as vaquinhas se haviam de regalar mais tarde.

De resto, todo o processo de preparação do terreno, no que diz respeito a lavrar, gradar e atalhar, era igual aos das outras terras. Primeiro eram lavradas com o arado de ferro, de seguida gradadas uma e duas vezes e, mais tarde, atalhadas. No entanto, o lavrar aqui era muito mais difícil e tornava-se mais cansativo para os animais que puxavam o arado, uma vez que o terreno estava rigorosamente muito mais endurecido.

No que concerne à sementeira do milho o maior e primeiro cuidado que havia de se ter era o da escolha da semente. Milho para se semear tinha que ser de boa qualidade e, por essa razão, aquele que se queria para semente era seleccionado entre o melhor de toda a produção. Cada agricultor escolhia a terra onde o seu milho era melhor ou uma a zona da mesma onde tal acontecesse e guardava-o com maior cuidado. As maçarocas destinadas à semente deviam ser conservadas em lugar apropriado e, por vezes, até deviam ter tratamento especializado, para que o gorgulho, o maior inimigo do milho seco, não as estragasse. Milho semeado que eventualmente estivesse furado pelo gorgulho não nasceria. Quem não conseguisse milho adequado para a sementeira, resultante da sua própria colheita tinha que comprá-lo, de contrário sujeitar-se-ia a uma nula ou má colheita.

Obtida a boa semente agendava-se o dia da sementeira. Nas terras da beira-mar semeava-se em Abril e princípios de Maio e nelas, quando o milho começava a nascer, era-lhe plantada, pelo meio, a batata-doce. Nas restantes terras, porque mais frias, semeava-se quando o tempo já era mais quente, ou seja, no início do Verão.

Numas e noutras terras o milho era semeado em regos feitos por um arado de pau, de forma muito semelhante ao atalhar. Este arado, todo em madeira excepto a ponta que era em ferro, era puxado por uma ou duas reses. Estas, caso não estivessem habituadas ao trabalho, para além do lavrador que ia agarrado à rabiça, conduzindo o arado no sítio certo para o rego, carregando-o para que fizesse um bom rego e tangendo os animais, teriam que ter alguém que andasse na sua frente, conduzindo-as de acordo com as orientações do lavrador que tentava levar sempre o arado de forma a traçar regos paralelos e simétricos de uma extremidade à outra do campo. Era geralmente às mulheres que competia seguir atrás do arado, descalças, de lenço e chapéu na cabeça, atirando os grãos de milho para o respectivo rego. Esta tarefa exigia muita habilidade. Retirando punhados de milho de uma cesta que geralmente levava enfiada no braço esquerdo iam atirando com a mão direita grão os grãos, uns após os outros, para os regos que eram sulcados pelo arado. Faziam-no com tanta agilidade e perícia que os grãozinhos caiam direitinhos bem no fundo do respectivo rego onde ficavam muito bem alinhados, juntinhos e equidistantes uns dos outros, para poderem nascer e crescer à vontade. Por vezes eram atirados de dois a dois para que nascesse um par de pezinhos de milho, como se fossem gémeos. Cada rego fechava-se com o abrir do rego seguinte, tapando assim os grãozinhos que ali ficavam a germinar durante alguns dias. Por fim a terra era novamente gradeada e alisada para que os grãos ficassem todos muito bem escondidinhos para que os pássaros os não comessem e também para que germinassem mais facilmente, com a ajuda do Sol e da chuva dos dias seguintes. A sementeira do milho, sobretudo se a terra era boa e estava bem adubada, era muito densa e feita de forma a aproveitar muito bem todo o terreno. Este aproveitamento era tal que terminada a tarefa até se semeavam manualmente e com uma enxada os cantos do terreno que tinham ficado por lavrar porque o arado não conseguira lá chegar.

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O CICLO DO MILHO I

Domingo, 15.01.17

A economia (se é que se pode falar em tal) da Fajã Grande, nos anos 50, baseava-se fundamentalmente numa agricultura de subsistência, em que o principal e mais importante produto cultivado era o milho, a cuja cultura estava necessariamente ligada a pecuária.

Nesta agricultura de subsistência o cultivo do milho revelava-se deveras muito importante, dado que dele dependia quase na totalidade a sobrevivência da população e, por essa razão, o seu ciclo, prolongava-se em etapas diferentes e em tarefas múltiplas e diversificadas ao longo de quase todo o ano.

Além disso os espaços circundantes às habitações, nomeadamente as casas de arrumos, os palheiros e os estaleiros, bem como os utensílios agrícolas existentes edificavam-se, construíam-se, adaptavam-se, adequavam-se ou até se adquiriam em função das necessidades a que a árdua tarefa de cultivar e produzir o milho obrigava a população.

Por outro lado, urge clarificar que todo o desmesurado trabalho, o cansativo esforço e até os enormes gastos que se tinha com a produção do milho eram, na realidade, extremamente compensados, com tudo aquilo que o milho dava. Em primeiro lugar o produto final, ou seja, o que de mais importante se extraía do milho – a farinha, com a qual se fazia o pão e o bolo, elementos básicos no cardápio alimentar de então. Mas não se ficavam por aqui os lucros e benefícios de tal produção. As maçarocas, quando o milho estava verde e ainda “vertiam leite” eram cozidas juntamente com as batatas brancas ou assadas no espeto e constituíam um bom e saboroso alimento. As folhas tinham um peso substancial na alimentação do gado no Inverno e as espigas, ainda verdes, também alimentavam os bovinos no Verão; a parte interior da casca das maçarocas, depois de desfiada e alisada, era utilizada para encher os colchões e travesseiros e com a restante também se alimentavam os bovinos; uma parte dos milheiros utilizava-se para fazer o lume em que se cozinhava a comida do porco, enquanto outros eram picados em pequenos pedaços e utilizados para “secar” o curral do suíno das húmidas imundícies em que era profícuo, graças ao seu desassossegado e hediondo reboliço; os sabugos eram utilizados para acender o lume, para as crianças brincarem e até para limpeza e higiene do rabiosque; uma boa parte das maçarocas, sobretudo aquelas cujos grãos eram mais raquíticos bem como as excedentes da produção da farinha, eram utilizados para alimento das galinhas, do porco e das vacas “à engorda”e até com os fios da cabeleira que saíam da ponta da maçaroca, depois de secos, se fazia chá, muito recomendado nos achaques dos rins e nas infecções urinárias. Além disso e depois de peneirada, a farinha deixava no fundo da peneira um farelo que era utilizado em parte para engrossar as águas das lavagens do porco e também para alimento das galinhas, fazendo-se com ele uma espécie de bola a que se juntavam couves e cascas de batatas, geralmente cozidas e picadas. Finalmente, com a farinha do milho ainda não seco faziam-se “papas grossas”.

Daí que toda esta “riqueza” resultante do cultivo do milho justificasse por demais um trabalho excessivo e cuidadoso e envolvesse toda a população no seu cultivo, a que dedicava grandes cuidados e gigantescos esforços. O milho era, na realidade, a causa e a razão de tudo. Daí que ter terras de milho, bem verdinho, muito alto, bem espigado e com boas maçarocas era um orgulho para os seus proprietários e motivo para serem louvados e, talvez mesmo, invejados.

A preparação dos terrenos situados entre a beira-mar e as casas, ou seja as terras do Areal, das Furnas e do Porto, para se semear o milho, era efectuada de forma desigual e em tempos diferentes das restantes, ou seja das chamadas “terras do oitono” e que se situavam entre as casas e as relvas ou até já misturadas com estas e, por conseguinte, mais distantes do mar. Por essa razão aqueles terrenos eram mais quentes e estes últimos mais frios, o que, no que respeita às tarefas do cultivo do milho, obrigava necessariamente a um tratamento e a uma calendarização diferentes

As terras da zona mais próxima do mar, dada a sua fecundidade, regra geral, produziam vários produtos agrícolas durante todo ano, destacando-se três: couves, milho e batata-doce. A estes porém juntava-se muitos outros produtos: abóboras, bogangos, feijão, cebolas, etc. As couves, que cresciam acompanhadas das abóboras e dos bogangos, antecediam o cultivo do milho enquanto a cultura da batata-doce e as restantes eram simultâneas da daquele cereal.

As couves eram obtidas da plantação da couvinha que desabrochava em canteiros, num ou noutro canto da terra onde as sementes de couve haviam sido semeadas e muito bem adubadas. Os pés de couvinha eram espalhados sobre a terra e plantadas à enxada logo após a apanha do milho e da batata-doce e destinavam-se quase totalmente à alimentação do gado bovino e do suíno, devendo, neste último caso, serem cozidas. Além disso enrijeciam e fortaleciam a terra, pois ao serem cortadas pelo caule afim de serem transportadas em molhos para os palheiros, deixavam no terreno uma raiz muito forte, que, mais tarde, teria que ser arrancada, sacudida e geralmente atirada para cima dos marouços ou então deixada a apodrecer, transformando-se assim numa espécie de estrume vegetal, ajudando a fortalecer o terreno que aguardava o semear do milho. A estes e outros resíduos, porém juntavam-se carros e carros de bois bem cheiinhos de estrume ou de sargaço, que se iam despejando em montículos mais ou menos equidistantes uns dos outros. De seguida, todo este “adubo orgânico” era espalhado equitativamente por toda a terra, com garfos, de forma a cobrir muito bem coberta toda a superfície arável do campo.

Só então se procedia ao lavrar ou “abrir” do terreno, tarefa efectuada com o arado de ferro puxado por uma valente junto de bois. Na Fajã havia dois ou três lavradores que tinham junta de bois com as quais “davam dias para fora”, ou seja lavravam os campos de quem necessitava mediante pagamento, tornando-se assim numa espécie de profissionais da lavoura. O arado de ferro, como o nome indica, era em grande parte construído em fero e tinha uma ponta muito bem afiada e uma enorme aiveca lateral, presa ao timão por um gancho que revirava ora para um lado ora para o outro, permitindo assim ao lavrador que a voltasse sempre para o lado do terreno que já estava lavrado. O lavrar dos campos iniciava-se geralmente com três voltas na periferia do terreno, num movimento contrário aos ponteiros de um relógio. De seguida efectuava-se  de lés a lés, ao comprido ou ao atravessar do campo, sendo que, no caso de este ser inclinado se efectuar sempre de forma a que o revolver da terra a atirasse para a parte mais alta, permitindo assim ao terreno manter a sua forma e estrutura iniciais.

A etapa seguinte era a de gradar. O objectivo era desfazer as leivas e os torrões, tarefa efectuada com uma grade de madeira, com os picos de ferro voltados para baixo, e em cima da qual geralmente se colocavam algumas pedras bem pesadas. Por vezes, para fazer mais peso, era permitido às crianças, para seu gáudio, sentarem-se em cima da grade. Outras vezes era o próprio homem que a segurava com uma corda, que a guiava e que conduzia os animais que se colocava de pé em cima dela, substituindo ou aumentando o peso das pedras. De seguida efectuava-se um novo gradeamento, com a grade ao contrário, ou seja com os ferros voltados para cima, sendo que desta feita apenas só pedras lá se colocavam. O objectivo, desta feita, era alisar a terra, a qual, algum tempo depois, era “atalhada” com o arado de pau e novamente gradada, com a grade de costas.

Só então o terreno estava pronto para se semear o milho.

 

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A SOMBRA DAS ORQUÍDEAS

Segunda-feira, 28.11.16

Uniu-os um ocasional e imprevisível destino. Ele viera passar férias a Lisboa, a casa duma irmã que tinha residência na Travessa de Ceuta. Ela morava ali perto, na Rua do Arco do Cego.

Foi uma manhã inolvidável, na piscina dos Amigos de Vénus. O pai dela, Agapito Reboredo, era sócio do grémio e um dos membros mais destacados da direção. Ela tinha entrada gratuita e, lá dentro, gozava privilégios e regalias das quais, por nada deste mundo abdicava. No epicentro das suas opções estavam os banhos na piscina e os bailes em dias de festa. Ele, ilhéu nativo, sedento de mar e de praia, também desejoso de banhos que a enormíssima e industrializada Lisboa lhe negava, optou pela piscina mais próxima, a dos Amigos de Vénus. Uma amiga dela que o conhecia e sabia-o açoriano informou-a. A sua estirpe, também açórica, foi motivo de aproximação. Coincidência das coincidências! A ilha era a mesma e ele até conhecia, embora vagamente, alguns familiares dela. A amizade solidificou-se. Além disso, ela soube-o deslocado, sozinho, desocupado, quase perdido na enorme urbe ulissiponense. Necessitava de alguém que o acompanhasse, que lhe ajudasse a tornar mais atrativos e aliciantes os dias que havia de passar na capital. Ela estava ali para isso. Contasse com ela.

Nadaram e mergulharam ao lado um do outro, dependuram-se no mural da piscina, com displicência e à vontade, em amena cavaqueira. Tudo nele a empolgava e ele sentia por ela uma desusada e estranha atração.

Chamava-se Marilda e era de uma beleza rara e invulgar. Olhos ligeiramente rasgados, negros, espetados num rosto acetinado, branco e macio, banhado por convulsões atraentes e dulcificantes. A boca um mito de sublimidade a abrir-se com deslumbrante suavidade, a aspersar um sorriso doce, macio e atraente. O corpo esbelto, elegante, altivo, fascinante e sedutor.

No dia seguinte voltaram às instalações do grémio. Desta feita, juntos. Por condescendência do pai ele nem precisava pagar a entrada. Era o que faltava! Voltaram à água, aos mergulhos, à conversa no mural da piscina, onde os seus corpos seminus e gelados, emocionalmente, se tocaram. Ele sentiu um enorme arrepio. Pela primeira vez sentia o aveludado, sedoso e sublime de um corpo de mulher. Nova investida por parte dela que, assim dava mostras de que o queria, de que tinha uma enorme vontade de amarfanhar para si, de o envolver, de o amar. Ele excitou-se ainda mais quando ela, talvez por acaso, talvez propositadamente, lhe encostou a coxa direita aos genitais. Foi como se um enorme abalo removesse avassaladoramente as águas calmas e sossegadas da piscina. Um frémito melífluo, alienígena e arrebatador assolou-o perturbadoramente.

No regresso convidou-o para entrar em sua casa. Que não tivesse pejo! Os pais não estavam mas havia, sempre, por ali irmãos mais novos a entrar e a sair. Aliás, sabia que os pais, à tardinha, ao regressarem do trabalho, teriam muito gosto em conhecê-lo. Tinham manifestado esse desejo, na véspera, quando lhes falara dele.

Anuiu. Foi uma tarde de encanto e de sonho! Mostrou-lhe os recantos da casa que, a partir de agora, havia de considerar como sua. Levou-o para o seu quarto e permitiu que se deitasse na sua cama. Passearam pelo jardim contíguo às traseiras do velho casarão, em desusado contubérnio. Tudo os unia, tudo os fascinava. Tudo nele a atraía, tudo nela ele desejava. Chegaram os pais, Foi tão deslumbrante o fascínio que o convidaram para jantar. Logo no primeiro dia! Chegou a casa, tardíssimo, com as inerentes preocupações de quem o aguardava, cuidando que se havia perdido nos meandros da gigantesca e labiríntica capital.

Voltaram à piscina no dia seguinte e em todos os outros dias. Cada vez mais unidos, mais deslumbrados e, aparentemente, mais apaixonados. Foram uns dias singulares, aqueles. Num agosto seco e nebuloso mas atrativo e sorridente. As manhãs na piscina com as águas muito quietas e, por vezes, aloiradas por uma nesga de sol que lhe entrava de sudoeste, a agitarem-se, apenas mas permanentemente, com as envolvências descomunais e transviadas que exalavam dos seus corpos, com os murmúrios silenciosos mas muito vivos e persistentes dos seus desejos recíprocos. Ao lado, a lufa-lufa da cidade, com as pessoas a zumbirem, os carros a agastarem-se e o sol a correr, como um louco, que deseja afogar-se no Tejo. Ao longe, as cadeiras do poder a estuporarem os assentos a partirem os varões laterais, enraivecidas com o azul deslumbrante e bonançoso de cada madrugada. Desesperavam os mafarricos da ordem inócua, os pregadores da inocência camuflada, os predadores das aventuras de inocentes paixões. Senhores da inveja redutora! Donos do ódio rastejante! Como serpentes esperavam, à socapa, a inocência despretensiosa da presa sobre a qual haviam de cravar as suas garras e lançar o seu veneno malévolo, horripilante, desolador e mortífero.

Era domingo. Ele ia subir ao pódio a fim de desenfrear a acutilância da sua indomável singularidade. Consagrar-se-ia com arquétipo da excelência. Temia e tremia. Foi ela quem o ajudou. O sucesso bateu-lhe à porta, transpôs os umbrais da superioridade, rondou a esfera da excelência e consagrou-se exageradamente, com a agravante de acicatar ainda mais a inveja reinante e rondante.

Ele agradeceu-lhe. Sem ela não subiria aquele píncaro. Para além de bonita, bela, sublime ela era douta, sensata, competente. Uma senhora!

Foi numa tarde em que regressaram mais cedo da piscina. O sol ainda não se esquivara mas o dia anunciava um morrer morno, tristonho e embaciado. Estavam sós. Ela deu-lhe a mão e conduziu ao jardim que ficava nas traseiras da mansão. Sentaram-se muito juntos numa campânula ornada com a sombra de orquídeas gigantes. Corria uma aragem, serena, fresca e deslumbrante. Ela agarrou-se muito a ele e aos poucos foi deslizando, até sentar-se no seu colo. Os corpos colados, arquejantes, silenciosos. Sem que lhe desse tempo, sobre ele despejava algo de inédito e insólito! Cobria-o com uma dádiva, generosa e doce. Uma entrega total! Um silêncio sublime! A redoma de cristal perfumada a alecrim, onde desde há muito o haviam enjaulado, partia-se, repentinamente. O chão revolvia-se em convulsões persistentes e enigmáticas. As árvores, ao redor, balouçavam com frémitos indizíveis e a luxúria de um ou outro pássaro mais arrogante cerceava o perfume dos muros adormecidas e cobertos de limos verdes. Era a hora do silêncio eterno, etéreo e etérico.  

Ela, por fim, desfazendo aquele sopro de silêncio indomável, olhou-o enternecida e risonha. Amavam-se. Amavam-se desastradamente. Encandeando os olhos um no outro, regressaram ao silêncio. Uma, duas, muitas vezes. Até ao resto da tarde, até que o sol, já frouxo e amolecido, fenecesse por completo.

Regressou a casa, louco. Uma abóboda escura, indecisa, tremenda, amortalhada de orquídeas em flor, cobria-o. O rosto afogueara-se de uma áurea, indisfarçável e denunciadora. Marilda, agora com os seus lábios sedosos, ávidos de entrega e senhores de tão doce sublimidade, não lhe saía do pensamento. Cegava-o por completo. Desejava ardentemente chegar ao dia seguinte. Não havia de esperar pelo recanto das orquídeas. A partir de agora era a piscina, o quintal, o quarto dela, o jardim da cidade que ficava mais próximo, para onde programavam passeios em fim de tarde. Agora que lhe tocara o corpo, que lhe saboreara os lábios, que se envolvera com o seu perfume, que lhe sentira o arfar dos seios e até lhe afagara o cetim dos fémures, ela parecia-lhe cada vez mais próxima e, sobretudo, mais bela, mais atraente, mais pura, mais digna, mais sedutora. O rosto macio e acetinado esbanjava doçura. O corpo, belo e sedoso ombreava uma pureza divinal. Era verdadeiramente bela. E ousava supor que para ela, ele próprio também não lhe era indiferente, embora nunca o confessasse, antes o ocultasse com desvarios audazes e falaciosos.

Os pais não desconfiavam, ou se desconfiavam não se importavam rigorosamente nada. Num passeio a Sintra, simulou indisposição. Impunha-se regressar a casa, imediatamente. Ele havia de a acompanhar… Nem um nem outro dos progenitores se opôs e regressaram, os dois, sozinhos, como se fossem um do outro. Numa noite de sonho!

Começaram os passeios mais frequentes ao jardim da cidade que ficava perto da Arco do Cego. Era um lindo jardim com uma descomunal riqueza botânica, onde passavam as tardes, num doce enlevo, aureolado pela frescura das sombras dos arvoredos, pelo emaranhado dos seus ramos, o verde das suas folhas, o silêncio dos seus troncos ou encafuados nos labirintos das suas raízes gigantes. Por vezes regressavam ao silêncio, numa troca recíproca de beijos e carinhos. A paixão recíproca, una e indivisível avançava avassaladoramente. Ambos sabiam, mas nenhum o confessava. Sem nunca falarem, sabiam ambos que se amavam.

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O PICO EM NOVEMBRO

Quarta-feira, 09.11.16

O Pico, em Novembro, é um oásis de serenidade, um paraíso de bem-estar, uma espécie de reserva de sossego ou um seleiro de tranquilidade, onde as manhãs são uma comunhão permanente com a natureza, as tardes ombreiam com o verde perene da montanha, diluindo-se, ao fim do dia, no azul plácido do oceano, enquanto as noites se aproximam, rápidas, a galvanizarem-nos, numa terna e envolvente quietude que nem as estrelas espanta.

O Pico, em Novembro, lisonjeia-nos com o silêncio estonteante das brisas matinais, entrelaçado com o chilrear irreverente e estouvado da passarada e com os murmúrios maviosos das marés, incensa-nos com os salpicos adocicados duma maresia adormecida, ondulada, apenas, com o sulcar dolente das quilhas das embarcações, a rilharem em redopio, na demanda de chicharros e bonitos.

 O Pico em Novembro, enleva-nos no aroma vertiginoso do mosto efervescente das adegas, encharcado de lava e perfumado a enxofre e embala-nos no escurecer zonzo e colaço das noites claras, luminosas, embebidas de luar e de sublimidade. No Pico, em Novembro, até a lava dos currais se torna mais negra, a sombra dos maroiços mais entontecida, o piso das veredas mais atapetado, os murmúrios das florestas mais inebriantes, o vai e vem das marés mais atrevido, os gritos dos cagarros mais sibilantes e os fluxos do horizonte, estranhamente, melhor delineados.

No Pico, em Novembro, há castanhas e araçás a atapetar o chão de lava doirada, batatas-doces a transbordarem dos cerrados e folhas amarelas, aureoladas de perfumes e aromas, dançando nos ares como bonecos embriagados que amedrontam o vento e afugentam tumultos intempestivos, perturbantes e aterradoras.

No Pico, em Novembro, há um Sol gratificante e consolador, quente e benéfico, a desfazer madrugadas sombrias e enevoadas e a aniquilar, por completo, as tardes escurecidas e anuviadas. No Pico, em Novembro, florescem crisântemos e miosótis a amansarem a saudade inaudita dos que já partiram para a eternidade.

No Pico em Novembro há uma estranha força telúrica que nos atrai, prende e enleva. A Ilha Montanha, qual gigante adormecido no meio do atlântico, cobre-se com mantos de tonalidades variadas onde predomina o verde pardacento das encostas, o azul dourado do oceano, o amarelo suculento das folhas secas, o vermelho dos araçás e das maçãs e o negro enigmático das paredes das adegas, dos currais, dos maroiços e de uma ou outra casa. O Pico, em Novembro cobre-se de sons suaves e melodiosos, de sinfonias contagiantes e deleitosas que ecoam pelas encostas e colinas e salpicam de espuma esbranquiçada o alvorecer tranquilo e esfuziante de cada dia.

No Pico, em Novembro, os vales e os montes, as encostas e os penhascos, os atalhos e as veredas, os currais e os maroiços irradiam perfumes contagiantes e atraentes que calcificam o espírito e impingem ao corpo um sopro de sustentável leveza.

No Pico, em Novembro, a alta e esconsa Montanha ergue-se mais imponente do que nunca e outorga-nos a suprema sensação de se viver entre a terra e o céu.

No Pico, em Novembro, as vilas, os povoados, as casas esbranquiçadas e espalhadas ao longo das encostas ou mesmo as construídas com blocos de lava preta junto ao mar brilham, fulguram, luzem e reluzem, alinhadas entre o negro clarificante dos baixios e o verde fresco da vegetação dos cabeços, sobre o amparo ternurento da Montanha.

No Pico em Novembro, o mar enche-se golfinhos e bonitos, de castanhetas e peixes-reis, de sargos e abróteas e até as cagarras aproveitam o sossego das noites, para ensaiarem os seus bailados debutantes.

No Pico em Novembro prova-se o vinho, celebra-se o São Martinho e até a chamarita tem um sabor mais atraente e a lava um perfume mais delirante.

 O Pico, em Novembro, é uma espécie de súmula de um pequeno mundo construído durante séculos por baleeiros, agricultores e pescadores, onde proliferam os seus minúsculos povoados, sublimes e aconchegantes, debruçadas sobre o mar, a espreitar a bonança que renasce em cada madrugada e se ofusca, suavemente, com a edificação dos crepúsculos outonais.

O Pico, em Novembro é um paraíso, um sonho para todos os amantes do silêncio e da natureza, para quem anseia envolver-se entre o rendilhado negro e rude dos baixios, apreciar o verde flutuante das encostas, acariciar o amarelado das folhas debilitantes dos vinhedos, penetrar nos campos calafetados de lava ou até subir a imponente Montanha, conquistando uma enigmática e inesquecível sobrenaturalidade.

O Pico, em Novembro, é um sonho bordado a púrpura, um paraíso ungido com encanto, um éden pincelado com silêncio. 

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publicado por picodavigia2 às 21:35

O ATLÉTICO CLUBE DA FAJÃ GRANDE

Terça-feira, 08.11.16

Recentemente chegou-me às mãos um livrinho muito interessante, da autoria de José Arlindo Armas Trigueiro, intitulado “Futebol na Ilha das Flores”.

O livro divide-se em duas partes. Na primeira, onde se aborda uma espécie de pré-história do futebol na ilha, ou seja, o futebol nos seus primórdios, numa altura em que ainda não existia qualquer organização federativa, o livro apresenta um resenha da evolução desta modalidade desportiva nas várias freguesias, em seis capítulos, um dos quais, o terceiro, é inteiramente dedicado ao futebol na Fajã Grande.

Na realidade ainda hoje há quem se lembre de nos anos trinta se dar início à prática do Futebol, na Fajã Grande, num campo situado no Estaleiro, entre o Porto e o Calhau Miúdo, num serrado que ali existia e que posteriormente foi dividido por “malhões” dado que pertencia a três donos: ao Laureano Cardoso, ao António Barbeiro e ao Chileno. A prática do futebol na Fajã Grande desenvolveu-se, sobretudo, graças ao empenho e esforço do Dr Mendonça, que normalmente assumia a função de árbitro, do Luís Fraga que foi o primeiro treinador e do guarda Borges, este também integrando o elenco dos jogadores primitivos.

O referido autor ainda refere que o primeiro jogo oficial se efectuou contra uma equipa das Lajes, o “Nacional Sport Club”, tendo-se realizado no dia 24 de Julho de 1939, data em que o campo também foi oficialmente inaugurado e que o clube se chamava “Fajã Grande Sport Clube”, equipando com camisola azul e calção branco. Na realidade, embora o autor do livro não o refira, nessa altura existiam dois clubes na Fajã Grande: o Sport, onde jogavam os melhores jogadores e o Salgueiros onde jogavam os reservas. Mais tarde, no início dos anos 50, depois dos anos de interregno que o futebol sofreu em todo o Mundo, devido à Segunda Guerra Mundial, os dois clubes fundiram-se originando o “Atlético Clube da Fajã Grande” que passou a utilizar o mesmo equipamento e cujo nome ainda hoje se mantém, conforme consta na lista de clubes da actual Associação de Desportos da Ilha das Flores. A equipa da Fajã perdeu o jogo por 2-1, alinhando com os seguintes jogadores: José Luís (de Abrão) (guarda-redes), Francisco Freitas, António Teodósio, Luís Pereira, José Pereira, Laurindo, João Gonçalves, Cristiano, Cardosinho, José Cardoso, Urbano e Nestor. O treinador era o Luís Fraga e os suplentes: José Gonçalves (avançado Grilo), Francisco Inácio, António Cardoso, José Furtado, António Dawling, Arnaldo e João Lourenço, José Rodrigues, este contratado apenas por ser carpinteiro e para consertar as balizas que se desfaziam facilmente com os portentosos remates.

Dizia, quem ainda o viu jogar, que o Nestor foi talvez o melhor jogador de sempre da Fajã Grande, tendo, no entanto, falecido bastante novo e a sua morte deveu-se ao próprio futebol. Anos mais tarde, durante um jogo já no campo das Furnas, a bola terá ido parar ao mar. Como só havia uma, o jogo parou e coube ao Nestor ir buscá-la, para o que teve que se atirar à água. Era Inverno e esta estava muito fria e o Nestor muito suado. O contacto com a água gelada ter-lhe-á provocado uma constipação, seguida de uma pneumonia e depois uma tuberculose que lhe foi fatal.

No dia 8 de Setembro de 1940, festa da Senhora da Saúde, foi inaugurado o campo das Furnas. Alguns jogadores já haviam abandonado a modalidade, entrando outros, entre os quais: Teodósio, Albano, José Fagundes, David Fagundes,(Semilhas), Roberto do Cristóvão, José Santos (da Ponta) e o Abrão que foi o melhor guarda redes de sempre da Fajã. Era voz corrente que em todos os jogos que realizou não sofreu um único golo. Nessa altura o Luís Fraga manteve-se como treinador.

Nos anos 50 o futebol renasceu e o novo clube, o Atlético passou a ter como principais jogadores: Abílio (Guarda-redes), João do Gil, Lucindo e Elviro, Edmundo Pereira, Teodósio, Albino, Álvaro de João Carlos, David do Raulino, Roberto do Cristóvão, Ângelo João Augusto, Mário do Raulino, Luís Cardoso, Manuel Cardoso (Matateu), Álvaro do Raulino, José Borges, António Nascimento, José Augusto e António Greves, entre outros.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:06

A MINHA AMEIXEIRA

Segunda-feira, 24.10.16

Meu pai não tinha horta que produzisse fruta para nos alimentar. No entanto, consciente da importância que a fruta tinha na alimentação de uma criança, por demais deficitária a diversíssimos níveis, teve sempre a preocupação de transformar uma das suas melhores terras de mato – a Cabaceira do Meio – em horta. A tarefa não era fácil, pois a maior parte das belgas eram terreno pobre e pedregoso mais propício a produzir incensos, faias, fetos e cana roca do que árvores de fruto.

Mas meu pai era de fibra rija, o que lhe permitiu dominar e alterar os instintos e as forças da natureza. Assim, com trabalho contínuo e persistente, lá foi desbravando o mato, arrancando pedregulhos, transformando-os em maroiços, cavando e voltando a cavar e, com muito esforço, destreza e sabedoria, lá conseguiu transformar grande parte dos terrenos bravios da Cabaceira do Meio em solos cultiváveis, onde plantou inhames e algumas árvores de fruto: macieiras, pereiras, araçazeiros, nespereiras e até um gigantesco castanheiro.

Não se ficou por aqui o meu progenitor nos seus instintos de fruticultor e, a dada altura, ao deslocar-se às Lajes, comprou, na Junta Geral, meia dúzia de pés de ameixeiras. No dia seguinte, levantou-se cedo, acordou-me e partimos para a Cabaceira do Meio, a fim de plantá-las. Uma aqui, outra acolá, em sítios abrigados ou protegidos por bardos de faias e incensos.

Pedi-lhe para me deixar plantar uma. Que não senhor, que aquilo não era brincadeira, que tinham sido muito caras, que eu não sabia plantar nada nem coisa nenhuma, que tirasse o cavalinho da chuva que seria ele a plantá-las todas. Reclamei, barafustei, tanto rezinguei e lhe pedi que ele por fim, talvez para me calar, escolheu, de entre as seis, a que tinha pior aspecto, a que parecia mais definhada e lá ma deu, ordenando-me que a fosse plantar para outro lado, para onde quisesse, mas longe e nunca nos sítios que ele havia seleccionado, por terem melhores condições e que estavam destinados às outras cinco.

Todo contente, peguei na enxadita e fui abrir uma cova muito grande, ao lado do enorme e vetusto castanheiro, cuidando que este havia de proteger a minha pobre e pequenina árvore. Meti-lhe o pezinho de ameixeira aparentemente definhada, com muito cuidado para que nenhum pelinho da raiz se partisse ou amachucasse, cheguei-lhe muita terrinha para cima, calquei-a com ambas as mãos, disse-lhe. Baixinho, uns segredos, fiz-lhe uns miminhos e lá a deixei, à espera que vingasse, crescesse e desse fruto.

Passado algum tempo voltámos à Cabaceira do Meio, para ver como estavam as ameixeiras. Qual não foi o espanto do meu progenitor quando verificou que nenhuma ameixeira das que ele plantara tinha pegado. A única que alegre e efusivamente florescia era a que tinha sido plantada por mim!

A ameixeira cresceu, tornou-se numa enorme e bonita árvore e durante anos e anos deu muitas ameixas carnudas, avermelhadas e saborosas, que nos foram alimentando a todos lá em casa, pese embora eu reivindicasse, continua mas ingloriamente, que só eu teria direito a comê-las porque elas eram da  “Minha Ameixeira”.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:05

O CASCÃO DAS PAPAS

Quarta-feira, 05.10.16

Na Fajã Grande, até às décadas de cinquenta e sessenta, casa pobre que se prezasse não havia de comer pão bolorento. Por isso às quintas-feiras, véspera da nova fornada, geralmente, era dia de papas. O pão de milho que, juntamente com o leite era a base da alimentação à altura, era cozido à sexta, no meio de grande alvoroço e enorme azáfama. A maior parte das vezes, porém, sobretudo no verão, na quarta-feira seguinte já estava rijo que nem um corno e na quinta sabia a bolor que tresandava e já não se podia comer. A ceia, nesse dia, era constituída por leite e papas de milho.

As papas eram cozidas com água e farinha, a que se misturavam umas pedrinhas de sal, em vetustos e tisnados caldeirões de ferro, postos em cima de uma grelha, debaixo do qual ardia um lume feito de garranchos de incenso e achas de faia. Logo que a água iniciava a fervura, o que demorava o seu tempo dada a dificuldade em fazer pegar o lume, era certo e sabido: uma mão na colher de pau, outra com punhados de farinha de milho que, lentamente, se iam deixando cair sobre a água em ebulição, logo mexida com a colher, não fosse criar “grumos” ou pegar-se ao fundo. Depois de baldeada toda a farinha, que antes havia sido muito bem peneirada, iniciava-se uma cozedura, lenta mas, por vezes açulada, por algumas irrefreáveis labaredas de lume, provocando incontroláveis oscilações térmicas, que faziam com que as papas se apegassem ao fundo do caldeirão, onde se ia formando, lenta e demoradamente, um enorme e parcialmente queimado cascão. Retiradas  depois de prontas, as papas eram colocadas em pratos à espera de arrefecerem (elas eram boas frias e regadas com o leite a ferver), mas ficava ali, no fundo do caldeirão vazio, um enorme cascão resultante do apegar-se contínuo e permanente da farinha ao longo de todo aquele lento e demorado processo de cozedura. Retirado com cuidado, com uma colher de pau, de forma a sair inteirinho, o cascão parecia uma enorme bolacha, excepto em doçura, constituindo o aperitivo preferido dos fedelhos da casa, que lutavam por um nica dele como se bolo doce se tratasse. E não é que os adultos, se pudessem ou apanhassem uma vaga, também se atiravam desalmadamente ao cascão das papas!

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publicado por picodavigia2 às 00:05

UM BIGODE FARFALHUDO

Domingo, 25.09.16

Separadas por grandes distâncias, entrecortadas por rochas altíssimas, encravadas entre ribeiras e grotões, ligadas apenas por veredas ou caminhos de difícil acesso, desde sempre, as freguesias das Flores souberam procurar formas de aproximar os seus habitantes, sobretudo por altura das suas maiores festividades. Assim nasceu o tradicional costume de cada família ter, nas outras freguesias da ilha, os seus “conhecidos”.

Na Fajã Grande quase todas as famílias tinham “conhecidos” no Mosteiro, no Lajedo, nas Lajes, na Lomba e até em Ponta Delgada e nos Cedros. Por isso, pela festa da Senhora da Saúde rumavam à Fajã Grande romeiros de toda a ilha que demandavam as casas dos seus “conhecidos” , onde se hospedavam durante dois, três ou mais dias. Quando se realizassem as festas nas suas freguesias, seriam eles a dar hospedagem aos da Fajã, nas suas próprias casas.

Certo ano, na véspera da Senhora da Saúde, alta noite, chegou à Fajã Grande, o Arlindo, vindo Lomba. Fizera-se ao caminho já tarde e por isso chegava àquelas horas. À Praça encontrou o Adriano, um dos filhos do Manuel Tesoureiro, seu “conhecido”. Conversaram um bocado, foram beber um “traçado” ao botequim do Venceslau e seguiram juntos para a Fontinha, onde morava o velho Tesoureiro com a mulher e os filhos. Ao chegarem a casa já todos dormiam. Pé ante pé, o Adriano foi acordar a mãe, informando-a de que estava ali o Arlindo da Lomba e que era preciso acomodá-lo em qualquer sítio.

A velhota ficou aflitíssima e sem saber o que fazer. É que a noite já ia adiantada, todos dormiam regaladamente e a casa estava à cunha: num quarto estavam os conhecidos do Mosteiro, no outro os de Ponta Delgada, as filhas tinham-se acomodado na loja e ele mais os irmãos iam ficar em cima duma manta, no chão da cozinha. E agora como é que ia ser? Onde se havia de acomodar o Arlindo? Que era um problema bicudo, lá isso era. Uma grande consumição! Mas na rua é que o seu “conhecido” não havia de ficar. Tinha que se arranjar sítio para o Arlindo dormir, fosse como fosse. De repente teve uma ideia. Sem acordar o velho Tesoureiro que dormia que nem um justo, dirigiu-se, pé ante pé, para o seu quarto, alisou os lençóis, abanou os cobertores para arejar o velho colchão de palha, virou o travesseiro do lado contrário e, sem fazer barulho ou acender sequer uma mecha, acomodou o Arlindo ao lado do marido, enquanto ela se foi estirar para a loja, junto das “piquenas”.

Ao acordar de madrugada o velho Tesoureiro não ouviu, como era costume, o estrepitoso ressonar da sua consorte. Preocupado, não lhe tivesse acontecido alguma desgraça, passou-lhe ao de leve uma das mãos pela cara, a certificar-se de que a sua Maria ainda respirava e, qual não foi o seu espanto, quando em vez de uns pelos fracos, interpolados e pouco viçosos apalpou um bigode farfalhudo. Assustadíssimo com aquela taumaturga e repentina mudança, gritou tão alto que quase acordou a casa inteira:

- Ó Maria! Ó alma do diabo! Como é que o bigode te cresceu tanto numa noite?

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A MOIRATA

Sábado, 17.09.16

A Moirata era a vaca mais estimada, mais lisonjeada e mais bem tratada da freguesia. Era uma vaca lavrada de preto e branco, com um pelo muito luzidio e limpo, com um caminhar elegante e um ar terno e manso. Boa de leite e de canga, sempre pronta a encher uma lata de catorze litros, mesmo nos dias em que cansada de puxar o arado ou o corção. Campainha de sino ao pescoço, ponteiras de metal brilhante nas pontas dos chifres, encaracolados e bojudos, a Moirata assemelhava-se a uma princesa. Um maravilhoso prodígio da natureza!

A Moirata nascera e fora criada no palheiro do Ti’António Balaio. Mal viera ao mundo, o velho logo se apercebeu de que da bezerra, se havia fazer uma bonita gueixa e da gueixa, uma boa vaca leiteira, de que muito se havia de ufanar. Não se enganou, o velhote. Ainda muito nova, a Moirata pariu a primeira cria - um lindo bezerro - e o leite a transbordar duma lata de dez litros. Na segunda catorze, na terceira dezasseis. Um luxo!

Mas a Moirata também cedo se habituou à canga e ao trabalho. Nunca virara a cara às sementeiras, ao lavrar dos campos ou ao acarretar da lenha, dos fetos, incensos, cana roca ou estrume para os campos. Ainda Abril não ia a meio e já ela calcorreava o cerrado do Areal, de ponta a ponta, puxando o arado ou a grade, uma duas, três vezes. A primeira lavra era a mais árdua e desgastante. Exigia o arado de fero e, muitas vezes, a Moirata o puxou de canguinha. A terra coberta duma camada de estrume que ela havia carreado dias-a-fio, tornava-se muito rija e dura com os rigores climatéricos do Inverno, por isso tinha que ser lavrada com o arado de ferro, muito mais pesado e com umas aivecas gigantes, que perfuravam a terra em grandes sulcos, virando grandes leivas e torrões. Ela porém lá ia, pacientemente, sozinha, umas vezes sob as vergastas do dono, outras com as palavras de incentivo, lutando contra a força opositora da terra rija, rasgando-a em regos sulcados pelo arado. Eram horas e horas de trabalho, de cansaço e de sofrimento. No fim ficava exausta. Da boca escumava-lhe uma baba esbranquiçada que lhe caí em fios sobre a terra fresca, o corpo cobria-se-lhe de suores, sentia vertigens, quase desfalecia. Ti António Balaio, apercebendo-se do estado de fadiga da pobrezinha, para a aliviar e reconfortar, passava-lhe a mão pelo lombo, anafava-lhe os pelos, fazia-lhe festas e carinhos e dava-lhe umas maçarocas de milho, o que servia de lenitivo para o enorme desgaste. Depois do merecido descanso, seguia-se o puxar da grade, tarefa não menos árdua do que a anterior, embora bastante mais rápida. É que a terra não podia ficar assim cheia de leivas e torrões. Ti António Balaio encangava-a à grade, cravejada de enormes bicos de ferro de um dos lados. Do outro lado colocava enormes pedregulhos a fim de que os dentes de ferro penetrassem na terra e a alisassem. Passados dois ou três dias a Moirata, coitada, ela e sempre ela, voltava ao cerrado. Agora era encangada ao arado de madeira muito mais leve do que o de ferro e que ia abrindo pequenos regos destinados à sementeira do milho. O dono voltava a atrelá-la ao arado e ela traçava regos paralelos e simétricos de uma extremidade à outra do cerrado. A Clotilde, a mulher do Ti Antóno Balaio, ia atrás e, retirando punhados de milho de uma cesta que levava enfiada no braço, atirava os grãos com tanta agilidade e perícia que eles caiam direitinhos no rego, muito bem alinhados uns à frente dos outros, como se fossem soldadinhos numa parada militar. Cada rego fechava-se com o abrir do seguinte, tapando assim os grãozinhos que ali ficavam a germinar durante alguns dias. Por fim voltavam os mimos e as maçarocas de milho, pois esperava-a de novo a grade, porque a terra devia ser alisada para que os grãos ficassem todos muito bem escondidinhos e assim germinassem mais facilmente.

Passadas umas semanas, porém, a Moirata consolava-se com as sobras do desbaste do milho já crescidote e, mais tarde, com as espigas e no Inverno com a rama seca, misturada com a erva fresquinha que lhe Ti António Balaio lhe ia buscar, todos os dias, de madrugada à lagoa das Covas, ou com os incensos que acarretava da Cabaceira ou com couves e rama de batata-doce que lhe trazia das Furnas.

Um dia a Moirata envelheceu… Abalroado por uma enorme tristeza, Ti António Balaio foi obrigado a tomar uma das mais dolorosas decisões da sua vida – vender a sua Moirata, a fim de ser embarcada para Lisboa! Afeiçoara-se muito a ela, e custou-lhe muito, tomar aquela decisão. Só Deus soube a dor que sentiu, quando em cima do cais de Santa Cruz, se despediu dela. Agarrou-a pelo pescoço e chorou que nem uma criança.

Foi a Formosa, filha da própria Moirata, já feita gueixa que a substituiu, no palheiro de Ti António Balaio. É verdade que também era boa de leite, forte de canga, é verdade que também era dedicada e mansa, bela e elegante, mas a verdade é que o Ti António Balaio nunca se esqueceu da sua Moirata.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

A FESTA DA SENHORA DA SAÚDE

Quinta-feira, 08.09.16

Nos anos 50, a festa da Senhora da Saúde, que desde há décadas se realizava e continua a realizar na Fajã Grande, era incontestavelmente, na altura, uma das maiores e das mais concorridas de toda a ilha das Flores.

Celebrada no dia 8 de Setembro (mais tarde passou para o domingo mais próximo deste dia) a ela vinham romeiros de toda a ilha, sobretudo da Fajãzinha, do Mosteiro, do Lajedo, de Ponta Delgada, dos Cedros, das Lajes e da Lomba. Alguns, sobretudo os de mais longe, vinham com um ou dois dias de antecedência, regressando muitos deles à sua freguesia apenas na oitava da festa, pernoitando e alimentando-se em casa dos seus “conhecidos” da Fajã, durante vários dias. Também do Corvo, quase todos os anos, chegava uma lancha carregadinha de forasteiros que também se acomodavam em casa dos seus conhecidos da Fajã. Até à inauguração da Filarmónica “Senhora da Saúde”, no início da década de cinquenta, vinha geralmente uma banda de fora, da Fajãzinha, da Lomba ou do Corvo, as quais geralmente traziam muitos romeiros. Foi precisamente no ano em que a filarmónica contratada, a da Lomba, não compareceu que surgiu a ideia, mais tarde concretizada, de se criar uma banda de música na Fajã.

No que dizia respeito à parte litúrgica, a festa começava com um tríduo preparatório, pregado geralmente por um padre de outra freguesia ou por um professor do Seminário de Angra, natural das Flores, dado que nessa altura proliferavam pela ilha e que ainda se encontravam em férias, sendo o mais habitual o Dr Caetano Tomás, do Lajedo. Na véspera, de tarde, eram as confissões, geralmente com 4 padres de fora, espalhados pelos confessionários laterais ou pelos ralos da grade da capela-mor. No dia da festa celebravam-se três missas: a da manhã, bastante cedo, destinada às cozinheiras e pessoas que não pudessem ir a outra, mais tarde; a da comunhão, celebrada às nove, com sermão e destinada sobretudo às crianças da catequese e da Cruzada Eucarística e a outros comungantes e às onze, missa solene, cantada, de três padres e com sermão. Nesta quase ninguém comungava, dado que, na altura para o fazer era preciso guardar jejum desde a meia-noite.

Da parte da tarde, interrompendo o arraial, havia a procissão. À frente a cruz paroquial ladeada por duas lanternas, umas e outra levadas por homens trajando opas vermelhas. Depois os anjinhos de asas brancas e cestas de flores e as crianças da Cruzada Eucarística, cobertas com a cruz de Malta, desenhada a vermelho, em faixas brancas, atravessadas sobre o peito. Logo atrás os andores de Santa Teresinha, São José e da Senhora da Saúde, transportados por homens, vestidos de opas os da frente vermelhas e os últimos brancas. Depois os homens de opas vermelhas, carregando lanternas, pendões e o pálio, sob o qual, geralmente, seguia o Ouvidor das Lajes envergando capa de asperges branca e véu de ombros da mesma cor, a segurar o Santo Lenho, ladeado por dois padres vestidos com dalmáticas também brancas mas, como a capa debruadas a amarelo. À frente do pálio seguia o clero excedente que geralmente era pouco e algum seminarista em férias na ilha, envergando sotainas negras e sobrepelizes brancas. Logo atrás a Filarmónica. A procissão percorria a rua Direita, para cima até à Praça e para Baixo até à Rua Nova e as janelas, varandas e pátios das casas por onde passava estavam enfeitadas com colchas de cores variadas, que davam à rua Direita um colorido desusado. A rua estava ornamentada com bandeirinhas multicolores presas nos cantos e janelas das casas e o chão era atapetado com verduras e flores. Uma vez regressada à igreja, a procissão terminava com um sermão. Os três sermões do dia da festa eram geralmente pregados por pregadores diferentes e todos eles, assim como os do tríduo e a missa cantada eram promessas de fajagrandenses residentes na Califórnia e que antecipadamente faziam as suas reservas. Um sermão custava cento e vinte escudos, a missa cantada cem e a missa rezada vinte. As Trindades eram dobradas e não havia início de celebração ou levantar a Deus que não tivesse foguetes e repique bem redobrado dos sinos. Durante a procissão os sinos também repicavam e os foguetes ecoando nas rochas das Águas e da Figueira.

Paralelamente havia uma parte profana ou cívica que começava no sábado e continuava no domingo e que consistia fundamentalmente num enorme arraial, com música, foguetes, quermesse e os jogos do Albino: o do boneco, em que um boneco de madeira suspenso na cintura por um eixo, rodopiava sobre um caixilho também de madeira, apoiado no chão com algumas pedras. O jogo consistia em atirar, de uma distância previamente delimitada, cinco bolas ao boneco, por um escudo. Quem acertasse no dito cujo e conseguisse que ele desse uma volta completa sobre si próprio receberia um prémio: um chocolate, uma laranjada, uma cerveja ou um pirolito de bola. Outro jogo era o da pesca à cerveja: dispostas seis garrafas de cerveja, outros tantos jogadores munidos de um caniço, com um fio e uma argola em vez do anzol teriam que enfiar esta o mais rapidamente possível no gargalo da cerveja que estava na sua frente. O prémio era a própria cerveja para o primeiro que atingisse o objectivo do jogo.

À noite o arraial era iluminado com várias lanternas petromax. Só depois da ida do Padre Pimentel à Califórnia, com o dinheiro que ele por lá arrecadou se comprou um motor que, sob os cuidados de José Furtado, iluminava não apenas a igreja mas também o adro e a parte central da Rua Direita com séries de lâmpadas multicolores também vindas da América. Enquanto José Furtado não chegava ou quando o motor falhava o arraial, para gáudio de muitos, fazia-se às escuras.

 

 

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O EMPRÉSTIMO

Segunda-feira, 22.08.16

O Valério nasceu de pai incógnito e de mãe solteira. Criado pela progenitora durante os seus primeiros anos de vida, cedo se emancipou, passando a viver por sua conta e risco. Arrendou uma casa na rua Direita, mesmo ali ao lado da igreja, afastada do adro apenas pela entrada do Gil. Era uma casa alta, de dois andares, geminada com uma outra que pertencia a Tio José Luís, a qual segundo a tradição, em tempos remotos, teria pertencido à família do capitão Freitas Henriques e, na altura, seria dotada de uma ponte que a ligava a uma primitiva capela ali existente, antes da construção da actual igreja.

O Valério não era muito dado ao trabalho agrícola, alegando maleitas diversas, umas reais outras fictícias. Entendia que o seu futuro não passava por acarretar molhos de erva das Covas, cestos de batatas do Areal ou cargas de lenha e incensos do Pocestinho. Havia que ganhar a vida de forma mais leve, mais descansada e mais lucrativa.

Ora o primeiro andar da casa, que comunicava com o segundo por um enorme “saguão” de pedra, estava dividido em duas lojas que outrora haviam sido estabelecimento comercial, por isso possuíam balcão, prateleiras, secretária e outras bugigangas necessárias para montar negócio. “Aí está o teu futuro, Valério!” – Dizia para os seus botões. O problema estava somente no dinheiro para investir quer em pequenas obras de modernização da loja quer no pagamento das primeiras remessas de mercadoria encomendadas aos armazenistas de Santa Cruz e das Lajes, que não vendiam fiado.

Na Fajã poucos tinham dinheiro e quase ninguém o emprestava. O padre Silvestre recusava-se fazê-lo por razões canónicas, o Senhor Claudino porque tinha a filha a estudar em Lisboa, a Senhora Rosa tinha que investir no seu próprio negócio e assim por diante. Quem se dizia que tinha muito dinheiro e já emprestara algum era a Inácia e o marido. Mas eram uns sovinas, “uns porcos” e de juros bem altos não se havia de livrar. Apesar de tudo, encheu-se de ânimo e lá foi bater à porta da Inácia.

A velhota a princípio mostrou-se renitente e pouco disposta a abrir os cordões à bolsa. Mas como o Valério explicasse que era para negócio com lucros garantidos e que lhe pagava com os juros que ela quisesse, a Inácia, mesmo sem consultar o esposo, cedeu, mas com uma condição:

- Só com papel assinado por ambos. Sem papel, nada feito. Emprestar sem assinatura bastou com o Ventura da Ponta e deu no que deu!...

O Valério, que não era preciso, que não era como o Ventura, que confiasse nele, que era homem sério e de palavra, que papéis só davam trabalho e maçada e não adiantavam nada. Era a sua palavra que valia mais do que todos os papéis do mundo.

- Não senhor! Ou com papel ou não há dinheiro para ninguém.

E o Valério, cuidando que sem o dinheiro da Inácia “adeus negócio”, teve que anuir, ficando combinado que o empréstimo seria de cinco contos e que a Senhora Inácia é que havia de fixar os juros conforme a sua consciência e também havia de ser ela a tratar dos papéis, que ele disso não percebia nada, nem tinha tempo. Só assinava depois de tudo pronto.

No dia seguinte a Inácia partiu para a Cuada, para casa do José Pimentel, homem letrado e hábil, seguro em contas e que até usava óculos para as fazer, a quem pediu que lhe preenchesse os papéis e lhe fixasse os juros de modo a que não perdesse nem dez reis do seu dinheirinho. A balança tinha que pender sempre era para o seu lado.

A Inácia voltou da Cuada com tudo direitinho, foi a casa buscar, de entre os colchões, os cinco contos e lá foi levar dinheiro e papéis a casa do Valério. Os juros que iria receber, só por si justificavam todas estas passadas. Estava tudo garantidinho… por causa do papel, claro!

Chegou junto do Valério, ocupado já no arranjo da loja e, entregando-lhe o dinheiro, prazenteira, apontou-lhe o lugar onde ele devia assinar. Ela só assinaria depois dele, não fosse o diabo tecê-las! O Valério olhou admirado para o papel, esboçou um leve sorriso e, agradecendo-lhe, rabiscou o seu nome onde ela lhe indicara e guardou o dinheiro. A Inácia gatafunhou a seguir.

O negócio do Valério floresceu mais do que o esperado. O Correio de que também passou a ser administrador, atraía muitos clientes.

Passaram-se meses e anos. O tempo estipulado para o empréstimo expirar e a Inácia, sem demora, procurou o Valério, sentado ao balcão da sua loja, à espera de clientes. Um ali estava, a senhora Inácia. Mas a velha não desejava nada, queria sim o seu dinheiro e os respectivos juros, conforme o que estava ali escrito no papel que ela lhe apresentava.

O Valério deu uma gargalhada, virou costas e apenas disse:

- O teu dinheirinho!? Hei-de t’o dar quando muito bem quiser e entender.

A Inácia enraiveceu:

- Ai vais dar, vais! Tenho aqui o papel e de duas uma: ou me dás já o dinheiro já ou vou daqui direitinha para o Regedor.

Como o Valério nem lhe respondesse, a velha saiu dali, entre vitupérios e imprecauções, e rumou direitinha à Assomada, a casa do José Caetano, então Regedor da Fajã. Bateu à porta, entrou, sentou-se na cozinha e esperou horas, excruciando a cabeça da Filomena. Quando chegou, o Caetano, assumindo com solenidade o seu papel de legítima autoridade, ouviu-a, leu e releu os papéis e, com ar de espanto e animosidade, disse-lhe:

- Ó Inácia, as coisas não estão fáceis para ti. Pelo que aqui está escrito tu é que deves cinco contos ao Valério e terás também que lhe pagar os juros.

A Inácia, emudeceu. Esbranquiçou-lhe o rosto, arroxearam-se os lábios e os olhos ficaram esbugalhados como maçãs podres. Parecia que perdera o tino. Foi uma chávena de café quente e forte que a Filomena, com a ajuda do marido, lhe enfiou pelas goelas abaixo que a trouxe a si.

Tentaram acalmá-la, sem nenhum resultado. A velha bufava, gemia, gritava, berrava e até roncava, lançando as mais temíveis ameaças, vitupérios e imprecações sobre o Valério: “Que a terra o havia de comer vivo. Mas que isto não ficava assim, não senhor.”

Constava que o Valério, apesar de tudo, passados uns tempos e com a Inácia mais amansada, lá lhe foi dando algumas compras de borla e que ainda, de acordo com a sua consciência, lhe devolveu uma boa parte do dinheiro.

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PERDÃO

Sábado, 13.08.16

O António Tenente era um exímio pescador mas tinha um feitio dos diabos. Autoritário, impulsivo, rabugento, teimoso e, sobretudo, incapaz de perdoar ofensa que lhe fizessem. Anos a fio, na “Senhora da Ajuda”, à pesca da albacora, o afastamento prolongado da família como que o abrutalhara, filtrando-lhe a sensibilidade, arrefecendo-lhe os sentimentos, gravando-lhe, na alma, o restolho da solidão, da apatia e da indiferença. Tornara-se frio, solitário, insensível, implacável e, sobretudo, casmurro. Agora, apenas o mar e só o mar lhe domava os sentimentos e satisfazia os desejos. O mar, para o Tenente, parecia ter-se tornado numa paixão rude, num fascínio relutante, num encanto achaboucado. O mar era algo de que jamais se havia de separar e, mesmo agora, já trôpego e pouco afoito a aventuras em águas distantes e profundas, longe da costa, arrastava-se, até ao Cais e passava horas e horas ali, ora sentado sobre a rocha a olhar, sombriamente, o horizonte perdido, ora a pescar de pedra. Hábil e expedito, caniço bem aparelhado, peixe bem engodado e era um abarrotar de sargos, prumbetas, vejas, garoupas, castanhetas, salemas e um ou outro peixe-rei. Enchia a casa, a mulher pagava favores às vizinhas e ainda vendia uma ou outra cambulhada mais robusta e substanciosa.

O Tenente tinta três filhas. A mais velha, a Ermelinda havia-se perdido de amores pelo Augusto, o filho do Chico do Cabeço, ele, também, um velho e experiente pescador de traineira. O Tenente e o Chico, porém, não se falavam. Pior. Odiavam-se a tal ponto que nem se podiam ver. Enredos e discussões a bordo da “Senhora da Ajuda” geraram ameaças, despoletaram insultos e, sobretudo, cimentaram ódios, que, dificilmente, se haviam de dissipar. Ermelinda sabia-o e temia que o progenitor algum dia anuísse ao namorico. O coração, porém, fora mais forte. A simpatia inicial transformara-se em paixão e esta, em namoro. Afinal, ele, o Augusto, também a amava e muito.

Correram os dias, intensificou-se o namoro, divulgou-se pela freguesia a novidade, a qual, rápida e célere, foi parar aos ouvidos do Tenente. Muniu-se o facínora duma corda dobrada em quatro e esperou a filha, ao lusco-fusco, perante os choros e imprecações da mulher que, adivinhando a borrasca, implorava clemência.

Mal entrou Ermelinda em casa, surge-lhe, pela frente, o Tenente, furibundo e terrífico, de chicote em riste, indagando, em tom ameaçador:

- É verdade que namoras o filho daquele pulha? – Perante o silêncio comprometedor da rapariga, o Tenente insistiu, ao mesmo tempo que lhe assapava, como rito inicial da zurzidela, uma forte chicotada nas costas, com a corda que, momentos antes, dobrara em quatro.

Como Ermelinda continuasse calada, pese embora os gritos da mãe que a todo o custo tentava libertar a filha da fúria do pai, este, empurrando a mulher, assapou na rapariga uma nova vergastada e ainda uma terceira. A moça, por entre gemidos de dor e gritos de angústia, caiu por terra, esvaindo-se em sofrimento. Prostrada, ao lado, a mãe alvoroçara-se em choros e berreiros que em nada demoviam o facínora da sua pertinaz atrocidade. Encarando a filha, com os olhos a abarrotar de raiva, furioso e colérico, o Tenente ameaçou:

- Ou esqueces o filho daquele bandido para sempre ou sais por essa porta fora imediatamente.

Muito a custo, Ermelinda, lavada em lágrimas e arquejar em dor, levantou-se em silêncio, abriu a porta e saiu, enquanto o pai continuava a vociferar impropérios e injúrias.

Com o corpo dorido e a alma perfurada, Ermelinda foi procurar alento em casa dos pais do Augusto. Recebeu-a a mãe que o rapaz passava os dias no mato, a roçar. Saia alta madrugada, levava consigo um pedaço de bolo e queijo, uma garrafita de vinho e lá ia, trabalhando à jorna. Regressou já noite, surpreendendo-se com a presença de Ermelinda. O pai, ao lado, até parecia que saboreava com enlevo mesquinho o desprezo a que o Tenente botava a filha, vangloriando-se, cinicamente, de a ver ali, destronada, sofrida, humilhada, pedinte, afastada do aconchego familiar. Casasse o filho com quem quisesse mas ali em casa, rebento de tão ruim cepa, filha daquele Caim, nunca havia de pernoitar, nem lhe havia de lhe chegar uma febra que fosse de comida, nem uma coberta de cama, ou outro provento qualquer.

Fez-se o casamento à socapa, sem boda e sem enxoval e foi o Aníbal, para quem o Augusto, habitualmente, trabalhava e que lhe alojara a moça, que lhe arranjou uma casa, velha e decrépita, um pardieiro, onde, apesar de tudo, poderiam, ao menos, colocar uma barra, uma mesa e acender o lume. Nesse dia o Tenente, a propósito de renovar a cédula, partiu para o Faial na lancha da manhã e voltou na da tarde…

Envoltos em penúria, abalroados por privações mas dignificados pelo amor, sem terras, sem vinhas, sem gado, com parcos recursos, mas fugindo aos vitupérios dos progenitores, Augusto e Ermelinda fixaram-se ali, recuperando e melhorando, aos poucos a velha casa que o amigo lhe emprestara.

Chegou o primeiro rebento. Novamente os ouvidos do Tenente se aferroaram com a novidade. Vociferou, uivou, recalcitrou e protestou, jurando que neto do pelintra do Chico do Cabeço nunca lhe haveria de entrar em casa.

Certa tarde, porém, ao passar junto ao pobre casebre onde morava a filha, parou, espreitou e viu. Viu que um garotito, talvez já com dois anitos, saltava, pinchava, corria com alegria e deslumbramento como se fosse a criança mais feliz do mundo. Cabelos loiros e encaracolados, olhos azuis, rosto muito branco e pele macia, a criança aspergia docilidade, irradiava ternura, emanava inocência. O Tenente, não se conteve. Impulsivamente, saltou o muro e viu-se no pequeno quintal, junto à porta do humilde casebre. O petiz, como que descobrindo, no rosto calejado do velho, uma onda de ternura tão grande como o mar, pressentindo que aquele homem o desejava abraçar, correu na sua direcção, de braços abertos, agarrando-o e abraçando-o, como se sempre o tivesse conhecido. Lágrimas grossas, amargas, dolorosas mas emotivas escorriam dos olhos e cobriam o rosto calejado do Tenente, que, simultaneamente, também se abraçava ao neto, idolatrando-o na sua cândida inocência.

E quando Ermelinda, apercebendo-se de que alguém lhe rondava o casebre, assumiu à porta, chamando o “António”, o pai voltou-se. Ela vendo-o embebido naquele idílio, também se dirigiu para ele de braços abertos, exclamando:

- Está perdoado, meu pai! 

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A FILARMÓNICA SENHORA DA SAÚDE

Segunda-feira, 08.08.16

Foi à Praça, areópago de crítica e da má-língua mas também berçário de projectos e planos, onde os homens descansavam à sombra nas tardes escaldantes de Verão, que, no final da década de quarenta, nasceu a ideia de criar uma Filarmónica, na Fajã Grande, ilha das Flores. A decisão final, no entanto, só seria tomada, naquele ano em que a Filarmónica da Lomba, contratada para abrilhantar a festa da Senhora da Saúde, uma das maiores da ilha das Flores, falhou o compromisso assumido, faltando à festa, por alegadas razões de mau tempo.

Inicialmente poucos apoiavam tão ousado desiderato. Com o tempo, porém, tão grande foi a insistência dum pequeno grupo que pouco a pouco a ideia foi germinando, nas mentes dos mais afoitos: comprar uma Filarmónica não era um projecto de todo impossível, para a freguesia. Para isso bastava que todas as casas oferecessem o leite do primeiro domingo de cada mês. As contas eram fáceis: mais ou menos duzentas casas a uma média de dez litros de leite por mês, eram dois mil litros. Em doze meses seriam vinte e quatro mil litros. Se todos entrassem, daria à volta de trinta e cinco a quarenta contos por ano. Em nove ou dez anos, porque havia que pagar os juros, a Filarmónica estaria paga.

O plano era aliciante. Para a sua concretização bastou que, num domingo, no fim da missa, o pároco anunciasse da grade:

- Hoje à tarde há uma reunião na Casa do Espírito Santo de Cima, na qual devem participar todos os chefes de família. Vamos decidir se a freguesia vai comprar uma Filarmónica. Basta que cada um ofereça o leite do primeiro domingo de cada mês, durante alguns anos. Os poucos que, como eu, não têm vacas, darão o valor correspondente em dinheiro. É preciso é que todos participem!
No Verão de 1951, houve grande agitação em toda a freguesia. Os instrumentos estavam a chegar. Vinham de Lisboa, no Carvalho de Julho.
Um grupo de jovens com melhor ouvido e mais apetência para a Música, já há muito que se havia iniciado no solfejo, enquanto outros aperfeiçoavam o que tinham aprendido na tropa. Finalmente chegaram os instrumentos! Vinham dentro de enormes caixotes, protegidos com palha e farripas e brilhavam como prata! Dois contrabaixos, dois bombardinos, duas trompetes, dois trombones, duas trompas, dois cornetins, um saxofone, cinco clarinetes, uma requinta, o bombo, a tarola e os pratos. Tudo direitinho e em óptimas condições. Distribuíram-se pelos diversos músicos, de acordo com as capacidades de cada um e intensificaram-se os ensaios, agora sob a orientação de um sacerdote, professor de Música do Seminário de Angra, que vinha habitualmente, passar férias à freguesia, donde era natural.

No fim de Agosto estava tudo preparado e afinado. A banda estava, na abalizada opinião do maestro, preparadíssima para actuar. A inauguração e a primeira apresentação em público foram agendadas para o dia da festa da Senhora da Saúde, a maior festividade que se realizava na freguesia e uma das maiores da ilha.

A festa foi de arromba! Vieram, como convidadas, todas as Bandas Musicais das Flores e até Lira Corvense! Veio clero, autoridades e povo de toda a ilha.
Na Casa do Espírito Santo de Cima, os músicos fardados a rigor, calças e boné brancos, casaco azul com botões amarelados, acotovelavam-se nervosos, apreensivos e de instrumento em riste. Fora as restantes Filarmónicas esperavam pacientemente que o cortejo se organizasse. O Ouvidor das Lajes, paramentado a rigor, leu algumas orações em latim e aspergiu água benta sobre homens e instrumentos, traçando, vezes sem conta, cruzes no ar.
Pouco depois formou-se o cortejo em que seguiam as bandas convidadas. As ruas estavam engalanadas com bandeiras multicolores e o chão atapetado de pétalas e verdura, como se duma procissão se tratasse. Das varandas e janelas pendiam colchas de seda, no ar estalejavam foguetes e os sinos repicavam festivamente.

A seguir à missa, num coreto provisório, colocado no adro da igreja, as bandas tocaram à porfia. E a opinião era unânime: - a que melhor tocava era da Fajã. Pudera! Se os instrumentos estavam tão fresquinhos… Passou a chamar-se “Filarmónica União Musical Senhora da Saúde” e a partir de então abrilhantava todas as festas da freguesia, sendo muitas vezes convidada para tocar noutras partes da ilha, enquanto o leite do primeiro domingo de cada mês, com que quase todos contribuíam, ia pagando os juros.

Os anos passaram e a Filarmónica foi paga com o dinheiro do leite oferecido por todos, no primeiro domingo de cada mês. Dezenas e dezenas de jovens aprenderam música, para substituir os que se ausentavam ou simplesmente desistiam. Todos se orgulhavam da “Senhora da Saúde” e acarinhavam-na, porquanto consideravam a importância que ela tivera no desenvolvimento sócio cultural da freguesia.  

 

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MATANÇA

Quinta-feira, 04.08.16

O Silvestre todos os anos, uns dias antes do Natal, matava um porco. Engordado ao longo do ano com os cuidados excessivos da mulher que passava horas e horas a alimentar o bicho, os porcos que o Silvestre matava em cada ano eram coisa que se visse. Grandes, gordos, pesados, com uns bons palmos de toucinho no lombo. Os porcos do Silvestre eram sempre muito gabados por todos.

A matança do Silveste era um verdadeiro dia de festa. O Silvestre convidava sempre os familiares e os amigos, muitos amigos. E no dia da matança a casa do Silvestre enchia-se como nunca. Muitos ajudavam-no a apanhar o bicho, a meter-lhe a faca, aparar o sangue, lavá-lo, raspá-lo, barbeá-lo e até a abri-lo. Depois de um lauto almoço, onde não faltava, inhames, peixe assado, polvo guisado, a molha de carne e até bifes de toninha, tudo acompanhado com o vinho de cheiro que o próprio Silvestre ia buscar à adega, era o “desfranchar” do bicho, esquartejando-o, partindo, cortando, serrando, picando a carne para a linguiça, derretendo os torresmos. As mulheres numa azáfama medonha, a lavar tripas, a preparar as morcelas e a fazer os bifes para o jantar.

E à noite a casa do Silvestre enchia-se, não apenas dos que haviam ajudado durante o dia mas tmbém de muitos outros amigalhaços que, a convite doSilvestre, ali chegavam apenas com a intenção de jantar e depois, quiçá talvez jogar as cartas.

Quem nunca faltava â matança do Silvestre era o amigo Matias. Era um costume de há muitos anos, uma espécie de tradição que não podia diluir-se. Todos os anos o Matias, a mulher e os filhos eram presença certa na matança do Silvestre.

Um ano houve em que o Matias tinha em sua companhia um sobrinho. Filho duma irmã que morava na Serreta, na ilha Terceira. O rapaz ao acabar os estudos no liceu de Angra, fora estudar economia para Coimbra, onde se formara. Terminado o curso, ao regressar aos Açores, decidiu-se por concorrer para as Finanças. Como rareassem vagas na Terceira, a pedido da mãe, concorreu para o Pico, sendo colocado na Madalena, para gáudio da progenitora. O convite que o Silvestre fazia era para toada a família, incluindo o sobrinho.

O rapaz, embora tímido e pouco à vontade, acabou por aceitar o convite, comparecendo em casa do Silvestre, apenas à noitinha, para o jantar. Sentaram-se à mesa, aumentando os cuidados e exagerando nas atenções que em casa nunca lhes havia entrada tão ilustre visitante. O senhor doutor merecia todas as atenções e comidinha à farta. A abundância do cardápio e a excelência do repasto havia de ocultar e sublevar a pobreza e humildade do casebre do Silvestre.

Quem mais se esmerou em cuidados e atenções à volta do senhor doutor, foi a filha mais velha do Silvestre, a Lucília, muito solícita, a colocar-lhe na frente travessas de inhames fumegantes, bifes de lombo muito bem temperados e rodelas de morcela frita, muito frescas e a cheirar a cebola e temperos. Lucília não era bonita, mas era deliciosamente bela e encantadora. Não era linda, mas era fascinante e atraente. O rosto acentuadamente moreno, com uma boa parte encoberta por um cabelo muito negro, liso e sedoso. Tinha um ar destemido, ousado, quase selvagem embora simulasse, sobretudo ao aproximar-se de tão ilustre hóspede com uma simulada timidez. Tinha um sorriso muito límpido e transparente e resplandecia um encanto sublime e uma ternura atraente.

Terminado jantar os homens fumaram, a maioria tomou o seu traçadinho, outros um copo de aguardente pura, mas da boa, da safra do Silvestre. Mas o senhor doutor não estava habituado a estas bebidas… O Silvestre que sim e ele que não… Insistência daqui e recusa dacolá, até que a Lucília veio resolver a contenda com um cálice de angelica, pese embora, perante os protestos da rapariga que, com unhas e dentes defendia o senhor doutro das risotas e garçolas dos outros que afirmavam, à socapa, que aquilo era bebida de mulheres.

Sentaram-se, de novo á mesa, à mesa para as cartas. E como o senhor doutora fazia par com o Silvestre, logo após a primeira partida a dar um capote, fosse muito elogiado o senhor doutor pela sua hábil e sábia arte de jogar e Lucília nem por nada queria perder aquele momento. Inquieta, a arfar desejos e a vassalar-se numa tremenda paixão que o primeiro olhar dele, terno meigo e sedutor consubstanciara veio sentar-se ao seu lado. Pouco depois os seus corpos tocavam-se, ao de leve, inicialmente e depois com uma maior e mais destemida intensidade…

No dia seguinte foi ela que se adiantou, a, como era costume, ir levar uma postinha de carne e uma morcela a casa do amigo Matias. Foi o senhor doutor que a recebeu porque não estava mais ninguém em casa. Ele muito preocupado e aflito e ela nervosa e decidida. Iam despedir-se. O tio Matias havia de agradecer ao pai.

Mas antes de sair, Lucília, num impulso da sua gigantesca e indomada paixão, sem que ele o persentisse, deu-lhe um enorme beijo que havia de selar o amor que entre eles, nascia naquele momento.

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