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UM MONÁRQUICO ASSUMIDO

Terça-feira, 31.05.16

Dona Josefa e Mestre António deliciavam-se com a astúcia e a sabedoria de Álvaro que, apesar da sua tenra idade, enunciava todos os rios de Portuga e cantarolava, por ordem cronológica, os nomes e os cognomes dos reis das quatro dinastias. Mas com o que mais dona Josefa se admirava era o facto de o garoto recitar de cor o Pecador em latim e de enunciar, na mesma língua, os responsos do De Profundis.

- Como é que tu já sabes isso!? – Perguntava dona Josefa.

Foi o pai que esclareceu:

- Meu cunhado é o sacristão lá na Fajã, D. Josefa. De semana não lhe dá jeito ir ajudar à missa, porque precisa de ir trabalhar para as terras. Então minhas cunhadas pediram-me para deixar ir o Alípio, o outro meu filho, mais velho três anos do que este. É verdade que ele também me faz falta, mas dão-me cinquenta centavos por dia… Bastante jeito me dá! Elas ensinaram-lhe lá os latins da missa ou quê ao outro e este ouviu tudo e foi assim que aprendeu tudo.

- Então Álvaro, tu é que devias ser sacristão. É tão lindo ajudar à missa… Estar ali tão pertinho de Nosso Senhor… - Concluía dona Josefa, olhando o miúdo com ternura.

- Pois… Mas o senhor padre diz que sou muito pequeno e não chego para acender e apagar as velas. Eu já disse que punha uma cadeira e subia para cima do altar para acender as velas. Mas não pode ser… Não se pode por os pés em cima dos altares. – Explicava Álvaro com um misto de inocência e tristeza. Por fim, voltando-se para o dono da casa perguntou:

- Ó senhor António, posso fazer-lhe uma pergunta?

- Todas as que quiseres, meu filho. – Retorquiu Mestre Algarvio com blandícia. - Ora vamos lá, a ver. O que queres saber?

- O senhor chama-se mesmo Algarvio ou isso é um apelido? É que eu nunca vi ninguém com esse nome.

Com um suave sorriso nos lábios e anafando com ambas as mãos as pontas do farfalhudo bigode, o Senhor António explicou pachorrentamente:

- Não! Eu chamo-me António Alves da Costa Cabreira, mas em toda a ilha das Flores sou conhecido pelo António Algarvio. É que cá na ilha vocês tem uma mania muito engraçada e que é a seguinte: como há muitos Antónios e muitos Josés e muitos Manéis e muitos não-sei-quê, resolvem distingui-los com qualquer indicativo a eles ligado, é o José de Tianina, o Manuel do Monte, o António Cambado e a mim batizaram-me por António Algarvio. Sabes porquê? Porque não sou de cá, sou do Algarve. Eu nasci em São Bartolomeu de Messines, a freguesia maior e mais importante do concelho de Silves, no Algarve. Também lá passam dois rios, mas mais pequeninos do que aqueles cujos nomes tu bem conheces: o Arade e o Gavião. São Bartolomeu de Messines é a terra das pedras de amolar, que vocês aqui nas Flores chamam esmorizes e também a terra onde nasceu o ilustre poeta João de Deus. Ainda lá está a casa onde ele nasceu e viveu. Já ouviste falar em João de Deus? Foi ele que escreveu a Cartilha Maternal, o primeiro livro escrito em português para as criancinhas aprenderem a ler.

- Lá está ele com as suas literaturas. Deixa em paz a criança, homem! Precisa é de aprender a rezar e fazer as nove primeiras sextas-feiras em Louvor do Sagrado Coração de Jesus. – Implorava, prepotentemente, dona Josefa

- Não nunca ouvi. Mas, ó Senhora D. Josefa, eu já sei rezar e até já sei responder à missa. Mas eu gosto muito de ouvir as histórias do senhor António. Ele fala tão bem e sabe tanta coisa…

- Então vou contar-te uma história que nem os professores sabem ensinar, porque não vem nos livros da 4º classe. – Acrescentou o senhor António retorcendo, mais uma vez, as pontas do enorme bigode, muito entusiasmado e com grande orgulho e patriotismo. – São Bartolomeu de Messines foi um eficiente baluarte miguelista, por duas razões: primeiro porque foi local de residência de um dos mais célebres comandantes das tropas que apoiavam o nosso rei D. Miguel, de nome José Joaquim de Sousa Reis, mais conhecido pelo Remexido; segundo porque foi lá, junto à ermida de Sant’Ana, que as forças que apoiavam o nosso rei D. Miguel infligiram, em vinte e quatro de Abril de 1834, uma pesada derrota às forças liberais, que eram bem mais numerosas e melhor apetrechadas, comandadas pelo Marquês de Sá da Bandeira.

- Se fosse o Marquês de Pombal eu sabia quem era, porque vem a fotografia dele no livro da 4ª classe. – Interrompeu Álvaro, com ostensivo orgulho.

– Credo, menino. Esse foi que matou os frades e os padres todos e roubou os conventos e as igrejas… Um herege! Um herege! – Esconjurava dona Josefa

- Pois ficas a saber – continuou o senhor António - para nunca mais esqueceres que esta vitória se deveu ao sábio e eficiente comando dum valoroso general chamado Tomás António da Guarda Cabreira meu antepassado e acérrimo defensor da causa miguelista.

- Tinha que vir, mais uma vez à baila, o general! E dizem que o homem era ateu e que morreu sem se confessar e arrepender… E tu vais pelo mesmo caminho… - Resmungava dona Josefa.

- Por isso não há messinense que se preze que não seja monárquico e miguelista. Abaixo a República! Viva a Monarquia! Vociferava o Senhor António retorcendo, mais uma vez, as pontas do bigode. Depois voltando-se para meu pai: - António, isto vai mudar! Não demora muito e vamos ter um rei outra vez a governar Portugal…

Dona Josefa benzia e persignava-se, resmungando:

- Foi por falares contra os nossos governantes e contra Deus que fugiste para aqui…

- Ó Dona Josefa, deixe lá! Nesta terra pode-se falar à vontade. Os homens vêem-se é pelas ações e não pelas orações.

- Pois o Antoninho fala assim porque também não põe os pés na igreja, não vai à missa, nem à desobriga. Está com o coração empedernido como este herege. – Dona Josefa punha as mãos e erguia-as ao céu. - Louvado seja o Sagrado Coração de Jesus. Mas Deus, através das minhas orações, há-de ter piedade de vocês. E tantos desgostos que ele já teve e tanto que já sofreu por falar de mais. Mas não há maneira de se emendar, de se arrepender e pedir perdão a Deus.

– Juro que enquanto for vivo hei-de pugnar pelos meus princípios monárquicos. Sou um Monárquico convicto, assumido – Afirmava o senhor António, cerrando os punhos.

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