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UMA NAMORADA QUE ERA FEITICEIRA

Quinta-feira, 15.12.16

Da autoria da conceituada escritora Ângela Furtado Brum, transcrevo a seguir a interessante lenda Uma Namorada que era Feiticeira, lenda integrada no imaginário histórico da freguesia da Fajã Grande das Flores:

 

Há uns anos atrás havia um rapaz da Fajã Grande, nas Flores, que estava a namorar com uma rapariga órfã de pai e que vivia só com a mãe. Ele, depois de acabar o trabalho, lavava-se, mudava-se de roupa, ceava e ia fazer serão para casa da namorada. Falavam de tudo. Do que ia ser a sua vida, de como ia ser a sua casa e outras vezes contavam histórias. Um dia, começaram a falar de feiticeiras. O rapaz ria e brincava:

- Feiticeiras!? Agora... Quem me dera ver uma!

- Não digas que não há, olha que é certo! - Insistia a rapariga.

- Sim, sim… tu é que és a minha feiticeira! - Concordava o rapaz para não discutirem. 
 No entretanto o tempo ia passando. Chegada a hora, o rapaz despediu-se e saiu para o escuro da noite. Quando já tinha andado um bocado de caminho e estava quase a chegar a casa, duas cabras saíram dum pátio e deram um salto para a frente dele.

- Ó diabo, pois eu fui deitar vocês na rocha, vocês até agora nunca saíram de lá e como é que estão aqui?! - Disse o rapaz, julgando, com o escuro, que eram as suas duas cabrinhas. 
Tentou apanhá-las para as amarrar, mas, os animais, que eram habitualmente mansos, davam um salto e ficavam adiante e ele não conseguia pôr-lhes a mão. Já estava a ficar aborrecido e, como estava ao pé do portão de casa, pegou num buxeiro que era do pai e estava ali ao pé da parede. Passou-o a uma das cabras, fincou-lhe a pele, fez-lhe sangue e logo ela se transformou na namorada. O rapaz não podia acreditar no que via e disse:

- Oh! Vai-te com o diabo!... E olha que é verdade que há mesmo feiticeiras. E logo quem... Vai-te embora que não quero mais saber de ti!

- Não, não é assim, tu tens que me ir pôr em casa! - Respondeu a rapariga decidida... 
 O rapaz teimou que não ia, que o que queria era vê-la longe, que nunca mais punha os pés em casa dela. Mas, por fim, não teve remédio senão concordar. Ela então disse-lhe:

- Vira-te para trás!

Ele virou-se e ficou logo à porta da casa da rapariga. Voltou para sua casa e todo o caminho veio maldizendo a sua vida e o que lhe havia de ter acontecido. Nunca mais quis saber de tal mulher, mas ela perseguia-o sempre e assim aconteceu até ao fim da vida.

 

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