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UNIVERSITÁRIA

Domingo, 13.12.15

Era, para ambos, o primeiro ano na Universidade. Ela terminara o décimo segundo com uma boa nota, o que lhe permitira escolher curso e faculdade. Finalmente conseguia o tão desejado objetivo. Com muito esforço, com muito sacrifício, com o apoio, sempre incondicional, dos pais que viam na filha uma forma de realizar um sonho que nem um nem outro havia conseguido. Jovem, meiga, sensata, possuidora de uma maturidade impressionante, afetava e atraía quantos a rodeavam. O seu sonho era ser socióloga. Ele mais velho, mais experiente na vida, com emprego, agora suspenso, e uma licenciatura em Filosofia, optara por uma segunda, em Sociologia. Ocasionalmente inscreveram-se na mesma turma e nas mesmas disciplinas.

Foi numa das primeiras aulas de Epistemologia e Metodologia das Ciências Sociais que se conheceram. Sem o perceberem, deram por si, sentados lado a lado, na mesma carteira. A professora, ainda jovem, ostentando uma simpatia contagiante aliada a uma notável profundidade de conhecimentos, insistia com rigor:

- A Epistemologia tem como objetivo primordial o estudo da origem, da estrutura, dos métodos e da validade do conhecimento humano, por conseguinte, também é conhecida como sendo uma teoria do conhecimento e, consequentemente, está intimamente ligada com a metafísica, com lógica e com a filosofia da ciência. É, digamos assim, uma das principais áreas da filosofia e compreende a possibilidade do conhecimento, ou seja, permite-nos determinar se é possível ao ser humano alcançar o conhecimento total e genuíno. É pois a Epistemologia que explica a origem do conhecimento.

De seguida fez uma pausa. Olhou os alunos, convidando-os a que pronunciassem, que dissessem o que quisessem sobre o que acabara de dizer. Fez-se um silêncio total e absoluto na sala. Eram alunos novatos, inexperientes, provenientes do ensino secundário, incapazes de abordar o tema. Perante o silêncio geral e sem que ela se apercebesse, ele levantou o braço. A professora anuiu e ele numa linguagem eloquente, clara e segura explicou:

- A Epistemologia também pode ser vista como a filosofia da ciência, uma vez que estuda não apenas a natureza, a origem e a validade do conhecimento, mas também analisa o grau de certeza do conhecimento científico nas suas diferentes áreas, com o objetivo principal de estimar a sua importância para o espírito humano. A epistemologia surgiu com Platão, embora ele, obviamente, não utilizasse esta palavra com o significado que hoje a utilizamos. Platão, sob o ponto de vista epistemológico, opunha à crença ao conhecimento. A crença é um ponto de vista subjetivo e o conhecimento é crença verdadeira e justificada. A teoria de Platão diz-nos que o conhecimento é o conjunto de todas as informações que descrevem e explicam o mundo natural e social que nos rodeia. Assim a epistemologia provoca duas posições ou apresenta-se em duas vertentes. Uma empirista que afirma que o conhecimento deve ser baseado na experiência, ou seja, no que for apreendido durante a vida, e a posição racionalista, que defende que a fonte do conhecimento se encontra na razão, e não na experiência. A minha pergunta é no sentido de saber se o seu estudo e a sua análise nestas aulas nos vão permitir clarifica-las.

Ela quase cegara de encanto, a ouvi-lo. Ainda não havia reparado muito bem nele. Nem ele nela. Enquanto a professora continuava as suas explicações, sussurrou-lhe baixinho, não sem antes elogiar a sua intervenção:

- Uau! Isto é que é… Não sabia que estava tão bem acompanhada…

Ele, olhando-a com maior atenção, sorriu. Tudo nela era simplicidade e beleza. Tudo nela era simpatia e generosidade. Loura, com o cabelo ligeiramente curto, a encobrir-lhe uma parte da tez. Os olhos de um azul muito límpido e cristalino. A pela muito branca, aveludada e macia. As suas palavras eram doces, puras, simples e contagiantes. Saíram lado a lado da sala e foram dar consigo, sentados num café, nos arredores. Foi ali que fizeram o epicentro duma amizade que acabava de nascer. Era ali que, todos os dias, antes do início das aulas, esperavam um pelo outro. Era ali que vinham desanuviar, ao fim da tarde, terminadas as aulas. Era ali que muitas vezes almoçavam. Era ali que passavam as tardes a estudar, quando não havia aulas.

Foi numa dessas tardes que ele se apercebeu que estava apaixonada por ela. Pela colega maravilhosa e simpática, companheira indelével. Mas também pela mulher bela, atraente, incontestavelmente desejada. Ela apercebeu-se. Não era parva e ele não era muito hábil em encobrir sentimentos. Pior. Ele também não lhe era indiferente. Não sabia como os seus destinos se haviam de prolongar. No primeiro trabalho escolar proposto, escolheram exatamente o mesmo tema e decidiram trabalhar em conjunto. Obviamente, ela sabia muito bem que em termos de benefícios, as vantagens estavam todas do lado dela. Mas não queria acomodar-se a tal. Nunca havia de servir-se do que ele sentia por ela para singrar. Abominava facilitismos. Nem era interesseira.

Foram horas e horas de trabalho, de muito esforço e de grandes sacrifícios. Tudo compensado com o prazer de estarem horas a fio, lado a lado. O trabalho mereceu os mais rasgados elogios da jovem mestra e foram objeto de discussão pública, perante a turma. Um sucesso indiscutível! Ela cada vez mais a orgulhar-se dele. Ele cada vez mais apaixonado por ela. Seguiram-se novos trabalhos noutras disciplinas e novas oportunidades de um contacto mais próximo, mais íntimo e, frequente. Ela sentia que, na sua qualidade de universitária não podia viver sem ele. Ele percebia que, como mulher, ela era a consubstanciava todos os sonhos da sua vida.

O ano escolar acabou e as férias foram, para ele, um sufoco. Mas ao primeiro seguiu-se um segundo e mais dois, com encontros e convívios cada vez mais íntimos e frequentes. Ele apaixonadíssimo ela a perceber que ele era absolutamente necessário à sua vida.

Terminaram o curso com sucesso invejável. A aproximação profissional também se consolidou. Quando a licenciatura chegou as propostas e ofertas de trabalho, para um e para outro, foram muitas. Ele, apesar de cada vez mais apaixonado, sabia que os seus destinos haviam de separar-se. E separaram-se…

Os anos passaram. A paixão foi-se diluindo no tempo. Mas o destino havia de os voltar a encontrar. Na Câmara das Caldas, onde ambos foram parar, preenchendo duas vagas que a edilidade pusera a concurso, destinadas a sociólogos e que tinham como objetivos principais, proceder a um planeamento urbano, local e regional, acompanhar e gerir a gestão e intervenção urbanística, a animação local, os agentes de desenvolvimento e a reabilitação urbana, elaborar estudos de impacto ambiental e projetos de desenvolvimento regional e local.

No dia em que se encontraram para iniciar a sua atividade ela apareceu-lhe de aliança. Casada!

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