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VI

Sexta-feira, 12.05.17

Era muito cedo, madrugada ainda. A montanha estava enevoada e o Sol hesitava em manifestar-se. Os pássaros cantavam timidamente e uma espessa brisa amortalhava o amanhecer.

Um vulto negro fechava a porta pela última vez. Corria silencioso, macambúzio. Sonhava com uma espécie de milagre, meneando timidamente a mão direita como se estivesse a abanar, a dizer “adeus”, num aceno perdido. Gesto ali repetido, eficientemente e com retorno, em tantas outras madrugadas! Mas agora os seus gestos, tímidos e hesitantes, pareciam-lhe completamente vãos. Aparentemente o Sol mantinha-se escondido, fechado, encasulado, preso, como se estivesse trancado com um gigantesco ferrolho. De oeste surgia apenas um vento hidrófobo, provocante, que resfriava o corpo e entristecia a alma. Nada. Tudo cerrado!

É verdade que faltava uma hora para a viagem habitual mas constava-lhe que os preparativos demoravam precisamente uma hora. Era pois imperioso que despertasse, que se erguesse e que alguma porta ou a simples fresta de uma qualquer janela se abrisse.

Lá ao longe definhava o sibilar do vento oeste, consubstanciando uma persistente nostalgia. Seriam dias e dias de pausa, de silêncio, de afastamento, de ignorância e de desencanto. Navegaria num deserto branco, ilógico e incoerente, em estado apocalíptico, nos debates íntimos e contraditórios de um paraíso verdadeiramente perdido. Uma forma injusta, cruel, desfazendo lapidarmente o acesso e o domínio de desejos e anseios estagnados mas revelados num universo, provocado, é verdade, mas sempre querido e aparentemente desejado, selado com sorrisos de alegria e contentamento.

Na ordem desordenada da partida ficava um desconfortante e abominável abismo que amedronta, entristece, esmaga e destrói.

Mais tarde, com o Sol já desperto e a brilhar no firmamento, lá no alto ressurgiu, entre turbulências assustadoras, um sentimento de esperança, mas virado do avesso. As nuvens, a distância, a altitude e a clausura laboral destruíam-no por completo. Era a abominável instituição do afastamento.

Não consola saber que há retorno mesmo que se acredite que se podem separar os corpos permanecendo as almas geminadas. Laços que não se desfazem porque, afinal, o deserto é sempre esperado.

Dois dias depois - surpresa das surpresas – uma vozinha doce e meiga desfazia todas as dúvidas, todas as inseguranças, todos os enigmas utilizando simplesmente uma das mais pequeninas palavras da língua portuguesa: - Vi!

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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