Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


DIMAS E JESUS

Quarta-feira, 15.08.18

Era por alturas do Natal que a minha avó, nos serões das longas e frias noites de inverno, depois de rezado o terço e outras orações, contava um conto adequado à época, no qual se desvendavam alguns lendários acontecimentos, subsequentes ao nascimento do Menino Jesus, na noite de Natal e que rezava mais ou menos assim:

Numa das noites depois do nascimento do Menino Jesus, o seu pai, São José teve um sonho, durante o qual viu um anjo que lhe disse:

- Levanta-te, toma o Menino e Sua Mãe e foge para o Egito. Fica lá até que eu te avise, porque o rei Herodes quer matar o Menino.

São José, muito assustado, levantou-se logo. Ainda era muito cedo mas ele acordou a Virgem Maria, Mãe do Menino Jesus e resolveram partir de imediato, ainda durante a noite. São José pegou no burrinho que estava na gruta onde o Menino nascera, sentou sobre ele Nossa Senhora e colocou-lhe o Menino no colo. De imediato e sem que ninguém soubesse puseram-se a caminho do Egito. Mas a viagem era muito longa e a caminhada muito demorada e cansativa pelo que, durante o caminho, tiveram que parar várias vezes.

Numa dessas paragens, numa localidade muito pobre, Nossa Senhora quis dar banho ao Menino Jesus, mas tão tinha nem selha, nem balde, nem toalha, nem outros preparos quaisquer para aquecer a água. Então São José foi bater à porta duma casa e explicou que estava de viagem com uma criança e que precisava de lhe dar banho mas não tinha com quê. Que por favor o ajudasse.

A dona da casa logo lhe abriu a porta e prontificou-se para ajudar. São José foi chamar Nossa Senhora e entraram na casa com o Menino.

Nossa Senhora lavou o Menino Jesus numa bacia, renovando a água por duas vezes, mas não despejou a última. A mulher, ao lado tentava ajudar e observava atentamente Nossa Senhora e o grande cuidado que Ela tinha com o seu filho. Depois do banho enxugou o Menino numa toalha que a mulher lhe emprestou. Esta, no entanto, fazia muitas perguntas: de onde eram, quem eram, de onde vinham, para onde iam, por que andavam a viajar, se não tinham mais filhos… Nossa Senhora explicava tudo e falava de Deus, do céu, das coisas santas e de Nosso Senhor, o salvador do mundo. Embora não compreendendo muitas coisas do que Nossa Senhora lhe explicava a mulher estava extasiada. Como Nossa Senhora também lhe fizesse algumas perguntas a mulher, muito triste e chorosa, a mulher acabou confessando que o seu marido era um ladrão e moravam ali na mais extrema pobreza. Também lhe disse que tinha um filho um pouco mais velhinho do que o dela, que se chamava Dimas, mas que estava doente desde há alguns dias e não havia meio de ser curado.

Nossa Senhora preparou-se para sair e continuar a viagem. Mas antes de se irem embora, Ela e São José agradeceram à mulher. Quando já ia a sair Nossa Senhora disse à mulher:

- Dá banho ao teu filho na mesma água em que eu lavei o Meu e ele ficará curado.

A mulher, logo a seguir, fez o que Nossa Senhora lhe disse e, para espanto seu, o seu filho ficou curado imediatamente. Louca de contentamento, saiu logo para a rua, a correr, a ver se encontrava aquela família para lhe agradecer. Correu por todos os lados, mas já era tarde, São José, Nossa Senhora e o Menino já iam longe, pelo que a mulher não os conseguiu encontrar nem lhes agradecer.

A notícia, no entanto, espalhou-se naquela terra mas ninguém sabia onde Nossa Senhora e a sua família estavam, nem para onde tinham ido.

Passaram-se muitos anos e o filho daquela mulher cresceu, mas devido ao mau exemplo do pai, acabou por também se tornar num ladrão que anos mais tarde, foi preso e condenado à morte.

Como era costume naquele tempo, o ladrão condenado à morte foi mandado crucificar juntamente com dois outros condenados. Ele não sabia era que um deles era Aquele que, quando menino, lhe salvara a vida, pois a mãe dera-lhe banho na água em que ele se lavara. Era Dimas que, muito arrependido dos seus pecados e dos roubos que fizera disse a Jesus:

- Senhor, lembra-te de mim quando entrares em seu Reino.

No entanto o outro cruxificado blasfemava contra Jesus, dizendo:

- Se és o Cristo, desce da cruz e salva-te a ti mesmo e salva-nos a nós!

Mas Dimas repreendeu-o:

- Nem sequer temes a Deus, tu que sofres no mesmo suplício? Para nós isto é justo, pois recebemos o castigo que merecemos pelos nossos crimes, mas Ele não fez mal algum. - E acrescentou - Jesus, lembra-te de mim, quando tiveres entrado no teu Reino!

Jesus respondeu-lhe:

- Em verdade te digo: ainda hoje estarás comigo no paraíso.

E foi assim que um ladrão se tornou em São Dimas, o bom ladrão arrependido.

 

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:10

A MINHA GUEIXA (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Terça-feira, 14.08.18

Sexta-feira, 17 de Maio de1946

“Hoje estou muito contente. A minha gueixa alfeira apanhou boi, já está coberta e vai dar cria lá para Fevereiro. Eu andava muito triste com esta gueixa. Já tinha pensado até embarca-la para Lisboa. Só não o fiz porque ela ajuda-me muito nas lavouras, trabalha muito bem, quer de junta quer de canguinha. Não a quis matar quando ela nasceu, como muitas vezes se faz aqui aos bezerros logo que nascem. Matam-nos porque, para os criar, eles têm que beber o leite das vacas que o pariram, o que para nós, lavradores é um grande prejuízo. Além disso ninguém os quer comprar porque aqui não se come a carne dos vitelos, como na Califórnia. Mas esta bezerra, eu quis criá-la, embora me tenha dado muito trabalho e muito prejuízo. Deu-me muito trabalho a alimentá-la e a ensiná-la a trabalhar, mas valeu a pena. Ela ajuda-me muito a lavrar e gradear os campos, a semear o milho e ainda a puxar o corsão. Mas há uma outra razão porque a criei e ainda não a embarquei: foi por ela ser filha da minha Benfeita, a melhor vaca que tive até hoje, e uma das melhores de toda a Fajã. Mansa, trabalhadeira, boa de leite e de cria e ainda de boa boca. Come de tudo. Mas agora, que está velha tenho que embarcar aquece cramelhano. Sei que me vai custar muito, mas tem que ser e o que tem que ser tem muita força. Agora que a filha se vai fazer vaca, já não vou ter tanta pena de me separar da minha Benfeita. Vou ficar com uma filha dela, que, de certeza, fará com que nunca a esqueça. Oxalá a filha seja em tudo como a mãe. Mas lá que vou ter um desgosto muito grande, lá isso vou.

Eu já andava desconfiado que a maldita da gueixa, mais dia menos dia, ia querer boi. Por isso andava muito atento, sempre de olho nela. Hoje quando a fui levar, a ela e às duas vacas, às Águas, mal chegou à relva, a atrevida atirou-se para cima da outra vaca, da Toucada, Depois corria, saltava e pulava que até parecia doida. Já nem a deixei na relva que ela ia saltar as paredes de tão maluca que estava. Amarrei-a, para ela não me fazer asneiras e lá a levei ao palheiro do Cardoso, ao boi da Junta. Aquilo foi logo, pegou que nem tinha. Tenho a certeza que ficou coberta e há-de dar cria lá para Fevereiro. Assim vou ter que mandar a Benfeita ver os Senhores de Bengala quanto antes. Sei que me vai custar muito… mas lá terá que ser. Eu não tenho erva suficiente nas minhas relvas para três rezes. Por isso assim que vier o arrolador de Santa Cruz arrolar gado para embarcar, a minha Benfeita vai logo. Espero que me dê ainda algum dinheiro.”

 

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 11:07

TERRA MALDITA TERRA BENDITA

Domingo, 12.08.18

Não havia dia que o Luís do José Bento não fosse às Águas, mais do que uma vez. Era levar a Moirata à relva, onde florescia a erva já gasta e amarelada, era apanhar os inhames, na parte superior, junto à rocha, era  subir a própria rocha, no corte de lenha para o lume.

Juntamente com a belga do Pico do Areal, as Águas eram o que os pais lhe haviam dado, quando casara e abandonara definitivamente o lar paterno. Era um terra fraquita, junto à rocha, dividida em três partes. A parte mais baixa, que dava para a canada de serventia por um portal de pedra, era a erva, mas uma erva pouco tenra, onde a Moirata passava as noites frescas de verão e os dias chuvosos do inverno, muitas vezes a adivinhar a moita que iria pastar. Mais acima, separada por uma parede baixa e alguns pequenos arbustos, a terra dos inhames, por entre os quais  corriam alguns fios de água vindos das grotas. Na parte superior, e já pelas encostas da rocha, a terra de lenha, onde floresciam faias, incensos, alguns álamos e queirós.

Terra pobre e perigosa! Vezes sem conta, pela rocha rolavam enormes calhaus e ribanceiras que punham em risco as vidas do Luís e da Moirata. Ele, porém, já se habituara:

- É preciso é estar sempre atento. Quando elas caem um home tem que fugir é p’ra cima, p’ra junto da rocha. Se forem pedras não nos apanham... Se for ribanceira, tanto nos apanha longe como perto da rocha.

E lá ia, dia após dia, lamentando a sua sorte e o pouco que os pais lhe haviam dado relativamente ao que possuíam. Fora por isso, por lhe darem somente  aquelas duas nicas, sem valerem quase nada e uma delas debaixo da rocha, que o Luís, a pouco e pouco, deixara de entrar em casa dos pais e já quase nem falava aos irmãos. Não fosse o cerrado do Porto, junto à casa, que a Amparo herdara da mãe e não teria milho, couves e batatas para o seu sustento e dos pequerruchos, que nasciam em catadupa. Vinha aí o quarto!

Casara com a Maria do Amparo. Órfã de mãe desde que nascera, sem conhecer o pai, fora criada em casa dos Fragarias. Os pais torceram o nariz a tal casamento... É que a Maria nada tinha de seu, a não ser o cerrado do Porto com a casa a cair e, além disso, era a filha da Genoveva, uma bendita  que, pelos vistos, nem sabia quem era o pai da filha. A paixão, no entanto, não sem alguns amargos de boca, sobrepusera-se e ultrapassara os interesseiros caprichos paternais.  O Luís, antes de casar, restaurara a casa. A mão de obra era sua e de um ou dois amigos. Mas para comprar a madeira, o cimento e o restante material, teve que vender uma grande parte do cerrado, que muita falta lhe fez

Com a chegada dos filhos a vida tornou-se muito mais difícil e a casa pequena. O leite da Moirata, que a Amparo vinha, todos os dias,  levar ao Martins & Rebelo, agora era quase todo para eles. O milho não chegava... E depois, ainda havia que comprar o açúcar, o café, o sabão, o petróleo... Apenas a roupa dos pequenos chegava da América...

Da América!... A América!... Como será a América? – perguntava o Luís, certo dia, ao Gancho, que há alguns anos para lá partira e agora regressara para vir casar. Sentados no descansadouro do Batel, observavam um enorme e esbranquiçado paquete, que surgira da rocha da Ponta e se encaminhava para trás do Monchique.

- Aquele vai direitinho para a América! Aquilo é que é uma terra..– dizia  o Gancho e, num discurso imponente e convicto, descrevia-lhe, não sem alguma mentira, a terra do Tio Sam.

O Luís ouvia-o mudo e pensativo.

Desde desse dia, porém, que a América não lhe saía da cabeça. O Gancho tinha razão.Alí, na ilha, na Fajã, debaixo daquelas rochas,  naquela terra maldita, era trabalhar, trabalhar, trabalhar, para não ter nada e ver os filhos a chorar de fome. A América sim! Aquilo é uma terra, uma terra para se viver à farta.. É verdade que não se juntam dólares na rua, mas quem trabalha ganha o que quer. O tanso do José do Outeiro, que aqui nem sabia conduzir um carro de bois, já comprou um automóvel; o Augusto Amorim anda a varrer lixo, já comprou duas casa e manda montes de dinheiro aos pais. Ele próprio estava riquíssimo e para lá tinha partido há quatro anos.. e a trabalhar num rancho...

- Num rancho. Isto é que eu queria! – cismava o Luís - Trabalhar num rancho, na Califórnia, com dezenas, talvez centenas de vacas, tirar o leite com mechins, criar bezerros, ter uma vida farta , viver naquela terra bendita – pensava em voz alta.

Certo dia, depois de tanto matutar naquilo, terminando a ceia – um caldo de  couves com  uma talhada de toucinho e um quarto de bolo que a Amparo cozera à pressa, - atirou-lhe decididamente:

- Maria vamos para a América!

- Credo, home! Parece que não estás bom do juízo!

O Luís expôs-lhe, então, com clareza, todo o plano que, durante algum tempo, arquitectara,  ultrapassando, decidida e convictamente, todas as dificuldades e  obstáculos que a Amparo contrapunha, inclusivamente o da falta de dinheiro para a passagem.

- Já falei com meu padrinho. Ele descansou-me e disse-me que tudo se há-de arranjar. Depois temos a Moirata e o bezerro que darão algum, mais a casa e este bocado do cerrado...

A Amparo não se continha:

- A casa?!... Vais vender a casa!?...E depois, se chegamos a S. Miguel e não arranjamos os papéis e temos que voltar para trás?!...

Naquela noite não dormiram, mas, de madrugada, a decisão estava tomada.

 

 

O Carvalho chegou às Lajes já noite escura. Demorara muito no Corvo, pois, trazia um Senhor Secretário de Estado de Salazar, acompanhado de numerosa comitiva, que vinha  inaugurar o novo edifício dos Paços do Concelho. De certo que iria demorar em Santa Cruz e, sobretudo nas Lajes, onde ficaria à espera de Sua Ex.cia, que jantava nas Flores. Os passageiros, no entanto, embarcaram imediatamente. Na última lancha, seguiu o Luís com a Glória num braço e o José Luís noutro, enquanto a Amparo sentava a seu lado a mais velhita,  a Ana e apertava no colo o Augusto, que nascera poucos meses antes. Ao aproximarem-se do velho paquete, a carita de espanto dos miúdos contracenava com as lágrimas da mãe. O vulto negro do Carvalho, onde entraram temerosos e inseguros, estava ali, flutuando sobre as águas calmas do oceano, como um monstro tenebroso e temível, que os engolia sem piedade. No convés e nas torres dezenas de luzes projectavam-se na noite escura e reflectiam-se nas águas mansas e límpidas da baía das Lajes. Do outro lado, a vila e a ilha, distanciando-se cada vez mais...

O navio levantou ferro de madrugada. Viajando em terceira classe, apenas a Amparo e os pequenos tiveram direito a beliche, por condescendência especial do senhor Imediato. O Luís tinha que pernoitar no convés, numa cadeira que apanhasse livre. Como não encontrasse nenhuma, dirigiu-se para a borda do vapor, que, iniciava uma marcha lenta, enquanto, cada vez mais longe, a mancha escura da ilha, delineada pelos reflexos dos faróis das Lajes e do Albarnaz, se ia perdendo no infinito, até desaparecer

Agora só o roncar turbulento das máquinas, o marejar sincronizada do oceano, a incerteza escura da noite. O Luís perdera o sono. Debruçado sobre a borda do navio, observava a ilha cada vez mais longe, mais pequenina e mais perdida na escuridão.

 

Em Ponta Delgada fixaram-se na Rua do Arquinho. Um quarto pequeno, com duas camas. Era caro mas a Amparo podia utilizar a cozinha, o que tornaria a estadia em São Miguel, não se sabia por quanto tempo, mais barata, embora agora tivesse que comprar tudo, até o leite, as batatas e o pão. Além disso o Consulado da América era perto, poderia deslocar-se a pé, sempre que necessitasse.

Os dias,  porém, teimavam em passar sem nada se decidir. No Consulado eram horas e horas de espera para no fim ouvir: - “Volte amanhã. Ainda não chegou nada.” Ao chegar a casa eram os pequenos irrequietos, pegados uns com os outros, era a Amparo aflita, sem pão, sem leite, sem açúcar e, pior do que tudo, sem esperança... Não raras vezes atirava-lhe à cara a precipitação em vender a Moirata, a casa e as terras:

- Eu devia  ter ficado com os pequenos na Fajã e tu vinhas sozinho! Se conseguisses vínhamos ter contigo. Assim o que vai ser de nós? Vamos voltar para trás sem nada, desgraçados!...Lágrimas amargas corriam-lhe pelos olhos, enquanto apertava ao peito o mais pequeno, que se desfazia em acentuado berreiro.

O Luís, já nem a ouvia! Permanecia mudo, apático e indiferente.

Os dias eram passados no pequeno cubículo. A maioria das refeições eram pão e leite, porque esses não podiam faltar aos pequenos. O Luís saía de manhã, ia ao Consulado, trazia o pão e ali ficavam a tarde inteira, pensativos, tristes, misturados no reboliço dos filhos, Numa tarde, em que os três mais novos dormiam e Ana saíra a convite duma filha da dona da casa, a Amparo resvalando dum passageiro  e agora pouco vulgar rescaldo amoroso, timidamente, adiantou:

- Tenho, desde há muito, uma coisa para te dizer e não tenho coragem...

O Luís, assustado e estupefacto levou as mãos à cabeça:

- Vem aí outro?! Não faltava mais nada!

- Credo home!  Vira-me a boca para o lado. Não é nada disso. É que antes de sair da Fajã, fiz uma grande promessa.

- Ora! Todos fazem! Qual foi?

- Um jantar ao Senhor Espírito Santo... do Portal ao Risco!

- Fajazinha, Quada, Fajã e Ponta!?

- Sim, carne e pão em todas as casas.

O Luís emudeceu. Sabes por quanto fica isso Maria? Só a carne é uma fortuna! São precisos quatro bois!.. E temos que o vir dar? E as passagens?

A Amparo não pensara em nada disso. Apenas prometera, quando o vira vender a Moirata, a casa e o cerrado. Só o Senhor Espírito Santo os poderia salvar. Se tudo lhes corresse bem não teriam problemas. Não havia ninguém que fosse para a América sem promessa e não viesse pagá-la.

- Pois – concluía o Luís – mas do Portal ao Risco, não é qualquer um.

E o milagre aconteceu. Finalmente chegou a tão almejada notícia! O Luís entrou no quarto efusivamente, saltando, abraçando a Amparo e esquecendo os filhos que, apáticos, não entendiam a razão de tão grande contentamento. O Luís, aos soluços, num misto de alegria e sofrimento, exclamava:

- Eu sabia! Eu sabia que iríamos conseguir!

- Louvado seja o Senhor Espírito Santo. Assim que pudermos voltamos para pagar a promessa.

A Agência “Melo & Cabral” tratou das viagens e dos passaportes. O dinheiro que sobrou quase nem deu para o taxi que os levou ao Aeroporto. Assim como o Carvalho, fundeado na baía das Lajes os engolira naquela noite em que partiram das Flores, agora era a Sata que os transportava até Santa Maria, para então tomarem o Boing da TAP com destino a Boston. Voando sobre o Atlântico, enquanto os pequenos dormiam, a Amparo constrangida e amedrontada voltava-se, novamente, para o Divino Espírito Santo. O Comandante anunciava:

- Senhores passageiros, muito boa tarde. O nosso voo até Boston demorará quatro horas. Neste momento estamos a sobrevoar a ilha das Flores.

A Amparo de olhos fechados, fingindo dormir, nem o ouviu. O coração do Luís, porém, deu um enorme baque. Olhou pela pequena janela. O avião sobrevoava a parte sudoeste da ilha:  as Lajes, a seguir a Rocha Alta, uma enorme alcantil escarpado, sobranceiro ao mar. Depois umas casitas isoladas, devia ser a Costa. Logo a seguir o Lajedo, o Mosteiro e lá ao fundo a ponta negra do baixio, estendida pela ilha fora, com as casinhas brancas, muito alinhadas e agrupadas, entre as quais sobressaía a torre da igreja. Por trás, como que a protegê-las, as escarpas do Outeiro e, finalmente, a rocha – era a Fajã!

Os olhos do Luís encheram-se de lágrimas, lágrimas de dor e lágrimas de raiva. Se não via podia ao menos imaginar os caminhos que percorrera carregando molhos de erva, de incensos, de lenha, cestos de inhames, de milho e de esterco. Quanto sofrera, debaixo daquelas rochas, calcorreando aqueles atalhos, sem horas de descanso! Quanto trabalhara de enxada ou sacho na mão naquelas terras, semeando batatas, mondando o milho e plantando couves! Nunca tivera um tostão! Saíra de lá mas endividado!  É verdade que era a sua terra, era a terra onde nascera, que lhe estava no corpo, mas era a terra maldita, que não lhe dera, nem nunca lhe  daria aquilo com  que tanto sonhava – fartura, não tanto para si, mas sobretudo para os filhos.

A Ampara, agarrando-se a ele, apenas perguntou:

- Vês a nossa casa?

  • Não vejo nem quero ver – respondeu o Luís baixando o cortinado da janela.

 

No aeroporto de  Boston a confusão estava institucionalizada. Dezenas de portugueses ali desembarcaram, nas condições do Luís. À maior parte, ou seja os que ali faziam escala para San Francisco, com destino à Califórnia, foram dadas ordens para não sair do avião. Um dos mais espevitados, com ar de  espertalhote, experimentado em tais andanças, explicou, com ar de sabichão:

- Temos que sair. A TAP não voa para San Francisco, temos que mudar para a “Amaricana Arlaite”.

Nada, porém, se resolvia e os insultos começaram a chover:

- Tratam-nos como animais!

- Só lhes interessa o dinheiro!

- Depois de terem a massa não ligam a ninguém.

Algum tempo depois, uma senhora, de meia idade, esquelética, cabelo louro, vestindo uma farda azulada, com um lenço ao pescoço, entrou no avião e gritou com voz americanizada:

- Can va parra San Francisco siga-me porr favorr. Van semprre atrraz de mi.

Os portugueses, nos quais se incluía o Luís, a Amparo e os filhos, formaram uma fila compacta, amontoando-se e atropelando-se uns aos outros. Saindo do avião, percorreram corredores infindáveis por onde deslizavam funcionários fardados, passageiros em trânsito, de raças e nacionalidades diversas, carregando malas e sacos, num atropelar-se contínuo. A senhora da pronúncia americanizada, ao chegar à sala de embarque, avisou-os de que esperassem alí até ser feita a chamada para o voo da TWA, com destino a San Francisco.

Este porém tardou. A  noite já se aproximava. Na sala reinava a impaciência. As crianças choravam com fome e os adultos protestavam sem que ninguém os atendesse. Finalmente outra funcionária, falando português pior do que a primeira, entrou na sala e conduziu-os ao avião. Quatro horas  mais tarde aterravam aeroporto de San Francisco.

Depois de alguns dias em Vallejo, em casa da irmã Alice, o Luís, a Amparo e os pequenos rumaram para Fresno, no Vale de S. Joaquim. Fora um primo do cunhado Heriberto que arranjara o emprego, precisamente o que o Luís queria. O ranho pertencia a um italiano, que passava mais tempo no seu país do que nos Estados Unidos. Assim era-lhe atribuída toda a responsabilidade e guarda do mesmo. Para além duma casa enorme, tinha direito ao leite que precisasse, poderia criar os bezerros que entendesse e cultivar o que lhe interessasse. O patrão passaria por ali, apenas, de ano a ano.

Um sonho! Uma maravilha! A América, mais concretamente a Califórnia, era, realmente, a terra bendita com que tanto sonhara.

O acentuado interesse pela terra e pela criação de gado que o Luís sempre revelara concretizava-se agora de forma objectiva. Além disso conjugava o trabalho de que gostava com o ganho e a fortuna com que sonhava. Em casa não faltava nada! Pão, leite, batatas couves e carne sobretudo carne!... E no fim do mês os dólares. A Amparo tratava da casa e da horta. Ele ordenhava centenas de vacas, carregava o leite, tratava de todas como da Moirata. Tudo ali, perto de casa, sem grande esforço, com máquinas de todas as espécies e com automóvel para passeios e compras. Os filhos cresciam, iam para a escola e já falavam melhor inglês do que português. Aos quatro levados dos Açores juntaram-se mais quatro. As dívidas estavam pagas e já havia muitos dólares no banco. A Ana casou e veio o primeiro neto.

Era altura de voltar às Flores para pagar a promessa ao Senhor Espírito Santo. Isso não podia falhar!

Na véspera da partida, porém, a tragédia sobrepôs-se à continuada concretização do sonho de sempre, agora tornado realidade. O Luís sucumbia, vítima de um ataque cardíaco! Ali, naquela terra bendita, mas que, apesar de tudo, fora incapaz de lhe segurar a vida.

 

Passaram-se os anos. Numa manhã cálida e cinzenta de Outono, em todas as casas da Ponta, da Fajã, da Quada e da Fajazinha fumegava, quer em velhos caldeirões ou em modernas panelas de pressão, carne guisada e sobre a mesa, um, dois ou três pães.

Era o jantar dado pela viúva do Luís de José Bento.

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:05

CASA COM JANELA SOBRE O MAR

Sábado, 11.08.18

Tia Jerónima sentou-se à janela da sala, apoiando-se com o braço direito, debruçado sobre o peitoril. O Sol há muito que se havia perdido no horizonte mas reinava, ainda, uma claridade, serena, silenciosa e acolhedora. A janela, encravada na empena oeste do minúsculo casebre, abria-se e despejava-se sobre um pequeno e estreito atalho, feito de pedregulhos toscos, emaranhados entre cascalho, desenhado sobre uma rocha a arfar de silvados e vinhedos, ali mesmo em frente e encavalitada sobre o mar. Descaído sobre o oceano, que se estendia como um enorme tapete azulado e fofo, aquele alcantil que, para além de uns canaviais e uma ou outra figueira ressequida, apenas carregava sobre si a casa de Tia Jerónima, assemelhava-se a uma espécie de trincheira natural, contra a qual, sobretudo em dias de vendavais e tempestades, o mar se atirava em laivos de raiva e uivos de ganância.

Naquela noite, porém, o mar estava calmo e sereno. Abraçado à intimidade do anoitecer, apenas fazia sentir a sua presença através de uma ou outra pequena onda que, rolando lentamente, se vinha desfazer, num leve e suave murmúrio, junto ao negro areal que o separava do aclive. Uma irrequieta tranquilidade atraente! Um murmúrio de silêncio enternecedor!

Tia Jerónima permanecia, absorta e alheada, sentada à sua janela com vista sobre o mar, com a mão direita sobreposta ao olhar, como que a tapar-lhe as incandescências que o espectro do astro-rei, no seu ocaso, deixara desenhadas no horizonte em traços amarelos, alaranjados, vermelhos e violetas. Mais além, mas muito longe, um crepúsculo emaranhado crescia muito lentamente e parecia tornar-se madrugada, cobrindo uma enorme cidade, de casas altíssimas, comboios, “mexins”, vapores e soldados, atravessada por rios da cor da esperança.

Sentada à janela, com o braço esquerdo debruçado sobre o peitoril e com a mão direita sobre o olhar, a aclarar-lhe incandescências ofuscadas, tia Jerónima via as casas a erguerem-se ao céu, o burburinho das ruas atafulhadas de pessoas, o fumo que se elevava das fábricas, os comboios que passavam a correr, os rios a deslizarem com suavidade, os barcos a perderem-se no horizonte, os homens a arfarem cansaço e os soldados a partirem para a guerra. No ar surgiam pássaros de espuma e nos rios navegavam barcos de papel, cor de laranja, carregados de lágrimas e soluços. Depois a cidade adormecia, as casas fechavam as janelas, forravam-nas de madeira, vestiam-se de escuro e dos telhados saíam rolos de fumo, negro e estilizado. A cidade adormecida era como se fosse uma grande fábrica, uma espécie de fóssil industrial que homens, sonolentos e com bonés de veludo, enfiados até às orelhas, nas manhãs escuras e friorentas, procuravam com avidez, engolindo-o como se fosse um chocolate gigante. Depois transformava-se numa labareda de fumo aguerrida e devoradora e a cidade regressava à florescência do casario que, agora, sobressaía mais tenazmente, tornando o universo esverdeado e salpicado de manchas brancas. E os homens, transformados em pastores, agarravam, com uma ganância desusada, aquelas manchas, enchendo-as dentro de sacos, carregando-os às costas como se fossem rolos de lã ou de linho. E a tia Jerónima, sentada à janela da sua casa, também deslizava naquele universo como se fosse uma nuvem de papel, caminhava como se fosse a sombra de uma árvore desfolhada, voava como se fosse um pássaro perdido e sem rumo.

E lá, em frente à casa com janela sobre o mar, a noite crescia desalmadamente, tornava-se completamente escura, sem Lua e com as estrelas muito tímidas e hesitantes. Mas a tia Jerónima permanecia sentada à sua janela, com o braço esquerdo debruçado sobre o peitoril e com a mão direita a anafar o silêncio da noite, a açular-lhe sonolências perdidas, a acariciar os sabores do escuro, emaranhada em sonhos ora de encanto e alegria ora de dor e sofrimento. Depois, quebrando um silêncio torturador, tia Jerónima soluçava e estremecia, imaginando o suplicar dos braços agonizantes de alguém que desaparecera, com o Sol, lá no outro lado do Mundo.

E lá pela noite dentro, já quase madrugada, tia Jerónima acordou estrebuchada. Fechou a janela que ficava sobre mar e, na claridade tímida duma vela colocada à cabeceira da sua cama, rezou uma oração crente e purificadora, por alma do seu António que a “Calafónia”, fatalmente, nunca lhe devolvera. 

 

 

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:08

A CRUZ DO OUTEIRO

Quinta-feira, 09.08.18

Um das mais emblemáticas construções edificadas na Fajã Grande foi, inequivocamente a Cruz. Construída bem lá no alto do Outeiro, precisamente no local em que este se debruça mais sobre o povoado, como que a separar a Assomada da Fontinha, a Cruz impunha-se e debruçava-se sobre as casas campos, num abraço gigantesco, a abençoar, pessoas, animais, lares, terras, maroiços, ruas, vielas e até o mar. Branca, ingente, altiva e gigantesca a Cruz como que se assemelhava ao Cristo Redentor do Corcovado, apresentando-se como verdadeiro símbolo do cristianismo e da fé do povo da mais ocidental freguesia açoriana, apresentando-se de forma semelhante à da gigantesca estátua brasileira, como um ícone da Fajã Grande e até das Flores, postando-se ainda como marco abençoado de dezenas e dezenas de embarcações que, emergindo no horizonte, aproavam à ilha, na demanda das rotas marítimas entre a América, a Europa e a África.

Não se sabe ao certo quando surgiu a ideia de construir uma grande cruz no alto do Outeiro, nem sequer altura em que foi construída, uma vez que o monumento não revela a data de construção. Sabe-se, no entanto que ela é um verdadeiro símbolo da fé e da crença dos nossos antepassados que assim desejavam ver a sua terra permanentemente abençoada pelos braços da cruz redentora.

Durante muitos anos e até à década de cinquenta do século passado realizava-se, anualmente junto à Cruz, uma festa com missa campal precedida de romaria que tinha lugar no dia 14 de setembro, dia em que a Igreja Católica, liturgicamente, celebra e comemora a Exaltação da Santa Cruz ou seja o madeiro em que Cristo foi crucificado. Era também junto a esta Cruz que nas terças e sextas-feiras quaresmais, um grupo de homens, quer chovesse quer ventasse, ajoelhava entoando cânticos e orações diversas e prolongadas. As suas vozes, ecoando nas encostas dos montes, ressoavam e repercutiam-se sobre os velhos telhados dos casebres. Simultaneamente, em todos os lares, famílias inteiras ajoelhavam também e, em convicta e comunitária oração, uniam-se às preces dos cantores, suplicando perdão para os delituosos e pecadores e beneficência para os infelizes e sofredores.

O Outeiro e mais concretamente o lugar da Cruz era também um enigmático local para passeios, uma vez que sobranceiro à freguesia, a que se tinha acesso por uma ingreme e sinuosa vereda, de lá se desfrutava duma vista fantástica e deslumbrantemente bela. Ao perto, os telhados e frontispícios do casario, mais ao longe os campos verdes e amarelados de couves e milho e, além, separado pela mancha negra do baixio, o oceano azulado e infinito, contrastando com a tímida pequenez da ilha. Era, inclusivamente um lugar de visitas turísticas, dada a sua rara e invulgar beleza. Ao iniciar-se a subida, o espetáculo excedia-se em pulcritude, em cores, em luzes e em sons. Mas era sobretudo no dia da festa, durante a romaria, em que o povo subia em fila empunhando as velas, entoando cânticos, ao mesmo tempo que as luzes se iam alongando na subida, formando um cordão luminoso e colorido, uma espécie de colar que se ia prolongando pela encosta até se enroscar ao redor da cruz. Visto de longe, o espetáculo era magnífico.

Emblemática e mítica era ainda a Cruz do Outeiro, por quanto na imaginação da pequenada, era lá que na passagem do ano, à meia-noite, o Ano Velho e o Ano Novo travavam uma árdua luta, com o objetivo de decidirem entre si quem ficaria a mandar no próximo ano: se o Ano Velho se o Ano Novo. Nessa noite mágica todas as crianças da freguesia adormeciam nas suas camas ou berços de palha e casca de milho, uns agarrados aos outros, muito bem cobertos e caladinhos, com os olhitos muito arregalados por fora dos cobertores, com os ouvidos à escuta, a tentar descortinar algum ruído ou barulho indicador da luta e a desejar que fosse o Ano Novo a vencer. Mas só no dia seguinte de manhã, ao indagar junto dos adultos quem teria sido o vencedor, ficavam a saber que tinha sido o Ano Novo a vencer a contenda

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:02

O CAVALO DE SERRAR LENHA

Quarta-feira, 08.08.18

Na Fajã Grande a lenha era fundamental na via e nos costumes da população, como que fazia parte do seu quotidiano. Quer o acender do lume, duas ou três vezes por dia, quer o dia semanal, geralmente a sexta-feira, em que se acendia o forno para cozer pão, quer por altura da matança, das festas e de outras ocasiões especiais, usava-se muitíssima lenha, de faia, de incenso, de pau branco, loureiro, sanguinho ou até de cedro ou de queiró. Por vezes até os garranchos de incenso retirados da manjedoura, após as vacas lhe comerem as folhas, bem como os milheiros e os sabugos eram utilizados como lenha.

Uma boa parte da lenha, trazida para junto de casa e armazenada em local próprio, era delgada, pelo que era, facilmente, partida à mão, se seca, ou, simplesmente picada com o machado. No entanto, muita lenha era resultante dos troncos e ramos de grossas árvores, cortadas para o efeito ou abatidas por já serem velhas, pelo que tinha que ser serrada e depois aberta, isto é, feita em lascas, a fim de que coubesse nas grelhas dos lares e, também, para que ardesse melhor.

Antes de ser picada com o machado os grossos troncos tinham que ser serrados em pequenos toros, para o que era necessário, para além da serra, um suporte especial, chamado cavalo de serrar lenha.

O cavalo de serrar lenha era uma estrutura de madeira, simples e primitiva mas muito funcional. Com quatro paus grossos, com cerca de um metro de cumprimento, formavam-se dois xis, sendo que o cruzamento deveria ficar numa das extremidades. Era esta parte que ficava para cima, enquanto as pontas mais compridas faziam de pés. Os xis eram ligados um ao outro, com tiras laterais de modo que tivessem grande resistência. Uma vez colocado em pé, o cavalo, o tronco que se pretendia serrar era colocado sobre os vês voltados para cima e resultantes dos dois xis, de forma a permitir que saísse uma num dos lados, ou seja, o pedaço do pau que se pretendia serrar e cujo tamanho se podia regular.

Na Fajã quase todas as casas tinham o seu cavalo de serrar lenha, construído, geralmente, pelo próprio proprietário. Quem o não tinha, quando precisava, pedia-o emprestado a um vizinho que nunca negava o empréstimo.

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 09:58

SÃO JOSÉ VELHINHO

Terça-feira, 07.08.18

Há uns tempos recebi da parte da senhora Katharine Baker, residente na Califórnia mas descendente de açorianos naturais do lugar da Ponta, na Fajã Grande e tradutora, entre outras obras, do livro de Álamo Oliveira “Já não Gosto de Chocolates”, uma estampa curiosíssima.

A estampa que me foi enviada por email pela senhora Baker data de um de Janeiro de 1893. Para além de um pequeno texto no verso, onde se pode ler o seguinte “José Frederico Henriques. Lembrança de sua mãe Mariana Apolónia Gonsalves - 1º de Janeiro de 1893”, a estampa apresenta, no frontispício uma foto da antiga imagem de São José, também conhecido por “São José Velhinho”. Trata-se da imagem de S. José que existia na igreja da Fajã Grande, de que é padroeiro, até à compra da actual, nos inícios dos anos cinquenta. Por baixo da foto pode ler-se o seguinte: Verdadeiro retrato da imagem de S. José Que se venera na Igreja da Fajã Grande (Ilha das Flores).

Trata-se realmente da primitiva imagem de São José – São José Velhinho como carinhosamente lhe chamava o povo - que antigamente estava colocada no centro do altar-mor, em frente ao camarim, mas que com a chegada da nova imagem foi guardada na sacristia, em cima do mesão, onde muito possivelmente ainda se encontrará, que remonta aos primórdios da criação da paróquia Fajã Grande e que, muito provavelmente, terá pertencido à primitiva ermida que antecedeu a actual igreja paroquial, inaugurada em 1 de Agosto de 1850.

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:22

BOLA MATOU PAULA

Domingo, 05.08.18

(CONTO POPULAR)

 

Era uma vez um rei que tinha uma filha bela e formosa. Como não tinha filho varão que lhe sucedesse no trono, seria a princesa a herdar-lhe o reino. Por isso, entendia o velho e sábio monarca que a futura rainha deveria casar-se com um jovem que fosse muito sábio, inteligente, astuto e capaz de o substituir, sabiamente, na governação do reino. Assim, o rei, que se considerava a sua filha, a pessoa mais inteligente e sábia do reino, mandou avisar todos os seus súbditos que a princesa se casaria com o jovem que tivesse a arte e o engenho de lhe propor uma adivinha cuja solução ela não fosse capaz de desvendar. Determinava, ainda, o monarca que todos aqueles que se apresentassem no palácio com uma adivinha cuja solução a princesa deslindasse seriam, imediatamente, enforcados.

Apresentaram-se no palácio real muitos jovens, doutos e inteligentes, com as adivinhas mais diversas e de difícil solução. Porém a todas, a sabedoria da princesa dava resposta pronta e imediata. Assim, dezenas e dezenas de jovens foram enforcadas. É que nenhum conseguia apresentar uma adivinha cuja solução, a princesa não descortinasse.

Ora numa aldeia, muito pobre e humilde, vivia um rapaz que era muito estúpido e insensato. Logo que teve conhecimento do anúncio, decidiu também tentar a sua sorte. Os irmãos, porém, sabendo como ele era tolo, tentaram convencê-lo a não se apresentar no palácio real, pois decerto que iria lá envergonhá-los a eles e à sua família. De nada serviram os pedidos dos irmãos. É que o rapaz, para além de tolo, era muito teimoso e os irmãos, por mais que insistissem, não encontraram maneira de o impedir de sair de casa e de se apresentar no palácio.

Então, para terem a certeza de que ele, apesar da sua teimosia, não chegaria ao palácio real, resolveram deitar-lhe veneno numa bola que ele levava para se alimentar durante a viagem.

No dia seguinte, sem saber o que os irmãos haviam feito, lá partiu o rapaz com a bola dentro de um saco, montado numa mula que se chamava Pala, a caminho do palácio do rei.

A viagem, no entanto, era bastante longa e demorava mais do que um dia. Quando anoiteceu o rapaz deitou-se junto a um castanheiro, ao qual amarrou a mula. Porém, enquanto dormia, a mula que estava muito esfomeada, sem que ele se apercebesse, comeu a bola que os irmãos haviam envenenado.

Quando o rapaz acordou, na manhã seguinte, a mula estava morta. De repente, ao levantar-se, viu aproximarem-se três lobos. Cheio de medo, subiu para o castanheiro, junto ao qual tinha dormido, ao mesmo tempo que os lobos se aproximavam e comiam a mula. De cima da árvore, o rapaz tentou afugentar os lobos, disparando um tiro mas, como tinha fraca pontaria, não acertou em nenhum dos lobos. A bala foi parar lá longe e, por mero acaso, acertou numa lebre, matando-a. Os lobos, no entanto, morreram, imediatamente, após comer a mula. Então o rapaz desceu da árvore e pegou na lebre com a intenção de comê-la, caso encontrasse lume e lenha ou qualquer outra coisa com que fizesse uma fogueira para a assar, pois já estava cheio de fome. Como não encontrasse nada que pudesse queimar, entrou numa igreja, arrancou as folhas de um missal e fez com elas uma fogueira onde assou a lebre. De seguida comeu-a, assim como duas crias que ela tinha na barriga Como ficasse com muita sede foi à pia da água benta e bebeu toda a água que lá havia. Ao sair da igreja chovia torrencialmente. A enxurrada era tanta que arrastou os lobos para um rio que por ali deslizava. Quando parou de chover o rapaz pôs-se, novamente, a caminho e atravessou uma ponte. Olhando para o rio, viu os três lobos arrastados pela correnteza das águas, enquanto apareciam a voar sobre eles, sete corvos muito esfomeados que se atiraram aos lobos e os devoraram.

Finalmente, o rapaz chegou ao palácio do rei. Todos se riram do seu aspecto pacóvio, simplório e apalermado. Mas como pensassem que não haveria problemas, pois um abantesma daqueles nem sequer seria capaz de contar a adivinha mais simples do mundo à princesa, deixaram-no entrar. Decerto que, dentro de momentos, o esperava a forca.

O rapaz chegou junto da princesa e do rei e este pediu-lhe que contasse uma adivinha. Como não sabia mais nada, o rapaz contou, tudo o que lhe acontecera durante a viagem, dizendo:

- Bola matou Pala, Pala, depois de morta, matou três. Atirei ao que vi e matei o que não vi, comi o nascido e o por nascer e com as palavras de Deus minha fome matei. Bebi água que não era do céu nem da terra, passei por cima do duro que estava sobre o mole e vi sobre três mortos sete vivos cantando?

A princesa não foi capaz de descobrir nada do que o rapaz lhe contou. Foi ele que lhe explicou, tim-tim por tim-tim, tudo o que tinha visto e o que lhe acontecera durante a sua viagem até ao palácio real.

E, como palavra de rei não volta atrás, o rapaz casou com a princesa e herdou o trono do velho e sábio monarca.

 

Conto popular, contado (antigamente) na Fajã Grande.

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:05

CAPITÃO FRANCISCO AUGUSTO

Sábado, 04.08.18

Capitão Francisco Augusto,meio americano,meio 
do Reino de Portugal ; açoriano
de berço ;de sua raiz flamengo ;
comandante de navios ,
bom trancador de baleias,
com fama de beber bem:
brabo no soco,perdido 
se lhe cheira a mulher…

Mas porquê lembra-me agora deste primo,
mais que morto,que afogado,
ausente do meu sentido?

Assim mesmo.Exactamente:
guerras da Índia..ou não era ?
Isso mesmo:levar tropas .
E El-Rei que ia a bordo
despedir-se do Infante,
general das ditas tropas.
E veio então um senhor…
Senhor não ;um senhorito,
lá dos palácios de El.Rei,
a ensinar ao comandante
do África ,ou com seria 
o nome deste vapor 
que a El.Rei se beijava a mão
quando El_Rei a estendia.

Capitão Francisco Augusto,meio americano, meio 
do Reino de Portugal;açoriano 
de berço;de sua raiz flamengo ;
comandante de navios,
que outra coisa não era
senão bicho do mar- alto,
rude por fora,por dentro 
coração de cera-bela:
mar whisky e mulheres…
famoso de costa a costa,
querido dos armadores,
estimado da maruja,
comandante de primeira
entra todos os melhores!

Rosa de limos do mar,pedra de musgo
e candura,meu puro primo-terceiro,
por que me lembro de ti ?

… Ora bem, vamos ao conto

Foi-se embora o senhorito
lá dos palácios d’ El-Rei.
« Beijar a mão ...»---e andava 
capitão Francisco Augusto
de lado a lado da ponte,
ali era o seu reino
de céu a céu no mar-alto,
bem longe desta Lisboa 
onde os machos se desmancham
nos cheiros e nas zumbaias , 
falando tal qual madamas,
rabeando pelas ruas.
« Beijar a mão..Go’the hell !
Beijar a mão...»---e andava,
como touro encurralado
renegando a castração,
de lado a lado da ponte
---«...ao pai que me fez e à mãe 
que me cá botou,beijava.
Fora disso...» --- e não parava,
roído de cisma e espanto,
de raiva e pena de si,
de lado a lado da ponte
---« nem sequer ao padre-santo ! »
Ora quando a Majestade subiu a bordo do África ,
ou lá o nome que tina
o tal transporte de guerra ,
Capitão Francisco Augusto,
seis pés d’alto,louro,homem
mais valente que as marés
e um vozão de temporal,
pegou-lhe na mão rosada,
fofa que de mulher.
( « Beijar a mão...Go’the hell !
Sun of a gun ! ´´é o beijas ! »).
Lá estava o tal senhorito,
mandalete do palácio,
e a corte toda a olhar:
mão d’El Rei na sua mão,
não era mão…
E era o Mar
crescendo na sua frente --- 
… não era mão,não senhor !
E apertou-lha até que o outro
franziu a cara de dor.
Um «Good-Bye,Majestade ! »
e foi-se enorme e direito
por mando na sua gente.

Lembranças que desterro das poeiras do esquecido,
por que me vêm , como um laço,
ao de cima da memória ?
Capitão Francisco Augusto,meio americano meio 
do Reino de Porugal;açoriano 
de berço;de sua raiz flamengo;
comandante de navios ,
bom trancador de baleias…
--- lá foi e lá se tornou
até Goa e p’ra Lisboa.

Das guerras não soube nada,
que de guerras não cuidava;
a sua gerra era o mar,
e a guerra sempre amanhada.
Levou a tropa e voltou.
E adeus Lisboa,adeus África ,
foi-se de proa a Bastão
num vapor da White Star,
ser outra vez capitão
d’um três mastros baleeiro;
ali já podia estar ,
sem corte nem beija-mão:
ali era ela por ela,
ali era homem inteiro !

Mas porquê estar a acordar de raízes afundadas,
esta abalar do silêncio
dos pegos d’Além-Mar ?

Capitão Francisco Augusto (e basta ! Nada mais digo )
morto na volta do Cabo
Horna ou Corno (tanto faz ),
comandante de Good Hope, 
com ela se foi ao fundo,.
Lá está no fundo do mar !

Ora isto foi...isto foi …?
--É tudo quanto guardei,e um retrato em corpo inteiro.
De resto mais nada sei
deste meu primo-terceiro.
Nem me importa quando foi.

In Sinais de Oeste – Pedro da Silveira - 1952

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:28

CHAMARRITA

Sexta-feira, 03.08.18

Na sala pequena a música rompe,
Caixeiro manda a roda.

Choma Rita,choma Rita …
Ó mei amor de tan longe…

Saudades herdadas de pais e avós,
Trazidas da Flandres 
E de Portugal.

Sinhor capitão da barca 
Espere,faça favor..

Ao ritmo da música da viola
Homens e mulheres parecem sonâmbulos
Bailando.

A viola está tocando
Frank acompanha ao córiano.
Mateuzinho canta.
Mas o canto é triste.
Dir-se-ia mágua.
Dir-se-ia choro.

A viola está tocando.
Parece a voz de um afogado.
Choro de destinos não cumpridos,
Lembraças de alguém que partiu
E não voltou.

A roda segue .
Mas quase nem se ouve o ruído cadenciado dos passos.
Só o canto triste 
E a música triste ,

Saudosa,magoada,
Do córiano e da viola.

A Ilha e o Mundo – Pedro da Silveira - 1953

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 10:25

ÚLTIMO OESTE

Quinta-feira, 02.08.18

 

A terra acaba aqui.

Além é só o mar – e vento.

A terra acaba aqui…

Com ela tudo o que eu intento.

 

Às vezes imagino-me embalando:

Um porto, onde começa o meu destino.

Mas isso é só um desatino.

Até quando?

 

……………………

 

Lenha verde no lume,

Em sonho cada sonho se resume.

 

Pedro da Silveira, In “Primeira Voz”, Julho de 1942

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 22:49

ELOGIO DA ADEGA

Segunda-feira, 09.07.18

No Pico e mais concretamente no lugar da Prainha, freguesia de São Caetano, a adega familiar assumiu, desde os tempos mais remotos, um papel importante e de destaque no quotidiano dos seus habitantes, nos seus costumes, tradições e até na sua própria economia. Embora vocacionada desde sempre como local de fabrico do vinho (ao menos naquelas que tinham no seu interior ou anexo um lagar) e, sobretudo, da sua guarda, a adega foi-se transformando, ao longo dos tempos, numa espécie de granja onde, juntamente com o vinho, o bagaço e a angelica e, misturados com barricas e garrafões, se guardavam murmúrios resplandecentes, devaneios indecifráveis e aromas dulcificados, ou num granel onde, aos odores opacos e perplexos do mosto a fermentar, se adicionavam e misturavam refluxos candentes, ressonâncias mágicas e ecos retumbantes, de memórias e tradições, ou seja, num local de sonhos idílicos, de fascinações extasiantes e de enlevos arrebatadores. Uma espécie de epicentro da sublimidade, do enlevo, das ausências impostas, das negações forçadas e de carências postuladas, tudo isto motivado por uma insularidade rural, assumida, rústica e mística. Por isso é que a adega, ao longo dos tempos, se foi transformando também em local de romarias permanentes e contínuas nas tardes de domingos e feriados, ou de visitas diárias, à noitinha, em dias de semana e de trabalho, umas e outras, prolongadas, estendidas e ramificadas, vezes sem conta, pela noite dentro, por vezes, até pela madrugada. Além disso, muitas vezes, romarias e visitas eram acompanhadas de opíparas refeições, transportadas em cabazes, à cabeça de mulheres robustas, moçoilas empavesadas, onde não faltavam os inhames, a linguiça, os torresmos, o peixe frito ou assado e o bolo do tijolo, enquanto muitas outras se reduziam a um simples mas delicioso e revigorante caldo de peixe, acompanhado com o vinho, bebido nas tradicionais tigelinhas de barro, extraído, directamente, das barricas, ou, outras vezes a estagiar e a criar lastro no canjirão. Muitas, porém, eram as idas à adega, apenas encharcadas de vinho, espevitadas com bagaço ou adocicadas com angelica, mas vazias de vitualhas. Mesmo assim não deixavam de ser alegres e folgazonas. Era a safra destemida e sublime do lazer, ora juntando familiares, ora reunindo amigos. Era o encontro e reencontro, a partilha e a entrega, a troca de afectos, sentimentos e, sobretudo, de palavras. Era sobretudo por altura de aniversários e das festas do Natal, da Passagem do Ano, da Páscoa, do São Martinho, dos Santos e outras que a adega assumia o seu estatuto de “catedral” do convívio, da confraternização, do lazer e da desmitificação, entregando-se a um devaneio por vezes tresloucado, eufórico e alucinado mas sempre generoso, concertante e fraterno.

Mas era sobretudo na época das vindimas e na altura da apanha dos figos que as adegas de São Caetano se enchiam de gente, de trabalho e de folguedos enquanto, nos caminhos circundantes e nas veredas intercalares circulavam pessoas numa labuta árdua e cansativa mas gratificante e desejada. Era por essas alturas que os ares se perfumavam com os odores adocicados do mosto e dos figos a fermentarem, enquanto aqui e além fumegavam, por entre os telhados, sabores magnificentes, gustações sumptuosas e paladares opulentos.

A adega quando assolada pela presença do dono, tinha as suas portas sempre abertas, sempre disponíveis aos que ali passavam para “entrarem e tomarem alguma coisa”. A recusa a tão persistente e institucionalizado convite era, geralmente, tomada como ofensa. Era imperioso entrar em todas e beber um pouquinho em cada uma.

Com o tempo, porém, a adega abdicou da sua pureza original, una, única, própria e inexaurível. Construídas, inicialmente de pedra rústica, com chão de rama de pinheiro, as adegas populares e tradicionais depressa se alteraram, substituindo a sua negrura basáltica pelo branco da alvenaria e o chão de terra atapetado de rama de pinheiro por azulejos e mosaicos. Revestiram as suas paredes de cimento branco, abdicaram da vela ou da lanterna em prol da electricidade, encharcaram-se de água canalizada e até deixaram que se destruíssem as “casinhas” existentes ao seu redor. Numa palavra metamorfosearam-se em vivendas e mansões.

Por isso, hoje, ali, no Caminho do Meio, tudo é diferente e nada é igual. Circula-se de automóvel, enchem-se as veredas de eras, cana roca e silvados, transformam-se costumes e locais e até se festeja o São Pedro, com direito a nicho com imagem. Mas uma coisa é certa: o objectivo primordial, primitivo, único, insubstituível da adega ainda se mantém, porquanto cada uma delas, hoje como ontem, se constitui num verdadeiro “santuário”, onde o vinho é deus e o bagaço e a angelica as primícias originais da sua omnipotente e todo-poderosa obra criadora.

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 15:58

A LENDA DA CRUZ DA CALDEIRA

Quarta-feira, 04.07.18

Muitas eram as “estórias” misteriosas, enigmáticas e assustadoras, supostamente verídicas e acontecidas aqui ou além, em tempos idos, por toda a ilha das Flores que se contavam aos serões em que as pessoas se juntavam nas casas umas das outras para conversar e jogar às cartas mas também e sobretudo para se ajudarem reciprocamente nas tarefas agrícolas e domésticas, como era o caso do “encambulhar” e descascar o milho, ou cardar e fiar a lã. Uma das mais repetidas e frequente era da “Cruz da Caldeira”

Rezava mais ou menos assim a dita cuja: Certa noite na Caldeira um grupo de pessoas, uns da Caldeira outros Fajazinha, faziam serão numa casa da Caldeira, descascando milho. Conversa daqui, conversa dacolá e o assunto à balha foi o do medo de andar pelos caminhos à meia-noite e sobretudo o de assobiar a essa hora, coisa que ninguém era capaz de fazer. Era crença comum entre o povo de que a meia-noite era a hora do diabo e quem assobiasse àquela hora corria sérios riscos de ser levado pelo “Cão Preto” para as profundezas do abismo.

Foi então que um homem, com ar de valentão e muito “anamudo” apostou com os outros que, à meia-noite em ponto, ia à Quebrada da Muda, junto à Ribeira de António Luís, dar três assobiadelas, precisamente quando batesse a meia-noite. Os outros que ele não ia, ele que ia. Aposta combinada e lá foi. Ficaram todos calados, cheios de medo e à espera dos assobios. À meia-noite em ponto ouviram o primeiro muito forte. Logo a seguir, ouviram o segundo muito fraco e já nem ouviram o terceiro. Ficaram todos apavorados. Alguns ainda pensaram em ir à ribeira mas não tiveram coragem. Ninguém dormiu naquela casa, durante o resto da noite, à espera do homem que nunca regressou. De madrugada foram à ribeira procurá-lo mas viram apenas restos de sangue, percebendo então que teria sido arrastado pelo Diabo para um enorme buraco que havia na ribeira. Procuraram-no por todo o lado, mas o homem nunca mais apareceu. Esse terá sido o motivo pelo qual foi construída uma cruz, a Cruz da Caldeira, que ainda hoje existe, precisamente no sítio onde foi encontrado o primeiro sangue, e que se situa no antigo caminho entre a Caldeira e a Fajãzinha, antes da descida da Rocha dos Bredos, sobre o vale da Fajãzinha.

 

Um outro conto do mesmo livro e que desperta a atenção é o último com o título de “Nota Única”, onde narra a “estória da Asiladinha da Assomada” e que dedica ao seu “amigo e irmão (no sacerdócio) Francisco Vieira Bizarra”, nessa altura pároco na Fajã Grande. Atendendo que Nunes da Rosa dedica cada um dos seus contos a uma personagem, como ao Visconde Borges da Silva, a Marcelino de Lima, a Cónego Amaral, etc, apenas ao Padre Bizarra o faz nestes termos, o que significa que terão convivido bastante e que Nunes da Rosa terá visitado a Fajã Grande com muita frequência.

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:24

OS ABAFADORES DOS BULES DO CAFÉ

Terça-feira, 03.07.18

Se éramos nós crianças que, noutros tempos, com a nossa imaginação e criatividade construíamos os nossos brinquedos, valha a verdade que, na Fajã Grande, também, pela mesma altura, eram os adultos, com não menos imaginação e outra tanta ou mais criatividade, que construíam grande parte dos objectos necessários ao seu trabalho e às actividades e lides que o seu quotidiano comportava. Entre os muitos e variados objectos de fabrico caseiro ou artesanal estavam os abafadores dos bules de café que existiam em todas os lares e que eram fabricados geralmente pela dona da casa, sendo que a maior parte revelava grande imaginação e assumida criatividade.

Como é por demais sabido, na Fajã Grande o café era, muito provavelmente, a bebida mais consumida. Bebia-se o apetitoso e aromático líquido, feito com uma mistura de favas, chicória e café puro, geralmente misturado com um pouquinho de leite. As favas eram cultivadas por cada um e depois de secas e torradas eram misturadas à chicória e aos grãos de café, comprado geralmente em menor quantidade do que a chicória porque esta era mais barata. Todos estes ingredientes eram misturados e moídos no moinho de café que existia em quase todas as casas, aparafusado numa das paredes da cozinha.

Bebia-se muito café ao longo do dia: ao levantar, pela madrugada, ao longo da manhã, ao jantar, de tarde e por vezes até à ceia ou à noite antes de ir para a cama. Muitas vezes, sobretudo quando se ceifava feitos, lavrava os campos ou sachava o milho, as crianças ou as mulheres iam aos campos levar café acompanhado de pão ou bolo com queijo aos homens que ali realizavam aquelas árduas e cansativas tarefas.

Assim e devido às dificuldades e demoras no acender do lume e ferver a água, muitas vezes com garranchos verdes e alagados, era impossível fazer café a cada hora e a cada momento. Por isso, tornava-se imperioso e necessário que em cada casa houvesse permanentemente café quentinho, mas sem ser feito na altura, o que apenas se conseguia com recurso aos “abafadores”, geralmente feitos pelas mulheres.

O abafador, que mantinha o café quente por muitas horas, era feito com dois pedaços velhos de fazenda da mais grossa possível, geralmente retalhos de casacos ou “camurças” já não usados e que eram cosidos de maneira a formar uma espécie de saco, sendo que a extremidade oposta à da abertura ou era oval ou cóncava, conferindo assim uma ar de maior graciosidade ao abafador que ficaria exposto diariamente em cima da mesa da cozinha ou da “amassaria”, com o objectivo não só de manter o café quente mas também de agradar aos olhares das visitas, sempre curiosas e sempre a meter o nariz em tudo. Depois de feito o simulado saco, por vezes até com bordados laterais, fazia-se um outro também de pano velho e preferencialmente de lã, que serviria de forro e ao qual se dava a forma do primeiro mas que era bastante menor, tendo mais ou menos o tamanho de um bule de café. De seguida eram metidos um no outro e colocava-se no espaço que restava entre ambos, devido à sua diferença de tamanho, uma enorme quantidade de chumaço feito de lã e trapos velhos de forma que o interior ficasse bem cheio como se fosse uma almofada de sofá. Cosidas a boca de um saco à do outro, o abafador ficava completo e pronto a ser colocado sobre o bule, cobrindo-o na totalidade e protegendo-o do frio. Os abafadores adquiriam formas diversas e diversificadas. Uns, os formados por sacos convexos, adquiriam a forma de um semicírculo, enquanto os outros, os de forma convexa, se assemelhavam a uma fralda de criança estendida na corda, a secar. Havia, no entanto, abafadores mais sofisticados e muito mais perfeitos sob o ponto de vista estético, não apenas pela melhor qualidade do tecido mas também pela excelência do chumaço e, sobretudo, pelo formato diferente que lhe davam, sendo que os havia até em forma de galo sentado, com bico, crista e tudo.

O uso dos abafadores diminuiu bastante, nos finais da década de cinquenta, com a chegada à Fajã das garrafas termos ou “garrafas de calor”, como se dizia, inventadas no longínquo ano de 1892 pelo escocês James Dewar.

Mas creio que actualmente os abafadores terão desaparecido por completo por culpa dos modernos, práticos e rápidos microondas.

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 09:33

GAZELA

Sexta-feira, 29.06.18

Os suspiros matinais eram um estorvo, um empecilho, dir-se-ia uma espécie de sufoco atiçado ao vento, sem convicção, sem vivacidade e sem comprometimento. Uma espécie de martírio, mas um martírio gratificante, sensível e bem delineado. No horizonte perplexo e indefinido, apenas e somente, uma gazela, uma gazela sem asas, mas veloz como o vento e rápida como o pensamento. Corria deslumbrante e perturbadora, nas madrugadas ainda pouco clareadas, por vezes sem luz, muito antes de nascerem aqueles suspiros sufocantes, estilhaçados, a tingirem-se de pranto, a perfumarem-se de temeridade, imersos, definitivamente, numa estranha e perversa mortalha de perplexidade. Gazela das madrugadas, a deslizar por veredas inverosímeis, por ruas desertas, a açular-se em enigmas perfumados, sibilantes, loiros, a provocar encantos maviosos e a verter murmúrios silenciosos, disfarçadamente suplicantes. Mas o arfar das madrugadas era dolente, aflitivo, quase aniquilador.

Depois, a gazela das madrugadas escuras entrava na floresta, ora ocultando hesitações ora lançando-se em êxtases céleres, a sulcar as veredas sinuosas, onde vento soprava com uma intensidade intempestiva, desfazendo neblinas, solidificando sentimentos, imergindo-se em metamorfoses e suplícios, libertando anseios tempestivos. Cada vez mais veloz e voadora, a gazela! Gazela das árvores floridas, dos pântanos a abarrotar de folhas de nenúfar, dos caminhos ermos com as paredes enegrecidas pelos sonhos incoerentes das nuvens, correndo junto às margens de um rio de águas cinzentas.

Perdia-se na floresta, a gazela dos encantos repressivos, mesmo sabendo que o rio estava ali ao seu lado, que podia navegar nas suas águas, caminhar ao longo das suas margens, atravessar as suas pontes, talvez mesmo ouvir o cantar sibilante e dolente das árvores circundantes. Mas limitava-se apenas a atravessar a floresta, veloz como o vento e rápida como o pensamento, esta gazela com o destino preso por um sufocante raio de luz.

Gazela sem rio, sem floresta, sem árvores, sem ruas mas a abarrotar de desejos indefinidos, de aspirações misteriosas, de vontades inexpressáveis!

As madrugadas não eram contínuas, nem sequer sustentáveis mas tinham o sabor acre das noites claras, possuíam o perfume amarelado dos arraiais em festa e alvejavam-se em ondas sonoras de sentimentos adormecidos.

Gazela intrépida e voadora, gazela dos desertos e das cavernas, das florestas e dos bosques, dos rios e das madrugadas. Incoerente, altiva, corajosa, ousada e afoita! Gazela sem medos, sem receios, cuidando que o destino nunca havia de lhe cravar as garras implacáveis, funestas e aniquiladoras.

Mas um dia nefasto, incongruente e destruidor, chegou! Gazela ferida, presa, sem destino, atingida pela crueldade de um caçador, a cercear os inesgotáveis encantos das suas velozes corridas pelas madrugadas e a confundir e a aniquilar, para sempre, os inesgotáveis e inconsequentes suspiros matinais.

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:07

BRACÉU

Segunda-feira, 25.06.18

Que nascia muito bracéu no mato da Fajã, que a sua apanha era uma espécie de dia de festa e que era excelente para fazer a cama ao gado no Inverno a fim de se tornar, depois, em estrume fertilizante para os campos agrícolas eu não tinha dúvidas. Agora que o bracéu se chama Festusca jubata e que pertence à família dos Poaceae é que não fazia a mínima ideia, se não tivesse recorrido ao site da Universidade dos Açores, Base de Dados, Biodiversidade.

Ora o nosso Festusca jubata nascia e crescia no mato, logo ali por cima da Rocha, fazendo jus do seu nome, pois partilhava-o com o do próprio lugar onde florescia. Como as terras onde desabrochava eram grandes e ficavam longe das casas, a sua apanha, corte e acarretamento demorava um dia inteirinho. Lá se partia de madrugada, em ranchos, os homens ainda noite escura, carregados com foices, bordões, gavelas de espadana, ganchos de ferro e cordas, enquanto as mulheres, acompanhadas pelas crianças, seguiam já mais ao romper do dia, derreadas ao peso dos cestos a abarrotar de comida, transportados à cabeça sobre grossas rodilhas, arrastando os fedelhos pela mão.

A manhã era de ceifa contínua, árdua e cansativa que o Festusca jubata não era de brincadeira. Era rijo e escorregadio e as foices não eram lá grande coisa, por vezes, mal amoladas e mais adequadas para cortar manteiga do que bracéu. Depois era necessário fazer as paveias, amarrá-las em molhos com as folhas de espadana e acarretá-los para o cimo da rocha, para junto do arame, com uma pausa para o almoço, pelo meio.

Terminada a ceifa, após a amarração, os pesados molhos do Festusca jubata eram acarretados, colocados e empilhados no cimo da Rocha, junto ao arame. De imediato uns desciam a rocha em passos rápidos a fim de, colocando-se estrategicamente junto ao arame no cruzamento da Ribeira, retirassem os molhos atirados pelo arame, para que nenhum dificultasse o deslizar do que se lhe seguia. Mais tarde seriam colocados em carros de bois e transportados para as “casas velhas” ou de arrumos, onde eram guardados até serem utilizados no Inverno

O deslizar contínuo e ininterrupto de dezenas e dezenas de molhos de bracéu no arame proporcionava um espectáculo deveras inolvidável. Os molhos colocados lá no alto um a um, dançavam airosamente ao longo do arame, umas vezes atingindo enorme velocidade, outras deslizando vagarosamente e, por vezes até paralisando por completo a meio do trajecto. Tal percalço exija que fosse arremessado com força gigantesca um outro molho que com o seu impacto, batendo fortemente naquele que havia parado a meio do arame, o havia de voltar a por em movimento. Só que, por vezes a vontade de resolver o imbróglio era tanta e a força de arremesso tão exagerada que os molhos, ás vezes até em conjuntos de dois, três ou mais que ali se iam acumulando, paralisados, ao chocarem uns com os outros, provocavam uma espécie de repentina e maravilhosa chuva de folhinhas de bracéu que se iam diluindo e perdendo sob o verde dos socalcos e das ravinas e o negro pétreo dos andurriais.

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:05

DESESPERADAMENTE À PROCURA DA LAVRADA

Quinta-feira, 21.06.18

O Manuel Branco morava numa casa bastante isolada, lá para os fundos da Tronqueira, quase no cimo da ladeira do Calhau Miúdo. Era um homem pobre, honrado e trabalhador mas muito ingénuo e simplista. Esta última qualidade permitia que a garotada da freguesia, com mais frequência do que a tolerada pela paciência humana, lhe pregasse algumas partiditas, umas inocentes e jocosas outras malévolas e arreliadoras. O Manuel, porém, paciente e com uma muito limitada capacidade de revolta e indignação, lá ia vendo, ouvindo, calando e suportando tudo.

Certa noite de que se haviam de lembrar os ganapelhos? O Manuel, mesmo ali em frente da casa onde morava, tinha o “ai Jesus” da sua árdua labuta quotidiana: um cerrado de milho do melhor que havia, bem crescido e verdinho, já espigadote, à espera do estio para que amadurecesse, fosse apanhado, “encambulhado” e pendurado no estaleiro, a fim de lhe garantir o sustento da família ao longo de todo ano. Ao lado da casa e ao fundo do pátio ficava o pequeno palheiro onde guardava a Lavrada, a única vaca que possuía, na qual havia pendurado ao pescoço uma campainha de som inconfundível aos ouvidos do dono, como era uso e costume na Fajã.

Alta noite, enquanto o Manuel e todos lá em casa dormiam regaladamente, vão os “monços” ao palheiro, tiram a campainha do pescoço da Lavrada e escondem-se entre o milho, fazendo propositadamente algum barulho e simulando um badalar da campainha, a imitar, na perfeição, as lentas passadas do animal.

Foi a mulher quem primeiro acordou assarapantada: 

- “Credo! Jasus! Virge Santísema! Home, acorda! Nan oives? A nossa Lavrada assoltou-se e está a dar cabo do nosse milhinhe tode”!

O Manuel deu um pulo e, mesmo em “ciroillhas”, com a Jesuína atrás, em “naitigão”, a insuflar-lhe coragem, assomou à porta e, ouvindo a campainha da vaca, cuidou que de facto ela se soltara do palheiro e andava por entre o milho. Muito aflito e atrapalhado, atravessou o pátio que separava a casa da terra, saltou o muro e começou a chamar pelo animal, na tentativa de o apanhar:

- “Lavrada! Lavrada!  Ou vaca, ou”!

Contendo as gargalhadas, continuaram os atrevidotes a simular com o toque da campainha que era o animal que por ali andava, fazendo estalar de vez em quando e propositadamente um ou outro pé de milho. O Manuel entrou desesperadamente na terra, correndo como um louco à procura da vaca, chamando por ela e incentivando-a a parar. Mas quanto mais corria e chamava, mais o som da campainha se afastava e fugia.

- “Ora essa”! – Resmungava a mulher – “Uma vaca assim tan mansa! Parece que tem o diabe no corpe”!

Procuraram toda à noite mas a vaca nunca apareceu. Só de madrugada quando regressavam a casa, quer porque já não ouvissem o som da campainha quer porque começassem a desconfiar de que ali havia marosca, foram ao palheiro. Encontraram a porta bem fechada com a taramela e a Lavrada amarrada e deitada no seu canto, muito calma e tranquila, a ruminar a sua ceia, como se nada tivesse acontecido, mas… sem a campainha ao pescoço. Só então deram conta do embuste.

E a campainha? Bem, essa só apareceu na altura da apanha do milho.

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 08:31

O JOÃO GRANDE E O JOÃO PEQUENO

Quarta-feira, 20.06.18

Numa pequena freguesia viviam dois compadres muito amigos. Como ambos se chamavam “João”, o povo para os distinguir chamava ao mais alto e esguio João Grande, enquanto alcunhava o outro, por ser mais baixo e roliço, de João Pequeno. Cada qual vivia sozinho e cada qual tinha apenas por companhia a sua velha avó. Uma outra grande diferença, porém, os distinguia: é que o João Grande era muito rico e poderoso, pois para além de possuir uma boa casa, muito dinheiro e muitas terras tinha também muitos animais e, sobretudo muitos cavalos, dos quais gostava muito. Eram a menina dos seus olhos. Ao contrário o João Pequeno era muito pobre e possuía apenas uma pequena courela junto à sua humilde casa, onde, com a ajuda de um único cavalo, lá ia cultivando apenas o necessário para o seu sustento e o da sua avó. Dinheiro, nem vê-lo. No entanto, como eram grandes amigos, sempre que o João Pequeno necessitava de qualquer coisa ia ter com o compadre João Grande que de imediato lhe disponibilizava alimentos, cavalos para o trabalho ou até dinheiro.

Certo dia, ao pretender lavrar o pequeno e único campo que possuía junto de casa e cuidando que o não conseguiria fazer apenas com o seu cavalo, foi pedir emprestados alguns cavalos ao compadre João Grande. Este sem demoras cedeu-lhe quatro dos melhores cavalos que possuía.

O João Pequeno, todo contente, juntou-os ao seu e atrelou-os todos ao arado. Toca a lavrar o campo muito bem lavrado que as semeaduras querem a terra revolvida e fofa. Como os animais puxassem o arado com alguma lentidão, o João Pequeno incentivava-os a andar mais depressa, chicoteando-os ao de leve e dizendo:

- P’rá frente meus cinco cavalos!

O compadre João Grande passou por ali, parou, ouviu e não gostou rigorosamente nada. Como o compadre insistisse, repreendeu-o:

- Ó compadre, não fale assim com os animais. É que, bem vistas as coisas, apenas um dos cinco cavalos é seu. Os outros quatro são meus.

Mas o João Pequeno não lhe dava ouvidos e repetia constantemente com maior intensidade de voz:

- P’rá frente meus cinco cavalos!

O João Grande avisou mais uma vez, uma outra e mais uma outra, mas nada. O compadre permanecia na sua e repetia insistentemente, em altos gritos:

- P’rá frente meus cinco cavalos! P’rá frente meus cinco cavalos!

O João Grande perdeu a paciência. Saltou a parede, entrou no campo, forçou o compadre a parar o seu trabalho e, olhando de frente com um misto de zanga e raiva, ameaçou:

- Ó compadre, não volte a falar assim com os animais. Ouviu? Ouviu? Se o compadre repete essa maneira de tratar os animais retiro-lhe os meus e não acaba de lavrar o seu campo, nem de fazer as sementeiras.

Mas não o João Pequeno fez ouvidos de mercador, isto é, não ouviu nem quis ouvir, e continuou na sua, repetindo com um tom de voz cada vez mais elevado:

- P’rá frente meus cinco cavalos!

Uma mecha em palha não faria maior incêndio. Compadre João Grande enfureceu-se por completo. Agarrou o compadre João Pequeno pelo pescoço e como era muito valente, levantou-o ao ar duas e três vezes, sentenciando em altos berros:

- Mais uma vez, compadre, mais uma única vez e mato o seu cavalo! Ouviu bem? Uma única vez! Ouviu? Se o compadre repete essa conversa mais uma vez, mais uma só vez, terá o seu cavalo morto.

Apesar da terrível ameaça o compadre João Pequeno não alterou a forma de se dirigir aos cavalos e repetiu com um tom de voz altíssimo:

- P’rá frente meus cinco cavalos!

Ainda não tinha pronunciado a última palavra e o João Grande já tirara do bolso uma enorme navalha que trazia sempre consigo. Enfiando-a à socapa no pescoço do cavalo do João Pequeno deitou-o por terra. O pobre animal estremeceu, estremeceu, esticou as quatro patas e ficou inerte no chão, esvaindo-se numa enorme poça de sangue O João Grande retirou-se levando consigo os quatro cavalos que havia emprestado ao compadre.

Só então o João Pequeno caiu em si. É que nunca pensara que o compadre fosse capaz de tamanha barbaridade.

- E agora? O que será de mim, sem cavalo e com a terra por semear? – Murmurava, o João Pequeno, para os seus botões.

Sentou-se no chão, inclinou a cabeça sobre o arado e pensou, cogitou, magicou, matutou… mas nada. Algum tempo depois, decidiu tirar a pele ao seu cavalo, cuidando que a poderia vender e ganhar assim algum dinheiro. Mesmo sendo pouco daria para o seu sustento e da sua avó, durante uns dias. E depois? Bem, depois havia de se amanhar, com a ajuda de Deus.

Esfolou cuidadosamente o cavalo, enterrou o corpo no campo, secou a pele e meteu-a num saco, pondo-se de imediato a caminho, na mira de a vender.

Andou, um dia, dois dias e nada. Ao anoitecer do terceiro dia já estava cheio de fome e de sono e sem dinheiro. Bateu à porta da primeira casa que viu. Uma bela mulher recebeu-o e logo se apaixonou por ele. O marido não estava em casa e a mulher para conquistar o visitante, sabendo que ele estava cheio de fome, matou um galo, depenou-o, temperou-o e meteu-o no forno a assar, acompanhado de uma bela travessa de batatas.

Inesperadamente e enquanto os dois aguardavam que o galo assasse para iniciar o bródio, chegou o marido. A mulher ficou muito aflita e não quis de forma nenhuma que o consorte se apercebesse de que tinha assado, propositadamente, um galo para aquele desconhecido intruso. Por isso mentiu-lhe, dizendo que o homem tinha acabado de chegar e que estava cheio de fome pelo que ia preparar uma refeição para os três. Sentaram-se à mesa a comer cada qual uma simples tigela de leite com pão de milho esmiolado, acompanhada de um pedaço de queijo fresco.

O João Pequeno, porém, nunca deixava longe de si o saco com a pele do cavalo, por isso, enquanto comia, colocou-o debaixo da mesa. De vez em quando suspendia a refeição, dava um pontapé no saco, ordenando de forma simuladamente provocadora:

- Cala-te!

Daí a pouco, dando novo pontapé no saco, repetia:

- Cala-te! Já ouvi. Cala-te!

Como repetisse a cena várias vezes, o dono da casa começou a intrigar-se e não se contendo, perguntou:

- O que tem o senhor aí debaixo da mesa?

- Nada, nada, absolutamente nada – esclarecia o João Pequeno, simulando grande atrapalhação.

Mas como continuasse a dar pontapés no saco e a dizer “cala-te”, o dono da casa voltou a indagar:

- Desculpe amigo! Alguma coisa estranha o senhor tem aí? Gostava de saber o que é que o amigo tem dentro desse saco e que está continuamente a mandar calar.

Que não era nada de especial, que não podia dizer, que era um segredo. Lá se foi desculpando o João Pequeno. Mas o dono da casa, cada vez mais apreensivo e curioso da casa, foi taxativo:

- O senhor está em minha casa, por isso exijo que me explique o que tem debaixo da mesa.

O João Pequeno, muito a medo, lá foi explicando, dando sempre mostras de uma cada vez maior atrapalhação:

- Bem se assim o exige… Mas eu não posso… Eu não devo… Mas… Bem… Como o senhor é o dono da casa onde tenho sido tão bem tratado, sempre lhe vou dizer…

- Ora diga, diga! – Solicitava o dono da casa, cada vez mais curioso.

- Eu tenho aqui um animal, um animal muito especial. Mas muito especial, mesmo muito especial – esclarecia timidamente o João Pequeno. - Um animal misterioso. É que adivinha todos os meus desejos e concretiza-os de imediato. Tudo o que eu desejo, discretamente, claro, ele arranja-me logo.

O dono da casa nem queria acreditar. “Um animal misterioso em minha casa!”

Muito admirado, olhava para baixo da mesa, olhava para o João Pequeno e voltava a olhar para baixo da mesa.

- Então e o que adivinhou ele agora que o senhor deseja? – perguntava cada vez mais intrigado.

- Como ele sabe que eu agora gostava era comer um galo assado em vez desta tigela de sopas, está a dizer-me para ir ao forno, pois tem lá dento um galo assado, prontinho a comer, com batatas e tudo.

- Não pode ser! – Exclamou o dono da casa.

- Lá que pode, pode. Vá o senhor ver.

Levantou-se o homem, destapou o forno e qual não foi o seu espanto ao ver lá dentro um galo assado, acompanhado com umas batatinhas muito louras e apetitosas. De olhos esbugalhados, pegou na travessa, tirou-a do forno e, incrédulo, colocou-a em cima da mesa. Uma delícia! Comeram, voltaram a comer e por fim o homem pediu com ar autoritário:

- Tem o amigo que me vender esse animal.

- O quê!? Era o que faltava! Isso é que nunca! – Retorquiu o João Pequeno.

O homem insistia, insistia e o João Pequeno fazia-se cada vez mais rogado:

- Era o que faltava! Vender um animal destes! Nem todo o dinheiro do mundo o pagaria!... Então ia eu lá vender um animal que adivinha os meus desejos e, mais do que isso, me disponibiliza as formas de os concretizar.

Porém como a insistência do homem fosse cada vez maior, o João Pequeno a pouco e pouco foi cedendo ao ponto de aceitar a proposta do homem:

- Pois muito bem! Já que insiste tanto… Mas terá que ser por muito, muito dinheiro. Um saco cheio de moedas não o pagaria. Mas como é para o senhor que me tratou tão bem…

Negócio fechado. O homem dava-lhe um saco cheio de moedas e o animal era dele.

- Mas atenção, muita atenção – esclarecia o João Pequeno. – Não se esqueça de que nunca poderá abrir o saco para ver o animal. Se o fizer ele morre imediatamente.

O homem bateu à porta de vizinhos, parentes e amigos a pedir dinheiro emprestado. Depressa arranjou o dinheiro necessário para encher o saco.

Bicho para lá, dinheiro para cá e o João Pequeno regressou a casa podre de rico, que é como quem diz, carregado de dinheiro. Tratou da avó que durante a sua ausência definhara a olhos vistos e resolveu ir a casa do compadre João Grande pedir-lhe uma rasoira para medir as moedas e assim saber quantos alqueires de dinheiro tinha.

O João Grande, que já mostrara grande arrependimento pela malvadeza que fizera ao compadre, prontificou-se de imediato para lhe emprestar não só a rasoira mas tudo aquilo que o compadre precisasse. Mas pensou com os seus botões: “ Que irá este unhas-de-fome medir com a rasoira? É que este miserável não tem terras para produzir cereais, nem quintas para cultivar frutos, numa palavra, não tem onde cair morto!” Por isso, pretendendo saber o que ele iria medir, untou o interior da rasoira com graxa de porco para que no regresso trouxesse algo agarrado que lhe permitisse saber o que o pobretanas do compadre ia medir.

Foi-se o João Pequeno e regressou no dia seguinte devolvendo a rasoira que, para espanto do João Grande, trazia uma moeda colada no fundo.

- Mau! Mau! Então compadre, sem nada de seu, sem cavalo, sem terra semeada e anda a medir dinheiro aos alqueires?

Depois, em tom ameaçador, ordenou com firmeza:

- Sempre me vais dizer onde arranjaste tanto dinheiro? Caso contrário, dou cabo de ti.

Que não, que isso é que nunca e que era um segredo que não podia revelar. Tanto insistiu João Grande e tanto negou João Pequeno que aquele enfurecendo-se agarrou-o pelo pescoço e ameaçou:

- Ou dizes ou morres.

O João Pequeno, revelando sempre uma simulada relutância, lá foi dizendo que era um segredo mas que se ele o deixasse em paz lhe contaria. O compadre suspendeu as hostilidades e ele de imediato confessou:

- Pois foi muito simples, compadre. Não se lembra de matar o meu cavalo? Esfolei-o antes de o enterrar e fui vender a pele.

- E quanto te deram por ela?

- Um saco de dinheiro. Um grande saco cheio de moedas! Era tanto, tanto que nem consegui contá-lo por isso lhe vim pedir emprestada a rasoira para o medir.

O João Grande nem esperou mais um minuto. Foi ao estábulo e duma assentada matou os seus vinte cavalos dizendo de si para si: “Ora, ora! Se com a pele de um encheste um saco, eu com a peles destes encho vinte, bem cheiinhos. Ai se encho!.”

De seguida esfolou os cavalos, enterrou-os e pôs as vinte peles num carro. Em seguida dirigiu-se para a cidade mais próxima, cujas ruas percorreu durante dias e dias, apregoando com voz muito alta:

- Quem compra peles de cavalos? Quem compra peles de cavalos?

Mas vendê-las é que não! Nem uma! Além disso, a algazarra que fazia era enorme e o cheiro das peles nauseabundo. Chegou a tal ponto que as pessoas da cidade se fartaram de o ouvir, ainda por cima acompanhado daquele cheiro horroroso. Queixaram-se dele à polícia que, de imediato o prendeu durante alguns dias, por andar a perturbar a ordem pública.

Uma vez libertado, o João Grande regressou a casa furioso jurando a pés juntos que se havia de vingar do compadre maldito que mais uma vez o tinha enganado e ainda por cima originado que tivesse sido preso.

Dirigiu-se a casa do João Pequeno, sem passar pela sua, com denodadas intenções de lhe dar uma tareia que lhe havia de servir de lição para o resto da vida. Como o João Pequeno não estivesse em casa e o João Grande não pudesse conter a fúria, deu a tareia prometida na avó do compadre. A pobre mulherzinha que já era velha e doente ficou em tal estado de debilidade que pouco depois faleceu.

Quando o João Pequeno voltou para a casa e viu a avó morta ficou sem saber o que fazer. Vingar-se no compadre não podia porque ele era muito mais forte.

Resolveu então sentar a avó muito bem sentada num carrinho de mão, pintou-lhe a cara com pó-de-arroz para que não parecesse morta e começou a andar pela rua. Passado algum tempo parou o carro em frente de um botequim e entrou para beber um copo de vinho. Pagou dois copos: bebeu um e pediu ao empregado a fineza de servir o outro à sua avó, velhinha e doente que não podia andar e que estava sentadinha num carro, ali mesmo fora da porta.

O empregado acedeu e aproximou-se da velha com o copo para que esta bebesse. Mas a velha nem sim nem sopas, não bebia nem dizia nada, pese embora o empregado insistisse entusiasticamente. Tanto insistiu e a velha tanto não aceitou que o homem perdeu a paciência dando-lhe dois valentes bofetões. A velha caiu do carro e estatelou-se no caminho, enquanto o João Pequeno de mãos na cabeça, gritava:

- Ai! Ai! Que grande desgraça! Você matou minha avó!

O homem bem lhe pedia que se calasse para não ser preso mas o João Pequeno cada vez gritava mais alto e mostrava maior aflição. Tanto gritou e tanto ameaçou de o denunciar à polícia que o homem lhe prometeu uma enorme quantidade de dinheiro se ele lhe perdoasse e não fizesse queixa do sucedido.

O João Pequeno fez-se muito rogado. Que não havia dinheiro que pagasse a sua avó. Que era a sua única companhia. Que a amava muito. Que isto e que aquilo. Mas como o homem lhe suplicasse insistentemente acabou por aceitar. Foi sepultar a avó e regressou a casa de novo carregado de dinheiro.

Como fizera da primeira vez, foi pedir a rasoira ao compadre João Grande. Este voltou a untá-la com graxa, a fim de descobrir o que o compadre ia medir novamente. Quando o João Pequeno foi devolver a rasoira, ficou colada uma moeda no fundo, a qual voltou a despertar a curiosidade e o espanto do João Grande.

- Então não se lembra de matar a minha avó? Pois bem! – Esclareceu o João Pequeno. - Vendi-a morta e deram-me um grande saco de dinheiro por ela.

- “Então e eu não tenho também uma avó? E se a matasse? Vendia-a e ficava rico como ele.”

Se bem o pensou melhor o fez. Dois tabefes na avó, abafaram-na imediatamente. Colocou-a num carro, dirigiu-se de novo à cidade e começou a gritar pelas ruas:

- Quem compra uma mulher morta? Quem compra uma mulher morta?

Nem um dia! Nem uma manhã! Mal tinha dado a primeira volta à cidade e a polícia a prendê-lo. Desta vez a prisão foi muito mais demorada.

- “Deixa estar que mas vais pagar bem pagas. Quando daqui sair dou cabo de ti.” pensava o João Grande na prisão.

Saiu da cadeia algum tempo depois dirigindo-se, furibundo, a casa do João Pequeno.

- Desta vez não me escapas! Nunca mais me vais enganar.

Agarrou-o, meteu-o num saco, amarrou o saco muito bem amarrado e partiu com a intenção de o atirar ao rio.

Porém, como era muito religioso, ao passar por uma igreja parou para rezar e pedir perdão a Deus pelo acto que ia cometer. Pousou o saco à porta da igreja e entrou para fazer as suas orações.

Sentindo-se sozinho o João Pequeno começou a gritar mas de maneira a que o compadre não o ouvisse, lá dentro:

- Eu não quero casar com a filha do rei! Eu não quero casar com a filha do rei!

E voltava a repetir:

- Eu não quero casar com a filha do rei!

Um pastor que por ali passava com um enorme rebanho de ovelhas ouviu-o, parou e perguntou:

- O que estás a dizer?

O João Pequeno explicou que estava dentro daquele saco porque queriam obrigá-lo a casar com a filha do rei, mas não ele queria nem podia porque já era casado.

Então o pastor propôs-lhe de imediato uma troca:

- Eu desamarro o saco, tu sais, eu entro para o teu lugar, voltas a amarrar o saco,  ficas com o meu rebanho e eu vou casar com a filha do rei em vez de ti.

Se bem o disse melhor o fez. O pastor soltou o saco, o João Pequeno saiu cá para fora, o pastor meteu-se dentro do saco e o João Pequeno amarrou-o, de forma que o compadre não notasse nenhuma diferença.

Quando terminou a sua oração, o João Grande voltou a por o saco às costas, caminhando em direcção ao rio. O pastor bem perguntava:

- Quando é que caso com a filha do rei?

- Não demora muito. Vais casar já! – Respondia o João Grande.

Ao chegar junto do rio, amarrou uma enorme pedra ao saco e zumba, lá foi pedra, saco e pastor, tudo para o fundo do rio.

Pelo caminho, de regresso a casa cruza-se com um enorme rebanho. Qual não foi o seu espanto ao verificar que o pastor que o conduzia era, sem tirar nem por, o compadre João Pequeno que acabara de atirar ao rio.

- Tu por aqui!? Com todas estas ovelhas!? Ainda há pouco te atirei ao rio…

- E atiraste muito bem – retorquiu o João Pequeno. – Foi um grande favor que me fizeste. Se não me tinhas atirado não teria agora todas estas ovelhas que apanhei lá bem no fundo do rio.

- E há mais ovelhas lá? – Perguntou avidamente o João Grande.

- Se há! São às centenas, aos milhares. Eu não trouxe mais porque não quis. Mas já me arrependi. Devia ter trazido muitas mais. Se me atirasses novamente era capaz de trazer outras tantas como estas.

- Essa sorte não tens tu – respondeu de imediato o João Grande. - Quem vai buscar todas as outras que lá estão, sou eu.

Voltou costas, correu para junto do rio enquanto o compadre gritava:

- Na parte mais funda, compadre! Na parte mais funda do rio é que há muitas.

O João Grande ávido de riqueza e de bens, ao chegar junto do rio, procurou a parte mais funda e de um pulo atirou-se e de lá nunca mais saiu, enquanto o João Pequeno viveu feliz por muitos e muitos anos, pastoreando as suas ovelhas.

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 09:04

NOITE DE TEMPORAL NO MAR ALTO

Terça-feira, 19.06.18

Certa vez em que viajava no Cedros, levantou-se um medonho temporal durante a viagem entre o Faial e as Flores. Logo ao sair da Horta os passageiros haviam sido avisados de que estava previsto mau tempo para a noite que se aproximava e, logo após ao sair da doca, o vento forte já começava a agravar o estado do mar, que piorava a cada momento, provocando um balancear contínuo e exagerado do pequeno navio. Ainda não tinha passado o morro de Castelo Branco e comecei a enjoar, a sentir tonturas, vómitos e enormes dificuldades em segurar-me em pé. O Cedros navegava cada vez mais açulado pelo forte vento norte e com um ranger assustador dilacerava ondas enormes e altivas, provocando grandes balanços e sucessivos solavancos, que assustavam sobretudo mulheres e crianças. Sentindo que ia vomitar e não tendo onde, desloquei-me para o salão da terceira classe na tentativa de descobrir lugar onde me recostasse e onde, à socapa, me aliviasse. O salão estava repleto de crianças a chorar, de mulheres a gritar e de homens a gemer. Quase todos vomitavam e muitos outros estavam prestes a fazê-lo. O salão exalava um cheiro insuportável e o ar lá dentro era pestilento a ponto de sufocar. Saí cá para fora, para respirar o ar puro e fresco, acompanhado dos salpicos do mar. Mas sentia-me em piores condições do que quando entrei. O mar piorava a cada momento o que agravava as condições de navegabilidade do navio que balouçava cada vez mais assustadoramente. O Faial havia desaparecido há muito no escuro da noite e no negrume do temporal. À minha volta a maior parte dos passageiros vomitava. Eu não pude evitá-lo. Uma vasca terrificante e nauseativa apoderou-se de mim e o meu corpo, trémulo e inerte, estatelou-se no convés duro e molhado. Ali fiquei por algum tempo. Salpicado com os respingos da água salgada que a proa do navio ao sulcar as ondas projectava no ar e que caíam em chuveiro sobre o convés e sobre mim, reanimei. Decidi aproximar-me mais da borda do navio e permanecer ali com o rosto exposto ao ar frio da noite e à água salgada. Assim sentia-me mais aliviado. Mas o meu corpo continuava inerte e sem forças. Um marinheiro viu-me e veio tirar-me dali, avisando que era perigoso, pois, na opinião dele, alguma vaga maior poderia molhar-me por completo ou até arrastar-me. Amparado pelo homem, sentei-me em cima de uns sacos molhados que por ali estavam mas onde continuava a ser bafejado pelo fresco da noite que me ia aliviando a náusea e a aflição. A noite continuou num suplício permanente, angustiante e desanimador.

Alta madrugada, adormeci. Quando acordei eram nove horas e o navio balouçava assustadoramente no alto mar, bem longe das Flores, à espera que tempo acalmasse para poder fazer serviço na ilha. Caso contrário, estávamos condenados a regressar ao Faial.

E já passava muito do meio-dia quando o barco, timidamente, se aproximou da ilha e a muito custo lá foi despejando passageiros e mercadorias para os frágeis batéis que o circundavam, os quais opondo-se a ondas altíssimas e assustadoras lá conseguiam transportar os passageiros para o cais do Boqueirão, de Santa Cruz.

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 08:08

OS DEZ BENEFÍCIOS DAS CAMINHADAS A PÉ

Terça-feira, 15.05.18

Já dizia Hipócrates, médico na Antiguidade: “Andar é o melhor remédio para um homem.” Na verdade o caminhar, isto é o andar a pé, combinado com um bom sono e uma dieta saudável pode ajudar-nos a evitar completamente vários problemas de saúde. Mesmo que sejam apenas 15-30 minutos de caminhada todos os dias podem melhorar drasticamente não apenas a aparência geral de uma pessoa, mas também a saúde. Se for uma hora é ótimo.

Uma boa caminhada é uma prática única que pode beneficiar significativamente todo o corpo e a própria mente. É grátis, fácil e requer pouco esforço.

Podem considerar-se os seguintes os benefícios de uma boa caminhada pé, usando um bom calçado e roupas leves.

  1. Alterações cerebrais positivas:

Como alguns estudos revelam, exercícios aeróbicos de baixo impacto, como caminhar, previnem a demência precoce, reduzem o risco de doença de Alzheimer e melhoram a saúde mental em geral. Sem mencionar a redução do stresse mental e a manutenção de um nível mais elevado de endorfinas.

  1. Visão melhorada:

Mesmo que os olhos possam parecer a última coisa relacionada com as pernas, caminhar também beneficia realmente a saúde visual. Pode até ajudar a combater o glaucoma, aliviando a pressão ocular.

  1. Prevenção de doenças cardíacas:

De acordo com a American Heart Association, andar não é menos eficaz do que correr quando se trata de prevenir doenças relacionadas com o coração ou derrames. Esta atividade ajuda a evitar problemas cardíacos, baixando os níveis de pressão arterial e o colesterol, bem como a melhorar a circulação sanguínea.

  1. Volume pulmonar superior:

Andar a pé é um exercício aeróbico que aumenta o fluxo de oxigênio na corrente sanguínea e ajuda a treinar os seus pulmões, além de eliminar toxinas e resíduos. Por causa da melhor e mais profunda respiração, alguns sintomas associados à doença pulmonar também podem ser aliviados.

  1. Efeitos benéficos no pâncreas:

Caminhar acaba sendo uma ferramenta muito mais eficaz na prevenção da diabetes do que a corrida. Pesquisas mostram que um grupo de “caminhantes” demonstrou melhoria na tolerância à glicose quase 6 vezes maior (ou seja, quão bem o açúcar no sangue é absorvido pelas células) do que o de um grupo de “corredores”, durante um período experimental de 6 meses.

  1. Melhor digestão

30 minutos de caminhada todos os dias podem não só diminuir o risco de câncer de cólon no futuro, como também ajudar a melhorar a nossa digestão, ajudando a regimentar nossos movimentos intestinais.

  1. Músculos tonificados:

A tonificação muscular e a perda de peso (em casos de pessoas com excesso de peso) também podem ser alcançados através da caminhada. A prática de andar 10.000 passos por dia pode ser considerada como um exercício real numa academia/ginásio, especialmente se fizer alguns intervalos entre a caminhada ou caminhar em subidas. Além disso, é de baixo impacto e não há tempo de recuperação, o que significa que não há músculos doloridos.

  1. Ossos e articulações mais resistentes:

A caminhada pode proporcionar mais mobilidade articular, evitar a perda de massa óssea e até ajuda a reduzir o risco de fraturas. A Arthritis Foundation recomenda caminhar moderadamente pelo menos 30 minutos por dia numa base regular para reduzir a dor nas articulações.

  1. Alívio da dor nas costas:

Caminhar pode ser um verdadeiro salva-vidas para aqueles que experimentam dores nas costas durante exercícios mais desafiadores de alto impacto. Como é uma atividade de baixo impacto, não causará mais dor ou desconforto, como correr, por exemplo. Caminhar contribui para uma melhor circulação sanguínea nas estruturas da coluna vertebral e melhora a postura e a flexibilidade, que é vital para uma coluna saudável.

  1. Uma mente mais calma e sã:

A caminhada ajudaria a sentirmo-nos menos deprimidos ou esgotados e ajuda-nos a sermos pessoas mais felizes e a melhorar o nosso humor!

 

 In Bastante Interessante.

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

tags:

publicado por picodavigia2 às 00:05

CORSÕES DE MILHEIROS E BOIS DE SABUGO

Domingo, 13.05.18

Na Fajã, no início dos anos cinquenta, não se compravam brinquedos, por duas razões muito simples: primeiro porque não havia dinheiro e, em segundo lugar, nem sequer havia brinquedos para comprar.

Assim, exceptuando um ou outro automóvel de baquelite ou alguma boneca de loiça que vinham da América muito bem embrulhados nas roupas que traziam as encomendas, éramos nós próprios, crianças de então, que construíamos, por vezes de maneira tosca e rudimentar, todos, mas mesmo todos, os nossos brinquedos, a maioria dos quais se baseava ou imitava objectos e utensílios utilizados pelos adultos na sua principal faina quotidiana – a agricultura.

Ora um dos objectos mais imitado na elaboração dos nossos brinquedos era o corsão com que brincávamos em cada dia, em cada hora e em cada minuto. Fazíamos corções minúsculos com uma rapidez, uma competência e uma agilidade fantásticas. Por vezes fazíamo-los de madeira mas, como esta era rara e mais difícil de trabalhar, utilizávamos habitualmente e como alternativa, as canas do milho. Pegávamos num milheiro ou em dois e cortávamo-los em dois pedacinhos do mesmo tamanho. Depois aguçávamos em forma de proa de navio uma das extremidades de cada um dos pequenos e delgados troncos do milho e arranjávamos cinco ou seis “fochos” a fazer de travessas que cravejávamos nos milheiros, formando assim um verdadeiro corsão em miniatura. Faltavam apenas os fueiros, tarefa também muito fácil de concretizar pois bastava apenas fixar mais uns pauzinhos na parte de cima dos milheiros e lá estava o corsão completo. Depois era só carregá-lo com lenha, incensos, ervas, casca de milho, produtos que eram sempre bem presos e amarrados com cabos de espadana e apertados com arrochos, como se de um corção de verdade se tratasse.

E o cabeçalho? Bem o cabeçalho era feito com um fio de espadana bem grosso que se prendia a uma canga, também de espadana com duas laças nas pontas onde se enfiavam dois sabugos a fazer de bois que assim ficavam verdadeiramente “encangados”. E então se conseguíssemos um sabugo vermelho!...

E assim nos entretínhamos horas e horas a brincar, tão felizes e alegres, com estes brinquedos tão simples, apesar da pouca durabilidade de que eram dotados, pois o corção desfazia por completo assim que os milheiros secavam.

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:05

A MESA POSTA NO LARGO DA CANCELINHA

Quinta-feira, 10.05.18

Antigamente e antes da construção da nova estrada entre o Porto da Fajã à Ribeira Grande, um dos caminhos mais importantes da Fajã Grande era o que ligava o cimo da Assomada aos Lavadouros. Dezenas e dezenas de pessoas, animais, corsões e alguns carros de bois por ali passavam diariamente, de manhã, ao meio dia, à tarde e até à noite, nas suas idas e vindas para as terras de cultivo do Descansadouro, para as hortas do Delgada, da Cabaceira e da Cancelinha, para as casas e festas da Cuada, para as terras de mato do Espigão, Vale Fundo e Desarraçado, para as terras de inhames da Lombega e do Moledo Grosso, para as relvas da Alagoinha e Lavadouros e até para os longínquos e pouco produtivos os currais do Curralinho e Portalinho, lá para os lados do Poço da Alagoinha. Um dos percursos mais curiosos deste longo e importante caminho era o que ficava entre o Largo de Santo António, no cruzamento que dava para a Cuada, e o início da Ladeira do Espigão, onde o caminho também se bifurcava para os lados do Desarraçado e do Vale Fundo. Era precisamente neste troço daquele caminho, logo acima da ladeira da Cabaceira e depois da canada que dava para a Cabaceira de Cima, que ficava o celebérrimo largo da Cancelinha, onde também desembocava uma estreita e sinuosa canada vinda dos lados do Pocestinho e do Pico Agudo.

O largo da Cancelinha impunha-se e destacava-se, por um lado, pelo seu excessivo tamanho e exagerada largura no contexto de um caminho onde pouco mais cabia do que uma junta de bois e, por outro, por uma lenda a que estava ligada à sua existência. Na realidade era um largo enorme, coberto por árvores altíssimas que lhe davam uma sombra austera, esconsa e descomunal. Não ficasse por ali uma terra do Guarda Furtado, ou seja aquelas que tinham incensos graúdos, faias enormes e criptomérias altíssimas dado que a lenha nunca era cortada pois o dono dela não precisava como não necessitava de incensos para o gado e os seus procuradores não o podiam fazer. Esse arvoredo ao redor do largo dava-lhe um aspecto assombroso, taciturno, sinistro, tétrico e nefasto. Talvez daí ter sido criada uma lenda segundo a qual quem por ali passasse ao lusco-fusco via uma mesa posta com toda a espécie de comida em cima. No entanto ninguém tentava aproximar-se dela pois à medida que o fazia a mesa ia-se afastando sem que quem quer que fosse a agarrasse ou dela retirasse qualquer vitualha das muitas existentes sobre a mesma.

Passei lá muitas vezes de madrugada, à noite, acompanhado e por vezes sozinho mas na realidade nunca vi a tal mesa, nem posta nem por pôr. Não porque ela lá não estivesse, ou melhor, lá não aparecesse, mas porque eu ao passar no largo quando sozinho, ao ir levar as vacas aos Lavadouros, ou a ir buscá-las para o palheiro, cheio de medo, fechava os olhos bem fechadas e largava em tão grande carreira como em nenhum outro sítio por onde habitualmente passava. Como conhecia o caminho de cor e salteado safava-me sempre muito bem, não esbarrando nas paredes nem caindo em algum barranco.

Mas confesso que quando se abriu a nova estrada que desviou o trajecto para os Lavadouros do Largo da Cancelinha foi um grande alívio para mim.

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:05

UM SONETO DE ROBERTO DE MESQUITA

Quarta-feira, 09.05.18

 

Desenrola-se a noite aveludada,

O Ocidente cerrou as suas portas.

Eis a hora em que tu, alma excitada,

Ao país das quimeras te transportas.

 

Erro na praia. Paz ilimitada.

As pupilas do céu fitam-me absortas.

A alma do mar na noite constelada

Sente saudades das nereides mortas.

 

Como um eflúvio místico, erra agora

Uma emoção anónima no ar

Da balsâmica noite de veludo.

 

É um vago sentir que se evapora

Das cousas que me cercam a sonhar,

Do espírito incógnito de tudo…

 

in “Nocturno

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:05

VIAJANDO COM FERREIRA DE CASTRO

Terça-feira, 08.05.18

O Padre José Soares, por motivos de doença, nos tempos em que o Carvalho Araújo ainda escalava as ilhas dos Açores e da Madeira, deslocava-se com alguma frequência a Lisboa, a bordo daquele paquete.

Numa dessas viagens viajou juntamente com Ferreira de Castro, que se deslocava para a ilha da Madeira, em férias. O escritor foi-lhe apresentado por um amigo comum, o médico de bordo, pessoa extremamente culta, organizador e dinamizador de muitos encontros, reuniões e tertúlias a bordo do velho navio, congregando assim poetas, escritores e homens da cultura que frequentemente viajavam a bordo do Carvalho. A partir daí, a conversa Ferreira de Castro e José Soares terá sido diária, longa e prolongada, sendo o tema principal da mesma não apenas a obra literária do escritor, que o padre conhecia, de fio a pavio, mas também muitas e muitas outras obras e vultos da literatura portuguesa e universal

Ao chegar à Madeira e antes de se despedirem, Ferreira de Castro manifestou o seu espanto e satisfação por encontrar um padre açoriano tão culto e tão profundamente conhecedor da sua obra e da literatura universal, congratulando-se por isso e elogiando o clero açoriano em geral, considerando que, neste campo e a julgar pela amostra que ali tinha, se sobrepunha e superava de longe o clero do continente que, na opinião do escritor, era, culturalmente, muito pobre e ignorante.

Resposta imediata e pronta do Padre José Soares:

- Mas saiba Vossa Excelência que está, tão somente, a falar com um humilde e simples “padre de fazer enterros”, pároco duma das mais pequenas, retirada e longínqua freguesia dos Açores, a Fajã Grande das Flores. Por aqui imagine, então, Vossa Excelência a cultura e sabedoria que terão os padres das grandes vilas e cidades açorianas e, sobretudo, os doutores e professores do Seminário…

E com esta se foi Ferreira de Castro passar as suas férias à Madeira.

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:08

BENEFÍCIOS DA ÁGUA PARA O NOSSO ORGANISMO

Segunda-feira, 07.05.18

Entre outros benefícios, a água:

1 – Regula o trânsito intestinal;

2 - Contribui para o bom funcionamento dos rins;

3 - Ajuda no combate à celulite e estrias;

4 - Tem uma ação de prevenção no que diz respeito ao envelhecimento da pele, ajudando a manter a elasticidade e tonicidade;

5 – Ajuda no controlo do apetite e peso.

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:05

OS POLÍTICOS

Domingo, 06.05.18

 

"Os políticos devem ganhar mais para não cair em tentações."

 

Ana Gomes, PS  (ao CMTV 5-5-18)

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:05

OLHOS D'ÁGUA

Sábado, 05.05.18

Olhos D’Água é uma Praia Fluvial situada junto à nascente do Rio Alviela, na antiga freguesia de Loureiro, concelho de Alcanena, no distrito de Santarém.

O percurso interpretativo desta praia desenvolve-se desde a nascente do Alviela ao sumidouro da ribeira dos Amiais. A ribeira dos Amiais, um dos raros cursos de água superficiais do maciço calcário estremenho, forma estruturas geológicas de rara beleza ao atravessar os calcários do Jurássico Médio. A sua beleza geológica rodeada pela vegetação mediterrânica essencialmente arbustiva torna este percurso um dos mais atrativos da região. Na lapa da Canada, a ribeira dos Amiais encontrou, em profundidade e ao longo de cerca de 200 metros, o seu trajeto preferencial. Mais a jusante, a natureza criou uma importante estrutura cársica natural, a janela cársica, que nos deixa observar a ribeira a circular em profundidade e vários níveis de grutas calcárias formadas ao longo de milhões de anos. Estas grutas são agora um importante abrigo de maternidade de uma colónia de morcegos que traz ao Alviela, todos os anos, mais de 5000 indivíduos. Antes de desaguar no rio Alviela e já a circular novamente à superfície, a ribeira dos Amiais produziu um canhão flúvio-cársico, estreito, encaixado na paisagem, de vertentes íngremes, que não deixa ninguém indiferente. No início deste canhão encontra-se o poço escuro, uma cavidade cársica protegida por um dique de betão que, na época chuvosa, expele água com uma intensidade que deixa antever a importância do maciço como reservatório de água doce subterrânea. E a nascente do Alviela, uma das seis nascentes cársicas permanentes do maciço, é a que tem o maior caudal, já abasteceu a cidade de Lisboa e dá origem ao rio Alviela que, logo nos primeiros metros do seu trajeto, permite-nos ter a bela Praia Fluvial dos Olhos d´Água do Alviela.

Locais a visitar: a nascente do Rio Alviela, o Poço Escuro, o Canhão fluvio-cársico da Ribeira dos Amiais, o Sumidouro da mesma ribeira, a Janela Cársica e a Ressurgência da Ribeira dos Amiais.

A praia possui um restaurante e num raio de sete km existem outros entre os quais - O Peregrino (Louriceira); Tertúlia do Gaivoto (Louriceira); Adega Miceu (Espinheiro); Cantinho do Tóino (Alcanena); Central (Vila Moreira); Cervejaria Calado (Casais da Moreta); Frazão (Malhou); Leamad (Espinheiro); Nutriself (Intermarché - Alcanena); O Atlético (Alcanena); O Caneiros (Alcanena); O Caracol (Covão do Feto); O Facho (Alcanena); O Mal Cozinhado (Monsanto); O Malho (Malhou); O Nosso Cantinho (Alcanena); O Patanisca (Raposeira); Penedas (Malhou); Pizza Buona (Alcanena); Retiro dos Pacatos (Malhou), etc.

No que a alojamento diz respeito, pode dormir-se, no local, no Centro Ciência Viva do Alviela – Alojamento em Camarata ou no Parque de Campismo da Praia Fluvial dos Olhos D’Água – Campismo e Bungalows. Num raio de 15km existem vários hoéis: Hotel Eurosol (Alcanena); Residencial Planeta (Alcanena); A Coelheira (Moitas Venda); Residencial Glória (Moitas Venda); Estaminé (Minde); Parreirais dos Moquinhos (Minde); Alojamento Local – Praça Velha (Minde).

Fonte, Net

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:05

MARIA

Quinta-feira, 03.05.18

(POEMA DE ANTERO DE QUENTAL)

 

Nova luz, que me rasga dentro d´alma,

Dum desejo melhor me veste a vida…

Outra fada celeste agora leva

Minha débil ventura adormecida.

 

Não sei que novos horizontes vejo…

Que pura e grande luz inunda a esfera…

Quem, nuvens deste inverno, nesse espaço,

Em flores vos mudou de primavera?!

 

Se as noites nos enviam mais segredos,

Ao sacudir seus vaporosos mantos,

Se desprendem do seio mais suspiros…

É que dizem teu nome nos seus cantos.

 

Nem eu sei se houve amor até este dia…

Nem eu sei se dormi até esta hora…

Mas, quando me roçou o teu vestido,

Abri o meu olhar – acordo agora!

 

Antero de Quental, Maria, (versão adaptada)

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:05

ACORDAR NA RUA DO MUNDO

Quarta-feira, 02.05.18

 

(POEMA DE LUISA NETO JORGE)

 

madrugada, passos soltos de gente que saiu
com destino certo e sem destino aos tombos
no meu quarto cai o som depois
a luz. ninguém sabe o que vai
por esse mundo. que dia é hoje?
soa o sino sólido as horas. os pombos
alisam as penas, no meu quarto cai o pó.

um cano rebentou junto ao passeio.
um pombo morto foi na enxurrada
junto com as folhas dum jornal já lido.
impera o declive
um carro foi-se abaixo
portas duplas fecham
no ovo do sono a nossa gema.

sirenes e buzinas, ainda ninguém via satélite
sabe ao certo o que aconteceu, estragou-se o alarme
da joalharia, os lençóis na corda
abanam os prédios, pombos debicam

o azul dos azulejos, assoma à janela
quem acordou. o alarme não pára o sangue
desavém-se. não veio via satélite a querida imagem o vídeo
não gravou

e duma varanda um pingo cai

de um vaso salpicando o fato do bancário

Luiza Neto Jorge, in ‘A Lume’

 

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 00:05

O SONO DO JOÃO, DE ANTÓNIO NOBRE

Terça-feira, 01.05.18

O João dorme…(Ó Maria,

dize áquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar…)

O João dorme… Que regalo!
Deixá-lo dormir, deixá-lo!
Calai-vos, águas do moinho!
Ó Mar! fala mais baixinho…
E tu Mãe! E tu Maria!
Pede àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João acordar…

O João dorme, o inocente!
Dorme, dorme eternamente,
Teu calmo sono profundo!
Não acordes para o Mundo,
Pode levar-te a maré:
Tu mal sabes o que isto é…

Ó Mãe! canta-lhe uma canção,
os versos do teu irmão:
«Na Vida que a Dor povoa,
Há só uma coisa boa,
Que é dormir, dormir, dormir…
Tudo vai sem se sentir.»

Deixa-o dormir, até ser
Um velhinho… até morrer!

E tu vê-lo-ás crescendo
A teu lado (estou-o vendo
João! que rapaz tão lindo!)
Mas sempre, sempre dormindo…
Depois, um dia virá
Que (dormindo) passará
Do berço, onde agora dorme,
Para outro, grande, enorme:
E as pombas que eram maiores
Que João… ficarão menores!

Mas para isso, Ó Maria
Dize àquela cotovia
Que fale mais devagar:
Não vá o João, acordar…

E os anos irão passando.
Depois, já velhinho, quando
(Serás velhinha também)
Perder a cor que, hoje, tem
Perder as cores vermelhas
E for cheiinho de engelhas,
Morrerá sem o sentir,
Isto é, deixa de dormir:
Acorda, e regressa ao seio
De Deus, que é donde ele veio…

Mas para isso, ó Maria!
Pede àquela cotovia
Que fale mais devagar:

Não vá o João acordar…

counter

contador de visitas on line online associações
contador de visitas

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 09:48





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

VISITANTES

free web counter

calendário

Agosto 2018

D S T Q Q S S
1234
567891011
12131415161718
19202122232425
262728293031

GEOCLOCK


contadores de visitas

GEOWEATHER


contador de visitas blog

GEOCOUNTER


contador de visitas

GEOUSER


contador de visitas

GEOCHAT


contador de visitas