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O REGRESSO DA MARIANA

Segunda-feira, 15.10.18

Era uma vez uma casa pobre, humilde, modesta e muito antiga. As paredes eram de um castanho amarelado, de tal maneira despidas de cal que deixavam ver os pedacinhos de xisto com que haviam sido construídas e que, semelhantes a tabuinhas, se sobrepunham e entrelaçavam uns nos outros, em camadas simétricas e rendilhadas que iam do chão ao telhado e se prolongavam ao longo dos muros e paredes circundantes. Tinha um aspecto muito tosco e rústico, com portadas de madeira carcomida pelo tempo, sem grandes vidraças e com dois andares. No rés-do-chão ficavam as lojas de arrumos, uma adega muito pequenina, a cozinha e a retrete. O primeiro piso, a que se tinha acesso apenas por uns degraus exteriores também de xisto e ladeados por um corrimão de ferro enferrujado, era constituído por uma sala e dois quartos.

Nessa casa morava Mariana, com os pais e um irmão mais novo, o Zezito.

A casa ficava perto de um rio que se chamava Ave. Era um rio de águas límpidas, cristalinas e azuladas, repletas de uma imensidade de barbos, carpas, bogas e outros pequenos peixes que se movimentavam em loucas correrias, em constantes rodopios e em simulados ziguezagues. O rio deslizava calma e suavemente, atravessando uma enorme planície onde, de um lado e outro das suas margens, povoadas de azenhas e moinhos, se acomodavam terrenos divididos por beiradas de amieiros, choupos, castanheiros e carvalhos, mas muito férteis e produtivos. No Inverno, enquanto aguardavam as sementeiras, tinham um aspecto avermelhado e escurecido, mas na Primavera revestiam-se com o verde dos milheirais, dos legumes e das vides e no Verão começavam a amarelecer até alourarem por completo no Outono. Num desses campos, um pouco mais distante do rio, ficava a casa da Mariana. Era nele que os pais trabalhavam de sol a sol porque era dele que tiravam tudo o que era necessário para o seu sustento – milho, legumes, batatas e vinho. Em Fevereiro e Março, quando os dias começavam a tornar-se maiores e mais quentes, os pais, jungindo o Lavrado à charrua, abriam e resvalavam a terra ainda húmida das chuvas invernais e deixavam ficar as leivas e os torrões a secarem e como que a aquecerem-se ao Sol, durante alguns dias. Depois desfaziam-nos e transformavam-nos em terra fina que alisavam umas vezes com enxadas outras com uma grade puxada pelo Lavrado, transformando o campo num enorme e fofo tapete acastanhado. De seguida o pai voltava a atrelar o boi ao arado e traçava regos paralelos e simétricos de uma extremidade à outra do campo. A mãe ia atrás e, retirando punhados de milho de uma cesta que levava enfiada no braço, atirava os grãos com tanta agilidade e perícia que eles caiam direitinhos no rego, muito bem alinhados uns à frente dos outros, como se fossem soldadinhos numa parada militar. Cada rego fechava-se com o abrir do seguinte, tapando assim os grãozinhos que ali ficavam a germinar durante alguns dias. Por fim a terra era de novo gradeada e alisada para que os grãos ficassem todos muito bem escondidinhos e assim germinassem mais facilmente, com a ajuda do Sol e da chuva dos dias seguintes. Não tardava muito e era um regalo ver o milho a crescer, a crescer, muito verdinho e espevitado. Nas extremidades do campo e nos lugares mais abrigados pelos bardos das beiradas ficavam pequenos canteiros de batatas, feijão, ervilhas e melões e nos mimos crescia a pranta, a couve e o cebolo. Em Abril e Maio, quando o milho ainda estava miudinho, os pais sachavam e mondavam o campo de lés a lés, retirando as ervas daninhas e os pés de milho mais bastos para que os outros crescessem à vontade. Nos dias seguintes o campo transformava-se num enorme tapete de folhas verdes, caneladas e pontiagudas, ladeadas pelos canteiros onde floresciam couves repolhudas e as ervilhas e os feijoeiros começavam a trepar pelas estacas de cana que eram espetadas aqui e além. Os milheiros cresciam de dia para dia, as suas folhas entrelaçavam-se umas nas outras e balançavam como ondas ao sabor das brisas matinais e os troncos, canelados e esguios, tornavam-se altíssimos, enfeitando-se lá no cimo de umas flores estranhas que cobriam o campo com um manto esbranquiçado e fofo. Algum tempo depois nos troncos enrijecidos começavam a formar-se espiguinhas cabeludas que iam crescendo e alourando ao Sol do estio. Em Setembro, as espigas amadureciam por completo e procedia-se à apanha. A mãe arrepelava dos troncos já muito amarelados e envelhecidos as espigas maduras e recolhia-as em enormes cestos, enquanto o pai os ia acarretando para a loja de arrumos, ao mesmo tempo que cortava as folhas e as guardava para alimento do Lavrado. Algum tempo depois marcava-se o dia da desfolhada. Mariana esperava ansiosamente essa noite de sonho e de magia.

O Zezito ainda era muito novo e Mariana desde pequenina, sempre que a mãe a dispensava de tomar conta do irmão, habituara-se a brincar sozinha. Por isso aguardava com grande ansiedade e expectativa os dias da desfolhada, da vindima, da matança e alguns outros que ela considerava diferentes sobretudo porque tinha sempre alguém com quem brincar. Para ajudar os pais na desfolhada vinham muitos vizinhos e amigos, os tios e os primos de Covelas, uns parentes já mais afastados de Alvarelhos e um casal de Laundos. Normalmente o pai escolhia uma noite de Lua Cheia. Os adultos sentavam-se em círculo, na pequena eira, à volta do amontoado de espigas e, enquanto lhes iam arrancando o folhedo, contavam histórias e anedotas ou então cantavam acompanhados pelo acordeão do amigo de Laundos. De vez em quando a mãe levantava-se e ia buscar uma malga cheia de vinho muito vermelho e perfumado, a borbulhar e a escorrer pelas bordas brancas, que todos iam saboreando à vez. Depois de vazia a mãe voltava a enchê-la outras tantas vezes, quantas eram necessárias para que todos bebessem e alguns voltassem a beber. Simultaneamente Mariana e a prima iam oferecendo, em pequenas cestinhas forradas com panos de linho rendado, pedacinhos de broa e presunto espetados em palitos. Depois todos voltavam ao trabalho. De repente e com enorme alarido alguém gritava “Milho-Rei! Milho-Rei!”. A tarefa era suspensa de imediato e fazia-se uma grande festa de regozijo. Mariana e as outras crianças vinham logo sentar-se ao redor do amontoado do milho. É que o feliz contemplado com a espiga de grãos vermelhos teria que abraçar todos os presentes. A isso ela nunca faltava. No fim servia-se a merenda: boroa, presunto, salpicão, chouriças, azeitonas e vinho, enquanto o acordeão continuava a emitir sons alegres e harmoniosos. Então os homens, as mulheres e crianças formavam pares e dançavam pela noite dentro.

A vindima era feita no mês de Outubro. É verdade que não era uma folia tão animada e divertida como a desfolhada. As uvas não eram muitas mas o trabalho era árduo e pesado. O pai passara meses e meses a podar os bacelos, a enxertar e a amarrar as videiras a estacas de pedra granítica e aos amieiros e carvalhos das beiradas que circundavam o campo onde o milho crescia a olhos vistos. Quando as vides já cobriam os bardos de um verde muito escuro e os cachos começavam a desabrochar, suspendendo-se graciosamente das latadas ou pendurando-se desordenadamente nas beiradas, o pai passava horas de máquina a tiracolo a sulfatá-las uma a uma. Depois, já amadurecidas, e muito apetitosas, as uvas eram colhidas e levadas em cestos para o lagar, onde eram esmagadas. Durante dias e dias exalava do mosto um cheiro perfumado, acre e doce que se propagava por toda a casa.

O dia que Mariana mais adorava era o da matança. Nesse dia nem ia à escola. A mãe preparava tudo com muita antecedência. A enorme salgadeira, os alguidares, os caldeirões e as panelas, tudo era muito bem limpo e lavado. Na véspera Mariana ajudava a descascar uma enorme quantidade de alhos, a arranjar os temperos e a preparar as toalhas branquinhas enquanto o pai aprontava o colmo para a chamusca.

Nesse dia, a casa não se enchia de gente como na desfolhada, mas a azáfama era muito diferente e mais divertida do que a da vindima. Não era costume vir nem os vizinhos nem os amigos, porque todos tinham que preparar as suas matanças nesses dias. Apenas vinham os tios e os primos de Covelas e, por vezes, os avós das Caldas com a madrinha Clotilde. De manhã cedo, quando o dia ainda não clareara de todo, chegava o Senhor Joaquim, o matador que o pai contratava todos os anos. Vinha de Valdeirigo e trazia umas facas enormes. Juntamente com o pai e o tio entravam nos aidos, agarravam o cevado, amarravam-lhe as pernas e punham-no em cima duma pequena mesa que se guardava de ano para ano. Mariana de longe, apreensiva e cheia de medo, tapava os ouvidos com ambas as mãos para não ouvir os gritos de aflição que o porco emitia ao ser apanhado. A mãe, de avental novo ao peito, aproximava um alguidar do pescoço do cevado e enchia-o com o sangue que se esvaía a jorros do buraco que lhe havia feito a faca certeira do senhor Joaquim. De seguida dividia o sangue em duas partes: uma para coagular e fazer o sarrabulho para a ceia, enquanto à outra metade juntava umas gotas de vinagre e deitava-a num alguidar, para mais tarde a misturar aos bocadinhos da carne da barriga com que se haviam de encher as chouriças. Com a palha do colmo retirada do centeio e transformada em espécies de vassouras, a que ateavam fogo, os homens chamuscavam o porco de uma ponta à outra. De seguida com baldes de água e sabão azul o suíno era lavado e esfregado com pedras e ramos de carqueja até ficar totalmente branquinho e limpo que era um regalo. Depois pegavam-lhe e levavam-no em ombros para a loja de arrumos, onde era amarado de pernas para o ar, aos tirantes que seguravam o soalho do piso superior. A mãe limpava-o todo com um pano de linho, preparado exclusivamente para este fim e que depois de lavado era novamente guardado para o ano seguinte. O matador, com um enorme facalhão, abria-o de cima para baixo e retirava-lhe o fígado, os bofes, o coração, as tripas e a bexiga. As tripas eram embrulhadas em panos, de maneira a não secarem, a fim de que mais tarde fossem muito bem lavadas no rio. O porco ficava aberto e com umas canas a esticar-lhe o corpo. Por cima das patas e da barriga o pai colocava-lhe o redanho como que a simular um manto. E assim ficava até ao dia seguinte, escorrendo em fio um líquido avermelhado e sujo, recolhido numa bacia que lhe era colocada debaixo da cabeça. A mãe já havia preparado e guisado os miúdos com pedacinhos de batata e, com o fígado, fizera umas deliciosas pataniscas de cebolada. É que o dia começara cedo e a fome apertava. De tarde Mariana acompanhava as tias que iam ao rio lavar as tripas muito bem lavadinhas enquanto a mãe ficava em casa a preparar o unto para fazer o pingue. À noite, todos voltavam a sentar-se à mesa onde as papas de sarrabulho ferviam no velho caldeirão de ferro e exalavam um cheirinho a noz moscada e a cominhos que enchia a casa e, juntamente com o fumo, saía pelos telhados e se propagava pela vizinhança. No dia seguinte voltava o senhor Joaquim com as suas facas para desmanchar o porco. Tirava o redanho para que a mãe o derretesse. Depois extraía a carne da barriga destinada aos rojões, da qual separava as aparas para as chouriças. De seguida, cortava-lhe a cabeça, preparava as orelheiras e dividia o corpo em duas partes, das quais tirava os coelhos. Era com estes que a mãe fazia os melhores salpicões. Depois cortava as pás, tirava as costelas e as tiras da barriga que seriam guardadas na enorme salgadeira. Finalmente cortava os presuntos, que eram colocados juntamente com os salpicões num molho feito alho, sal, vinho e louro e onde permaneciam durante alguns dias, antes de irem para o fumeiro. De modo semelhante eram temperados os ingredientes com que mais tarde seriam feitas as chouriças. Seguiam-se dias e dias de fumeiro, com a queima de rama verde, para o tornar mais lento e demorado. Depois os presuntos eram passados por vinha-d’alhos e postos em sal. Mariana ajudava a mãe em todas estas tarefas e com ela partilhava uma enorme tristeza quando algum presunto, ou porque o tempo estivesse mais quente ou porque não tivesse curado bem, se deteriorava.

Para além destes dias verdadeiramente diferentes para Mariana os restantes eram de uma verdadeira monotonia. Levantava-se cedo e seguia para a escola, onde fazia ditados, resolvia problemas, estudava os rios e as serras, os reis e as batalhas, os vertebrados e invertebrados. Na hora de leitura a senhora professora juntava-as à volta da secretária, por trás da qual ficavam, ladeando um crucifixo pendurado na parede, as fotografias de Craveiro Lopes e Salazar, para lerem à vez e contarem histórias. Terminadas as aulas regressava a casa, ajudava os pais, tomava conta do Zezito e fazia as cópias e as contas que a Dona Ermelinda mandava. Apenas os domingos e os dias de festa em que os pais não trabalhavam no campo eram diferentes.

A festa que Mariana mais adorava era o Natal. Todos os anos faziam, na sala, um enorme presépio com as figurinhas de barro que a mãe trouxera das Caldas: o Menino Jesus, Maria, José, os três Reis Magos, os anjos, os pastorinhos e muitos aldeões que circulavam à volta da gruta, por caminhos cobertos com serrim de madeira e ladeados por casinhas também de barro e por leivas de musgo a imitar os campos onde pastavam as ovelhitas. Mas o que Mariana mais ansiava era a noite de Natal. Nessa noite a ceia era na sala e a mãe enchia a mesa de iguarias deliciosas que aprendera a fazer com a avó da Trofa: rabanadas, mexidos, aletria e sopas secas, que enchiam a casa de um agradável cheirinho a canela. Terminada a ceia partiam, às vezes com o Zezito já a dormir, para a missa do galo. O pai ficava cá fora com os homens, enquanto ela e a mãe entravam na igreja cheia de vultos negros, de tossidelas, de rouquidões, de arrastar de cadeiras, de bichanar de orações e de cheiro a velas a arder. Sentavam-se e esperavam em silêncio ou rezavam baixinho, até que o sacristão, envergando uma opa vermelha, vinha tocar uma enorme campainha. Os homens que aguardavam lá fora entravam para o coro e para os lugares do fundo enchendo a igreja por completo. Toda a gente se levantava e fazia-se um enorme silêncio. O pároco saia da sacristia todo vestido de branco e, segurando na mão o cálice devidamente coberto com um véu esbranquiçado, dirigia-se para o altar-mor. Tirava o barrete negro de três bicos, fazia uma enorme genuflexão e bichanava as primeiras orações em latim, às quais apenas o sacristão respondia. O povo, de joelhos batia com a mão direita no peito e inclinava a cabeça. Pouco depois, o padre aproximava-se do centro do altar, voltava-se para o sacrário e erguendo os braços, entoava em voz muito alta:

- “Glo-ó-ó-ó-óó-ria in excelsis-sis De-e-e-o”.

O sacristão de imediato badalava prolongadamente a campainha enquanto os sinos repicavam e a igreja se enchia de luz, de cor e de alegria. A missa continuava, entre preces, louvores e orações. O povo levantava-se, sentava-se, ajoelhava e tornava a sentar-se, consoante as indicações da campainha.

No fim, enquanto se entoavam cânticos de Natal, o pároco dirigia-se para o presépio que ficava do lado direito da capela-mor, por baixo da imagem de S. Martinho. Recebendo o turíbulo fumegante, balouçava-o diante das enormes figuras de Maria, José e do Menino, enchendo o templo de fumo e de cheiro a incenso. De seguida tomava o Menino nas mãos e colocando-se junto à grade que separava a capela-mor do cruzeiro, dava-o a beijar aos fiéis. Mariana, juntamente com as outras crianças, incorporava-se nos primeiros lugares da longa fila que se formava à espera de vez para beijar o Menino Jesus e para depositar, na cestinha que o sacristão mantinha na mão, os vinte centavos que a mãe lhe dera na véspera.

Em Janeiro havia a festa de S. Sebastião. Em Abril a da Senhora do Desterro e a Páscoa. No mês seguinte, o Espírito Santo. Em Agosto chegava finalmente a maior festa de todas – a Senhora das Dores. Mariana adorava-a. A avó Leocádia, prevendo alguns problemas a quando do seu nascimento, prometera que, logo que a menina andasse pelos seus pezinhos, havia de ir todos os anos, na procissão, vestida de anjinho. A mãe esmerava-se na preparação das roupitas. Faltasse tudo lá em casa, mas promessa era promessa e, por isso, a roupa que a menina vestiria para acompanhar a Senhora das Dores nunca havia de faltar. No dia da festa, Mariana seguia cedo com os pais, para o largo fronteiro à capela. Terminada a missa iniciava-se uma gigantesca procissão, onde se incorporavam dezenas e dezenas de anjinhos, as irmandades e os dez andores representantes das aldeias de Bougado.

Finalmente, em Setembro, havia uma outra festa a que os pais de Mariana também nunca faltavam – a romaria de Santa Eufémia, em Alvarelhos.

Os restantes domingos, da parte da tarde, eram de trabalho. Os pais, no entanto, reservavam para essas tardes os trabalhos mais leves mas considerados necessários. O pai dava feno e erva ao Lavrado, ordenhava a cabra e apanhava os legumes enquanto a mãe tratava do porco e dava uma barrela à casa.

Este trabalho contínuo, persistente e sem futuro começava, por vezes, a indignar o pai da Mariana. Aquilo era uma vida miserável. Trabalhava-se, trabalhava-se para ter apenas o sustento de cada dia. Por várias vezes ensaiara tentativas, todas elas frustradas, de arranjar emprego nalgumas fábricas de serração de madeiras, tecelagem, chapéus, tecidos ou de maceração do linho, que desde há alguns anos começaram a surgir ali na zona de Bougado. Mas não tivera sorte, nunca fora admitido. É verdade que já lhe tinham oferecido emprego nas Ferragens Melo e Sousa, no Porto, mas recusara-o. Muitos homens de S Martinho e de outras localidades ao redor deslocavam-se todos os dias para o Porto, para trabalhar em fábricas ou na construção civil. A escassez de transportes, no entanto, obrigava-os a fazer a viagem de bicicleta, demorando mais de três horas em viagens. Assim ficava totalmente impossibilitado de continuar a trabalhar o campo e a Teresa sozinha e com as crianças muito pequeninas não podia atender a tudo. Além disso os ordenados quer nas fábricas quer na construção eram muito baixos.

Mas a ideia de abandonar a agricultura e mudar de vida nunca saiu por completo do pensamento do pai da Mariana. Muitas vezes, à noite juntamente com a mulher, quando as crianças já dormiam, lamentava aquela vida árdua e cansativa, sobretudo para ela. Não fora para aquilo que a tirara de casa dos pais, da Tornada. E os filhos? Que futuro lhes preparava? Continuarem ali, agarrados à rabiça do arado ou ao cabo da enxada para ter apenas um caldo de couves e um bocado de boroa ao fim do dia? Não, não podia ser assim. Tinham que pensar em mudar de vida, em construir um futuro melhor sobretudo para os filhos. Para isso tinham que se aventurar.

A mulher bem o tentava demover lembrando que não estava nada incomodada com aquela vida. Casara com ele por amor e era por amor que tinha deixado os seus pais e tinha saído das Caldas. Além disso estava habituada à vida do campo. Também na Tornada, desde que terminara a quarta classe, sempre se habituara ao trabalho agrícola, ajudando os pais nas lides agrárias e que a mãe sempre lhe lembrava que não nascera para princesa.

O Libório, porém, não se conformava e não lhe saía da cabeça a ideia de que um dia havia mudar de vida. Esse dia não tardou.

Foi na festa de Santa Eufémia, em Alvarelhos, que o pai de Mariana encontrou um amigalhaço do tempo da tropa que havia emigrado para a França e agora estava em Portugal a passar uns dias. Conversa daqui, conversa de acolá e o sonho de abandonar a vida agrícola tornou-se mais real do que nunca. A vida em Portugal não melhorava, o país não progredia e a agravar a situação o regime de então acabara de iniciar uma guerra em Angola. Dizia-se que também seriam mobilizados os que tinham feito tropa nos últimos anos, mesmo já tendo passado à disponibilidade.

Assim, emigrar para França transformou-se numa decisão irreversível.

A mulher nem queria acreditar e atirava-lhe à cara com inúmeras dificuldades, repetindo constantemente:

- Tu endoideceste por completo, homem de Deus!

Não, não endoidecera. Afinal já estava tudo planeado. É verdade que não tinha quem lhe fizesse carta chamada, mas iria como muitos outros tinham ido – clandestino. A diferença é que ela e os pequenos também iam, apesar dos passadores não quererem levar mulheres, nem muito menos crianças. É que a fuga era muito perigosa.

Foi um tipo de Macedo de Cavaleiros que contactou o pai da Mariana através de um primo de Guidões, para acertar tudo. Era preciso que ninguém soubesse ou desconfiasse de nada. E foi lá, em Guidões, em casa do primo que encontrou o homem. Álvaro Ramalho, assim se chamava o contrabandista, no início recusou levar a mulher e as crianças. Aos poucos foi cedendo. Era uma questão de preço. Mas garantiu-lhe que era sério e honrava os compromissos. O que se combinasse ali seria escrupulosamente cumprido. Oitenta contos: trinta por cada um dos adultos e vinte pelas crianças mas estas, sempre que seguissem de caro ou camioneta, seriam levadas ao colo. Claro que tudo o que lhes acontecesse era da responsabilidade dos pais.

O pai de Mariana regressou sem firmar contrato. O preço era altíssimo. Era-lhe de todo impossível arranjar aquele dinheiro. Um segundo encontro e o Ramalho cedeu:

- Vinte em notas e quarenta em bens. Aceitamos casas, terras… Mas temos que ser nós a avaliá-los – sentenciou o homem, apertando-lhe a mão – e tens emprego garantido em Clermont-Ferrand. Ao chegares lá um tipo chamado Cardoso vai procurar-te, arranjar-te trabalho e dizer-te como deves pagar os restantes vinte mil. Não devem levar muita bagagem. Para além de ser comprometedor é impossível transportá-la. Levem apenas o indispensável.

A mãe de Mariana teve muitas dificuldades em aceitar.

- Vais vender a casa e o campo!? E se temos que voltar para trás? O que vai ser de nós e dos pequenos? Nem ao menos posso avisar meus pais? – perguntava ansiosa.

- De forma nenhuma. Ninguém, absolutamente ninguém pode saber, a não ser o primo de Guidões. E não te esqueças – lembrava – à Mariana e a todas as pessoas deves dizer que vamos às Caldas, a casa dos teus pais.

- E o Lavrado? E a cabra? E as galinhas e o porco?

- O boi está vendido. A casa e o campo ficam ao cuidado de meu primo. Só depois de receber a notícia de que já estamos seguros e em França ele venderá o que puder e fará a entrega da casa e do campo ao passador.

Foi na véspera dos anos de Mariana que ela, os pais e o irmão partiram de S. Martinho de Bougado com destino à França. Para os vizinhos iam às Caldas, a casa dos avós maternos, passar o aniversário da menina. Mas no Porto não foi fácil convencer Mariana de que iam para as Caldas por outro caminho.

Quando chegaram a Bragança um tipo de aspecto esquisito aproximou-se, recebeu-os e ofereceu-se, como taxista, para os levar a Gimonde. Que esperassem um pouco sem dar muito nas vistas. A viagem era curta e só à meia-noite em ponto deviam estar em Talhinhas junto à ponte de Remondes, sobre o rio Sabor. O plano em nada falhou. Ao dar a meia-noite, lá estavam juntando-se a eles outros dois desconhecidos, com quem teriam que efectuar uma longa e perigosa viagem. Finalmente chegou o guia que os acompanhou até à fronteira.

Era Outubro. As noites já eram grandes e frescas. As crianças começaram a sentir fome e frio. O pai prevenira-se com comida em Bragança. Mas o Zezito não se calava e, em vão, pedia leite. O choro e a impaciência começavam a importunar. A mãe vezes sem conta arrependia-se de ter partido.

Na manhã seguinte uns a dormir e outros acordados chegaram a Puebla de Sanabria, juntando-se a alguns pequenos grupos que tinham passado a fronteira noutros locais. Passados alguns dias estavam em Dancharie na França, onde o último guia os deixou.

- Agora tomem o comboio e sigam os vossos destinos conforme as instruções que vos deram. Governem-se, como puderem – e virou costas.

O comboio ainda parou em Puyoô e em Agen onde saíram alguns portugueses. Apenas um pequeno grupo seguiu para Clermont-Ferrand.

Na capital de Auvergne o pai de Mariana procurou o Cardoso, que morava na rua de La Rotunde e desde há muito estava radicado em França. Os conhecimentos que tinha junto dos patrões de algumas fábricas de pneus, metalurgia, produtos farmacêuticos e alimentares proporcionavam-lhe que fosse arranjando alguns empregos para os que o Carvalho lhe recambiava de Portugal. O que tinha disponível de momento era numa fábrica de pneus. Não era grande coisa, mas para principiar, não era mau.

- É um trabalho pesado. Mas és novo e forte. Se com o teu trabalho agradares aos patrões, tens promoção pela certa. Já sabes que para aqui não se vem passar férias.

O alojamento é que estava um pouco complicado. Para já só conseguira um quarto, um pouco distante da fábrica. Era na rua Berlliard. A mulher podia usar a cozinha e o preço era acessível. Em breve lhe arranjaria uma casita. Havia um tipo de Viana que ia tentar melhor sorte em Paris. Quando ele fosse embora ficaria com a casa.

***

O Peugeot dos Dupont seguia a alta velocidade em direcção a Braga. O GPS indicava que devia sair em Santo Tirso/Trofa e depois virar à esquerda. Quando começou a circular em direcção à Trofa, Mariana sentia uma grande ansiedade. Dentro em breve iria percorrer os caminhos e as vielas dos tempos de infância, recordando assim os lugares onde tinha nascido e fora criada. Em França, sobretudo depois do casamento com Pierre Dupont e da mudança de Clermont-Ferrant para Aurillac, poucas informações recebia de Portugal. Mas duma coisa tinha a certeza – tudo estava muito diferente. À medida que se aproximava o coração apertava-se-lhe mais. É que a oportunidade de ver e talvez até de entrar na pequena casinha onde tinha nascido podia estar prestes a concretizar-se. Os semáforos à entrada da cidade causavam-lhe alguma confusão, mas configuravam grandes mudanças. No entanto começava a ver perdidas entre modernas construções, uma ou outra casita de xisto amarelado, que tal como aquela onde nascera, deixavam ver as pedrinhas rectangulares que ela sempre comparara a tabuinhas de madeira. De certo que não se haviam enganado. Mais adiante, uma igreja nova, moderna, de tijolos acastanhados e amplas vidraças e logo à direita, uma escola enorme, rodeada de prédios modernos e altíssimos. Era a Trofa, mas uma Trofa muito diferente da pequenina aldeia que havia deixado quarenta e sete anos antes.

Voltaram à esquerda, tornaram a voltar à direita e seguiram em frente na direcção do sítio onde presumivelmente estaria a velha casa. Mais umas voltas e chegaram ao pequeno largo em frente à igreja matriz, cuja fachada exterior ainda tinha bem presente na memória. Não estaria muito longe da casa, pois lembrava-se que, muitas vezes, à noitinha, da janela do seu quarto via, por cima dos telhados das casas circundantes, a torre da igreja. Vinha então debruçar-se à janela para ouvir o toque das Trindades. A avó havia-lhe ensinado as orações que devia rezar entre as lentas e demoradas badaladas do sino. Mais adiante estendia-se uma área enorme de terreno plano onde se misturavam prédios já construídos e outros em construção. Algumas escavadoras reviravam a terra e removiam enormes calhaus que eram retirados dali por portentosos camiões. Muito isolada, num dos cantos do grande eirado, com paredes e muros parcialmente destruídos, apenas uma casa, em tudo muito semelhante à sua. Era de uma amiga de escola, a Joaninha, lembrava-se bem. Passava por ali todos os dias, parava e chamava por ela. Depois lá iam, de malas a tiracolo, saltando e cantando pelos campos para encurtar caminho, apanhando flores com que faziam um ramo para oferecer à Dona Clotilde. As casas ao redor já tinham sido derrubadas e era, nos seus lugares que edificavam aqueles prédios modernos e abriam novas e largas ruas, onde circulava continua e frequentemente uma enorme quantidade de automóveis.

Ali era S. Martinho, mais além as outras aldeias e o rio. È verdade que também as suas águas já não eram tão limpas, transparentes e cristalinas como as de outrora, muitos moinhos e azenhas haviam desaparecido e ao seu redor os campos já não se enchiam de milho e de couves repolhudas, já não havia matança de porcos, desfolhadas e as vindimas já não eram como outrora. Já não havia casinhas de xisto com os mimos à porta da cozinha, e com os aidos onde se acomodavam os animais. Os homens e as mulheres já não se agarravam, de manhã à noite, à rabiça do arado ou à enxada e as mulheres já não sachavam e mondavam sob o calor tórrido do estio. Mas, em contra partida, nascera ali uma cidade, uma cidade grande e moderna que crescera graças à força, coragem e determinação de um povo. Mais, os trofenses depois de muitas vicissitudes, de empenhadas lutas e de esforços gigantescos haviam transformado aquela terra num concelho - o novo e moderno concelho da Trofa.

Apenas a Senhora das Dores na sua capelinha muito alta e esguia permanecia no seu altar e no coração de quantos como Mariana haviam ali nascido. Em frente à ermida, apertando tremulamente a mão do marido e com duas lágrimas a rolarem-lhe pelas faces, Mariana dizia-lhe baixinho:

- Oh, mon chéri, je suis tellement fiére d’être née dans cette ville.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

HOMENAGEM AO SEMINÁRIO DE ANGRA, AOS PROFESSORES E ALUNOS DAS DÉCADAS DE 50/60

Domingo, 14.10.18

Estamos aqui para prestar homenagem ao Seminário Episcopal de Angra, única instituição de ensino pós-secundário, nos Açores até 1976, ano em que foi criada a Universidade açoriana, que foi um notável e inexaurível alforge de ciência, de arte, de música e de cultura, onde se formaram, para além do clero açoriano, de onde emergiram muitas eminentes figuras da igreja católica, grande parte da classe dirigente, da intelectualidade e da cultura açorianas.

Foi sobretudo nas décadas de cinquenta e sessenta que esta instituição atingiu o apogeu da sua notabilidade e da sua génese formadora. Mas nesta ocasião e neste momento não se pode nem se deve ficar apenas por uma referência a esta notável e excelsa geração das décadas de 50 e 60, a que a maior parte dos que estão aqui presentes se orgulha de ter pertencido. Importa recordar também aqueles que, antes de nós, por aqui passaram, desde o início da fundação deste Seminário, altura em que, durante alguns anos, repartiu as suas instalações com o Liceu desta cidade. Nas primeiras décadas do século passado, nomeadamente, a quando da implantação da República em Portugal e da separação entre Igreja e Estado, no princípio de Outubro de 1911, altura em que o poder civil, invocando os princípios que defendia e proclamava, tomou conta do edifício onde funcionava o Seminário e que pertencia à diocese. Este embora passando por diversíssimas e inverosímeis vicissitudes, sobreviveu. Nessa altura alguns alunos foram forçados a abandonar o curso, enquanto outros se instalaram em casas particulares ou das suas próprias famílias, no caso dos alunos da Terceira, indo receber lições às moradas dos próprios professores, como refere o Cónego José Augusto Pereira, nos seus livros “O Seminário de Angra” e “A Diocese de Angra na História dos seus Prelados”. Entre os alunos que foram forçados a abandonar o Seminário, estava o estudante José Vieira Alvernaz, como narra Maria Guiomar Lima, no livro recentemente publicado, sobre a figura daquele que foi um dos mais credenciados Patriarca das Índias: “Quando o Seminário encerrou o jovem Alvernaz continuou a estudar no Liceu de Angra, reinstalado no Convento de são Francisco. O ensino era mais caro, porém, o pai incentivou-o a não desistir”… Nessa altura, foi colega, amigo e companheiro de Vitorino Nemésio.

Nas décadas de 50 /60 ainda nos chegavam ecos e memórias de toda uma geração anterior que ao longo dos quase cem anos de existência do Seminário, lutara por construir e edificar uma instituição que era incontestavelmente o reflexo da força, do saber e da cultura. Umas vezes eram os professores de então e sobretudo os clérigos das paróquias a que pertencíamos, que recordavam os nomes, referiam a sabedoria e exaltavam a competência dos seus antigos mestres, enquanto noutras, nos era proporcionado ler os escritos e as memórias que muitos antigos alunos de anos anteriores nos haviam legado. Era frequente ouvirem-se os nomes do Dr Cardoso do Couto, este até atribuído à Academia dos Médios, o Dr Botelho, o Dr Bettencourt, o cónego Garcia da Rosa, o cónego Pereira e o Dr José Vieira Alvernaz, entre muitos outros. Do mesmo modo éramos incendiados pelos escritos de muitos homens, alguns deles padres, mas também dedicados às letras, que haviam feito a sua formação no Seminário, como Bernardo Maciel, Nunes da Rosa, José Jacinto Botelho, Valério Florense, Osório Goulart, Cónego Pereira, Diniz da Luz e mais recentemente, José Machado Lourenço, Coelho de Sousa, José Enes e Cunha de Oliveira ou à Música, como Tomás de Borba, Francisco Lacerda, o padre José d’Ávila, o padre José Luís de Fraga que nas letras usou o pseudónimo acima referido de Valério Florense, e tantos outros.

Era todo este passado nobre, glorioso, era toda uma tradição forte, ingente e diversificada que pairavam no Seminário e se iam transmitindo de geração em geração, quer através das frequentes alusões a antigos mestres e a sacerdotes músicos poetas e escritores e ainda a outras eminentes figuras da igreja católica, cujas fotos ornamentavam as paredes do salão de estudo dos Médios e também salão de festas, com destaque para o Cardeal D. José da Costa Nunes e os bispos, D. Manuel Medeiros Guerreiro, D. José Vieira Alvernaz, D. Jaime Garcia Goulart, D. Paulo José Tavares, D. José Pedro da Silva, cujas actividades pastorais, sobretudo por terras do Oriente, caíam sobre nós em catadupa e como que nos acicatavam os ânimos e as vontades, a fim de perseguirmos, sob a orientação dos mestres de então, na senda dos mais nobres ideais do humanismo, da cultura, das ciências, das letras e, também, como não poderia deixar de ser, da formação sacerdotal e da religião.

Assim, durante doze anos, o Seminário de Angra dispunha e disponibilizava, aos que o demandavam, um plano curricular exigente, completo, abrangente e rigoroso, complementado com actividades de índole intelectual e cultural, desde a música ao teatro, passando pelo jornalismo, através de academias, sabatinas, jornais, palestras, reuniões, semanas culturais, etc.

Quanto ao plano curricular, referirei apenas o curso de Teologia, extensivo aos últimos quatro anos de estudo e que se dirigia fundamentalmente à formação específica dos futuros sacerdotes, abrangendo um tronco de disciplinas básicas, com uma exaustiva carga horária Embora não se tendo verificado, nesta etapa final do ensino do Seminário, nenhuma reforma curricular, como no preparatório e no de Filosofia, em termos de alteração ou enriquecimento do currículo, nos finais da década de sessenta verificaram-se grandes e profundas reformas, não só a nível dos conteúdos de algumas disciplinas mas também e sobretudo no que à metodologia dizia respeito. Na génese destas alterações, estiveram alguns dos professores de então, como o Dr Cunha de Oliveira em Sagrada Escritura e dr Francisco Carmo em Economia Social e ainda e sobretudo uma nova geração de professores, recentemente regressados de Roma: o Dr José Nunes em Teologia Dogmática, o Dr Manuel António, em Moral, o Dr Artur Goulart em Liturgia, o Dr Caetano Valadão em História do Cristianismo, o dr Vasco Parreira em Teologia Pastoral. Era o princípio do fim dos velhos compêndios profundamente enraizados nos princípios e axiomas da Escolástica Medieval e o libertar-se dos meandros da Casuística, fechada e obsoleta. Era o dealbar duma nova era, onde pontificavam as orientações e as doutrinas emanadas dos documentos do Concílio Vaticano II e a leitura de teólogos modernos, como Juan Alfaro e Bernard Haring, frequentemente citados por José Nunes e Manuel António, nas aulas de Dogma e de Moral.

Na globalidade, os professores, que leccionavam na década de sessenta, eram quase todos eles formados na Pontifícia Universidade de Roma e revelavam uma competência capaz de mobilizar os parcos recursos pedagógicos disponíveis, na altura, e que quase se limitavam aos manuais, ao quadro e a alguma bibliografia complementar. Muitos deles distinguiam-se culturalmente na sociedade angrense da então, bastante exigente na defesa e promoção da cultura. Alguns haviam publicado livros, outros escreviam para revistas e jornais, chegando um ou outro a assumir a direcção e a redacção do jornal “A União”, fazendo-o com grande qualidade e mestria. Para além de açambarcarem os púlpitos da Sé Catedral e de outras igrejas angrenses, por altura de festividades e comemorações, proferiram conferências na rádio, palestras em sessões culturais e orientavam diversas instituições e organizações sediadas em Angra, como o Instituto Açoriano de Cultura, a Cáritas, a Misericórdia, a Acção Católica, Cursos de Cristandade, Conferência Vicentina, etc. Foi um grupo de professores do Seminário que fundou o próprio Instituto Açoriano de Cultura, dando, posteriormente início à organização das Semanas de Estudo, como ontem foi referido. A um destes mestres, - José Enes - se deveu mais tarde a fundação da Universidade dos Açores, da qual também foi Reitor e professor, sendo-o também noutras universidades. Percursos notáveis, fora do Seminário, tiveram ainda outros mestres, Cunha de Oliveira, Francisco Carmo, Artur Goulart e Caetano Serpa. Outros como Caetano Tomás, José de Lima e Edmundo de Oliveira eram também  professores do Liceu de Angra.

Para a história aqui ficam, por ordem alfabética, os nomes de todos os professores do Seminário de Angra, na década de 60: Afonso Carlos Quental, Alfredo José Tavares, Américo Caetano Vieira, António Pereira da Silva, António Rogério Andrade Gomes, Artur Cunha de Oliveira, Artur Goulart de Melo Borges, Artur Pacheco Custodio, Augusto Manuel de Arruda Cabral, Caetano Valadão Serpa, Edmundo Machado de Oliveira, Francisco Borges Paim, Francisco Caetano Tomás, Francisco Carmo, Francisco Vitorino de Vasconcelos, Horácio da Silveira Noronha, Jacinto da Costa Almeida, Jaime Luís da Silveira, Jeremias Machado da Rocha Simões, José Enes Pereira Cardoso, José Machado Lourenço, José Mendonça de Lima, José Nunes, Manuel António Pimentel, Manuel Coelho de Sousa, Valentim Borges de Freitas, Vasco da Silva Castro Parreira, Weber Machado e um leigo, o dr Mário Lima, médico do Seminário e professor de Medicina Pastoral. De recordar ainda o padre António Rocha que exerceu as funções de ecónomo, o padre Martinho, capelão de São Rafael, que era confessor assíduo, assim como o padre Ivo Correia, o padre Gil Mendonça e outros.

No Seminário Menor de Ponta Delgada, durante os dois primeiros anos da sua existência urge recordar, como professores, os nomes de José de Oliveira Lopes, que exerceu o cargo de reitor, o Simão Leite de Bettencourt, Agostinho Tavares, José Franco Cabral e José Batista, pároco de São Pedro. A partir do ano lectivo de 1958/59, o reitor foi Jacinto da Costa Almeida e, alguns anos depois, Hermínio da Rocha Pontes.

Gostaria também de referenciar e homenagear aqui os monitores, tantas vezes esquecidos. Eram alunos mais velhos, que abdicavam do convívio, da convivência diária e até dos passeios com os seus colegas de curso, nalguns casos até se abstinham de usufruir do seu próprio quarto, que viviam junto dos mais pequenos, dia e noite, colaborando com os prefeitos, na formação, na educação e no acompanhamento dos mais novos. Eram jovens extraordinários, talentosos, bons alunos, que nos dispensavam uma amizade e um carinho muito grande, sendo geralmente bem mais complacentes e permissivos do que o próprio perfeito. Era sobretudo na prefeitura dos Miúdos, onde a diferença de idade entre monitor e alunos era maior, que se fazia sentir mais a sua acção terna e carinhosa. Recordo, dos dois anos que passei na prefeitura de São Luís Gonzaga: José Alvernaz Pereira de Escobar e José António Piques Garcia. Recordar também os últimos dois monitores do Seminário em 1967: Gilberto Amaral e Manuel Francisco Aguiar

E nós alunos? Durante décadas e décadas, centenas, talvez mesmo milhares de jovens de todas as ilhas rumaram a Angra a fim de encontrar no Seminário, sob a sábia competência destes e de muitos outros mestres, na procura de um saber completo e abrangente, uma formação sólida, competente e adequada que ombreava, talvez mesmo ultrapassava a dos outros seminários do país.

Na realidade, e citando o José Gabriel Ávila, no seu blogue “Escrita em Dia”: “Quem passou pelo Seminário de Angra nas décadas de 50 e de 60, ficou marcado pela abertura à cultura, à sociedade, à modernidade, e por novas ideias sociais, políticas e religiosas veiculadas por docentes formados em universidades europeias”

Foi a competência, a sabedoria, o humanismo e a dignidade destes e de outros mestres que constituíam o corpo docente do Seminário de Angra nas décadas de 50/60, os planos curriculares que eles próprios construíram, os conteúdos programáticos das disciplinas que leccionaram e as diversíssimas actividades culturais, artísticas e até de lazer em que connosco se envolviam e nas quais nos acompanhavam com dedicação, amizade e esmero, que fizeram, daquele punhado enorme de jovens açorianos que naquelas décadas procuraram este Seminário e que nela encontravam uma segunda casa e uma segunda família, aquilo que de facto hoje são. É verdade que alguns saíram ao longo do duro e sinuoso percurso de doze anos de estudo. Mas muitos outros chegaram ao fim e ordenaram-se, atingindo o objectivo primordial pelo qual haviam lutado e que constituía o sonho de qualquer simples e humilde família açoriana, na altura – ter um filho sacerdote. Muitos destes, no entanto, alguns anos mais tarde, por isto e por aquilo ou simplesmente porque quiseram, resolveram alterar o destino da sua vida. E, porque haviam armazenado, ao longo do seu percurso no Seminário, uma sólida formação, fizeram-no com dignidade, com convicção, com nobreza de carácter e de acordo com os valores humanos e morais que ao longo dos anos da sua formação haviam adquirido, embora muitos não os tenham entendido ou não os queiram ter entendido.

Seria impossível, para também os homenagear condignamente, referir aqui os nomes de todos estes “os nobres filhos da ciência ” que foram alunos mesta casa nas décadas de 50/60. Mas recordemo-los todos eles prestando-lhes a nossa homenagem, agrupando-os numa espécie de protótipo que se poderia chamar “aluno desconhecido” – onde englobo os mais simples, os mais humildes, os menos “atrevidos” culturalmente. Mas será da mais elementar justiça mencionar aqui os nomes, dos que que mais se distinguiram nas várias áreas da cultura e da sociedade açorianas, sobretudo na década de sessenta. Se algum esquecer agradecia que mo lembrassem. São eles: nas letras, Artur Goulart, Manuel Pereira, Caetano Valadão Serpa, Olegário Paz, Andrade Moniz, Álamo Oliveira, Onésimo Almeida, José Francisco Costa e Urbano Bettencourt, no jornalismo, António Rego, Clemente Cardoso, José Gabriel Ávila, Jorge Nascimento e Santos Narcíso, José Matos, na ciência Weber Machado, Frias Martins, na Sociologia Octávio Medeiros, na Pedagogia, Augusto Cabral, na Música, Armindo Borges, Emílio Porto, José Luís Rodrigues, José Piques Garcia, José Carlos Rodrigues, José Gabriel Ávila, Carlos Sousa, João Elias, António Dionísio, Bartolomeu Dutra e Manuel Azevedo, no dirigismo desportivo Manuel Faria de Castro, na Teologia José Nunes, Rogério Gomes, Manuel António Pimentel, Vasco Parreira, Laudalino Moniz, José Constância, e Ângelo Valadão, na Filosofia Cipriano Franco, na política Emílio Porto, Manuel Serpa, José Adriano Borges Carvalho, Jorge Nascimento e Manuel Azevedo, Sá Couto, na sociedade e no ensino João Esaul, Eduardo San-Bento, João Carlos Carreiro, José Augusto Borges, Gualter Dâmaso, Heriberto Brasil, Manuel Francisco Aguiar e Manuel Tomás e ainda a exercerem o sacerdócio, na diocese de Angra, Agostinho Barreiro, Fernando Teixeira, Daniel Correia, Pedro Lima, Abílio Morais, José Alvernaz, Aurélio Nóia, José Carlos Simplício, Machado Alves, Garcia da Silveira, João Luciano, João de Brito Meneses, António Varão e Abel Nóia, Francisco Dolores, João Maria Vieira Brum, e Agostinho de Sousa Lima, na de Santarém João de Brito Costa, nos Estados Unidos, Victor Vieira, Ivo Rocha, Gastão Altino, recentemente agraciado com o título de Monsenhor e no Brasil, José Francisco Correia. Muitos outros se distinguiram, sobretudo no ensino e na gestão bancária, com destaque, nesta área, o Noé Carvalho, António Manuel Carvalho e o Duarte Miranda. Na realidade seria extenso enumerar todos os outros nomes, não só das décadas de 50 e 60, mas também os que ao longo das outras épocas, durante 150 anos engrandeceram e honraram o Seminário de Angra, através da formação académica ali obtida e que singraram com êxitos assinaláveis nos mais diversos âmbitos das letras, das artes, da ciência, da cultura e da religião.

Finalmente julgo não dever terminar esta homenagem, sem referir aos que embora não sendo professores, nem alunos, partilhavam connosco, nalguns casos dia e noite, esta casa: os empregados. Na globalidade eram homens bons, amigos, dedicados à causa que serviam. Gostaria de destacar aqueles de que lembro melhor e que aqui permaneceram durante mais anos. Em primeiro lugar o Tomé, homem simples, generoso, sempre solícito a ajudar-nos e a fazer tudo por nós. Sempre de vassoura e apanhador nas mãos quando em casa, acompanhava-nos sempre nos passeios grandes, responsabilizando-se pelo transporte das refeições. O Tomé não tinha família. A sua família éramos nós. O sr Julinho que mais tarde veio ajudá-los nas limpezas. O porteiro sr José Natal, mais tarde deslocado para o Seminário de Ponta Delgada e substituído pelo sr Vargas, o cozinheiro, Sr António, natural da Graciosa, que nos brindava às segundas-feiras com um excelente feijão assado e muitos outros, com destaque para um grupo de religiosas que tomaram conta da alimentação e limpeza do Seminário, nos finais da década de cinquenta e da Senhora Maria, a primeira mulher a trabalhar no Seminário.

E termino este o meu pequeno e modesto contributo de homenagem aos alunos, aos professores e, sobretudo, à instituição o Seminário de Angra. É esta a minha mensagem de gratidão para com todos os professores, de quem guardo melhores recordações. É esta a minha solidariedade estima por quantos, como eu foram alunos e se formaram nesta casa.

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AS VÉSPERAS DAS BANDEIRAS

Sábado, 13.10.18

 

Eram alvas,

flocos de neve,

dilúculos de espuma.

 

Entrelaçavam-se

entre os acordes das filarmónicas,

o ribombar do foguetório,

os copos a borbulhar de vinho

os pratos acaculados de favas.

 

E o vento soprava sem destino.

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publicado por picodavigia2 às 00:03

A ENCOMENDA

Sexta-feira, 12.10.18

O aviso amarelo chegou cinco dias após o Carvalho ter demandado a ilha e foi recebido, lá em casa, com enorme alarido e desmesurado alvoroço. Vinha aí uma encomenda da América! Ai vinha, vinha!...

Na manhã seguinte meu pai, aviso no bolso, bordão atravessado sobre os ombros, froca a tiracolo, com um parco farnel numa das mangas, partiu, muito cedo, para as Lajes. Tão cedo que ninguém lá em casa deu por isso, a não ser a minha mãe que se levantou para ir à cozinha aquecer um caneco de alumínio, bem cheio de café, sobre o fogão da luz, que ainda era noite escura. Bem precisava o meu progenitor de forças para fazer tão longa caminhada!

Na véspera, meu pai deixara uma boa parte do dia planeado e todas as tarefas muito bem aclaradas: - O António e eu íamos buscar a Benfeita e os bezerros à Pedra d’Água, enquanto o José limpava o palheiro. Minha mãe tirava o leite à vaca e a Maria ia levá-lo à máquina. Terminada a escola iam todos sachar o milho da Bandeja, que ele quando chegasse haveria de lá ir ter para nos ajudar.

Todas as tarefas, com exceção do milho da Bandeja, foram eximiamente executadas com entusiasmo e competência, mas nenhum deixou de pensar na encomenda, durante todo o dia, por um único momento que fosse. Na verdade sachar o milho da Bandeja era o que mais nos incomodava. Não fosse meu pai chegar a casa com a encomenda e nós não estarmos presentes para a abrir. Por isso, despachamo-nos do milho da Bandeja atabalhoadamente e, cedo, viemos esperar meu pai, sentadinhos na soleta da porta da sala. Uma encomenda da América era de se lhe tirar o chapéu. Não se podia perder por nada deste mundo o momento da abertura. Cada um já se imaginava com um vestido ou uma camisa nova, uns alvarozes, uma froca, umas calças de angrim, um beltro, um caneta de luzinha, lápis de cera e, quem sabe, talvez um brinquedo e muitos candis. Bem desejávamos ir esperar meu pai ao Cimo da Assomada, à Eira da Cuada ou, se pudéssemos, à Ribeira Grande mas… a minha mãe não deixou.

Finalmente, quase ao fim da tarde, meu pai chegou e trazia às costas uma enorme saca branca, com o seu nome escrito a letras azuis, muito grandes, com muitos selos, etiquetas verdes, carimbos pretos e roxos e com a direcção muito certinha. Era remetida de Turlock, Califórnia pelo tio Francisco. Meu pai mal a acabara de colocar no meio da sala e nós atirámo-nos a ela que nem Santiago aos mouros, perante os protestos da minha progenitora que com a tesoura da costura tentava, com dificuldade, abrir o saco sem o danificar, pois daria muito jeito e serviria perfeitamente para levar a moenda ao moinho de tio Manuel Luís. É que o saco que ela usava para levar o milho e trazer a farinha depois de moída, já tinha mais remendos do que lona original. De seguida, com cuidado e perante a nossa exasperada agitação, minha mãe foi tirando as peças de roupa, uma por uma. No fundo do saco, dois pares de sapatos, muito velhos e gastos mas que serviriam ao meu pai, para usar aos domingos. Dentro destes, umas canetas que já nem escreviam, vários lápis usados, borrachas e outras bugigangas. Minha mãe, sempre perante a nossa inquietação, lá foi estendendo tudo pelo chão. Só depois de tudo retirado do saco e de o revirar pelo avesso, não tivesse algum dola lá dentro, deu ordens para que cada ume maneira agarrasse no que quisesse, no que lhe apetecesse ou simplesmente no que os outros deixassem. A sala exalava agora aquele cheirinho tão típico da roupa americana. Parecia que dentro da saca se havia derramado um frasco de perfume. Nós embrenhados não apenas na escolha e na prova mas sobretudo na pesquisa. É que nos bolsos dos casacos e das calças, ou embrulhados em lenços mas muito bem escondidinhos, vinham, por vezes, “candis”, “pinotes”, rebuçados, chocolates, canivetes, sabonetes e frascos de perfume, alguns até vazios. Desta vez, para desânimo nosso, tudo vazio. Apenas roupa, mais roupa, dois pares de sapatos muito usados, um beltro de fivela amarela e pedaços de pano muito coloridos. Mas cheirava tudo tão bem!

Uma vez tudo virado e revirado, vasculhado e apalpado, chegou a hora de dividir o tesouro. Primeiro minha mãe selecionou e guardou as roupas que serviam, com mais ou menos rigor, em cada um e poucas eram. A partir daí a ordem era cada qual ficar com o que quisesse e lhe apetecesse. Mas a minha mãe havia de supervisionar tudo. Foi um ver se te avias: pega, puxa, larga, tira, deixa, mostra e toma. Foi tal escolher e, de seguida, fazer a prova. Sobre as ordens e orientação da minha progenitora, cada qual ficou com o que melhor lhe serviu, embora desajeitadamente, muito desajeitadamente.

Depois de tudo acertado e dividido e da minha mãe guardar o que julgara melhor e de se retirar para a cozinha, decidimos que cada um havia de vestir o que lhe ficasse melhor e iriamos à Fontinha, mostrar à avó e às tias aquelas maravilhas da alta-costura americana. O José vestiu um saiote, que lhe arrastava pelos pés, a Maria um vestido muito largo e comprido, apertado à cintura com um cinto preto, o António umas calças verdes tão largas que tinha que as segurar constantemente com ambas as mãos e eu com um vestido de menina e uma camisa de seda cor-de-rosa por cima. Lá fomos todos vaidosos e contentes com tão adequadas e estéticas vestimentas, todos muito felizes, juntinhos e de mãos dadas. Ao rodar à Praça havíamos de encontrar o Maurício que ao ver aquele quadro estapafúrdio desata numa enorme gargalha e a fazer pouco de nós.

A Maria não esteve com meias medidas e, aproximando-se dele, apontou-lhe o dedo e atirou-lhe à cara:

- Estas a rir porque estás roído de inveja!

E seguimos o nosso caminho, muito felizes, porque uma encomenda vinda da América não se tinha todos os dias.

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A ILHA MONTANHA

Quinta-feira, 11.10.18

 

 

No magro chão de lava há perfume   

E o fluxo das marés sabe a frescura.

O Pico é um retalho de verdura

Do sopé da montanha até ao cume.

 

E se as fontes andejam de secura

Ou se o chão treme e arde em cruel lume

- Dias de terror, laivos de negrume -

O mar se abre logo. - Tanta fartura!

 

Zonzos, os currais negros dos vinhedos

Transformam tanta lava em doce mosto!

Trabalhos tão sofridos são folguedos…

 

E nesta ilha de safra compelida,

Até festas e folgas, em Agosto,

Joeiram o chão seco, dão-lhe vida!

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LUISA EM VEZ DE EUNICE

Quarta-feira, 10.10.18

Quando, pela primeira vez, recebi o veredicto de que poderia ir sozinho ao arraial da Senhora da Saúde foi, para mim, um total deslumbramento. Eu era ainda muito pequenito, talvez ainda nem tivesse cinco anos. Por impertinência minha, depressa me prepararam, lavando-me, em água fria e com sabão azul das pontas dos pés ao cocaruto da cabeça. Fiquei a cheirar a lavado que era um consolo. Depois inspeccionaram-me a cabeça a pente fino. Mas nada! Nem piolhos, nem lêndeas. De seguida enfarpelei-me eu próprio: uma camisa de seda cor-de-rosa, calças curtas com suspensórios castanhos, ligados à frente e sobre o peito com uma espécie de tira de papelão oval, ornamentada com uma macacada qualquer, peúgas brancas e sapatos de pele de cabra. Um luxo! Bem penteadinho, trinta centavos no bolso, mãos a abanar e com um ar de grande senhor lá fui numa correria louca, numa alucinação inexaurível e com uma alegria viva, contagiante e indescritível.

Era sábado, véspera da festa e o arraial já há muito havia começado. A Praça estava pejada de gente e a Rua Direita toda engalanada. Presas nas varandas ou pregadas nos cantos das casas e estendidas em fio barbante uma enorme quantidade de bandeirinhas de todas as cores suspendiam-se em ziguezague, dando à rua um ar festivo e um colorido desusado. Dezenas e dezenas de pessoas, muitas delas vindas de outras freguesias da ilha, desciam-na e subiam-na para voltar a descê-la, em grupo, em pares ou isoladamente, num vaivém invulgar. O café da Chica estava repleto de homens e a loja do Senhor Rodrigues a abarrotar de gente. Muito a custo lá entrei e fui atendido com alguma dificuldade, até porque o investimento era minúsculo, pese embora significasse uma terça parte do meu pecúlio: um rebuçado com sabor a morango por dez centavos. Saí deliciando-me em doçura e cheguei ao adro da igreja onde se situava o verdadeiro epicentro do arraial.

O adro ainda estava mais ornamentado e povoado do que a Rua Direita. Do alto da cruz da igreja despendiam-se em arcos côncavos carreiros e carreiros de bandeirinhas que vinham prender-se nas varandas e cantos das moradias circundantes. Sobre um coreto de madeira a “Senhora da Saúde”, com os instrumentos ainda a brilhar de novos, deliciava os presentes com os seus acordes musicais. Num dos cantos do adro, um dos locais mais procurados pelos homens, o Albino orientava o jogo em que o principal protagonista era um boneco de madeira suspenso, na cintura, por um eixo e que rodopiava sobre um caixilho também de madeira, apoiado no chão com algumas pedras. O jogo consistia em atirar, de uma distância previamente delimitada, cinco bolas ao boneco, por um escudo. Quem acertasse no dito cujo e conseguisse que ele desse uma volta completa sobre si próprio receberia um prémio: um chocolate, uma laranjada, uma cerveja ou um pirolito, dos de bola. Ao lado o quiosque da quermesse com duas rifas. Uma constituída pela roleta e a outra por pequeninos quadrados de papel muito bem enrolados, uns em branco, outros com um número que correspondia a um prémio. Todos os números e os prémios respectivos constavam de uma lista que, à medida que cada prémio era entregue ao sortudo que o tirara, se ia descarregando. Investi mais dois terços do meu pecúlio: vinte centavos por um bilhete. Desenrolei-o e estarreci por completo: era branco, branco que nem a cal. Bem me apeteceu voltar atrás e ir comprar dois rebuçados, mas já era tarde. Fiquei triste e macambúzio de olhar fixo na roleta que representava a outra rifa ali existente. Era uma roda de madeira presa num pau e a rolar sobre um eixo. A roda tinha colado na frente um papel branco, rigorosamente dividido em dezasseis partes iguais, separadas no bordo por pregos e com oito nomes de homens alternados com outros tantos de mulheres, escritos à mão sobre o papel branco. Na parte superior do pau e encaixada entre os pregos havia uma palheta que ia travando o rodopiar da roleta, depois de movimentada manualmente, até a parar por completo, indicando assim o nome sorteado e que correspondia a um dos bilhetes que havia sido vendido.

Estava eu a observar esta pequena obra de engenharia arraialesca quando me surge pela frente o meu vizinho que era professor no Seminário de Angra e estava a passar férias na Fajã. Sem mais de meias, resolve comprar um bilhete com o nome de uma sua prima chamada Eunice e oferece-mo, dizendo:

 - Está atento ao nome que sair pois o prémio é para ti!

Todo contente e esperançado, fiquei ali bem quietinho até a roleta andar. De bilhete em riste, esperei algum tempo que me pareceu uma eternidade. Finalmente a roleta andou… Rolou… andou... rolou... avagarou e, finalmente, parou. E não é que saiu o nome de Luísa, mesmo ali bem ao lado e coladinho ao de Eunice que o meu vizinho me tinha oferecido e que eu guardava religiosamente

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O MILAGRE DO AMOR

Terça-feira, 09.10.18

Enquanto caminhava pelo Parque da Cidade, num dia destes, uma jovem elegante e, aparentemente, muito simpática cruza-se comigo e sorri com um misto de ternura e sinceridade. Parámos lado a lado. Perante o meu inqualificável espanto, perguntou-me, com um sorriso ainda mais simpático do que o primeiro:

- O senhor já não se lembra de mim? Fui sua aluna.

Não, não me lembrava. As minhas alunas foram sempre meninas entre os dez e os treze anos e que me perdoasse mas ao vê-la já mulher feita, declaradamente elegante e bonita, não a revia a ouvir-me ler o Capuchinho Vermelho ou o Fato Novo do Imperador.

Esclarece daqui, lembra dacolá, nomes para trás e aulas para diante e lá consegui, por entre aqueles olhos de safira e aquele sorriso de ternura e bondade, descobrir a pequenina Alexandra, muito esperta e reguila, que há uns bons anos atrás, me entrava pela sala de aula dentro, em correria louca a disputar aquele lugar da primeira carteira da frente, ali bem juntinho à minha secretária e que, durante a aula, vezes sem conta, me segredava baixinho: - Professor, estou a adorar esta aula.

Sim lembrava-me perfeitamente dela. Meu Deus! Só que sentia que aquilo tinha acontecido há tão pouco tempo que não entendia como tinha crescido tão depressa e como se tinha transformado em mulher tão de repente.

Ela explicou-me. Explicou-me que tinha sido o milagre do amor! Explicou-me que foi quando percebeu que amava alguém que se tornou-se mulher, depois esposa, depois mãe e, finalmente, como muito esforço, com muito trabalho e ainda com mais sacrifício se transformara em professora – professora de Educação Física. Recordava-se muito da escola, dos colegas, dos passeios, das festas e dos professores, especialmente de dois, nos quais eu estava incluído.

Lisonjeado despedi-me e continuei a caminhar. Olhei-a de longe e por entre os ramos acastanhados das árvores e os ziguezagues dos passeios do Parque pareceu-me voltar a vê-la, menina de dez anos, agarrando com ambas as mãos a luz dos sonhos perdidos, erguendo com os braços bem levantados a ternura das quimeras desfeitas mas aspergindo com sorrisos de esperança o alvoroço da felicidade conquistada.

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DEFLUXO, TOPDAS E GODELHÕES

Segunda-feira, 08.10.18

Em criança tínhamos muitas alegrias mas também muitas tristezas e bastante sofrimento. Com uma alimentação deficiente, com condições de higiene limitadíssimas e sem assistência médica, caía-nos em cima tudo o que fosse doenças, achaques e sezões: sarampo, tosse, bexigas loucas, papeira, dedos degolados, bichas, diarreias, mamulos na cabeça, inchaços no pescoço e muitas outras maleitas, entre as quais, tinham lugar de destaque a comichão, as lêndeas e os piolhos. No entanto, as doenças que mais nos apoquentavam, por serem mais frequentes, duradouras e dolorosas eram três: o defluxo, as topadas e os godelhões.

O defluxo atacava-nos quase diariamente e era terrivelmente incomodativo. Os lenços não abundavam e, por isso, vezes sem conta, aquele pegajoso e repugnante escorrimento de humores provenientes da inflamação da mucosa nasal, a que vulgarmente chamavam ranho, tinha que ser recolhido com as costas das mãos ou com as pontas dos dedos e, de seguida, despegado nas paredes, nos muros, nas pedras dos maroiços ou nos troncos das árvores. Para além destes incómodos físicos, éramos também vítimas inocentes de afrontas morais, por parte dos adultos, normalmente libertos de tão perturbante suplício e que não cessavam de nos alcunhar de ranhosos. Pouco agradável, convenhamos.

As topadas, porém, em dor física ultrapassavam de longe o defluxo. Pezinho descalço a circular nos sinuosos e desnivelados caminhos da Cabaceira, da Silveirinha ou do Outeiro Grande, a abarrotar de pedregulhos e calhaus, era batidela certinha, com um dos dedos. Depois, um bom naco de carne levantada, sangue e mais sangue e umas dores fortíssimas. Por vezes, quando a pancada era mesmo grande, até a unha voava, o que duplicava a dor e garantia a desgraça de vir mais tarde a nascer, no lugar daquela, uma outra unha toda enrilhada, enegrecida e desajeitada. As topadas, no entanto, lá se iam curando com um chumaço de pano que se enrolava e amarrava à volta do dedo ferido, não tanto para o curar mas para o proteger de novo embate, o qual traria consequências ainda mais dolorosas. Por vezes os chumaços eram mais do que os dedos livres.

Finalmente a praga dos godelhões, uma espécie de ínguas cheias de matéria e pus que nos cobriam parcialmente o corpo, que lhe davam um aspecto lânguido e asqueroso e cujo tratamento consistia simplesmente em espremê-las.

 

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publicado por picodavigia2 às 07:33

O CÁGADO

Domingo, 07.10.18

 

(UM CONTO DE ALMADA NEGREIROS)

 

Havia um homem que era muito senhor da sua vontade. Andava às vezes sozinho pelas estradas a passear. Por uma dessas vezes viu no meio da estrada um animal que parecia não vir a propósito — um cágado.

O homem era muito senhor da sua vontade, nunca tinha visto um cágado; contudo, agora estava a acreditar. Acercou-se mais e viu com os olhos da cara que aquilo era, na verdade, o tal cágado da zoologia.

O homem que era muito senhor da sua vontade ficou radiante, já tinha novidades para contar ao almoço, e deitou a correr para casa. A meio caminho pensou que a família era capaz de não aceitar a novidade por não trazer o cágado com ele, e parou de repente. Como era muito senhor da sua vontade, não poderia suportar que a família imaginasse que aquilo do cágado era história dele, e voltou atrás. Quando chegou perto do tal sítio, o cágado, que já tinha desconfiado da primeira vez, enfiou buraco abaixo como quem não quer a coisa.

O homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a espreitar para dentro e depois de muito espreitar não conseguiu ver senão o que se pode ver para dentro dos buracos, isto é, muito escuro. Do cágado, nada. Meteu a mão com cautela e nada; a seguir até ao cotovelo e nada; por fim o braço todo e nada. Tinham sido experimentadas todas as cautelas e os recursos naturais de que um homem dispõe até ao comprimento do braço e nada.

Então foi buscar auxílio a uma vara compridíssima, que nem é habitual em varas haver assim tão compridas, enfiou-a pelo buraco abaixo, mas o cágado morava ainda muito mais lá para o fundo. Quando largou a vara, ela foi por ali abaixo, exactamente como uma vara perdida.

Depois de estudar novas maneiras, a ofensiva ficou de fato submetida a nova orientação. Havia um grande tanque de lavadeiras a dois passos e ao lado do tanque estava um bom balde dos maiores que há. Mergulhou o balde no tanque e, cheio até mais não, despejou-o inteiro para dentro do buraco do cágado. Um balde só já ele sabia que não bastava, nem dez, mas quando chegou a noventa e oito baldes e que já faltavam só dois para cem e que a água não havia meio de vir ao de cima, o homem que era muito senhor da sua vontade pôs-se a pensar em todas as espécies de buracos que possa haver.

— E se eu dissesse à minha família que tinha visto o cágado? - pensava para si o homem que era muito senhor da sua vontade. Mas não! Toda a gente pode pensar assim menos eu, que sou muito senhor da minha vontade

O maldito sol também não ajudava nada. Talvez que fosse melhor não dizer nada do cágado ao almoço. A pensar se sim ou não, os passos dirigiam-se involuntariamente para as horas de almoçar.

— Já não se trata de eu ser um incompreendido com a história do cágado, não; agora trata-se apenas da minha força de vontade. É a minha força de vontade que está em prova, esta é a ocasião propícia, não percamos tempo! Nada de fraquezas!

Ao lado do buraco havia uma pá de ferro, destas dos trabalhadores rurais. Pegou na pá e pôs-se a desfazer o buraco. A primeira pazada de terra, a segunda, a terceira, e era uma maravilha contemplar aquela majestosa visibilidade que punha os nossos olhos em presença do mais eficaz testemunho da tenacidade, depois dos antigos. Na verdade, de cada vez que enfiava a pá na terra, com fé, com robustez, e sem outras intenções a mais, via-se perfeitamente que estava ali uma vontade inteira; e ainda que seja cientificamente impossível que a terra rachasse de cada vez que ele lhe metia a pá, contudo era indiscutivelmente esta a impressão que lhe dava. Ah, não! Não era um vulgar trabalhador rural. Via-se perfeitamente que era alguém muito senhor da sua vontade e que estava por ali por acaso, por imposição própria, contrafeito, por necessidade do espírito, por outras razões diferentes das dos trabalhadores rurais, no cumprimento de um dever, um dever importante, uma questão de vida ou de morte — a vontade.

Já estava na nonagésima pazada de terra; sem afrouxar, com o mesmo ímpeto da inicial, foi completamente indiferente por um almoço a menos. Fosse ou não por um cágado, a humanidade iria ver solidificada a vontade de um homem.

A mil metros de profundidade a pino, o homem que era muito senhor da sua vontade foi surpreendido por dolorosa dúvida — já não tinha nem a certeza se era a quinquagésima milionésima octogésima quarta. Era impossível recomeçar, mais valia perder uma pazada.

 

Até ali não havia indícios nem da passagem da vara, da água ou do cágado. Tudo fazia crer que se tratava de um buraco supérfluo; contudo, o homem era muito senhor da sua vontade, sabia que tinha de haver-se de frente com todas as más impressões. De fato, se aquela tarefa não houvesse de ser árdua e difícil, também a vontade não podia resultar superlativamente dura e preciosa.

Todas as noções de tempo e de espaço, e as outras noções pelas quais um homem constata o quotidiano, foram todas uma por uma dispensadas de participar no esburacamento. Agora, que os músculos disciplinados num ritmo único estavam feitos ao que se quer pedir, eram desnecessários todos os raciocínios e outros arabescos cerebrais, não havia outra necessidade além da dos próprios músculos.

Umas vezes a terra era mais capaz de se deixar furar por causa das grandes camadas de areia e de lama; todavia, estas facilidades ficavam bem subtraídas quando acontecia ser a altura de atravessar uma dessas rochas gigantescas que há no subsolo. Sem incitamento nem estímulo possível por aquelas paragens, é absolutamente indispensável recordar a decisão com que o homem muito senhor da sua vontade pegou ao princípio na pá do trabalhador rural para justificarmos a intensidade e a duração desta perseverança. Inclusive, a própria descoberta do centro da Terra, que tão bem podia servir de regozijo ao que se aventura pelas entranhas do nosso planeta, passou infelizmente desapercebida ao homem que era muito senhor da sua vontade. O buraco do cágado era efectivamente interminável. Por mais que se avançasse, o buraco continuava ainda e sempre. Só assim se explica ser tão rara a presença de cágados à superfície devido à extensão dos corredores desde a porta da rua até aos aposentos propriamente ditos.

Entretanto, cá em cima na terra, a família do homem que era muito senhor da sua vontade, tendo começado por o ter dado por desaparecido, optara, por último, pelo luto carregado, não consentindo a entrada no quarto onde ele costumava dormir todas as noites.

Até que uma vez, quando ele já não acreditava no fim das covas, já não havia, de fato, mais continuação daquele buraco, parava exactamente ali, sem apoteose, sem comemoração, sem vitória, beatamente como um simples buraco de estrada onde se vê o fundo ao sol. Enfim, naquele sítio nem a revolta servia para nada.

Caindo em si, o homem que era muito senhor da sua vontade pediu-lhe decisões, novas decisões, outras; mas ali não havia nada a fazer, tinha esquecido tudo, estava despejado de todas as coisas, só lhe restava saber cavar com uma pá. Tinha, sobretudo, muito sono, lembrou-se da cama com lençóis, travesseiro e almofada fofa, tão longe! Maldita pá! 0 cágado! E deu com a pá com força no fundo da cova. Mas a pá safou-se-lhe das mãos e foi mais fundo do que ele supunha, deixando uma greta aberta por onde entrava uma coisa de que ele já se tinha esquecido há muito - a luz do sol. A primeira sensação foi de alegria, mas durou apenas três segundos, a segunda foi de assombro: teria na verdade furado a Terra de lado a lado?

Para se certificar alargou a greta com as unhas e espreitou para fora. Era um país estrangeiro; homens, mulheres, árvores, montes e casas tinham outras proporções diferentes das que ele tinha na memória. 0 sol também não era o mesmo, não era amarelo, era de cobre cheio de azebre e fazia barulho nos reflexos. Mas a sensação mais estranha ainda estava para vir: foi que, quando quis sair da cova, julgava que ficava em pé em cima do chão como os habitantes daquele país estrangeiro, mas a verdade é que a única maneira de poder ver as coisas naturalmente era pondo-se de pernas para o ar...

Como tinha muita sede, resolveu ir beber água ali ao pé e teve de ir de mãos no chão e o corpo a fazer o pino, porque de pé subia-lhe o sangue à cabeça. Então, começou a ver que não tinha nada a esperar daquele país onde nem sequer se falava com a boca, falava-se com o nariz.

Vieram-lhe de uma vez todas as saudades da casa, da família e do quarto de dormir. Felizmente estava aberto o caminho até casa, fora ele próprio quem o abrira com uma pá de ferro. Resolveu-se. Começou a andar o buraco todo ao contrário. Andou, andou, andou; subiu, subiu, subiu...

Quando chegou cá acima, ao lado do buraco estava uma coisa que não havia antigamente — o maior monte da Europa, feito por ele, aos poucochinhos, às pazadas de terra, uma por uma, até ficar enorme, colossal, sem querer, o maior monte da Europa.

Este monte não deixava ver nem a cidade onde estava a casa da família, nem a estrada que dava para a cidade, nem os arredores da cidade que faziam um belo panorama. O monte estava por cima disto tudo e de muito mais.

O homem que era muito senhor da sua vontade estava cansadíssimo por ter feito duas vezes o diâmetro da Terra. Apetecia-lhe dormir na sua querida cama, mas para isso era necessário tirar aquele monte maior da Europa, de cima da cidade, onde estava a casa da sua família. Então, foi buscar outra pá dos trabalhadores rurais e começou logo a desfazer o monte maior da Europa. Foi restituindo à Terra, uma por uma, todas as pazadas com que a tinha esburacado de lado a lado. Começavam já a aparecer as cruzes das torres, os telhados das casas, os cumes dos montes naturais, a casa da sua família, muita gente suja de terra, por ter estado soterrada, outros que ficaram aleijados, e o resto como dantes.

O homem que era muito senhor da sua vontade já podia entrar em casa para descansar, mas quis mais, quis restituir à Terra todas as pazadas, todas. Faltavam poucas, algumas dúzias apenas. Já agora valia a pena fazer tudo bem até ao fim. Quando já era a última pazada de terra que ele ia meter no buraco, portanto a primeira que ele tinha tirado ao princípio, reparou que o torrão estava a mexer por si, sem ninguém lhe tocar; curioso, quis ver porque era — era o cágado.

 

Almada Negreiros, In Revista ABC, nº 51, 30 de Junho de

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publicado por picodavigia2 às 00:05

PÔR-DO-SOL

Sábado, 06.10.18

Era um velho marinheiro de longas barbas brancas salpicadas de sinuosidade, cabelos soltos e grisalhos a arfarem desejos entontecidos e um rosto petrificado de caligens e nostalgias. O peito, um deserto sulcado de penumbras e enigmas Sentava-se, sem hesitações e devaneios, todos os dias, à janela da sua velha casa, no cimo duma pequena colina, plantada entre a rocha e o mar, simplesmente para ver o Pôr-do-Sol. A janela ficava voltada para o oceano que calcorreara tantas vezes e a casa virada a Oeste. Sentado num enorme cadeiral de vimes, ali permanecia horas e horas à espera que o astro rei traçasse a sua trajetória sobre o pequeno povoado, sobranceiro à colina e se perdesse no horizonte.

Mas não era apenas o Pôr-do-Sol que cativava a estima, a admiração e a curiosidade do velho marinheiro. Alta madrugada, também se levantava para poder observar os primeiros raios de claridade que rompiam a noite e a iam transformando em madrugada. Mesmo sem ver o Sol, mas sentia a presença inequívoca dos seus raios que se espelhavam lá por trás dos montes e que davam à madrugada um ar clarificante, risonho e prazenteiro. Depois aguardava com um sorriso ostentoso e confiante o seu aparecimento e o milagre da transformação das madrugadas em manhãs. E à tardinha, o velho marinheiro, regressando à sua janela voltada para o mar, observando mais uma vez o ocaso do astro rei, sentia-se feliz e contente na certeza expectante de que ele viria a nascer no dia seguinte. Então as manhãs eram virtuais, límpidas, perfumadas e com sabor a madressilva e a rosmaninho.

E o velho marinheiro, deleitava-se em dolente nostalgia como que hibernando numa comunhão profunda com aquela suprema potência da natureza.

E, no dia seguinte, à tardinha lá estava ele, outra vez, com um fulvo brilho nos olhos, à espera de mais uma espera.

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publicado por picodavigia2 às 00:04

A PRINCESA CARLOTA

Sexta-feira, 05.10.18

(CONTO TRADICIONAL)

Era uma vez um rei, jovem e solteiro. Os conselheiros insistiam com ele, que se casasse, para deixar sucessores ao trono. O rei era amigo de caçar, e sempre que saía passava defronte de uma cabana, onde morava um velho pastor e sua formosa filha, chamada Carlota. Um dia disse-lhe o rei:

- Os meus vassalos querem que eu case, e tu és a única mulher de quem eu gosto; queres casar comigo?

- Isso não pode ser, senhor; porque eu apenas sou uma pobre pastora.

- É o mesmo, caso contigo, mas com a condição de nunca me contrariares nos meus desejos, por menos razoáveis que sejam.

- Estou por tudo que Vossa Majestade me ordenar. – Concluiu a pastora

 Tudo acertado, realizou-se o casamento. O rei mandou para a cabana do pobre velho fatos de rainha, que ela vestiu, largando os seus trapinhos. Mas o pai disse-lhe:

- Guarda esses trapinhos, pode ser que ainda precises deles.

A filha guardou os trapos em uma caixa, que deixou em poder do pai, e partiu para o palácio, onde passou a viver, como rainha.

Ao fim de nove meses deu à luz uma menina, tão formosa como sua mãe. Passados três dias entrou o rei no quarto da esposa e disse-lhe:

- Trago-te uma triste notícia: os meus vassalos querem que eu mande matar a nossa filha, porque não se conformam serem um dia governados pela filha de uma pastora.

- Vossa Majestade manda, e cumpre-me obedecer, - respondeu a rainha, quase a saltarem-lhe as lágrimas dos olhos.

O rei recebeu a menina e entregou-a a um conselheiro. Tempos depois teve a rainha um filho, que o rei mandou igualmente matar sob o mesmo pretexto.

Alguns anos depois entrou o rei muito apoquentado no quarto da esposa e disse-lhe:

- Vou dar-te uma notícia, de todas a mais triste, os meus vassalos estão indignados comigo; não querem que estejas em lugar de rainha, e dizem-me que te expulse do palácio. Por isso, querida Carlota, prepara-te, que tens de voltar para a cabana de teu pai.

- Não se apoquente, Real Senhor; estou pronta a obedecer; parto já.

- Tens que despir os fatos de rainha.

- É o que já vou fazer, Real Senhor.

  E a rainha despiu todo a roupa ficando em camisa.

  - Não dispo a camisa, porque encobre o ventre onde estiveram guardados os nossos filhos. – Disse a rainha, lavada em lágrimas.

 O rei nada teve que objectar e Carlota partiu com destino à cabana do pai. Estava o velho pastor à porta, quando viu aproximar-se a filha. Recolheu-lhe logo para dentro, tirou da caixa os antigos trapinhos e levou-os à filha para que os vestisse. Ela vestiu-os sem proferir um queixume e recomeçou a sua antiga vida de pastora. Para ela a sua vida de rainha fora apenas um sonho; lembrava-se muito dos seus filhos de quem tinha cada vez mais saudades. Passados anos voltou o rei a casa de Carlota, e disse-lhe que os vassalos instavam com ele, que casasse; e por isso tinha resolvido casar com uma formosa princesa de quinze anos.

- Efectivamente, respondeu a pastora, um rei bom como Vossa Majestade merece ter uma verdadeira princesa por esposa, que lhe dê uma descendência digna e nobre que lhe perpetue o nome.

- Venho pedir-te o favor de voltares ao palácio para dirigires as criadas de cozinha. Bem sabes que a princesa há-de ser acompanhada por fidalgos, e vem igualmente com seu irmão mais novo. Quero servi-los numa lauta mesa.

- Estou pronta, logo que Vossa Majestade ordenar, – disse Carlota

- Chegam amanhã. Deves regressar hoje ao palácio.

 Assim fez Carlota, dirigindo-se para o palácio, vestindo um pobre vestido de chita. No dia seguinte chegou a noiva e o irmão, com outros fidalgos, e houve à sua chegada grandes festejos. Carlota estava na cozinha onde o rei a encontrou.

- Não vens ver a minha noiva? – Perguntou-lhe o rei.

Carlota saiu da cozinha e foi cumprimentar a noiva.

- É muito linda! - Disse Carlota, beijando-lhe a mão. - Deus a conserve por muitos anos e lhe dê muita felicidade. É digna do rei que vai receber por seu marido.

 A menina ficou estupefacta. Então o rei ajoelhou-se em frente de Carlota, e disse:

 - Olha que são os nossos filhos. Quis experimentar o teu coração: és uma pastora que vale mil rainhas.

 Houve então mil abraços e beijos de parte a parte. O rei mandara os filhos para casa de uma tia, que os educava como príncipes, em vez de os mandar matar como tinha afirmado à rainha.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

O LUGAR DA TRONQUEIRA

Quinta-feira, 04.10.18

Como era sobejamente conhecido, pelo menos por todos os fajãgrandenses de então, o nome “Tronqueira”, na Fajã Grande, não se aplicava e creio que continuará a não se aplicar exclusivamente a uma rua, a Rua da Tronqueira, cujo nome ainda hoje se mantém na topologia da freguesia mais ocidental da Europa mas também a um lugar da mesma freguesia que ficava ali, mesmo ao lado da referida rua.

O lugar da Tronqueira que incluía sobretudo terras de milho, que alternavam a cultura deste cereal, ao longo do ano, com o cultivo da batata-doce, das favas ou das forrageiras, situava-se numa enorme faixa de terreno paralelo à Ladeira e à Ladeira do Mimoio e ficava entrincheirado entre estas e a rua da Tronqueira, que muito provavelmente dele houve nome. Assim, o lugar da Tronqueira fazia fronteira, a Sul, com a Fontinha e ia até ao Porto, ao estaleiro e ao Calhau Miúdo, lá para os lados do caminho que dava para a Ribeira das Casas, Covas e Ponta e constituía uma das zonas de terrenos muito férteis e produtivos. Melhores terras de cultivo, talvez só as do Estaleiro e as do Porto.

De acordo com a Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, a palavra “tronqueira” é um termo tipicamente açoriano. Trata-se de um nome ou substantivo comum com um duplo sentido: um real e outro figurado. No sentido real a palavra tronqueira significa uma “passagem estreita ordinária onde ficam os madeiros laterais de uma portada ou cancela”. Por sua vez e no sentido figurado a mesma palavra significa “os esteiros de madeira ligados por arame utilizados na vedação ou tapume de uma a cerca onde se encontra guardado o gado, nos sítios onde não existe parede ou muro em pedra”. Muito provavelmente que o nome próprio de Tronqueira, talvez atribuído, inicialmente, apenas a um lugar da Fajã Grande e depois originando o nome da rua que lhe ficava contígua, terá a ver com um ou outro destes significados e de certo que poderá ter neles a sua origem. Daqui se pode concluir que este nome dado àquele lugar terá tido a sua origem no facto de outrora ter havido por ali alguma ou algumas “tronqueiras” ou seja alguns tapumes ou mais concretamente cercas ou currais onde se guardava o gado ou simplesmente por ser o lugar, com semelhanças às portadas ou cancelas, por onde o gado passava, nas suas deslocações para as excelentes pastagens da Ribeira das Casas, das Covas e do Vale do Linho.

Mas o importante é que o topónimo, com tantos outros, nasceu, cresceu e ficou a assinalar um dos mais ricos e belos lugares da Fajã Grande. Rico sob o ponto de vista agrícola, pois como acima referi, era local de terras férteis e muito produtivos a darem duas ou três colheitas diferentes durante um ano, terras que, como então se dizia, não precisavam de descanso; belo porque visto do Mimoio ou da Ladeira proporcionava uma ampla e verdejante planície onde os campos divididos por harmónicas e bem delineadas paredes, entrelaçados por simétricos atalhos, com um ou outro “maroiço” aqui ou além e repletas de milho, de favas, ou de trevo, formavam, juntamente com o serpentear das casas branquinhas da rua homónima, um espectáculo deslumbrante e enternecedor.

Muito bem estiveram os nossos antepassados ao dar àquele lugar e àquela rua o interessante e gracioso nome de Tronqueira.

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PRIMITIVO ELENCO DA FILARMÓNICA “SENHORA DA SAÚDE”

Quarta-feira, 03.10.18

A Filarmónica “Senhora da Saúde” actuou pela primeira vez, em público, em 7 de Setembro de 1951, precisamente no arraial da véspera da maior festa da Fajã Grande – a Senhora da Saúde. Consta que a ideia de criar uma filarmónica na Fajã Grande, terá surgido dois anos antes, em 1949, precisamente no dia da Senhora da Saúde. Nesse ano a Filarmónica apalavrada para vir abrilhantar a festa da Senhora da Saúde foi a Filarmónica da Lomba, denominada “Manuel Martins”, uma das mais antigas da ilha, fundada em 7 de Agosto de 1971, precisamente no dia do padroeiro daquela freguesia, S. Caetano. Por razões estranhas e inesperadas a Filarmónica da Lomba não apareceu. Devido às dificuldades então existentes, quer a nível de comunicações, quer a nível de transportes, não foi possível contratar outra filarmónica e, para desgosto de todos e raiva de muitos, a festa fez-se sem filarmónica. Foi então que um grupo de notáveis se reuniu e decidiu que a freguesia havia de comprar uma filarmónica. Se bem o pensou melhor o fez. Com o dinheiro do leite de toda a freguesia, no primeiro domingo de cada mês de conseguiu-se comprar não só os instrumentos mas também os fardamentos e todo o restante material.

Muitos rapazes e homens aprenderam música, sob a orientação do Senhor Moniz das Lajes. Escolheram-se os melhores e, finalmente, na véspera da festa da Senhora da Saúde, a Filarmónica saiu em marcha da casa de Cima e actuou num coreto de madeira, montado no adro da igreja.

Aqui ficam os nomes do regente e dos primeiros 17 elementos que constituíram o primitivo elenco da “Senhora da Saúde:

 

  1. 1º Contra Baixo – Álvaro do Raulino
  2. 2º Contra Baixo – José do Lucindo Cardoso
  3. 1º Bombardino - Ângelo Mancebo
  4. 2º Bombardino - António de José Cardoso
  5. 2º Trombone – Roberto do Cristóvão
  6. 1º Trombone –Rafael da Mariana Felizarda
  7. Saxofone – José Furtado
  8. 1º Trompa – José Fragueiro
  9. 2º Trompa –João Fagundes
  10. 1º Cornetim – José Lourenço
  11. 2º Cornetim –Manuel de José Cardoso
  12. 1º Trompete – José Santos
  13. 2º Trompete – Luís de Abrão
  14. Clarinetes - João Cardoso, Jesuíno, José do Gil e Albano
  15. Requinta – José Lucindo
  16. Bombo e Pratos – José Felizardo
  17. Tarola – António de Abraão.

       Maestro – José Mancebo.

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publicado por picodavigia2 às 00:05

CESTOS DEBAIXO DA LENHA

Terça-feira, 02.10.18

Outrora, na Fajã Grande, pelo menos um dia por ano, a garotada da escola era recrutada para acarretar e arrumar a lenha do senhor padre, na enorme loja que ficava nos fundos da sua casa.

Depois de transportada por carros de bois, a lenha era serrada, cortada e “rachada” com serras e machados, puxados por valentes braços, que não se poupavam a esforços, nos domingos à tarde, pois cuidava-se que, sendo destinada ao pároco, não era pecado trabalhar ao domingo, até porque de graça.

Finalmente a tarefa do arrumo da lenha, na velha e esconsa loja da casa paroquial, era da exclusiva responsabilidade da garotada da freguesia. Apesar do esforço que a sua consecução exigia, a tarefa era ardentemente desejada pela maioria das crianças, porquanto, por um lado, correspondia a uma folga da escola e, por outro, terminava sempre com um cálice de licor caseiro e alguns biscoitos ou figos passados.

Por isso, em mais uma tarde em que a senhora professora anunciou que os rapazes, no dia seguinte, não precisavam de trazer os livros e a sacola, porque iriam acarretar e arrumar a lenha do senhor padre, poucos foram os que se assumiram como objectores de consciência à sacrossanta tarefa. No entanto como a senhora professora ameaçasse que os que não fossem ficariam a fazer cópias, ditados e contas de dividir o dia inteiro, todos optaram por colaborar no arrumo da lenha, embora alguns o fizessem bastante contrafeitos.

Mas o pequeno grupo dos presumíveis objectores de consciência não desistiu, por completo, dos seus intentos, decidindo-se pela sabotagem da tarefa, jurando que se haviam de vingar.

A sede de represália açulou-se, quando a meio da tarde, com quase toda a lenha já arrumada e empilhada, a irmã do senhor padre, como de costume, apareceu com dois cálices, uma garrafa de licor de ananás e um pratinho de biscoitos, declarando antecipadamente:

- É só um biscoito para cada um! E licor, só meio cálice que é para não fazer mal aos meninos!

- Biscoitos, pelo menos, podiam ser dois, que não fazem mal! - Propôs um dos mais destemidos ao qual se juntou um coro de apoio e, simultaneamente, de protestos. Estes, no entanto, de nada serviram e esbarraram com a persistência da senhora, que permanecia na sua:

- É só um biscoitinho a cada menino! E nada mais!...

Os iniciais objectores de consciência foram aos arames e retiraram-se revoltados. Que aquilo não podia ficar assim! Que agora sim, tinham razões de sobra, para se vingarem. Ó, se tinham! E os cestos onde haviam acarretado a lenha eram o que mais tinham à mão.

Não demorou muito, a vingança. Num ápice todos os cestos se eclipsaram como que de forma mágica, sendo, habilmente, enterrados e escondidos entre as achas da lenha, de forma a que mais ninguém lhes pusesse a vista em cima, a não ser passados alguns meses, na altura de retirar a lenha nos sítios onde haviam sido soterrados.

Bem aflito se viu o pároco, porque sendo os cestos emprestados não os pode devolver, de imediato aos seus donos. Bem procurou, bem coscuvilhou e mandou escarafunchar em tudo o que era sítio, não lhe passando pela cabeça que estariam debaixo da lenha tão bem arrumada e direitinha.

O desaparecimento dos cestos causou grande consternação na freguesia e foi alvo de grandes comentários e de inúmeras suspeitas.

Mas descobrir os ladrões dos cestos foi de todo impossível., simplesmente porque não os havia. «E que afinal os cestos não haviam sido roubados mas sim muito bem guardados debaixo da lenha. E qual não foi a revolta do reverendo, quando, meses ais tarde, os descobriu, debaixo da lenha.

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publicado por picodavigia2 às 00:03

O VELHO E O MAR

Segunda-feira, 01.10.18

Era uma vez um velho e pobre pescador que passava os seus dias sentado sobre as rochas negras e escarpadas do baixio, olhando indefinidamente o mar. As rugas e gilvazes do seu rosto prefiguravam as ondas altivas e temerosas do oceano, os seus cabelos brancos selvaticamente desalinhados refletiam a crispação de ventos e procelas, mas os seus olhos, pérolas azuis que com o tempo haviam perdido o brilho, continuavam a desbravar neblinas e caligens e as suas mãos, detendo-se de forma inquietante em prolongada tremulação ainda apontavam portos e escolhos.

Perto dali o seu cardenho, refúgio decrépito nos dias chuvosos de Inverno e abrigo remediador das noites escuras e friorentas. Os filhos haviam partido para bem longe, na procura de melhor vida e a companheira que com ele partilhara perigos, consumições e penúrias falecera há muito. Estava só, mas a presença quotidiana do mar obliterava-lhe o sentimento inquietante com que a existência o estigmatizara – a dor. O mar era para ele um retorno contínuo e prolongado aos tempos áureos da faina marítima, em que diariamente partia com o barco cheio de esperanças e desejos e arribava com ele umas vezes carregado de peixe, outras da certeza do amanhã ser melhor e outras de coisa nenhuma. Apenas quando os temporais invernosos o impediam de arriar, se entretinha, em terra, a remendar redes e enchelevares.

Agora passava os seus dias ali, a olhar o horizonte, a ouvir o barulhar das ondas e o canto das gaivotas, a receber as carícias da brisa matinal e os calafrios do vento norte, enrugando-lhe cada vez mais o rosto enegrecido.

E um dia, um dia em que o velho e pobre pescador prolongara a sua estadia sobre as rochas até que a noite descesse por completo sobre o oceano e o luar prateasse a tranquilidade das águas, um dia em que os seus olhos já não vislumbravam horizontes ou marés e as suas mãos já não eram capazes de segurar o caniço, lançar a nassa ou manobrar o leme, o velho pescador viu uma onda enorme e doirada aproximar-se. Cavalgava-a um lindo menino de olhos azuis e cabelos também doirados. A onda, à medida que se aproximava das rochas, ia crescendo, crescendo, até que se transformou num gigantesco barco, que o menino governava com a destreza de um velho marinheiro. O barco fundeou e atracou às rochas com descomunal perícia. O menino aproximou-se a estibordo, estendeu as mãos para o pescador:

- Vem! Vem comigo! Salta para o meu barco que também é teu!

O pescador, sem hesitar, saltou para o barco com tanta agilidade como se tivesse vinte anos. Este afastou-se lentamente das rochas e partiu desbravando as ondas com a velocidade dos raios e a solidez das montanhas. Percorreram oceanos cruzando-se com navios de todos os países e nacionalidades, atracaram em portos abarrotados de paquetes e iates, visitaram cidades grandiosas, alojaram-se em hotéis de luxo e conviveram com homens de todas as raças e cores. E o coração do velho pescador encheu-se de alegria e felicidade.

Mas algum tempo depois, o barco regressou às rochas donde partira e o velho voltou a ouvir o barulhar das ondas, cada vez mais prateadas pelo luar daquela noite que parecia infinita.

E uma nova onda aproximou-se da rocha onde o velho se sentara novamente. Trazia outro menino, lindo como o primeiro, mas com os cabelos castanhos e os olhos pretos como as azeitonas. Como a outra, a nova onda começou a crescer, a crescer, até se metamorfosear num enorme avião, que se aproximou lentamente das rochas. Abriu-se uma porta e estendeu-se uma escada para sítio onde pobre pescador permanecia. No cimo da escada, o menino de cabelos castanhos e olhos pretos, acenou-lhe e chamou-o. O velho não hesitou e entrou com a mesma agilidade com que entrara no barco. Sob o comando do menino o avião descolou e partiu, voando sobre as nuvens, com a velocidade do vento e a tranquilidade das estrelas. E o velho pescador voltou a sentir-se jovem, muito jovem. Aterraram em aeroportos de inúmeros países e de vários continentes, visitaram cidades com castelos medievais e catedrais renascentistas, percorreram ruas repletas de arranha-céus e estradas ladeadas por árvores frondosas, sentaram-se em esplanadas coloridas e tropicais, nadaram em praias cálidas e de águas cristalinas, sob o calor tórrido do Sol equatorial. Mas, assim como o barco, também o avião regressou e o velho voltou a sentar-se sobre a rocha.

A noite já ia longa, mas o pobre pescador ainda viu aproximar-se uma terceira onda, maior do que as outras, que inesperadamente se transformou num enorme edifício. Era um prédio altíssimo, com telhado de marfim, varandas de ébano e janelas de cristal. Sobre a enorme porta de entrada, uma placa iluminada com tons de azul, violeta e vermelho anunciava - ARGONAUTA, Lar de Terceira Idade, para Pescadores. A porta abriu-se e surgiu uma menina com tranças de cetim e olhos de safira. Abriu os braços na direcção do pescador e convidou-o entrar. E o velho sentiu-se ainda mais jovem do que durante as viagens que acabara de fazer. A menina conduziu-o por corredores e salas onde muitos outros jovens, uns desconhecidos, outros seus antigos companheiros da faina marítima, dançavam ao som de doces melodias. Todos irradiavam felicidade, alegria e bem-estar, E o velho pescador sentiu-se como se estivesse na sua própria casa e aquelas pessoas fossem a sua família. Finalmente, a menina deu-lhe a mão e conduziu-o à última sala. Abriu a porta e o velho pode ver os outros dois meninos, que o haviam acompanhado nas viagens de barco e de avião. As três crianças formaram um circo em volta do velho pescador e em uníssono cantavam e dançavam:

- Viemos para te dizer que neste reino a idade não conta, porque não há guerras, não há ódio, nem há mentira. Não há novos nem velhos, nem ricos nem pobres, nem tristes ou desgraçados. Todos somos felizes porque todos possuímos a inocência da paz, a dignidade do amor e a doçura da verdade.

De repente os meninos desapareceram e uma estranha mas suave música se fez ouvir e o velho pescador voltando a sentar-se na rocha, encostou-se a uma pedra e, fechando os olhos, olhou indefinidamente o mar.

E só quando o crepúsculo se desvaneceu por completo e o Sol apareceu a iluminar um novo dia, a voz de uma outra criança de pés descalços e monco a escorrer-lhe pelo nariz e que não sabia comandar barcos, nem pilotar aviões, nem sequer cantar ao redor dum velhinho, apontando para as rochas onde o pescador permanecia sentado, anunciava pelas vielas da pequena aldeia piscatória:

- Morreu o ti Manel Eiró! O ti Manel Eiró morreu!

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publicado por picodavigia2 às 00:05

A MANHÃ DO DIA SEGUINTE

Domingo, 30.09.18

Todos os anos, no verão, chegavam à freguesia muitos visitantes. Uns vinham do continente, outros do Faial ou da Terceira, alguns de São Miguel e muitos, a maioria, da América. Quase todos eram antigos habitantes. Uns haviam partido há muitos anos, outros há pouco. Mas todos regressavam de visita, para matar saudades, para mostrar aos filhos ou netos as belezas da terra onde haviam nascido e, no caso dos americanos, geralmente para pagar uma promessa ao Senhor Espírito Santo.

Um verão houve, em que entre outros, chegou à freguesia um casal vindo de Lisboa. Visitavam a terra dos seus avós. Pela primeira vez. Hospedaram-se na casa de uns parentes e vinham acompanhados duma filha. A menina devia rondar os vinte anos. Chamava-se Elizabete, nome muito esquisito e estranho na freguesia. Elizabete era muito bonita. Rosto macio, alvo de neve a esboçar, permanentemente, um delicioso, meigo e ternurento sorriso. As faces eram rosadas e os olhos esverdeados. O cabelo muito sedoso e quase louro. Prendia-o na nuca com uma enorme prisão, acentuando-lhe um cariz juvenil, pleno de graciosidade. O seu corpo, o seu andar, todos os seus movimentos se envolviam, permanentemente, num manto de simplicidade, fluidez e elegância. Muito delicada e comunicativa, sorria a quantos com ela se cruzavam, mesmo que lhe fossem totalmente desconhecidos. Resplandecia alegria, irradiava elegância e beleza e falava com toda a gente. Sem vaidade, sem orgulho. A rapaziada da freguesia não se continha! Entrou num frenesim, não disfarçando olhares, desejos e vontades. Numa palavra, encantaram-se com a menina. No entanto quem mais se empolgou e fascinou com Elizabete foi o filho do João Cambado, o Bernardo.

Bernardo era um pobre diabo! Tinha tudo para ser desafortunado e infeliz. A natureza dotara-o de uma fealdade telúrica, duma hediondeza profunda. Um Quasimodo sem corcunda! Além disso, coroara-o uma calvície prematura e enraizara-se-lhe uma acentuada falta de visão, corrigida, parcialmente, com uns óculos de ares redondos e lentes grossíssimas que lhe tornavam os olhos minúsculos, quase invisíveis. Para atenuar as limitações visuais, colocava, frequentemente as mãos sujas e gretadas sobre os olhos e assim ficava, por momentos, a olhar fixo para o que quer que fosse, numa tentativa de descortinar melhor o que pretendia ver. A casa uma lástima e a família um desmazelo. O pai um pobretanas que não tinha onde cair morto. Não tinha terras e quase não trabalhava para fora, que ninguém o queria, nem a dias nem muito menos de empreitada. A mãe uma desleixada que nem da casa ou das roupas cuidava. Viviam numa miséria aberrante. Sustentava-os a caridade dos vizinhos e algum alqueire de milho que o rapaz conseguia ao dar dias para fora. Mais pela generosidade de quem o contratava do que pelo trabalho que produzia. De resto, pão de milho rijo que nem um corno, por vezes bolorento, migado num café de favas era cardápio diário em casa do Cambado. Pai e filho a pingar lama, mãe a cramar das aduelas e a casa que nem se poderia entrar. Um louvar aos céus!  

Certa tarde, porém, ao regressar a casa, Bernardo decidiu passar frente à casa onde moravam aqueles senhores do continente que tinham uma filha muito bonita. Vira-a, dias antes no arraial da Casa de Baixo e ficara fascinado. No momento em que passava, Elizabete surgiu à janela. Viu-o e sorriu. O mais belo sorriso que Bernardo, apesar da sua genética cegueira, alguma vez vira. Mais se fascinou e mais se empolgou pela rapariga. Não se conteve e foi desabafar com o Câncio. Estava apaixonado.

- Quem é a feliz contemplada? – Indagou o Câncio, com ar de gozo.

Ao princípio embatucou. Mas como o Câncio insistisse, muito envergonhado lá desembuchou. Ui! Que sortudo! E ela, e ela?

Mas o Câncio não era de se calar com o que quer que fosse, muito menos com tão deslumbrante segredo do Cambado. Um cesto de penas de galinha atiradas do cimo da Rocha, em dia de vento, não se espalhariam mais depressa. No dia seguinte toda a malta a meter-se com o palhoco do Bernardo.

Ele envergonhíssimodo. Vermelho que nem um pero. Uma chacota como nunca se vira.  

Mas nem por isso o Bernardo acobardou e, apesar, dos risos, dos gracejos e até dos insultos de alguns dos mais velhos, continuava a passar, sempre que podia, em frente à casa onde morava Elizabete. Contentar-se-ia em vê-la de longe, em saber que ela estaria perto de si. Por vezes, enganava-se. Confundia-a com outras mulheres, quando de mãos sobre os olhos, como se fossem palas a evitarem-lhe o sol, olhava apalermado para qualquer sítio onde cuidasse que ela estivesse.

Ela, no entanto, continuava a aparecer à janela, a andar por aqui e por ali. A lançar-lhe, na sua inocente simplicidade, sorrisos atrás de sorrisos. E ele, tentando alienar-se da chacota de que era vítima, começava a cogitar em qual seria a melhor forma de se aproximar dela, talvez de lhe entrar pela porta dentro, a fim de a ver melhor, de a observar de perto. Encheu-se de coragem. Um punhado de maçãs da horta do Rosa. Apanhar do caminho não é roubar. Além disso, não eram para ele. Eram para ela. Muito a medo, lá foi, com as maçãs. Ao lusco-fusco e pela porta da cozinha para que os ui monços não o vissem. Ninguém havia de fazer pouco dele. Bateu, esperou um pouco e ficou lívido. Era a mãe. A menina não estava. Numa segunda tentativa foi mais feliz. Levava-lhe uns cachitos de uva… Sabia que ela estava. Tentou entrar. Aproximou-se, mas a voz entupiu-se, o rosto avermelhou-se e corpo tremia-lhe. Ela muito aflita sem saber o que dizer ou o que fazer.

Nos dias seguintes amainou, pese embora soubesse que não conseguiria aproximar-se dela. Contentava-se em vê-la de longe, de saber onde ela estava. Depois, lá lhe foi batendo à porta, vezes sucessivas. Três cachos de uva, uma cestinha de batatas-doces e até dois ovos que a vizinha Glória oferecera à mãe. Não entrava. Tinha vergonha. Além do mais, ela nem o convidava para entrar. Sempre fora da porta, sempre sem grandes conversas, sempre com agraciamentos e um não se havia de ter incomodado. Por fim aquele sorriso que, desde a primeira vez que a vira, o cativara. Podia ser pobre, tosco, cegueta, mas tinha coração. Ai se tinha! Gostava dela! Amava-a de verdade. Uma paixão infinita e incontrolável como nunca tivera. Mas era uma existência negra a sua. Sabia que ela nunca havia de o amar e sabia que o verão estava a chegar ao fim, e ela, em breve, havia de regressar a Lisboa. Nunca mais a veria. Só lhe restava esta mágoa, este desgosto!

Quando na primeira noite depois de ela partir, ao deitar sobre aquele amontoada de casca de milho, coberto com uns cobertores avermelhados e muito sujos, os olhos toldaram-se por completa e grossas lágrimas perderam-se nos negrumes dos cobertores. Lá fora a noite escurecera por completo. Um nevoeiro denso, incomodativo que de tarde cobria apenas meia rocha, agora descia molhado sobre o povoado. Com ele viera um vento suave, quase impercetível. Fora da porta ouviam-se vozes. Mais distante o roncar emperrado do motor de um automóvel. Ao longe o silvo de um navio. Navegava à deriva. Sem mastros, sem velas, sem luzes e sem marinheiros. Transportava um único passageiro. Reconheceu-a. Era ela. Num ímpeto tresloucado lançou-se ao mar. Começou a esbracejar como se nadasse com quantas forças tinha, na mira de alcançar o navio, de a salvar. Impossível! Ondas altivas e alterosas impediam-no de nadar e uma bruma negra e densa não lhe permitia enxergar o que quer que fosse. Além de que a chuva, o vento e o frio, que se juntaram naquela hora, enregelavam-no por completo. Tremia dos pés à cabeça. Apesar de içado do meio de ondas alterosas tremelicava gemia, suspirava e aos poucos parecia que se perdia, por completo, no meio daquele enorme turbilhão. De repente, uma mulher de uma beleza rara e invulgar mas de mãos enormes, muito peludas e cheias de rugas impedia-o de se afogar. Aos poucos a escuridão desvanecia-se por completo. A chuva, também amainava. A mulher das mãos grandes e peludas partira. Bernardo acordou, sobressaltado. Era o início da manhã do dia seguinte.

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O CILINDRO

Sábado, 29.09.18

Quando os empreiteiros que construíram o troço de estrada entre o Porto e a Ribeira Grande chegaram à Fajã, trouxeram apenas o material de apoio que a ilha não dispunha. O restante foi construído e fabricado por eles próprios, já depois de ali se terem fixado e iniciado as obras.

Foi o caso dos cilindros. Rasgado e alisado o trajecto por onde a estrada passaria era necessário colocar entre este e a camada de bagacina, uma outra de cascalho, obtido através de pedras partidas em pequenos pedaços. O cascalho, porém necessitava de ser bem prensado e comprimido a fim de que ficasse de tal maneira consolidado que a futura estrada não se desfizesse. Para tal eram necessários cilindros grandes, fortes e pesados.

O primeiro cilindro, de pedra e cimento. a ser construído, ali junto ao Matadouro, entre a Via d’Água e o Porto, era enorme e pesadíssimo. Só que o seu tamanho exagerado e o seu peso desmesurado, em vez de atingirem o desiderato para que havia sido construído, criaram um gravíssimo problema: é que o cilindro de tão pesado que era, nunca permitiu às limitadas forças motoras exentes na freguesia – uma camioneta e meia dúzia de juntas de bois atreladas umas atrás das outras – conseguissem movê-lo, um centímetro que fosse, do próprio lugar onde tinha sido construído. Perante tal e inultrapassável imbróglio, foi arquitectado um novo cilindro, mais pequeno e mais leve, enquanto aquele mamarracho ficou anos e anos ali parado, com a interessantíssima vantagem de apenas ter dado nome àquele local, que passou a chamar-se “o Cilindro”.

Há alguns dias telefonei a um amigo de infância e perguntei-lhe pelo cilindro, se ainda lá estava? Que não, que lhe tinham espetado umas velas de dinamite, desfazendo-o por completo e atirando os seus cacos para o mar, mesmo ali perto, na Baía d’Água! Estarreci de espanto e perguntei a mim mesmo: - “ Então não era de se guardar e conservar aquela relíquia e, talvez um dia quando se construísse ali uma rotunda, dado o local ficar num cruzamento de três caminhos (Porto, Furnas e Centro da Freguesia), se colocasse o dito cujo no meio da mesma a dar-lhe, para a posteridade, o nome de “Rotunda do Cilindro”?

Responda quem souber. Mas em minha opinião, o cilindro não merecia tão vil, abominável e energúmeno destino.

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O SILÊNCIO DAS PEDRAS

Sexta-feira, 28.09.18

Aproximou-se da borda do velho batel e vomitou pela quinta vez. O Faial ainda ali, bem perto. As Flores, a milhas. Uma noite infinita à sua frente. Cambaleava, entontecido. Fez um esforço de recuperação e voltou à cadeira que, anteriormente, ocupara. Embora ardesse em enjoo, tentou acalmar os nervos e dormir. Só pela noite dentro o conseguiu. Quando acordou, o sol projetava-se em arco-íris sobre as Flores coberta, a norte, por uma chuva miudinha e persistente. Enfim! Depois duma intrigante viagem, entre o constante marulhar do oceano e a ronçaria do velho batel, chegava ao seu destino.

Oficial de pedreiro, oriundo de Vila Franca do Campo, esperava-o a gigantesca tarefa de erguer um templo em honra de São José, debaixo daquelas rochas, envoltas, permanentemente, em brumas e nevoeiros. Ali ficaria encurralado, invernos a fio, verões atrás de verões, impedido duma fuga até à ilha natal, simplesmente, a ver crescer, a passo de caracol, aquela obra monumental, à espera de que lhe chegasse o fim! Dessa, sim! Depois de pronta, dela havia de ufanar-se! Pela primeira vez, abdicara dos pequenos casebres de pedra negra, de Ponta Garça e da Ribeira das Tainhas, a fim de se dedicar a uma obra gigantesca, histórica. Nado e criado naquela que foi, durante o primeiro século de povoamento açoriano, a mais importante povoação da ilha de São Miguel, nela se fixando as principais instituições oficiais, como a Alfândega e a Ouvidoria, de onde o epíteto de "primeira capital micaelense", vagueava, sempre que lhe apetecia, à Lagoa, a Ponta Delgada, por vezes, até à vizinha ilha de Santa Maria. Mas ali, entre mar e rochas, estava numa espécie de jaula, preso como um condenado, sujeito ao isolamento, à solidão.

Não demoraram muito as agruras deste sufoco. Enganara-se. Por sorte ou por destino celeste, em frente ao enorme cerrado, onde se desenhavam os alicerces do novo templo, uma pequena casa, de pedra negra, ombreiras de tufo avermelhado, coberta de palha, mas de portas e janelas sempre abertas. Ela, a dona, a Júlia, sempre meiga, sempre sorridente, sempre conversadora, sempre disposta a vir trazer um velho jarro de barro cheio de água, fresquinha e apetitosa.

Júlia era o de que mais belo e atraente havia no povoado. Júlia era uma mulher ainda jovem, duma beleza rara aliada a uma bondade extraordinária e a uma generosidade inédita. Além disso era uma mãe extremosa, uma esposa dedicada, sempre pronta a ajudar o marido nas lides agrárias e nas sementeiras. Embora, aparentemente, imbuída de uma ar sério e de uma postura sóbria, Júlia era divertida, afável, enfim, um belo exemplo de virtudes e de dignidade. No entanto, o que mais, estranhamente, a caracterizava era o facto não apenas saber ler e escrever mas, sobretudo, ser possuidora duma cultura invulgar. Fora o vigário que, quando criança, a iniciara nas letras, despertando-lhe um interesse inusitado pela leitura. Quando jovem devorou, num ápice, quantos livros o vigário possuía na sua pequena biblioteca, desde os velhos manuais de teologia e das vidas de santos até aos mais interessantes clássicos da literatura mundial.

Foram os Miseráveis de Victor Hugo, a última novidade que o vigário adquirira, um excelente livro, daqueles que se leem duas ou mais vezes que moldou o coração de Júlia e a tornou extremamente sensível ao sofrimento dos outros. Era uma extensíssima narrativa, um romance interessantíssimo que Júlia devorou em menos de um mês e onde a ficção se envolvia com a história, com a filosofia, com a moral, com a religião. Narrava a vida de Jean Valjean e de variadíssimos personagens que com ele enriqueciam a narrativa, testemunhando a miséria e a pobreza da sociedade francesa da altura. Júlia leu-o três vezes. Leu-o e assimilou, na perfeição, a mensagem.

Enquanto isso, as paredes do novo templo iam-se erguendo lentamente. João Rodrigues, apesar de tolhido pelo cansaço, a abarrotar de calor e de sede, deslumbrava-se com a figura enigmática de Júlia que, apesar de, inequivocamente, o perturbar, aliviava-o mais do que a frescura da água do cântaro que ela trazia para lhe matar a sede. Um gesto inebriante de ternura, o dela. Um reconfortante auxílio para ele, que simplesmente ao vê-la estremecia e meneava como se fosse a chama duma vela acicatada pelo vento. Inicialmente, apreciava-a como mulher atraente, bela, generosa e solidária. Mais tarde, passou a vê-la como amiga solícita, íntima, sincera, desinteressada com quem partilhava tristezas, alegrias, solidão e conforto. Por fim um enorme tufão, vindo não sabia de onde, moldou-lhe a alma e atirou-o para uma paixão incontrolável, desmedida, infinita. Amava Júlia como nunca amara ninguém. E agora? Estava encurralado num beco do qual dificilmente sairia. E ela? Também o amava? Não sabia. Uma dúvida tremenda destruía-o, minava-o, assolava-o por completo. A porta sul do templo já se erguia destemida e arrogante, mas a obra emperrava num contínuo e desmesurado insucesso. Como o constante rugido do vento norte, em noites de invernia, amedrontava-o a enorme paixão que por ela sentia. Mais. Aniquilava-o, desfazia-o por completo. É verdade que as visitas e encontros se sucediam, mas eram rápidos e vagos, balanceados entre um sorvo de água, uma conversa incompleta, um olhar de compaixão, um desejo infinito de a possuir, de a amar. Mesmo quando ausente a sua imagem trespassava-o, turvando-lhe o olhar, entontecendo-lhe o espírito, apertando-lhe o coração.

Os dias passavam, ora amargos a quando da ausência dela, ora dulcificados com a sua presença. A fachada principal do templo já tomava forma e a torre sineira delineava-se, firme e altiva como que perfurando os ares, como que unindo a terra ao céu. Ele cada vez mais apaixonado, mais louco, mais desfeito não tanto pelo cansaço da obra mas, sobretudo, pela incerteza duma paixão, cuja correspondência era uma enorme indefinição. A sua alma sentia-se, em cada manhã, inundada de uma serenidade maravilhosa, harmonizando-se com cada gole de água fresca que ela lhe oferecia e que fruía com uma esperança inusitada. Abandonado à casualidade de frugais encontros saciava mais a agrura da paixão da alma do que a funesta sede do corpo. Era feliz, mergulhando apenas na esperança de mais um sorvo de água fresca que as visitas dela lhe proporcionavam. Se pudesse, ao menos, exalar, sequer, um pequeno afluxo de quanto lhe ia na alma, atingiria a plenitude. Mas pelo contrário, sempre que ela se aproximava com um ar de aparente indiferença, ele afrouxava, desfalecia, sucumbia perante a força do descalabro de mais uma visão.

Se algum dia ela não aparecia, invadia-o um silêncio profundo, uma mágoa lúgubre, um entorpecimento estranho. Nos dias em que ela sorridente e feliz, se aproximava de cântaro apoiado na cintura, João Rodrigues tentava em vão encontrar no instinto confuso dos seus sentimentos, na profundidade da sua paixão, a força necessária para abrir a sua alma e anunciar o seu sufoco. Subitamente, obstruía-se-lhe a voz, como se estivesse sob um pesado alçapão, uma laje basáltica, semelhantes às que agora alçava nas roldanas e muito a custo colocava nos degraus interiores da torre sineira.

Uma sascadela tremenda! Uma pedra enorme tricara-lhe o ombro, entrando-lhe na carne viva, provocando-lhe uma enorme ferida. Cerrou os dentes, e arqueou-se, num ímpeto., espargindo um grito de agonia. E foi a dor que lhe trouxe a coragem. Na manhã seguinte, quando Júlia, depois de muito hesitar, lhe bateu à porta do velho casebre, confessou, sem lhe dar tempo de retorquir ou sequer de se opor. Com quanto ímpeto pôde, lançou-se-lhe tudo quanto lhe ia na alma. Uma paixão do tamanho do mundo. Amava-a, com nunca amara ninguém. Pensava nela todo o dia, toda a hora, todo o momento e a sua imagem acompanhava-o durante a noite inteira. Quando a encontrava ele sentia-se na presença duma deusa. Feridas dolorosas lhe causavam a sua ausência. Eram farpas duras que lhe rasgavam o peito. Erguia-a, como soberana, no seu quotidiano. Impunha-se como senhora do seu destino. Adorava-a, como deusa, em cada momento. Soluços escarlates esmagavam-lhe o rosto. Ela, apática, indiferente, como se nada fosse.

Passada a turbulência da inédia confissão, João Rodrigue enxugou duas lágrimas que lhe corriam dos olhos e olhou-a. Então?! Como não recebesse qualquer resposta, recuou solitário à leviandade da sua ousadia. Mas era tarde. Ainda esperou, ansioso, uma derradeira resposta, uma reação final. Nada. Por fim, Júlia, com uma normalidade arrepiante, esclareceu. Sabia, desde há muito. Os seus gestos, as suas atitudes, os seus olhares, as suas palavras… Tudo o denunciava. Sabia muito bem que ele vivia sob um sufoco, enfeitiçado com a diabólica loucura duma paixão que nunca havia de ser correspondida, paixão que o cegava e lhe perturbava o entendimento, que o impedia de ter consciência dos seus gestos, das suas atitudes. A verdade, porém, é que ela não o amava, nem nunca haveria de o amar. Apreciava-o muito, tinha por ele uma enormíssima amizade. Nada mais.

João Rodrigues insistiu, continuou a despejar sobre ela quanto lhe ia na alma. As palavras, porém, fugiam-lhe. Hesitava e voltava a avançar de novo. O peito ardia-lhe, a cabeça já lhe andava à roda e parecia-lhe não sentir o próprio corpo. Envergonhado, desejava que aquele momento nunca tivesse existido. Mais duas lágrimas rolaram-lhe pelo rosto num sofrimento sem limites. Ela, insensível, fria, como se nada fosse. Condenava-o, recriminava-o, tentava afastá-lo.

Num ímpeto, João Rodrigues afastou-se. Ela fora muito clara: Não se importaria de continuar a visitá-lo, de acompanhá-lo, mas somente como amiga. Se pudesse até dava uma volta ao mundo na sua companhia, mas não o amava e, por certo, nunca havia de amá-lo. Como um náufrago no alto mar, João Rodrigues percebeu que a salvação só lhe viria do acaso. Afastou-se, desesperado, angustiado, a abarrotar de sofrimento e angústia. Apenas ouvia o silêncio sepulcral e aterrador das pedras que amontoadas em frente à fachada do templo aguardavam que as colocasse lá bem no alto, onde haviam de permanecer, silenciosas, para sempre.

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O BIGA BIGA

Quinta-feira, 27.09.18

O Manuel Dionísio nasceu pobre e surdo-mudo. Como se isso não bastasse, pouco tempo depois, ficou órfão de pai e, mais tarde, de mãe. Ficou sozinho mas sobreviveu. Uma diminuta courela nas traseiras da casa onde morava, a dar um ou dois cestitos de batatas, meia dúzia de pés de couve e outros tantos de milho, a pequena e mal trabalhada quinta da Cabaceira a abastecê-lo de lenha, de maçãs e a permitir-lhe cultivar alguns pés de inhame e era tudo o que tinha. Num pequeno curral colado a uma das empenas da casa, que a outra era geminada com a do Catrina, ia criando uma ou duas galinhas. Era disto que o Manuel vivia!

Era meu vizinho, apenas com a casa do senhor Faroleiro a interpor-se entre a de meus pais e a dele. Conheci-o já de idade avançada. Passava as tardes à janela da sala que ficava voltada para o caminho, a dormitar calma e tranquilamente. Os rapazes bem lhe gritavam, mas acordá-lo, obviamente, é que não conseguiam.

Quer porque fosse pela idade de meu pai, quer porque a sua casa ficasse a dois passos da nossa, o Manuel fez do meu progenitor o seu maior amigo. Daí que ambos se entendessem perfeitamente. O Manuel também se afeiçoou a mim, embora nada entendesse do que ele me tentava dizer. Comunicava por gestos e apenas balbuciava uns sonantes “Biga-Biga”. Por isso ficou a chamar-se Manuel Biga-Biga ou simplesmente o Biga-Biga. Nunca ouvi ninguém tratá-lo por senhor…

Certa tarde em que estávamos em casa com a minha mãe bateram-nos à porta. Era o Biga-Biga e trazia dois ovos. Por gestos começou a explicar o porquê da sua visita e a razão por que trazia os ovos. Meu pai não estava em casa e minha mãe, inicialmente, não o entendeu. Só quando o Biga-Biga começou a movimentar o corpo para trás e para diante, como que a imitar um acasalamento, ela compreendeu ao que vinha - apenas queria trocar os dois ovos. É que tinha só uma galinha e ela estava choca. O Manuel queria criar pintos e, como sabia que minha mãe tinha galo, vinha pedir-lhe para trocar os ovos.

Minha mãe foi ao armário, guardou os dois ovos que ele trazia mas deu-lhe três.

Passado algum tempo o Manuel regressou a nossa casa. Trazia uma cestinha e dentro dela, três pintainhos. Descobriu-os e, por gestos, perguntou à minha qual deles queria.

Minha mãe não aceitou nenhum e o Biga-Biga voltou para casa, felicíssimo, com os seus três pintainhos.

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PASSO LENTO

Quarta-feira, 26.09.18

"É melhor um passo lento por caminho recto do que muita velocidade fora do caminho."

(São Leão Magno, teólogo e papa – sec. V)

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publicado por picodavigia2 às 16:23

UMA CEIA DE PAPAS

Segunda-feira, 24.09.18

O Grotas tinha sete filhas. Lindas quando crianças, depressa cresceram tornando-se ainda mais belas, o que desencadeava, diariamente, uma enxurrada de rapazes, a postarem-se em permanente corrupio, frente à sua casa.

Passado algum tempo, o necessário para que as moçoilas pudessem seleccionar os candidatos a futuros maridos, começou a faina dos enxovais e já se indicavam datas. Mesmo com sacrifício e esfoço, cada qual havia de escolher os seus padrinhos e ter, no dia escolhido, uma mesa lauta que em nada desdenhasse os maiores da freguesia. Muito preocupado com a felicidade das filhas, o Grotas analisou e voltou a analisar, minuciosamente, o currículo de cada um dos pretendentes.

Certa noite, antes de adormecer, comentou para a consorte:

- Gosto de todos, Jacinta, menos do filho do Estrinca. Aquilo não é boa cepa… Tem a quem sair…

A mulher bem o tentava demover da sua consumição. Que o rapaz parecia muito educado e trabalhador. Que os filhos não têm culpa do que fazem os pais e que a Cizaltina não era de se deixar enganar…

Mas convencer o Grotas é que não.

Quando as piquenas começaram a marcar datas, propôs-lhes, o pai, que se havia de fazer uma ceia, lá em casa. Que haviam, todos juntos, comer umas papas e que seria cada uma das filhas a convidar o respectivo namorado. Não podia haver desculpas. Todos tinham que comparecer.

As meninas ficaram muito contentes. Pela primeira vez teriam em sua casa os seus apaixonados, sentar-se-iam à mesa com eles, far-se-iam os pedidos e acertar-se-ia tudo para as bodas. No entanto e apoiadas pela mãe, não acharam nenhuma graça aquilo das papas. Não era comida que se apresentasse a ninguém de fora, muito menos aos seus futuros maridos. Uma ceia de papas era uma grandessíssima vergonha! Podia muito bem matar-se uma ou duas galinhas ou, pelo menos, cozer-se um caldeirão de couves com toucinho.

Mas o pai tinha-se decidido pelas papas e a sua vontade havia de ser cumprida.

Agendou-se a ceia para o sábado seguinte. À hora marcada todos chegaram enfarpelados nos seus fatos domingueiros.

Entraram, conversaram e aproximarem-se da mesa. Por determinação do pai, cada menina sentou-se ao lado do seu “mais-que-tudo”, enquanto ele se acomodava ao lado da sua Jacinta, cada vez mais envergonhada por apresentar, em momento tão solene, aquele miserável repasto.

Sentaram-se todos à mesa, tendo cada um à frente o seu prato fumegante e a transbordar, à espera de licença do dono da casa para iniciar o bródio. Eis senão quando, para espanto de todos, o Grotas levanta-se e com um sopro apaga a luz que frouxa e titubeante emanava de um candeeiro a petróleo, velho mas muito limpo e areado e com o vidro a brilhar como novo, gritando bem alto.

 - Agora, cada uns às suas.

Apesar de admirados com tal condescendência, todos se voltaram para as respectivas namoradas e aproveitaram aquele momento único, tão propício a uma intimidade a que não estavam habituados, para se abraçarem, para dizerem um segredo e alguns até para trocar o primeiro beijo. Todos… excepto um, o filho do Estrinca, que, abraçando-se ao prato das papas e agarrando-o com unhas e dentes, gritava bem alto:

 - Nas minhas ninguém toca! Nas minhas ninguém toca.

 

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publicado por picodavigia2 às 07:32

VINDIMAS NO DOURO

Domingo, 23.09.18

Em casa dos pais de Mariana, a vindima era feita no mês de Outubro. É verdade que não era uma folia tão animada e divertida como a desfolhada. As uvas não eram muitas mas o trabalho era árduo e pesado. O pai de Mariana passara meses e meses a podar os bacelos e a enxertar e a amarrar as videiras a estacas de pedra granítica e aos amieiros e carvalhos das beiradas que circundavam o campo onde o milho crescia a olhos vistos. Quando as vides já cobriam os bardos de um verde muito escuro e os cachos começavam a desabrochar, suspendendo-se graciosamente das latadas ou pendurando-se desordenadamente nas beiradas, o pai passava horas e horas de máquina a tiracolo a sulfatá-las uma a uma. Depois, já amadurecidas e muito apetitosas, as uvas eram colhidas e levadas em cestos para o lagar, onde eram esmagadas. Durante os dias seguintes exalava do mosto um cheiro perfumado, acre e doce que se propagava por toda a casa.

Para além destes dias verdadeiramente diferentes para Mariana, os restantes dias do ano eram de uma verdadeira monotonia. Levantava-se cedo e seguia para a escola, onde fazia ditados, resolvia problemas, estudava os rios e as serras, os reis e as batalhas, os vertebrados e invertebrados. Na hora de leitura a senhora professora juntava todas as meninas à volta da secretária, por trás da qual ficavam, ladeando um crucifixo pendurado na parede, as fotografias de Craveiro Lopes e Salazar, para lerem à vez e contarem histórias. Terminadas as aulas regressava a casa, ajudava os pais, tomava conta do Zezito e fazia as cópias e as contas que a Dona Ermelinda mandava. Apenas os domingos e os dias de festa em que os pais não trabalhavam no campo eram diferentes.

A festa que Mariana mais adorava era o Natal. Todos os anos faziam, na sala, um enorme presépio com as figurinhas de barro que a mãe trouxera das Caldas: o Menino Jesus, Maria, José, os três Reis Magos, os anjos, os pastorinhos e muitos aldeões que circulavam à volta da gruta, por caminhos cobertos com serrim de madeira e ladeados por casinhas também de barro e por leivas de musgo a imitar os campos onde pastavam as ovelhitas. Mas o que Mariana mais ansiava era a noite de Natal. Nessa noite a ceia era na sala e a mãe enchia a mesa de iguarias deliciosas que aprendera a fazer com a avó da Trofa: rabanadas, formigos, aletria e sopas secas que enchiam a casa de um agradável cheirinho a canela. Terminada a ceia partiam, às vezes com o Zezito já a dormir, para a missa do galo.

O pai ficava cá fora com os homens, enquanto ela e a mãe entravam na igreja, sentavam-se e esperavam em silêncio ou rezavam baixinho, até que o sacristão, viesse tocar uma campainha, anunciando que a missa ia começar. Os homens que aguardavam lá fora entravam para o coro e para os lugares do fundo, enchendo a igreja por completo. Toda a gente se levantava e fazia-se um enorme silêncio. O pároco saia da sacristia todo vestido de branco e, segurando na mão o cálice devidamente coberto com um véu esbranquiçado, dirigia-se para o altar-mor, fazia uma enorme genuflexão e bichanava as primeiras orações em latim, às quais apenas o sacristão respondia. O povo, de joelhos batia com a mão direita no peito e inclinava a cabeça. Pouco depois, o padre aproximava-se do centro do altar, voltava-se para o sacrário e erguendo os braços, entoava o “Glória”, ao mesmo tempo que o sacristão voltava a badalar prolongadamente a campainha enquanto os sinos repicavam e a igreja se enchia de luz, de cor e de alegria. Terminada a missa, entoavam-se cânticos de Natal e o pároco dirigia-se para o presépio que ficava do lado direito da capela-mor. Recebendo o turíbulo fumegante, balouçava-o diante das enormes figuras de Maria, José e do Menino, enchendo o templo de fumo e de cheiro a incenso. De seguida tomava o Menino nas mãos e colocando-se junto à grade que separava a capela-mor do cruzeiro, dava-o a beijar aos fiéis. Mariana, juntamente com as outras crianças, incorporava-se nos primeiros lugares da longa fila que se formava à espera de vez para beijar o Menino Jesus e para depositar, na cestinha que o sacristão mantinha na mão, os vinte centavos que a mãe lhe dera na véspera.

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publicado por picodavigia2 às 00:13

“CORIS JULIS” OU “O PEIXE QUE O GUILHERME ENGOLIU”

Quarta-feira, 19.09.18

O Guilherme era, incontestavelmente, um exímio pescador. Sem tirar nem por, um dos melhores da Fajã! Pescador de pedra, diga-se em abono da verdade. Caniços de todos os tamanhos, formas e feitios, engodo e iscas do bom e do melhor e até anzóis com comprimentos diversos mas adequados a cada tipo ou espécie de peixe a cuja pesca pretendia dedicar-se. A casa chegava de tudo o que havia no mar e que fosse possível apanhar em qualquer pesqueiro da Fajã, mesmo nos mais arrojados e perigosos: vejas, sargos, salemas, castanhetas, bodiões, peixe-reis, rateiros e até polvos e moreias. Chegara mesmo a apanhar meia dúzia de bicudas na Ponta do Cais, duas ou três enchovas na Baía d’Água e uma serra por fora da Poça do Cobre.

Pese embora o que trouxesse chegasse para as encomendas lá em casa e até, por vezes, para presentear vizinhos e parentes mais chegados, o Guilherme queixava-se, frequentemente, junto do seu progenitor, de que afinal trazia aquilo tudo mas até podia trazer muito mais, talvez mesmo o dobro se... E explicava a medo:

- É que uma grande parte do que isco e puxo para terra se perde! Volta para o mar…

- Como? Quando? – Perguntava o pai assarapantado.

- Ora quando? Na altura em que puxo o peixe para terra. Quando vou tirar os malditos do anzol e colocá-los numa pequena poça, ou em cima duma pedra os atrevidotes “zip”, dão um salto e “zás-trás”: atiram-se para o mar.

Certo dia o pai, farto de ouvir tantas lamúrias e queixumes, atirou-lhe de rompante:

- Fogem porque tu deixas, porque és um palerma, um parvo, um desajeitado. Um bom pescador, logo que apanha um peixe, mata-o imediatamente. Sabes como? Dando-lhe uma dentada na cabeça e pronto. Assim que apanhares um peixe dá-lhe uma valente dentada no cachaço e vais ver que nunca mais te foge nenhum.

Dito e feito. O Guilherme não se fez rogado. No dia seguinte lá se foi rápido e prazenteiro, de caniço em riste, aperaltado com isca e engodo em quantidade suficiente, plantar-se no melhor pesqueiro que havia, ali para os lados do Poceirão, junto ao Calhau da Barra. Engodo para água, caniço aparelhado, isco no anzol e vamos a isto, que hoje não lhe havia de zarpar para a água um que fosse dos que houvesse de puxar para terra.

Eis senão quando sente a primeira ferrada. Leve mas firme. Peixe pequeno. Melhor, para se iniciar na nova forma de amansar definitivamente os espertalhotes. Puxou, puxou e zás. Um peixe rei, lindo de morrer, com as cores do arco-íris, mas pequeno e perfeitamente adequado à sua bocarra. Melhor para exercitar os maxilares não podia ter vindo!

- Este não me escapa! – Pensou o Guilherme com os seus botões.

Se bem o pensou melhor o fez. Zumba! Dentada na cabeça do peixe. Só que fê-lo com tanta avidez e sofreguidão que o dito cujo já de si húmido, escorregadio e pegajoso deslizou-lhe de imediato pela boca dentro, passando-lhe, vivinho da silva, pelas goelas abaixo, indo parar-lhe ao estômago, onde encontraria o seu fim, sem, no entanto, antes, não dar lá dentro umas valentes cambalhotas e uns angustiantes repelões no “bucho” do Guilherme que muito o agoniaram, provocando-lhe náuseas e enjoos, forçando-o a suspender de imediato a pescaria, cuidando que morria ali mesmo. Aos gritos e aos arrotos lá conseguiu voltar para casa sofrendo as injúrias mais atrozes e descabidas do seu progenitor e os vitupérios mesquinhos e trocistas de quantos se cruzaram com ele pelo caminho.

E não é que a partir de então o peixe rei, na Fajã, mudou de nome, passando a chamar-se “O Peixe que o Guilherme engoliu” e, muito provavelmente, Lineu, se tivesse vivido uns anos mais tarde, em vez de o nomear de “Coris Julis” ter-lhe-ia chamado muito simplesmente “Engolatis Guilhermis”.

 

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publicado por picodavigia2 às 18:06

A GROTA DE TAÍCA

Segunda-feira, 17.09.18

Uma das mais pequeninas, insignificantes e desconhecidas grotas, de quantas caíam em catadupa pelos andurriais escabrosos da rocha, despejando as suas águas frescas e cristalinas sobre as relvas e campos circundantes àquele alcantil escarpado e abrupto, tingindo-os de verde, de galantaria e de abundância, era a grota de Taíca.

A origem deste topónimo, segundo a opinião mais comum e mais generalizada, deverá, naturalmente, procurar-se na sua nomenclatura primitiva, o que, provavelmente, muito terá a ver com o nome “Tia Anica”, personagem mítica e lendária que naquele recanto terá vivido ou, pelo menos, com ele terá estado intimamente relacionada, tal qual como uma outra Ti’Anica, a de Loulé. O povo, no entanto, com a sua original e espontânea capacidade de simplificar e abreviar os nomes, depressa transformou a grota de “Tia Anica” em grota de “Tanica”. Daí a grota de “Taíca”, foi um ápice. Uma evolução fonética popular e simples que não desdiz em nada a essência, não belisca a beleza, nem contraria as virtualidades da referida grota.

A grota de Taíca, apesar de pequena, encoberta e pouco conhecida, era de uma beleza rara, duma excelência assinalável e duma singularidade sem par. As suas águas eram límpidas e transparentes, o seu deslizar suave e ameno e o seu percurso sombrio e enigmático, porque envolto nas copas dos arvoredos e nos mistérios dos rochedos que a rodeavam. Ao longo do seu exíguo trajecto, havia lagos pequenos, mas claros e brilhantes, a reflectirem o espectro das encostas sobranceiras, o verde das folhas das árvores e, por vezes, a bifurcarem-se em minúsculos regatos, cujas águas se perdiam por entre veredas e atalhos. Nas suas margens floresciam arvoredos a abarrotar de copas e folhas, verdes, amarelas, lilases, carregados de murmúrios e de perfumes de outonos, que conferiam à sua água uma frescura leve e adocicada, uma transparência simples e acolhedora. Mas também havia rochedos negros, caiados de musgos, frios, húmidos e latejantes, a abarrotar de silêncios e mistérios.

A meio do seu percurso, porém, a grota de Taíca, alterava o seu deslizar, embrenhando-se entre penhascos, altivos e grotescos que confundiam as suas águas, alienavam a suavidade do seu percurso e lhe transmitiam um desassossego desconfortante e uma ingenuidade desabrida. Mas logo a seguir serenava e, voltava ao seu deslizar de sonho e de magia, serpenteando por entre as sombras das árvores e murmúrios do silêncio, até desfazer-se, junto à foz, em estranhas e múltiplas ramificações que irrigavam campos, alimentavam pequenos arroios, regavam florestas, acabando por perder-se, despejando as suas águas numa enorme ribeira de que a grota de Taíca era um dos mais importantes afluentes.

A grota de Taíca, um fascínio de singularidade a emergir da rocha, um pedaço de transcendências a reflectir o céu, um cordão cristalino e prateado a ornar a terra. A grota da Taíca, um raio aureolado, um fio ténue e cristalino, a irradiar um espontâneo deslizar de águas puras, frescas, inconfundíveis e singulares. A grota da Taíca, um fiozinho de água tímido, hesitante e inibido, a perder-se no ritmo apressado e tempestuoso dos rochedos e matagais, que agitados por ventos, tempestades e intempéries borboletavam ao seu redor, agitando as suas águas puras e cristalinas, desfazendo os seus murmúrios e os seus silêncios, numa persistente tentativa de aniquilar o doce azulado das suas águas e o silêncio sombrio das suas margens.

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publicado por picodavigia2 às 18:01

FAJÃ GRANDE – HISTORIAL

Sábado, 15.09.18

(TEXTO RETIRADO DO SITE DO MUNICÍPIO DAS LAJES DAS FLORES)

Fajã Grande, ocupando uma área de aproximadamente 12,55 quilómetros quadrados, é uma das freguesias mais povoadas do concelho de Lajes das Flores.

Localizada na costa oeste da Ilha, confronta com as freguesias de Ponta Delgada das Flores e Fajãzinha e representa o lugar mais ocidental de toda a Europa. Um pouco afastado da Ilha, encontra-se o ilhéu de Monchique, o último sinal físico que separa o Velho do Novo Mundo, assim descrito pelo Padre José António Camões, na sua obra Roteiro Exacto da Costa da Ilha : "Em distancia de uma legoa, pouco mais ou menos, a noroeste da ilha, está um alto ilheo de pedra chamado Monxique, que sendo bem alto ( nada menos de vinte braças de altura) há por vêzes mar tão bravo naquella Costa, que o cobre todo, saltando-lhe as ondas por cima".

Administrativamente, só na segunda metade do século XIX, a Fajã Grande obteve a sua autonomia política e religiosa. A freguesia de Nossa Senhora do Remédios de Fajãzinha, a que pertencia o lugar de Fajã Grande, havia sido instituída em 1676, englobando os lugares da Ponta, Fajã Grande, Caldeira e Mosteiro. Nesse ano, haviam sido desanexado os lugares da Ponta da Fajã, relativamente ao da Ponta Delgada, e do Mosteiro, relativamente ás Lajes. Ora, só passados duzentos anos, a provisão do Bispo de Angra, Frei Estevão, datada de 1861, institui a Paróquia de São José de Fajã Grande em conjunto com as povoações da Ponta e Cuada. O Padre Camões, relativamente a esta região, afirma o seguinte: "Continua baixio até uma pequena enseada a que chamam a baixa d'agoa. Continua baixio, baixio até chegar ao porto da Fajã Grande, que tem no meio um grande morro chamado o Calhau da Barra. Para dentro do dicto Calhau fica um grande poço de mar chamado o Poção, que dá refugio aos barcos que entrão com mar bravo".

Gaspar Frutuoso, por outro lado, oferece-nos uma descrição mais viva da região, na sua obra Saudades da Terra: "Dali a um quarto de légua está uma Fajã, chamada Grande, que dá pão e pastel, em terra rasa, com algumas engradas onde entram caravelas de até cinquenta moios de pão a tomar o pastel que nela se faz, onde também há marisco e pescado de toda a sorte, e no cabo dela está um areal, de meia légua de comprido, em que sempre, anda o mar muito bravo; e dali por diante, a outra meia légua, é tudo rocha talhada, onde se apanha muita urzela, e de muita penedia por baixo, em que se cria infinidade de marisco e grandes caranguejos e desta mesma maneira corre a rocha um tiro de bombarda até uma ponta, que sai ao mar um tiro de arcabuz, com um baixo de pedra, que tem lapas e búzios; e, logo adiante da ponta, se faz uma baía, onde com ventos levantes ancoram navios de toda a sorte e também naus da Índia. No meio deste ancoradouro cai da rocha no mar, a pique, uma grande ribeira".

Através desta colorida descrição, pode-se inferir que, na época a Fajã Grande era centro de grandes transações comerciais, chegando mesmo as caravelas da Índia a encontrar aqui um precioso desembarcadouro.

Por outro lado, o autor faz ainda uma clara referência á riqueza e variedade do pescado da região, ainda hoje preservado. Apesar de, actualmente, não registar tão grande azáfama a Fajã Grande continua a encantar quem a visita, pela amenidade do seu clima, pela transparência das suas águas ou pelas suas piscinas naturais, enfim, ela assume-se hoje como uma verdadeira estância de veraneio para todos os florentinos.

De todos os lugares que compõem esta pitoresca Freguesia, dois sobressaem pelas suas paisagens naturais:

 A Ponta da Fajã Grande é uma aldeia imaginária e de sonho, num mundo marcado pela solidão e pela falta de valores. Desde que serviu de fronteira entre as freguesias de Nossa Senhora do Remédios de Fajãzinha e de São Pedro da Ponta Delgada, o destino desta região ficou para sempre traçado.

Actualmente, com as suas cascatas de águas e escorrer pelas escarpas abaixo, a Ponta da Fajã Grande é um idílico lugar onde vivem menos de 20 almas. Com tradições profundamente rurais, aqui ainda se ouve o cantar dos pássaros, o murmurar das águas e o marulhar do mar, por vezes intempestivo.

A Quada, palavra que deriva de saracotear, ou seja, «andar de um lugar para o outro», foi uma povoação que, desde cedo, sentiu o fenómeno da desertificação. Este airoso terraço entre a Fajã Grande e a Fajãzinha, encontra-se assim associado, na mais pura tradição florentina do aldear, aos contrastes e dissabores que, com o tempo, foram surgindo na Fajã e que levaram algumas famílias a abandonarem a sua terra natal.

 

"A Fajã é uma vila,

 A Quada é um outeiro

 P'ra onde as aves do campo

 Vão fazer o seu linheiro.

 

As tecedeiras da Quada

 São todas muito apuradas,

 Tecem colchas cobertores,

 Cobertas e almofadas"

 

Hoje, quase todo o povoado foi recuperado para fins turísticos o que constitui sem dúvida um exemplo de Turismo Rural de sucesso. "Aldeia da Quada", assim baptizada pelo empresário Carlos Silva, seu proprietário e gerente é um sítio convidativo à Paz, e ao bucolismo que a Ilha inspira. Um contacto imprescindível com a Natureza que se recomenda.

Porque as pessoas são parte integrante da História de cada região, Fajã Grande orgulha-se de ter sido o berço de algumas personalidades que, no seu tempo e à sua maneira, contribuíram para o seu engrandecimento. De entre as várias individualidades florentinas, destacam-se o Padre José Luís de Fraga, pelo seus dons de orador, escritor e músico; e Pedro da Silveira, historiador e poeta, com vários trabalhos publicados.

 

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publicado por picodavigia2 às 09:21

TIA ERMELINDA E TIA MARIA INÁCIA

Quinta-feira, 13.09.18

Perto da minha casa, logo a seguir a um chafariz que por ali havia, viviam duas irmãs, já de avançada idade: a tia Ermelinda e a tia Maria Inácia.

A casa onde moravam era pequenina e pobre. Quantas e quantas vezes lá entrei para visitar aquelas duas queridas velhinhas! Subia-se a meia dúzia de degraus que davam para um pátio, em frente à porta da sala, ornamentado de sécias brancas e rosadas, de cubres amarelados, de fetos e muitas outras plantas e entrava-se, de imediato, na sala. Era a maior dependência da casa, a qual dava directamente para as duas outras: um quarto de cama que em vez de porta tinha apenas um cortinado velho e acetinado e para a cozinha que ficava nas traseiras do prédio. Na sala havia uma enorme cómoda com um oratório e muitas fotografias antigas, umas encaixilhadas em passe-partouts, outras soltas e encostadas a estes, algumas cadeiras e uma caixa de madeira. Numa das janelas havia uma enorme cadeira de vimes, forrada com colchas tecidas em teares manuais e almofadas feitas por mãos hábeis, onde, habitualmente, a tia Ermelinda permanecia sentada. A cozinha era velha esconsa e negra. O chão era de solo (barro ou terra) e não tinha forro. Tinha apenas uma mesa, duas cadeiras, um armário onde guardavam a louça e um lar cheio de tisna e de escuridão, com dois ou três caldeirões, uma sertã e uma grelha onde tia Maria Inácia cozinhava as suas parcas refeições.

Tia Ermelinda era muito doente e já não saía de casa. Estava permanentemente sentada à janela da empena da sala. De manhã rezava, costurava e lia. De tarde ensinava catequese e conversava com quem a visitava. Tia Maria Inácia, apesar de velhinha e doente, era “o homem da casa”. Era ela que ia à lenha à Cabaceira, que a rachava, fendia ou picava com o machado e a guardava debaixo do lar. Era ela que ia buscar erva-santa para as galinhas. Era ela que cozinhava, lavava e limpava a casa. Era ela que fazia tudo.

Quantas vezes minha mãe me mandou ir lá e levar um pouquinho de leite ou um quarto de bolo do tijolo, fresquinho e a fumegar! Quantas vezes minha mãe me autorizou a ir com a tia Maria Inácia à Cabaceira para a ajudar a trazer uns garranchos de lenha! Quantas vezes de tarde ia sentar-me ao lado de tia Ermelinda a vê-la e a ouvi-la a ensinar catequese a outras crianças ou simplesmente a conversar com ela! É que em questões de catequese eu tinha que sobrasse em casa da minha avó, na Fontinha.

Mas o que nunca pude esquecer foi a ternura, o carinho e a amizade que aquelas duas doces e meigas velhinhas me dedicavam!

Por isso é que eu tanto gostava de escapulir para casa delas!

 

 

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publicado por picodavigia2 às 00:19

A GRUTA

Quarta-feira, 12.09.18

Quem subir as escaleiras da vereda que liga o porto da Prainha ao Caminho de Cima, deparar-se-á, à esquerda e encastoada na rocha magmática, uma bela e extraordinária gruta, rodeada, exteriormente, por um átrio. A gruta, altiva e sumptuosa, resultou de caprichos primordiais da natureza. O átrio, de postura elegante e encantadora, foi construído por mãos humanas talvez numa interessante e inédita tentativa, de preitear uma imaginária lenda de que não há memória, nem a história da gruta engloba, mas deveria englobar. Mas as lendas, quando as não há, inventam-se, pois nada de excepcional e extraordinário existe no Mundo, que não tenha na sua origem ou existência, uma explicação lendária.

Conta, então a lenda, e se não contou deveria ter contado, que há muitos e muitos anos, vivia na localidade da Prainha, nos primórdios da sua existência, uma rapariga chamada Natalina. Natalina era alegre, forte, folgazona, robusta e saudável. Mas, de repente e sem nenhuma explicação aparente, começou a definhar e a enfraquecer a olhos vistos, alimentando-se mal, perdendo as cores e desfalecendo frequentemente. Parecia que a morte se aproximava. Cuidava-se até que fosse mal olhado. A mãe bem a tentava salvar, dando-lhe chás variados e mezinhas diversas. Mas a moça nada. Piorava de dia para dia, contabescia a cada momento.

A mãe desabafava as suas mágoas junto das suas amigas que, procurando consolá-la, tentando diminuir-lhe as consumições e aliviar-lhe o desassossego, concluíam:

- Não é nada, mulher... Isso são coisas da idade. Ela não está com quinze anos? Então, é isso, mulher!

Mas a rapariga é que não melhorava, antes piorava a olhos vistos. Chamaram-se curandeiros, visitaram-na as bruxas e até o senhor padre foi mandado vir a casa para a assacramentar, mas nada disto veio aliviar o sofrimento de Natalina, nem sequer cercear a crescente consumição de sua mãe. O caso parecia não ter solução e aguardava-se um desfecho fatal.

Ora lá no alto da localidade, já quase nos andurriais da montanha, numa canada erma e sinuosa, vivia um fradinho, estimado e respeitado por todos e reconhecido pela sua generosidade, sabedoria e santidade. Acreditava-se que até milagres fazia, o bondoso e velho ermitão.

Chamado o frade, este olhou a menina com blandícia e pediu aos presentes que se retirassem, ficando a sós com ela, durante largos momentos. Depois retirou-se, silencioso e pensativo, mas não dormiu durante toda a noite.

A visita do frade, a casa da mãe de Natalina, no entanto, correu célere pela redondeza, reunindo, no dia seguinte, uma pequena multidão de curiosos que vinham daqui e de além, até junto à casa de Natalina, na expectativa de presenciar mais um milagre do taumaturgo fradinho. Mais se animaram todos, quando, pela hora do meio-dia viram o frade aproximar-se da casa e, juntamente com Natalina, rumar para as encostas sobranceiras à localidade, na direcção da gruta. Caminhavam trôpegos, arfando cansado, mas com ânimo e confiança escalaram a encosta pedregosa até atingirem a gruta, encravada num íngreme penedo, recoberto de verdura luxuriante, mas rodeada do átrio de entrada. A multidão, hesitante e estupefacta, seguia-os. Ali chegando, o monge ergueu os braços num largo e lento gesto de sinal da cruz e, ao murmúrio de piedosa prece, espargiu para o interior da gruta a água lustral que trouxera consigo numa pequena cabaça, presa a tiracolo por um cordão de “filaça”.

Naquele instante um enorme e violento tremor fez estremecer e abalar a terra, repercutindo-se por toda a ilha, deixando a multidão atónita, aflita, estupefacta e aos gritos. O mar, rugindo em doidas convulsões, projectou-se, violentíssimo, contra a impassibilidade das rochas, para retroceder de seguida, abrindo-se ao meio, dando passagem a um terrível e apocalíptico monstro que, saindo da gruta aos tropeções e em enorme velocidade, rolou pela encosta, caiu por entre as ondas abertas, imergindo e perdendo-se para sempre nas profundezas do oceano.

Narra ainda a lenda que Natalina, de imediato, retomou as suas cores, a sua beleza, a sua robustez e, sobretudo, a sua alegria de viver e que o fradinho, dias depois, morreu com fama de santo. Há quem diga que se alguém se postar à porta da gruta e espreitar um pouco para o seu interior poderá ainda ver, a caírem do tecto, por entre as ranhuras ressequidas da lava basáltica, várias gotículas de água, que os cientistas chamam estalactites, mas que os mais crentes cuidam ser vestígios das gotas de água lustral que o bom do fradinho atirou para o interior da gruta, exorcizando o demónio, oculto sob a forma de monstro e que, miraculosamente, ali permanecem através dos tempos.

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publicado por picodavigia2 às 09:35

AMIGOS

Terça-feira, 11.09.18

“Para conhecermos os amigos é necessário passar pelo sucesso e pela desgraça. No sucesso, verificamos a quantidade e, na desgraça, a qualidade.”

Confúcio

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O FUROR DA LAVA PICOENSE

Segunda-feira, 10.09.18

O Pico é um gigantesco montão de lava. Mas lava viva, outrora vermelha, incandescente, fumegante e destruidora, mais tarde negra, inturgescida, basáltica e besuntada de enxofre e agora aureolada de verde, benéfica, produtiva e perfumada com salpicos de maresia, mas viva, muito viva. Esta lava do Pico tem uma espécie de furor negro, fecundo e vigoroso, a expelir-se em laivos de vinhedos, campos de milho, pastagens verdejantes e encostas a abarrotar de florestas de faia, de incenso e de árvores de fruto. Mas a lava do Pico tem, sobretudo, um furor histórico, escrito e gravado nos regos traçados pelos alviões no solo vulcânico, nas rilheiras dos carros de bois, no mourejar permanente dos remos sobre a braveza do oceano, no arrochado incorruptível dos maroiços e dos currais das vinhas, nos pedregulhos rolantes das canadas, nos gritos das marés incertas, no estalejar do vento nas encostas e andurriais. A lava do Pico como que espelha e reflecte a vida, os costumes, os trabalhos, as tradições, os bailados e a música das suas gentes.

O furor desta lava, destemida e altaneira, dá, ao Pico, uma vivência efusiva e efervescente, transforma-o num gigante de ousadia e audácia, substancia-o num amontoado de tradições e costumes, aureola-o de esperança e confere-lhe uma crença telúrica, inconfundível. O furor desta lava é suco generoso, é chão de ousadia, é arroteamento de emoções. A lava é uma espécie de bálsamo tonificante e fertilizador, que transforma o sofrimento em promessa, a angústia em esperança, a destruição em recompensa, o deserto em abundância, a pequenez em grandiosidade, o nada em tudo. A lava do Pico é uma espécie de rio de espuma incandescente, a deslizar por entre pedaços de chão rachado, a fertilizar os vales, a enrijecer os montes, a calcificar os pântanos e as lagoas, a alimentar os vinhedos e as florestas, a perder-se, como que envergonhada e tímida, no meio de um oceano de desejos indefinidos, transformando-se em gigantescas marés de graça, de solenidade e de ternura. A lava do Pico tem um furor que não é capaz de se conter. A lava do Pico jacta-se, expele-se, espalha-se e projecta-se em labaredas de cores, de sons, de esperança, de alegria e de amizade.    

Realizando um périplo pelo Norte do País, assentando arraiais na Região do Vale do Sousa, mais concretamente na freguesia de Meinedo, concelho de Lousada, como convidado do Rancho Folclórico das Lavradeiras do Vale do Sousa, de Romariz, o Rancho Folclórico de São Caetano do Pico, não só trouxe consigo, como também expeliu e esparramou, nas noites escaldantes durienses, o furor lávico da sua música, do seu bailar e das suas coreografias - estonteante perfume da história, da cultura, das tradições, dos costumes e dos cantares duma ilha, que teima em se espelhar na grandiosidade do seu passado e de se ostentar nas vivências do seu presente.

O grupo constituído por mais de quarenta elementos, actuou em três festivais. Primeiro, na própria freguesia de Meinedo, uma das 25 do concelho de Lousada, ombreando com ranchos folclóricos de renome nacional, como o Rancho Folclórico Tá-Mar da Nazaré, o Rancho Folclórico os Camponeses da Beira-Rio, da Murtosa-Aveiro e com o rancho anfitrião. Um espectáculo de grande qualidade, balizado num espaço histórico, numa das freguesias mais populosas do concelho de Lousada, com cerca 4 000 habitantes, o equivalente ao concelho da Madalena, tendo como ex-libris a igreja românica de Santa Maria Maior, cuja fundação remonta ao século XIII. Sabe-se que nos primórdios do cristianismo na Península, Meinedo, então designada por “Magneto”, terá sido, segundo toda a probabilidade, a primeira sede da Diocese do Porto.

A segunda participação do Rancho Folclórico de São Caetano, teve lugar na não menos histórica freguesia de Cárquere, concelho de Resende, junto ao Mosteiro que na Idade Média foi, depois de Santiago de Compostela, um dos maiores centros de peregrinação da Península Ibérica, construído por Egas Moniz e sobre cujo altar – ainda hoje ali existente – se terá verificado a cura milagrosa do menino que viria a ser o primeiro rei de Portugal – Afonso Henriques.

Finalmente, num terceiro espectáculo, o Rancho da mais jovem freguesia do concelho da Madalena, actuou em plena Vila de Lousada, perante numeroso público, no largo do Senhor dos Aflitos, por coincidência, frente à estátua de um dos mais ilustres lousadenses - Dom António Augusto de Castro Meireles, 34º bispo de Angra (1924-28) e, depois, bispo do Porto.

Foram noites fantásticas, de cor, de sons, de movimento e alegria, onde o Rancho Folclórico de São Caetano espalhou toda a sua classe, dignidade, singeleza e performance, deixando aos presentes uma deslumbrante e transcendente imagem, não apenas da freguesia de São Caetano, mas também da ilha do Pico, transformando-se, assim e de que maneira, num magnífico embaixador da sua cultura, dos seus costumes, dos seus valores, dos seus potenciais turísticos e, como não podia deixar de ser, dos seus bailados e da sua música, numa palavra espalhando, aqui, pelas terras durienses o verdadeiro e inconfundível “furor da lava picoense”.

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publicado por picodavigia2 às 09:28

A FESTA DA SENHORA DA SAÚDE

Domingo, 09.09.18

Nos anos 50, a festa da Senhora da Saúde, que desde há décadas se realizava e continua a realizar na Fajã Grande, era incontestavelmente, na altura, uma das maiores e das mais concorridas de toda a ilha das Flores.

Celebrada no dia 8 de Setembro (mais tarde passou para o domingo mais próximo deste dia) a ela vinham romeiros de toda a ilha, sobretudo da Fajãzinha, do Mosteiro, do Lajedo, de Ponta Delgada, dos Cedros, das Lajes e da Lomba. Alguns, sobretudo os de mais longe, vinham com um ou dois dias de antecedência, regressando muitos deles à sua freguesia apenas na oitava da festa, pernoitando e alimentando-se em casa dos seus “conhecidos” da Fajã, durante vários dias. Também do Corvo, quase todos os anos, chegava uma lancha carregadinha de forasteiros que também se acomodavam em casa dos seus conhecidos da Fajã. Até à inauguração da Filarmónica “Senhora da Saúde”, no início da década de cinquenta, vinha geralmente uma banda de fora, da Fajãzinha, da Lomba ou do Corvo, as quais geralmente traziam muitos romeiros. Foi precisamente no ano em que a filarmónica contratada, a da Lomba, não compareceu que surgiu a ideia, mais tarde concretizada, de se criar uma banda de música na Fajã.

No que dizia respeito à parte litúrgica, a festa começava com um tríduo preparatório, pregado geralmente por um padre de outra freguesia ou por um professor do Seminário de Angra, natural das Flores, dado que nessa altura proliferavam pela ilha e que ainda se encontravam em férias, sendo o mais habitual o Dr Caetano Tomás, do Lajedo. Na véspera, de tarde, eram as confissões, geralmente com 4 padres de fora, espalhados pelos confessionários laterais ou pelos ralos da grade da capela-mor. No dia da festa celebravam-se três missas: a da manhã, bastante cedo, destinada às cozinheiras e pessoas que não pudessem ir a outra, mais tarde; a da comunhão, celebrada às nove, com sermão e destinada sobretudo às crianças da catequese e da Cruzada Eucarística e a outros comungantes e às onze, missa solene, cantada, de três padres e com sermão. Nesta quase ninguém comungava, dado que, na altura para o fazer era preciso guardar jejum desde a meia-noite.

Da parte da tarde, interrompendo o arraial, havia a procissão. À frente a cruz paroquial ladeada por duas lanternas, umas e outra levadas por homens trajando opas vermelhas. Depois os anjinhos de asas brancas e cestas de flores e as crianças da Cruzada Eucarística, cobertas com a cruz de Malta, desenhada a vermelho, em faixas brancas, atravessadas sobre o peito. Logo atrás os andores de Santa Teresinha, São José e da Senhora da Saúde, transportados por homens, vestidos de opas os da frente vermelhas e os últimos brancas. Depois os homens de opas vermelhas, carregando lanternas, pendões e o pálio, sob o qual, geralmente, seguia o Ouvidor das Lajes envergando capa de asperges branca e véu de ombros da mesma cor, a segurar o Santo Lenho, ladeado por dois padres vestidos com dalmáticas também brancas mas, como a capa debruadas a amarelo. À frente do pálio seguia o clero excedente que geralmente era pouco e algum seminarista em férias na ilha, envergando sotainas negras e sobrepelizes brancas. Logo atrás a Filarmónica. A procissão percorria a rua Direita, para cima até à Praça e para Baixo até à Rua Nova e as janelas, varandas e pátios das casas por onde passava estavam enfeitadas com colchas de cores variadas, que davam à rua Direita um colorido desusado. A rua estava ornamentada com bandeirinhas multicolores presas nos cantos e janelas das casas e o chão era atapetado com verduras e flores. Uma vez regressada à igreja, a procissão terminava com um sermão. Os três sermões do dia da festa eram geralmente pregados por pregadores diferentes e todos eles, assim como os do tríduo e a missa cantada eram promessas de fajagrandenses residentes na Califórnia e que antecipadamente faziam as suas reservas. Um sermão custava cento e vinte escudos, a missa cantada cem e a missa rezada vinte. As Trindades eram dobradas e não havia início de celebração ou levantar a Deus que não tivesse foguetes e repique bem redobrado dos sinos. Durante a procissão os sinos também repicavam e os foguetes ecoando nas rochas das Águas e da Figueira.

Paralelamente havia uma parte profana ou cívica que começava no sábado e continuava no domingo e que consistia fundamentalmente num enorme arraial, com música, foguetes, quermesse e os jogos do Albino: o do boneco, em que um boneco de madeira suspenso na cintura por um eixo, rodopiava sobre um caixilho também de madeira, apoiado no chão com algumas pedras. O jogo consistia em atirar, de uma distância previamente delimitada, cinco bolas ao boneco, por um escudo. Quem acertasse no dito cujo e conseguisse que ele desse uma volta completa sobre si próprio receberia um prémio: um chocolate, uma laranjada, uma cerveja ou um pirolito de bola. Outro jogo era o da pesca à cerveja: dispostas seis garrafas de cerveja, outros tantos jogadores munidos de um caniço, com um fio e uma argola em vez do anzol teriam que enfiar esta o mais rapidamente possível no gargalo da cerveja que estava na sua frente. O prémio era a própria cerveja para o primeiro que atingisse o objectivo do jogo.

À noite o arraial era iluminado com várias lanternas petromax. Só depois da ida do Padre Pimentel à Califórnia, com o dinheiro que ele por lá arrecadou se comprou um motor que, sob os cuidados de José Furtado, iluminava não apenas a igreja mas também o adro e a parte central da Rua Direita com séries de lâmpadas multicolores também vindas da América. Enquanto José Furtado não chegava ou quando o motor falhava o arraial, para gáudio de muitos, fazia-se às escuras.

 

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