Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



ENCANTO

Quarta-feira, 02.10.13

Desde o primeiro dia de aulas que, insistentemente, procurava um dos lugares nas carteiras da frente, onde se sentava todos os dias, bem junto à minha secretária. Embora me parecesse que a garotita, no início do ano lectivo, revelasse alguma indiferença, hesitação ou receio em procurar-me, cedo me apercebi que, afinal, manifestava um enorme carinho, uma excessiva admiração e um cativante deslumbramento por mim. Revelava um interesse desmesurado em ouvir-me, alegrava-se quando a ela me dirigia para a interrogar ou até para a repreender e, no fim da aula, não se coibia de ser a última sair, a fim de me ajudar no arrumo da sala, no apagar do quadro e no fechar da porta, acompanhando-me, em amena cavaqueira na descida das escadas que davam para os recreios e, por fim, despedindo-se, já na rua, com um simples mas terno e meigo “Até amanhã, professor”. E até nos dias em que, por exigências dos horários, não tínhamos aulas, ela, açudada por uma enorme vontade de me ver, de me encontrar, de conversar comigo, postava-se estrategicamente nos pátios, de maneira que, lhe fosse possível saudar-me com um cumprimento, por vezes, até com uma pequena e inocente brincadeira.

O desenrolar do ano lectivo e o ambiente de bem-estar, alegria e salutar aprendizagem que se ia cada vez mais agigantando nas minhas aulas, trouxe-lhe, necessariamente, uma cada vez maior afeição por mim, despoletando, entre nós, uma amizade simples, terna, meiga e verdadeira.

Eu próprio perante o sublime assédio da garota, me fui afeiçoando às suas brincadeiras, interessando-me pela sua presença, fantasiando-me com as suas atitudes, enlevando-me com as suas palavras, ufanando-me com os seus elogios e regozijando-me com a sua afeição e amizade.

Não era uma aluna brilhante porque não muito inteligente, mas era trabalhadora, estudiosa e interessada, o que lhe trazia, como consequência, a obtenção de resultados escolares bastante positivos. Era jovial, alegre, simples e detentora duma beleza invulgar. Cabelos loiros, quase doirados, olhos esverdeados, muito vivos e um rosto macio e aveludado, sobre um corpo débil e franzino, consubstanciavam uma doçura invulgar, uma simplicidade deslumbrante e um encanto sublime.

Passou um ano, passaram dois e a amizade recíproca e o respeito mútuo que nutríamos um pelo outro, agigantaram-se e transcenderam-se de tal forma que, no final do segundo ano, eu próprio senti uma enorme pena dela abandonar a escola e partir, com a agravante de não querer seguir os estudos, no ensino secundário. Despedimo-nos com melancolia, separámo-nos com mágoa, abraçamo-nos com tristeza e perdemo-nos, por completo, no espaço e no tempo. Nunca mais a encontrei, não deixando, no entanto, de me recordar do encanto singelo e sublime que, permanentemente, emanava da sua personalidade.

Passaram-se anos. Certa tarde em que deambulava pelas ruas da cidade, uma jovem dirigiu-se-me, acompanhada de um belo e simpático rapagão e, com um sorriso do tamanho do mundo, interrogou-me, sem que eu lhe pudesse responder. Perante a minha indesculpável ignorância, exclamou em êxtase, graciosamente, desesperado:

- Parece impossível! O Setor não me conhece? Não se lembra de mim? E tão amigos que nós éramos…

Não senhor, não me lembrava e por uma razão muito simples: ela agora era um jovem de uma beleza invulgar, duma graciosidade inexaurível, duma formosura estonteante e duma elegância inigualável. Abraçamo-nos como se ela ainda fosse aquela menina sublime e graciosa que se sentava junto à minha secretária e eu o velho professor que por ela me encantara.

Apresentou-me o namorado. Depois recordámos aulas, leituras, festas, brincadeiras, histórias e o tempo que havíamos partilhado em comum: eu como mestre e ela como aluna. Falámos sobre o futuro dela e sobre o jovem que a acompanhava e por quem, me confessava estar totalmente apaixonada:

- Sim senhor! Tens bom gosto, - acrescentei, virando-me para o rapagão, - escolheste uma menina que, para além de muito bonita, tem um excelente coração. É um encanto! Parabéns!

Despedimo-nos e virei-me, novamente, para o rapaz, como que ameaçando-o, em tom jocoso:

- Trata-a bem, caso contrário, prometo que havemos de ajustar contas.     

E ela sem demoras, num riso perdido mas um pouco envergonhado:

- Olha que o meu Setôr cumpre sempre o que promete!...

E partiram, muito felizes e apaixonados, na demanda do futuro.               

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 10:17





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

VISITANTES

free web counter

calendário

Outubro 2013

D S T Q Q S S
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031