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GÉNESE E EVOLUÇÃO DA COSTA OCIDENTAL DA ILHA DAS FLORES

Quarta-feira, 02.10.13

(TEXTO DE ANTÓNIO RAPOSO – UNIVERSIDADE DOS AÇORES)

0 presente trabalho insere-se na expedição cientifica organizada pelo Departamento de Biologia da Universidade dos Açores, à Ilha das Flores e que decorreu de 4 a 11 de Julho de 1989. Durante o curto espaço de tempo que permanecemos, podemos observar, e debruçarmo-nos sobre a geografia física da Ilha e evolução da costa Ocidental, após os desabamentos ocorridos na Ponta da Fajã, a 18/12/87, tendo ficado soterrada uma Ermida e destruídas algumas casas. Percorremos caminhos pedonais, desde a Ponta da Fajã até Ponta Delgada, a uma altitude média dos 450m, observando uma vegetação intensa e luxuriante. Apesar de nos encontrarmos em pleno verão foram inúmeras as linhas de água (perenes) que atravessamos, e quase sempre o caminho apresentava-se enlameado, tal a abundância de água nesta vertente

(…) Não nos podemos debruçar sobre a evolução da vertente Oeste da Ilha das Flores, sem, em primeiro lugar, atendermos aos principais processos que contribuíram para a sua evolução. Várias foram as fases que, ao longo de milénios, contribuíram para a forma como toda Ilha, desde o vulcanismo submarino até ao vulcanismo subaéreo com diferentes fases de efusão, umas básicas com características de derrames lávicos, outras ácidas e explosivas com características de materiais de projecção. Não foram só estes fenómenos endógenos que contribuíram para a sua formação; outros processos exógenos ao longo dos milénios moldaram e alteraram as formas iniciais, como o clima e seus elementos, a escorrência superficial, a meteorização, a vegetação, abrasão marinha, etc.

A ilha é bastante antiga, sendo a costa Ocidental a parte correspondente às fases eruptivas mais antigas subaéreas que se fizeram sentir, intercaladas com materiais de projecção. Desde a Ponta do Albernaz, a Noroeste da Ilha, até à ponta dos Bredos, quase no extremo Sudoeste da Ilha, a costa apresenta uma configuração escarpada e alcantilada, com excepção das reentrâncias da Ponta da Fajã, Fajã Grande e Fajãzinha. Toda a costa é abrupta com altitude média da ordem dos 600m. Constitui, só por si, uma barragem de condensação aos ventos gerais de Oeste que nessas latitudes se fazem sentir, aumentando consideravelmente a precipitação ao longo de toda a costa.

0s processos rnorfogenéticos ou morfoclimáticos mais precisamente são bem visíveis devido a vários factores entre os quais, a precipitação, meteorização (acção química das águas), a acção das águas correntes (rede fluvial) e a vegetação que, por incrível que pareça, contribuiu grandemente para a degradação e partição dos materiais rochosos, dado que as fortes raízes vão abrindo diaclases em rochas já bastante alteradas. De referir ainda a abrasão marinha provocada pela acção das vagas de Oeste, bastante intensas nesta costa que ao lengo de milénios, tem alterado as formas iniciais, formando as formas finais que são as Fajãs. São bem visíveis os processos acima citados, mostrando esta escarpa, mais a Sul, um recuo da arriba onde se instalaram a Ponta da Fajã, Fajã Grande e Fajãzinha, apresentando anteriormente, esta mesma arriba, uma configuração rectilínea em relação à parte mais a Norte desta mesma costa.

Vamos assim analisar isoladamente, se bem que interligados, estes processos, apesar deles, em conjunto contribuírem para o processo final (…)

A Geologia é um processo passivo que se comporta em questões de durabilidade com maior ou menor intensidade, dependente dos processos morfoclimáticos. Toda a escarpa é formada de basaltos alcalinos já que as primeiras erupções tiveram início no Pliocenico e datam do inicio da formação da ilha, derramaram lava intercalada de materiais Mais tarde, a parte Sul da de projecção. Mais tarde a parte sul foi recuando corn maior velocidade, formando-se primeiramente a Fajãzinha, seguida da Fajã Grande e finalmente a Ponta da Fajã, resultando dai as "Fajãs", formadas de depósitos de vertente (arriba que recuou). Pate destes depósitos de vertente, foram posteriormente cobertos (Fajã Grande), pelos "Basaltos da Fajã Grande”. (…) Estes basaltos da Fajã Grande com plagióclases e olivina saíram de pequenos aparelhos vulcânicos situados na base das arribas, a NE da Fajãzinha, enchendo por completo uma antiga bala ali existente, correndo para NO até ao porto da Fajã Grande. (…) as formações mais recentes são "Os basaltos da Fajã Grande", mas a explicação mais plausível aponta para que o derrame dos "Basaltos da Fajã Grande", tivessem coberto os depósitos de vertente já existentes, restando os afloramentos da Fajãzinha e os da Ponta da Fajã, também cobertos em parte por materiais de projecção mais recente.

A influência do clima sobre o relevo é bastante significativa, resultando dai as formas finais. (…). A Fajã Grande regista, anualmente, 216 dias com precipitação e Ponta Delgada com 242.Em altitude e nesta mesma costa os dias de precipitação devem atingir anualmente os 300dias, o que é bastante significativo.

Por esta razão e outras que se seguem, provam que os cursos de água nesta costa sejam perenes, mesmo em pleno Verão. (…) Outros elementos que venham condicionar a presença constante de linhas de água nesta vertente Oeste da ilha é, sem dúvida, a insolação, com um total de 1500 horas anuais de c4u descoberto em St. Cruz. Contudo o número de horas diminui com o factor altitude, o que vem agravar, substancialmente, número de dias de céu descoberto. A nebulosidade é elevada a qualquer hora do dia em St. Cruz, mesmo nos meses de Verão. Na zona em estudo, a nebulosidade ainda é mais elevada provocando uma evaporação mínima do solo, condicionando assim a presença constante de água e sua escorrência superficial em direcção.

 A costa Oeste, cremos que, terá surgido primeiramente a Fajazinha com a presença quase constante de cursos de água nesta área, provocando o recuo da arriba e formação dos depósitos de vertente. Mais tarde, e com a acção constante das águas correntes cada vez mais intensa ter-se-ia formado a Fajã Grande, mais a Norte. Actualmente a Ponta da Fajã está a recuar como consequência dos recentes desabamentos, formando-se mais tarde e ao longo desta costa, outras fajãs, devido à intensa escorrência superficial e remechimento marinho.

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publicado por picodavigia2 às 11:02





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