Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



O CADERNO DIÁRIO

Quinta-feira, 03.10.13

A Dona Madalena era muito exigente, extremamente meticulosa, excedendo-se frequentemente em repreensões exageradas, castigos excessivos e reguadas sem dó nem piedade. Aos preguiçosos, aos apedeutas e aos descurados nos estudos aplicava-lhes trabalhos caseiros em dose dupla. Aos prosélitos do erro ortográfico e aos correligionários da má caligrafia impunha castigos excessivos que, por vezes, roçavam a tortura e se aproximavam do suplício. Finalmente, aos negligentes e desleixados na conservação e limpeza do material escolar assentava-lhes reguada da meia-noite.

Eu pelava-me de medo e tremia como varas verdes. Não era pela preguiça ou desmazelo nos estudos, nem sequer pelos erros ou má caligrafia, parâmetros de avaliação em que era exímio, chegando mesmo, nas lições de cor, a ser o melhor da classe. Em História, num aranzel minucioso e leptológico, desembuchava os reis de Portugal a eito, da primeira à quarta dinastia, com os respectivos cognomes e os factos mais relevantes de cada reinado. Em Ciências, com um rigor absoluto e científico, definia cada órgão ou parte do corpo humano, a começar pelo coração e a terminar nos dedos, onde distinguia, com perícia e altivez, a falange, a falanginha e a falangeta. Finalmente e em Geografia, com arte e engenho desusados, papagueava os rios e os afluentes das margens direita e esquerda, as linhas-férreas com as principais estações e os mais importantes apeadeiros e até os países da Europa com as respectivas capitais. Onde eu prevaricava, contínua e permanentemente, era na limpeza e asseio do Caderno Diário. Não eram os erros ortográficos nem sequer a caligrafia – era pura e simplesmente a sujidade. Não havia mês, semana, talvez mesmo dia em que não me apresentasse junto à secretária da senhora professora com o caderno sujo, ensebado, denegrido, besuntado e imundo. Esta ignomínia, que a Dona Madalena julgava de falta de cuidado e alheamento total de responsabilidades, era fruto das precárias condições e da acentuada penúria que reinavam lá casa. Além disso, eu era o principal prevaricador na falta de limpeza e asseio do Caderno Diário. Isso revoltava-me! Revoltava-me porque os outros tinham sempre o caderno limpinho e asseado, embora nem de longe nem de perto me igualassem na leitura, na Gramática, nas lições de cor e em muitas outras aptidões. Mas quanto à limpeza, o meu Caderno Diário era, sem tirar nem por, o pior da classe. Uma autêntica vergonha! Ainda por cima, todos os outros, na classe, primavam por uma limpeza excessiva e por um requinte desmesurado nos seus cadernos o que acentuava mais e mais a imundície e o desmazelo do meu.

É que à enxurrada de irmãos que superabundavam lá em casa juntavam-se umas instalações exíguas, precárias e limitadíssimas que não se compadeciam, nem de longe nem de perto, com quaisquer exigências académicas ou culturais. Assim era forçado a fazer os trabalhos que a senhora professora mandava para casa em cima da carcomida mesa da cozinha, onde remanesciam migalhas de pão e restos de comida e sobejavam pingos de café, de leite e de graxa. Além disso, a cozinha, apesar de enorme, era vetusta, esconsa e mal iluminada de dia, enquanto à noite se acendia uma pequena candeia alimentada a enxúndia de galinha, em que flamejava uma chama frouxa e titubeante que mal permitia divisar pessoas e objectos, muito menos ler ou escrever o que quer que fosse. A mobília era constituída por uma mesa, meia dúzia de bancos e um pequeno armário em que as portas eram uns panos escuros e pardacentos, onde se guardavam os pratos, as tigelas, os caldeirões e outros utensílios. Pelo chão abundavam sacos de serapilheira com batatas, inhames, cebolas e maçarocas de milho, tudo num perfeito desarrumo, que se acentuava às sextas, dia de acender o forno e cozer o pão de milho para a semana. A lenha picada e empilhada debaixo do lar, constituía o sector de maior arrumação. Era lá também que tinha habitáculo o Farrusco, guardião eficiente da ratazana e parceiro de muitas brincadeiras. Num canto, por baixo da porta do forno, ficava o balde do porco, onde se iam armazenando os restos de comida, as cascas das batatas, dos inhames e as lavagens que, depois de cheio, constituía a principal refeição do suíno, mantido à engorda com excessivo zelo. Por baixo, uma loja dividida entre arrumos e estábulo.

Era nestas instalações que montava sala de estudo e, por essa razão, o meu caderno diário normalmente se transformava numa execrável, sórdida e hedionda bodeguice.

Certo dia, em que o esquecera sobre a mesa, alguém involuntariamente, deixou-lhe cair em cima umas brasas que saltaram do ferro de passar roupa, queimando, parcialmente, meia dúzia de folhas. Estarreci. Com que cara me iria apresentar, no dia seguinte, à Dona Madalena, tendo o caderno naquele estado? Ia ser o bom e o bonito! E não me enganei. Para além da chacota de que fui alvo, levei as habituais dez reguadas punitivas da sujidade, com a rigorosa imposição de, sem falta, ter que arranjar um caderno novo e passar tudo a limpo, para o dia seguinte.

Matutei a tarde inteira na forma de resolver o imbróglio em que estava exprobrado, apesar de inocente e que passava pela compra de um caderno novo, operação comercial que, no mínimo, me forçaria a ter que desenvencilhar uns cinquenta centavos. Mas só tinha amealhado trinta e a festa da Senhora da Saúde aproximava-se… Recorri à generosidade de minha avó que me abonou apenas os vinte que faltavam.

Ao fim da tarde, sentei-me à mesa e comecei a árdua tarefa de passar tudo a limpo. Estava prestes a chegar à última folha, quando de repente me emborcam literalmente uma tigela de café sobre o caderno que eu acabara de copiar de lés a lés.

De nada valeram protestos, choradeiras e reclamações. E tive que me apresentar na escola, na manhã seguinte, com aquela espurcícia em riste, apesar de envolto em temor, imaginando o que me esperava.

Foi então que, num gesto de grande nobreza, dignidade e misericórdia, o Amâncio, apercebendo-se da minha angústia e atrapalhação, me acalmou. Desde há muito que eu era o seu maior amigo. Tirou um caderno limpo e novo da sua pasta e, com excessivo cuidado e engenho, cortou-lhe a capa, pedindo-me que na mesma escrevesse o meu nome. Depois, com grande perícia e determinação, cortou a capa do seu próprio caderno, substituindo-a por aquela em que havia escrito o meu nome e colando-a, muito disfarçadamente, com goma-arábica. Quando, algum tempo depois, a senhora professora me chamou, ele, encorajando-me e incentivando-me com grande convicção, disse baixinho, perante a minha perplexidade:

- Vai! Vai! Não sejas parvo! Ela não vai dar por nada.

E não deu. Apenas, em tom de censura, me recriminou apreensivamente:

- Hum! Que caligrafia é esta?! Nem parece a tua – e, de imediato, perguntou -  Foste tu que passaste?

- Fui, sim, senhora professora. É que… passei tudo à pressa…

- A caligrafia não está grande coisa. Mas lá que está limpinho, está – concluiu.

E assim, com uma perfeita mentirinha, safei-me de mais umas valentes reguadas.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 09:57





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Outubro 2013

D S T Q Q S S
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031