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SARGAÇO

Sexta-feira, 04.10.13

Noite escura. A manhã tardava em alvejar. Clara sentiu um bater martelado na janela do seu quarto. A mãe já se levantara e, alumiada pelo brasido do lar, cirandava na cozinha, no meio duma penumbra confusa e impertinente. De fora um vozeirão grave e solene:

- Ó vocês, levem garfos, cestos e um pingo de café para o Rolo. Tá a sair uma grandeza de sargaço.

Não foi preciso esclarecer ou perguntar o que quer que fosse. Clara levantou-se de um salto e entrou assarapantada pela cozinha a alertar a mãe. Bem conhecera a voz do Ricardo. O pai, saíra de casa, com destino às Covas para ceifar um molho de erva, Decerto que se havia enfiado no Rolo, na retirada daquele maldito sargaço.

- E aquele homem que já não pode com nada e a meter-se sempre em grandes trabalheiras. Eu me benzo do Coiso Mau! Tanto que o aviso e lhe peço, Não há maneira de se aquietar. E eu sem o poder ajudar!

- Deixe lá mãe. Faça o café que eu vou levar-lhe os garfos e os cestos. Hei-de ajudá-lo como puder.

Pouco depois, com a escuridão ainda a aguçar-lhe o medo, Clara abriu a porta da cozinha que dava para os pátios traseiros. Cestos à cabeça, enfiados uns dentro dos outros, dois garfos alçados sobre o ombro direito e uma lata de café com leite, onde a mãe havia migado umas fatias de pão, com uma colherada de açúcar.

A Rua Direita ainda estava deserta mas na Tronqueira, para lá da casa do Belchior, já se viam muitos vultos apressados e cambaleantes que, como ela, se encaminhavam para o Rolo, na demanda do sargaço.

Todos os anos era aquela efervescência, desprezível para alguns, indiferente para outros mas gratificante para muitos. No Outono, com os ventos de oeste, com o mar a abarrotar de maresia e com as ondas a encapelarem-se alteradas, de vez em quando, o Rolo cobria-se de um extenso tapete aveludado, fofo, castanho e amarelado que ia do Pesqueiro de Tera até à Ribeira das Casas. Era o sargaço que, arrancado das profundezas do oceano, trazido por correntes e marés, ali vinha encafuar-se, sendo depois atiçado para terra pelo reboliço das ondas e pela correnteza da maré. O Reboredo era sempre dos primeiros a chegar. Assenhoreava-se de uma bom pedaço do Rolo, demarcava com canas e paus o seu território e, a partir de então, todo o sargaço que o mar ali trouxesse era seu. Depois era só atirá-lo à mão, à garfada, aos cestos, bem mais para cima a fim de que a maré, ao encher, assim como o trouxera, agora o não levasse.

Quando Clara chegou ao Rolo já os primeiros raios da aurora, embora tímidos, espreitavam sobre a Rocha dos Paus Brancos. Um reboliço enorme espalhava-se sobre todos aqueles calhaus, agora atapetados de algas mortas. Homens descalços e de calças arregaçadas até aos joelhos lutavam contra a braveza das vagas, na mira de arrecadar o maior quinhão. As ondas num vai e vem tremendo, assustavam os homens, afugentando-os quando subiam mas incentivando-os quando desciam. Muitos já haviam amontoado uma boa safra, mas todos se aventuravam na conquista de mais. O pai alapara-se mesmo ali, logo no início do Rolo, junto ao ilhéu do Constantino. Fora dos primeiros a chegar.

Clara saltitando de pedregulho em pedregulho, aproximou-se do eito, onde o pai todo molhado retirava das ondas temerosas e altivas, mancheias de sargaço encharcado. Colocando a latinha do café em lugar seguro, depondo cestos e garfos, atirou-se de rajada sobre o montículo de sargaço que o pai já havia armazenado, afastado das ondas. Ali tudo era cheiro a maresia e sabor a salinidade, ali, tudo era um tactear fofo, um saltar acolchoado, um contacto sublime e terno com o aroma delicado e doce do mar. E enquanto o pai, fazendo uma pausa na safra, se entretinha nas sopas, Clara, descalçando-se, aproveitou para retouçar, rebolar, pinchar, saltar, pular e espinotear sobre o montículo de sargaço que o pai ali já retirara do mar.

Depois, ora fugindo às ondas, ora deixando-se banhar pela frescura inebriante das águas lá foi, com galhardia e excelência, ajudando o pai. Ao meio-dia, quando a mãe ali chegou trazendo, num cesto, à cabeça, o almoço, o monte de sargaço do Reboredo era um dos maiores do Rolo.

O diabo era agora, de tarde, quando a maré subisse ao ponto de recusar a cedência sequer de mais uma febrinha que fosse, acarretá-lo para o “lago”, onde ele havia de ficar a fermentar, durante meses, até se transformar em precioso adubo. Ele, Reboredo, a encher os cestos, ela, Clara, no “lago” a despejá-los e a acalcar o sargaço… O problema era acarretá-lo, em cestos pesadíssimos, muito cheios, bem acuculados e a escorrerem água por quantas juntas tinham!...

E foi o Câncio, o filho do Machado, que, de boa vontade, se veio oferecer para ajudar. Perante a anuência do Reboredo, o rapaz que desde há muito catrapiscava o olho à Clarinha, cuidou que aquele seria um dia de esperança – esperança de, através da ajuda no sargaço, conquistar, para sempre, o coração da moça.

E não se enganou, o bisbórrias.

 

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publicado por picodavigia2 às 14:55





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