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A GLICÍNIA BRANCA

Segunda-feira, 07.10.13

No jardim da senhora Manuela nasceu uma glicínia. Estranho e surpreendente acontecimento, porquanto a senhora Manuela no seu jardim apenas havia plantado, craveiros, orquídeas, roseiras e semeado girassóis, sécias e malmequeres. Além disso, a senhora Manuela não gostava de flores com nomes esquisitos e estranhos, com gladíolos, buganvílias, nem de plantas que davam flores roxas ou rosadas como as hortênsias, as flores-de-lis e, logicamente, as glicínias. Isto porque a senhora Manuela, em tempos, havia lido que existiam diversos simbolismos para as flores, nomeadamente para as roxas, as quais estão ligadas ao amor. Na realidade, acreditava a senhora Manuela, depois das suas leituras sobre flores, que a flor roxa da glicínia é conhecida como a flor que simboliza o primeiro amor. E o que menos a senhora Manuela pretendia era ter a seu lado algo que lhe fizesse lembrar o seu primeiro amor. Por isso, a senhora Manuela, que não só detestava como até odiava flores roxas, numa passagem ocasional pelo seu jardim, temendo que daquela glicínia que tão estranha e misteriosamente ali nascera e que, agora, crescia a olhos vistos, sem ser adubada ou sequer cultivada, havia de florescer, mais tarde, uma flor roxa que lhe viesse atormentar o viver tranquilo dos seus dias, arrancou-a, de maneira a que dela não ficassem raízes nem muito menos sementes.

Não se sabe por que estranha e invulgar carga d´água, passados alguns meses e para ainda maior espanto da senhora Manuela, no mesmo sítio do seu jardim, onde rigorosamente não havia deixado nenhum vestígio daquela estranha intrusa, voltou a nascer uma outra glicínia. Os procedimentos da senhora Manuela foram exactamente os mesmos e a possibilidade da glicínia crescer, florir e reproduzir-se foi reduzida a zero. A senhora Manuela arrancou-a, calcou-a aos pés, injuriou-a, desfê-la, reduziu-a a estrume e atirou com ela para bem longe, fazendo assim com que, no seu jardim, da estranha e enigmática criatura não ficassem quaisquer vestígios. Os meses passaram monótonos, desinteressantes e com a mesma lentidão do costume e, para espanto, desta feita incalculavelmente surpreendente, da senhora Manuela, voltou a nascer uma terceira glicínia naquele malfadado lugar do seu jardim. Encastoada entre o desespero e a incredulidade, a senhora Manuela mandou chamar alguém que certificasse a identidade daquele mistério que ali estranhamente florescia. Podia, muito bem, estar a enganar-se, a senhora Manuela e aquilo não ser uma glicínia. Vieram curiosos, técnicos e especialistas e até um jardineiro da Câmara e foram todos de opinião unânime. Não havia dúvida: era uma Wisteria Floribunda, perfeitamente identificável, semelhante às anteriores, única na sua espécie por ali, isolada lá bem longe, nos arrabaldes do jardim, ladeada por craveiros e malmequeres que a protegiam de ventos e temporais. A senhora Manuela, porém, muito admirada e com algum laivo de apreensão, decidiu, desta feita, não arrancar a estranha plantinha que lá foi crescendo, semelhante a uma ervilha-de-cheiro, uma trepadeira volúvel, lenhosa e decídua, florescendo deslumbrantemente e com um ar muito decorativo. As suas folhas eram como que pintadas, com uma coloração avermelhada e pubescentes, mas que aos poucos se foram tornando glabras e verde-brilhantes, intercaladas com inflorescências longas, pendulares, carregadas de numerosas e pequeninas flores, que a senhora Manuela, muito apreensiva, cuidava que haviam de ser roxas ou róseas. Mas nada. As flores da estranha glicínia do jardim da senhora Manuela eram de um branco alvíssimo e puro.

Foi essa a razão por que a senhora Manuela, a partir de então, passou a cultivar, no seu jardim, juntamente com craveiros, orquídeas, roseiras, girassóis, sécias e malmequeres, glicínias que continuavam a produzir flores brancas, de uma beleza invulgar. E o jardim da senhora Manuela encheu-se de glicínias, transbordou de glicínias, extravasou de glicínias, mas brancas. Todas brancas? Não, porque um dia, no jardim da senhora Manuela, no meio de todas aquelas glicínias brancas, nasceu uma glicínia diferente, estranha, muito semelhante à que muito tempo antes havia nascido num canto do jardim e que a senhora Manuela arrancara com desdém, a qual, novamente e para maior espanto da senhora Manuela, cresceu e floresceu como as outras, mas a sua flor era, simplesmente, vermelha.

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publicado por picodavigia2 às 00:18





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