Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



XOU PAJAM

Segunda-feira, 07.10.13

No primeiro ano em que comecei a frequentar a catequese, na igreja paroquial da Fajã, ainda antes de entrar para escola primária, a Dona Maria, irmã do Senhor Padre Pimentel, decidiu ensaiar uma peça de teatro sobre o Nascimento de Jesus, a qual seria apresentada ao público na altura do Natal e do Ano Novo.

Primeiro foi escolhida a peça, cujo cenário principal se centrava na sala do trono do palácio do rei Herodes. A obra seleccionada contemplava, no entanto, uma ou outra cena, noutros locais, incluindo, como não podia deixar de ser, um presépio ao vivo. De seguida e, identificadas as personagens, foram seleccionados os actores e figurantes, que deviam ser escolhidos entre todos os meninos e meninas da catequese. Os mais velhos, sobretudo os mais dotados intelectualmente, ou os referenciados pela senhora professora que, juntamente com as catequistas, também ia colaborar nos ensaios, foram escolhidos para os papéis de maior responsabilidade e, muito especialmente, para o daquelas personagens que “falavam mais” e que os actores teriam um texto maior a decorar. Aos mais pequenos, aos da primeira e da segunda classe seriam atribuídas papéis de personagens secundárias, que apenas proferiam uma ou outra frase. Finalmente os mais pequenitos, grupo em que eu estava incluído, seriam apenas meros figurantes.

A distribuição dos papéis começou com grande expectativa e suspense. Todos estavam ansiosos e inquietos à espera da personagem que lhe seria atribuída e que cada qual teria que desempenhar com o empenho e a competência possíveis. O Salomão do Luís Fraga, talvez pelo monárquico e bíblico nome que possuía, foi escolhido para Rei Herodes, a Vitória do Francisco Inácio, provavelmente pela sua beleza e bondade, foi escolhida para Nossa Senhora, o José Lourenço para São José e por aí abaixo, até que chegou a vez dos mais pequeninos. Eu estava impaciente… O que seria…? Pastorinho, anjinho, menino pobre? E não é que, para espanto meu, a Dona Maria me espeta com a honrosa nomeação de “pajem” do perverso e malvado mas poderoso rei Herodes! Fiquei doido de alegria e louco de contentamento. Muito bem vestidinho, iria sentar-me num banquinho forrado com papel de seda, sem dizer palavrinha, mesmo ali, bem ao lado do trono do poderosíssimo monarca! Que maravilha!

Cheguei a casa muito feliz e com uma enorme vontade de desabafar o meu contentamento e inquieto para anunciar a todos a grande notícia. Como era cioso e pronunciava mal algumas palavras, ao entrar na cozinha, quando já todos estavam sentados à mesa a comer a sopinha de agrião com uma talhada de toucinho e pão de milho, gritei com todas as minhas forças extravasando o contentamento que me ia na alma:

- “Xou pajam”! “Xou pajam”! “Xou pajam”!

E não é que lá em casa, a partir de então, pese embora a peça nunca tenha sido representada, fiquei com o apelido do “Xou pajam”, suplício que tive que suportar durante toda a minha infância.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 14:26





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Outubro 2013

D S T Q Q S S
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031