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O LARGO DE SANTO ANTÓNIO

Terça-feira, 08.10.13

Antes da construção da actual estrada entre o Porto da Fajã e a Ribeira Grande, no caminho que ligava a Assomada às hortas e aos Lavadouros, precisamente no sítio em que aquele caminho formava um cruzamento que dava para a Cuada, havia um largo, conhecido por Largo de Santo António ou simplesmente Santo António. Este largo, como tantos outros lugares na Fajã, tinha, fundamentalmente, a função de descansadouro ou seja, o de ser um sítio rusticamente preparado de modo a que os homens pudessem pousar as cargas que transportavam, descansar e conversar um pouco. Na realidade,em Santo António, como no Alagoeiro, no Pico Agudo ou na Ribeira das Casas e em tantos outros sítios, os homens, ao regressarem dos campos vergados ao peso dos pesados molhos de erva santa, de fetos, de incensos, de lenha ou com cestos a abarrotar de fruta ou de inhames paravam para descansar e cavaquear. Colocando os pesados carregamentos sobre as paredes circundantes, limpavam o suor com as costas das mãos, com lenços ensebados ou até com as mangas das frocas, com as quais também formavam espécies de rodilhas ou almofadas que colocavam sobre as pedras soltas, encostadas às abas das paredes mais abrigadas, para se sentarem sobre elas, de modo a não “apanharem frio”. Descansavam, fumavam, trocavam lume e cigarros, por vezes, se o descanso era mais prolongado, até falquejavam troncos de cana-roca ou um garrancho qualquer e conversavam, discutiam, umas vezes a tirar teimas outras “acertar contas”, recriminando-se reciprocamente. Uns vinham de longe outros de perto, uns mais cansados outros mais aliviados, mas todos ali se sentavam de manhã, ao meio-dia, à tarde e à noite.

O largo era circundado por três altas paredes. A Sul, do lado do Delgado ficava uma horta pertencente ao José de Nascimento, com paredes altíssimas e um gigantesco portão sobre o qual havia um pequenino nicho com uma imagem de Santo António, padroeiro onomástico do lugar. A Oeste e do lado da Cuada uma outra parede, também bastante alta e abrigada, pertencente a uma terra do Roberto de José Padre. A norte e a fazer esquina com as duas primeiras, uma terra do Augusto Mariano, com paredes mais baixas e uma espécie de maroiço anexo que servia de palanca onde os homens colocavam molhos e cestos. Um pouco acima e logo no início do caminho que dava para a Cuada havia uma relva pertencente ao Josezinho Fragueiro, onde havia uma nascente de água com uma bica que jorrava permanentemente um diáfano e fresquinho fio de água, onde homens, mulheres e crianças que por ali passavam ou ali paravam a descansar iam matar a sede. Muitos, no entanto, sobretudo crianças e mulheres, não iam à fonte sozinhos, simplesmente por medo, pois tinha sido naquele sítio, numa outra terra ali ao lado que, alguns anos antes, se teria enforcado um dos filhos da Mariana Felizarda.

A estrada passou e o Largo de Santo António, como muitos outros da Fajã, perdeu o seu protagonismo. Mas como aquele lugar manteve o mesmo nome e, talvez recordando o antigo nicho cuja imagem acabou por desaparecer, foi construída, precisamente no canto da terra do Augusto Mariano, no local onde, durante anos e anos, se colocaram tantos molhos e tantos cestos, uma pequena ermida dedicada a Santo António.

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publicado por picodavigia2 às 11:22





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