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A CASA TRADICIONAL DA FAj GRANDE

Sábado, 12.10.13

A ampla fajã situada na zona Oeste da ilha das Flores, o cantinho mais ocidental da Europa, corresponde a uma área entre o mar e as rochas, dividida a meio pelo Ribeira Grande, a fronteira natural entre as duas freguesias que ainda hoje a ocupam - a Fajãzinha e a Fajã Grande. A quando da descoberta da ilha, esta fajã seria naturalmente coberta por uma vegetação selvagem que os primeiros povoadores a pouco e pouco foram desbravando e transformando o terreno em campos agrícolas, dado que era bastante fértil. No entanto, como ficava na parte Oeste da ilha e sendo um local de difícil acesso, devido às rochas que a cercam, foi a última zona da ilha a ser povoada.

Na Fajã Grande, foi a zona situada entre o Pico da Vigia e o Outeiro, ou seja, na Assomada, local mais abrigado das intempéries e dos temporais, que se construíram as primeiras habitações, muitas delas ainda existentes na década de cinquenta do pretérito século. Tratava-se de uma habitação, em muitos aspectos, semelhante à que então existia no Norte de Portugal Continental.

As casas da Assomada e muito mais ainda as da Fajã Grande, obviamente, que não eram todas iguais. No entanto, a maior parte tinha, na realidade, muitos aspectos semelhantes, podendo pois falar-se, de alguma forma, num tipo de habitação específico ou se quisermos, uma casa tradicional, da qual, no entanto, se destacavam uma boa parte das moradias, com algum ar e semblante um pouco aristocrático, da Rua Direita, onde viviam as pessoas de mais posses e que muito provavelmente teriam sido construídas por emigrantes regressados da América. O mesmo muito provavelmente terá acontecido com algumas das melhores e maiores casas das outras ruas, também distintas das outras pelo seu tamanho e sumptuosidade. Exceptuando estas, normalmente em forma de L e com dois andares, sendo ambos geralmente de habitação ou uma parte de habitação e outra de arrumos, mas não de gado, as restantes casas eram bastante semelhantes. Estas provavelmente também eram as mais antigas dada a sua semelhança com algumas mais velhas já abandonadas ou adaptadas a palheiros de gado. Tratam-se de casas lineares, correspondentes a uma construção rectangular, sobre o comprido e que geralmente tinham três divisões: cozinha, sala e um quarto. O quarto era destinado ao casal e aos filhos mais pequenos, a sala ou “casa de fora” que tinha uma cama para os filhos mais velhos e era aí também que se recebiam as visitas mais importantes e onde se guardavam as roupas domingueiras e, finalmente, a cozinha, a maior divisão da casa, que tanto servia para cozinhar como sala de estar, de local para as refeições, para fazer serão e até para guardar, “encambulhar” e descascar o milho no dia da apanha ou até para o guardar. De facto em muitas casas da Fajã penduravam-se os “cambulhões” do milho descascado em varas presas nos tirantes ou nas próprias traves das cozinhas, pois estas geralmente não eram a tabicadas.

Normalmente estas casas eram térreas e só de um piso, embora muitas tivessem uma loja inferior semienterrada por aproveitamento do desnível do terreno. A loja inferior, geralmente, servia de palheiro do gado, de arrumos e também de retrete. A cozinha e a sala eram os espaços mais iluminados. A primeira geralmente possuía duas portas, uma na frente e outra na parte de trás e uma ou duas janelas. A sala por sua vez tinha uma porta do lado da frente, a porta principal e que se abria em ocasiões mais solenes, enquanto o quarto, regra geral desfrutava apenas de uma janela. Grande parte da cozinha era ocupada pelo forno e pelo lar. A partir do abastecimento de água à Fajã, a maioria das cozinhas passou a beneficiar de uma fonte de água corrente e uma pia feita em cimento e encastoada numa parede, junto ao lar.

Estas casas eram cobertas de telha e não tinham chaminés, uma vez que não sendo a cozinha tabicada, o fumo evadia-se por entre as telhas. Em muitas delas a cozinha não era a assoalhada, mas de terra barrenta, chamada cozinha térrea. Grande parte da cozinha era ocupada pelo forno, onde se cozia o pão e pelo lar, onde se cozinhava e onde havia o tijolo do bolo e debaixo do qual era empilhada e arrumada a lenha picada.

Como anexos, estas casas tinham, para além de um pátio atrás e outro à frente, um curral para o porco, outro para as galinhas, um logradouro para guardar o estrume dos animais, o cepo da lenha, o «estaleiro» onde se guardava o milho e uma courela onde se cultivavam produtos agrícolas, com uma parte reservada ao canteiro da batata doce.

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publicado por picodavigia2 às 15:37





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