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TIO MATEUS FELIZARDO

Domingo, 13.10.13

Tio Mateus Felizardo era, nos meus tempos de criança, um dos homens mais velhos da Fajã. Nascera em 1869 e foi das primeiras crianças a ser baptizada na igreja paroquial fajãgrandense, dado que a paróquia havia sido erecta apenas oito anos antes do seu nascimento. O seu nome completo era Mateus Rodrigues Felizardo, sendo seu pai Manuel Rodrigues Felizardo e sua mãe Ana Isabel Narciso. Casou, na Fajã Grande, no dia dois de Fevereiro de 1895, com Mariana Fagundes Felizardo filha de João de Freitas Lourenço e de Luciana Emília da Silveira, casados em 2 de Setembro de 1865. Por sua vez, a sua mulher, Tia Mariana, como era conhecida, havia nascido em 1870 e era irmã da mãe da Sra Fragueira, que morava numa Canada da Fontinha e que mais tarde professou como religiosa na Congregação da Sagrada Família e também do sogro do Maurício ou seja o marido da Senhora Gonçalves, que morava quase no cimo da Assomada, ambos já falecidos, na altura. Tio Mateus Felizardo morava na Assomada, numa casa que ficava quase em frente à Canada do Pico, do lado esquerdo de quem subia, logo a seguir à casa do Mestre Augusto Mariano e um pouco afastada do caminho. Vivia com a esposa, na companhia de uma neta, a Ana, com eles criada desde de pequenina e que mais tarde casou com o Manuel da Senhora Violante. Acometido de doença incurável naqueles tempos em que médicos e tratamentos eram escassos, o Manuel faleceu algum tempo depois de casar, tendo a Ana voltado a contrair matrimónio, desta feita com o António Vieira que morava na Fontinha, perto da Fonte Velha.

Como a casa dos meus pais ficava um pouco mais abaixo da do Tio Mateus Felizardo, todos os dias eu via passar aquele velhinho, sorridente e simpático, com ar sereno e a fazer lembrar os republicanos do início do século, apoiado a uma bengala, com um casaco grosso vestido, com a gola levantada, a proteger o pescoço do frio, de boné ou chapéu e com umas longas barbas muito brancas mas amareladas junto à boca, resultado do seu vício de mascar tabaco. Devido à idade já não trabalhava, mas todas as tardes saía de casa e vinha sentar-se à Praça, juntamente com outros homens, conversando, cavaqueando, mexericando, “falquejando” ou simplesmente descansando.

Um dia, porém, não o vi passar frente ao pátio da minha casa. Perguntei por ele e disseram-me que tinha morrido e que havia de passar por ali apenas mais uma vez. De facto, no dia seguinte, em vez do velhinho simpático e sorridente que via passar todos os dias em frente à porta da minha casa, eu vi um enorme cortejo fúnebre, precedido por uma cruz a que se seguia uma fila de homens e mulheres, vestindo de preto, cabisbaixos eem silêncio. Osfamiliares choravam e os amigos tinham os olhos pejados de lágrimas. Alguns homens transportavam um caixão preto, à frente do qual seguia o senhor padre de capa de asperges negra e o barrete das três quinas. Os sinos na torre da igreja dobravam a finados, as portas e as janelas das casas da Assomada fecharam-se todas e, naquela tarde, não havia homens sentados à Praça. Era a última vez que por ali passava Tio Mateus Felizardo.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:18





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