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A SENHORA DA SERRA DAS CARPETES

Domingo, 13.10.13

Era uma vez uma serra, chamada “Serra das Carpetes”, distante e inóspita mas atraente e maviosa, onde, todos os invernos, chovia torrencial e ininterruptamente, impedindo os pastores que viviam nas aldeias dispersas, nas suas fraldas, de a ela se deslocarem, no pastoreio dos seus rebanhos. Os invernos, na realidade, ali nas cercanias, eram terrivelmente frios e tempestuosos, cobrindo-se, a serra, de um manto de neve, inicialmente branco, mas que, aos poucos, se ia tornando esverdeado, à medida que os blocos de neve se desfaziam, deslizando sobre a erva e perdendo-se nos regatos. Pelo contrário, no verão, a serra, muito especialmente, na sua vertente voltada a oeste, drenada pelas reconfortantes chuvas do inverno, que ali se haviam aglomerado, barrava-se como se fosse um enorme manto verde e transformava-se num imenso prado, um espaço belo, atraente e paradisíaco. As chuvas frequentes e contínuas do inverno, faziam com que o seu solo, sobretudo na parte mais alta, fosse muito húmido, quente e profundo, propício ao florescimento da fresca alfombra, destinada ao pastoreio. Nas zonas mais baixas, mais quentes e mais hostis às investidas invernais dos nevões, abundava uma floresta de freixos, faias, ulmeiros, carvalhos e outras árvores, que misturavam as suas folhas caídas com as camadas arbustivas de aveleiras e espinheiros e com outras herbáceas, onde sobressaíam os fetos, as campainhas, as prímulas, as anémonas e as violetas que, na primavera, davam, à serra, um tom colorido de amarelo, lilás e azul. Aliás era o seu aspecto aveludado e os tons brancos, verdes, amarelos e arroxeados que a ornavam, que lhe haviam dado o epíteto de Serra das Carpetes. É que a serra, na verdade, revestia-se de um manto de beleza infinita e infindável, um tapete pulquérrimo, aureolado de excelência. Um deslumbramento deslumbrante! Além disso, a serra, como que consubstanciava uma tremenda alegria natural e uma simpatia contagiante, pois atraia e dignificava os que a procuravam, porque se excedia numa beleza singular, radiante, enternecedora e transcendente. A natureza havia-a dotado de tudo. Regatos e rios a correrem suavemente, por vezes entremeados com pequenas cascatas que lhe conferiam uma graciosidade ainda maior, ou, então, perdiam-se, formando pequenos lagos, que a aureolavam duma beleza bucólica, no meio da intensa e variada vida, que, desde os tempos mais remotos, se orgulha de manifestar. A Serra das Carpetes possuía uma sublimidade delirante, uma suave e inconfundível transcendência, misturadas com aromas de silêncio e de sombras e uma doçura de magia e de encanto. O local ideal não apenas para o pastoreio de rebanhos mas também para o nascimento de lendas, mitos e enigmas.

Ora uma das muitas lendas que da serra se contava era a de que, em tempos idos, durante alguns invernos seguidos, não choveu na serra das Carpetes, seguindo-se, então, um prolongado e desolador período de seca. Os rios e regatos ficaram sem água, a vegetação feneceu e, pior ainda, as árvores esmoreceram, os arbustos secaram, os prados tornaram-se estéreis e as pastagens, outrora verdejantes e férteis, definharam, por completo, impedindo os pastores das aldeias serranas de para ali se deslocarem, no pastoreio dos seus rebanhos. Muitos deles, perante as dificuldades em ali pastorear as suas ovelhas porque não encontravam verdura nos pastos daquela serra, deslocaram os seus rebanhos para outras pastagens, enquanto outros, abandonaram a pastorícia e partiram para terras distantes.

Numa das aldeias porém, havia um pastorzinho, pobre e humilde, que possuía um pequeno rebanho. Como não tinha nenhum outro local para levar as suas ovelhas nem dinheiro para o aluguer de outras pastagens, o pequeno pastor decidiu continuar a levar o seu rebanho para as pastagens da Serra das Carpetes. Estas, porém, estavam secas e estéreis, pelo que as ovelhas regressavam de lá, ao fim do dia, esfomeadas e famintas e o pastor muito triste pois nada encontrava para as alimentar. Mas como não tinha alternativa, no dia seguinte conduzia, novamente, o seu rebanho para as mesmas pastagens, na esperança de ali encontrar algum alimento. Mesmo que fossem as folhas amarelas e secas caídas das árvores ou os resíduos apodrecidos das ervas e arbustos de outrora.

Ora num dia em que, mais uma vez, o pastor se deslocou para a serra com o seu rebanho, enquanto se postava, triste e pesaroso, junto a um cabeço, porque as ovelhas nada encontravam para comer, estranhamente, encontrou uma grande moita de erva muito fresca e verdejante que se distinguia de todas as outras plantas secas, estéreis e a apodrecer, que se encontravam ao redor. As ovelhas viram a moita e foram logo a correr na demanda da fresca ervinha. Comeram e voltaram a comer até se saciarem e, no fim, para pasmo e espanto do pastor, a moita continuava cheia de ervinha fresca e apetitosa como se as ovelhas lhe não tivessem tocado. O pastor achou aquilo muito estranho, foi lá ver o que aquela moita tinha de tão especial e encontrou, no meio da erva, uma luz brilhante, parecia uma estrela. Muito admirado com o seu achado, e sobretudo muito contente por as ovelhas virem bem alimentadas, regressou a casa. Perante a admiração dos outros pastores, contou-lhes o que se tinha passado, mas eles não acreditaram, embora não percebessem como se tinham tão fartamente alimentado as ovelhas. Muito confuso, o pastor voltou à serra, no dia seguinte, e encontrou a mesma moita, onde novamente as ovelhas saciaram a sua fome. Cheio de curiosidade e de espanto, o pastor aproximou-se e em vez da estrela brilhante que vira no dia anterior deparou-se com a imagem de uma Senhora. Era uma Senhora mais bela do que as madrugadas, mais brilhante do que as estrelas, mais sorridente do que as flores. Tentou agarrá-la mas não conseguiu. Pareceu-lhe ser a imagem da Virgem Maria. Seria que a Mãe de Deus que se compadecera dele e do seu rebanho e lhe colocava ali aquele manancial de erva fresquinha? Tímido, o pastor não contou o seu segredo a ninguém, embora os outros pastores se movessem de cuidados em perceber como o pastorzinho alimentava as suas ovelhas.

A partir de então, o pequeno pastor dedicava aquela moita, uma atenção, um carinho, uma devoção muito especial. Todos os dias a moita alimentava o seu rebanho e todos os dias permanecia repleta de erva tenra e fresquinha como se as ovelhas a não tivessem comido. Os dias passaram e o rebanho do pequeno pastor foi prosperando e crescendo tornando-se o maior rebanho de quantos existiam nas aldeias das cercanias da Serra das Carpetes.

O pastor, passado algum tempo enriqueceu e, de imediato, mandou construir uma pequena capela, onde colocou uma imagem da Virgem, semelhante àquela que encontrara na moita e que passou a chamar “Nossa Senhora da Serra das Carpetes”. Inexplicavelmente o êxito do pastor nunca se tornou notícia nas aldeias serranas, nem nunca se soube que ele tinha construído uma capelinha em honra da Senhora da Serra das Carpetes. Apenas uns lenhadores que por ali passaram, certo dia, contaram na aldeia que haviam encontrado, na serra, um miúdo inanimado, dentro de um cabana, que, aparentemente, ele próprio havia construído com troncos e ramos de árvores e, em cima da qual colocara uma cruz.

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publicado por picodavigia2 às 10:08





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