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PERSISTÊNCIA

Quarta-feira, 16.10.13

A Doutora Patrícia do Carmo Moreira Alves é, hoje, uma distinta e competente médica. Especializada em Oncologia, para além da sua actividade hospitalar diária, tem desenvolvido um importante trabalho de investigação, pesquisa e estudo nas áreas da imunoterapia e da imunoprofilaxia de doenças infecciosas e parasitárias.

Conheci a Patrícia era ela ainda criança e frequentava a primeira classe. Embora não acompanhando, nessa altura, o seu percurso escolar, soube que, ao longo de toda a sua permanência no primeiro ciclo, foi uma aluna brilhante, estudiosa, inteligente, aplicada e trabalhadora, para além de simples, meiga, carinhosa e ternurenta.

No segundo ciclo, porém, quis o destino, que fizesse parte de uma das turmas que me foi confiada, no início de um novo ano lectivo Uma alegria e um contentamento para ela. Um enlevo e um encanto para mim.

Senhora de uma vontade férrea em aprender, movida por um enorme desejo de estudar impulsionada pela exigência de ser brilhante, participava nas aulas com um interesse desmesurado e uma atenção permanente, estudava com entusiasmo e empenho e realizava com gosto e eficiência as tarefas de aprendizagem que lhe eram propostas. Aliava à excelência das suas capacidades intelectuais e aos excepcionais desvelos de aprendizagem, um enorme sentido de responsabilidade, uma esmerado empenhamento em tudo o que fazia e uma transcendente alegria de viver. Concluiu o segundo e o terceiro ciclos, com excelentes resultados. Um senão, no entanto, pesava no seu quotidiano e obstaculizava a continuidade dos seus estudos. Os pais eram muito pobres e a família numerosa. A obrigatoriedade de começar a trabalhar, após o terceiro ciclo, era, por conseguinte, uma exigência que lhe cerceava a continuidade dos estudos.

No final do nono ano, ao ver barrada a possibilidade de prosseguir os estudos, procurou-me para desabafar as suas mágoas e confessar o seu desalento. O seu sonho era frequentar a Universidade, tirar um curso superior e a sua grande vontade era ser médica.

Tentei compreendê-la e apoiá-la, aconselhando-a de que talvez fosse melhor e sobretudo, mais concretizável, tirar um curso profissional de que gostasse, ligado à área da saúde, porque menos demorado, sem exigências do décimo segundo ano e, além disso, bastante mais económico. Impensável! Podia eu acreditar e um dia havia de ver: custasse o que custasse, demorasse o que demorasse, havia de tirar um curso superior e havia de ser medicina. Perante tamanha convicção e conhecendo, não apenas as suas capacidades intelectuais mas também a vontade férrea de sempre conseguir o que pretendia, encorajei-a e desejei-lhe sorte, muita sorte.

Por exigência dos pais, a Patrícia, começou a trabalhar, numa fábrica de confecções. Cuidei que fosse o termo dos seus sonhos, até porque a morte repentina do pai, pouco tempo depois, veio estigmatizar-lhe ainda mais a vida e o destino. Mais tarde, foi a falência da fábrica que a desempregou e lhe trouxe maiores dificuldades. Mas, pelo contrário, estes e outros dissabores como que lhe acicataram, ainda mais, a vontade de lutar e singrar na vida. Trabalhou no campo, serviu em casas, fez limpezas em condomínios e, finalmente, começou a estudar de noite. Através de concurso, conseguiu um lugar de auxiliar de acção educativa num Jardim de Infância. Aos fins-de- semana, no entanto, continuava a trabalhar em supermercados ou em promoções de vendas. Apenas à noite frequentava as aulas e estudava. Ao fim de três anos completou o Ensino Secundário com a média necessária para entrar em Medicina. Continuando a trabalhar, embora beneficiando do estatuto de trabalhadora estudante e conseguindo um empréstimo, que bolsas de estudo foram-lhe sempre recusadas, ao fim de alguns anos terminou o Curso de Medicina. Fez a especialidade, a pós graduação e o douramento, tendo, no entanto renunciado à carreira de auxiliar de acção educativa.

Hoje é uma médica conceituada com um notável e impressionante currículo, sobretudo, na área da investigação, tendo já diversos trabalhos publicados em revistas nacionais e estrangeiras. Mantém a lhaneza, a inocência e a simplicidade de criança, a força, a beleza e vontade de querer da juventude. Confessa sentir-se profundamente realizada, não tanto pelo que é, mas por o ter conseguido por ela própria, graças à sua firmeza de vontade, à persistência de lutar, ao transpor de barreiras e, também, às suas capacidades naturais. Lutou e venceu os obstáculos que a vida lhe colocou e conquistou, por si própria, o direito não apenas de identificar e definir a sua missão de vida mas, sobretudo, de conquistar os percursos da sua própria realização profissional.

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publicado por picodavigia2 às 00:05





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