Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]



O MOINHO DO CAFÉ

Quarta-feira, 16.10.13

O moinho do café, outrora, era um utensílio praticamente existente em todas as casas da Fajã. Pregado numa parede da cozinha ou encastoado na divisória que a separava da sala, o moinho do café, um objecto relativamente pequeno mas muito útil e absolutamente necessário, era movido por uma manivela manual que ao rodar-se com alguma velocidade punha em movimento uma engrenagem existente no interior do moinho e constituída por eixos e rodas sobre as quais os grãos do café, sós ou misturados com outros, lançados numa pequena caixa ou enclave superior, iam caindo sobre as rodas, ao mesmo tempo que eram triturados por estas e transformadosem pó. Umavez moído, o café caía, sob a forma de pó, através de um orifício existente na parte inferior do moinho e era recolhido numa lata ou num frasco próprio ou adaptado, ou, por vezes, até na própria cafeteira em que, de seguida, havia de ser feito.

Na década de cinquenta, o café a que se misturava um pouco de leite era, muito provavelmente e depois da água, a bebida mais utilizada e consumida em quase todas as casas da Fajã Grande. Bebia-se café de madrugada, durante a manhã, ao jantar e por vezes até à noite, à ceia ou antes de ir para a cama. O café utilizado ao longo de toda esta bebericação diária, no entanto, não era apenas feito com o café puro, comprado a retalho nas lojas, mas sim com uma mistura constituída por este, comprado em grão e por vezes ainda cru, sendo depois torrado no tijolo do bolo ou no forno, por favas secas e igualmente torradas e por chicória, esta também comprada nas lojas, mas já torrada e bastante mais barata do que o café. Todos estes ingredientes eram misturados e lançados aos punhados sobre a abertura superior do moinho, onde depois, com o rodar da manivela, tudo era moído e transformadoem pó. Constaque em tempos mais remotos também se juntavam a esta mistura raízes de fetos, depois de muito bem lavadas, secas ao sol e torradas.

O café era feito geralmente para um dia ou dois e, para que estivesse sempre quentinho, sobretudo quando homens e mulheres regressavam a casa, cansados e exaustos das tarefas e lides agrícolas, era colocado no bule próprio, o qual, por sua vez, era posto debaixo de um abafador. O consumo do café tornava-se maior, uma vez que na Fajã não se produzia vinho e comprá-lo nas lojas ficava bastante caro e inacessível à maioria das bolsas. Assim era uma tigela de café que acompanhava a refeição da manhã ou o almoço, ainda o jantar, ao meio-dia e, por vezes, até a ceia, à noite. Se a esta porção juntarmos as tigelas de café bebidas a meio da manhã, ao longo da tarde e até durante a noite, pode-se fazer uma ideia da quantidade de café que era preciso moer, das favas que era necessário torrar e juntar, bem como da necessidade de ter o moinho do café, mesmo ali à mão, pregado numa parede da cozinha ou encastoado na divisória que separava a cozinha da sala.

O consumo excessivo do café na ilha das Flores foi considerado pelos habitantes das restantes ilhas açorianas, como sendo a principal causa da excessiva percentagem de doentes mentais das Flores que demandavam a casa da Saúde de São Rafael, na perspectiva duma cura. Sabia-se, no entanto que isso não era verdade porque afinal o café bebido pouco tinha de café e que a principal e verdadeira causa das doenças mentais de muitos florentinos estaria antes ligada ao problema da consanguinidade, flagelo próprio das pequenas localidades. Contava-se que, por essa altura, na freguesia da Caveira, morreu um homem de avançada idade e mais de metade da freguesia ficou de luto, pois quase todos os habitantes da freguesia eram seus parentes.

Autoria e outros dados (tags, etc)

publicado por picodavigia2 às 15:07





mais sobre mim

foto do autor


pesquisar

Pesquisar no Blog  

calendário

Outubro 2013

D S T Q Q S S
12345
6789101112
13141516171819
20212223242526
2728293031