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A FONTE VERMELHA E O LUGAR DO MESMO NOME

Quarta-feira, 16.10.13

Quase no cimo da Rocha da Fajã Grande, mais concretamente, a dez voltas da cancela da primeira relva, existia outrora e, pelos vistos ainda hoje existe, uma fonte de água fresquíssima, puríssima, deliciosíssima e como que miraculosa, porque suavizava o cansaço, balsamizava o esgotamento físico de quantos por ali passavam quotidianamente e sobretudo dos que, desabituados de tal suplício, subiam aquele alcantil escarpado e abrupto apenas de quando em vez, uns e outros alquebrados pelo cansaço resultante de tão longa e íngreme subida e retemperava-lhes as forças e o ânimo para continuarem a íngreme subida. Denominada de Fonte Vermelha, embora nada tivesse de encarnado que justificasse tal epíteto, a não ser as pedras de tufo avermelhado que a rodeavam, a dita cuja dava também nome ao local da Rocha onde se situava e que abrangia não apenas as sinuosas voltas para cima e para baixo, mas também os socalcos, as ravinas, as pequenas belgas e as enormes vergas de pedra que ali ao lado existiam. Era o lugar da Fonte Vermelha, onde chegar após tão tormentosa subida era, para os mais débeis e vulneráveis ao cansaço, um acto heróico, um triunfo de que se ufanavam e vangloriavam. Chegar à retemperadora Fonte Vermelha era, por um lado, uma assombrosa, inaudível e surpreendente vitória e por outro. a certeza de ter o bálsamo adequado, reconfortante e animador – a água pura e fresca que dali jorrava. É que chegar à Fonte, para além de saciar a sede, descansar o corpo e aliviar a tormenta, na que se dizia ser a melhor água da ilha das Flores, era a certeza de faltarem poucas voltas para o cimo da Rocha. A fonte era contínua, permanente e eterna. É que a água jorrava, incessantemente, de uma pequena e tosca bica, encravada num tufo da Rocha, onde cada transeunte sequioso colocava uma folha de incenso ou de sanguinho, para ter acesso mais higiénico e eficiente ao consumo do cristalino e diáfano fiozinho. Parecia que quanto mais se bebia mais água brotava do tufo. Todos os que por ali passavam dela bebiam todos os dias e todas as vezes e, não raramente, depois de beber, voltavam a beber muitas outras vezes, quer quando subiam quer quando desciam e o mais curioso é que a fonte nunca secava. Corria sempre, dia e noite, jorrando um frágil mas contínuo veio, lá bem do interior da terra. Mesmo que ninguém a procurasse para beber, a água continuava a brotar e caía solitária mas sussurrante, formando, no chão, uma poça que, depois de cheia e de nela os animais também beberem, ainda escoava pelos degraus e encostas da Rocha, transformando-se num pequeno regato e enchendo com tons de verde, sons de suavidade e aromas de frescura todo aquele maravilhoso lugar – o lugar da Fonte Vermelha.

 

 

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publicado por picodavigia2 às 22:53





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