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O ROGAS

Quinta-feira, 17.10.13

O Rogas era o homem mais rude e bisbórrias da aldeia. Nasceu sem saber quem era o pai. Abandonado, mais tarde, pela mãe, deambulou, sem destino, até que o Cabral o apanhou, vendo nele mão-de-obra gratuita. Não se enganara, o mariola. O moço, embora raquítico e franzino vinha mesmo a calhar. Deixá-lo vingar e serviria perfeitamente para as lides agrárias, quer tratando de leiras e courelas onde florescia o trigo, a aveia e os legumes, quer pastoreando o gado nas encostas e barrocais da serra, enquanto ele, Cabral, se reservava exclusivamente às tarefas comerciais, no execrável e hediondo botequim que herdara do sogro, o qual profligava dia após dia.

Foi, pois, um investimento razoável, o do Cabral. É que o tratante, na ânsia de enriquecer, tornara-se sovina e larápio. Não havia tostão que lhe saísse do bolso. No botequim vendia de tudo: o autorizado e o não permitido, o gamado e o obtido na candonga. Além disso, reinavam mixórdias e salsadas, entre pesos adulterados e medidas falseadas. Como era profícuo em falta de escrúpulos, a contratação do moço veio mesmo a calhar e estava facilitada, pois o garraio era pouco exigente, contentando-se com cama e mesa, prescindindo da roupa lavada.

O moço, no início, adaptou-se servil e perfeitamente ao trabalho. Levantava-se noite escura, levava uma côdea de pão e um naco de queijo e regressava ao lusco-fusco, com cada tarefa eximiamente cumprida. Não havia vento, chuvada, tempestade, nem muito menos escola que o poupasse e os campos do Cabral floresciam como nunca, enquanto as falcatruas, no botequim proliferavam assim como crescia o pecúlio no cofre.

O Rogas cresceu e tornou-se homem. O empenho desmesurado que colocava nas  lides agrícolas impediam-no de se aventurar nas extravagâncias duma juventude fogosa e trivial. Nem domingos, festas, folguedos ou flostrias. Namoro, apenas passageiro. À cidade viera apenas uma vez. Foi para se inscrever no serviço militar do qual, por influências interesseiras do Cabral, foi dispensado. É que o Rogas, forçado às exigências do biltre, via-se obrigado a abdicar de tudo. Não possuía nada, nem coisa nenhuma. No entanto, com o rolar do tempo, foi-se apercebendo das injustiças de que era vítima e entendeu a promiscuidade que o rodeava e que singrava nos negócios e nas atitudes quotidianas do seu amo. Daí ao grito de libertação foi um ar. Continuar a ser explorado por aquele vigarista, aldrabão e gatuno é que não. O somítico nunca lhe dera uma folga, nem sequer um tostão.

Saiu, pois, do Cabral, pese embora desconhecesse o seu destino. Era certo porém que ninguém aceitaria como fâmulo um embusteiro embalado e formado na doutrina intrujona do Cabral.

Assim deambulou, algum tempo, sem dinheiro e sem destino. O primeiro dia foi de jejum e na primeira noite teve como abrigo as ombreiras da Igreja Matriz. Na noite seguinte, porém, foi despejado dali. Cuidando o zeloso sacristão que tal presença punha em risco a dignidade e decência do templo, escorraçou-o sem dó nem piedade. Restou-lhe como refúgio um casebre à porta de entrada do cemitério.

Nas primeiras noites, escuras como breu, sentiu alguns arrepios. Mas vieram, de seguida, as noites de lua cheia e, com elas, a adaptação a tão tétrico habitáculo.

A comida procurou-a por esmola. Pesava contra ele a malvadez e a sovinice do Cabral, com o qual agora como que era identificado. Por isso, vezes sem conta, lhe atiravam à cara:

- Vai comer para onde trabalhaste!

Granjeara, sem proveito, a fama desprezível do amo. Agora, isolado entre mortos e sepulturas, tornava-se cada vez mais rude, assumindo, além disso, um ar de marginal. Sobre ele despejava-se ódio, abandono e desinteresse. A roupa, sempre a mesma, não via água há meses e, consubstanciada com a barba por fazer e com o cabelo por pentear, atribuía-lhe, inevitavelmente, um perfeito ar de vagabundo, que levava uns a afastarem-se e outros a não lhe manifestarem qualquer auxílio.

Apenas o coveiro lhe dedicava alguma atenção e cuidados, partilhando com ele palavras e alimentos. Porém, a sua morte, tempos depois, redobrou-lhe a solidão e o isolamento, mas fez com que lhe surgissem novas perspectivas É que não havia, na aldeia, candidatos à vagatura. Por isso se generalizou a sentença: - “O Rogas que vá abrindo as sepulturas.”

Teve que aceitar e a primeira cova que abriu foi a do seu antecessor, assumindo o cargo, com dignidade, sonhando que, um dia, haveria de calcar o sovina do Cabral.

O Dr Assumido Paixão ocupava, desde a morte do pai um sumptuoso palácio edificado no centro da aldeia. Era um magnífico e gigantesco edifício, com jardim e grandes escadarias, construído muitos anos antes. O Dr Assumido, que agora dava continuidade às lides agrárias e aos negócios que herdara do avô, tinha uma filha, Isaura. Jovem, bela, crescera isolada entre as grossas paredes e os altos portais de ferro do palácio, pouco conhecedora do mundo que a rodeava. Partira muito nova para Lisboa, para estudar. Regressava à aldeia, apenas nas férias, desconhecendo quase na íntegra, lugares, costumes e pessoas. É que, sem parentes ou amigos, isolava-se no interior do palácio, percorrendo o jardim, contemplando as obras de arte e as espécies botânicas que por ali singravam, graças ao bom gosto artístico e ao amor à natureza do vovô Carmo.

Isaura acabava de terminar mais um ano lectivo, o último antes de entrar para Direito, quando recebeu a notícia do trágico acidente em que morreram o pai e a mãe. Regressou rapidamente à aldeia entre prantos e lamentos. Aprontou-se o funeral. O Rogas, com trabalho redobrado, maldisse a sua sorte. O cortejo fúnebre entrou a passos lentos no cemitério. Atrás dos féretros, Isaura, vestida de negro, era a imagem da dor e do desalento. Uma pequena multidão seguia-a, partilhando o infortúnio e a tristeza.

Terminadas as orações a maioria dos acompanhantes retirou-se. Isaura ficou só. Trémula, lançava-se ora sobre um ora sobre outro dos caixões que jaziam sobre a terra calcada pelos pés dos circundantes. Dos seus olhos rolavam lágrimas de dor e desânimo. Espelhava, no rosto a marca terrificante do infortúnio. De repente, o seu corpo franzino, perdendo o vigor, balançou e caiu por terra.

O Rogas hesitou. Desde há muito que a sua atenção se fixara naquela jovem dolente, amargurada e inconsolável, despertando nele complacência e compreensão. O amor atrofiada desde criança a quando do abandono maternal e a compaixão adormecida desde as sevícias e abusos do Cabral, como que renasceram, naquele momento, explodindo fleumaticamente dentro do seu peito.

Dirigiu-se para junto da jovem e pegando-lhe nas mãos acariciou-lhe tímida mas carinhosamente o rosto pálido. Alguns circundantes mais chegados a Isaura ainda o tentaram afastar mas sem eficácia. Ela, abrindo os olhos, sorriu-lhe, aceitando os eflúvios carinhosos que emanavam daquele ser tão estranho e até então emocionalmente atrofiado.

E do rosto enegrecido e fleumático do Rogas, rolaram lágrimas de dor que perfurando a barba negra, se despegaram do rosto e caindo no chão se misturaram com o dolente sofrimento de Isaura. Pela primeira vez o Rogas chorou!...

A manhã seguinte surgiu cinzenta e enevoada. Entre os dois montes de terra fresca, cobertos de flores e fitas roxas, Isaura ajoelhada, orava.

O Rogas, tímido e hesitante, saiu do seu cubículo e aproximou-se. Nem uma palavra... O seu olhar, porém, revelava uma compreensão infinita e uma complacência sem limites. Ajoelhou-se ao lado... Orou também e chorou de novo.

As manhãs repetiram-se. Quando ela entrava, o Rogas, disponibilizando carinho e compaixão, como que adivinhando-lhe a chegada, já estava ajoelhado entre as duas sepulturas, sobre as quais as flores amareleciam.

Passaram-se dias, passaram-se meses. Entre muitas hesitações, Isaura decidiu continuar a manutenção do palácio de que agora era proprietária, as lides agrárias e os negócios do pai. Parentes, amigos e vizinhos davam conselhos e ofereciam préstimos. Isaura, apercebendo-se de intervenções tão descaradamente interesseiras, que contracenavam, na sua mente, com a imagem simples daquele homem que diariamente a acompanhara no cemitério, ia protelando decisões. Não esquecia a imagem do homem pobre e rude, que, sem a conhecer, sem interesses de qualquer espécie, se colocara humildemente a seu lado, partilhando a sua dor, oferecendo-lhe compaixão...

Estranhamente tomou uma decisão – aquele homem seria o seu capataz. Depois de ele se preparar devidamente, confiar-lhe-ia a gerência não apenas do palácio, mas de todos os seus bens e negócios, libertando-o da miséria e da rudeza em que vivia.

O Rogas recusou. O que aquela menina lhe oferecia era um absurdo. Isaura ultrapassou todos os obstáculos que ele lhe contrapôs. No início ela ajudá-lo-ia, preparando-o devidamente.

E preparou-o. E o Rogas transformou-se radicalmente, depressa se integrando, com grande dedicação e interesse, na gestão dos negócios e bens de sua ama.

Passaram os anos. A doutora Isaura regressou à aldeia licenciadaem Direito. Assumiunão exercer a advocacia, sistematicamente e por profissão. Como, no entanto, muitas pessoas, sobretudo as mais pobres, se dirigissem a ela para resolver os mais diversos assuntos, sempre com auxílio e colaboração do Senhor Rogas, cedo se espalhou, pela aldeia, a fama da sua eficácia e a excelência da sua generosidade. Tais qualidades, aliadas ao facto de fornecer os seus serviços gratuitamente, fizeram com que o palácio fosse sistematicamente procurado para que a senhora doutora resolvesse os assuntos mais complicados e as questões mais inverosímeis, sempre por intercessão do Senhor Rogas.

Certa noite, aproximou-se do portão, um vulto negro de mulher, embrulhado num grosso xaile, que lhe cobria todo o corpo. Tocou ansiosamente a campainha. Como habitualmente, o Rogas veio abrir. Era ele que levava sempre os recados ou as súplicas que julgasse dignas de compaixão, à senhora doutora.

O vulto, ao aproximar-se, retirou o xaile descobrindo o rosto choroso. O Rogas estremeceu. Era a mulher do Cabral. O peito encheu-se-lhe de cólera e de raiva. A mulher, porém, perdida na escuridão da noite, sem se aperceber de que era ele, suplicava incessantemente:

- Peça à senhora doutora que liberte o meu homem! Ai, a senhora que liberte o meu homem, por alma dos seus paisinhos.

O Rogas, sem se dar a conhecer, tremulamente indagou:

- O que se passa? Porque prenderam o seu marido?

A mulher, então, explicou que o seu homem tinha sido preso, junto à fronteira, mas injustamente, por engano, sem ter feito nada. Apenas andava a tratar de uns negócios, nada de contrabando, não senhor, que o seu homem não era desses, que a senhora doutora podia confiar nele e que só uma palavrinha dela o libertaria da prisão.

O Rogas ouviu-a atentamente.

Passado algum tempo o Cabral foi libertado.

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publicado por picodavigia2 às 11:43





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