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O EXAME DA QUARTA

Sexta-feira, 18.10.13

No fim da minha quarta classe na Escola Mista da Fajã Grande, como era habitual, tive que ir fazer o exame às Lajes. As últimas semanas de escola foram de grande agitação e reboliço, para os que tinham feito provas positivas e que, por conseguinte, tinham ficado apurados para exame, entre os quais, obviamente eu estava incluído. Fizemos revisões de todas as lições de cor, lemos e relemos todos os textos do livro de leitura de fio a pavio, exercitamos contas das quatro operações, resolvemos problemas de todo o tipo e feitio, decoramos a tabuada, fizemos uma infinidade de ditados e, na verdade, ficámos com tudo na ponta da língua. Mas o que iria sair no exame, ou os conteúdos com que cada um seria confrontado e em que ia por à prova a sua sabedoria, eram desconhecidos. Por isso tivemos que estudar e ficar a saber tudo. Simplesmente tudo! Um mimo! A única certeza que tínhamos, no entanto, é que teríamos duas provas, uma escrita e outra oral.

Partimos, a pé, em rancho, para as Lajes, acompanhados por familiares e pela senhora professora. Uma romaria!...

Dormimos em casa de conhecidos e, manhãzinha cedo, lá estávamos fora da porta da escola. Na escrita safei-me bem. A minha professora esteve presente, como vigilante. Circulou pelas carteiras, esclareceu algumas dúvidas, enfim, inspirou-me muita confiança. Na oral, porém, estava muito apreensivo e nervoso, pois sabia-se que o presidente do júri, que possivelmente me faria as perguntas, seria uma professora das Lajes, por conseguinte estranha para mim e para os das outras freguesias e que, ainda por cima, tinha fama de má e de muito exigente.

A escola das Lajes, onde decorriam os exames, era a casa do Espírito Santo. As carteiras, estavam dispostas de tal maneira que, para estarmos voltados para o júri, ficávamos de costas para o altar do Divino. Entrei entre suores e desânimos. Lá estava o temível e terrível júri, composto por três professores. Ao centro a presidente, a tal professora estranha e exigente, a dona Adozinda. De um lado o professor Galvão, de fato, gravata e óculos escuros e do outro, o terceiro elemento, a dona Glória, que professora no Lajedo. A minha professora fora excluída, pois nenhum professor podia examinar, na oral, os seus próprios alunos.

A dona Adozinda, sem demoras ou sequer cumprimentar-me, ordenou formalmente:

- Menino, abra o seu livro de leitura na página 39!

Nervoso, tacteei, voltei atrás, à frente, de novo atrás e lá encontrei a 39. Que alívio! “Aljubarrota”! Era o texto que mais gostava e que lera mais vezes e que até já sabia de cor:

- “ALJUBARROTA”. “Raiou finalmente o glorioso dia 14 de Agosto de 1385. De um lado o poderoso exército castelhano, do outro, a pequena hoste portuguesa. Já ia o dia a mais de meio quando o exército castelhano....” – e continuei numa leitura senga e eloquente, que deixou o júri boquiaberto.

Terminada a leitura, de que se havia de lembrar a Dona Adozinda? De me perguntar qual a dinastia que se tinha formado depois da vitória do Condestável na batalha referida no texto e os nomes e cognomes de todos os seus reis. Era o que eu queria, pois era o que sabia melhor. Por isso desembuchei com segurança:

- Foi a 2ª dinastia ou de Avis. O primeiro rei foi o Mestre de Avis, D. João I, o de Boa Memória. O segundo D. Duarte, o Eloquente – e enumerei-os todos, tintim por tintim, até D. Henrique, o Casto.

 Depois, sem me aperceber, passou aos descobrimentos. Aqui também eu navegava à vontade!

- Quem descobriu a Madeira?

- João Gonçalves Zarco e Tristão Vaz Teixeira!

- E os Açores?

Que sorte! Nisto é que não falhava de certeza. E, durante dez minutos, lancei ao júri tudo o que sabia e que a senhora professora me ensinara sobre a descoberta dos Açores.

A dona Adozinda, manifestando alguma apreensão, cochichou, por uns momentos, com o professor Galvão. Pouco depois, mandou-me sair, enquanto a dona Glória, pondo os óculos e pegando na lista, chamava:

- João Câncio Fragueiro da Silveira.

Este, ao cruzar-se comigo, sussurrou-me:

- “Tiveste cá uma sorte!”

E tive, porque fiquei distinto e ele à beira de apanhar uma raposa.

Na viagem de regresso à Fajã, a senhora professora segredou-me que o Delegado Escolar, o senhor professor Galvão, lhe tinha dado os parabéns pelo brilhante exame que eu fizera.

    

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publicado por picodavigia2 às 15:43





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