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AS ARCADAS DOS PORCOS, AS GALOCHAS DAS VACAS E AS ASAS AMARRADAS DAS GALINHAS

Sexta-feira, 18.10.13

Na Fajã, como em qualquer parte do orbe, por lei da natureza, os animais domésticos haviam de submeter-se aos desejos, vontades e caprichos dos seus donos. Os porcos tinham por habitat o curral, bem junto à porta da cozinha, de modo que pudessem apanhar, na gamela, todas as lavagens e restos de comida que sobravam dos parcos e humildes repastos de seus amos. Tinham um curral, por natureza sujo, enlameado e mal cheiroso, mas que não podia estar esburacado. É que muitos suínos, apanhando-se “capadinhos” e à engorda para a matança, tinham por hábito fossar, furar e esburacar de lés-a-lés os seus aposentos, o que, no entanto, não lhes era permitido por capricho, vontade ou desejo do seu senhorio. Se se habituasse a fossar, o porco havia de ver-se… Amarrava-se pelos queixos, como se fosse para a matança, prendia-se-lhe o cachaço e a cabeça entre as pernas e arame enfiado, retorcido e voltado a enfiar e a retorcer no focinho. O animal gritava, berrava, guinchava e esperneava como se fosse para a matança, mas não havia nada a fazer. Era ferradela certa! Com um alicate enrolavam-se as duas pontas do arame e o porco ficava ali com uma arcada no focinho que até parecia um brinco nas orelhas. Remédio santo! Porco com arcada nunca mais fossava.

Algumas vacas mais atrevidas também se lançavam em aventuras. No palheiro estavam bem amarradas à manjedoura mas, quando levadas para as relvas, apanhando-se soltas, de vez em quando, dava-lhes para saltar as paredes e enfiarem-se nas relvas e propriedades dos vizinhos, talvez cuidando que a erva aí era mais fresquinha e apetitosa. Mas podia lá ser! No dia seguinte levavam castigo pela certa: uma galocha de madeira na mão esquerda e terminavam as aventuras de saltar em campos alheios. A galocha era uma enorme tira de madeira, oval, achatada, aguçada em ambas as pontas e com um buraco a meio, com uma dobradiça que abria e fechava, sendo presa com uma pequena cavilha e que se prendia numa das mãos do animal. Um outro processo mais simples era “acabramar a vaca” ou seja amarrar-lhe uma corda à cabeça e prendê-la a uma das mãos, impedindo o animal de saltar. No entanto como as cordas, por vezes, rebentavam, as galochas eram mais seguras.

Finalmente as galinhas! Não é que as ditas cujas também se lançavam na aventura de saltar as paredes do curral e irem enfiar-se em sítios proibidos, a depenicar e a estragar tudo ou, ainda pior, a irem por os ovos em lugares desconhecidos. Haviam de ir, haviam! Saltavam uma duas vezes e era tesoura e agulha para cima. Cortavam-se-lhes as pontas das asas, nas quais se embrulhava uma tira de pano que depois se cosia com agulha e linha. E era o voas! Nunca mais saíam do curral. Algumas vingavam-se, comendo os próprios ovos ou os das suas camaradas. Mas, como comiam e não limpavam o bico, denunciavam-se a si próprias. O remédio era santo. Um pau em brasa e o bico queimado. Esperneavam que se fartavam pois devia-lhes doer à brava, mas os ovinhos lá ficavam direitinhos no “ninheiro”, à espera que a dona os recolhesse inteirinhos.

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publicado por picodavigia2 às 19:09





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