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O AMERICANO

Domingo, 20.10.13

A notícia correu que nem um foguete: Vinha aí, de visita, um americano, um neto do Fraga das Courelas.

Os parentes mais chegados, num misto de incredulidade e perturbação, começaram a cobrir inhames, a engordar um bácoro e, um ou outro, até caiou a casa. Alguns que não eram parentes começaram numa roda-viva a tentar descobrir se, do lado da mãe ou pela banda do pai, não haveria ainda ali um parentesco desconhecido com o velho Fraga, que fosse coisa de se esclarecer. A jogar pelo seguro, sempre era bom ter uma meia dúzia de galinhas gordas, guardar uns toros de linguiça, plantar mais uma belga de batatas-doces ou uma terra de inhames. Para quem o neto do Fraga era simplesmente “mais um americano”, uma cestinha de maçãs ou uma réstia de cebolas, à mão, podia ser que, de um momento para o outro, “desse um jeitão”.

Porém, na realidade, pouco se sabia, sobre tão ilustre visitante. Apenas depois de chegar à freguesia, num português muito arrevesado, foi explicando que se chamava Johny, era filho do Júlio Fraga (de quem muitos ainda se lembravam) e, consequentemente, neto do velho Manuel Fraga. O pai partira para a Califórnia, ainda muito novo. Fixou-se no Mendoccino County, casou, fez fortuna, mas nunca mais voltou às ilhas. Era ele que agora realizava o que o pai apenas sonhara.

E o neto do Fraga, de um momento para o outro, pôs toda a freguesia em polvorosa. Nunca se vira um americano tão bonito, tão elegante, sempre muito bem vestido, aprumado, a fumar cigarros com filtro, sapatos de verniz e chapéu de palhinha. Tinha bons modos, cheirava que era um consolo e, aos domingos, até usava, ao pescoço, um lacinho muito colorido, em vez da gravata. Mas o que mais atraía a atenção de todos era a fama de que tinha muitas “dólas”. Tornou-se, pois, lendária, na freguesia, a presença do americano, gerando um enorme corrupio para os lados das Courelas, o que aumentava a raiva e o desespero dos parentes que o haviam hospedado e que o queriam só para si.

Foram as meninas solteiras, quem mais se empolgou na apreciação dos gestos, dos gostos, das atitudes e de tudo o que fazia ou dizia o senhor americano. Johny Fraga nunca se vira tão bajulado e idolatrado.

De todas as raparigas da freguesia, foi a Josefina do Louro quem mais se afeiçoou ao moço. Não a atraía a doçura do perfume, o colorido da roupa, o verniz dos sapatos, o filtro dos cigarros, nem sequer “as dólas” que se supunha possuir. Era amor verdadeiro, o da Josefina. Era paixão. E Jonhy, muito experiente na arte de enfeitiçar o mulherio, percebeu logo. Se ela o amava, havia que aproveitar a safra! A novidade propagou-se. O americano e a Josefina estavam noivos.

Agendou-se o casamento, fizeram-se os proclamas, mataram-se duas rezes, cozeram-se fornadas e fornadas de pão e rosquilhas, que a freguesia fora toda convidada. No dia do “casório” repicaram os sinos, tocou a filarmónica, fez-se uma boda como não havia memória na freguesia.

Passou-se um mês, dois meses e Johni Fraga informou a sua consorte que tinha de regressar à América. Os negócios na Califórnia exigiam a sua presença. No entanto, partiria só. Josefina, que até se esmerara na aprendizagem do inglês, havia de ir ter com ele mais tarde. Tudo fácil, “very easy”.

E numa manhã enevoada e cinzento Johni Fraga partiu, deixando a Josefina envolta numa saudade tremenda, com meia centena de dólares e um filho no ventre.

Esperou Josefina. Esperou e desesperou. Da América, nada. Nem carta, nem notícia, nem muito menos dinheiro para o filho. E o bisneto do velho Fraga nasceu envolto pela caridade dos vizinhos.

Josefina desesperou. Desesperou e chorou. Chorou dias e noites, debruçada sobre o berço do pequeno Tony, que nunca percebeu a razão de ser da dor de sua mãe. Correram vozes estranhas, espalharam-se mexericos humilhantes, soltaram-se comentários maliciosos. Mas do americano nada mais se soube…

Nada mais se soube, até um dia… Já o pequeno Tony trincava côdea de pão de milho, rijo e bolorento, já Josefina secara as lágrimas, quando chegou à freguesia a notícia fatídica: Jonhy Fraga, o americano da Josefina do Louro, fora descoberto, condenado e preso, na Califórnia, por bigamia.

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publicado por picodavigia2 às 00:09





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