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UM VALENTE SUSTO

Domingo, 20.10.13

Meu pai tinha uma terra de mato nas Covas. Arquétipo do medo, zimbório do pavor, alforge de insegurança, o lugar das Covas ficava bem juntinho à Rocha. A inclinação acentuada do terreno, vestígio claríssimo duma antiga ribanceira que ali desabara em tempos idos, aliada à infertilidade do solo, onde predominavam mais calhaus e pedregulhos do que terra arável, as Covas, camufladas em belgas e estruturadas em socalcos, consubstanciavam uma avassaladora pobreza produtiva aliada aos perigos de derrocadas eminentes que a natureza anunciava com persistência. Meu pai raramente procurava aquele tugúrio de escombros! Se o fazia era por necessidade absoluta. Àqueles andurriais, apenas havia de extorquir, de vez em quando, uns braçados de incensos, uns molhos de lenha ou uns sacos de erva-santa pr’ás galinhas. Cá fora, longe da Rocha, na frondosa fajã, terras fartas de milho, relvas viçosas, lagoas de inhame a agrião. Depois, rolo e mar.

Certa tarde, lá fomos, numa dessas esporádicas e, para mim, tão pouco desejadas idas à terra das Covas. Apenas eu e o meu progenitor. Acabáramos de cortar e ajeitar um molho de incensos que ele próprio traria às costas, quando meu pai se preparava, com a minha frágil e desafeiçoada ajuda, para apanhar e encher um saquito de erva-santa, esclarecendo:

- É para que não vás de “mãos a abanar” e a, como de costume, andares “ a meter o bico onde não és chamado”!

Estávamos encostados à Rocha, na apanha da erva-santa. De repente ouvem-se ruídos estrondosos, retumbantes e assustadores. Atónitos e estarrecidos, olhámos um para o outro, para o lado, olhámos para baixo e olhámos para cima. Só então vimos algo de estranho, assombroso e aterrador. Eram pedregulhos enormes, cascalhos grandíssimos, calhaus de todos os tamanhos e feitios, a cair lá do alto da rocha, em enorme quantidade e a rolarem, em catadupa, sobre as nossas cabeças, como se fossem aviões russos a lançar torpedos, enquanto a Rocha ao redor estremecia, estrondosamente, abalroada por uma misteriosa força telúrica, projectando ecos que ressoavam ao perto e, depois ao longe, parecendo transformar-se noutros ecos. Perplexos, aterrorizados, aflitos, embasbacados, “cágados” de medo, ficámos como que inconscientes, sem saber o que fazer, à espera de tudo e de coisa nenhuma. Eu… sem saber se corria, se gritava, se chorava, se fugia, se morria! Meu pai… a tentar ver se me protegia, se vínhamos embora, se ficávamos ali, à espera do pior. O Cardosinho, a ceifar feitos numa relva do Vale do Linho e o Jesuíno da Ponta a subir a ladeira que dava para a Ponta, acompanhado de um jerico carregado de moendas, estancaram e gritavam, em simultâneo:

 - João! Não fujas! Agarra o pequeno! Aproxima-te da rocha com o pequeno! Aproxima-te mais da rocha, João! São apenas pedras! João, ouviste! São pedras, aproxima-te da rocha!

Foram instantes que pareceram uma eternidade!...

Finalmente, o rolar das pedras por aquele alcantil, sobre as nossas cabeças, parou! Durante os momentos seguintes ouviram-se ecos e depois, já muito ao longe, mais ecos dos ecos. Finalmente, depois do último eco, vago e longínquo, fez-se um silêncio temível e, aparentemente, mais aterrador do que o ribombar dos ecos. Esperámos que o silêncio continuasse e se tornasse menos terrificante. Só então meu pai, de rompante, me agarrou por um braço. Fugimos dali a sete pés, sem molho de incensos, sem saco de erva-santa, sem frocas, sem bordões, sem nada…

E só paramos no fim da canada do Vinhacre, ao caminho que dava para a Ponta, onde o Cardosinho e o Jesuíno já reunidos e pasmados, esperavam por nós. Foi então que o Cardosinho esclareceu:

- Quando estamos junto à rocha, se cair uma ribanceira, há que fugir o mais depressa possível mas o mais provável é ficarmos soterrados. Não há nada a fazer. Mas se forem apenas pedras a cair, como foi o caso, devemos aproximarmo-nos da rocha, por que assim elas não nos tocam.

Naquela tarde, eu e meu pai, apanhámos um valente susto, mas as pedras apenas passaram sobre nós como se fossem pássaros gigantes e loucos.

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publicado por picodavigia2 às 17:32





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