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OS DESCANSADOUROS

Segunda-feira, 21.10.13

Na Fajã, nos anos cinquenta, tudo o que os campos produziam, assim como os produtos necessários à alimentação não apenas das pessoas mas sobretudo dos animais eram acarretados às costas, no caso dos homens, ou à cabeça, em se tratando das mulheres. Molhos de incensos, de erva, de fetos, de couves, de rama de batata-doce, de cana-roca, de restolho, de lenha, de milheiros, cestos e sacos de inhames, de batata-doce, de batata branca, de milho, de esterco, latas de urina, todos os produtos eram transportados por homens, mulheres e crianças, às costas ou à cabeça. No primeiro caso, depois de colocado aos ombros ou levantado do chão para as costas, era enfiado no molho, sobre o ombro direito, um bordão que, fazendo de alavanca, aliviava a carga ou pelo menos equilibrava-a melhor, sobre o lombo do transportador. Caso se tratasse de um saco ou de um cesto, o bordão era colocado por debaixo do mesmo, sendo pressionado, sob a forma de alavanca, à frente do peito, pelo braço ou mão direita, excepto nos canhotos que acontecia ao contrário. Geralmente o molho e o cesto eram colocados sobre um casaco ou froca, dobrado sobre os ombros, ou por um saco de serapilheira enfiado de capuz, para que não magoasse o corpo e evitasse, quando o produto estava alagado, que a água a escorrer entrasse pelas costas abaixo. No caso das mulheres que traziam a carga à cabeça, não necessitavam de bordão para a equilibrar, mas colocavam sobre o cocuruto, a fazer de amortecedor, uma rodilha de pano.

Era uma vida cansativa, amargurada, dorida e fatigada a dos nossos antepassados! 

Tudo isto porque o número de burros existentes na freguesia, nos anos cinquenta, era muito reduzido. Apenas um ou outro lavrador mais abastado os possuía. Os carros de bois, embora em maior número, também eram raros e destinavam-se apenas a acarretarem o esterco, o sargaço, o milho e um ou outro produto, quando do mesmo se necessitava uma grande quantidade. Era o que acontecia, por exemplo, com a lenha para a matança ou a cana roca para a cerca do porco, os fetos para cama do gado ou os milheiros, após a apanha do milho. Como única alternativa plausível ao carro de bois havia o “corsão”, mas o seu uso consubstanciava algumas dificuldades: desgastava-se muito pois era arrastado sobre a calçada, empeçava frequentemente nas pedras irregulares dos caminhos e, como a base era feita de travessas com grandes ralos, obstaculizava o transporte de muitos produtos. Acrescente-se ainda que a maioria das vias eram canadas e atalhos onde o “corsão” e o carro de bois não cabiam. Além disso sendo as vacas a principal fonte de economia era preciso poupá-las para que dessem mais leite.

Assim restava uma única alternativa, dura, pesada e demolidora mas absolutamente necessária e obrigatória: acarretar os produtos agrícolas e todos os outros, por mais pesados que fossem e por mais encharcados que estivessem, às costas ou à cabeça.

Foi deste imperativo que nasceu a necessidade de criar, na Fajã Grande, os “Descansadouros” ou seja locais situados nos espaços dos caminhos, geralmente mais amplos, com paredes circundantes onde se podiam colocar os molhos e os cestos, geralmente com bancadas naturais ou rusticamente construídas e onde as pessoas paravam para falar, conversar, conviver, beber água e, sobretudo, para descansar, aliviando-se, por uns minutos, dos pesados carregamentos que transportavam sobre o lombo.

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publicado por picodavigia2 às 20:48





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