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LIÇÕES DE COR

Terça-feira, 22.10.13

No segundo ano em que me matriculei na quarta classe, já lá vão mais de cinquenta anos, chegou à Fajã Grande uma nova professora.

No ano anterior instalara-se a confusão na freguesia e, sobretudo, na escola. A acentuada diminuição da população originara a que a, até então, “Escola Mista” da Fajã Grande das Flores fosse, por decisão governamental, transformada em “Posto Escolar”, perdendo, consequentemente, o direito a ter uma professora diplomada, sendo a mesma substituída por uma regente escolar.

Tal despromoção provocou no povo uma sistemática e contínua onda de protestos, rebuliços, tumultos e manifestações que geraram um ódio acentuado contra a referida regente, o qual se avolumou, excessivamente, depois da sua chegada, dado que o seu feitio e temperamento não abonavam nada a favor de quem já antes de ser conhecida era contestada e execrada. O ano escolar, especialmente para mim, foi uma catástrofe! Faltas, tareias, participações, queixas, deslocações às Lajes, ao Delegado Escolar... Uma desgraça atrás doutra!...

Ao povo, porém, fora garantido que tudo regressaria ao normal. No ano seguinte, viria novamente uma professora diplomada para a freguesia. Eu ansiava a sua chegada!

E chegou! No Carvalho de Setembro, já quase a meio do mês e vinha do Faial, mais concretamente de Castelo Branco.

A Dona Madalena hospedou-se na Assomada, em casa da Maria da Saúde. Mesmo ali, na minha rua e relativamente perto da minha casa. Tal vizinhança e o meu acentuado e manifesto interesse por aprender geraram entre nós um carinho e amor excessivos. Eu adorava-a e ela gostava imenso de mim. Fora da escola, fazia-lhe alguns recados e algumas vezes, ia levar-lhe meio litro de leite ou um quarto de bolo, quentinho, acabadinho de sair do tijolo. Ela solicitava-me, então, que entrasse e eu, embora tímido e envergonhado, aceitava o seu convite. Mas era sobretudo na escola que eu mais a apreciava. Habituado, no ano anterior, a uma preguiça institucionalizada e a um desinteresse imposto, não aprendera nada, nem fui fazer o segundo exame. Agora, porém, tinha uma vontade titânica e gigantesca de aprender tudo o que a Dona Madalena, de modos tão meigos e ternos, me ensinava. Aboliu a palmatória e, embora mantendo o caniço, usava-o apenas para bater levemente nas carteiras, chamando a atenção dos mais distraídos e acordar os dorminhocos. Nas aulas de leitura, chamava-nos para junto de si e, sentando-nos à sua volta, mandava-nos ler à vez. O que lesse melhor sentava-se junto dela, enquanto os outros eram ordenados a partir daí, de acordo com a qualidade da leitura que haviam manifestado.

Mas era sobretudo nas lições de cor que ela mais se distinguia. Era exímia! Sabia, sem recorrer aos livros, as definições das Ciências, os rios e as capitais da Geografia e, sobretudo, as datas e os acontecimentos da História.

Eu ouvia-a atentamente e aprendia tudo com uma vontade enorme.

Quando, em Ciências, me interrogava sobre o Coração, eu, num ápice, vomitava:

- “O Coração tem a forma de um cone com o vértice voltado para baixo e está divido em quatro partes: dois aurículas e dois ventríloquos. Cada aurícula comunica com o ventríloquo do mesmo lado, por meio duma válvula mitral que se abre de cima para baixo para que o sangue possa passar do aurícula para o ventríloquo e nunca do ventríloquo para o aurícula”.

Em Geografia, os afluentes do Douro saíam direitinhos, tanto os duma margem como da outra:

- Sabor, Tua, Pinhão, Corgo, Tâmega e Sousa -  na margem direita e na esquerda - Côa, Torto, Távora, Paiva e Arda.

Mas era sobretudo durante as lições de História, que eu mais a admirava a Dona Madalena. Reis, batalhas, conquistas, descobertas e invenções, tudo com datas precisas e explicações pormenorizadas e cativantes. Nada faltava!

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publicado por picodavigia2 às 15:22





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