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NEVOEIROS

Quinta-feira, 24.10.13

Fechou os olhos e sentiu um enorme calafrio. Parecia-lhe que os insensatos e inverosímeis sonhos de criança se esvaziavam por completo. Em todo o caso, manteve-se pensativa, sentindo que aquele doce perfume de luar que a noite, escuramente assumida, trazia, a transfigurava.

Foi então que, nesse momento, sentiu que havia um enorme e enigmático mistério a toldar-lhe a vida, talvez, até, a moldar-lhe o destino. Não queria desperdiçar as ilusões que o futuro parecia reservar-lhe. Em criança tivera um arsenal inteiro de quimeras que se haviam esvaído com a juventude. No dia em que deixou cair toda esses sonhos míticos, esses assombros encantadores, ficou apenas, a envolvê-la, uma enorme dúvida, numa espécie de desintegração total e absurda. Não poderia confessá-lo e, para o esconder, possuía um só argumento: limitar-se a negar todas as evidências, com palavras e com gestos, mesmo de forma disfarçada e denunciadora. Formulava, assim, uma incredulidade inaudita, sobretudo para si própria. Mas diante de uma realidade tão sonora e tão doce, embora incongruente e enigmática, era-lhe impossível encolher os ombros e permanecer indiferente.

No dia seguinte, ele entrou na sala e cuidou, presumidamente, vê-la estremecer, sensibilizar-se e ocultar um sentimento estranho. Não pode deixar de sentir-se lisonjeado. Ela olhava-o com ternura deslumbrante. Muito provavelmente, a amizade transformara-se num mistério frio e estranho, numa credenciação inaudita. Olhou-a de forma a não lhe dar a conhecer a anuência do seu regozijo. Realmente, era graciosa sem ser elegante, bela sem ser bonita e forte sem ser fascinante. Era viva nos gestos, expedita nas atitudes, comedida nas palavras, deslumbrante no sorriso, encantadora nos olhos grandes e cálidos, na boca fina e no espectro global da sua essência, permanentemente, interrogativa. O seu porte grave e sisudo fazia-o estremecer e transformar-se num ingénuo, sem acção, sem iniciativa e sem intuição.

A convivência quotidiana, entre os reflexos da aurora e o estrebuchar do amanhecer trouxe-lhes uma certa intimidade. Como daí chegar ao amor, nunca o souberam, nem muito menos o confessaram um ao outro. Mas verdade é que gostavam de passar as horas juntos, em perfeita harmonia, mesmo que fosse com os olhos fixos no infinito, a olhar coisa nenhuma. As próprias palavras, quando as havia, eram vulgares, fúteis, dispersas e silenciosas. Mas até os silêncios eram sublimes, deleitosos e, estranhamente, eloquentes.

E o crepúsculo da madrugada seguinte, voltou a fechar-lhe os olhos. Ao longe, como em eco, sussurravam as palavras que ele nunca havia de lhe ouvir. A luz era pouca, os degraus carcomidos pelos pés dos transeuntes, o corrimão enferrujado, pegajoso, a abarrotar de um cheiro a bafio. Ele não a viu, nem voltaria a encontrá-la, porque o tecto do mundo, telúrico e agreste, estava coberto de nevoeiros densos e dos montes desciam sombras, como se fossem fantasmas inertes, apodrecidos e inúteis. Nada pairava sobre as nuvens mas a permanente ausência dele, fustigava-lhe o sangue, perturbava-lhe a alma, amordaçava-lhe o destino.

Olhou três vezes ao redor e, outras tantas, bateu à porta. Se esta se abrisse, lá dentro havia de encontrar uma escuridão apenas entrecortada por um ténue fiozinho de luz solar que entrava pela fresta duma janela mal fechada. Mas a porta comunicava com um enorme jardim, povoado de gladíolos, açucenas, begónias e malmequeres e onde havia apenas uma mesa. Lá dentro? Velhos trastes, resíduos de um trémulo regozijo, paredes sombrias, frias, despidas de poemas e vazias de sentimentos. Um ar de pobreza desgastante que lhe aumentava a dor e lhe destruía o fascínio. Abriu a porta com intenção de sentar-se sobre o silêncio da madrugada, diante da mesa, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz que por ali entrava lhe batesse, em cheio, no rosto. Ela partira, para sempre e os nevoeiros do cimo dos montes, haviam descido as encostas, enrolando-se nas árvores, nas casas e entrando pelas portas e janelas abertas. Voltou-se para o mar e fixou o horizonte… Um nevoeiro ainda mais intenso do que o das montanhas, encobria o mar e o céu, desfazendo aquele abraço eterno e infinito.

 

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publicado por picodavigia2 às 00:15





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