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A CANADA DAS ÁGUAS

Quinta-feira, 24.10.13

O acesso ao sinistro e perigoso lugar das Águas, na Fajã Grande, era feito por uma estreita e sinuosa canada que se iniciava na Ribeira e terminava bem pertinho da Rocha, precisamente numa relva que meu pai ali possuía, que era a última daquele lugar e, consequentemente, o fim da vereda. A seguir um enorme e inacessível alcantil que fazia de margem esquerda da Ribeira das Casas e que, junto à Rocha, desembocava no mítico Poço do Bacalhau. Mais a baixo, o Moinho do Engenho.

Subindo a Fontinha e chegando ao Alagoeiro, voltava-se na direcção do lugar da Ribeira, precisamente ao sítio onde este era atravessado por uma ribeira que lhe deu nome e que, vinda dos Paus Brancos desaguava na Ribeira das Casas, como seu principal afluente, ia aumentando o seu caudal com todas as “grotas”, regos e regatos que se iam despegando da Rocha, desde da Alagoinha até à Figueira. E não eram poucos. Por isso, mesmo nos meses de maior seca, era quase impossível, atravessar a Ribeira e entrar logo abaixo, na Canada das Águas sem molhar os pés e uma parte das calças ou as botas, caso se andasse calçado, o que era raro. Os animais, esses sim, aproveitavam sempre aquela corrente de água, ora para saciar a sua sede, ora para se refrescarem e até se lavarem dos hediondos excrementos que tanto se lhes apegavam ao traseiro e se prolongavam pelos quartos, pela barriga e que, por vezes, se prolongavam quase até ao lombo. As vacas vindas das Águas chegavam aos palheiros, geralmente, um pouco mais limpinhas do que as oriundas doutras paragens.

Depois de se atravessar a Ribeira da margem esquerda para a direita e de a percorrer, uns escassos metros, na direcção da foz, virava-se na margem direita. Aí se iniciava a canada que conduzia ao lugar das Águas, lugar fajãgrandense situado praticamente, junto à Rocha com o mesmo nome. O primeiro troço daquela via, circundando terras de cultivo de milho e trevo, apesar de apertado e com piso em pedregulho, era rectilíneo e de acesso mais ou menos acessível. Mas a partir da relva de Ti Manuel Rosa a coisa fiava mais fino. Era o cabo dos trabalhos! É que devido à sinuosidade e inclinação do terreno e aos inúmeros e irremovíveis calhaus vindos da Rocha, o caminho era péssimo. O piso era curvilíneo, repleto de enormes pedras e grossos pedregulhos que rolavam de baixo dos pés e onde pessoas e animais tropeçavam com frequência e, pior do que isso, na curva que o tornava paralelo à rocha havia uns degraus toscos, desajeitados, com algumas pedras soltas e outras já caídas. Um martírio para quem ali passava! Para os homens quando carregando molhos de erva, de lenha, de fetos secos ou cestos de inhames. Para as vacas, sobretudo para as leiteiras ou pejadas, que ali se sacudiam e balançavam de tal forma que quase punham em risco a sua sobrevivência. Apenas a ganapada, quando passava por ali de mãos a abanar e o gado alfeiro, mais “triqueiro” e afoito, os subia ou descia com desenvoltura e facilidade.

Depois dessa curva, a canada seguia o seu caminhar, paralela à Rocha, com um piso feito de pedras soltas, umas caídas outras por cair e com grande risco para os que por ali passavam, não fosse mais algum calhau desprender-se da Rocha, como todos aqueles que ali jaziam no solo e que dela se haviam despendido ao longo dos tempos.

A canada das Águas era pois um tormento e uma amargura para quase todos os que por ela tinham que passar, incluindo os próprios animais.

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publicado por picodavigia2 às 14:22





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