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UM PARAÍSO TERREAL

Sexta-feira, 25.10.13

Um dos mais ecléticos, em termos produtivos, lugares da Fajã Grande era o Outeiro Grande, por quanto nele existiam os três tipos de propriedade mais frequentes na freguesia: terras de mato, relvas e terras de cultivo. Além disso era um lugar de singela beleza e singular ruralidade, por que situava num planalto, sobre um monte ou outeiro paralelo ao Pico da Vigia, no meio dos quais se situava o Vale da Vaca. Do lado Sul e Oeste o Outeiro Grande misturava-se, confundia-se, prolongava-se e como que quase se perdia nos contrafortes da Cabaceira e com o Pocestinho, enquanto que do lado Norte se personificava, transformava e estendia com a vizinha Pedra d’Água, prolongando-se pelo Outeiro, como que terminando e caindo assim abruptamente sobre o casario da Assomada, desfigurando-se e perdendo-se por completo na sinuosidade da Fontinha. O Outeiro Grande ainda confrontava a Este com as Queimadas, a Horta das Abóboras e a Escada Mar e a Oeste com o Descansadouro, Santo António e o Delgado. Situado num planalto da parte superior de uma espécie de trapézio que o outeiro formava e no interior duma levemente acentuada cratera, o Outeiro Grande, totalmente isolado do povoado, pela íngreme ladeira do Covão e pela canada do Calhau das Feiticeiras, possuía toda uma espécie de cores, aromas e sabores a que a natureza na sua pureza original proporciona ao ser humano. Ali o ar era perfumado a erva, trevo e a madressilva e dos incensos caía sobre nós uma mistura de sabores acres e adocicados. Numa palavra o Outeiro Grande era uma espécie de Éden ou Paraíso Térreas da Fajã Grande.

Tinha relvas de óptima qualidade, cujo terreno era tão bom e fértil que os seus donos alternavam, normalmente de sete em sete anos, a erva para pastagem com o cultivo do milho, transformando-as em terras de cultivo. Tinham relvas no Outeiro Grande, entre outros, o Antonino, José Padre, Ti Francisco Inácio, o Francisco Gonçalves, o Urbano e meu pai. As Terras de Mato pertenciam ao José Jorge, João Fagundes, José Nascimento, José Fragueiro, Francisco Inácio José Gonçalves e Guardo Furtado. Tinham Terras de Cultivo o Joãozinho (trabalhada pelo António Teodósio) Augusto Arinó,  Luís Fraga, José Fragueiro, Francisco Inácio, Francisco Gonçalves, Guardo Furtado e José Gonçalves.

Em criança, durante anos e anos, ia e vinha ao Outeiro Grande de manhã e à tardinha, levar, umas vezes, a vaca do Antonino de Francisco Inácio, outras as de meu pai. Subia pelo Covão ou pela Bandeja ou pela Cabaceira, num pé e descia-o no outro, fugindo ao Calhau das Feiticeiras, atirando tiros de sabugueiro aos pássaros, comendo bagas faia, chupando flores de cana roca ou trincando ramos de funcho, enchendo os bolsos de maças, que apanhava das beiras do caminho do Delgado da minha avó, ouvindo a doce sinfonia do cantar dos pássaros, do sibilar do vento, sentindo a frescura das brisas matinais, observando a variedade das cores que o envolviam e até saboreando os seus sabores diversificados.

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publicado por picodavigia2 às 10:16





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