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A CRUZ E O CALVÁRIO

Domingo, 27.10.13

A Fajã Grande tinha e continua a ter, bem lá no alto do Outeiro, uma enorme cruz branca. Não se sabe ao certo quando foi construída ou ali colocada, uma vez que não tem afixado qualquer elemento que permita identificar o ano da sua edificação. Talvez a sua origem remonte aos primórdios da criação da localidade, ou seja, muito provavelmente, terá sido construída pelos primeiros povoadores da Fajã, com a intenção de, através da cruz, símbolo de salvação, solicitar as bênçãos e as graças divinas para todos os que ali haviam de viver, ao longo dos séculos vindouros.

Esta a explicação é, evidentemente, a mais lógica, mas não a única. É que o motivo que justificou a erecção duma cruz, no cimo do Outeiro, poderá ser bem diferente. A cruz também é símbolo de dor e de sofrimento, de mortificação e de sacrifício e, por isso, poderá ter sido colocada lá no alto porque havia um calvário, ali bem perto, cá em baixo, no povoado, em cada rua, em quase todas as casas. Era o calvário do isolamento, da pobreza, do sacrifício e da mortificação. O calvário de não ter mais que uma côdea de milho e uma tijela de leite, de trabalhar de sol a sol, de acarretar molhos e cestos às costas ou à cabeça, de calcorrear, descalço e com os pés a sangrar, canadas e atalhos íngremes e sinuosos, na difícil tarefa de angariar o pão de cada dia. O calvário das mulheres, muitas vezes grávidas, a trabalhar nos campos e a realizar as árduas lides domésticas, a tirar o pão da boca para o dar aos filhos. O calvário dos homens enlameados, a tirar o esterco dos palheiros e carreá-los aos ombros para os campos, a juntar as pedras que caíam da rocha e com elas a construir paredes e a edificar “maroiços”. O calvário de uma vida dura, de não ter um tostão, de percorrer a ilha a pé para ir pagar as contribuições, de ser explorado pelo Martins e Rebelo. O calvário da dor, do sofrimento, da falta de assistência e cuidados médicos, de morrer sem saber porquê. O calvário das crianças trabalhando arduamente, sem brinquedos, sem esperança, sem o perfume das flores, sem direito a descansarem. O calvário duma vida dolorosa, dolente, sofrida, limitada, entristecida, apenas iludida e anestesiada com a esperança de um dia partir… talvez para a América… talvez para o Canadá.

 Na década de cinquenta e nas anteriores havia o hábito de se “cantar no Outeiro”, junto da cruz. Um grupo de homens, às terças e sextas-feiras da Quaresma, para ali se dirigia, mesmo que chovesse torrencialmente ou o frio fosse de rachar, entoando cânticos típicos e adequados que ecoavam e se prolongava sobre os pobres casebres. Durante esses cânticos, os que estavam nas suas casas ajoelhavam e acompanhavam-nos, rezando de acordo com o solicitado pelos cantores. No mês de Setembro por altura da festividade da “Exaltação da Santa Cruz” fazia-se uma grande festa no Outeiro, junto da cruz. Havia missa campal, foguetes e arraial e à noite tinha lugar uma procissão de velas, subindo e descendo a encosta do Outeiro, da Fontinha até à cruz. Dezenas e dezenas de velas, ornamentadas com papéis multicolores espalhavam-se pelo Outeiro acima, até à cruz, formando um rosário inesquecível de claridade de cor, de brilho  e de luminosidade.

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publicado por picodavigia2 às 23:04





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