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A MALA PERDIDA

Segunda-feira, 28.10.13

O padre Pimentel decidiu-se por umas férias. Uma visita aos Estados Unidos, mais concretamente à Califórnia. É verdade que na Fajã as ovelhas não eram muitas, como noutras paróquias dos Açores. Mas davam trabalhinho, ai se davam, até porque distribuídas por duas localidades, com uma igreja em cada uma delas – Fajã e Ponta. E ainda havia a Cuada. Na Fajã era o serviço religioso diário, com a igreja, ali, pertinho de casa. Mas à Ponta tinha que se deslocar aos domingos, aos dias santos de guarda, aos abolidos e às primeiras sextas-feiras para celebrar missa, ou então sempre que alguém o chamava para administrar o Viático e a Extrema-Unção e para realizar os funerais. Casamentos e baptizados eram os da Ponta que à Fajã deviam vir. Mas todas as idas à Ponta eram realizadas a pé, por caminhos sinuosos, com ladeiras e aclives, atravessando grotas, regatos e ribeiras. Quando chovia só de botas de cano. Um martírio, embora soubesse da vida dura, dolente e sofrida dos seus paroquianos.

Decidiu-se pois o reverendo por partir para os Estados Unidos. Iria visitar familiares, antigos paroquianos e solicitaria a todos o dinheiro necessário para a compra de um órgão, porque o existente no coro da igreja da Fajã já “não dava uma p’ra a caixa”. Estava a desfazer-se de podre e tocava que parecia uma cana rachada. Nada que abonasse a excelência envolvente das celebrações litúrgicas mais solenes.

Pedida autorização ao senhor bispo, concedidos o “celebrate”, o passaporte e o visto, partiu o pároco, sendo substituído nas suas funções pastorais, aos domingos e sempre que alguém estivesse nas últimas, pelo senhor padre da Fajãzinha.

A ausência do pároco foi muito sentida e o seu regresso muito desejado. Talvez trouxesse uns candins, um embrulho de pinotes, uma peça de roupa para este ou para aquele. Sabia-se lá… Por isso quando se teve conhecimento da data do seu regresso, em dia de Carvalho, preparou-se uma grande recepção à Praça. Sinos a repicar, filarmónica a tocar, crianças a oferecerem ramos de flores e o povo a dar uma grande salva de palmas.

Dirigindo-se aos paroquianos, apinhados ao seu redor, em inocente esperança, o pároco não esteve com meias medidas. Em poucas palavras informou de que para além de muito cansado, estava muito triste, tinha um desgosto muito grande:

- Sabem porquê? É que perdi uma mala e, por azar, foi a mala das ofertas.

E recolheu-se de imediato ao passal

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publicado por picodavigia2 às 13:50





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