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DO SONHO À REALIDADE

Terça-feira, 29.10.13

Sentado num degrau do Descansadouro, a meio da Rocha que se sobrepunha ao povoado, o António Balafanha maldizia, consigo próprio, a sua sorte.

A mãe falecera, não havia muito. O pai, olvidando cedo a memória da defunta, voltava-se de amores pela Conceição Fragueiro. Não demoraria muito, daria em novo casamento. Por um lado compreendia-o. Ainda era novo e bem precisava duma mulher que lhe tratasse da casa e lhe desse uma demão nas “semeaduras”. Mas caramba! Era muito pouco tempo! Bem podia esperar pelo menos um ano!... E ele? O que seria dele? Viver com uma madrasta, não lhe agradava rigorosamente nada. Além disso, sabia-se que o feitio da Conceição não era propriamente o duma santa... Depois viriam outros filhos... O irmão mais velho, o Francisco safara-se a tempo... A sua vida também tinha que mudar e seria ele próprio a resolvê-la...Tinha que ser ele a decidir o seu próprio futuro.

Levantou-se com intenção de continuar a íngreme subida. A vontade, porém, era quase nula. Todos os dias, calcorreava aquele íngreme e escarpado alcantil, sobranceiro à freguesia, que dava para os matos de relvas verdejantes, onde o gado, no verão, pastava tranquilamente. Se havia vacas leiteiras, era aquele castigo todos os dias: subir a Rocha e percorrer os matos, por entre veredas e atalhos, saltando “grotões” e tapumes, abrindo e fechando cancelas, até ao Queiroal. Depois, proceder à ordenha e descer aquelas dezenas de voltas e centenas de degraus, carregando duas pesadas latas de leite, suspensas num pau de araçá. E a relva do pai era muito distante do cimo da Rocha, já em terrenos do concelho de Santa Cruz. A última da Fajã!...

Voltou a sentar-se, olhando o oceano azulado que, ao fundo da ampla fajã, contornava a mancha escura do baixio. Depois as terras de milho, de couves e de batatas, a ladear as casitas, a maioria delas ainda cobertas de colmo, muito agrupadas, muito juntas, muito alinhadas na direcção da nova igreja, que agora se erguia imponente e altiva, a substituir a velha, humilde e pequenina capela do serrado do Lincate, ali mesmo junto à casa dos Freitas Henriques.

Mas foi o mar, porém, que mais uma vez, despertou a sua atenção. O mar, revolto e inquieto, a impor-se com um sussurrar roufenho ao nostálgico silêncio da ilha. Desde pequeno que sonhava com o mar. É verdade que na família não havia, que se soubesse, tradições marítimas. Ao avô e, agora, ao pai, o mar só lhes interessava para ir ao Caneiro das Furnas apanhar polvos e moreias ou ao Pesqueiro de Terra pescar uns “sarguitos” e umas vejas. Sempre se voltaram para a terra, para o trabalho agrícola e para o gado. Para quê? Para não ter nada! Apenas umas belgas de milho e couves, um curral de trigo no Canto do Areal, a relva da Escada Mar, a da Alagoínha e aquele maldito Queiroal, que não sustentava mais do que duas rezes. Como herança tinham miséria e pobreza, trabalhando de sol a sol, subindo rochas e outeiros, carregando latas de leite, molhos de incensos e de lenha ou cestos de inhames e batatas. A vida, na ilha, era de escravo, como lhe dissera um dia o padre António. O mar, pelo contrário, com o seu horizonte infinito, dava-lhe uma sensação de liberdade, de aventura, de grandeza e, talvez, de fortuna. Além disso, o mar era o caminho para a América. E agora, que as baleeiras americanas demandavam a ilha com mais frequência, o seu sonho era embarcar numa e tornar-se marinheiro, talvez no Ariôche.

E os seus olhos, por algum tempo, fixaram-se, indefinidos, na imensidão infinita e azulada do oceano.

O Chico Balaio veio acordá-lo. Costumavam, a maior parte dos dias, subir a Rocha juntos, embora, sendo a relva do Balaio, muito mais perto, logo a seguir ao Caldeirão da Ribeira das Casas, este reservasse, muitas vezes, o direito de partir para a ordenha bastante mais tarde. Haviam, no entanto, combinado que, quando não subissem juntos, o primeiro que, no regresso, chegasse ao Cimo da Rocha, havia de esperar pelo outro. Naquela tarde, porém, fora a relutância e fraca fogosidade do Balafanha que os juntara, ali, no Descansadouro, precisamente a meio da rocha.

O Balaio, mal o viu, gritou-lhe:

 - Eh, Pá! Acorda!... Já sei no que estás a matutar!... Sempre no mesmo. Não há maneira de alguém te tirar essas ideias da cabeça.

- Não te enganaste – confirmou o Balafanha, convidando-o a sentar-se. – Desistir não é comigo. Cada dia que passa tenho mais certeza do que quero e do que vou fazer.

- Mesmo agora, depois de saberes que uma das patrulhas do exército que estavaem Santa Cruz, se veio aquartelar aqui, na Fajã, ali para os lados do Vale do Linho? Os tipos atiram a matar.

- Quantos se têm safado!... Eles atiram mas é em quem anda a dormir...

- Mas se te safares sem seres apanhado por eles, ainda corres um perigo maior, o perigo de seres baleado pela corveta, que anda por aí a vigiar a ilha. Não te lembras daqueles tipos do Mosteiro, que, o ano passado, foram baleados, já no mar alto? Antigamente era fácil!... Embarcavam muitos, não havia patrulhas e as corvetas eram raras. Mas hoje em dia, os perigos são muitos...

- Uma campanha nas baleeiras durante dois anos são cem dólares, cem dólares Chico, cem dólares e podemos ser pagos em águias. Como gosto do mar, faço cinco ou seis anos de marinheiro nas baleeiras e depois vou para o Ariôche, ganhar mais. Mas mesmo com quinhentos ou seiscentos dólares já fico na América. Com o que ganho nas campanhas faço vida na América. Hei-de voltar a esta terra, mas rico, muito rico....

- E os perigos que corres António? – Insistia o Balaio na tentativa de o demover da sua persistente teimosia. - Sabes o que é andar seis anos no mar?! Olha, os desastres que nos últimos anos aconteceram, aqui nas Flores. Só na Fajã, que me lembro, foram cinco ou seis. Lembras-te? No Inverno passado, aquele lugre francês, que se chamava Alixis, ou qualquer coisa parecida, que encalhou ali, por fora do Respingadouro e ficou todo desfeito, só se salvando um tripulante. Até o comandante morreu... Há dois anos foi um brigue inglês, o Concórdia, que encalhou na Poça do Cobre. A tripulação salvou-se mas com muita dificuldade e o barco perdeu toda a carga. E não te lembras do dia de Natal de 1869, há quatro anos, quando encalhou, no Canto do Areal, um bergantim francês? Já nem me lembro do nome dele. E tantos e tantos outros que não têm conta, Toino! E não só aqui na Fajã, mas em toda a ilha e até no mar alto.

O Balafanha, tentando mudar de assunto, retorquiu:

- Em toda a parte está o perigo! Ainda queres perigo maior do que o subir e descer esta maldita Rocha todos os dias... Mas já sabes que nada me demove do meu sonho… Ninguém sabe disto! Só tu e peço-te que não contes os meus planos a ninguém. Sabes bem que só se pode embarcar pelo alto da noite, às escondidas... E meu pai não pode saber de nada.

E levantando-se, propôs autoritariamente:

- Vamos à ordenha que se faz tarde! Olha o Sol onde já vai... E eu vou para bem mais longe do que tu.

Recomeçaram a subida, latas ao ombro, calados e macambúzios. O Balaio conhecia bem o Tonho. Sabia que coisa que se lhe metesse na cabeça dificilmente se lhe havia de tirar. Tinha, pois, a certeza de que ele partiria, como muitos outros, ultimamente, o tinham feito. Desde há mais de uma centena de anos que as baleeiras americanas visitavam as Flores, na procura de marinheiros. Estas baleeiras comercializavam na ilha e completavam a sua tripulação com habitantes locais. Contavam-se às centenas os que nos últimos anos tinham fugido à pobreza, ao isolamento e à miséria que reinavam na ilha, levados pelo sonho americano.

Quando, no regresso, chegaram ao Alagoeiro, vergados ao peso das latas a transbordar de leite, já era noite. Por entre o colmo das primeiras casas da Fontinha, saía um fumo esbranquiçado, anunciador de que se estavam a ultimar as ceias. Ao chegar à casa do Balafanha, um pouco mais abaixo, o Chico sussurrou-lhe:

- Até à manhã Toino! E vê se me tiras essas ideias malucas da cabeça!

- Psich! Não vês que meu pai pode ouvir! Não te esqueças de que ninguém pode saber de nada! – Disse-lhe quase ao ouvido. E entrou no velho casebre, onde o pai o esperava.

A casa do Alfredo Balafanha era das mais pobres da freguesia. Ficava a meio da Fontinha. Era um edifício de pedra negra, com dois andares. O superior, destinado às pessoas, e a loja, ou piso inferior, onde os animais pernoitavam no Inverno. O superior, ocupado pelos Balafanha, fora herdado dos avós e possuía apenas duas divisões: a cozinha e a sala. A primeira, que continha apenas uma janela e o forno, era escura e quase terrificante. A mobília era constituída por uma mesa, meia dúzia de bancos e um pequeno armário em que as portas eram uns panos escuros e pardacentos, muito sujos e ensebados, onde guardavam os pratos, as tigelas, os caldeirões e outros utensílios. Pelo chão abundavam sacos de serapilheira com batatas, inhames e cebolas, mas tudo num perfeito desarrumo. A lenha picada e empilhada de baixo do lar, constituía o sector de maior arrumação da casa. Era lá também que tinha habitáculo, o Farrusco, guardião eficiente da ratazana. A cozinha dava para a sala, por uma porta a desfazer-se, que já nem se abria ou fechava. Era nesta, divida por uma lençol branco, preso aos tirantes, ainda no tempo da mãe, que dormiam pai e filho. Tinha apenas uma janela e uma porta, a de serventia da casa.

Quando o António entrou o Farrusco veio de imediato ao seu encontro, miando, atirando-se-lhe aos pés e lambendo-lhe as mãos. O pai praguejava, maldizendo a sua sorte e a sua vida. É que os garranchos de faia e incenso, que dispunha, estavam verdes, não pegavam. Assim, tinham sido infrutíferas as diversas e sucessivas tentativas efectuadas para acender o lume e ferver o leite.

- O leite que trazes ainda deve estar quente! Vamos bebê-lo assim! – Sentenciou o pai, decidido a encerrar por ali as suas frustradas tarefas culinárias.

Sentaram-se à mesa, à luz da velha candeia, totalmente forrada de tisna e alimentada a enxúndia de galinha. O António abriu uma das latas e encheu de leite duas tigelas, nas quais cada um esmiolou metade do pão de milho que a Conceição, de tarde, lhes viera trazer. Um grande queijo, fresco e esbranquiçado, acabado de tirar da forma, completava o cardápio.

 

Passados alguns meses, o Lourenço Petrana, de Ponta Delgada, chegou à Fajã, com boas notícias, mas que apenas eram transmitidas de boca em boca. A “Eleanor” estava escondida, na baía dos Fanais, encoberta pelo ilhéu de Maria Vaz. Muitos de Ponta Delgada já estavam a bordo. Também alguns da Ponta, porque acharam que lá era local mais seguro para o embarque, já iam, por terra, a caminho dos Fanais. Para disfarçar, levavam caniços de pesca. O Lourenço garantia também que a baleeira estaria no Sábado à noite, na Fajã, frente à Ribeira das Casas, para se abastecer de água. Bastava estarem escondidos ao longo da Ribeira das Casas e juntarem-se aos que regressavam a bordo, carregando a água. Era muito fácil e absolutamente seguro.

O Balafanha passou os dias seguintes entre sobressaltos e hesitações. Era absolutamente necessário que o pai não se apercebesse de nada, nem tivesse a menor suspeita ou desconfiança. Na véspera procurou o vigário. Queria confessar-se, perante a estranheza do reverendo. Mas o padre, que manifestara sempre grande compreensão para com ele, acabou por lhe dar razão, absolvê-lo e até encorajá-lo. Finalmente, abraçando-o, aconselhou:

- Porta-te bem rapaz! Onde quer que estejas ou para onde quer que vás, lembra-te sempre de que és cristão. Respeita os outros e serás respeitado. Não te esqueças, todas as noites, das tuas orações! Deus te abençoe e te acompanhe.

No Sábado de manhã, a pretexto de ir ao moinho levar uma moenda, encaminhou-se para a Ribeira das Casas. Embrulhou algumas roupas e meteu-as num saco. Ia escondê-las na aba duma pedra. Sair com um saco, durante a noite, seria comprometedor. Subiu, pois, a Fontinha até à casa de Tio Antonho Silveira. Depois tomou o caminho do Mimoio. Porém, antes de chegar ao cruzamento da Ribeira das Casas, sentou-se sobre uma pedra, olhando as casinhas negras e brancas que rodeavam a nova igreja.

- Só Deus sabe se voltarei! – Murmurou. E hesitou por alguns momentos. - Não, voltar atrás, é que nunca! – E levantando-se, seguiu o seu destino.

À noite, antes de partir, sentado frente à tigela das sopas, quase chorou. E quando o pai, antes de se deitar, lhe deu as boas-noites, ao pedir-lhe a bênção, muito dificilmente resistiu ao instinto de o abraçar. Apenas lhe disse:

 - Pai!... Vou dar uma volta com o Chico... Não se preocupe, se eu chegar tarde.

A noite estava escura, mas calma e estrelada. Ao longo da ribeira começaram a delinear-se vultos diversos, uns carregando enormes bilhas de barro, outros ajudando-os no transporte das mesmas.

O Balafanha cedo se integrou num grupo e chegou a bordo da “Eleanor”, sem dificuldade e sem ser visto por alguém.

Alta madrugada a baleeira partiu. Nem patrulha, nem corveta. Um mocito de cor, com uma pronúncia esquisita, avisou os intrusos da Fajã, que deviam dirigir-se à sala do capitão. Era um cubículo muito apertado, pequeno e sujo, onde couberam com dificuldade. Lá estavam, também, o Pineireira, o Chico da Maria Cambada, o Mateus Borrego, o Brilha da Fajazinha, e tantos outros.

 

Na Fontinha, numa pequena courela, junto à velha e abandonada casa do Alfredo Balafanha, falecido há um ano, o filho, o António, recentemente regressado da América, na logra “Forest Fairy”, vigiava as obras de construção da sua nova casa. Paredes caiadas de branco, janelas em abundância e cobertura de telha. O interior, dividido com madeira nova, era constituído por um piso superior, com sala, quarto de jantar e cozinha. Um saguão ligava-o à loja que se destinava a quarto de cama. Já tinha o casamento marcado com a Joaquina Greves, a moça mais bonita da freguesia e comprara várias terras, entre as quais o Cerrado da Corredoura, nas Furnas. Ao que se dizia pela freguesia, tinha vindo riquíssimo da América.

Quando, algum amigo menos íntimo, um parente mais afastado, ou outra pessoa qualquer o interrogava sobre o porquê do seu sucesso, respondia, tranquila e sorridentemente, com uma pequena frase:

- Foi o “meu sonho de marinheiro”.

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publicado por picodavigia2 às 00:03





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