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Ti JOSÉ TEODÓSIO

Terça-feira, 29.10.13

José Caetano Teodósio, conhecido na Fajã, na década de cinquenta, por “Ti José Teodósio” nasceu no longínquo ano de 1886, sendo seu pai António Caetano Teodósio e sua mãe Floripes Garcia de Mendonça, casados na nova paróquia da Fajã Grande, em 24 de Julho de 1880, mas baptizados ainda na igreja paroquial da Fajãzinha, antiga paróquia das Fajãs, uma vez que nasceram respectivamente em 1839 e 1844, quando a Fajã Grande ainda não era paróquia, nem tinha igreja paroquial. Ti José Teodósio, por sua vez, casou já no século XX, mais precisamente no dia 21 de Julho de 1906, na igreja paroquial da Fajã Grande, sendo sua esposa Maria da Glória de Freitas Teodósio. Deste casamento nasceram nove filhos, seis meninas e três rapazes, tendo o casal ainda adoptado uma criança órfã. Fixaram residência bem lá no alto, na última casa da Fontinha, de cuja sala, enorme e claríssima, se desfrutava duma das mais belas vistas sobre a Fajã, sobre grande parte das suas ruas e casas, sobre as terras do Porto e Areal, sobre a Ponta e a sua rocha, o ilhéu do Cão, o Monchique e Baixa Rasa, sobre o baixio negro e recortado e sobre o oceano ora calmo e tranquilo ora revolto e bravo.

Ti José Teodósio era uma figura imponente, altiva, digna e respeitada por todos. Mantinha ainda o tradicional traço do homem do século XIX, com um enorme bigode esbranquiçado a ocupar-lhe grande parte do rosto, suíças exageradamente descidas pelos lados da cara, face encardida e sulcada pelos rigores do tempo, mãos calejadas pelo trabalho árduo e contínuo dos campos e o corpo arquejado de canseiras e consumições. Fora um homem de muito trabalho, dedicando-se não só às terras “da porta” e arredores mas até às relvas do mato, onde consta que terá chegado a lavrar e a semear milho, com a ajuda dos dois filhos mais velhos. Mas paralelamente à intensa, cansativa, extenuante e contínua actividade agrícola, Ti José Teodósio ainda disponibilizava o seu tempo para as cantorias. Dotado de uma voz excelente e possuidor de um reportório musical genuinamente popular, herdado dos seus antepassados e das gerações anteriores, Ti José Teodósio era folião do Espírito Santo, cantava no Outeiro durante todas as terças e sextas da Quaresma e animava festas e casamentos com as suas cantorias, muitas vezes sem ser acompanhado por qualquer instrumento musical. Tio José Teodósio também era um homem extremamente generoso, sempre disposto a ajudar os outros e a partilhar com todos os seus bens e haveres, sobretudo a emprestar os diversos instrumentos agrícolas que lhe era permitido possuir, como arados, grades, caliveira, cangas, enxadas e sachos,  a quem deles precisasse. E nem era preciso pedir-lhe, pois Ti José Teodósio guardava-os num palheiro, ao lado da sua casa, cuja porta estava sempre aberta, tanto de noite como de dia, para que quem muito bem quisesse e entendesse os fosse ali buscar para o utilizar nos seus campos.

No entanto o que mais dignificava a generosidade e o grande e bondoso coração deste homem, que naturalmente também tinha os seus defeitos e os seus inimigos, foi o facto de ele e a esposa, apesar de já serem pais de nove filhos, terem adoptado uma menina de nome Maria de São Pedro, filha de pai incógnito e órfã de mãe, dedicando-lhe tanto carinho, tanto amor e tanto afecto, revelados sobretudo no dia seu casamento que, por decisão e vontade expressa dos mesmos, em nada foi inferior ao dos seus próprios filhos. Apesar de muito criança, lembro-me desse casamento, da enorme festa que foi, do lauto almoço realizado na sala da casa de Ti José Teodósio e, findo o qual, tive o privilégio de ver e ouvir o velho Teodósio recostar-se nas costas duma velha cadeira, fechar os olhos como se estivesse a sonhar e cantar para os noivos:

“O melro canta, beijando a flor,

E nós cantámos ao vosso amor.

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publicado por picodavigia2 às 14:03





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