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A LENDA DA CANA-DA-ÍNDIA

Terça-feira, 29.10.13

Quando era criança, uma das estórias que ouvia era a lenda da Cana-da-Índia. Rezava, mais ou menos, assim:

Há muitos, muitos anos havia na ilha das Flores um pescador que era casado e tinha uma filha a quem pusera o mesmo nome da sua mulher, Maria. Eram bastante pobres, pois viviam alimentando-se, apenas, com uma pequena parte do peixe que o homem pescava. A restante parte vendia-a e era com esse pouco dinheiro que comprava o pão, o leite, o açúcar e todos os outros produtos necessários não só à alimentação da sua família mas também à manutenção do seu barco. Apesar de pobres e com parcos recursos viviam felizes e na paz do Senhor, contentando-se com o produto das pescarias que o homem fazia, ora de dia se o mar estava calmo ora de noite se era tempo de lua.

Porém, numa sexta-feira a vida do pescador e da sua família mudou radicalmente. Uma vizinha que, apesar de desconhecerem, estava disfarçada pois era uma feiticeira, estava às portas da morte e a mulher e a filha do pescador, boas e caridosas, tiveram muita pena dela e foram visitá-la, oferecendo-se para ajudá-la e socorrê-la no que necessitasse. A feiticeira, agoniada, cuidando que ia morrer sem passar a sua sina a outra mulher, pegou num novelo e desenrolando-o pelo chão, gritava:

- Quem pega que eu largo!? Quem pega que eu largo?

A mulher do pescador, vendo aquele sofrimento, sem saber no que se estava a meter e querendo ajudar a vizinha, aliviando-a na sua dor, ajudada pela filha, pegou no novelo. Imediatamente a feiticeira morreu e no mesmo instante a mãe e a filha ficaram possuídas da sua sina, ficaram enfeitiçadas.

A princípio o pescador não deu por nada e a vida parecia continuar como era costume. Mas, pouco tempo depois, o homem começou a notar alguma coisa estranha.

Certo dia, ao dirigir-se de madrugada para o porto, ao entrar na ramada, encontrou o seu barco todo molhado como se tivesse navegado toda a noite, sem ter sido ele a ir ao mar. Por isso desconfiado e de pulga atrás da orelha, começou a tentar descobrir o que se havia passado durante a noite.

Na noite seguinte deitou-se e fingiu que estava a dormir. Altas horas da noite, a mulher e a filha saíram de casa. Sem que elas se apercebessem, ele saiu atrás delas. Enquanto as duas Marias vagueavam pela terra, o pescador correu para o barco, embrulhou-se no pano duma vela e escondeu-se à popa. Passou ali mais de uma hora e, quando era pouco mais da meia-noite, chegaram a mulher e a filha. Logo uma delas, virando-se para o barco, disse:

— Põe-te a caminho com as duas!

Mas o barco não se mexeu e então a outra mandou:

— Põe-te a caminho com todos!

Então o barco, de imediato, pôs-se a andar por cima das ondas com tal velocidade que mais parecia voar. Em poucos instantes estavam numa praia da Índia. As duas feiticeiras desembarcaram, meteram-se por terra, entre um canavial que ficava à beira-mar e ali comeram, beberam, dançaram e folgaram com dois rapazes que tinham vindo do mato.

O pescador estava tolo com o que via, mas teve ainda a ideia de arranjar uma prova para as suas palavras. Arrancou uma cepa de cana e voltou para o barco onde se escondeu outra vez.

As feiticeiras chegaram, daí a algum tempo, e, saltando para dentro do barco, puseram-se a caminho, depois de uma gritar:

— Põe-te a caminhar com todos!

O poder da feitiçaria era tanto que muito antes de amanhecer já estavam novamente nas Flores e com o barco varado.

Logo que pôde, o pescador foi contar ao padre o acontecimento, mostrou-lhe como prova a cepa de cana e pediu-lhe a sua intercessão. O padre veio à sua casa, benzeu a mãe, a filha e o barco também. Quebrou-se o novelo e o enguiço e acabou a sina de feiticeira das duas mulheres. Mas o que nunca mais acabou nas Flores foi a cana-da-Índia, que rebentou da cepa que o pescador trouxe e que plantou no seu quintal, como testemunho do que tinha vivido naquela noite.

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publicado por picodavigia2 às 23:11





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