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QUEM NOS CRIOU

Quarta-feira, 30.10.13

Quase todos os domingos, a seguir à missa, as crianças da catequese de todas as idades tinham que permanecer na igreja por mais algum tempo, a fim de prestarem contas das aprendizagens da doutrina que iam fazendo, semana após semana, em casa das suas catequistas. É que o pároco aproveitava esse momento para inspeccionar a forma como tinham decorrido as horas de catequese semanais e para avaliar as crianças sobre o que tinham ou não tinham aprendido, seleccionando assim, os que possuíam os requisitos mínimos para fazer a primeira comunhão, a comunhão solene ou para crismar.

Depois de ir à sacristia retirar os paramentos, o padre Pimentel dirigia-se até ao cruzeiro, envergando a sua batina negra, com um botão ou outra por abotoar e, começando a andar de lá para cá, ia interrogando uns e outros, como que fazendo uma espécie de exame oral a todos. As crianças sentavam-se nos dois primeiros bancos da frente: as meninas do lado da epístola e os rapazes do lado do evangelho. As catequistas, uma ou outra beata, algumas mães e outros familiares esperavam sentados, por aqui e por acolá, espalhados por toda a igreja. O reverendo, exigindo silêncio absoluto, iniciava o interrogatório e, regra geral, os resultados eram muito bons. Quase todos tinham na ponta da língua e papagueavam as respostas do catecismo e cada um, na sua vez, respondia tintim por tintim às perguntas que o reverendo fazia, tal e qual estavam escarrapachadas no catecismo e que haviam decorado ao longo de semanas e semanas, com a ajuda das senhoras catequistas. Um ou outro entupia, um ou outro enganava-se, um ou outro deixava uma palavra atrás, mas quase todos lá se iam desenrascando, com um ou outro erro, sem que o prebendado desse muito por isso ou se aborrecesse, até porque era por demais evidente, que não estava ali para muitas demoras. Por isso olvidava ou fazia por olvidar, as falhas os enganos e os engasgamentos. Coisas de somenos importância. Nada que rondasse a heresia ou que cheirasse a apostasia.

Certo domingo, porém, ao perguntar ao Antonino da Cuada “Quem nos criou?”, o fedelho que, pelos vistos ou não estudara nada nas últimas semanas ou esquecera aquela parte do catecismo, ficou mudo e quedo.

- Então? – Insistiu o reverendo. – Não sabes quem te criou?

 O Antonino, depois de reflectir um pouco, saiu-se com esta;

- Ah! Quem me criou?! Foi meu pai, minha mãe, o leite da nossa Benfeita e o dinheiro da caixa verde!

Quebrando a tolerância habitual a pequenos erros e a uma ou outra incorrecção, o reverendo, desta feita, foi aos arames. Chamou-lhe paspalho, ameaçou puxar-lhe as orelhas se a cena se repetisse, mandou-o estudar e, no domingo seguinte, na homilia feita da grade, antes da missa, os da Cuada levaram um grande raspanete, por, alegadamente, não cumprirem um dos mais importantes e elementares mandamentos da Santa Madre Igreja, ou seja, ensinar a doutrina cristã aos seus filhos ou, pior do que isso, não os enviar a casa das catequistas que as havia na freguesia, muito competentes e sempre dispostas a ensinar a doutrina cristã.

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publicado por picodavigia2 às 17:59





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