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TI'ANTONHO BONZINHO

Quinta-feira, 31.10.13

António Lourenço Fagundes nasceu, na Fajã Grande, na rua da Assomada, em 1849, sendo seus pais José Lourenço Fagundes e Mariana Joaquina da Silveira, casados na igreja da Fajãzinha, antiga paróquia das Fajãs, no longínquo ano de 1838. Ainda jovem e tentando esquivar-se à vida de miséria e penúria que abalroava a sua família e quase todas as da freguesia e tentando livrar-se do trabalho árduo, esclavagista e sem lucros a que estava condenado na Fajã, decidiu emigrar para a Califórnia, seguindo o exemplo de tantos outros conterrâneos. Mas na altura não era fácil, pois a emigração legal era obstaculizada por variadas limitações, entre as quais a dos transportes que, na altura, eram raros e caros, enquanto, por outro lado, a emigração clandestina era muito perigosa e arriscada. O jovem, corajoso e temente a Deus António, sem dinheiro e sem alguém que lho emprestasse, optou pela segunda e lá partiu, sozinho, às escondidas da noite, conseguindo embarcar na Ribeira das Casas, onde se havia escondido na véspera, misturando-se, de madrugada, com os marinheiros de um escaler que haviam ido a terra abastecer-se de água e de viveres. Atravessou o Atlântico, dos Açores à costa leste americana, nesse pequeno e frágil escaler, movido a remos e à vela. A bordo dispôs-se a fazer todo o tipo de trabalhos, com o objectivo de justificar o pagamento da viagem: remou de dia e de noite, cozinhou, limpou, despejou água do interior da embarcação e limpou latrinas. Uma vez chegado à cidade de Hudson, no estado de New Hampshire, aí permaneceu algum tempo, realizando todo o tipo de trabalho, do mais vil ao mais humilhante, a fim de conseguir dinheiro para pagar a viagem que o haveria de levar até ao outro lado do mundo. Percorreu o continente americano de lés-a-lés e chegou à Califórnia, no ano de 1870, numa altura em que a construção e inauguração de diversas ferrovias interestaduais, que passavam a ligar o estado com o resto do país e que fizeram com que aquele estado conhecesse um período de grande desenvolvimento e passasse a crescer drasticamente, registando uma das taxas de crescimento anual mais altas do país, o que aumentou significativamente a sua população e permitiu o florescimento de muitas cidades. Por isso mesmo, o jovem António não teve dificuldade em empregar-se trabalhando, primeiro, nas construções das linhas férreas por aqui e por além, fixando-se mais tarde, na cidade de São Francisco, trabalhando na construção do enorme e gigantesco porto daquela cidade. Alguns anos depois, sentindo saudades da terra e da família, cuidando que tinha o dinheiro suficiente para comprar umas territas e reconstruir a casa dos pais, decidiu voltar à Fajã, não se esquecendo de trazer os célebres “papeles” com os quais os filhos, se os tivesse e um dia assim entendessem, pudessem fixar-se nos Estados Unidos. Quando chegou à Fajã, os pais já haviam falecido. António comprou algumas terras, fez alguns arranjos na casa que os pais lhe haviam deixado na Assomada e recomeçou a sua vida na ilha. Apesar de tudo, a casa era pequenina e, como o dinheiro era pouco, acabou por em quase nada a transformar: era velha e velha ficou, era pobre e pobre permaneceu, com um piso superior para as pessoas e duas lojas no piso inferior: uma para o gado e outra para latrina e arrumos. Como era “americano”, embora com pouco dinheiro, casou, aos 33 anos de idade, com uma sobrinha de apenas vinte anos, de nome Maria de Jesus Fagundes, na igreja paroquial da Fajã Grande, em 30 de Novembro de 1882. Desse casamento nasceram muitos filhos, uns mortos, por via da consanguinidade, outros morrendo depois de nascer e uma filha permanecendo deficiente mental ao longo de toda a sua vida. Um bom punhado deles, no entanto, vingou. Uma vez crescidos, agarram-se aos “papeles” que lhes tornava a fuga da ilha legal, e zarparam para a América, na procura do “Eldorado” que o pai pouco aproveitara. Deixando os pais, já velhotes e a irmã demente aos cuidados de um irmão mais novo, por lá ficaram e fixaram residência para sempre.

Impusera-se no entanto, Ti’Antonho pela sua bondade, paciência, generosidade e espírito de ajuda não apenas para com a mulher e para com os filhos mas também para toda a freguesia, o que lhe valeu o epíteto de “Tio Antonho Bonzinho”. Os seus dias eram passados nos campos a trabalhar ou em casa com a mulher doente e a filha enlouquecida. Não saía à noite, antes pelo contrário ficava em casa e, depois de cear e lavar os pés, juntamente com a família, rezava o terço, findo o qual se seguia uma infinidade de Padre Nossos e Avé Marias por alma de todos os antepassados, parentes, amigos e vizinhos, que se haviam finado e pela saúde e felicidade dos filhos que estavam tão longe dali. Juntamente com o filho que com ele ficara, lá ia trabalhando as poucas e pequenas terras que tinha e criando uma vaquita que ficava na loja de noite e de dia nos pastos do Outeiro Grande e dos Lavadouros e que lhe ia dando leite necessário para as sopas da ceia e os ajudava a lavrar os campos e puxar o corsão.

Tio Antonho Bonzinho um dia morreu. Morreu de cansaço, de sofrimento, de velhice, mas morreu com alegria e felicidade por ter cumprido com dignidade, nobreza e humildade a sua missão na terra. Na sua casa da Assomada deixou a esposa enferma numa enxerga, a filha demente e o filho mais novo a tratar das duas e a trabalhar os campos para as sustentar. Este filho era aquele que mais tarde foi o meu pai e, consequentemente Ti ‘Antonho Bonzinho foi o meu avô.

A “História dos Açores” também se faz com estes homens!

 

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publicado por picodavigia2 às 09:23





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