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MILHO PR'ÁS ALMAS

Sexta-feira, 01.11.13

Todos os anos, no dia de todos os Santos, grupos de homens munidos de cestos ou sacos de serapilheira percorriam as ruas da Fajã Grande, desde a primeira casa da Assomada até à última da Via d’Água e, batendo à porta de todas e cada uma das casas, gritavam: “Milho pr’ás almas”. Era um costume ancestral e que tinha como objectivo recolher as ofertas de milho destinadas às benditas almas do purgatório ou seja aos seus próprios defuntos. Esta actividade era devidamente planificada e programada pela mordoma das almas, cargo que durante as décadas de quarenta e cinquenta foi desempenhado pela minha avó, por ser a mãe do sacristão. Dias antes minha avó requisitava os homens que julgava serem necessários para executar com sucesso e eficiência o peditório, disponibilizando, aos que os não tinham, os cestos ou sacos julgados necessários. Convidava também uma grande quantidade de mulheres para, durante e após o peditório, recolher o milho, debulhá-lo e enchê-loem sacos. As pessoas nas suas casas já tinham seleccionado e descascado a quantidade do milho que pretendiam oferecer, muito ou pouco, consoante as posses que tinham. Casa que não cultivasse milho deveria dar o equivalenteem dinheiro. O milho era trazido para casa da minha avó e colocado na sala que se enchia com as maçarocas quase até ao tecto. Sentadas ao redor as mulheres debulhavam-no e colocavam os grãos dentro de cestos e balaios, enquanto a criançada ia escorregando sobre os montes das maçarocas. Minha avó muito atarefada recolhia o dinheiro e, com algumas ajudantes, media o milho com razoiras e enchi-oem sacos. Alguns sacos tinham comprador imediato, enquanto outros eram colocados na casa velha a fim de serem vendidos nos dias seguintes. Por vezes até vinham compradores doutras freguesias comprá-lo. É que, devido à enorme concorrência, sobretudo nos anos em que havia muito milho, o das almas era, geralmente, mais barato. Todo o dinheiro, quer oferecido directamente quer resultante da venda do milho, era guardado pela mordoma que o ia entregar ao pároco. Destinava a celebrar missas e rezar os responsos dos defuntos, todos os dias, durante o mês de Novembro, por alma dos defuntos de todas as famílias da Fajã.

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publicado por picodavigia2 às 09:24





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