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A MALEIRA

Sexta-feira, 08.11.13

Mais veloz do que o vento norte e tão ágil e lesta como as brisas matinais, a Maleira da Fajã partia, duas vezes por semana, com destino traçado às Lajes, com o único objectivo de levar e trazer o correio juntamente com um ou outro recado e com este ou aquele mandalete. Morava na Ponta, logo nas primeiras casas e partia, alta madrugada, a pé e descalça, quando muitos galos ainda não haviam iniciado os seus cocorocós matinais e a escuridão teimava em não se deixar vencer pelos primeiros raios da aurora. Não se furtava às intempéries, não temia os ventos frígidos e fortes, não se abrigava das chuvas por mais intensas e fustigantes que fossem, nem se acobardava a tempestades. Caminhava a passo firme, ríspido, sereno e convincente. Diziam os que com ela, por vezes, faziam viagens, quer nas idas quer nas vindas, que era quase de todo impossível acompanhar-lhe a pedalada. Saía da Ponta, atravessava a Fajã, seguia pelo Caminho da Missa, Ladeira do Biscoito e passava a Ribeira Grande, mesmo em dias de grande caudal, com uma perna às costas. Na Fajãzinha acertavam os relógios à sua passagem e ao amanhecer já subira os Bredos e demandara os Terreiros. Atravessava os matos para encurtar caminhos e antes das oito já estava sentada no muro da igreja das Lajes à espera que o Correio abrisse. Depois era despejar as cartas da Fajã e da Ponta, sobretudo com destino à América, e encher a mala com as que de lá e de outros recantos do mundo vinham. Depressa se despachava e antes das onze, com um bocado de pão e outro de queijo já comidos, regressava à Fajã.

Caminhava bem mais carregadinha no dia seguinte à chegada do Carvalho, em que a mala, de cuja fechadura havia apenas uma chave no Correio da Fajã e outra no das Lajes, vinha mesmo a abarrotar. Na viagem seguinte, embora não tão cheia, lá vinha uma ou outra carta atrasada por descuido de algum funcionário e os célebres avisos amarelos a anunciar as encomendas vindas da América.

Nesses dias, ao regressar, era esperada com grande ansiedade. Mal aparecia no cimo da Assomada, um rancho de gente vinda de todas as ruas e canadas da freguesia acompanhavam-na até ao sagão do José Natal. Aí esperavam uma eternidade, enquanto o homem, lento que nem uma lesma, abria, remexia e sacudia a mala e, de seguida, separava, juntava, amontoava e voltava a separar envelopes e avisos, até se decidir, por entre grande indignação, tumulto, zanga e reclamação dos que ali esperavam estacados, a ler os nomes dos destinatários estampados em cada envelope ou aviso. A essa hora a Viva, como também era apelidada a Maleira, já tinha ido ceifar um molho de erva a uma lagoa que tinha para os lados da Ribeira do Cão, e carregava-o, sob uma rodilha, à cabeça, descalça, com o mesmo saiote que levara para as Lajes, com as pernas repletas de pelos e a escorrerem de água.

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publicado por picodavigia2 às 16:49





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