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A POPULAÇÃO DA ASSOMADA – I PARTE

Sexta-feira, 08.11.13

A rua da Assomada tinha a forma de um ípsilon, isto é, no seu cimo, ramificava-se em duas vielas que se prolongavam em caminhos. À esquerda de quem a subia, a Assomada delongava-se pelo início do caminho que dava para as terras de cultivo, de mato, para as relvas, para o Covão e Outeiro Grande, para a Quada, para os Lavadouros e terminava no Curralinho. Por sua vez e do lado direito continuava através do Caminho da Missa, com destino à Eira da Quada, à Fajãzinha e às outras freguesias e vilas da ilha.

A primeira casa da Assumada, do braço esquerdo do ípsilon, já muito próxima da Ladeira do Covão e como que abrigada pela encosta da Pedra d’Água era a do João Fagundes, um senhor já de provecta idade, com o nome rigorosamente igual ao de meu progenitor, razão pela qual meu pai assinava o seu nome sempre seguido de Júnior. Assim não havia confusão, não tanto pelas cartas que estas traziam remetente, mas sobretudo pelos avisos amarelos, anunciadores das encomendas da América ou daqueles que eram para pagar dízimas e impostos e que não continham remetente. O senhor João Fagundes era um homem muito respeitado na freguesia, tendo exercido alguns cargos de responsabilidade e era irmão da mãe do José Nascimento. Vivia com a esposa e os dois filhos mais novos, dado que os restantes já haviam casado. O João ingressou na Guarda-Fiscal, deslocando-se, mais tarde, para Santa Cruz, juntamente com a mulher, enquanto a filha casou e partiu para o Canadá.

Na casa seguinte, na curva ao lado do Palheiro do Tomé e enfiada numa espécie de buraco muito abaixo do nível do caminho, morava a Maria José Fragueiro. Era uma senhora muito bondosa mas doente e que vivia pobremente. Para além de não ter terras, nem dinheiro, tinha uma doença incurável, o que se agravava por não ter recursos com que se tratasse: uma das pernas estava, tão inchada, tão inchada que quase ultrapassava em grossura o diâmetro da sua própria cintura. A sua casa era muito pobre, não tinha dinheiro para o petróleo, nem para os fósforos, nem para a farinha, nem para o café, nem para nada, por isso alumiava-se com a luz do lume e alimentava-se com o que cultivava numa pequena courela e do que as pessoas lhe ofereciam. Como eu passava muitas vezes por ali quando ia levar as vacas ao Outeiro Grande, via-a frequentemente ou sentada sozinha nos degraus da casa ou a juntar garranchos no caminho, derrubados pelo vento ou deixados cair pelos molhos dos transeuntes e com os quais iria acender o lume. Por vezes parava um pouquinho, pois ela conversava muito comigo e olhava-me com tanta doçura e carinho que parecia uma mãe.

Seguia-se a casa de José Jorge que cedo zarpou para o Canadá com a mulher, a Maria Cardoso e duas filhas, sendo a casa ocupada posteriormente por uma família oriunda das Lajes, conhecida pelos “Marcelas”. Neste braço esquerdo do Y e junto ao cruzamento, assinalado numa das paredes com uma cruz, vivia a Maria da Saúde e a mãe já velhinha, juntamente com um homem de nome Corvelo, originário de Santa Maria e que ali se fixara. Este Corvelo faleceu no terrível acidente do Vale Fundo, durante a abertura da estrada, quando colocavam dinamite para rebentar uma pedreira.

No outro braço ficavam apenas duas casas: a da Senhora Estulana, viúva e com três filhos e a do José Garcia, casado com a Senhora Ester e com dois filhos ainda residentes: o Júlio e a Avelina que casou com o João do Gil. Ambas estas famílias abandonaram a freguesia.

Mais abaixo a rua começava o seu braço central com o José Dias, na primeira casa do lado direito. Poucos anos lá viveu, este filho de Tio Manuel Luís, casado com uma filha da Senhora Estulana, com dois filhos, dado que cedo partiram para a América. A casa teve vários moradores até que a comprou o Augusto Mariano.

Presumivelmente seria este o primeiro grupo de famílias a ser enumerado na igreja no dia 3 de Novembro e a cujas almas dos seus defuntos se dirigiam a missa, as preces e os responsos desse dia.

O segundo grupo a ser lembrado, no dia quatro, seria necessariamente o dos moradores daquelas casas da Assomada que ficavam sob as encostas do Pico e localizadas entre o Chafariz do Cimo da Assomada e a Canada de Ti’Antonho do Pico.

A primeira casa integrada neste grupo era a do Chico de José Luís, que casou com a Maria das Neves, natural da Ponta e que tinha três filhos: a Fernanda, o Francisco e a Rosália. A casa ficava à esquerda de quem subia, ao lado de um chafariz que existia ali no Cimo da Assomada e era, estruturalmente, bastante semelhante à minha: uma enorme cozinha, a sala onde dormiam as crianças e o quarto para o casal. Em frente e antes da estrada passar, havia um pátio com plantas, pequenos arbustos, flores e o “cepo da lenha”. Imediatamente a seguir e, quase encostada a esta, morava a tia Gonçalves, talvez, na altura uma das pessoas mais velhas da Fajã, com uma casa bastante maior e melhor do que a anterior, em forma de L e por baixo da qual não havia gado. Era viúva, vivia com uma filha também viúva, mas já de idade, uma neta, o marido desta e um bisneto – o Silveira. Por trás destas casas e ao fundo duma canada, num edifício geminado, morava meu tio Cristiano casado com uma filha de Tio José Luís e dois filhos e o Laureano Alexandre, que, apesar de viver sozinho, era uma pessoa muito sociável, alegre, divertida, afável e sempre disposto a assumir cargos de responsabilidade, nomeadamente o de cabeça da Casa de Baixo, cargo que exerceu durante muitos anos. Também era baleeiro. Meu tio Cristiano era alfaiate, mas tal ofício não dava para se sustentar a si e à família, por isso também criava uma vaca, cultivava algumas terras e também chegou a ser baleeiro. A casa dele, para além duma pequena cozinha que edificara atrás, ocupava apenas a sala do respectivo prédio em cuja restante parte vivia o Laureano Alexandre. No entanto como era uma sala muito grande estava dividida com biombos em pequenos cubículos, que eram quarto, sala e atelier de costura.

Voltando à rua, num outro prédio bem maior, também transformado em habitação geminada moravam, na parte de cima o Francisco Inácio e na de baixo o Cabral. Era um prédio alto, bem construído, de dois pisos, implantado na frente da rua, à esquerda de quem a subia. Tinha uma fachada imponente, delimitada por uma faixa, com três portas no piso térreo, com um óculo oval entre as duas portas e uma faixa a dividir as duas moradias. Francisco Inácio, casado com uma filha de tio José Luís e com dois filhos, o José Augusto e a Vitória, morava do lado esquerdo. Tinha-se acesso à moradia, através de um pátio sob o qual ficava uma das poucas cisternas existentes na Fajã. A cozinha tinha uma chaminé monumental. Na parte direita morava o Cabral com a mulher e os filhos, entre os quais o Laurindo. Todos abandonaram a freguesia, assim como os filhos do Francisco Inácio. Este prédio tinha em frente o palheiro dos irmãos José e Manuel Cardoso, o qual teria sido, noutros tempos, residência do Caixeiro e da tia Rosário e a ele estava ligada a célebre “estória” de “As empenas de Cabral”. Contava-se que andando um dia Caixeiro pelos campos, a tia Rosária ficou em casa a cozer bolo. Talvez por descuido ou limitação de recursos, o bolo queimou, mas quando o Caixeiro chegou a Rosaria pô-lo na mesa apesar de queimado, pois não tivera tempo ou recursos para cozer outro. Só que pelos vistos o bolo estava tão queimado, tão queimado que o Caixeiro não o pode ou não o quis comer. Furioso, levantou-se, foi à porta e atirou-o para o outro lado da rua, indo o bolo colar-se ao prédio da frente onde morava o Cabral. A Rosária é que não gostou nada de ser aquele o destino do seu bolo, fruto do seu trabalho e, recriminando-o, disse:

- “Pedaço de mal criado, atiraste com a face do Senhor às empenas de Cabral.”

Ao lado deste palheiro ficava a casa de tio Mateus Felizardo. Ainda me lembro de ver este velhote de longas barbas brancas salpicadas do amarelo do tabaco que mascava. Morava lá o Manuel Machado com a mulher, um filho e com o avô Mateus Felizardo e a avó, ambos já muito velhinhos.

No caminho conhecido por “canada de Ti’Antonho do Pico”, a primeira de três pequenas transversais que tinha a Assomada, orientadas para o lado do Pico, ou seja do lado direito de quem subia, vivia apenas a família de Ti’Antonho do Pico, que exactamente por morar nas encostas daquele minúsculo monte, sobranceiro à Assomada, granjeou tal epíteto. A casa, onde residia com a esposa, com a filha Dolores, com o genro e com um neto, ficava de facto um pouco fora do caminho da Assomada e encravada lá bem para dentro, já nos contrafortes da pequenina montanha. O genro, o Jesuíno, filho do Afonso das Tomásias era um excelente músico, tocava clarinete na Filarmónica Senhora da Saúde, cantava na capela e, mais tarde, fundou e orientou a Tuna Sol e Mar, ainda existente na Fajã Grande.

Regressando à rua e logo acima da Fonte ficava um pequeno grupo de três casas, onde moravam Tio João Barbeiro, casado com uma irmã da mulher do Tio José Teodósio, com quem vivia, juntamente com a filha Elisa Barbeiro, um neto a quem a mãe falecera no desastre do Corvo e a Olinda. Foi este neto de tio João Barbeiro, o José Cardoso, desde miúdo notável construtor de triciclos e carripanas de madeira que ele próprio conduzia, que comprou o primeiro carro de praça existente na Fajã Grande. Em frente ficava a casa do Augusto Mariano, casado com a Marquinhas de S. João, muita amiga da minha mãe e que tinha dois filhos, o José Lucindo e o Mariano e ainda o António Barbeiro, talvez um dos homens mais inteligentes e cultos da Fajã e que a estas qualidades aliava a de artista primoroso, quer como relojoeiro, a principal actividade que desempenhava e em que era exímio, quer noutras actividades em que se envolvia, nomeadamente na carpintaria e na apicultura, executando todos os trabalhos com uma perfeição invulgar e um zelo excessivo. Acrescente-se, ainda, que na freguesia era a única pessoa capaz de resolver a maioria de um sem número de pequenos problemas quotidianos, como o de consertar uma fechadura, amolar uma tesoura, por um badalo na campainha duma vaca, colocar um vidro ou até por os agrafos num prato partido ou grampos num alguidar quebrado. A fama de que gozava era imensa e granjeara o respeito e admiração geral, dado que quase toda a freguesia recorria com frequência aos seus préstimos. Era viúvo e vivia na companhia de dois filhos, a Alda e o Orlando. Tanto o neto de João Barbeiro, como os filhos do Augusto Mariano e do António Barbeiro abandonaram a ilha, partindo para a América e para o Canadá, excepto o José Lucindo que, tocou requinta na Filarmónica e que após a tropa, entrou para a Marinha.

Ali perto e um pouco mais abaixo moravam duas velhinhas, numa casa pequenina e pobre, com uma cozinha muito velha, com o chão ainda de solo (barro ou terra) e sem forro: Tia Ermelinda e Tia Maria Inácia. A primeira era muito doente e já não saía de casa e estava permanentemente sentada à janela da empena da sala. De manhã rezava, costurava e lia. De tarde ensinava catequese e conversava com quem a visitava. Tia Maria Inácia, apesar de velhinha e doente, era “o homem da casa”. Era ela que ia à lenha à Cabaceira, que a rachava, fendia ou picava com o machado e a guardava debaixo do lar. Era ela que ia buscar erva-santa para as galinhas. Era ela que cozinhava, lavava e limpava a casa. Era ela que fazia tudo.

Junto a esta casa ficava uma outra onde moravam três irmãs, também já de avançada idade, conhecidas pelas senhoras Mendonças. A mais velha enviuvara há muitos anos e era a mãe do poeta e escritor Pedro da Silveira. Apesar da idade eram estas três senhoras  que, para além de partilharem as tarefas diárias da casa, trabalhavam os seus campos onde cultivavam milho, batatas e outros produtos necessários à sua alimentação.

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publicado por picodavigia2 às 16:51





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