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NOVEMBRO (DIÁRIO DE TI’ANTONHO)

Domingo, 10.11.13

Domingo, 5 de Novembro de 1946

Novembro é o mês do ano de que menos gosto. Nunca me agradou muito. Primeiro porque aqui na nossa ilha das Flores é um mês de muito mau tempo, de muita chuva e de muitas ventanias. Os dias em Novembro são muito pequenos, mesmo que esteja bom tempo, de tal maneira que permita ir trabalhar para os campos, o dia não chega para nada. Mal amanhece daí a pouco é noite escura. Além disso, Novembro parece um mês triste, pois para além de escuro, cinzento, negro, é o mês dos defuntos. É verdade que nos devemos lembrar dos nossos, dos que já morreram, mas os sinos a tocarem a finados logo desde o dia dois, as novenas das almas, as idas ao cemitério, tudo me faz ficar triste, muito triste, lembrando-me dos familiares que já partiram, sobretudo dos meus pais. Novembro é o mês dos finados, da tristeza, da saudade e da dor.

Aqui na nossa freguesia há um costume muito antigo que já meu avô falava que existia no teu tempo de criança. Na igreja, todos os dias à noite fazia-se a novena das almas. A igreja, segundo ele contava, enchia-se de gente como se fosse domingo. Até muitos que nem aos domingos entravam na igreja iam à novena das almas. No cruzeiro da igreja colocavam o catafalco coberto com um pano negro, com uma cruz amarela. Desenhada ao meio. Vestido com uma capa preta, o pároco rezava responsos em latim pelos mortos de todas as famílias, mas com uma certa ordem. Depois de dividir as famílias pelos dias do mês, no dia três começava no Cimo da Assomada, terminando na Via d’Água, no final do mês. No fim da novena rezava por todos os fiéis defuntos uma oração em latim que era mais ou menos assim: "Requiem aeterna dona eis, dona" e o povo respondia: “Et luz perpétua luziat’eius”. No fim o sacerdote concluía: “Anima omnium fidelium defunctorum requiescão in paxe”. Hoje já é tudo muito mais moderno, mas ainda continua a haver novena das almas para lembrar os nossos mortos e rezar pelas suas almas. O povo tinha muita devoção e muito respeito pelas almas do Purgatório. Mas nós, os mais pequenos, até nos assustávamos com aquelas rezas e aquele luto, assim como o virar dos sinos, sobretudo no dia dois em que se fazia o enterro do velho Laranjinho.

Meu avô contava que antigamente, em algumas casas, durante este mês deixava-se desocupada uma cadeira que era o lugar do último familiar que falecera naquele ano e muitas pessoas ofereciam a um pobre a refeição que deveria ser do falecido se ele estivesse vivo. Também, no Dia dos Defuntos, tiravam uma derrama pela freguesia, chamada “Esmola Prás Alma”. Com o dinheiro que se recolhia e com o resultante da venda dos produtos doados, mandavam-se celebrar missas por todos os defuntos da freguesia.

No entanto, em Novembro, se o tempo o permite, já se realizam alguns trabalhos nos campos e, antigamente, faziam-se algumas sementeiras como o trigo que nesse tempo era muito cultivado pois havia pouco milho, semeavam-se as favas, plantavam-se as couves, os alhos e as cebolas. Por isso havia um provérbio na Fajã Grande que dizia “Pelo São Martinho, mata o teu porquinho e semeia o teu cebolinho.”

E por falar em porquinho era realmente neste mês que se começava a preparar tudo para a matança do porco que em breve chegará. Isto era o que Novembro tinha de melhor.

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publicado por picodavigia2 às 15:28





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