PICO DA VIGIA 2
Pessoas, costumes, estórias e tradições da Fajã Grande das Flores e outros temas.
A LETA
A Leta era, nos anos cinquenta, o gasolina mais rápido e veloz que existia na ilha das Flores. Grande, branca, debruada a amarelo e vermelho era uma lancha movida por um potente motor, colocado no interior duma casa que cobria grande parte da área interior da embarcação e ladeada por inúmeras janelas. O motor situava-se a meio da casota e à sua volta existiam alguns bancos onde os passageiros se podiam sentar e, através das janelas, observar o exterior, nomeadamente o mar e a ilha. A parte não coberta e que ficava à ré, também possuía ao seu redor bancos com o mesmo fim. Na parte mais anterior, truncada e não terminada em proa, como era próprio das lanchas, ficava a roda do leme. A sua tripulação era constituída apenas por três elementos: o mestre que a conduzia, guiava e encostava ao cais ou ao porto, o maquinista responsável pelo funcionamento, manutenção e limpeza do motor e o proeiro que normalmente viajava à frente da casa, à proa, sobre quem recaía todos os outros trabalhos, nomeadamente o de aproximar e afastar do cais com uma vara própria, de a amarrar, apoitar e até de a lavar.
A Leta teve um papel muito importante na vida da população a ilha das Flores. e da Fajã Grande. É que para além de ser um dos meios de transporte de pessoas e mercadorias (neste caso arrastando os barcos sem motor) entre as vilas e as freguesias da ilha das Flores, também era usada na pesca à baleia e para fazer transporte de passageiros e rebocar os barcos de carga nos dias de vapor, ou seja quando o Carvalho Araújo demandava a ilha. Para a população da Fajã Grande, porém a Leta era uma espécie de Deus Salvador, uma vez que era através dela que se deslocavam muitos doentes para Santa Cruz, salvando-os assim, pois que a ficar naquele isolamento possivelmente teriam morrido. Era também a Leta que geralmente transportava, quando das suas visitas às freguesias mais longínquas das duas vilas das Flores e que também possuíam os melhores portos, nomeadamente a Fajã Grande e Ponta Delgada, as personagens importantes e as autoridades, como por exemplo o bispo da diocese e o governador civil do distrito.
A Leta a mais rápida, mais veloz e mais estimada e aureolada embarcação de transporte da ilha das Flores e dela hoje muito pouco ou quase nada se sabe.

