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A POPULAçÂO DA RUA DIREITA

Quinta-feira, 14.11.13

A Rua Direita iniciava-se à Praça e prolongava-se até à Via d’Água. Entre a Praça e o Chafariz ficavam as seguintes casas moradias: a do José André e aquelas onde moravam duas das mais importantes e emblemáticas personalidades existentes na Fajã, na altura: o Padre Pimentel e o Mancebo.

O José André vivia com a mulher e dois filhos numa casa térrea, mesmo ali bem no perímetro da Praça e cuja empena Sul servia de lugar de descanso e abrigo, quando o vento soprava do Norte. Logo a seguir e frente a frente, em duas das melhores casas da freguesia moravam, numa o P.e Pimentel e noutra o José Mancebo. O padre Pimentel era o pároco da freguesia, sendo natural da Fajãzinha e tendo-se ordenado em 1917. No início foi cura no Corvo e em Santa Cruz, sendo transferido para a Fajã Grande em 1925. Vivia numa casa solarenga, com uma irmã, uma sobrinha, duas meninas que adoptara como “pupilas” e ainda uma velhota, chamada Ana Neta. Por sua vez o Mancebo, que vivia com a mulher e dois filhos, era um acérrimo defensor do regime político vigente, até porque era o presidente da Junta de Freguesia, cargo que exerceu durante longos anos, dado que granjeara a amizade e simpatia do Presidente da Câmara das Lajes, que por sua vez era sobrinho do Governador Civil da Horta, distrito a que a ilha das Flores, na altura, pertencia. Foi também presidente da Cooperativa, cabeça de festas e do Fio e um dos fundadores da Filarmónica Senhora da Saúde, da qual foi regente durante muitos anos.

Continuando este périplo imaginário pelas ruas da Fajã Grande, no início dos anos cinquenta, deambularemos ainda pela Rua Direita, onde se situavam as casas maiores e simuladamente mais luxuosas da freguesia, quase todas de dois andares e muitas delas com os pisos inferiores a servirem também de habitação e afins ou utilizados para estabelecimentos comerciais. De facto era na rua Direita que se localizavam todos os estes estabelecimentos, num total de seis: quatro mercearias e dois botequins e ainda os correios, a escola e as duas casas do Espírito Santo. Ao redor da igreja, na realidade, as habitações eram todas de dois andares, excepto duas. Uma era do David que, no entanto, ficava um pouco mais afastada da rua, numa pequena travessa ou canada, situada entre as casas da Senhora Alvina e da Senhora Dias. O David era um pequeno agricultor e criador de gado que, no entanto, guardava num palheiro bem longe da rua Direita. Anos mais tarde havia de dedicar-se ao comércio, acabando também por emigrar. Vivia com a mulher, filha do Raulino Fragueiro e uma filha, a Anina.

A senhora Alvina era viúva e morava, juntamente com os filhos, num enorme e apalaçado edifício, que ficava entre a entrada das Courelas e a canada do David. Em breve partiram para a América, sendo a casa vendida e actualmente transformado numa das mais interessantes residenciais da ilha das Flores. Ao lado a senhora Dias, também viúva e que vivia com uma filha, casada com o Caetano, filho de Tio José Teodósio, numa casa de construção recente, paredes-meias com o adro da igreja. Moravam no piso superior, tendo no primeiro andar um dos maiores estabelecimentos da freguesia onde vendia de tudo: sapatos de pele de cabra, botas de cano, “mantinhos” de seda, lenços de merino, tecidos vários, algumas peças de roupa, petróleo e mexas, produtos de mercearia, bebidas, enfim todos os produtos que a população necessitava e de que era abastecida geralmente por barcos vindos das Lajes ou de Santa Cruz.

Do outro lado da rua morava também uma viúva, numa casa muito interessante sob o ponto de vista arquitectónico e artístico e em cujo frontispício se realçavam os belos gradeamentos de ferro das varandas. Esta senhora, já de avançada idade, era a viúva de José Cardoso e ali vivia com 5 filhos, que trabalhavam nos campos, destacando-se alguns deles como músicos pioneiros na filarmónica Senhora da Saúde, nomeadamente o António que tocava bombardino e o Manuel, cornetim. Um outro filho, o José, granjeou o epíteto de “Trancão”. É que o seu sonho, ser arpoador de baleias, não era fácil de concretizar-se. Para tal era preciso e certa vez terá sido encontrado a treinar, substituindo, no entanto, as baleias por abóboras.

Mesmo em frente à igreja morava o Mateus Felizardo que, no dizer de Pierluigi Bragaglia, (1997) “era uma das mais lúcidas memórias da Fajã Grande”. Vivia com a esposa Natália e alguns filhos, entre os quais a Clara que faleceu bastante jovem e o José que foi o primeiro tocador de bombo e pratos, em simultâneo, na Filarmónica Senhora da Saúde.

Na casa ao lado, esta a outra das duas térreas junto da igreja, morava a Elisinha Abraão, catequista e pessoa muito religiosa, juntamente com os sobrinhos que ela própria criara desde crianças, dado que eram órfãos, pois os pais haviam falecido no trágico acidente do Corvo, em 14 de Agosto de 1942, no qual o gasolina “Senhora das Vitórias”, também conhecido por “A Francesa” naufragou no sítio dos Laredos, junto à ilha do Corvo e onde morreram mais de quatro dezenas de pessoas, sendo a maioria naturais e residentes na Fajã Grande.

Finalmente e numa travessa da Rua Direita, mesmo ali ao lado da igreja e do cemitério morava o Gil, com a esposa, três filhos e uma irmã, a Ricardina. O Gil também era lavrador e criador de gado, sendo que as suas vacas usavam as mais bonitas e mais deliciosamente sonantes campainhas de todas as usadas na Fajã. A seguir à casa de Tio José Luís e junto à Casa de Baixo, onde funcionava a escola, a moradia do Gil tinha um pátio de entrada, onde havia algumas árvores entre as quais uma enorme tamareira. Na altura em que esta se carregava de tâmaras, apesar de ainda verdes mas já com um cheirinho delicioso, nós os garotos da escola, na hora do recreio, aproveitando a ausência do Gil e familiares lá subíamos a tamareira… Óh tâmaras! Para que vos quero! Os que ficavam cá em baixo, roídos de inveja por não poderem subir a árvore, bem gritavam: Gil! Ó Gil! Olha os monços nas tâmaras!” Não adiantava! Eram bolsos e bolsos cheios, a abarrotar e à tarde o Gil ou a fazer queixa à senhora professora ou a correr atrás dos que supostamente lhe haviam gamado as ditas cujas.

Logo a seguir à igreja, do lado mar, situava-se um edifício de grande imponência, com referências históricas e lendárias muito curiosas e com traços arquitectónicos invulgares. Citando o “Inventário do Património Imóvel dos Açores” a sua “…fachada principal é emoldurada por um soco alto e saliente, por dois cunhais e por uma cimalha com faixa, friso e cornija onde se apoiava o beiral. Apresenta três portas alternadas, sobre as quais havia janelas de peito, cujos aventais aparentes se ligam às cornijas das respectivas portas…. Na empena direita, com sótão, havia uma porta ao nível do piso térreo encimada por uma antiga janla de sacada, vendo-se a consola em pedra ligada ao lintel da porta e do lado direito da janela havia uma porta a que se tem acesso por uma escada com balcão. A cimalha da fachada principal prolonga-se pela empena direita formando a base de um frontão cujo remate superior é feito por uma faixa e uma cornija…”. Este belo, histórico e monumental edifício era, no entanto, como todos os da Rua Direita, “construído em alvenaria de pedra rebocada e caiada, excepto o soco, os cunhais, as cimalhas, a consola das varandas e as molduras dos vãos que eram em cantaria pintada de cinzento”, como as barras e portadas das restantes casas. Duma análise pormenorizada, poder-se-ia concluir que este edifício, tal qual se encontrava nos anos 50, já teria sofrido grandes alterações, algumas pouco conseguidas, relativamente ao que teria sido a sua arquitectura primitiva, pois havia testemunhos de que provavelmente seria um dos mais antigos da freguesia, tendo sido propriedade e residência do capitão Freitas Henriques, estando, nessa altura, ligado por uma ponte à primitiva ermida da Fajã Grande, benzida em 1757 e que antecedeu o edifício da actual igreja paroquial, edificada no ano de 1849.

Na altura que estamos a referenciar, ou seja o início dos anos 50, o edifício destinava-se, na parte superior a duas moradias e na inferior a uma loja de comércio, pertencente à Bernadete Dias e uma outra a servir de correios. Um dos inquilinos do piso superior era o José Natal, que vivia sozinho e administrava os correios. Era na loja e no enorme saguão de pedra que dava para o piso superior, onde morava, que nos dias a seguir ao Carvalho, lia, um por um, em alta voz e por vezes no meio de grande algazarra, confusão e comentários pouco abonatórios, o nome de todos os destinatários das cartas, avisos e pequenos embrulhos que a “maleira” trazia das Lajes, a fim de aqueles a quem se destinavam deles se apropriassem. Na outra metade do edifício morava a viúva de Tio José Luís, com alguns dos filhos que ainda não haviam casado e que, para além do trabalho agrícola, também tinham um moinho na Ribeira das Casas – o moinho do Engenho.

Em frente havia uma outra casa solarenga, em estado bastante degradado, mas também habitada por duas famílias: numa o José Mariano, que viera da Quada, bastante pobre, doente e carregado de filhos e na outra três irmãos já de avançada idade, conhecidos pelos “de  José de Joãozinho”, havendo uma das duas irmãs que já nem de casa saía.

Ao lado do posto de recepção do leite da Sociedade, que se situava em frente à Casa do Espírito Santo de Baixo, vivia o João Fragueiro, agricultor mas também baleeiro e, segundo se dizia, um dos homens mais fortes da Fajã. Era casado com uma filha de Tio José Teodósio e tinham um filho. Cedo emigraram para o Canadá. Do mesmo lado da rua, junto à Máquina e um pouco mais afastada do caminho ficava a casa do Senhor Nunes, que, apesar de idade avançada, ainda trabalhava nos campos e criava gado com ajuda da filha, apesar desta ter uma deficiência no andar. A esposa, bastante doente já pouco saía de casa.

Encerrava este grupo de mais sete agregados cujas almas dos defuntos seriam sufragadas a meados do mês de Novembro, a família de Josezinho Fragueiro, que vivia com a mulher e dois filhos solteiros, a Lucinda e o José, um pouco mais abaixo, em frente à entrada para a Rua Nova. O José era considerado como um dos homens mais trabalhadores da Fajã, dado que, como se dizia, “não parava em ramo verde” pois estava sempre ou a trabalhar nos campos ou acarretar molhos e molhos de erva e de incensos para o gado.

Na esquina do cruzamento da Rua Direita com a Rua Nova ficava a casa que pertencia José do Nascimento, geminada com uma outra, voltada para o lado da empena da Casa do Espírito Santo de Baixo, geralmente desabitada. O José do Nascimento era um homem bondoso, sorridente e que emanava, continuamente, uma simpatia contagiante. Além disso manifestava uma calma e uma tranquilidade pouco usuais e uma espécie de sábia capacidade de resolver conflitos e contendas. Lamentavelmente algumas doenças graves de que padecia dificultavam-lhe os trabalhos agrícolas e, provavelmente por essa razão, abriu um botequim na loja da casa dos de José de Joãozinho. Era ali praticamente o único sítio, onde nas longas noites Inverno os homens se podiam reunir para conversar, discutir e descansar das pesadas e cansativas tarefas diárias, perante a complacência e boa vontade do Nascimento que ali ficava toda a noite a ouvir lamúrias, discussões e vivências, apenas a vender um ou dois copos de anis e a ver, no final da noite, uns míseros centavos na gaveta. Vivia juntamente com a esposa, que o substituía em muitos dos trabalhos do campo, a mãe, duas irmãs e o filho António. Na outra esquina morava o Afonso das Tomásias com a mulher e um dos filhos que havia casado com uma filha de Mateus Felizardo. O Afonso das Tomásias, apesar de avançada idade, ainda era um excelente músico. Era ele que juntamente com o Mancebo cantava antífonas, salmos e impropérios em latim e em canto gregoriano, na Festa do senhor dos Passos. Alem disso era um assíduo colaborador em todas as festas e actividades religiosas, assim como em muitas outras que, na altura, se realizavam na freguesia.

Em frente, numa casa bastante alta, com varandas de ferro e uma loja enorme vivia o Francisco Tomé, casado com uma filha de Tio Manuel Luís, de nome Águeda e com duas filhas: a Maria e a Teresa. Era um homem forte, rude e de modos grosseiros. Era um agricultor abastado, tinha muitas terras, entre as quais um cerrado no Porto ao lado do de meu pai. Como o terreno não tivesse acesso à entrada de carros de bois, pois ficava encurralado entre marouços e atalhos, era meu pai que lhe dava passagem, autorizando-o sempre a transitar com o carro de bois cheio de estrume ou de produtos agrícolas, pese embora os prejuízos que isso causava às couves, batatas doces e abóboras que o meu progenitor ali cultivava. Quando, algum tempo depois, comprou ao Roberto Belchior uma terra no Espigão que sempre “dera caminho” a uma de meu pai, proibiu-nos a passagem.

Do outro lado do caminho e no termo da Rua Direita, paredes-meias com o Afonso das Tomásias morava o João Lourenço, com a mulher, a filha e a mãe. O João Lourenço era um homem fortíssimo, falava muito alto mas tinha uma coração excelente, amigo de todos, sendo-lhe também confiadas responsabilidades na direcção da Sociedade e em outras actividades.

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publicado por picodavigia2 às 12:15





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